Poemas neste tema

Consciência e autoconhecimento

Charles Bukowski

Charles Bukowski

Algumas Pessoas

algumas pessoas nunca enlouquecem.
eu, por exemplo, me deitarei atrás do sofá
por 3 ou 4 dias.
me encontrarão ali.
é Querubim, dirão, e
verterão vinho por minha garganta
esfregarão meu peito
hão de me ungir com óleos.
então, me erguerei com um rugido,
um brado, fúria –
amaldiçoarei a todos e ao universo
enquanto lançarei seus pedaços sobre o
gramado.
me sentirei muito melhor
sentado junto a ovos e torradas,
murmurando uma cançãozinha
de súbito me torno tão adorável e
rosado como
uma baleia empanturrada.
algumas pessoas nunca enlouquecem.
que vidas verdadeiramente horrendas
elas devem levar.
1 322
Fábio Afonso de Almeida

Fábio Afonso de Almeida

Minutos

Espaços Vivenciados amesquinham
Em torno de sólidos egocentrismos
E excrecências pontiagudas de realidade
Desnudam-se ante o revoluteio incessante
Da possibilidade dos atos e fatos,
Mesmo que as circunstâncias pareçam sempre
Uma concreta e coerente parede.

Oh! Minha alma rude e insensata
Sangra-se ante a dureza branca e Iógica
Do limite incontestável deste muro!
Embora sinta a liquidez mágica
E probabilística destes interiores,
Pensa como pode e bate inutilmente
No fatalismo justo das perspectivas,
Enrolando, passo a passo, os minutos
De um tempo próprio e sem tempo.

901
Adélia Prado

Adélia Prado

Poema Com Absorvências No Totalmente Perplexas de Guimarães Rosa

Ah, pois, no conforme miro e vejo,
o por dentro de mim,
segundo o consentir
dos desarrazoados meus pensares,
é o brabo cavalo em as ventas arfando,
se querendo ir,
permanecido apenas no ajuste das leis do bem viver
comum,
por causa de uma total garantia se faltando em quem
m’as dê.
Ad’ formas que em tréguas assisto e assino
e o todo exterior desta minha pessoa recomponho.
Porém chega o só sinal mais leve
de que aquilo ou isso é verdadeiro
pra a reta eu alimpar com o meu brabo cavalo.
Ara! que eu não nasci pra permanência desta duvidação,
mas só para o ser eu mesmo, o de todo mundo desigual,
afirmador e consequente, Riobaldo, o Tatarana.
Ixi!
1 381
Herberto Helder

Herberto Helder

Lugar - Vii

Pequenas estrelas que mudam de cor, frias
pêras ao alto
de raízes queimadas, ainda doces, profundamente
cor de turquesa — eu tudo sei.
Como a época leve que entra,
como as crianças que despertam e sorriem
lapidarmente, e morrem
sem que se note, na própria clareira viva
do seu sorriso.
A onda que envolve os peixes, e dos peixes
absorve o rápido estremecimento — eu tudo sei.
Porque mudo, queimo-me.
Porque as ondas me batem na boca.

Pequenas estrelas passadas de cor para cor, pêras
que rolam de um degrau
para outro degrau de amadurecimento. Enquanto
estou deitado sob o céu brutal, e a noite
avança terrivelmente plácida.
E por baixo a terra vive, abstracta
e espalhada.
Quero dizer: eu tudo sei.
Junto aos ossos em gelo bate uma veia
que sobe, quente; que em silêncio ascende
e bate na língua: — Eu amo o pão que amadurece
no fogo.
Amo a ideia que a morte alimenta
agora na noite. Cinza sobre pepitas.
O açafrão nas pedras encarnadas.

Cerro os olhos para ouvir durante toda a noite,
e todo o mês, e recomeçando no interior
da minha vida—o sangue.
Amarga e difusa loucura do sangue
cercado pelo mundo — eu tudo sei.
Humildade e esgotamento e, quando
a boca estremece, tarefa e depois solidão.
Sei como se pensa obscuramente.
Vejo que a luz se encurva nos campos de urtigas,
e a mão se encurva na luz.
A mão que retém a faca e desliza
sobre a mesa ao encontro do pão maduro.
Porque eu amo a fome.

E eis que todo esse puro tempo passado
se levanta, enquanto respiro debaixo da luz.
Com a dor dentro, levanta-se; com
um forte delírio e a luz imensa — e eu sei.
Ouçam: é neste país onde cheiro
um ramo de sal, a terra pútrida.
Amo a penumbra de uma cara, a brancura
parada de um sorriso no meio da água
profundamente esquecida — sei
tudo, tudo.
Que nada existe e as coisas nascem no tocar
de minha mão inundada.
E é preciso esperar enquanto se morre,
e fica o campo sob o céu que se queima
preciosamente.
Tenho agora a idade — e sei tudo.
Digo: minha alegria é tenebrosa.

E eu desejaria levantar-me levemente
sobre as paisagens que se enchem de chuva
apaixonada.
Desejaria estar em cima, no meio da alegria,
e abrir os dedos tão devagar que ninguém sentisse
a melancolia da minha inocência.
Tanto desejaria ser destruído
por um lento milagre interior.

Cegar com o rosto contra um ramo abrupto
de relâmpagos.
Eu sei. Quero dizer: eu amo
essa morte no meio da luz, entre crisálidas e gotas,
à noite, de dia —
quando o mês se extingue num supremo amadurecimento.
1 067
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

No Deserto

Metade de mim cavalo de mim mesma eu te domino
Eu te debelo com espora e rédea

Para que não te percas nas cidades mortas
Para que não te percas
Nem nos comércios de Babilónia
Nem nos ritos sangrentos de Nínive

Eu aponto o teu nariz para o deserto limpo
Para o perfume limpo do deserto
Para a sua solidão de extremo a extremo

Por isso te debelo te combato te domino
E o freio te corta a espora te fere a rédea te retém

Para poder soltar-te livre no deserto
Onde não somos nós dois mas só um mesmo
No deserto limpo com seu perfume de astros
Na grande claridade limpa do deserto
No espaço interior de cada poema
Luz e fogo perdidos mas tão perto
Onde não somos nós dois mas só um mesmo
1 580
Adélia Prado

Adélia Prado

A Invenção de Um Modo

Entre paciência e fama quero as duas,
pra envelhecer vergada de motivos.
Imito o andar das velhas de cadeiras duras
e se me surpreendem, explico cheia de verdade:
tô ensaiando. Ninguém acredita
e eu ganho uma hora de juventude.
Quis fazer uma saia longa pra ficar em casa,
a menina disse: ‘Ora, isso é pras mulheres de São Paulo.’
Fico entre montanhas,
entre guarda e vã,
entre branco e branco,
lentes pra proteger de reverberações.
Explicação é para o corpo do morto,
de sua alma eu sei.
Estátua na Igreja e Praça
quero extremada as duas.
Por isso é que eu prevarico e me apanham chorando,
vendo televisão,
ou tirando sorte com quem vou casar.
Porque tudo que invento já foi dito
nos dois livros que eu li:
as escrituras de Deus,
as escrituras de João.
Tudo é Bíblias. Tudo é Grande Sertão.
1 292
Éric Ponty

Éric Ponty

Narcissus

O que somos afinal sobre o sol que a pino,
encerra o silêncio de nossas esperanças,
que encantados com o brilho lunar nos refaz.

O que somos afinal sobre a lua que cheia,
floresce nossos ensejos, e frutifica nossos mitos,
que desiludidos com o solar ofuscamento nos reluz.

Lúgrebe como é lúgrebe o canto que nasce
que jorra límpida nas outras fontes d’água,
silêncios que encerram nossa imagem
de um refletido mito surdo.

Irrigada voz que descanta o pássaro,
que com asas de brancas nuvens
se interroga sobre a matéria tempo,
fúnebre como o paladar do sino a obrar.

Olhos de prata, murmúrios de ouro,
interrogações que se abrumaram,
rudes questionamentos que não se esvam,.
acumulados e dissimulados
na consciência incerta.

Sol e Lua dentro da noite adentro do dia,
dúbia conversa entre astros que não ponderam
se circunferenciam numa rota imutável,
rotineira como o tempo irrefutável.

Despir, rubro significado altivo,
máscara que não tateia simulacro inteira,
Lívia pele, tenra mentira fluida n’água,
paixão que se encadeia, mas não queima,
límpido abismo simulado de realidade.

Entrecortadas vozes que se dissecam,
o vento, o que diz o vento ao vento
que ventila a própria sentença
de outros apagados tempos invernais?

Sim, a paixão é rubra lavra de vulcão,
espessa e fluida e sufocada nuvem,
que dilui a consciência e o logos.

Resistir na verde margem relva,
com o retrato entrecortado n’água,
tingido pelas toscas luzes do prisma,
para que o branco não seja preto,
para que o preto não seja branco,
simulada visão do natural tempo,
arquitetado.

O que somos, àquilo que nós fomos,
dentro de poucos instantes, iremos,
a questão inquestionável que aglutina,
súplice e suplicado que ateia,
ruge o instante dentro de um infinito.

Driblar uma consciência outra, gesto possível,
e a si mesmo, improvável ato que desfigura,
como a cera de uma face resplandecente,
que desfalece na contra luz do tempo.

Um eclipse é uma imagem de pena,
rápido encontro, infindável espera,
que se perde como amantes por acaso,
que desfalecem após o orgasmo.

Admira-se trágica cena de um enamorado,
que enluarado pela límpida água refletida,
soltos suspiros como se outra natureza,
sua máscara fosse esculpida e terminada.

Rogado por tal imagem quer ser altivo,
buscar dentro de si próprio outros gemidos,
que a faça entreter de seus alaridos,
dissimulado como está de si na margem.

Perdido, quer encontrar um pedido, só suspiro,
melodiar, uma canção suave, só grunhido,
entreter ao outro, e a si mesmo, só que entretido.

Desfazer-se de sua própria figura espectral,
sem tal companheira, voar altivo no azul céu,
pintando o que lhe resta da augusta miséria.

O suplicante exaurido de sua ébria consciência,
vê os reflexos na margem cobertos de rubro véu,
os raios de circunferência prata, ledo engano,
são frios como a noite invernal, que o vento retrata,
é tão só esta paixão que exaure e assusta
quem se observa refletido, a si mesmo perdido.

As brancas mãos, os braços abraçados que aguardam
a possibilidade de ali ainda haver um ninho doirado,
que agassa-lhe o pássaro de sua frígida tempestade,
antes que se finde numa escura nuvem do nada.

Altiva é sua boca, carnudos lábios marmóreos,
suspiros e gemidos é feito o martírio que dali, .
parte e retorna num outro segundo de infinita perda,
na paisagem onde um branco mancebo se retraí.

O corpo é branca estátua que não se move mais,
inerte como a mais dura esfinge indecifrável,
corrói o interior sobre o sol angustiante e a pino,
cabelos doirados que não mais doiram a enseada,
só a brisa lhe sussurra, o que antes lhe encantava,
triste é a sua matéria, ledo seu simulacro invólucro.

O que somos sobre uma margem de uma relva,
que nos desperta com a limpida água que flui,
é a ébria forma de uma bruma suplicada,
que se perfez, e se desfaz n’água de um lago.

984
Herberto Helder

Herberto Helder

Texto 9

Porque também “isso” acontece dizer-se que se lavra
a cantaria ou o ar ou mesmo
“espaços de luminosidade” a negra dança lavra-se
sobre
a ficção unitária do mundo é um modo demorado
de ver “uma porta que se abre” afinal subitamente
de uma certa ordem para uma ordem certa
pela “revelação” fulgura aqui a sabedoria do “tacto”
dedos a ler por linhas quentes
e pensa-se que se há-de encontrar “um nó”
o fulcro dessa palpitação a correria dos “sinais”
para uma “pauta” através de “temperaturas”
surgem ideias como “atmosferas” ou “climas”
regista-se entretanto que é uma “transformação do ritmo”
“rosto”
alguma coisa que procura equilibrar-se acima das águas
que requer “a sua zona” além das neblinas e vapores
uma “escrita” com a glória própria cometida contra
ameaças climáticas distorções de leitura ligas suspeitas
de matéria “levezas e pesos” precipitados irreferenciáveis volúveis
quem é? que é? que limite estabelece ao concreto?
que desencadeamento solicita ao meio das forças?
o rosto dirigido não já para o seu próprio “reflexo
irradiante” mas a “absorção” do poder difundido
para um novo impulso centrífugo
“diálogo daqui para lá” cerrada conversa
entre forma e formas troca sem fendas comunicação
ininterrupta
o eco da pancada é a outra pancada e uma pancada única
sustém a tensão do som uma “permanência”
dos sentidos voltados “entre si” para o que são
em si mesmos “sentidos de algo irrefutável”
a forma enfim criada pelo “gosto de ser” e para
o “gosto de que seja”
que a vergastem luzes e serão as “suas” luzes
gravita dentro e fora do que é o seu
“movimento interior” e “exterior movimento” ao longo
da “resposta” quando tudo pergunta “onde?”
decerto se tece o que sobre ela fervilha
de “temporal”
fios partidos ondas quebradas a chama que se desliga
da obra quando a mão se levanta da prata
mas ficará “gravação” do tumulto na geometria ou severo
“número” em tudo o que atravessa a desordem
das coisas geralmente “todas elas”
555
Herberto Helder

Herberto Helder

Teoria Sentada - Ii

Alguém parte uma laranja em silêncio, à entrada
de noites fabulosas.
Mergulha os polegares até onde a laranja
pensa velozmente, e se desenvolve, e aniquila, e depois
renasce. Alguém descasca uma pêra, come
um bago de uva, devota-se
aos frutos. E eu faço uma canção arguta
para entender.
Inclino-me sobre as mãos ocupadas, as bocas,
as linguas que devoram pela atenção dentro.
Eu queria saber como se acrescenta assim
a fábula das noites. Como o silêncio
se engrandece, ou se transforma com as coisas. Escrevo
uma canção para ser inteligente dos frutos
na língua, por canais subtis, até
uma emoção escura.

Porque o amor também recolhe as cascas
e o mover dos dedos
e a suspensão da boca sobre o gosto
confuso. Também o amor se coloca às portas
das noites ferozes
e procura entender como elas imaginam seu
poder estrangeiro.
Aniquilar os frutos para saber, contra
a paixão do gosto, que a terra trabalha a sua
solidão—é devotar-se,
esgotar a amada, para ver como o amor
trabalha na sua loucura.

Uma canção de agora dirá que as noites
esmagam
o coração. Dirá que o amor aproxima
a eternidade, ou que o gosto
revela os ritmos diuturnos, os segredos
da escuridão.
Porque é com nomes que alguém sabe
onde estar um corpo
por uma ideia, onde um pensamento
faz a vez da língua.
— E com as vozes que o silêncio ganha.
1 193
Herberto Helder

Herberto Helder

Teoria Sentada - Iii

A minha idade é assim —verde, sentada.
Tocando para baixo as raízes da eternidade.
Um grande número de meses sem muitas saídas,
soando
estreitos sinos, mudando em cores mergulhadas.
A minha idade espera, enquanto abre
os seus candeeiros. Idade
de uma voracidade masculina.
Cega.
Parada.
Algumas mãos fixam-se à sua volta.

Idade que ainda canta com a boca
dobrada. As semanas caminham para diante
comum espírito dentro.
Mergulham na sua solidão, e aparecem
batendo contra a luz.
E uma idade com sangue prendendo
as folhas. Terrível. Mexendo
no lugar do silêncio.
Idade sem amor bloqueada pelo êxtase
do tempo. Fria.
Com a cor imensa de um símbolo.

Eu trabalho nas luzes antigas, em frente
das ondas da noite. Bato a pedra
dentro do meu coração. Penso, ameaçado pela morte.
E uma raiz séca, canta-se
no calor. É uma idade cor da salsa.
Amarga. Imagino
dentro de mim. Trabalho de encontro à noite.
Procuro uma imagem dura.

Estou sentado, e falo da ironia de onde
uma rosa se levanta pelo ar.
A idade é uma vileza espalhada
no léxico. Em sua densidade quebram-se
os dedos. Está sentada.
Os poentes ciclistas passam sem barulho.
Passam animais de púrpura.
Passam pedregulhos de treva.
É para a frente que as águas escorregam.

Idade que a candura da vida sufoca,
idade agachada, atenta
à sua ciência. Que imita por um lado
as nações celestes. Que imita
por um lado a terra
quente.
Trabalhando, nua, diante da noite.
622
Herberto Helder

Herberto Helder

Teoria Sentada - Iv

Quando já não sei pensar no alto de irrespiráveis irrespiráveis
montes, e ouço muitas vozes por dentro,
e as estrelas se desdobram à volta, então.
E já não sei como posso imaginar por baixo
das traves da cabeça por baixo
das traves rijas do céu, quando então.
Não sei como não posso fechar em duas conchas
essa pérola, essa dureza
preciosa e feroz
envolta
pelo frio, quando já não sei pensar.
Irrespiravelmente como então.
Quando já nada sei menos ser o mais puro
dos cantores que pararam diante dos montes direitos
abrasados. Dos que se calaram. Dos
cantores.
O mais puro dos cantores fulminados.
Quando já não sei falar, e acabo.
Quando então irrespiravelmente puro
por este lado, por aquele, por outro mais novo
lado. Quando digo: não sei.
E os montes compridos então para cima e eu
em baixo irrespiravelmente digo: não sei como:
pensar, respirar, dizer, saber.
Então irrespiravelmente quando puro e não
sei. E acabo.
1 052
Herberto Helder

Herberto Helder

Texto 8

Nenhuma atenção se esqueceu de me cravar os dedos
na massa malévola e fervente e levemente doce
de um grande “vocabulário”
até que apenas quis ter as mãos expostas ao ar
e à minha frente o deserto pétreo das cacofonias
uma pobre selvática e eriçada “linguagem”
uma crua “exposição de designações”
brutais sem vícios de beleza ou graça
ou ambiguidade
chegar à “leitura explícita” de mim mesmo “texto”
sem marés “colocado” definitivamente
sempre em mim se avizinhou o “excesso vocal”
da “vocação silenciosa”
sempre a “movimentação errática” se aproximou
de um “sono extenso” e logo entendi
mal se fez para os meus olhos a “dança imóvel”
o acesso à “paragem fremente” foi-me dado
como ciência infusa
o palco apenas sem cenários a personagem sem gestos
a fala “não aposta nem suposta”
isto só bastaria como “acto”
de cima e de baixo uma luz “indiscutível”
bloco visão fulminante do “sentido” de tudo
a impossibilidade de “rotações e translações”
precipitação mortal e ainda voluta faiscante
para o corpo chegar-se o arco de si próprio
tangível apertado completo
contudo estão sempre a virar-me para a “paisagem”
dizem “vê as colinas a andarem em todos os espaços
ao mesmo tempo”
levam-me assim à audácia dos “espectáculos”
desviam de mim “o centro” essa paixão da unidade
“o compacto discurso” das trevas ou da luz
“gradações” sibilam eles contentes da subtileza
mas eu estou para além disso unido às vísceras
pelo seu próprio fogo
não me enxameiem a cabeça com as aspas coruscantes
uma nostalgia dourada do “dicionário” que eu podia
trava-se um pouco “a marcha”
mas vou para um “silêncio que treme”
“o violino sobre a mesa” a poeira que vem
“produzir a eternidade”
depois a alegria total de uma tentação dos dedos
parados
franquear a violência luminosa
suspensa
qualquer maneira de intervir na “música”
subindo por dentro a “temperatura” até os termómetros
caírem por eles abaixo
e a “explosão” preparada sorver-se implosivamente
e para sempre se restabelecer a “linha viva”
que une ao ar a labareda
um discurso sem palavras atravessado pela febre
fria
de um saber extremo “irredutível”
588
Eolo Yberê Líbera

Eolo Yberê Líbera

Certezas

Não sei os mistérios, as mãos, as vidraças;
não sei a hora nem o dia do amor
que em vida é pressa, é vago, é frágil.
Não sei as heranças - o que existe
depois da última hora
do último beijo e da última espera
atrás da porta.
Não sei os meus passos e nem as esquinas.
Não sei se o que encaro é pura rotina
ou etapa que se vence, por mero acaso.
Não sei as vidas que me cercam
e que aguardam atentas, meu gesto
minhas palavras estéreis e amenas
- como algumas mulheres
que cortam a paisagem sem deixar marca.

Não sei o certo e o errado
o que fazer diante do impasse
na dúvida, não sei o resto
na certeza, não sei a meta.
Só sei mesmo que todo tempo é curto
e que meu chão é este :
feito de pedra e pluma
em barro e nuvem e irremediavelmente, meu.

973
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Ariane Em Naxos

Tu Teseu que abandonadas amadas
Junto de um mar inteiramente azul
Invocavam deixadas
No deserto fulgor de Junho e Sul

Junto de um mar azul de rochas negras
Porém Dionysos sacudiu
Seus cabelos azuis sobre os rochedos
Dionysos pantera surgiu

E pelo Deus tocado renasceu
Todo o fulgor de antigas primaveras
Onde serei ou fui por fim ser eu
Em ti que dilaceras
1 329
Adélia Prado

Adélia Prado

Todos Fazem Um Poema a Carlos Drummond de Andrade

Enquanto punha o vestido azul com margaridas amarelas
e esticava os cabelos para trás, a mulher falou alto:
é isto, eu tenho inveja de Carlos Drummond de Andrade
apesar de nossas extraordinárias semelhanças.
E decifrou o incômodo do seu existir junto com o dele.
Vamos ambos à enciclopédia, seguiu dizendo, à cata
de constituição, e paramos em “clematite, flor lilás
de ingênuo desenho que ama desabrochar nas sebes
[europeias”.
Temos terrores noturnos, diurnos desesperos
e dias seguidos onde nada acontece.
Comemos, bebemos e diante do nosso nome impresso
temos nenhum orgulho, porque esta lembrança não deixa:
uma vez, na Avenida Afonso Pena, um bêbado gritando:
‘Todo mundo aqui é um saco de tripas’.
Carlos é gauche. A mim, várias vezes, disseram:
‘Não sabes ler a placa? É CONTRAMÃO’.
Um dia fizemos um verso tão perfeito
que as pessoas começaram a rir. No entanto persiste,
a partir de mim, a raiva insopitada
quando citam seu nome, lhe dedicam poemas.
Desta maneira prezo meu caderno de versos,
que é uma pergunta só, nem ao menos original:
‘Por que não nasci eu um simples vaga-lume?’
Só à ponta de fina faca, o quisto da minha inveja,
como aos mamões maduros se tiram os olhos podres.
Eu sou poeta? Eu sou?
Qualquer resposta verdadeira
e poderei amá-lo.
1 510
Adélia Prado

Adélia Prado

Uma Forma Para Mim

Hoje acordei normal, como antes de fazer treze anos.
Fui cedo catar coisas no lixo, cavucar abacaxis apodrecidos,
atrás de um veio são, como quem cata ouro.
Que tem isso tudo a ver com santidade?
Mas se não tiver me morro,
porque não entendo outro ar menos grosso
que este onde meu nariz se apoia.
Os santos me chamam com assobios vertiginosos,
se penso que vou é porque é maior meu olho que a barriga;
dou um passo de medroso, outro de temerário.
Com dois passos e meio fico doido e começo a voltar.
Sei o que não é para mim. O que é meu não sei direito
[ainda.
Uma vez, quando eu tinha quatro anos,
achei um caco de vidro no monturo.
Lavei, enxuguei, guardei bem guardado
e fui comer com vontade, ficar obediente, emprestar
[minhas coisas,
por causa do caco, porque tinha ele, porque eu podia
quando quisesse pôr ele contra o sol e aproveitar seu
[reflexo.
Ele era laranjado chitadinho de branco. Assim eu sei,
se assim puder, farei. Cada qual é diverso, descobri.
Por isso e porque está escrito
que o Espírito de Deus nos toma sem matar-nos
é que eu digo como quem reza: Sô Antônio Vítor morreu.
A tarde do seu enterro foi um largo tranquilo de se dizer:
hoje está tudo como antigamente era bom.
Os cereais somam seus cheiros — oh! que perfume doce —
com rapadura e querosene — oh! que armazéns humanos.
Os mosquitos como pessoas da casa admitidos.
A poeira também.
Quando eu fico normal o reino do céu não dá os
[sobressaltos,
dá só gosto e alegria.
1 277
Eleonora Marsiaj

Eleonora Marsiaj

Haicai

agitação da mente

Na água turva
movimento incessante
Limpidez enfim

primavera

Pingos cantantes
Tapete azulado
Flor d’ipê-roxo

1 148
Elisa Lucinda

Elisa Lucinda

A Esse Papo Indo-lente

Quando me perguntam depois de
"Ó que lindos olhos"...
Esses olhos são seus?"
Me sinto como se perguntassem
se o sol é rei mesmo
ou uma espécie de lâmpada de mil
Me sinto constrangida como se tivesse
sido possível a alguém alguma vez
confundir lata de goiabada com fruta de pé.
me sinto velha virada há milênios
Aniversariada por várias civilizações e nada esqueci.
Me sinto madura madeira escaldada
pra lá destas idades do agora.
Sou dos longínquos tempos de goiabeiras
mangueiras, formigas cabeçudas
tanajuras de umidade, baratas cascudas
e canaviais nos quintais
Sou ainda mais
na magia do que havia nesses anais,
sou do tempo em que era bom
nascer com olhos de esmeralda
e a artista a ser cumprimentada
era a mãe-natureza
pela proeza de olhos ser olhos
e lente ser lente.
Sou do tempo em que eu era
toda realeza
e com certeza não se compravam olhos
em shoppings, meus deus.
Sou do tempo em que meus olhos
Só podiam ser meus.

1 518
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Iii. Ausentes São Os Deuses Mas Presidem

Ausentes são os deuses mas presidem.
Nós habitamos nessa
Transparência ambígua.

Seu pensamento emerge quando tudo
De súbito se torna
Solenemente exacto.

O seu olhar ensina o nosso olhar:
Nossa atenção ao mundo
É o culto que pedem.
1 289
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

V. Faz da Tua Vida Em Frente À Luz

Faz da tua vida em frente à luz
Um lúcido terraço exacto e branco,
Docemente cortado
Pelo rio das noites.

Alheio o passo em tão perdida estrada
Vive, sem seres ele, o teu destino.
Inflexível assiste
À tua própria ausência.
1 161
Eliane Pantoja Vaidya

Eliane Pantoja Vaidya

Ora, ouvi romanos

Ora, ouvi romanos

se quiserdes

mas há muito me defini

sou gaulês.

721
Paulo Henriques Britto

Paulo Henriques Britto

SETE SONETOS SIMÉTRICOS II

Tão limitado, estar aqui e agora,
dentro de si, sem poder ir embora,

dentro de um espaço mínimo que mal
se consegue explorar, esse minúsculo
império sem território, Macau

sempre à mercê do latejar de um músculo.
Ame-o ou deixe-o? Sim: porém amar
por falta de opção (a outra é o asco).
Que além das suas bordas há um mar

infenso a toda nau exploratória,
imune mesmo ao mais ousado Vasco.
Porque nenhum descobridor na história

(e algum tentou?) jamais se desprendeu
do cais úmido e ínfimo do eu.
973
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Dual

Dois cavalos a par eu conduzia
Não me guiava a mim mas meus cavalos

E no país de espanto e de tumulto
Em mim se desuniu o que eu unia
1 212
Paulo Henriques Britto

Paulo Henriques Britto

NENHUMA ARTE - IV

Uma vida inteira passada
dentro dos confins de um corpo
junto ao qual vem atrelada
a consciência, peso morto
que acusa o golpe sofrido
e cochicha ao pé do ouvido
depois que o fato se deu:
nada que te pertence é teu.

Único antídoto do nada
entre as peçonhas da vida,
coisa por sorte encontrada
e por desgraça perdida,
amor lega, em sua ausência,
um lembrete à consciência
(se ela por acaso esqueceu):
nada que te pertence é teu.

Princípio? Tudo é contingente.
Fim? Toda luz termina em breu.
Sentido? Quem quiser que invente,
quem não quiser se contente
com este presente besta
que, quando acabou a festa,
a vida avara lhe deu:
nada que te pertence é teu.
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