Poemas neste tema

Consciência e autoconhecimento

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Nas Artérias da Atenção, o Rumor

Nas artérias da atenção, o rumor
do ínfimo, um tufo transparente
forma-se do que se perde
em atmosfera soberana e leve.
1 054
Martha Medeiros

Martha Medeiros

eu não sou nada disso

eu não sou nada disso
que você está pensando


por isso venha com calma
que eu conheço este tipo


quem quer acertar na mosca
acaba errando de sopa
1 089
Manuel António Pina

Manuel António Pina

Nenhuma coisa

Estou sempre a falar de mim ou não. O meu trabalho
é destruir, aos poucos, tudo o que me lembra.
Reflexão e, ao mesmo tempo, exercício mortal.
Normalmente regresso a casa tarde, doente.

Desta maneira (e doutras -
a carne é triste, hélas, e eu já li tudo)
ocupo o lugar imóvel do poema. Procuro o sentido
(vivo ou morto!) para o liquidar. Mas onde? E como? E quem?

Tudo o que acaba e começa.
O que está entre as pernas, mudando de lugar.
(Que fazer e para quê?)


Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 17 | Assírio & Alvim, 2012
1 361
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

No Côncavo da Sombra Sem Domínio

No côncavo da sombra sem domínio
aderindo ao integral inominado
a inocência flui apagando o seu fluxo
na igualdade do incontido fundo.
1 041
Martha Medeiros

Martha Medeiros

o mistério me fascina

o mistério me fascina
porque não me explica nada
não me dá satisfação
tá pouco ligando
pro meu cárcere


e eu fico imaginando uma resposta
uma invenção
para tirar sua força
qualquer coisa como ser um morcego
que não voa
e é um pássaro
1 144
Martha Medeiros

Martha Medeiros

quanto mais palavras saem de minha boca

quanto mais palavras saem de minha boca
mais me dou conta de que não sou eu que falo
pois o que penso não tem nada a ver
e o que faço já é outro papo
e o que pareço já nem sei contar
1 129
Martha Medeiros

Martha Medeiros

eu quero em mim

eu quero em mim
uma pessoa
não muito assim
ou muito não
eu quero em mim
uma pessoa
geral
poucos muitos
mas muitas coisas
muitas vidas
pessoa assim
nem muito ou pouco
mas pessoa
em tudo e em todas
total
1 004
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Deixar Sem Caminho Até Ao Alcance

Deixar sem caminho até ao alcance
de não querer possuir
à deriva do silêncio
na súbita tranquilidade do vazio
em que a abertura nos abre e nos sustém.
955
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Igualando-Me Ao Fundo Sem Saber

Igualando-me ao fundo sem saber
num acorde último, insondável,
vejo um muro e o nada em que ele se ergue
no excesso de uma evidência inicial.
1 117
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Não Há Termo Sobre

Não há termo sobre
o suporte diáfano.
Só a evidência nua do que sou
sem resistência quase, fluindo.
1 124
Amadeu Amaral

Amadeu Amaral

A um Adolescente

A Júlio Mesquita Filho

III

Basta crer na Beleza. Ama-a no Cosmos, fora
de ti, e ama-a em ti mesmo. É a suprema pesquisa!
Busca-a. E esculpe teu ser, juntando, hora por hora,
à mente que concebe o escopro que realiza.

Perguntas: — Onde o metro, a norma, a arte precisa
para rasgar no bloco a forma que se ignora?
— Quem ao leão deu o ardor com que os desertos pisa?
E quem à águia ensinou a ser do azul senhora?

Tens o instinto voador de quem nasceu com asa.
Ama o que é forte e puro, odeia o que é perverso,
o que é baixo, o que é vil, tudo que anda de rastros.

E põe-te em comunhão, no entusiasmo que abrasa,
com a Beleza, esplendor da Vida e do Universo,
com a poesia, os heróis, os abismos e os astros.

IV

Falta o preceito firme a que a ação se conforme?
Falta uma diretriz certa e definitiva?
— Quem a teve jamais? O bom ideal é informe,
e a Certeza, ai de nós! de todo o encanto o priva.

A torrente que corre e espadana, áurea e viva,
sem parar nem recuar no itinerário enorme,
busca um sonho que além, sob a névoa, se esquiva...
e ai! dela, se desvenda o sonho azul que dorme!

Sê tu como a caudal: foge ao remanso e ao charco.
A água pura é a que ferve e cintila entre abrolhos.
O miasma e o lodaçal moram nas águas mansas.

Avança, seja o sol resplandecente ou parco;
— e se a meta surgir, algum dia a teus olhos,
impele-a para além à proporção que avanças!


Publicado no livro Espumas: versos (1917).

In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.152-153. (Obras de Amadeu Amaral
1 508
Marcus Vinicius Quiroga

Marcus Vinicius Quiroga

O desertor

A questão é que o desertor
nos faz pensar em duas partes:
o mundo de que se deserta
e o outro, para o qual se evade.

Daí o temor, o mal-estar,
a maldição a quem discorda:
às vezes, a lei diz mais alto,
pune o desertor com a morte.

A questão é que ele talvez
pudesse ter razão, portanto
quem permanece não perdoa
quem faz tudo não ser como antes.

Agora que há em nós a dúvida:
«é este mundo razoável?»
Como não culpá-lo por isto?
Como olhar-se no espelho em paz?
763
Marcus Vinicius Quiroga

Marcus Vinicius Quiroga

PERPETUUM MÓBILE DE MAGRITTE

olhar é um exercício de peso
requer músculos para abstrair
e manter o objeto em equilíbrio

o reflexo torna-se o espelho
e move-se ao redor de si mesmo
mecânico, preciso, presto

a ilusão deforma a figura
em jogo de sombra e geometria:
engano à primeira vista

com o tempo vê-se o truque
mas ele faz parte do quadro
como pergunta que, se pintada,

propõe pensar outros ângulos
desfazer o até então familiar
e lugar-comum fora de lugar

recupera o espanto
a efemeridade perpétua
do homem preso na tela

o rosto se movimenta, círculo
de observações da mesma cena:
nenhum objeto é idêntico

o que é magritte ou chirico
também não se sabe, se lado a lado
fingem afinidades e correlatos

em um mundo que se desloca
permanentemente e sem propósito
estranho, quanto mais próximo,

e, se aos olhos surpresa joga
em móvel exercício de peso,
busca a visão sem excesso, seca
859
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Que Eu Digo Vacila, o Que Vejo Treme.

O que eu digo vacila, o que vejo treme.
O que eu não posso dizer ou ver é o que eu digo,
é o que eu vejo, a transparência.
1 272
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Uma palidez de alma

Uma palidez de alma limita o número. Círculo
em formação - e do centro se desprende ile-
gível luz. Com as mãos rasgo o limite, também
eu entro na oca circunferência onde a lira

doente tocou o ocaso.

O silêncio substitui a exuberante vegetação
das vozes. Amortalha o horizote um crepúsculo
de risos. Entre sombras, vagueia ainda o corpo
opaco do mudo mensageiro, cujo regresso saudei

da submarina folhagem.

Na lenta enumeração os meus olhos se fixam.
Do acaso a distante música os atinge; rodam
suspensos da cavidade do rosto. Um jorro

branco irrompe o som,

e da ferida aberta os lábios omitem o verso.



Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 20 | Na regra do jogo, 1982
889
Martha Medeiros

Martha Medeiros

quando dou pra ti

quando dou pra ti
sou mulher


quando dou por mim
solidão
1 199
Martha Medeiros

Martha Medeiros

pois é

pois é
aqui estou
quem vier
verá que sou
o que restou
de uma mulher
1 003
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Azuis os montes que estão longe param.

Azuis os montes que estão longe param.
De eles a mim o vário campo ao vento, à brisa,
Ou verde ou amarelo ou variegado,
Ondula incertamente.
Débil como uma haste de papoila
Me suporta o momento. Nada quero.
Que pesa o escrúpulo do pensamento
Na balança da vida?
Como os campos, e vário, e como eles,
Exterior a mim, me entrego, filho
Ignorado do Caos e da Noite
Às férias em que existo.


31/03/1932
2 375
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

No Centro do Mundo

Oscilante geometria tranquila
presença suficiente do ínfimo e do amplo
No centro do tempo não há tempo

Tranquilidade para ir ao encontro de
Estou dentro estou aberto habito
um limpo rosto de desconhecida frescura

Ramagens dispersão de nuvens indícios ténues

Sou uma linguagem límpida com o vento
Bebo nas múltiplas nascentes
do espaço puro
Acendo-me e apago-me e é a claridade que muda
Tranquilidade da folhagem crepitação de brasas

Durmo silencioso e mais desperto do que nunca
Sou o ar que se dissipa no ar
Como me perdi quem sou as interrogações cessaram

Estou dentro e fora na densidade subtil
Não há aqui imagens extravagantes rumores estranhos
Tudo se desenrola na lúcida amplitude tranquila
As palavras sucedem-se como vagarosas nuvens
O dia é límpido e lê-se como um livro aberto
951
Martha Medeiros

Martha Medeiros

a juíza das minhas loucuras

a juíza das minhas loucuras
é severa demais pra me inocentar


não cobra depoimentos
nem sopra os ferimentos da tortura


simplesmente decreta pra minha culpa
prisão domiciliar
1 197
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ninguém a outro ama, senão que ama

Ninguém a outro ama, senão que ama
O que de si há nele, ou é suposto.
Nada te pese que não te amem. Sentem-te
Quem és, e és estrangeiro.
Cura de ser quem és, amam-te ou nunca.
Firme contigo, sofrerás avaro
De penas.


10/08/1932
2 164
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Jardim Sol

A lucidez é uma música da água
a respiração compreende sem imagens

Estamos dentro do incessante enigma
Somos a claridade do enigma

A facilidade é um rio
e um silêncio animal

Luz fácil
luz feliz
sol sem ruído            jardim
sol

O caminho é uma pausa
o silêncio sem caminho
1 116
Martha Medeiros

Martha Medeiros

bem que podia ser diferente

bem que podia ser diferente
mas não foi e eu fiquei assim
pareço estranha mas comum demais
tão óbvia que surpreende a todos
puríssima que embriaga a voz
distante que se sente a pele
tão boa que nem satisfaz
gritona que se pede bis
voraz que se apaixona fácil
mentira que não engana mais
sei lá o que foi que eu fiz
1 168
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quanto faças, supremamente faze.

Quanto faças, supremamente faz.
Mais vale, se a memória é quanto temos,
Lembrar muito que pouco.
E se o muito no pouco te é possível,
Mais ampla liberdade de lembrança
Te tornará teu dono.


27/02/1932
2 030