Poemas

Ciúme e Inveja

Poemas neste tema

Lope de Vega

Lope de Vega

Vireno, aquel mimanso regalado

Vireno, aquel cordeiro tão mimado
e de coleira azul, aquel formoso
que com balido rouco e amoroso
levava pelos montes a meu gado,

aquel, de seu tosão tão encrespado,
e alegres olhos e mirar gracioso,
por quem eu de ninguém fui invejoso,
sendo de mil pastores invejado,

já mo roubaram, ó Vireno irmão:
para outro já retouça, outro provoca,
dorme de dia as noites que acarinha;

já come o branco sal por outra mão,
já come alheia mão com sua boca
de cuja língua se abrasou a minha.

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Tomás Antônio Gonzaga

Tomás Antônio Gonzaga

Lira XVII

Minha Marília,
Tu enfadada?
Que mão ousada
Perturbar pode
A paz sagrada
Do peito teu?
Porém que muito
Que irado esteja
O teu semblante!
Também troveja
O claro Céu.

Eu sei, Marília,
Que outra Pastora
A toda hora,
Em toda a parte
Cega namora
Ao teu Pastor.
Há sempre fumo
Aonde há fogo:
Assim, Marília,
Há zelos, logo
Que existe amor.

Olha, Marília
Na fonte pura
A tua alvura,
A tua boca,
E a compostura
Das mais feições.
Quem tem teu rosto
Ah! não receia
Que terno amante
Solte a cadeia,
Quebre os grilhões.

Não anda Laura
Nestas campinas
Sem as boninas
No seu cabelo,
Sem peles finas
No seu jubão.
Porém que importa?
O rico asseio
Não dá, Marília,
Ao rosto feio
A perfeição.

Quando apareces
Na madrugada,
Mal embrulhada
Na larga roupa,
E desgrenhada
Sem fita, ou flor;
Ah! que então brilha
A natureza!
Então se mostra
Tua beleza
Inda maior.


Publicado no livro Marília de Dirceu: Parte I (1792).

In: GONZAGA, Tomás Antônio. Obras completas. Ed. crít. M. Rodrigues Lapa. São Paulo: Ed. Nacional, 1942. (Livros do Brasil, 5
3 707 1
Olavo Bilac

Olavo Bilac

LIX - Cousas

Naquela casa do morro,
Pintadinha de amarelo,
Vivia Aninha Chichorro.
Seu marido, o Florisbelo,
Ciumento como um cachorro,
Tinha uma cara de Otelo.

A ver-lhe a infidelidade,
Preferia vê-la morta!
— E quando vinha à cidade,
Descendo a ladeira torta,
Lá deixava em liberdade
Quatro cães de fila à porta.

Mas a casa tinha fundos...
Sempre se engana a prudência
De maridos furibundos!
Rosnava a maledicência
Que... — São desígnios profundos
Da Divina Providência!

E o Florisbelo, coitado,
De ciúmes consumido,
Vivia tonto e enganado:
Pois era (pobre marido!)
Pela frente respeitado,
Mas pelos fundos traído.


In: BILAC, Olavo. Pimentões: rimas d'O Filhote. Rio de Janeiro: Laemmert, 1897
2 913 1
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Concreto

ele tinha organizado a
leitura

ele era um dos principais praticantes
da poesia concreta
e depois da minha leitura eu
subi até o local onde ele
morava

sua casa ficava no alto das
montanhas e
nós bebemos e contemplamos pela grande
janela os enormes
pássaros
voando

planando na maioria

ele disse que eram águias
(talvez ele estivesse me
logrando)

e sua esposa tocou o
piano

um pouco de
Brahms

ele não falou
muito

ele era um homem
concreto

sua esposa era
belíssima

e o modo como as águias
planavam

isso era belíssimo
também

então chegou o crepúsculo

então chegou a noite

e não dava mais para ver as
águias

tinha sido uma leitura
vespertina

nós bebemos até uma
da manhã

então entrei no meu carro e
d
e
s
c
i
a estrada estreita e
sinuosa

eu estava bêbado demais para temer o
perigo

quando cheguei à minha casa eu
bebi duas garrafas de
cerveja e fui me
deitar.

então o telefone
tocou

era a minha
namorada

ela tinha ficado ligando a noite
toda

ela estava furiosa

ela me acusou de fornicar com
outra

eu falei das belíssimas
águias

de como elas planavam

e que eu estivera com um homem
concreto

conta outra
ela disse
e
desligou

eu me estirei ali
contemplei o teto e
me perguntei o que é que as águias
comiam

então o telefone tocou
de novo
e ela perguntou

por acaso o homem concreto tinha uma
esposa concreta e por acaso você enfiou seu
pau nela?

não
eu respondi
eu trepei com uma
águia

ela desligou
de novo

poesia concreta
eu pensei
que diabos é
isso?

então fui dormir e
dormi e
dormi.
1 102
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Quando Perderes o Gosto Humilde da Tristeza...

Quando perderes o gosto humilde da tristeza,
Quando, nas horas melancólicas do dia,
Não ouvires mais os lábios da sombra
Murmurarem ao teu ouvido
As palavras de voluptuosa beleza
Ou de casta sabedoria;

Quando a tua tristeza não for mais que amargura,
Quando perderes todo estímulo e toda crença,
— A fé no bem e na virtude,
A confiança nos teus amigos e na tua amante,
Quando o próprio dia se te mudar em noite escura
De desconsolação e malquerença;

Quando, na agonia de tudo o que passa
Ante os olhos imóveis do infinito,
Na dor de ver murcharem as rosas,

E como as rosas tudo o que é belo e frágil,
Não sentires em teu ânimo aflito
Crescer a ânsia de vida como uma divina graça:

Quando tiveres inveja, quando o ciúme
Crestar os últimos lírios de tua alma desvirginada;
Quando em teus olhos áridos
Estancarem-se as fontes das suaves lágrimas
Em que se amorteceu o pecaminoso lume
De tua inquieta mocidade:

Então sorri pela última vez, tristemente,
À tudo o que outrora
Amaste. Sorri tristemente...
Sorri mansamente... em um sorriso pálido... pálido
Como o beijo religioso que puseste
Na fronte morta de tua mãe... sobre a sua fronte morta...
1 341
D. Dinis

D. Dinis

Amiga, Sei Eu Bem D'ua Molher

Amiga, sei eu bem d'ũa molher
que se trabalha de vosco buscar
mal a voss'amigo, polo matar,
mais tod'aquest', amiga, ela quer
       porque nunca com el pôde põer
       que o podesse por amig'haver.

E busca-lhi convosco quanto mal
ela mais pode, aquesto sei eu,
e tod'aquest'ela faz polo seu,
e por este preit[o] e nom por al:
       porque nunca com el pôde põer
       que o podesse por amig'haver.

Ela trabalha-se, há gram sazom,
de lhi fazer o vosso desamor
haver, e há ende mui gram sabor,
e tod'est', amiga, nom é senom
       porque nunca com el pôde põer
       que o podesse por amig'haver.

[E] por esto faz ela seu poder
pera fazê-lo convosco perder.
319
Afonso Mendes de Besteiros

Afonso Mendes de Besteiros

Fals'amigo, Per Bõa Fé

Fals'amigo, per bõa fé,
m'eu sei que queredes gram bem
outra molher, e por mi rem
nom dades, mais, pois assi é,
       oimais fazede des aqui
       capa doutra, ca nom de mim.

Ca noutro dia vos achei
falar no voss'e nom em al
com outra, e foi m'ende mal,
mais, pois que a verdade sei,
       oimais fazede des aqui
       capa doutra, ca nom de mim.

E quando vos eu vi falar
com outra, log'i bem vi eu
que seu érades, ca nom meu,
mais quero-vos eu desenganar:
       oimais fazede des aqui
       capa doutra, ca nom de mim.
667
D. Dinis

D. Dinis

O Voss'amig', Ai Amiga,

O voss'amig', ai amiga,
de que vos muito fiades,
tanto quer'eu que sabiades:
que ũa, que Deus maldiga,
       vo-lo tem louc'e tolheito,
       e moir'end'eu com despeito.

Nom hei rem que vos asconda
nem vos será encoberto,
mais sabede bem por certo
que ũa, que Deus cofonda,
       vo-lo tem louc'e tolheito,
       e moir'end'eu com despeito.

Nom sei molher que se pague
de lh'outras o seu amigo
filhar, e por en vos digo
que ũa, que Deus estrague,
       vo-lo tem louc'e tolheito,
       e moir'end'eu com despeito.

E faço mui gram dereito,
pois quero vosso proveito.
326
Herberto Helder

Herberto Helder

Poemas do Antigo Egipto - Exorcismo

Oh vai, vai dormir, e vai aonde estão as tuas belas mulheres,
sobre cujos cabelos se verteu a mirra
e sobre cujos ombros se verteu o incenso fresco.
1 068
Adélia Prado

Adélia Prado

Todos Fazem Um Poema a Carlos Drummond de Andrade

Enquanto punha o vestido azul com margaridas amarelas
e esticava os cabelos para trás, a mulher falou alto:
é isto, eu tenho inveja de Carlos Drummond de Andrade
apesar de nossas extraordinárias semelhanças.
E decifrou o incômodo do seu existir junto com o dele.
Vamos ambos à enciclopédia, seguiu dizendo, à cata
de constituição, e paramos em “clematite, flor lilás
de ingênuo desenho que ama desabrochar nas sebes
[europeias”.
Temos terrores noturnos, diurnos desesperos
e dias seguidos onde nada acontece.
Comemos, bebemos e diante do nosso nome impresso
temos nenhum orgulho, porque esta lembrança não deixa:
uma vez, na Avenida Afonso Pena, um bêbado gritando:
‘Todo mundo aqui é um saco de tripas’.
Carlos é gauche. A mim, várias vezes, disseram:
‘Não sabes ler a placa? É CONTRAMÃO’.
Um dia fizemos um verso tão perfeito
que as pessoas começaram a rir. No entanto persiste,
a partir de mim, a raiva insopitada
quando citam seu nome, lhe dedicam poemas.
Desta maneira prezo meu caderno de versos,
que é uma pergunta só, nem ao menos original:
‘Por que não nasci eu um simples vaga-lume?’
Só à ponta de fina faca, o quisto da minha inveja,
como aos mamões maduros se tiram os olhos podres.
Eu sou poeta? Eu sou?
Qualquer resposta verdadeira
e poderei amá-lo.
1 510
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Inferno Não Guarda Nenhuma Fúria...

ela estava esperando em seu fusca laranja
enquanto eu caminhava pela rua
com 2 fardos e meio litro de uísque
e ela saltou do carro
e começou a agarrar as garrafas de cerveja e
espatifá-las contra a calçada
e ela apanhou o uísque e
também o espatifou,
dizendo: ah, então você ia embebedar ela
com isso tudo e depois meter nela!
continuei até a entrada onde a outra mulher
estava na metade dos degraus,
então ela veio correndo da rua
e escada acima e acertou a outra mulher
com a bolsa, dizendo:
ele é meu homem! ele é meu homem!
e então ela saiu correndo e
pulou dentro do fusca laranja
e arrancou dali.
busquei uma vassoura
e comecei a varrer os cacos de vidro
quando escutei um som
e lá estava o fusca laranja
avançando por sobre a calçada
e sobre mim –
mal consegui dar um salto e me colar contra uma parede
enquanto o carro passava.
então voltei a pegar a vassoura e a varrer
os cacos mais uma vez,
e de repente ela estava novamente ali;
me tomou a vassoura e a partiu em três
partes.
então ela encontrou uma garrafa de cerveja inteira
e jogou-a através da janela de vidro da porta.
o buraco que se formou era perfeito
e a outra mulher gritou para mim da
escada: pelo amor de Deus, Bukowski, vá com
ela!
eu entrei dentro do fusca laranja e nós
seguimos juntos dentro do carro.
1 230
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Dizem, Amigo, Que Outra Senhor

Dizem, amigo, que outra senhor
queredes vós sem meu grado filhar
por mi fazerdes com ela pesar,
mais, a la fé, nom hei end'eu pavor,
       ca já todas sabem que sodes meu
       e nẽũa nom vos querrá por seu.

Faríades-mi vós de coraçom
este pesar, mais nom sei hoj'eu quem
me vos filhass', e já vos nom val rem,
ai meu amigo, vedes por que nom:
       ca já todas sabem que sodes meu
       e nẽũa nom vos querrá por seu.

E quem vos a vós esto conselhou
mui bem sei [eu] ca vos conselhou mal
e com tod'esso já vos rem nom val,
ai meu amigo, tardi vos nembrou:
       ca já todas sabem que sodes meu
       e nẽũa nom vos querrá por seu.

Cofonda Deus a que filhar o meu
amig', e mim, se eu filhar o seu.
308
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

O Que Soía, Mia Filha, Morrer

O que soía, mia filha, morrer
por vós, dizem que já nom morr'assi,
e moir'eu, filha, porque o oí;
mais, se o queredes veer morrer,
       dizede que morre por vós alguém
       e veredes home morrer por en.

O que morria, mia filha, por vós
como nunca vi morrer por molher
home no mundo, já morrer nom quer,
mais, se queredes que moira por vós,
       dizede que morre por vós alguém
       e veredes home morrer por en.

O que morria, mia filha, d'amor
por vós nom morre nem quer i cuidar,
e moir'end'eu, mia filha, com pesar,
mais, se queredes que moira d'amor,
       dizede que morre por vós alguém
       e veredes home morrer por en.

Ca, se souber que por vós morr'alguém,
morrerá, filha, querendo-vos bem.
540
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Fazendo Cabeças

ela ainda faz.
ela esculpe cabeças de homens
depois vai pra cama com
eles
creio que para equiparar a argila
com a carne.

foi assim que a
conheci.

não fiz objeção
mas em tais casos
você sempre acha que é
você.

mas depois
descobri
que eu não era o
primeiro

e depois de começar a morar com
ela
eu olhava aquelas cabeças esculpidas
de homens
sobre uma mesa
e em cima da tv
e
aqui e ali
e pensava
puxa vida.

e aí ela me dizia
“escuta, você sabe que cabeça eu
gostaria esculpir?”

“hmm hmm.”

“eu gostaria de esculpir o grande Mike
Swinnert... ele tem um crânio interessante...
você já reparou na boca dele, nos
dentes?”

“sim, já...”

“eu gosto da esposa dele também... mas acho que gostaria
de fazer o Mike primeiro... você não ficaria
com ciúme, né?”

“ah, não. eu vou nas corridas ou algo assim
pra você se concentrar...”

“é meio embaraçoso eu
pedir pra ele. ele é seu amigo. você se
importaria de pedir...?”

Mike não tinha carro então fui
pegá-lo e voltei com ele. enquanto estacionávamos
ele disse “seguinte, posso comer ela se eu
quiser, você sabe. você se importaria?”
“bem, acho que me importaria”, falei.
ele me olhou daquele jeito: “tá bom,
por você vou me segurar.”

acompanhei Mike até a argila e então
desci as escadas.

fui de carro para o hipódromo e tive
um dia terrível no
hipódromo...

certa vez caminhei com ela pelo McArthur Park
enquanto ela selecionava homens com
cabeças interessantes e
eu me aproximava deles e perguntava se ela
poderia esculpir suas cabeças. eu até
lhes oferecia dinheiro. todos
recusavam, sentindo que havia algo de
errado. eu também sentia que havia algo de
errado, sobretudo comigo.

não foi muito tempo depois disso que
a escultora e eu
nos separamos.

ela tinha até se mudado de cidade mas
me vi voando para outro
estado pra vê-la – duas vezes. e
a cada vez notando
mais cabeças masculinas espalhadas pelo
apartamento.

“quem é esse cara?”, perguntei
sobre uma delas.

“ah, esse é o Billyboy, o
ginete...”

fui embora 2 ou 3 dias
depois...

as vidas seguiram e 2 ou 3 mulheres depois
meu amigo Jack Bahiah apareceu. nós
falamos disso e daquilo e aí Jack
mencionou que havia voado ao
encontro da escultora.

“ela fez a sua cabeça, Jack?”

“fez, cara, ela fez a minha cabeça mas
não ficou parecido comigo, cara. adivinha com
quem ficou parecido, cara?”

“sei lá, cara...”

“ficou parecido com você...”

“Jack, meu rapaz, você sempre soube dizer
muita sacanagem...”

“sem sacanagem, cara, sem sacanagem...”

Jack e eu bebemos bastante vinho naquela noite, ele
vira os copos muito bem.

“ela estava nos meus braços na cama
e falou ‘Deus, eu amo ele, Jack, sinto
falta dele!’, e aí começou a chorar.”

não odeio Jack nem um pouco por comê-la
por dormir encostado nela quando eu tinha dormido
encostado nela por 5 ou 6 anos, e isso demonstra
a durabilidade dos humanos: sabemos extirpar o
troço e destruí-lo e esquecer.

sei que ela ainda esculpe cabeças
de homens e não consegue parar. ela me disse uma vez
que Rodin fez algo similar de um
modo ligeiramente diferente. tá bom.

desejo a ela a sorte da argila e
a sorte dos homens. tem sido uma longa
noite rumo ao meio-dia, por vezes, para a maioria
de nós.
1 171
Louise Glück

Louise Glück

Sirena

Me tornei uma criminosa ao me apaixonar.
Antes disso eu era uma garçonete.

Eu não queria ir para Chicago contigo.
queria que casasses comigo, queria
que tua esposa sofresse.

Queria que a vida dela fosse como uma peça
em que todos os partes são tristes partes.

Pode uma pessoa decente
pensar assim? Eu mereço

reconhecimento por minha coragem —

Sentei-me no escuro de teu alpendre.
Tudo estava claro para para mim:
se tua mulher não te deixava partir
era prova de que não te amava.
Se ela te amasse
não queria que fosses feliz?

Considero agora que
se eu sentisse menos poderia
ser uma pessoa melhor. Eu era
uma boa garçonete,
conseguia equilibrar oito drinques.
Eu costumava te contar meus sonhos.
Noite passada eu vi uma mulher sentada num ônibus escuro —
no sonho, ela chora, o ônibus em que está começa a partir. Com uma das mãos
ela abana; com a outra, golpeia
uma caixa de ovos cheia de bebês

O sonho não resgata a donzela.
744
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Meu Amig'e Meu Bem E Meu Amor

Meu amig'e meu bem e meu amor,
disserom-vos que me virom falar
com outr'home por vos fazer pesar,
e por en rog'eu a Nostro Senhor
que confonda quem vo-lo foi dizer,
e vós, se o assi fostes creer,
e mim, se end'eu fui merecedor.

Já vos disserom por mi que falei
com outr'hom'e que vos nom tiv'em rem,
e, se o fiz, nunca mi venha bem;
mais rog'a Deus sempr'e rogá-Lo-ei
que confonda quem vo-lo diss'assi,
e vós, se tam gram mentira de mim
crevestes, e mim, se o eu cuidei.

Sei que vos disserom, per bõa fé,
que falei com outr'hom', e nom foi al
senom que vo-lo disserom por mal;
mais rog'a Deus, que [e]no ceo sé,
que confonda quem vos atal razom
diss', e vós, se a crevestes entom,
e que confonda mim, se verdad'é.

E confonda quem há tam gram sabor
d'antre mim e vós meter desamor
- ca [o] maior amor do mund[o] é.
758
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

A Que Mi a Mi Meu Amigo Filhou

A que mi a mi meu amigo filhou
mui sem meu grad', e nom me tev'em rem
que me servi'e mi queria bem,
e nom mi o disse nem mi o preguntou,
       mal [l]hi será, quando lho eu filhar
       mui sem seu grad', e non'a preguntar.

E, se m'ela mui gram torto fez i,
Deus me leixe dereito dela haver,
ca o levou de mim sem meu prazer;
e ora tem que o levará assi,
       mal [l]hi será, quando lh'o eu filhar
       mui sem seu grad', e non'a preguntar.

E bem sei eu dela que [vos] dirá
que nom fiz eu por el quant'ela fez;
mais quiçai mi o fezera outra vez,
e, pero tem bem que o haverá,
       mal [l]hi será, quando lh'o eu filhar
       mui sem seu grad', e non'a preguntar.

Entom veeredes molher andar
pós mim chorand', e nom lho querrei dar.
569
João Garcia de Guilhade

João Garcia de Guilhade

Martim Jograr, Ai Dona Maria

Martim jograr, ai Dona Maria,
jeita-se vosco já cada dia,
        e lazero-m'eu mal.

And'eu morrend'e morrendo sejo,
e el tem sempr'o cono sobejo,
       e lazero-m'eu mal.

Da mia lazeira pouco se sente;
fod'el bom con[o] e jaz caente,
       e lazero-m'eu mal.
503
João Garcia de Guilhade

João Garcia de Guilhade

A Dom Foam Quer'eu Gram Mal

A Dom Foam quer'eu gram mal
e quer'a sa molher gram bem;
gram sazom há que m'est'avém
e nunca i já farei al;
ca, des quand'eu sa molher vi,
se púdi, sempre a servi
e sempr'a ele busquei mal.

Quero-me já maenfestar,
e pesará muit'[a] alguém,
mais, sequer que moira por en,
dizer quer'eu do mao mal
e bem da que mui bõa for,
qual nom há no mundo melhor,
quero-[o] já maenfestar.

De parecer e de falar
e de bõas manhas haver,
ela, nõn'a pode vencer
dona no mund', a meu cuidar;
ca ela fez Nostro Senhor
e el fez o Demo maior,
e o Demo o faz falar.

E pois ambos ataes som,
como eu tenho no coraçom,
os julg'Aquel que pod'e val.
1 390
Carlos Vogt

Carlos Vogt

Fábula Rábula

Era uma vez um país
num círculo vicioso
onde brilhavam estrelas
dobradas em seu fulgor
e o vagalume invejoso
sabia que o presidente
sonhava com um ditador


In: VOGT, Carlos. Paisagem doméstica. São Paulo: I. Guarnelli: Massao Ohno, 1984. Poema integrante da série Almanaque do Pensamento.

NOTA: Referência ao soneto "Círculo Vicioso", da série de poemas "Ocidentais", das POESIAS COMPLETAS (1901), de Machado de Assi
1 401
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Soneto de Carnaval

Distante o meu amor, se me afigura
O amor como um patético tormento
Pensar nele é morrer de desventura
Não pensar é matar meu pensamento.

Seu mais doce desejo se amargura
Todo o instante perdido é um sofrimento
Cada beijo lembrado uma tortura
Um ciúme do próprio ciumento.

E vivemos partindo, ela de mim
E eu dela, enquanto breves vão-se os anos
Para a grande partida que há no fim

De toda a vida e todo o amor humanos:
Mas tranqüila ela sabe, e eu sei tranqüilo
Que se um fica o outro parte a redimi-lo.

Oxford, carnaval de 1939
1 545
João Soares Coelho

João Soares Coelho

Falei Um Dia, Por Me Baralhar

Falei um dia, por me baralhar
com meu amigo, com outr', u m'el visse
e direi-vos que lhi dix', u m'el disse
por que lhi fezera tam gram pesar:
       "Se vos i, meu amigo, pesar fiz,
       nom foi por al senom porque me quis".

Por baralhar com el e por al nom
falei com outr', em tal que o provasse,
e pesou-lhi mais ca se o matasse
e preguntou-m'e dixi-lh'eu entom:
       "Se vos i, meu amigo, pesar fiz,
       nom foi por al senom porque me quis".

Ali u eu com outr'ant'el falei,
preguntou-m'el e por que lhi fazia
tam gram pesar ou se o entendia;
e direi-vos como me lhi salvei:
       "Se vos i, meu amigo, pesar fiz,
       nom foi por al senom porque me quis".
492
Manoel Herzog

Manoel Herzog

CIÚME LATINO EM TEMPOS DE INFORMÁTICA

Se você um dia se deixar compartilhar,
Se alguém comentar,
Nunca mais falo in box com você.

Nem tampouco, muito menos,
Tente puxar conversinha comigo nos comentários
Dos posts alheios.
Não vou mais querer papo.

Se você curtir qualquer coisa que não seja eu
Ou se eu souber, desconfiar, suspeitar
Que andou alguém curtindo você,
Vai dar merda,
Que eu me conheço.

Eu sei quem são todos os seus amigos
E visito a página de um por um atrás de pistas
Tem um, particularmente,
Que acho deveras filho da puta.

Se um dia nossa relação virtual for pro saco
Não me venha dizer que quer continuar
Sendo minha miguxa
Porque eu nunca mais que vou tc com vc
Passo mais é uma borracha etérea em cima de tudo
Apago da memória, danifico os bytes que um dia registraram tua doce presença na minha vida paralela,
E, por fim, desfaço a amizade,
Excluo você do meu facebook –
Não sem antes me matar de mentirinha.
730
Juião Bolseiro

Juião Bolseiro

Ai Madre, Nunca Mal Sentiu

Ai madre, nunca mal senti[u],
nem soubi que x'era pesar,
a que seu amigo nom viu,
com'hoj'eu vi o meu, falar
       com outra, mais poilo eu vi,
       com pesar houvi a morrer i.

E, se molher houve d'haver
sabor d'amigo, u lho Deus deu,
sei eu que lho nom fez veer,
com'a mi fez vee'lo meu,
       com outra, mais poilo eu vi,
       com pesar houvi a morrer i.
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