Poemas neste tema
Consciência e autoconhecimento
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Super-Homem
Onde está ele o super-homem? Onde?
— Encontrei-o na rua ia sozinho
Não via a dor nem a pedra nem o vento
Sua loucura e sua irrealidade
Lhe serviam de espelho e de alimento
— Encontrei-o na rua ia sozinho
Não via a dor nem a pedra nem o vento
Sua loucura e sua irrealidade
Lhe serviam de espelho e de alimento
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1
Vitor Casimiro
Descaminhos
Segui um caminho
Com milhões de idéias na cabeça
Hoje, sigo ainda, uma idéia
Com milhões de caminhos
Pela frente
Com milhões de idéias na cabeça
Hoje, sigo ainda, uma idéia
Com milhões de caminhos
Pela frente
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1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Arte Poética Ii
A poesia não me pede propriamente uma especialização pois a sua arte é uma arte do ser. Também não é tempo ou trabalho o que a poesia me pede. Nem me pede uma ciência nem uma estética nem uma teoria. Pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar. Pede-me uma intransigência sem lacuna. Pede-me que arranque da minha vida que se quebra, gasta, corrompe e dilui uma túnica sem costura. Pede-me que viva atenta como uma antena, pede-me que viva sempre, que nunca me esqueça. Pede-me uma obstinação sem tréguas, densa e compacta.
Pois a poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o poema não fala de uma vida ideal mas sim de uma vida concreta: ângulo da janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume da tília e do orégão.
É esta relação com o universo que define o poema como poema, como obra de criação poética. Quando há apenas relação com uma matéria há apenas artesanato.
É o artesanato que pede especialização, ciência, trabalho, tempo e uma estética. Todo o poeta, todo o artista é artesão de uma linguagem. Mas o artesanato das artes poéticas não nasce de si mesmo, isto é, da relação com uma matéria, como nas artes artesanais. O artesanato das artes poéticas nasce da própria poesia à qual está consubstancialmente unido. Se um poeta diz «obscuro», «amplo», «barco», «pedra» é porque estas palavras nomeiam a sua visão do mundo, a sua ligação com as coisas. Não foram palavras escolhidas esteticamente pela sua beleza, foram escolhidas pela sua realidade, pela sua necessidade, pelo seu poder poético de estabelecer uma aliança. E é da obstinação sem tréguas que a poesia exige que nasce o «obstinado rigor» do poema. O verso é denso, tenso como um arco, exactamente dito, porque os dias foram densos, tensos como arcos, exactamente vividos. O equilíbrio das palavras entre si é o equilíbrio dos momentos entre si.
E no quadro sensível do poema vejo para onde vou, reconheço o meu caminho, o meu reino, a minha vida.
Arte Poética II foi publicado pela primeira vez em 21 de Janeiro de 1963. Seguidamente a Arte Poética I e II foram publicadas com alterações em Geografia, 1967
Pois a poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o poema não fala de uma vida ideal mas sim de uma vida concreta: ângulo da janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume da tília e do orégão.
É esta relação com o universo que define o poema como poema, como obra de criação poética. Quando há apenas relação com uma matéria há apenas artesanato.
É o artesanato que pede especialização, ciência, trabalho, tempo e uma estética. Todo o poeta, todo o artista é artesão de uma linguagem. Mas o artesanato das artes poéticas não nasce de si mesmo, isto é, da relação com uma matéria, como nas artes artesanais. O artesanato das artes poéticas nasce da própria poesia à qual está consubstancialmente unido. Se um poeta diz «obscuro», «amplo», «barco», «pedra» é porque estas palavras nomeiam a sua visão do mundo, a sua ligação com as coisas. Não foram palavras escolhidas esteticamente pela sua beleza, foram escolhidas pela sua realidade, pela sua necessidade, pelo seu poder poético de estabelecer uma aliança. E é da obstinação sem tréguas que a poesia exige que nasce o «obstinado rigor» do poema. O verso é denso, tenso como um arco, exactamente dito, porque os dias foram densos, tensos como arcos, exactamente vividos. O equilíbrio das palavras entre si é o equilíbrio dos momentos entre si.
E no quadro sensível do poema vejo para onde vou, reconheço o meu caminho, o meu reino, a minha vida.
Arte Poética II foi publicado pela primeira vez em 21 de Janeiro de 1963. Seguidamente a Arte Poética I e II foram publicadas com alterações em Geografia, 1967
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Silva Ramos
Nós
Eu e tu: a existência repartida
Por duas almas; duas almas numa
Só existência. Tu e eu: a vida
De duas vidas que uma só resuma.
Vida de dois, em cada um vivida,
Vida de um só vivida em dois; em suma:
A essência unida à essência, sem que alguma
Perca o ser una, sendo à outra unida.
Duplo egoísmo altruísta, a cujo enleio
No próprio coração cada qual sente
A chama que em si nutre o incêndio alheio.
Ó mistério do amor onipotente,
Que eternamente eu viva no teu seio,
E vivas no meu seio eternamente.
Por duas almas; duas almas numa
Só existência. Tu e eu: a vida
De duas vidas que uma só resuma.
Vida de dois, em cada um vivida,
Vida de um só vivida em dois; em suma:
A essência unida à essência, sem que alguma
Perca o ser una, sendo à outra unida.
Duplo egoísmo altruísta, a cujo enleio
No próprio coração cada qual sente
A chama que em si nutre o incêndio alheio.
Ó mistério do amor onipotente,
Que eternamente eu viva no teu seio,
E vivas no meu seio eternamente.
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Sophia de Mello Breyner Andresen
Dia
Meu rosto se mistura com o dia
Nuvens telhados ramagens e Dezembro
Apaixonada estou dentro do tempo
Que me abriga com canto e com imagens
Tão abrigada estou dentro da hora
Que nem lamento já a tarde antiga
Tudo se torna presente e se demora
Será que o dia me pede que eu o diga?
Nuvens telhados ramagens e Dezembro
Apaixonada estou dentro do tempo
Que me abriga com canto e com imagens
Tão abrigada estou dentro da hora
Que nem lamento já a tarde antiga
Tudo se torna presente e se demora
Será que o dia me pede que eu o diga?
1 862
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Albano Dias Martins
O sonho
da lâmina: ser
ao mesmo tempo a bainha.
in:Com
as flores do salgueiro(1995)
ao mesmo tempo a bainha.
in:Com
as flores do salgueiro(1995)
1 212
1
Tenreiro Aranha
Soneto II
Passarinho que logras docemente
Os prazeres da amável inocência,
Livre de que a culpada consciência
Te aflija, como aflige ao delinqüente;
Fácil sustento e sempre mui decente
Vestido te fornece a Providência;
Sem futuros prever, tua existência
É feliz limitando-se ao presente.
Não assim, ai de mim! Porque sofrendo
A fome, a sede, o frio, a enfermidade
Sinto também do crime o peso horrendo...
Dos homens me rodeia a iniqüidade
A calúnia me oprime, e, ao fim tremendo
Me assusta uma espantosa eternidade.
Os prazeres da amável inocência,
Livre de que a culpada consciência
Te aflija, como aflige ao delinqüente;
Fácil sustento e sempre mui decente
Vestido te fornece a Providência;
Sem futuros prever, tua existência
É feliz limitando-se ao presente.
Não assim, ai de mim! Porque sofrendo
A fome, a sede, o frio, a enfermidade
Sinto também do crime o peso horrendo...
Dos homens me rodeia a iniqüidade
A calúnia me oprime, e, ao fim tremendo
Me assusta uma espantosa eternidade.
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1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Inventei a Dança Para Me Disfarçar
Inventei a dança para me disfarçar.
Ébria de solidão eu quis viver.
E cobri de gestos a nudez da minha alma
Porque eu era semelhante às paisagens esperando
E ninguém me podia entender.
Ébria de solidão eu quis viver.
E cobri de gestos a nudez da minha alma
Porque eu era semelhante às paisagens esperando
E ninguém me podia entender.
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Roberval Pereyr
Nenhum e Seis
sou da noite minhas unhas crescem
na noite, inventei um destino
na noite:
uma banda do ser interditada
a outra na festa,
às vezers pergunto: quem sou?
trago manchas de enigmas na pele,
dou um salto mortal dentro de mim
e não sei se escapo:
pois há os que caem.
há os que não levantam.
há os que perdem em complicado jogo
a terra natal.
a minha terra era eu mesmo:
hoje, sou uma dívida.
a quem me hei de pagar?
na noite, inventei um destino
na noite:
uma banda do ser interditada
a outra na festa,
às vezers pergunto: quem sou?
trago manchas de enigmas na pele,
dou um salto mortal dentro de mim
e não sei se escapo:
pois há os que caem.
há os que não levantam.
há os que perdem em complicado jogo
a terra natal.
a minha terra era eu mesmo:
hoje, sou uma dívida.
a quem me hei de pagar?
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1
Maria Inês Gambogi
Com tantos curtos casos
Com tantos curtos casos
Com dois amores admiráveis em mim
Com a fala sem muitos segundos
Com a morte absorta no viver
Com as feições todas
Com aquele ar de tudo às mãos
Bem visto,
sem revelação sem expiação
vou dando sem sobra sem sombra insólita
sem amor estranho
Cato sem vida conhecida o que não escapou
Cato sem amor conhecido
o que envelhecido, caiu
Cato atrozmente as aparências caídas
quedo como quem deve
como quem não oferece
sua humanidade a desejos em disputa
Sem amor conhecido
no mais sem ninguém em totalidade
Em atenção
qualquer coisa que cai eu sei
Silente vou indo como quem não vai
Inindentificada, surpreendo sem deslustre
os vãos devidos a este mundo de pessoas
Quero sem preito
Quero sem o amor conhecido por tanta gente
Descodifico e não me encabulo
Vivenciada em novidades
não forço o coração a repetidas forças
vou sendo o que menos se esperava
vou viva
deixando concretas as advinhações de ser.
Com dois amores admiráveis em mim
Com a fala sem muitos segundos
Com a morte absorta no viver
Com as feições todas
Com aquele ar de tudo às mãos
Bem visto,
sem revelação sem expiação
vou dando sem sobra sem sombra insólita
sem amor estranho
Cato sem vida conhecida o que não escapou
Cato sem amor conhecido
o que envelhecido, caiu
Cato atrozmente as aparências caídas
quedo como quem deve
como quem não oferece
sua humanidade a desejos em disputa
Sem amor conhecido
no mais sem ninguém em totalidade
Em atenção
qualquer coisa que cai eu sei
Silente vou indo como quem não vai
Inindentificada, surpreendo sem deslustre
os vãos devidos a este mundo de pessoas
Quero sem preito
Quero sem o amor conhecido por tanta gente
Descodifico e não me encabulo
Vivenciada em novidades
não forço o coração a repetidas forças
vou sendo o que menos se esperava
vou viva
deixando concretas as advinhações de ser.
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1
Paulo F. Cunha
As faces da solidão
Minha solidão tem mil faces
e entre todas me escondo
pretendendo que a coragem
que existe , está em mim .
Que a vida não é
insuportavelmente longa
e que eu não quero
que ela acabe.
A fuga noturna
de um sono intranqüilo
que custa a me achar
e , se me encontra ,
sabe ao fim
de tal maneira que duplica
minha insônia .
Minha solidão tem a face
(entre tantas outras )
da moça que me acorda
todos os dias
apesar de meus rogos em contrário ,
Mas ela não me sabe ,
ela só pensa que sabe .
Mas se engana ,
como se enganam
todos que porventura tentem
um esboço que seja de mim .
e entre todas me escondo
pretendendo que a coragem
que existe , está em mim .
Que a vida não é
insuportavelmente longa
e que eu não quero
que ela acabe.
A fuga noturna
de um sono intranqüilo
que custa a me achar
e , se me encontra ,
sabe ao fim
de tal maneira que duplica
minha insônia .
Minha solidão tem a face
(entre tantas outras )
da moça que me acorda
todos os dias
apesar de meus rogos em contrário ,
Mas ela não me sabe ,
ela só pensa que sabe .
Mas se engana ,
como se enganam
todos que porventura tentem
um esboço que seja de mim .
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1
Claudio Willer
Dias Circulares
I
Tua presença é monstruosamente reveladora, e sei que devo continuar
a existir imerso em sua transparência. Às vezes, a própria distância
é um encontro, as horas alaranjadas do dia podem ofuscar, e a
[radiação
dos signos irá despertar-me de vez. Tudo flutua no olhar, apontando
para a descida sem limite.
II
O mistério transborda, transforma-se em enxurrada, apaga o rastro
e arrasta consigo os fragmentos dos meus ossos. As manhãs de
Setembro continuam muito frias, e flutuam em seu envoltório de
sobrenatural, crisálidas encerrando a voracidade da posse. Os
[prédios
de gelatina confundem-se com o horizonte e atraem meus passos para
o indecifrável, para a quantidade de enigma presente no teu olhar, e
que escorre pelas mãos, invadindo o ar que respiro. A armadura ainda
ensanguentada, levanto-me, para continuar a caminhada em tua direção,
estátua de sal eternamente à minha frente, absorvendo toda a
[luminosidade
do mundo, monte de signos de todos os acasos incompreensíveis,
anunciadora da queda infinita.
(...)
In: WILLER, Claudio. Dias circulares. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1976.
NOTA: Poema composto de 3 parte
Tua presença é monstruosamente reveladora, e sei que devo continuar
a existir imerso em sua transparência. Às vezes, a própria distância
é um encontro, as horas alaranjadas do dia podem ofuscar, e a
[radiação
dos signos irá despertar-me de vez. Tudo flutua no olhar, apontando
para a descida sem limite.
II
O mistério transborda, transforma-se em enxurrada, apaga o rastro
e arrasta consigo os fragmentos dos meus ossos. As manhãs de
Setembro continuam muito frias, e flutuam em seu envoltório de
sobrenatural, crisálidas encerrando a voracidade da posse. Os
[prédios
de gelatina confundem-se com o horizonte e atraem meus passos para
o indecifrável, para a quantidade de enigma presente no teu olhar, e
que escorre pelas mãos, invadindo o ar que respiro. A armadura ainda
ensanguentada, levanto-me, para continuar a caminhada em tua direção,
estátua de sal eternamente à minha frente, absorvendo toda a
[luminosidade
do mundo, monte de signos de todos os acasos incompreensíveis,
anunciadora da queda infinita.
(...)
In: WILLER, Claudio. Dias circulares. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1976.
NOTA: Poema composto de 3 parte
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Alphonsus de Guimaraens
XL [O céu é sempre o mesmo: as nossas almas
O céu é sempre o mesmo: as nossas almas
É que se mudam, contemplando-o. É certo.
Umas vezes está cheio de palmas;
Outras vezes é só como um deserto.
Quem sabe quando vem as horas calmas?
Quem sabe se a ventura vem bem perto?
Homem de carne infiel, em vão espalmas
As tuas asas pelo céu aberto.
O que nos cerca é a fugitiva imagem
Do que sentimos, do que longe vemos,
Sempre sofrendo, sempre em vassalagem.
A vida é um barco a voar. Soltem-se os remos...
Cada um de nós da morte é servo e pajem:
Somos felizes só porque morremos.
Publicado no livro Poesias (1938). Poema integrante da série Sonetos / Pulvis.
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 350. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
É que se mudam, contemplando-o. É certo.
Umas vezes está cheio de palmas;
Outras vezes é só como um deserto.
Quem sabe quando vem as horas calmas?
Quem sabe se a ventura vem bem perto?
Homem de carne infiel, em vão espalmas
As tuas asas pelo céu aberto.
O que nos cerca é a fugitiva imagem
Do que sentimos, do que longe vemos,
Sempre sofrendo, sempre em vassalagem.
A vida é um barco a voar. Soltem-se os remos...
Cada um de nós da morte é servo e pajem:
Somos felizes só porque morremos.
Publicado no livro Poesias (1938). Poema integrante da série Sonetos / Pulvis.
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 350. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
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1
Myriam Fraga
Liberdade
Tardo é o tempo da escolha
(Desespero de então saber-se exato)
Já edificada a mente
E o corpo
Coagulado em rígido horóscopo.
Prisioneiro de antigas trajetórias
Quando mediu-se rumo
E permanência
E no tempo projetou-se o itinerário.
Antes da escolha — o homem
A cartilagem,
Sua carapaça de gesso repetida,
A face anterior
Criada em série.
Apodrecido no íntimo
Âmago (ou silêncio)
Nos pés a ferrugem,
A grilheta da classe,
O caminho traçado,
O pai,
Ou o que chamamos destino.
(Desespero de então saber-se exato)
Já edificada a mente
E o corpo
Coagulado em rígido horóscopo.
Prisioneiro de antigas trajetórias
Quando mediu-se rumo
E permanência
E no tempo projetou-se o itinerário.
Antes da escolha — o homem
A cartilagem,
Sua carapaça de gesso repetida,
A face anterior
Criada em série.
Apodrecido no íntimo
Âmago (ou silêncio)
Nos pés a ferrugem,
A grilheta da classe,
O caminho traçado,
O pai,
Ou o que chamamos destino.
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1
Rosa Leonor Pedro
Labirinto
Abrem-se as Portas.
Uma pequena e frágil criatura de outro mundo
muito mais pequena e frágil
do que as enormes portas,
empurra com o seu corpo de pele e túnicas
um imenso portal desconhecido
As suas vestes são brancas e diáfanas, as suas mãos delicadas,
mas firmes nos movimentos
quando abre as portas ou me toca nas costas
é ariane
um fio invisível pende da sua cintura fina como se ela fosse
um rolo de seda a desfiar no labirinto do tempo,
no espaço recôndito que ela atravessa na minha alma.
São as quarenta e duas portas das quais ela tem a chave,
a secreta chave com que abre o meu coração.
Numa das mãos traz o bastão com que ilumina o caminho.
enquanto caminha, vai dizendo
que eu tenho de alquimizar o tempo,
que no tempo não há resposta
que é no silencio do nome que eu me encontro.
A resposta que eu quero está porém no céu da sua boca.
Ela própria é uma porta.
Uma pequena e frágil criatura de outro mundo
muito mais pequena e frágil
do que as enormes portas,
empurra com o seu corpo de pele e túnicas
um imenso portal desconhecido
As suas vestes são brancas e diáfanas, as suas mãos delicadas,
mas firmes nos movimentos
quando abre as portas ou me toca nas costas
é ariane
um fio invisível pende da sua cintura fina como se ela fosse
um rolo de seda a desfiar no labirinto do tempo,
no espaço recôndito que ela atravessa na minha alma.
São as quarenta e duas portas das quais ela tem a chave,
a secreta chave com que abre o meu coração.
Numa das mãos traz o bastão com que ilumina o caminho.
enquanto caminha, vai dizendo
que eu tenho de alquimizar o tempo,
que no tempo não há resposta
que é no silencio do nome que eu me encontro.
A resposta que eu quero está porém no céu da sua boca.
Ela própria é uma porta.
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1
Pablo Neruda
XXIV
O 4 é 4 para todos?
São iguais todos os setes?
Quando o preso pensa na luz
é a mesma que te ilumina?
Já pensaste de que cor
é o abril dos enfermos?
Que monarquia ocidental
se embandeira com papoulas?
São iguais todos os setes?
Quando o preso pensa na luz
é a mesma que te ilumina?
Já pensaste de que cor
é o abril dos enfermos?
Que monarquia ocidental
se embandeira com papoulas?
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1
Eugenio Montejo
Alfabeto do mundo
Em vão me demoro soletrando
o alfabeto do mundo.
Leio nas pedras um escuro pranto,
ecos afogados em torres e edifícios,
indago a terra pelo tato
cheia de rios, paisagens e cores,
mas ao copiá-los sempre me equivoco.
Necessito escrever preso a uma linha
Sobre o fio do horizonte.
Desenhar o milagre desses dias
Que flutuam envoltos na luz
E se desprendem em cantos de pássaros.
Quando na rua os homens que perambulam
Do seu rancor a sua fadiga, cavilando,
Se me revelam mais do que nunca inocentes.
Quando o trapaceiro, o astuto, a adultera ,
Os mártires do ouro ou do amor
São só signos que não li bem,
Que ainda não consigo anotar no meu caderno.
Quanto quisera, ao menos um instante
Que esta plana febril de poesia
Grave na sua transparência cada letra:
O "o" do ladrão, o "t" do santo
o gótico ditongo do corpo e seu desejo,
com a mesma escritura do mar nas areias,
a mesma cósmica piedade
que a vida abre na frente dos meus olhos.
o alfabeto do mundo.
Leio nas pedras um escuro pranto,
ecos afogados em torres e edifícios,
indago a terra pelo tato
cheia de rios, paisagens e cores,
mas ao copiá-los sempre me equivoco.
Necessito escrever preso a uma linha
Sobre o fio do horizonte.
Desenhar o milagre desses dias
Que flutuam envoltos na luz
E se desprendem em cantos de pássaros.
Quando na rua os homens que perambulam
Do seu rancor a sua fadiga, cavilando,
Se me revelam mais do que nunca inocentes.
Quando o trapaceiro, o astuto, a adultera ,
Os mártires do ouro ou do amor
São só signos que não li bem,
Que ainda não consigo anotar no meu caderno.
Quanto quisera, ao menos um instante
Que esta plana febril de poesia
Grave na sua transparência cada letra:
O "o" do ladrão, o "t" do santo
o gótico ditongo do corpo e seu desejo,
com a mesma escritura do mar nas areias,
a mesma cósmica piedade
que a vida abre na frente dos meus olhos.
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Stela do Patrocínio
Não sou eu que gosto de nascer
Não sou eu que gosto de nascer
Eles é que me botam para nascer todo dia
E sempre que eu morro me ressuscitam
Me encarnam me desencarnam me reencarnam
Me formam em menos de um segundo
Se eu sumir desaparecer eles me procuram onde eu estiver
Pra estar olhando pro gás pras paredes pro teto
Ou pra cabeça deles e pro corpo deles
(Stela do Patrocínio, em diagramação de sua fala por Viviane Mosé)
Eles é que me botam para nascer todo dia
E sempre que eu morro me ressuscitam
Me encarnam me desencarnam me reencarnam
Me formam em menos de um segundo
Se eu sumir desaparecer eles me procuram onde eu estiver
Pra estar olhando pro gás pras paredes pro teto
Ou pra cabeça deles e pro corpo deles
(Stela do Patrocínio, em diagramação de sua fala por Viviane Mosé)
3 053
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Amélia Rodrigues
Descobertas
Hoje
Atravessei a porta da minha consciência
E percebi quão tristes e voluntariosas
São as minhas concepções de saudade.
Reencontrei,
Na chama da sua lembrança,
A força e vida de um sentimento
Arguto, permanente e ocioso
Que se alimenta da solidão do meu ego.
Forte,
Busquei a cura,
A vacina para este mal.
Adensei os meus valores,
Corrigindo sensações e avaliando
Respostas...
Fraca,
Desci a estrada do inconformismo
Por não poder trazê-lo à eternidade
E a solidão se fez mais forte
Rasgando as minhas defesas,
Fazendo-se imune à reação do meu espírito.
Hoje
Atravessei a porta da minha consciência
E percebi quão insólito e inescrupuloso
É o amor que sinto por você.
Atravessei a porta da minha consciência
E percebi quão tristes e voluntariosas
São as minhas concepções de saudade.
Reencontrei,
Na chama da sua lembrança,
A força e vida de um sentimento
Arguto, permanente e ocioso
Que se alimenta da solidão do meu ego.
Forte,
Busquei a cura,
A vacina para este mal.
Adensei os meus valores,
Corrigindo sensações e avaliando
Respostas...
Fraca,
Desci a estrada do inconformismo
Por não poder trazê-lo à eternidade
E a solidão se fez mais forte
Rasgando as minhas defesas,
Fazendo-se imune à reação do meu espírito.
Hoje
Atravessei a porta da minha consciência
E percebi quão insólito e inescrupuloso
É o amor que sinto por você.
1 823
1
Hilda Hilst
VIII
Aquela
que não te pertence por mais queira
(Porque ser pertencente
É entregar a alma a uma Cara, a de áspide
Escura e clara, negra e transparente), Ai!
Saber-se pertencente é ter mais nada.
É ter tudo também.
É como ter o rio, aquele que deságua
Nas infinitas águas de um sem-fim de ninguéns.
Aquela que não te pertence não tem corpo.
Porque corpo é um conceito suposto de matéria
E finito. E aquela é luz. E etérea.
Pertencente
é não ter rosto. É ser amante
De um Outro que nem nome tem. Não é Deus nem Satã.
Não tem ilharga ou osso. Fende sem ofender.
É vida e ferida ao mesmo tempo, "Esse"
Que bem me sabe inteira pertencida.
que não te pertence por mais queira
(Porque ser pertencente
É entregar a alma a uma Cara, a de áspide
Escura e clara, negra e transparente), Ai!
Saber-se pertencente é ter mais nada.
É ter tudo também.
É como ter o rio, aquele que deságua
Nas infinitas águas de um sem-fim de ninguéns.
Aquela que não te pertence não tem corpo.
Porque corpo é um conceito suposto de matéria
E finito. E aquela é luz. E etérea.
Pertencente
é não ter rosto. É ser amante
De um Outro que nem nome tem. Não é Deus nem Satã.
Não tem ilharga ou osso. Fende sem ofender.
É vida e ferida ao mesmo tempo, "Esse"
Que bem me sabe inteira pertencida.
1 410
1
Florbela Espanca
Angústia
Tortura do pensar! Triste lamento!
Quem nos dera calar a tua voz!
Quem nos dera cá dentro, muito a sós,
Estrangular a hidra num momento!
E não se quer pensar!... E o pensamento
Sempre a morder-nos bem, dentro de nós...
Q’rer apagar no Céu – Ó sonho atroz! –
O brilho duma estrela, como o vento!...
E não se apaga, não... nada se apaga!
Vem sempre rastejando como a vaga...
Vem sempre perguntando: “O que te resta?...”
Ah! não ser mais que o vago, o infinito!
Ser pedaço de gelo, ser granito,
Ser rugido de tigre na floresta!
Quem nos dera calar a tua voz!
Quem nos dera cá dentro, muito a sós,
Estrangular a hidra num momento!
E não se quer pensar!... E o pensamento
Sempre a morder-nos bem, dentro de nós...
Q’rer apagar no Céu – Ó sonho atroz! –
O brilho duma estrela, como o vento!...
E não se apaga, não... nada se apaga!
Vem sempre rastejando como a vaga...
Vem sempre perguntando: “O que te resta?...”
Ah! não ser mais que o vago, o infinito!
Ser pedaço de gelo, ser granito,
Ser rugido de tigre na floresta!
6 078
1
Antônio Massa
Galeria Técnica
Proibido a entrada
de pessoas estranhas
nas entranhas proibidas
das proibidas pessoas
pelo conceito proibido
e tão cultuado
o pré-estranho-conceito
de que pessoas
são sempre estranhas
entradas proibidas
Proibido a estrada
das pessoas proibidas
não autorizadas
às estradas de vida
estranhas entranhas
proibitivas, proibidas
de produzidos preconceitos
improdutivos pós-conceitos
Estranhas pessoas
de entradas proibidas
Proibido a estranha
entrada das pessoas
na estranha estrada
desprovida de entalhes
proibidos, proibitivos
e tão cultuados
das galerias imersas
nas entranhas da vida
Proibido a vida
das pessoas que entraram
de pessoas estranhas
nas entranhas proibidas
das proibidas pessoas
pelo conceito proibido
e tão cultuado
o pré-estranho-conceito
de que pessoas
são sempre estranhas
entradas proibidas
Proibido a estrada
das pessoas proibidas
não autorizadas
às estradas de vida
estranhas entranhas
proibitivas, proibidas
de produzidos preconceitos
improdutivos pós-conceitos
Estranhas pessoas
de entradas proibidas
Proibido a estranha
entrada das pessoas
na estranha estrada
desprovida de entalhes
proibidos, proibitivos
e tão cultuados
das galerias imersas
nas entranhas da vida
Proibido a vida
das pessoas que entraram
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Hilda Hilst
III
Isso de
mim que anseia despedida
(Para perpetuar o que está sendo)
Não tem nome de amor. Nem é celeste
Ou terreno. Isso de mim é marulhoso
E tenro. Dançarino também. Isso de mim
É novo: Como que come o que nada contém.
A impossível oquidão de um ovo.
Como se um tigre
Reversivo,
Veemente de seu avesso
Cantasse mansamente.
Não
tem nome de amor. Nem se parece a mim.
Como pode ser isso? Ser tenro, marulhoso
Dançarino e novo, ter nome de ninguém
E preferir ausência e desconforto
Para guardar no eterno o coração do outro.
mim que anseia despedida
(Para perpetuar o que está sendo)
Não tem nome de amor. Nem é celeste
Ou terreno. Isso de mim é marulhoso
E tenro. Dançarino também. Isso de mim
É novo: Como que come o que nada contém.
A impossível oquidão de um ovo.
Como se um tigre
Reversivo,
Veemente de seu avesso
Cantasse mansamente.
Não
tem nome de amor. Nem se parece a mim.
Como pode ser isso? Ser tenro, marulhoso
Dançarino e novo, ter nome de ninguém
E preferir ausência e desconforto
Para guardar no eterno o coração do outro.
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Mafalda Veiga
Só tu sabes (o que ainda te seduz)
Só um gesto
Abre um sulco no frio
Rasga o fundo
Toca no abismo e no vazio
A luz da lua
Voa sem deixar nunca
De sentir o chão
E desfaz a sombra
Que esconde o que resta
De algum sonho vão
Tantos dias
Que pouco podem mudar
Quando os muros
Não deixam ver onde nasce o mar
A luz do mundo
Vem de dentro de quem se perde
Alguma vez
A luz da noite
Vem do fundo do olhar
De quem não a quer prender
Só tu sabes o que ainda te seduz
Só tu sentes o que poderá ser
Que te rasga, que te acende
E desata o nó
Para te deixar correr
Para te deixar correr
Para te deixar correr
Para te deixar correr
Os mundos
Que se escondem em ti
Vagabundos
Que tu não deixas nunca partir
Sair do labirinto
Escapar às emboscadas da razão
Sentir bater o vento
E andar na corda bamba da solidão
Abre um sulco no frio
Rasga o fundo
Toca no abismo e no vazio
A luz da lua
Voa sem deixar nunca
De sentir o chão
E desfaz a sombra
Que esconde o que resta
De algum sonho vão
Tantos dias
Que pouco podem mudar
Quando os muros
Não deixam ver onde nasce o mar
A luz do mundo
Vem de dentro de quem se perde
Alguma vez
A luz da noite
Vem do fundo do olhar
De quem não a quer prender
Só tu sabes o que ainda te seduz
Só tu sentes o que poderá ser
Que te rasga, que te acende
E desata o nó
Para te deixar correr
Para te deixar correr
Para te deixar correr
Para te deixar correr
Os mundos
Que se escondem em ti
Vagabundos
Que tu não deixas nunca partir
Sair do labirinto
Escapar às emboscadas da razão
Sentir bater o vento
E andar na corda bamba da solidão
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