Poemas neste tema
Cidade e Cotidiano
Charles Bukowski
Os Insanos Sempre Me Amaram
e os subnormais.
ao longo de todo o ensino
fundamental
ensino médio
faculdade
os rejeitados se
uniam a
mim.
caras com um só braço
caras com tiques
caras com problemas de fala
caras com uma película branca
sobre um dos olhos,
covardes
misantropos
assassinos
tarados
e ladrões.
e em todas
as fábricas e na
vagabundagem
sempre atraí
os rejeitados. eles me encontravam
logo de cara e se grudavam
em mim. continuam
fazendo isso.
aqui na vizinhança há agora
um que me
encontrou.
ele anda por aí empurrando um
carrinho de supermercado
cheio de lixo:
bengalas partidas, cadarços
sacos vazios de batata frita,
caixas de leite, jornais, canetas...
“ei, parceiro, o que tá fazendo?”
eu paro e conversamos um
pouco.
então eu digo adeus
mas ele continua me
seguindo
para além dos
puteiros e dos
prostíbulos...
“me mantenha informado,
parceiro, me mantenha informado,
quero saber o que está
acontecendo.”
esse é o meu insano do momento.
nunca o vi falar
com mais
ninguém.
o carrinho chacoalha
um pouco atrás
de mim
então alguma coisa
cai.
ele se detém para
juntá-la.
enquanto ele se ocupa disso eu
entro pela porta de um
hotel verde que fica na
esquina
cruzo
o saguão
saio pela porta
dos fundos e
ali há um gato
cagando
absolutamente deliciado,
que me arreganha os
dentes.
ao longo de todo o ensino
fundamental
ensino médio
faculdade
os rejeitados se
uniam a
mim.
caras com um só braço
caras com tiques
caras com problemas de fala
caras com uma película branca
sobre um dos olhos,
covardes
misantropos
assassinos
tarados
e ladrões.
e em todas
as fábricas e na
vagabundagem
sempre atraí
os rejeitados. eles me encontravam
logo de cara e se grudavam
em mim. continuam
fazendo isso.
aqui na vizinhança há agora
um que me
encontrou.
ele anda por aí empurrando um
carrinho de supermercado
cheio de lixo:
bengalas partidas, cadarços
sacos vazios de batata frita,
caixas de leite, jornais, canetas...
“ei, parceiro, o que tá fazendo?”
eu paro e conversamos um
pouco.
então eu digo adeus
mas ele continua me
seguindo
para além dos
puteiros e dos
prostíbulos...
“me mantenha informado,
parceiro, me mantenha informado,
quero saber o que está
acontecendo.”
esse é o meu insano do momento.
nunca o vi falar
com mais
ninguém.
o carrinho chacoalha
um pouco atrás
de mim
então alguma coisa
cai.
ele se detém para
juntá-la.
enquanto ele se ocupa disso eu
entro pela porta de um
hotel verde que fica na
esquina
cruzo
o saguão
saio pela porta
dos fundos e
ali há um gato
cagando
absolutamente deliciado,
que me arreganha os
dentes.
1 216
Charles Bukowski
A Noite Em Que Trepei Com Meu Despertador
certa vez
passando fome na Filadélfia
eu ocupava um quartinho
caía a tarde e a noite chegava
e me postei junto à janela no 3° andar
no escuro e olhei para uma
cozinha que ficava no outro lado do 2° andar
e avistei uma bela garota loira
abraçar um jovem e ali beijá-lo
com o que parecia ser fome
e fiquei parado a olhá-los até que se
separassem.
então dei meia-volta e acendi a luz do quarto.
vi minha cômoda e suas gavetas
e meu despertador sobre ela.
peguei o relógio
e o levei pra cama comigo
trepei com ele até que os ponteiros caíssem fora.
depois saí e vaguei pelas ruas
até sentir meus pés se encherem de bolhas.
quando voltei fui até a janela
e olhei pra baixo e lá pro outro lado
e a luz na cozinha deles estava
apagada.
passando fome na Filadélfia
eu ocupava um quartinho
caía a tarde e a noite chegava
e me postei junto à janela no 3° andar
no escuro e olhei para uma
cozinha que ficava no outro lado do 2° andar
e avistei uma bela garota loira
abraçar um jovem e ali beijá-lo
com o que parecia ser fome
e fiquei parado a olhá-los até que se
separassem.
então dei meia-volta e acendi a luz do quarto.
vi minha cômoda e suas gavetas
e meu despertador sobre ela.
peguei o relógio
e o levei pra cama comigo
trepei com ele até que os ponteiros caíssem fora.
depois saí e vaguei pelas ruas
até sentir meus pés se encherem de bolhas.
quando voltei fui até a janela
e olhei pra baixo e lá pro outro lado
e a luz na cozinha deles estava
apagada.
1 203
Charles Bukowski
Guerra de Trincheira
abatido pela gripe
bebendo cerveja
o rádio num volume
suficientemente alto para superar
os sons produzidos
pelo estéreo das pessoas que
recém se mudaram
para a casa
ao lado.
dormindo ou acordados
eles ajustam seu aparelho
no volume máximo
deixando suas
portas e janelas
abertas.
cada um deles tem
18, casados, vestem
sapatos vermelhos,
são loiros,
magros.
tocam de
tudo: jazz,
música clássica, rock,
country, moderna
contanto que esteja
alta.
este é o problema
de ser pobre:
temos que conviver com
o som dos outros.
semana passada foi
minha vez:
havia duas mulheres
aqui
brigando entre si
e elas
correram pela calçada
gritando.
a polícia veio.
agora é a vez
deles.
agora caminho
pra lá e pra cá em
meus calções sujos,
dois tampões de borracha
enfiados bem fundo
em meus ouvidos.
chego a pensar em
assassinato.
esses coelhos
pequenos e rudes!
pedacinhos ambulantes
de ranho!
mas na nossa terra
e do nosso jeito
nunca terá havido
uma chance;
somente quando
as coisas não estão
indo tão mal
por um instante
que esquecemos.
algum dia cada um
deles estará morto
algum dia cada um
deles terá um
caixão separado
e então haverá
silêncio.
mas por ora
é Bob Dylan
Bob Dylan Bob
Dylan por aí
afora.
bebendo cerveja
o rádio num volume
suficientemente alto para superar
os sons produzidos
pelo estéreo das pessoas que
recém se mudaram
para a casa
ao lado.
dormindo ou acordados
eles ajustam seu aparelho
no volume máximo
deixando suas
portas e janelas
abertas.
cada um deles tem
18, casados, vestem
sapatos vermelhos,
são loiros,
magros.
tocam de
tudo: jazz,
música clássica, rock,
country, moderna
contanto que esteja
alta.
este é o problema
de ser pobre:
temos que conviver com
o som dos outros.
semana passada foi
minha vez:
havia duas mulheres
aqui
brigando entre si
e elas
correram pela calçada
gritando.
a polícia veio.
agora é a vez
deles.
agora caminho
pra lá e pra cá em
meus calções sujos,
dois tampões de borracha
enfiados bem fundo
em meus ouvidos.
chego a pensar em
assassinato.
esses coelhos
pequenos e rudes!
pedacinhos ambulantes
de ranho!
mas na nossa terra
e do nosso jeito
nunca terá havido
uma chance;
somente quando
as coisas não estão
indo tão mal
por um instante
que esquecemos.
algum dia cada um
deles estará morto
algum dia cada um
deles terá um
caixão separado
e então haverá
silêncio.
mas por ora
é Bob Dylan
Bob Dylan Bob
Dylan por aí
afora.
1 136
Charles Bukowski
Roubada
sigo pensando que ela estará lá fora
agora
esperando por mim
azul
o para-choque frontal amassado
a cruz de Malta pendurada
no retrovisor.
o tapete de borracha
embolado debaixo dos pedais.
8 km/l
o bom e velho TRV 491
a fiel amante de um homem,
o modo como eu lhe engatava a segunda
ao dobrar uma esquina
o modo como ela podia furar um sinal
quando ninguém estava por perto.
o modo como conquistávamos enormes
e pequenos espaços
chuva
sol
neblina
hostilidade
o impacto das coisas.
saí das lutas no Olympic na última
terça-feira à noite
e minha caranga tinha sumido
com outro amante
para outro lugar.
as lutas tinham sido boas.
chamei um táxi numa estação
e me sentei numa cafeteria para comer
uma rosquinha com geleia acompanhada de café e
esperei,
e eu sabia que se encontrasse
o homem que a havia roubado
eu o mataria.
o táxi chegou. acenei para o
motorista, paguei pela rosquinha e pelo
café, saí noite afora,
entrei no carro, e lhe disse, “Hollywood com
a Western”, e naquela noite
em específico aquilo foi tudo.
agora
esperando por mim
azul
o para-choque frontal amassado
a cruz de Malta pendurada
no retrovisor.
o tapete de borracha
embolado debaixo dos pedais.
8 km/l
o bom e velho TRV 491
a fiel amante de um homem,
o modo como eu lhe engatava a segunda
ao dobrar uma esquina
o modo como ela podia furar um sinal
quando ninguém estava por perto.
o modo como conquistávamos enormes
e pequenos espaços
chuva
sol
neblina
hostilidade
o impacto das coisas.
saí das lutas no Olympic na última
terça-feira à noite
e minha caranga tinha sumido
com outro amante
para outro lugar.
as lutas tinham sido boas.
chamei um táxi numa estação
e me sentei numa cafeteria para comer
uma rosquinha com geleia acompanhada de café e
esperei,
e eu sabia que se encontrasse
o homem que a havia roubado
eu o mataria.
o táxi chegou. acenei para o
motorista, paguei pela rosquinha e pelo
café, saí noite afora,
entrei no carro, e lhe disse, “Hollywood com
a Western”, e naquela noite
em específico aquilo foi tudo.
970
Pablo Neruda
Iii - a Cidade Ferida
Berlim cortado
continuava sangrando
secreto sangue, escura
a noite ia e vinha.
O resplendor do tempo
como um relâmpago em Berlim do Este
iluminava o passo
dos jovens livres
que levantavam a cidade novamente.
Na sombra passei de lado a lado
e a tristeza de uma idade antiga
me encheu o coração como uma pá
carregada de imundície.
Em Berlim custodiava o Ocidente
sua “Liberdade” imunda,
e ali também estava
a estátua com seu falso
fanal, sua carranca leprosa
pintada de alcoólico carmim,
e na mão o garrote
recém-desembarcado de Chicago.
Berlim Ocidental, com teu mercado
de jovens rameiras
e de soldados invasores ébrios,
Berlim Ocidental, para vender tua pobre
mercadoria
saturaste os muros
de afixos com pernas obscenas,
de vampiras seminuas,
e até os cigarros um sabor
de vício negro têm.
Os pederastas dançam apertando-se
com os técnicos do State Department.
As lésbicas descobriram
seu protegido paraíso
e seu santo: San Ridgway.
Berlim Ocidental, és a pústula
do rosto antigo da Europa,
os velhos zorros nazistas
resvalam no muco
de tuas iluminadas ruas sujas,
e Coca-Cola e anti-semitismo
correm em abundância
sobre teus excrementos e tuas ruínas.
Es a cidade maldita, filha da tartaruga Truman
e do desterrado crocodilo hitleriano,
e afiam-lhe os dentes,
e dão-lhe baionetas
enquanto o boogy-boogy
desencadeia o fio delirante
do mercado sexual para soldados.
“Jovenzinha alemã
de dezenove abris
busca o velho senhor, ou comerciante
estabelecido, para vender-lhe logo
sua juventude”, diz o jornal.
E na sombra terrível
da noite que passa
desembarcam os tanques.
Os gases que assassinaram
na metade da Europa
voltam a serem fabricados
com monopólio norte-americano.
Velhos carrascos nazistas
saem de novo e ladram
nos cafés, olfateando o sangue,
a arte abstrata e o conflito da “alma”
são temas das artes, salpicadas
com sangue e sexo,
como nos bons tempos de Adolfo
fecham jornais e golpeiam o ventre
de alguma mocinha comunista
que lhes cospe no rosto.
Assim é a vida,
e neste Berlim tombaram homens
em todos os cachos da morte.
Para esta cidade negra,
pustular, venenosa,
a Liberdade deu suas maiores veias,
sangrando desde o Volga
até as águas negras do Sprea.
Para este baile norte-americano
e este garrotaço de Washington,
lutaram, ai, lutaram
todos os homens
de um mar até outro,
até todas as terras e as ilhas.
Por isso voo passo a passo
a Berlim Oriental, também a noite
cobre os telhados quebrados,
mas eu vejo o sonho,
sei que o trabalho dorme
para na noite acumular sua força.
Vejo os últimos jovens que cantam
voltando das fábricas.
Vejo
a luz através da noite,
a cor das flores
que enchiam os trens quando cheguei à Alemanha.
Respiro porque o homem
aqui é meu irmão.
Aqui não preparam o lobo,
aqui não afiam os dentes
para desenfrear a carnificina.
Aqui cheira
à escola varrida e regada,
cheira a tijolos recém-transportados,
cheira à água fresca,
cheira à padaria,
cheira à verdade e a vento.
continuava sangrando
secreto sangue, escura
a noite ia e vinha.
O resplendor do tempo
como um relâmpago em Berlim do Este
iluminava o passo
dos jovens livres
que levantavam a cidade novamente.
Na sombra passei de lado a lado
e a tristeza de uma idade antiga
me encheu o coração como uma pá
carregada de imundície.
Em Berlim custodiava o Ocidente
sua “Liberdade” imunda,
e ali também estava
a estátua com seu falso
fanal, sua carranca leprosa
pintada de alcoólico carmim,
e na mão o garrote
recém-desembarcado de Chicago.
Berlim Ocidental, com teu mercado
de jovens rameiras
e de soldados invasores ébrios,
Berlim Ocidental, para vender tua pobre
mercadoria
saturaste os muros
de afixos com pernas obscenas,
de vampiras seminuas,
e até os cigarros um sabor
de vício negro têm.
Os pederastas dançam apertando-se
com os técnicos do State Department.
As lésbicas descobriram
seu protegido paraíso
e seu santo: San Ridgway.
Berlim Ocidental, és a pústula
do rosto antigo da Europa,
os velhos zorros nazistas
resvalam no muco
de tuas iluminadas ruas sujas,
e Coca-Cola e anti-semitismo
correm em abundância
sobre teus excrementos e tuas ruínas.
Es a cidade maldita, filha da tartaruga Truman
e do desterrado crocodilo hitleriano,
e afiam-lhe os dentes,
e dão-lhe baionetas
enquanto o boogy-boogy
desencadeia o fio delirante
do mercado sexual para soldados.
“Jovenzinha alemã
de dezenove abris
busca o velho senhor, ou comerciante
estabelecido, para vender-lhe logo
sua juventude”, diz o jornal.
E na sombra terrível
da noite que passa
desembarcam os tanques.
Os gases que assassinaram
na metade da Europa
voltam a serem fabricados
com monopólio norte-americano.
Velhos carrascos nazistas
saem de novo e ladram
nos cafés, olfateando o sangue,
a arte abstrata e o conflito da “alma”
são temas das artes, salpicadas
com sangue e sexo,
como nos bons tempos de Adolfo
fecham jornais e golpeiam o ventre
de alguma mocinha comunista
que lhes cospe no rosto.
Assim é a vida,
e neste Berlim tombaram homens
em todos os cachos da morte.
Para esta cidade negra,
pustular, venenosa,
a Liberdade deu suas maiores veias,
sangrando desde o Volga
até as águas negras do Sprea.
Para este baile norte-americano
e este garrotaço de Washington,
lutaram, ai, lutaram
todos os homens
de um mar até outro,
até todas as terras e as ilhas.
Por isso voo passo a passo
a Berlim Oriental, também a noite
cobre os telhados quebrados,
mas eu vejo o sonho,
sei que o trabalho dorme
para na noite acumular sua força.
Vejo os últimos jovens que cantam
voltando das fábricas.
Vejo
a luz através da noite,
a cor das flores
que enchiam os trens quando cheguei à Alemanha.
Respiro porque o homem
aqui é meu irmão.
Aqui não preparam o lobo,
aqui não afiam os dentes
para desenfrear a carnificina.
Aqui cheira
à escola varrida e regada,
cheira a tijolos recém-transportados,
cheira à água fresca,
cheira à padaria,
cheira à verdade e a vento.
963
Charles Bukowski
Camas, Banheiros, Você E Eu...
pensando nas camas
usadas e reutilizadas
para trepar
para morrer.
nesta terra
alguns de nós trepam mais do que
nós morremos
mas a maioria de nós morre
melhor do que
trepamos,
e morremos
bocado a bocado também –
em parques
tomando sorvete, ou
nos iglus
da demência,
ou em esteiras de palha
ou sobre amores
desembarcados
ou
ou.
:camas, camas, camas
:banheiros, banheiros, banheiros
o sistema de esgoto humano
é a maior invenção do
mundo.
e você me inventou
e eu inventei você
e é por isso que nós não
damos
mais certo
nesta cama.
você era a maior invenção
do mundo
até que resolveu
me mandar descarga
abaixo.
agora é a sua vez
de esperar que alguém aperte
o botão.
alguém fará isso
com você,
puta,
e se eles não fizerem
você fará –
misturada ao seu próprio
adeus
verde ou amarelo ou branco
ou azul
ou lavanda.
usadas e reutilizadas
para trepar
para morrer.
nesta terra
alguns de nós trepam mais do que
nós morremos
mas a maioria de nós morre
melhor do que
trepamos,
e morremos
bocado a bocado também –
em parques
tomando sorvete, ou
nos iglus
da demência,
ou em esteiras de palha
ou sobre amores
desembarcados
ou
ou.
:camas, camas, camas
:banheiros, banheiros, banheiros
o sistema de esgoto humano
é a maior invenção do
mundo.
e você me inventou
e eu inventei você
e é por isso que nós não
damos
mais certo
nesta cama.
você era a maior invenção
do mundo
até que resolveu
me mandar descarga
abaixo.
agora é a sua vez
de esperar que alguém aperte
o botão.
alguém fará isso
com você,
puta,
e se eles não fizerem
você fará –
misturada ao seu próprio
adeus
verde ou amarelo ou branco
ou azul
ou lavanda.
1 212
Charles Bukowski
Noite de Natal, Sozinho
noite de Natal, sozinho,
num quarto de motel
junto à costa
perto do Pacífico –
ouviu?
eles tentaram fazer desse lugar algo
espanhol, há
tapeçarias e lâmpadas, e
o banheiro é limpo, há
minibarras de sabonete
rosa.
não nos encontrarão por
aqui:
as piranhas ou as damas ou
os adoradores
de ídolos.
lá na cidade
eles estão bêbados e em pânico
furando sinais vermelhos
arrebentando suas cabeças
em homenagem ao aniversário de
Cristo. isso é uma beleza.
em breve terei terminado esta garrafa de
rum porto-riquenho.
pela manhã vomitarei e tomarei
banho, voltarei para
casa, comerei um sanduíche à uma da tarde,
estarei no meu quarto por volta das
duas,
estirado na cama,
esperando o telefone tocar,
sem responder,
meu feriado é uma
evasão, minha razão
não é.
num quarto de motel
junto à costa
perto do Pacífico –
ouviu?
eles tentaram fazer desse lugar algo
espanhol, há
tapeçarias e lâmpadas, e
o banheiro é limpo, há
minibarras de sabonete
rosa.
não nos encontrarão por
aqui:
as piranhas ou as damas ou
os adoradores
de ídolos.
lá na cidade
eles estão bêbados e em pânico
furando sinais vermelhos
arrebentando suas cabeças
em homenagem ao aniversário de
Cristo. isso é uma beleza.
em breve terei terminado esta garrafa de
rum porto-riquenho.
pela manhã vomitarei e tomarei
banho, voltarei para
casa, comerei um sanduíche à uma da tarde,
estarei no meu quarto por volta das
duas,
estirado na cama,
esperando o telefone tocar,
sem responder,
meu feriado é uma
evasão, minha razão
não é.
2 372
Charles Bukowski
O Humilde Herdou
se eu sofro assim diante dessa
máquina de escrever
pense em como eu me sentiria
entre os colhedores
de alface em Salinas?
penso nos homens
que conheci nas
fábricas
sem qualquer chance de
escapar –
sufocados enquanto vivem
sufocados enquanto riem
de Bob Hope ou Lucille
Ball enquanto
2 ou 3 crianças jogam
bolas de tênis contra
as paredes.
alguns suicídios jamais são
registrados.
máquina de escrever
pense em como eu me sentiria
entre os colhedores
de alface em Salinas?
penso nos homens
que conheci nas
fábricas
sem qualquer chance de
escapar –
sufocados enquanto vivem
sufocados enquanto riem
de Bob Hope ou Lucille
Ball enquanto
2 ou 3 crianças jogam
bolas de tênis contra
as paredes.
alguns suicídios jamais são
registrados.
1 141
Charles Bukowski
Uma Janela de Vidros Espelhados
cães e anjos não são
muito diferentes.
frequentemente vou comer nesse
lugar
por volta das 2h20 da tarde
porque todas as pessoas que almoçam
ali estão particularmente arruinadas
felizes pelo simples fato de estarem vivas e
comendo feijão
próximas a uma janela de vidros espelhados
que impede a passagem do calor
e não deixa que os carros e as
calçadas cheguem ao interior.
podemos tomar quanto café
de graça quisermos
e nos sentamos e em silêncio bebemos
o café preto e forte.
é bom estar sentado em algum lugar
neste mundo às 2h20 da tarde
sem sentir-se carneado até o
branco dos ossos. mesmo
estando arruinados, sabemos disso.
ninguém nos incomoda
não incomodamos ninguém.
anjos e cães não são
muito diferentes
às 2h20 da tarde.
tenho minha mesa favorita
e depois de terminar
empilho os pratos, pires,
o copo, os talheres
com cuidado –
faço à sorte minha oferenda –
e lá fora o sol
segue trabalhando bem
descrevendo
seu arco
enquanto aqui dentro
reina
a escuridão.
muito diferentes.
frequentemente vou comer nesse
lugar
por volta das 2h20 da tarde
porque todas as pessoas que almoçam
ali estão particularmente arruinadas
felizes pelo simples fato de estarem vivas e
comendo feijão
próximas a uma janela de vidros espelhados
que impede a passagem do calor
e não deixa que os carros e as
calçadas cheguem ao interior.
podemos tomar quanto café
de graça quisermos
e nos sentamos e em silêncio bebemos
o café preto e forte.
é bom estar sentado em algum lugar
neste mundo às 2h20 da tarde
sem sentir-se carneado até o
branco dos ossos. mesmo
estando arruinados, sabemos disso.
ninguém nos incomoda
não incomodamos ninguém.
anjos e cães não são
muito diferentes
às 2h20 da tarde.
tenho minha mesa favorita
e depois de terminar
empilho os pratos, pires,
o copo, os talheres
com cuidado –
faço à sorte minha oferenda –
e lá fora o sol
segue trabalhando bem
descrevendo
seu arco
enquanto aqui dentro
reina
a escuridão.
1 115
Charles Bukowski
Um Cavalo de Olhos Azul-Esverdeados
o que você vê é aquilo que vê:
os hospícios raramente
estão visíveis.
que continuemos caminhando por aí
e nos coçando e acendendo
cigarros
é mais miraculoso
do que os banhos das beldades
do que as rosas e as mariposas.
sentar-se em um pequeno quarto
e beber uma latinha de cerveja
e fechar um cigarro
ouvindo Brahms
em um radinho vermelho
é como ter voltado
de uma dúzia de batalhas
com vida
ouvir o som
da geladeira
enquanto as beldades banhadas apodrecem
e as laranjas e maçãs
rolam para longe.
os hospícios raramente
estão visíveis.
que continuemos caminhando por aí
e nos coçando e acendendo
cigarros
é mais miraculoso
do que os banhos das beldades
do que as rosas e as mariposas.
sentar-se em um pequeno quarto
e beber uma latinha de cerveja
e fechar um cigarro
ouvindo Brahms
em um radinho vermelho
é como ter voltado
de uma dúzia de batalhas
com vida
ouvir o som
da geladeira
enquanto as beldades banhadas apodrecem
e as laranjas e maçãs
rolam para longe.
1 151
Charles Bukowski
12:18 A.M.
decapitado no meio da
noite
coçando os lados do meu corpo
estou coberto de mordidas
livro aos chutes minhas pernas brancas dos lençóis
enquanto as sirenes soam
há um disparo de arma de fogo.
vou à cozinha
em busca de um copo d’água
destruir o devaneio de uma barata
destruir a própria barata.
um vendaval vem do norte
enquanto o homem no apartamento
da frente
enfia seu pau no rabo de sua
filha de 4
anos.
escuto os gritos
acendo um charuto
enfio-o nos lábios de minha
cabeça decapitada.
é um corona
envelhecido
um Medalist Naturáles, Nº 7.
retorno ao banheiro
com um inseticida.
aperto a válvula.
sai o spray. tenho
náuseas,
penso em antigas batalhas
em amores mortos.
tanta coisa acontece na escuridão
ainda que amanhã
o sol continue seguindo seu rumo,
você receberá uma multa se estacionar
do lado sul de uma rua numa
quinta-feira
ou do lado norte na
sexta.
a eficiência do sol e da
lei
protege a sanidade.
alguma coisa me morde.
disparo
enlouquecidamente o spray em meus
lençóis.
volto-me
vejo o espelho na escuridão –
o charuto
a pança flácida
meu reflexo
envelhecido.
dou uma risada.
é bom que eles não
saibam.
pego minha cabeça
coloco-a novamente em meu
pescoço
entro sob os lençóis e
não consigo dormir.
noite
coçando os lados do meu corpo
estou coberto de mordidas
livro aos chutes minhas pernas brancas dos lençóis
enquanto as sirenes soam
há um disparo de arma de fogo.
vou à cozinha
em busca de um copo d’água
destruir o devaneio de uma barata
destruir a própria barata.
um vendaval vem do norte
enquanto o homem no apartamento
da frente
enfia seu pau no rabo de sua
filha de 4
anos.
escuto os gritos
acendo um charuto
enfio-o nos lábios de minha
cabeça decapitada.
é um corona
envelhecido
um Medalist Naturáles, Nº 7.
retorno ao banheiro
com um inseticida.
aperto a válvula.
sai o spray. tenho
náuseas,
penso em antigas batalhas
em amores mortos.
tanta coisa acontece na escuridão
ainda que amanhã
o sol continue seguindo seu rumo,
você receberá uma multa se estacionar
do lado sul de uma rua numa
quinta-feira
ou do lado norte na
sexta.
a eficiência do sol e da
lei
protege a sanidade.
alguma coisa me morde.
disparo
enlouquecidamente o spray em meus
lençóis.
volto-me
vejo o espelho na escuridão –
o charuto
a pança flácida
meu reflexo
envelhecido.
dou uma risada.
é bom que eles não
saibam.
pego minha cabeça
coloco-a novamente em meu
pescoço
entro sob os lençóis e
não consigo dormir.
879
Charles Bukowski
Junkies
“ela aplicou no pescoço”, ela me
disse. eu disse que era para me aplicar
na bunda e ela tentou e disse, “oh-oh”,
e eu disse, “que merda está acontecendo?”
ela disse, “nada, este é o modo Nova York
de fazer a coisa”, e tentou enfiar a agulha de novo e disse,
“oh, merda”. Peguei o negócio e tentei me aplicar
no braço, consegui injetar uma parte.
“não sei por que as pessoas
se metem com isso, não há nada
de mais. acho que são todos uns coitados
e querem realmente chegar ao fundo do poço. não
há saída, é como se eles não conseguissem
chegar onde querem ou pretendem
e não tivessem outra saída.
isso tinha que ser assim.
ela aplicou no pescoço.”
“eu sei”, eu disse. “liguei pra ela, ela
mal conseguia falar, disse que estava com
laringite. tome um pouco deste vinho.”
era vinho branco e 4h20 da manhã e sua
filha dormia no quarto. a tevê
a cabo estava ligada sem volume e
um enorme pôster com um John Wayne ainda jovem
nos velava, e não nos beijamos nem sequer fizemos
amor e acabei saindo de lá às 6h15
depois que a cerveja e o vinho acabaram
e também para que sua filha não acordasse para ir ao
colégio e me encontrasse ali sentado na
cama de sua mãe
com o John Wayne e a noite encerrada
e sem quaisquer esperanças para quem quer que fosse...
disse. eu disse que era para me aplicar
na bunda e ela tentou e disse, “oh-oh”,
e eu disse, “que merda está acontecendo?”
ela disse, “nada, este é o modo Nova York
de fazer a coisa”, e tentou enfiar a agulha de novo e disse,
“oh, merda”. Peguei o negócio e tentei me aplicar
no braço, consegui injetar uma parte.
“não sei por que as pessoas
se metem com isso, não há nada
de mais. acho que são todos uns coitados
e querem realmente chegar ao fundo do poço. não
há saída, é como se eles não conseguissem
chegar onde querem ou pretendem
e não tivessem outra saída.
isso tinha que ser assim.
ela aplicou no pescoço.”
“eu sei”, eu disse. “liguei pra ela, ela
mal conseguia falar, disse que estava com
laringite. tome um pouco deste vinho.”
era vinho branco e 4h20 da manhã e sua
filha dormia no quarto. a tevê
a cabo estava ligada sem volume e
um enorme pôster com um John Wayne ainda jovem
nos velava, e não nos beijamos nem sequer fizemos
amor e acabei saindo de lá às 6h15
depois que a cerveja e o vinho acabaram
e também para que sua filha não acordasse para ir ao
colégio e me encontrasse ali sentado na
cama de sua mãe
com o John Wayne e a noite encerrada
e sem quaisquer esperanças para quem quer que fosse...
775
Charles Bukowski
99 Para Um
o tubarão resplandecente
quer meus bagos
enquanto atravesso a seção de carnes
em busca de salame e queijo
donas de casa púrpuras
apalpando abacates de 75 centavos
sabem que meu carrinho é um
pau monstruoso
sou um homem com um relógio antigo
parado em uma cabine telefônica numa espelunca
chupando um bico vermelho como morango
de cabeça para baixo em meio à multidão na Filadélfia.
de repente tudo ao meu redor são gritos de
ESTUPRO ESTUPRO ESTUPRO ESTUPRO ESTUPRO
e eu estou metendo em alguma coisa debaixo de mim
cabelos de um ruivo opaco, mau hálito, dentes azuis
costumava gostar de Monet
costumava gostar muito de Monet
era divertido, eu pensava, o que ele fazia
com as cores
mulheres são caras demais
coleiras para cachorro são caras
vou começar a vender ar em sacos alaranjados
com os dizeres: florescências da lua
costumava gostar de garrafas cheias de sangue
jovens garotas em casacos de pelo de camelo
Príncipe Valente
o toque mágico do Popeye
o esforço está no esforço
como um saca-rolhas
um homem de verdade não deixa farelos de cortiça no vinho
este pensamento já ocorreu a milhões de homens
ao se barbearem
a remoção da vida talvez fosse preferível à
remoção dos pelos
cuspa algodão e limpe seu espelho
retrovisor, corra como se tivesse vontade, ex-atleta,
as putas vencerão, os tolos vencerão,
mas dispare como um cavalo ao sinal da largada.
quer meus bagos
enquanto atravesso a seção de carnes
em busca de salame e queijo
donas de casa púrpuras
apalpando abacates de 75 centavos
sabem que meu carrinho é um
pau monstruoso
sou um homem com um relógio antigo
parado em uma cabine telefônica numa espelunca
chupando um bico vermelho como morango
de cabeça para baixo em meio à multidão na Filadélfia.
de repente tudo ao meu redor são gritos de
ESTUPRO ESTUPRO ESTUPRO ESTUPRO ESTUPRO
e eu estou metendo em alguma coisa debaixo de mim
cabelos de um ruivo opaco, mau hálito, dentes azuis
costumava gostar de Monet
costumava gostar muito de Monet
era divertido, eu pensava, o que ele fazia
com as cores
mulheres são caras demais
coleiras para cachorro são caras
vou começar a vender ar em sacos alaranjados
com os dizeres: florescências da lua
costumava gostar de garrafas cheias de sangue
jovens garotas em casacos de pelo de camelo
Príncipe Valente
o toque mágico do Popeye
o esforço está no esforço
como um saca-rolhas
um homem de verdade não deixa farelos de cortiça no vinho
este pensamento já ocorreu a milhões de homens
ao se barbearem
a remoção da vida talvez fosse preferível à
remoção dos pelos
cuspa algodão e limpe seu espelho
retrovisor, corra como se tivesse vontade, ex-atleta,
as putas vencerão, os tolos vencerão,
mas dispare como um cavalo ao sinal da largada.
1 190
Charles Bukowski
Boletim do Tempo
suponho que esteja chovendo em alguma cidade espanhola
neste momento
enquanto me sinto mal
deste jeito;
gosto de pensar nisso
agora.
vamos a um vilarejo mexicano –
isso soa bem:
um vilarejo mexicano
enquanto me sinto mal
deste jeito
as paredes amareladas pelo tempo –
aquela chuva
lá fora,
um porco se movendo em seu chiqueiro à noite
incomodado pela chuva,
os olhos diminutos como pontas de cigarro,
e seu maldito rabo:
pode vê-lo?
não consigo imaginar as pessoas.
talvez elas também estejam se sentindo mal,
quase tão mal quanto eu.
pergunto-me o que elas fazem quando se sentem
assim?
provavelmente não o mencionam.
dizem apenas,
“veja, está chovendo”.
Assim é melhor mesmo.
neste momento
enquanto me sinto mal
deste jeito;
gosto de pensar nisso
agora.
vamos a um vilarejo mexicano –
isso soa bem:
um vilarejo mexicano
enquanto me sinto mal
deste jeito
as paredes amareladas pelo tempo –
aquela chuva
lá fora,
um porco se movendo em seu chiqueiro à noite
incomodado pela chuva,
os olhos diminutos como pontas de cigarro,
e seu maldito rabo:
pode vê-lo?
não consigo imaginar as pessoas.
talvez elas também estejam se sentindo mal,
quase tão mal quanto eu.
pergunto-me o que elas fazem quando se sentem
assim?
provavelmente não o mencionam.
dizem apenas,
“veja, está chovendo”.
Assim é melhor mesmo.
1 117
Pablo Neruda
Iii - Terceiro Canto de Amor a Stalingrado
Stalingrado com as asas tórridas
do verão, as brancas
mansões elevando-se:
uma cidade qualquer.
As pessoas apressadas
em seu trabalho.
Um cão cruza
o dia poeirento.
Uma moça corre
com um papel na mão.
Não passa nada,
exceto o Volga
de águas escuras.
Uma a uma as casas
se levantaram
lá do peito do homem,
e voltaram os selos do correio,
os buracos das caixas postais,
as árvores,
voltaram os meninos,
as escolas,
voltou o amor,
as mães
pariram,
voltaram as cerejas
aos ramos,
o vento
ao céu,
e então?
Sim, é a mesma,
não cabe dúvida.
Aqui esteve a linha,
a rua,
a esquina,
o metro e o centímetro
ali onde nossa vida e a razão
de todas nossas vidas
foi ganha
com sangue.
Aqui se cortou o nó
que apertou a garganta
da História.
Aqui foi. Se parece mentira
que possamos
pisar a rua e ver
a moça e o cão,
escrever uma carta,
mandar um telegrama,
mas talvez
para isto,
para este dia igual
a cada dia,
para este sol simples
na paz dos homens
foi a vitória,
aqui, nesta cinza
da terra sagrada.
Pão de hoje, livro de hoje, pinheiro recente
plantado esta manhã,
luminosa avenida
recém-chegada do papel
ali onde o engenheiro
a traçou sob o vento da guerra,
menina que passas, cão
que atravessas o dia poento,
oh milagres,
milagres do sangue,
milagres do aço e do Partido,
milagres de nosso novo mundo.
Ramo de acácia com espinhos e flores,
ali onde, ali onde
terás maior perfume
que neste lugar em que todo perfume foi apagado,
em que tudo caiu
menos o homem,
e homem destes dias,
o soldado soviético?
Oh, ramo perfumado,
cheiras
aqui
mais que uma reunida primavera!
Aqui cheiras a homem e a esperança,
aqui, ramo de acácia,
não pôde queimar-te o fogo
nem sepultar-te o vento da morte.
Aqui ressuscitaste cada dia
sem ter morrido nunca,
e hoje em teu aroma o infinito humano
de ontem e de amanhã,
de passado amanhã,
nos volta para dar sua eternidade florida.
És como a usina de tratores:
hoje florescem de novo
grandes flores metálicas
que penetrarão na terra
para que a semente
seja multiplicada.
Também a usina
foi cinza,
ferro retorcido, espuma
sangrenta da guerra,
mas seu coração não se deteve,
foi aprendendo a morrer e a renascer.
Stalingrado ensinou ao mundo
a suprema lição da vida:
nascer, nascer, nascer,
e nascia
morrendo,
disparava
nascendo,
ia de bruços e se levantava
com um raio na mão.
Toda a noite ia sangrando
e já na aurora
podia ceder sangue
a todas as cidades da terra.
Empalidecia com a neve negra
e toda a morte caindo
e quando olhavas
para vê-la tombar, quando chorávamos
seu final de fortaleza,
ela nos sorria,
Stalingrado
nos sorria.
E agora
a morte se foi:
só algumas paredes,
alguma contorção de ferro
bombardeado e retorcido,
só algum rastro
como uma cicatriz de orgulho,
hoje tudo é claridade, lua e espaço,
decisão e brancura,
e no alto
um ramo de acácia,
folhas, flores, espinhos defensores,
a imensa primavera
de Stalingrado,
o invencível aroma
de Stalingrado!
do verão, as brancas
mansões elevando-se:
uma cidade qualquer.
As pessoas apressadas
em seu trabalho.
Um cão cruza
o dia poeirento.
Uma moça corre
com um papel na mão.
Não passa nada,
exceto o Volga
de águas escuras.
Uma a uma as casas
se levantaram
lá do peito do homem,
e voltaram os selos do correio,
os buracos das caixas postais,
as árvores,
voltaram os meninos,
as escolas,
voltou o amor,
as mães
pariram,
voltaram as cerejas
aos ramos,
o vento
ao céu,
e então?
Sim, é a mesma,
não cabe dúvida.
Aqui esteve a linha,
a rua,
a esquina,
o metro e o centímetro
ali onde nossa vida e a razão
de todas nossas vidas
foi ganha
com sangue.
Aqui se cortou o nó
que apertou a garganta
da História.
Aqui foi. Se parece mentira
que possamos
pisar a rua e ver
a moça e o cão,
escrever uma carta,
mandar um telegrama,
mas talvez
para isto,
para este dia igual
a cada dia,
para este sol simples
na paz dos homens
foi a vitória,
aqui, nesta cinza
da terra sagrada.
Pão de hoje, livro de hoje, pinheiro recente
plantado esta manhã,
luminosa avenida
recém-chegada do papel
ali onde o engenheiro
a traçou sob o vento da guerra,
menina que passas, cão
que atravessas o dia poento,
oh milagres,
milagres do sangue,
milagres do aço e do Partido,
milagres de nosso novo mundo.
Ramo de acácia com espinhos e flores,
ali onde, ali onde
terás maior perfume
que neste lugar em que todo perfume foi apagado,
em que tudo caiu
menos o homem,
e homem destes dias,
o soldado soviético?
Oh, ramo perfumado,
cheiras
aqui
mais que uma reunida primavera!
Aqui cheiras a homem e a esperança,
aqui, ramo de acácia,
não pôde queimar-te o fogo
nem sepultar-te o vento da morte.
Aqui ressuscitaste cada dia
sem ter morrido nunca,
e hoje em teu aroma o infinito humano
de ontem e de amanhã,
de passado amanhã,
nos volta para dar sua eternidade florida.
És como a usina de tratores:
hoje florescem de novo
grandes flores metálicas
que penetrarão na terra
para que a semente
seja multiplicada.
Também a usina
foi cinza,
ferro retorcido, espuma
sangrenta da guerra,
mas seu coração não se deteve,
foi aprendendo a morrer e a renascer.
Stalingrado ensinou ao mundo
a suprema lição da vida:
nascer, nascer, nascer,
e nascia
morrendo,
disparava
nascendo,
ia de bruços e se levantava
com um raio na mão.
Toda a noite ia sangrando
e já na aurora
podia ceder sangue
a todas as cidades da terra.
Empalidecia com a neve negra
e toda a morte caindo
e quando olhavas
para vê-la tombar, quando chorávamos
seu final de fortaleza,
ela nos sorria,
Stalingrado
nos sorria.
E agora
a morte se foi:
só algumas paredes,
alguma contorção de ferro
bombardeado e retorcido,
só algum rastro
como uma cicatriz de orgulho,
hoje tudo é claridade, lua e espaço,
decisão e brancura,
e no alto
um ramo de acácia,
folhas, flores, espinhos defensores,
a imensa primavera
de Stalingrado,
o invencível aroma
de Stalingrado!
1 178
Pablo Neruda
I - Meu Amigo Das Ruas
Pelas ruas de Praga no inverno diariamente
passei junto aos muros da casa de pedra
em que foi torturado Julius Fucik.
A casa não diz nada, pedra cor de inverno,
barras de ferro, janelas surdas.
Mas diariamente passei por ali,
olhei, toquei os muros, busquei o eco,
a palavra, a voz, a pisada pura
do herói.
E assim saiu seu semblante
uma vez, e suas mãos outra tarde,
e logo todo o homem foi acompanhando-me,
foi acompanhando-me,
através da praça Wencelas, um bom amigo,
comigo pelo velho mercado de Havelska,
pelo jardim de Starhov, de onde
Praga se eleva como uma rosa cinzenta.
passei junto aos muros da casa de pedra
em que foi torturado Julius Fucik.
A casa não diz nada, pedra cor de inverno,
barras de ferro, janelas surdas.
Mas diariamente passei por ali,
olhei, toquei os muros, busquei o eco,
a palavra, a voz, a pisada pura
do herói.
E assim saiu seu semblante
uma vez, e suas mãos outra tarde,
e logo todo o homem foi acompanhando-me,
foi acompanhando-me,
através da praça Wencelas, um bom amigo,
comigo pelo velho mercado de Havelska,
pelo jardim de Starhov, de onde
Praga se eleva como uma rosa cinzenta.
1 214
Pablo Neruda
V - Eras a Vida
Pelas ruas de Praga
tua figura,
não porém um deus alado,
mas o pálido rosto perseguido
que depois da morte nos sorri.
O herói que não leva
em sua cabeça imóvel
os lauréis de pedra esquecida,
mas um chapéu velho
e no bolso o último
recado do Partido,
o clandestino da meia-noite
e a aurora organizada,
a circular que marcha
com sua tinta fresca,
e assim rua após rua
Fucik, com tuas instruções,
Fucik, com teus folhetos,
com teu velho chapéu, sem orgulho
nem humildade, temperando
as armas da resistência,
e andando para a morte
com a tranquilidade do transeunte
que deve vê-la na próxima esquina,
pelas ruas de pérola antiga
do inverno de Praga,
enquanto o inimigo no castelo
ladrava a sua matilha,
de uma rua a outra rua
organizavas
de teu povo a unidade, a vitória
que hoje coroa a paz de tua pátria.
tua figura,
não porém um deus alado,
mas o pálido rosto perseguido
que depois da morte nos sorri.
O herói que não leva
em sua cabeça imóvel
os lauréis de pedra esquecida,
mas um chapéu velho
e no bolso o último
recado do Partido,
o clandestino da meia-noite
e a aurora organizada,
a circular que marcha
com sua tinta fresca,
e assim rua após rua
Fucik, com tuas instruções,
Fucik, com teus folhetos,
com teu velho chapéu, sem orgulho
nem humildade, temperando
as armas da resistência,
e andando para a morte
com a tranquilidade do transeunte
que deve vê-la na próxima esquina,
pelas ruas de pérola antiga
do inverno de Praga,
enquanto o inimigo no castelo
ladrava a sua matilha,
de uma rua a outra rua
organizavas
de teu povo a unidade, a vitória
que hoje coroa a paz de tua pátria.
1 204
Charles Bukowski
Scarlet
fico feliz quando elas chegam
e feliz quando se vão
feliz quando escuto os saltos
se aproximando de minha porta
feliz quando esses saltos
se afastam
feliz por foder
feliz por me importar
feliz quando tudo termina
e
desde que as coisas ou estão
começando ou terminando
fico feliz
a maior parte do tempo
e os gatos caminham pra cima e pra baixo
e a terra gira em torno do sol
e o telefone toca:
“é a Scarlet”.
“quem?”
“Scarlet.”
“certo, pinta aí.”
e desligo pensando
talvez seja isso
entro
dou uma cagada rápida
me barbeio
me banho
me visto
ponho o lixo
e as caixas cheias de garrafas vazias
pra fora
me sento ao som dos
saltos se aproximando
parecendo mais a aproximação de um exército
do que o som da vitória
é Scarlet
e na minha cozinha a torneira
continua pingando
precisando de conserto.
cuidarei disso mais
tarde.
e feliz quando se vão
feliz quando escuto os saltos
se aproximando de minha porta
feliz quando esses saltos
se afastam
feliz por foder
feliz por me importar
feliz quando tudo termina
e
desde que as coisas ou estão
começando ou terminando
fico feliz
a maior parte do tempo
e os gatos caminham pra cima e pra baixo
e a terra gira em torno do sol
e o telefone toca:
“é a Scarlet”.
“quem?”
“Scarlet.”
“certo, pinta aí.”
e desligo pensando
talvez seja isso
entro
dou uma cagada rápida
me barbeio
me banho
me visto
ponho o lixo
e as caixas cheias de garrafas vazias
pra fora
me sento ao som dos
saltos se aproximando
parecendo mais a aproximação de um exército
do que o som da vitória
é Scarlet
e na minha cozinha a torneira
continua pingando
precisando de conserto.
cuidarei disso mais
tarde.
1 259
Raul Seixas
Óculos Escuros
Esta luz tá muito forte
Tenho medo de cegar
Os meus olhos tão manchados
Com teus raios de luar
Eu deixei a vela acesa
Para a bruxa não voltar
Acendi a luz de dia
Para a noite não chiar
Já bebi daquela água
Quero agora vomitar
Uma vez a gente aceita
Duas tem que reclamar
A serpente está na terra
O programa está no ar
Vim de longe, de outra terra
Pra mirder teu calcanhar
Esta noite eu tive um sonho
Eu queria me matar
Com dois galos a galinha não tem tempo de chocar
Tanto pé na nossa frente que não sabe como andar
Quem não tem colírio usa óculos escuros
Quem não tem papel dá recado pelo muro
Quem não tem presente se conforma com o futuro!
Tenho medo de cegar
Os meus olhos tão manchados
Com teus raios de luar
Eu deixei a vela acesa
Para a bruxa não voltar
Acendi a luz de dia
Para a noite não chiar
Já bebi daquela água
Quero agora vomitar
Uma vez a gente aceita
Duas tem que reclamar
A serpente está na terra
O programa está no ar
Vim de longe, de outra terra
Pra mirder teu calcanhar
Esta noite eu tive um sonho
Eu queria me matar
Com dois galos a galinha não tem tempo de chocar
Tanto pé na nossa frente que não sabe como andar
Quem não tem colírio usa óculos escuros
Quem não tem papel dá recado pelo muro
Quem não tem presente se conforma com o futuro!
1 716
Pablo Neruda
Ix - Com Meu Amigo de Praga
Feliz tua pátria, Tchecoslováquia, mãe
de olhos de aço, pétala preferida
da Europa, coroada
pela paz de teu povo!
Doces colinas, águas, telhados vermelhos,
e trêmulos como chuva verde
eleva o lúpulo seus fios verticais,
enquanto em Gotwaldov uma colmeia
de inteligência e de razão sustenta
a nova rosa do trabalho humano.
Oh, Fucik, vem, visita
comigo,
comigo o limpo chão de tua pátria,
verde, branco e dourado,
e nela iluminando-a,
a claridade do povo!
Honra ao novo sulco
e à nova jornada,
e ao aço invencível de Kladno!
Ao homem novo que penetra
nas oficinas e nas praças,
às novas pontes seguras
sobre o tremor do velho rio,
através de Fucik, meu amigo,
meu companheiro silencioso,
que foi comigo mostrando tudo
na cor do inverno de Praga,
com seu velho chapéu invisível
e seu doce sorriso mudo,
pela vida e pela morte,
a herança e o dom que nos fez.
Julius Fucik, eu te saúdo,
Tchecoslováquia renovada,
mãe de rapazes simples,
terra dos calados heróis,
república de névoa e cristal,
cacho, espiga, aço, povo!
de olhos de aço, pétala preferida
da Europa, coroada
pela paz de teu povo!
Doces colinas, águas, telhados vermelhos,
e trêmulos como chuva verde
eleva o lúpulo seus fios verticais,
enquanto em Gotwaldov uma colmeia
de inteligência e de razão sustenta
a nova rosa do trabalho humano.
Oh, Fucik, vem, visita
comigo,
comigo o limpo chão de tua pátria,
verde, branco e dourado,
e nela iluminando-a,
a claridade do povo!
Honra ao novo sulco
e à nova jornada,
e ao aço invencível de Kladno!
Ao homem novo que penetra
nas oficinas e nas praças,
às novas pontes seguras
sobre o tremor do velho rio,
através de Fucik, meu amigo,
meu companheiro silencioso,
que foi comigo mostrando tudo
na cor do inverno de Praga,
com seu velho chapéu invisível
e seu doce sorriso mudo,
pela vida e pela morte,
a herança e o dom que nos fez.
Julius Fucik, eu te saúdo,
Tchecoslováquia renovada,
mãe de rapazes simples,
terra dos calados heróis,
república de névoa e cristal,
cacho, espiga, aço, povo!
1 173
Pablo Neruda
Iv - Construindo a Paz
Mas a vida
ali também estava.
Em outra parte e outras horas
de minha vida, a morte
me esperou nas esquinas.
Aqui a vida espera.
Vi em Gdansk a vida
repovoando-se.
Beijaram-me
os motores com lábios de aço.
A água trepidava.
Avistei majestosas
passar como castelos sobre a água
as gruas de ferro marinho,
recém-reconstruídas.
Vi o gigantesco
novelo machucado
do ferro sobre o ferro
bombardeado
dar à luz pouco a pouco
a forma das gruas,
e despertar do fundo da morte
a majestade azul do estaleiro.
ali também estava.
Em outra parte e outras horas
de minha vida, a morte
me esperou nas esquinas.
Aqui a vida espera.
Vi em Gdansk a vida
repovoando-se.
Beijaram-me
os motores com lábios de aço.
A água trepidava.
Avistei majestosas
passar como castelos sobre a água
as gruas de ferro marinho,
recém-reconstruídas.
Vi o gigantesco
novelo machucado
do ferro sobre o ferro
bombardeado
dar à luz pouco a pouco
a forma das gruas,
e despertar do fundo da morte
a majestade azul do estaleiro.
1 481
Raul Seixas
Sacrilégio
Eu acordo de madrugada
Eu acordo com quase nada
Areei meus dentes
Penteei os cabelos
Enxagüei meu rosto inchado
Me armei da 007
Me meti no paletó
Quase me enforquei no nó
Da minha gravata
Um beijo na minha mulher
E dezessete beijos e meio
Um em cada filho meu
Meninada que eu tenho estima e afeição
Eu sou bancário
Meu banco é de sangue
Eu sou bancário
Eu jorro meu sangue
Eu sou bancário
Os olhos de Drácula
Pousam sobre mim
Firme, na escuta do PBX
Eu acordo com quase nada
Areei meus dentes
Penteei os cabelos
Enxagüei meu rosto inchado
Me armei da 007
Me meti no paletó
Quase me enforquei no nó
Da minha gravata
Um beijo na minha mulher
E dezessete beijos e meio
Um em cada filho meu
Meninada que eu tenho estima e afeição
Eu sou bancário
Meu banco é de sangue
Eu sou bancário
Eu jorro meu sangue
Eu sou bancário
Os olhos de Drácula
Pousam sobre mim
Firme, na escuta do PBX
1 083
Pablo Neruda
Iii - As Ruínas No Báltico
Gdansk, atormentado pela guerra,
rosa despedaçada,
como espectro entre espectros,
entre o cheiro marinho
e o alto céu branco,
andei entre tuas ruínas,
entre pedaços de prata alaranjada.
A névoa entrou comigo,
os vapores glaciais,
e errante
desenlacei as ruas
sem casas e sem homens.
Eu conheço a guerra
e esse rosto sem olhos e sem lábios,
essas janelas mortas
as conheço,
vi-as em Madri, em Berlim, em Varsóvia,
mas esta gótica nave
com sua cinza de tijolos vermelhos
junto ao mar, na porta
das antigas viagens,
esta figura mercantil de proa,
balandra verde dos mares frios,
com suas dilacerantes aberturas,
seus muros em munhões,
seu orgulho demolido,
me entraram na alma
com rajadas de neve, pó e fumo,
algo enceguecedor, desesperado.
A casa das agremiações
com seus sinais caídos,
os bancos em que o ouro tilintava
tombando na garganta da Europa,
os molhes vermelhos
onde um rio
de cereais trouxe
como uma onda terrestre
o olor do verão,
tudo era pó, montes
de matéria desfeita,
e o vento do Báltico férreo
voando no vazio.
Vi com meus olhos
pulular o rocio da onda
na ressurreição das carenas,
das proas bordadas
pelo homem recém-desenterrado.
Vislumbrei
como nascia um porto,
mas não das águas e as terras
lavadas e lustradas,
mas da catástrofe.
E eu te vi, titânica pomba,
branca e azul, marinha,
nascer e levantar-te
voando firme e forte
lá da destruição emaranhada
e da sangrenta solidão
do vento e as cinzas!
rosa despedaçada,
como espectro entre espectros,
entre o cheiro marinho
e o alto céu branco,
andei entre tuas ruínas,
entre pedaços de prata alaranjada.
A névoa entrou comigo,
os vapores glaciais,
e errante
desenlacei as ruas
sem casas e sem homens.
Eu conheço a guerra
e esse rosto sem olhos e sem lábios,
essas janelas mortas
as conheço,
vi-as em Madri, em Berlim, em Varsóvia,
mas esta gótica nave
com sua cinza de tijolos vermelhos
junto ao mar, na porta
das antigas viagens,
esta figura mercantil de proa,
balandra verde dos mares frios,
com suas dilacerantes aberturas,
seus muros em munhões,
seu orgulho demolido,
me entraram na alma
com rajadas de neve, pó e fumo,
algo enceguecedor, desesperado.
A casa das agremiações
com seus sinais caídos,
os bancos em que o ouro tilintava
tombando na garganta da Europa,
os molhes vermelhos
onde um rio
de cereais trouxe
como uma onda terrestre
o olor do verão,
tudo era pó, montes
de matéria desfeita,
e o vento do Báltico férreo
voando no vazio.
Vi com meus olhos
pulular o rocio da onda
na ressurreição das carenas,
das proas bordadas
pelo homem recém-desenterrado.
Vislumbrei
como nascia um porto,
mas não das águas e as terras
lavadas e lustradas,
mas da catástrofe.
E eu te vi, titânica pomba,
branca e azul, marinha,
nascer e levantar-te
voando firme e forte
lá da destruição emaranhada
e da sangrenta solidão
do vento e as cinzas!
990
Pablo Neruda
Meio-Dia - XXXVIII
Tua casa ressoa como um trem ao meio-dia,
zumbem as vespas, cantam as caçarolas,
a cascata enumera os feitos do orvalho
teu riso desenvolve seu trinar de palmeira.
A luz azul do muro conversa com a pedra,
chega como um pastor silvando um telegrama
e, entre as duas figueiras de voz verde,
Homero sobe com sapatos sigilosos.
Somente aqui a cidade não tem voz nem pranto,
nem sem-fim, nem sonatas, nem lábios, nem buzina
mas um discurso de cascata e de leões,
e tu que sobes, cantas, corres, caminhas, desces,
plantas, coses, cozinhas, pregas, escreves, voltas
ou te foste e se sabe que começou o inverno.
zumbem as vespas, cantam as caçarolas,
a cascata enumera os feitos do orvalho
teu riso desenvolve seu trinar de palmeira.
A luz azul do muro conversa com a pedra,
chega como um pastor silvando um telegrama
e, entre as duas figueiras de voz verde,
Homero sobe com sapatos sigilosos.
Somente aqui a cidade não tem voz nem pranto,
nem sem-fim, nem sonatas, nem lábios, nem buzina
mas um discurso de cascata e de leões,
e tu que sobes, cantas, corres, caminhas, desces,
plantas, coses, cozinhas, pregas, escreves, voltas
ou te foste e se sabe que começou o inverno.
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