Poemas neste tema
Cidade e Cotidiano
Charles Bukowski
Liberdade
ela estava sentada na janela
do quarto 1010 no Chelsea
em Nova York,
o antigo quarto de Janis Joplin.
fazia 40 graus
e ela estava alterada
e tinha uma perna para fora
do peitoril,
e se inclinava para fora e dizia,
“Deus isso é ótimo!”
e então ela escorregou
e quase caiu lá embaixo,
agarrando-se no momento final.
foi por pouco.
voltou para dentro e se esticou
na cama.
já perdi um bocado de mulheres
de um bocado de modos diferentes
mas teria sido
a primeira vez
desse modo.
então ela rolou da cama
caindo de costas
e quando me aproximei
ela estava dormindo.
ela passara o dia todo querendo
ver a Estátua da Liberdade.
agora por um tempo ela não me incomodaria
com isso.
do quarto 1010 no Chelsea
em Nova York,
o antigo quarto de Janis Joplin.
fazia 40 graus
e ela estava alterada
e tinha uma perna para fora
do peitoril,
e se inclinava para fora e dizia,
“Deus isso é ótimo!”
e então ela escorregou
e quase caiu lá embaixo,
agarrando-se no momento final.
foi por pouco.
voltou para dentro e se esticou
na cama.
já perdi um bocado de mulheres
de um bocado de modos diferentes
mas teria sido
a primeira vez
desse modo.
então ela rolou da cama
caindo de costas
e quando me aproximei
ela estava dormindo.
ela passara o dia todo querendo
ver a Estátua da Liberdade.
agora por um tempo ela não me incomodaria
com isso.
1 284
Charles Bukowski
Ela Saiu do Banheiro Com Sua Cabeleira Ruiva Flamejante E Disse...
os policiais querem que eu vá até lá e identifique
um cara que tentou me estuprar.
perdi outra vez a chave do meu carro; tenho
a que abre a porta, mas não a que dá partida na
ignição.
essas pessoas estão tentando tirar minha filha de mim,
mas eu não vou deixar.
Rochelle quase tomou uma overdose, então foi até o
Harry com um bagulho, e ele a pegou de jeito.
ela teve as costelas fissuradas, você sabe,
e uma delas lhe perfurou o pulmão. ela
está no hospital conectada a uma máquina.
onde está meu pente?
o seu está sempre imundo.
eu lhe disse,
eu não vi o seu
pente.
um cara que tentou me estuprar.
perdi outra vez a chave do meu carro; tenho
a que abre a porta, mas não a que dá partida na
ignição.
essas pessoas estão tentando tirar minha filha de mim,
mas eu não vou deixar.
Rochelle quase tomou uma overdose, então foi até o
Harry com um bagulho, e ele a pegou de jeito.
ela teve as costelas fissuradas, você sabe,
e uma delas lhe perfurou o pulmão. ela
está no hospital conectada a uma máquina.
onde está meu pente?
o seu está sempre imundo.
eu lhe disse,
eu não vi o seu
pente.
1 091
Charles Bukowski
Uma Aposta Perdida
ela não é pra você, cara,
não faz o seu tipo,
ela foi maltratada
foi usada
adquiriu todos os maus
hábitos,
ele me disse
entre um páreo e outro.
vou apostar no cavalo 4,
eu lhe disse.
bem, é que eu gostaria apenas
de tentar tirá-la
da correnteza,
salvá-la, pode-se dizer.
você não conseguirá, ele disse,
você tem 55, precisa de gentileza.
vou apostar no cavalo 6.
você não é o cara para
salvá-la.
e você pode? perguntei.
não acho que o 6 tenha
chance, prefiro o 4.
ela precisa de alguém que lhe desça a mão,
que a jogue na parede, ele disse,
que lhe chute o rabo, ela vai adorar.
ficará em casa e
lavará a louça.
o cavalo 6 vai estar na
disputa.
não sou bom nesse negócio de bater em mulher,
eu disse.
então tire ela da cabeça, ele disse.
não é fácil, respondi.
ele se levantou e foi no 6
e eu me levantei e fui no 4.
o cavalo 5 ganhou
por 3 corpos
pagando 15 para um.
os cabelos dela são ruivos
como relâmpagos vindos do paraíso,
eu disse.
tire ela da cabeça, ele disse.
rasgamos nossos bilhetes
e olhamos para o lago
no centro da pista.
aquela ia ser
uma longa tarde
para nós dois.
não faz o seu tipo,
ela foi maltratada
foi usada
adquiriu todos os maus
hábitos,
ele me disse
entre um páreo e outro.
vou apostar no cavalo 4,
eu lhe disse.
bem, é que eu gostaria apenas
de tentar tirá-la
da correnteza,
salvá-la, pode-se dizer.
você não conseguirá, ele disse,
você tem 55, precisa de gentileza.
vou apostar no cavalo 6.
você não é o cara para
salvá-la.
e você pode? perguntei.
não acho que o 6 tenha
chance, prefiro o 4.
ela precisa de alguém que lhe desça a mão,
que a jogue na parede, ele disse,
que lhe chute o rabo, ela vai adorar.
ficará em casa e
lavará a louça.
o cavalo 6 vai estar na
disputa.
não sou bom nesse negócio de bater em mulher,
eu disse.
então tire ela da cabeça, ele disse.
não é fácil, respondi.
ele se levantou e foi no 6
e eu me levantei e fui no 4.
o cavalo 5 ganhou
por 3 corpos
pagando 15 para um.
os cabelos dela são ruivos
como relâmpagos vindos do paraíso,
eu disse.
tire ela da cabeça, ele disse.
rasgamos nossos bilhetes
e olhamos para o lago
no centro da pista.
aquela ia ser
uma longa tarde
para nós dois.
1 141
Charles Bukowski
Óculos Escuros
nunca uso óculos escuros
mas esta ruiva foi buscar
uma receita preenchida no Hollywood Blvd.
e ela seguia discutindo comigo,
rilhando os dentes e rosnando.
deixei-a junto ao balcão da prescrição
e fui dar uma volta e comprei um enorme tubo de
Crest e uma garrafa gigante de Joy.
então me aproximei de um mostruário de óculos escuros
e comprei o mais terrível par
que pude encontrar.
pagamos por nossas coisas
fomos até um restaurante mexicano
e ela pediu um taco do qual não daria conta
e ficou ali sentada
rilhando os dentes e rosnando e rosnando pra mim
e após comer pedi 3 cervejas
sequei-as
depois pus meus óculos.
“ó meu Deus”, ela disse, “puta que pariu!”
e eu a acertei dos dois lados
a mais excelente das respostas
rosnando fedorentas balas de marmelada
rajadas de merda
peidos vindos do inferno,
então me levantei
paguei
ela saindo atrás de mim
nós dois de óculos escuros
e as calçadas se dividindo.
encontramos o carro dela
entramos e partimos
eu ali sentado
empurrando os óculos novamente contra meu nariz
arrancando-lhe a espinha
agitando-a do lado de fora da janela
como um mastro partido da Confederação...
os óculos escuros e malévolos ajudando.
“puta que pariu!” ela disse,
e o sol brilhava no céu
e eu não percebia.
saíram a bagatela de US$ 4.25
mesmo levando-se em consideração que esqueci a Crest
e a Joy no
mexicano do taco.
mas esta ruiva foi buscar
uma receita preenchida no Hollywood Blvd.
e ela seguia discutindo comigo,
rilhando os dentes e rosnando.
deixei-a junto ao balcão da prescrição
e fui dar uma volta e comprei um enorme tubo de
Crest e uma garrafa gigante de Joy.
então me aproximei de um mostruário de óculos escuros
e comprei o mais terrível par
que pude encontrar.
pagamos por nossas coisas
fomos até um restaurante mexicano
e ela pediu um taco do qual não daria conta
e ficou ali sentada
rilhando os dentes e rosnando e rosnando pra mim
e após comer pedi 3 cervejas
sequei-as
depois pus meus óculos.
“ó meu Deus”, ela disse, “puta que pariu!”
e eu a acertei dos dois lados
a mais excelente das respostas
rosnando fedorentas balas de marmelada
rajadas de merda
peidos vindos do inferno,
então me levantei
paguei
ela saindo atrás de mim
nós dois de óculos escuros
e as calçadas se dividindo.
encontramos o carro dela
entramos e partimos
eu ali sentado
empurrando os óculos novamente contra meu nariz
arrancando-lhe a espinha
agitando-a do lado de fora da janela
como um mastro partido da Confederação...
os óculos escuros e malévolos ajudando.
“puta que pariu!” ela disse,
e o sol brilhava no céu
e eu não percebia.
saíram a bagatela de US$ 4.25
mesmo levando-se em consideração que esqueci a Crest
e a Joy no
mexicano do taco.
1 080
Fernando Pessoa
Através do ruído do café cheio de gente
Através do ruído do café cheio de gente
Chega-me a brisa que passa pelo convés
Nas longas viagens, no alto mar, no verão
Perto dos trópicos (no amontoado nocturno do navio —
Sacudido regularmente pela hélice palpitante —
Vejo passar os uniformes brancos dos oficiais de bordo).
E essa brisa traz um ruído de mar-alto, pluro-mar
E a nossa civilização não pertence à minha reminiscência.
Chega-me a brisa que passa pelo convés
Nas longas viagens, no alto mar, no verão
Perto dos trópicos (no amontoado nocturno do navio —
Sacudido regularmente pela hélice palpitante —
Vejo passar os uniformes brancos dos oficiais de bordo).
E essa brisa traz um ruído de mar-alto, pluro-mar
E a nossa civilização não pertence à minha reminiscência.
1 330
Rui Costa
A matéria do ar
Bom dia. Também eu sou feito de marfim.
Estes são os meus amigos d'hoje: folhedo
para entreter as mãos, pontas de madeira
grossa para depois comer. Hoje havia água
e a minha boca é cheia.
Nunca o mínimo deus me salvou.
Nem luz nem a treva. Às vezes, de madrugada,
visito as mulheres que lavam e que cantam.
Trabalho com elas e há um forno transparente
onde cozer o pão. Depois elas perguntam sempre
quem sou e eu respondo: sou alguém que come pão
e que se senta fora da casa com as mãos na terra.
E elas começam a cantar e nunca me falam de
amor.
Ainda tenho pensamentos mas já não os penso.
Falo como o sono nutre a sua teia e o seu
veneno. Só os bichos da terra e os que andam
no céu são brancos. E digo:
Acende uma fogueira ao que sobrar do
mundo.
Estes são os meus amigos d'hoje: folhedo
para entreter as mãos, pontas de madeira
grossa para depois comer. Hoje havia água
e a minha boca é cheia.
Nunca o mínimo deus me salvou.
Nem luz nem a treva. Às vezes, de madrugada,
visito as mulheres que lavam e que cantam.
Trabalho com elas e há um forno transparente
onde cozer o pão. Depois elas perguntam sempre
quem sou e eu respondo: sou alguém que come pão
e que se senta fora da casa com as mãos na terra.
E elas começam a cantar e nunca me falam de
amor.
Ainda tenho pensamentos mas já não os penso.
Falo como o sono nutre a sua teia e o seu
veneno. Só os bichos da terra e os que andam
no céu são brancos. E digo:
Acende uma fogueira ao que sobrar do
mundo.
560
Wanda Ramos
E correram os rios
Correram como rios as palavras
altas e soltas correram os rios na gente
rios de lava Lisboa inflamada acorrendo fremente
nos dias eu se abriram vinda das faldas vertida
dos dormitórios da cintura fumegante e mecanizada
Lisboa livre acorreu
enxameadas as veias avenida da liberdade
rossio terreiro do paço Belém
– e além na outra banda absurdo o cristo:
braços em cruz impotente –
e correndo os rios cada vez mais latos
até o súbito despedaçar-se da seda contra a amurada
afundadas as olheiras da vigília entornadas
as falas em busca do nexo – e achámos esta sorte
o sangue agitado o tempo:
uníssono o nosso grito
escancarado em cada rua
em passo de estar alerta
uníssono ressoou porém mais fundo.
E assim nos pergunto que águas nos lavaram tão de dentro
e levaram alamedas da liberdade acima
que rios tão feitos de luta e punhos? alegria?
altas e soltas correram os rios na gente
rios de lava Lisboa inflamada acorrendo fremente
nos dias eu se abriram vinda das faldas vertida
dos dormitórios da cintura fumegante e mecanizada
Lisboa livre acorreu
enxameadas as veias avenida da liberdade
rossio terreiro do paço Belém
– e além na outra banda absurdo o cristo:
braços em cruz impotente –
e correndo os rios cada vez mais latos
até o súbito despedaçar-se da seda contra a amurada
afundadas as olheiras da vigília entornadas
as falas em busca do nexo – e achámos esta sorte
o sangue agitado o tempo:
uníssono o nosso grito
escancarado em cada rua
em passo de estar alerta
uníssono ressoou porém mais fundo.
E assim nos pergunto que águas nos lavaram tão de dentro
e levaram alamedas da liberdade acima
que rios tão feitos de luta e punhos? alegria?
630
Rui Costa
Autobiografia
Não preciso mas tu sabes como eu sou
encaminho-me pouco divirto-me assim nas copas
das árvores soprando pensamentos para o mundo que há de noite.
As pessoas quando acordam são outras, já sabias,
essa névoa contemporânea do medo miudinho
que perdemos nas cidades e nos corpos, tu entraste
antes de mim nos jogos, o enxofre da música e o
lago do feitiço, inocente homem breve que sonha
tu bem sabes.
Depois aluguei a bruxa por uma vasta noite.
E a minha vida mudou, a noite cresceu.
A vertigem ardeu-me nos braços até à sangria
do tédio quando para sempre julguei que te perdia.
Na luta perdi um ou dois braços,
mais do que o que tinha. Mas esta memória é um palácio,
são corais no pensamento. Jardins e fantasmas.
O gume nas mãos sorvendo, criança estratosférica
e profunda: sem braços e agora sem mais nada,
não me percebeste, enchi-me de fúria.
É uma arte, queria eu dizer, matar sem retrocesso e
atraso – ah aqueles braços para apoiar as mãos –,
ceifando. Saturno e o vento na proa erguendo.
O navio no mar parado, parado: completamente.
Parado como dizer? Não dizer, eu sou uma vida
medonha e múltipla. E agora descanso
deitado nestas mãos que mexem
sem apoio, sabes, nascendo dos teus olhos
p’la manhã.
encaminho-me pouco divirto-me assim nas copas
das árvores soprando pensamentos para o mundo que há de noite.
As pessoas quando acordam são outras, já sabias,
essa névoa contemporânea do medo miudinho
que perdemos nas cidades e nos corpos, tu entraste
antes de mim nos jogos, o enxofre da música e o
lago do feitiço, inocente homem breve que sonha
tu bem sabes.
Depois aluguei a bruxa por uma vasta noite.
E a minha vida mudou, a noite cresceu.
A vertigem ardeu-me nos braços até à sangria
do tédio quando para sempre julguei que te perdia.
Na luta perdi um ou dois braços,
mais do que o que tinha. Mas esta memória é um palácio,
são corais no pensamento. Jardins e fantasmas.
O gume nas mãos sorvendo, criança estratosférica
e profunda: sem braços e agora sem mais nada,
não me percebeste, enchi-me de fúria.
É uma arte, queria eu dizer, matar sem retrocesso e
atraso – ah aqueles braços para apoiar as mãos –,
ceifando. Saturno e o vento na proa erguendo.
O navio no mar parado, parado: completamente.
Parado como dizer? Não dizer, eu sou uma vida
medonha e múltipla. E agora descanso
deitado nestas mãos que mexem
sem apoio, sabes, nascendo dos teus olhos
p’la manhã.
737
Mário-Henrique Leiria
OPERAÇÃO CIRÚRGICA
a re-compensa da perna da reta-guarda
o zumbido do mosquito re-organizado para o surdo-mudo
a manobra suspeita da afinação do oboé
o gesto mais gnânimo de atravessar a ponte suspensa entre o pé e a vírgula
a gangrena sedentária da frase quotidiana
a proposta súbita sobre o preço da pescada
a pátria pautada e apresentada à cobrança
a quebra que dura até ao estalar da vértebra
a agonia radical de coçar a úlcera na doçaria da esquina
a mobilidade persistente do rodízio made-in-england
o direito cívico de usar abundantemente os urinóis
a boca sorridente como um vestígio de cicatriz de navalha
o tampão inesperado…
o zumbido do mosquito re-organizado para o surdo-mudo
a manobra suspeita da afinação do oboé
o gesto mais gnânimo de atravessar a ponte suspensa entre o pé e a vírgula
a gangrena sedentária da frase quotidiana
a proposta súbita sobre o preço da pescada
a pátria pautada e apresentada à cobrança
a quebra que dura até ao estalar da vértebra
a agonia radical de coçar a úlcera na doçaria da esquina
a mobilidade persistente do rodízio made-in-england
o direito cívico de usar abundantemente os urinóis
a boca sorridente como um vestígio de cicatriz de navalha
o tampão inesperado…
478
Álvaro Guerra
antimemória
Viemos do mundo para o mundo
do nosso lugar para o lugar
e perdemos a memória de onde viemos
só o ar que respiramos nos não custa o esforço visível
dor mínima
dor habituada
em tecidos que se usam e se rompem
o resto é nunca nos inscrevermos
senão com violência
entre as acumuladas pedras da cidade
(ou) sobre o caprichoso húmus
inventando o esquecimento
e perseguindo a inventada liberdade
do infinito sempre interrogando
um regresso
uma despedida
suamos a passagem
soamos a rangente esperança
somos amos desta soma de anos não somados
consolamentum excomungado
redenção crucificada
sabemos que acabar lutando é começar
e da beleza é tudo o que sabemos
do nosso lugar para o lugar
e perdemos a memória de onde viemos
só o ar que respiramos nos não custa o esforço visível
dor mínima
dor habituada
em tecidos que se usam e se rompem
o resto é nunca nos inscrevermos
senão com violência
entre as acumuladas pedras da cidade
(ou) sobre o caprichoso húmus
inventando o esquecimento
e perseguindo a inventada liberdade
do infinito sempre interrogando
um regresso
uma despedida
suamos a passagem
soamos a rangente esperança
somos amos desta soma de anos não somados
consolamentum excomungado
redenção crucificada
sabemos que acabar lutando é começar
e da beleza é tudo o que sabemos
1 047
Fernando Pessoa
Ah, os primeiros minutos nos cafés de novas cidades!
Ah, os primeiros minutos nos cafés de novas cidades!
A chegada pela manhã a cais ou a gares
Cheios de um silêncio repousado e claro!
Os primeiros passantes nas ruas das cidades a que se chega...
E o som especial que o correr das horas tem nas viagens...
Os ónibus ou os eléctricos ou os automóveis...
O novo aspecto das ruas de novas terras...
A paz que parecem ter para a nossa dor
O bulício alegre para a nossa tristeza
A falta de monotonia para o nosso coração cansado!...
As praças nitidamente quadradas e grandes,
As ruas com as casas que se aproximam ao fim,
As ruas transversais revelando súbitos interesses,
E através disto tudo, como uma coisa que inunda e nunca transborda,
O movimento, o movimento
Rápida coisa colorida e humana que passa e fica...
Os portos com navios parados.
Excessivamente navios parados,
Com barcos pequenos ao pé esperando...
A chegada pela manhã a cais ou a gares
Cheios de um silêncio repousado e claro!
Os primeiros passantes nas ruas das cidades a que se chega...
E o som especial que o correr das horas tem nas viagens...
Os ónibus ou os eléctricos ou os automóveis...
O novo aspecto das ruas de novas terras...
A paz que parecem ter para a nossa dor
O bulício alegre para a nossa tristeza
A falta de monotonia para o nosso coração cansado!...
As praças nitidamente quadradas e grandes,
As ruas com as casas que se aproximam ao fim,
As ruas transversais revelando súbitos interesses,
E através disto tudo, como uma coisa que inunda e nunca transborda,
O movimento, o movimento
Rápida coisa colorida e humana que passa e fica...
Os portos com navios parados.
Excessivamente navios parados,
Com barcos pequenos ao pé esperando...
1 324
Mário-Henrique Leiria
WILHELM REICH
Passando como a faca profissional
cortante e exacta
através da porta da noite rigorosa
riscando a pedra clara
com a última fúria armada de granada
solitário como a árvore
na véspera do funeral familiar
dirigindo a máquina
de esfolar fascismos ditos socialistas
organizados em comités de salvação
fazendo a ligação feroz
entre a disciplina proletária
do sexo atento
e a rapidez agressiva de viver
por sim
acabaste extremamente lúcido
no fracasso de inventar
a liberdade certa.
cortante e exacta
através da porta da noite rigorosa
riscando a pedra clara
com a última fúria armada de granada
solitário como a árvore
na véspera do funeral familiar
dirigindo a máquina
de esfolar fascismos ditos socialistas
organizados em comités de salvação
fazendo a ligação feroz
entre a disciplina proletária
do sexo atento
e a rapidez agressiva de viver
por sim
acabaste extremamente lúcido
no fracasso de inventar
a liberdade certa.
616
Fernando Pessoa
São poucos os momentos de prazer na vida...
São poucos os momentos de prazer na vida...
É gozá-la... Sim, já o ouvi dizer muitas vezes
Eu mesmo já o disse. (Repetir é viver.)
É gozá-la não é verdade?
Gozêmo-la, loura falsa, gozêmo-la, casuais e incógnitos,
Tu, com teus gestos de distinção cinematográfica
Com teus olhares para o lado a nada,
Cumprindo a tua função de animal emaranhado;
Eu no plano inclinado da consciência para a indiferença,
Amemo-nos aqui. Tempo é só um dia.
Tenhamos o [romantismo?] dele!
Por trás de mim vigio, involuntariamente.
Sou qualquer nas palavras que te digo, e são suaves — e as que esperas.
Do lado de cá dos meus Alpes, e que Alpes! somos do corpo.
Nada quebra a passagem prometida de uma ligação futura,
E vai tudo elegantemente, como em Paris, Londres, Berlim.
"Percebe-se", dizes, «que o senhor viveu muito no estrangeiro."
E eu que sinto vaidade em ouvi-lo!
Só tenho medo que me vás falar da tua vida...
Cabaret de Lisboa? Visto que o é, seja.
Lembro-me subitamente, visualmente, do anúncio no jornal...
"Rendez-vous da sociedade elegante",
Isto.
Mas nada destas reflexões temerárias e futuras
Interrompe aquela conversa involuntária em que te sou qualquer.
Falo medias e imitações
E cada vez, vejo e sinto, gostas mais de mim a valer que (...) hoje;
É nesta altura que, debruçando-me de repente sobre a mesa
Te segredo em segredo o que exactamente convinha.
Ris, toda olhar e em parte boca, efusiva e próxima,
E eu gosto verdadeiramente de ti.
Soa em nós o gesto sexual de nos irmos embora.
Rodo a cabeça para o pagamento...
Alegre, alacre, sentindo-te, falas...
Sorrio.
Por trás do sorriso, não sou eu.
É gozá-la... Sim, já o ouvi dizer muitas vezes
Eu mesmo já o disse. (Repetir é viver.)
É gozá-la não é verdade?
Gozêmo-la, loura falsa, gozêmo-la, casuais e incógnitos,
Tu, com teus gestos de distinção cinematográfica
Com teus olhares para o lado a nada,
Cumprindo a tua função de animal emaranhado;
Eu no plano inclinado da consciência para a indiferença,
Amemo-nos aqui. Tempo é só um dia.
Tenhamos o [romantismo?] dele!
Por trás de mim vigio, involuntariamente.
Sou qualquer nas palavras que te digo, e são suaves — e as que esperas.
Do lado de cá dos meus Alpes, e que Alpes! somos do corpo.
Nada quebra a passagem prometida de uma ligação futura,
E vai tudo elegantemente, como em Paris, Londres, Berlim.
"Percebe-se", dizes, «que o senhor viveu muito no estrangeiro."
E eu que sinto vaidade em ouvi-lo!
Só tenho medo que me vás falar da tua vida...
Cabaret de Lisboa? Visto que o é, seja.
Lembro-me subitamente, visualmente, do anúncio no jornal...
"Rendez-vous da sociedade elegante",
Isto.
Mas nada destas reflexões temerárias e futuras
Interrompe aquela conversa involuntária em que te sou qualquer.
Falo medias e imitações
E cada vez, vejo e sinto, gostas mais de mim a valer que (...) hoje;
É nesta altura que, debruçando-me de repente sobre a mesa
Te segredo em segredo o que exactamente convinha.
Ris, toda olhar e em parte boca, efusiva e próxima,
E eu gosto verdadeiramente de ti.
Soa em nós o gesto sexual de nos irmos embora.
Rodo a cabeça para o pagamento...
Alegre, alacre, sentindo-te, falas...
Sorrio.
Por trás do sorriso, não sou eu.
1 033
Fernando Pessoa
Mas mesmo assim, de repente mas de vagar, de vagar,
Mas mesmo assim, de repente mas de vagar, de vagar,
Atravessando todas estas coisas modernas e presentes,
Vindo naturalmente através de todas estas coisas e estes ruídos,
Como se tudo isto fosse um vidro fosco transparente a essa luz,
Através do ruído dos guindastes, pelos interstícios do marulhar dos barcos,
Coando pelas frinchas dos assobios dos comboios,
Misteriosamente repassando, ensopando a faina das gentes,
Torna, através do moderno e do actual, a eterna voz marítima,
A eterna voz representativa das grandes coisas oceânicas,
Atravessando todas estas coisas modernas e presentes,
Vindo naturalmente através de todas estas coisas e estes ruídos,
Como se tudo isto fosse um vidro fosco transparente a essa luz,
Através do ruído dos guindastes, pelos interstícios do marulhar dos barcos,
Coando pelas frinchas dos assobios dos comboios,
Misteriosamente repassando, ensopando a faina das gentes,
Torna, através do moderno e do actual, a eterna voz marítima,
A eterna voz representativa das grandes coisas oceânicas,
1 352
Charles Bukowski
O Preço
bebendo um champanhe de 15 dólares –
Cordon Rouge – na companhia de putas.
uma se chama Georgia e
não é chegada em meia-calça:
estou sempre tendo que ajudá-la
com suas longas meias negras.
a outra é Pam – mais bonita
porém meio desalmada, e
fumamos e conversamos e
brinco com suas pernas e
enfio meu pé descalço na
bolsa aberta de Georgia.
está cheia de
frascos com pílulas.
tomo algumas delas.
“escutem”, eu digo, “uma de
vocês tem alma, a outra
aparência. posso combinar
vocês duas? pegar a alma
e enfiar na aparência?”
“se você me quer”, diz Pam, “vai
lhe custar cem pratas.”
bebemos um pouco mais e Georgia
despenca no chão e não consegue
se levantar.
digo a Pam que gosto muito
de suas orelhas. seu
cabelo é longo e natural e
ruivo.
“estava de brincadeira quando falei em
cem”, ela diz.
“oh”, eu digo, “quanto vai me
custar?”
ela acende um cigarro com
meu isqueiro e me olha
através da chama:
seus olhos me dizem.
“olhe”, eu digo, “acho que não
poderei pagar aquele preço novamente.”
ela cruza as pernas
dá uma tragada em seu cigarro
sorri enquanto expele a fumaça
e diz, “claro que pode”.
Cordon Rouge – na companhia de putas.
uma se chama Georgia e
não é chegada em meia-calça:
estou sempre tendo que ajudá-la
com suas longas meias negras.
a outra é Pam – mais bonita
porém meio desalmada, e
fumamos e conversamos e
brinco com suas pernas e
enfio meu pé descalço na
bolsa aberta de Georgia.
está cheia de
frascos com pílulas.
tomo algumas delas.
“escutem”, eu digo, “uma de
vocês tem alma, a outra
aparência. posso combinar
vocês duas? pegar a alma
e enfiar na aparência?”
“se você me quer”, diz Pam, “vai
lhe custar cem pratas.”
bebemos um pouco mais e Georgia
despenca no chão e não consegue
se levantar.
digo a Pam que gosto muito
de suas orelhas. seu
cabelo é longo e natural e
ruivo.
“estava de brincadeira quando falei em
cem”, ela diz.
“oh”, eu digo, “quanto vai me
custar?”
ela acende um cigarro com
meu isqueiro e me olha
através da chama:
seus olhos me dizem.
“olhe”, eu digo, “acho que não
poderei pagar aquele preço novamente.”
ela cruza as pernas
dá uma tragada em seu cigarro
sorri enquanto expele a fumaça
e diz, “claro que pode”.
1 153
Charles Bukowski
Social
o traçado azul da onda
rasgos de estrada amarela
um volante
uma mulher insana sentada
ao seu lado
reclamando enquanto o oceano
faz espuma
e pessoas em motor homes
amarelas e
brancas
impedem sua passagem
por um tempo
frenético
enquanto você escuta
culpado disso e
culpado daquilo
você admite
isso e aquilo
mas nunca é o
suficiente
ela quer conquistas
esplêndidas
e você está escaldado por
essas conquistas
esplêndidas
chegando lá
ela desce
caminha em direção à
casa
você mija junto ao
para-lamas do seu carro
bêbado de cerveja
pequenas gotas de você
pingando na
poeira
na poeira
seca
depois de fechar o zíper você
se põe em marcha
para encontrar os amigos
dela.
rasgos de estrada amarela
um volante
uma mulher insana sentada
ao seu lado
reclamando enquanto o oceano
faz espuma
e pessoas em motor homes
amarelas e
brancas
impedem sua passagem
por um tempo
frenético
enquanto você escuta
culpado disso e
culpado daquilo
você admite
isso e aquilo
mas nunca é o
suficiente
ela quer conquistas
esplêndidas
e você está escaldado por
essas conquistas
esplêndidas
chegando lá
ela desce
caminha em direção à
casa
você mija junto ao
para-lamas do seu carro
bêbado de cerveja
pequenas gotas de você
pingando na
poeira
na poeira
seca
depois de fechar o zíper você
se põe em marcha
para encontrar os amigos
dela.
1 180
Charles Bukowski
Cão
um cão apenas
caminhando sozinho numa calçada quente em pleno
verão
parece ter mais poder
do que dez mil deuses.
por que isso?
caminhando sozinho numa calçada quente em pleno
verão
parece ter mais poder
do que dez mil deuses.
por que isso?
1 360
Charles Bukowski
Sinais de Trânsito
os velhos camaradas jogam
no parque olhando o mar ao longe
pondo marcadores ao longo da pista
com gravetos de madeira.
quatro jogam, dois para cada lado
e 18 ou 20 se sentam ao
sol e assistem
percebo isso enquanto sigo
em direção ao banheiro público
enquanto meu carro está no conserto.
o parque abriga um velho canhão
enferrujado e inútil.
seis ou sete veleiros cortam
o mar lá embaixo.
termino a tarefa
saio
e eles continuam jogando.
uma das mulheres usa uma maquiagem carregada
brincos falsos e fuma
um cigarro.
os homens são muito magros
muito pálidos
usam relógios de pulso que lhes machucam
os pulsos.
a outra mulher é muito gorda
e dá uns risinhos
a cada vez que um ponto é marcado
alguns deles têm a minha idade.
eles me enojam
o modo como esperam pela morte
com tanta paixão
quanto um sinal de trânsito.
essas são as pessoas que acreditam em comerciais
essas são as pessoas que compram dentaduras a prazo
essas são as pessoas que comemoram feriados
essas são as pessoas que têm netos
essas são as pessoas que votam
essas são as pessoas que têm funerais
esses são os mortos
neblina e fumaça
o fedor no ar
os leprosos.
esses são afinal quase todos
que existem.
gaivotas são melhores
algas marinhas são melhores
areia suja é melhor
se pudesse posicionar aquele velho canhão
contra eles
e fazê-lo funcionar
eu o faria.
eles me enojam.
no parque olhando o mar ao longe
pondo marcadores ao longo da pista
com gravetos de madeira.
quatro jogam, dois para cada lado
e 18 ou 20 se sentam ao
sol e assistem
percebo isso enquanto sigo
em direção ao banheiro público
enquanto meu carro está no conserto.
o parque abriga um velho canhão
enferrujado e inútil.
seis ou sete veleiros cortam
o mar lá embaixo.
termino a tarefa
saio
e eles continuam jogando.
uma das mulheres usa uma maquiagem carregada
brincos falsos e fuma
um cigarro.
os homens são muito magros
muito pálidos
usam relógios de pulso que lhes machucam
os pulsos.
a outra mulher é muito gorda
e dá uns risinhos
a cada vez que um ponto é marcado
alguns deles têm a minha idade.
eles me enojam
o modo como esperam pela morte
com tanta paixão
quanto um sinal de trânsito.
essas são as pessoas que acreditam em comerciais
essas são as pessoas que compram dentaduras a prazo
essas são as pessoas que comemoram feriados
essas são as pessoas que têm netos
essas são as pessoas que votam
essas são as pessoas que têm funerais
esses são os mortos
neblina e fumaça
o fedor no ar
os leprosos.
esses são afinal quase todos
que existem.
gaivotas são melhores
algas marinhas são melhores
areia suja é melhor
se pudesse posicionar aquele velho canhão
contra eles
e fazê-lo funcionar
eu o faria.
eles me enojam.
1 156
Charles Bukowski
Cupons
cigarros umedecidos por cerveja
da noite passada
você acende um
se engasga
abre a porta em busca de ar
e junto à entrada
está um pardal morto
sua cabeça e seu peito
arrancados.
pendurado à maçaneta
há um anúncio da All American
Burger
que consiste de alguns cupons
que
dizem
que na compra
de um hambúrguer
de 12 de fev. a 15 de fev.
você ganha de graça
um pacote de batatas
fritas médio e um
copo pequeno de coca-cola.
pego o anúncio
embrulho o pardal com ele
levo até a lata de lixo
e despejo lá
dentro.
veja:
renunciando a batatas fritas e coca
para ajudar a manter
minha cidade
limpa.
da noite passada
você acende um
se engasga
abre a porta em busca de ar
e junto à entrada
está um pardal morto
sua cabeça e seu peito
arrancados.
pendurado à maçaneta
há um anúncio da All American
Burger
que consiste de alguns cupons
que
dizem
que na compra
de um hambúrguer
de 12 de fev. a 15 de fev.
você ganha de graça
um pacote de batatas
fritas médio e um
copo pequeno de coca-cola.
pego o anúncio
embrulho o pardal com ele
levo até a lata de lixo
e despejo lá
dentro.
veja:
renunciando a batatas fritas e coca
para ajudar a manter
minha cidade
limpa.
1 173
Rui Costa
Os turistas
Estes são os turistas e vêm da Grécia
para me ver.
Não sabem que estou extinto
há um milhão de anos
e que me transplantei no vértice de uma
estrela perdida no futuro
luzindo à nossa imagem.
Eis os turistas, com suas rodas de fogo,
como eles chegam afoitos
e estacam diante das pedras
desta cidade que apodrece junto ao rio
porque não sabe distinta forma de amar.
São os turistas,
eles limpam as unhas às gaivotas
e comem pasta de atum
enquanto apertam as sandálias,
e olham para mim,
e levantam-se com o saco a tiracolo e
empunham o arpão
e perguntam se eu sou Herodes e eu
respondo-lhes que não,
nem Platão,
nem o seu vizinho acidental que
dominou a Lídia,
nem o cavalo que decidiu morrer para
ocultar a fuga do Mestre rumo a estâncias
balneares que não devem ser menosprezadas,
mas que posso carregar, sim,
no botão da máquina fotográfica,
e eu caminho os passos necessários e
diante dos séculos que o universo
não contempla
decepo-lhes a cabeça – e volto
para junto de mim
enquanto eles começam a escovar
o cabelo das gaivotas
e entrando num tubo que César
construiu caminham às cegas
para bem longe
da cidade que apodrece junto ao rio.
para me ver.
Não sabem que estou extinto
há um milhão de anos
e que me transplantei no vértice de uma
estrela perdida no futuro
luzindo à nossa imagem.
Eis os turistas, com suas rodas de fogo,
como eles chegam afoitos
e estacam diante das pedras
desta cidade que apodrece junto ao rio
porque não sabe distinta forma de amar.
São os turistas,
eles limpam as unhas às gaivotas
e comem pasta de atum
enquanto apertam as sandálias,
e olham para mim,
e levantam-se com o saco a tiracolo e
empunham o arpão
e perguntam se eu sou Herodes e eu
respondo-lhes que não,
nem Platão,
nem o seu vizinho acidental que
dominou a Lídia,
nem o cavalo que decidiu morrer para
ocultar a fuga do Mestre rumo a estâncias
balneares que não devem ser menosprezadas,
mas que posso carregar, sim,
no botão da máquina fotográfica,
e eu caminho os passos necessários e
diante dos séculos que o universo
não contempla
decepo-lhes a cabeça – e volto
para junto de mim
enquanto eles começam a escovar
o cabelo das gaivotas
e entrando num tubo que César
construiu caminham às cegas
para bem longe
da cidade que apodrece junto ao rio.
522
Pablo Neruda
I - Em Berlim a Manhã
Despertei. Era Berlim. Pela janela
vi o coração desdentado,
a doida sepultura,
a cinza,
as ruínas mais pesadas,
com florões e frisos
malferidos,
sacadas arrancadas por uma negra mandíbula,
paredes que já perderam, que não encontram
suas janelas, suas portas,
seus homens, suas mulheres,
e uma montanha adentro
de escombros amontoados,
sofrimento e soberba confundidos
na farinha final, no moinho
da morte.
Oh cidadela, oh sangue
inutilmente desaparecido,
talvez é esta, é esta
tua primeira vitória,
ainda entre escombros negros
a paz que conheceste,
limpando as cinzas e elevando
tua cidadela para todos os homens,
tirando de tuas ruínas
não os mortos,
mas o homem comum,
o novo homem,
o que edificará as estruturas
do amor e a paz e a vida.
vi o coração desdentado,
a doida sepultura,
a cinza,
as ruínas mais pesadas,
com florões e frisos
malferidos,
sacadas arrancadas por uma negra mandíbula,
paredes que já perderam, que não encontram
suas janelas, suas portas,
seus homens, suas mulheres,
e uma montanha adentro
de escombros amontoados,
sofrimento e soberba confundidos
na farinha final, no moinho
da morte.
Oh cidadela, oh sangue
inutilmente desaparecido,
talvez é esta, é esta
tua primeira vitória,
ainda entre escombros negros
a paz que conheceste,
limpando as cinzas e elevando
tua cidadela para todos os homens,
tirando de tuas ruínas
não os mortos,
mas o homem comum,
o novo homem,
o que edificará as estruturas
do amor e a paz e a vida.
1 089
Charles Bukowski
Barata
a barata rastejou
sobre os ladrilhos
enquanto eu estava mijando e
ao virar minha cabeça
ela enfiou o traseiro
numa fenda.
peguei o inseticida e disparei o aerossol
e disparei e disparei
e finalmente a barata saiu
e me lançou um olhar muito nojento.
então desabou dentro
da banheira e fiquei assistindo à
sua morte
com um prazer sutil
pois eu pagava o aluguel
e ela não.
recolhi-a com
um tipo de papel higiênico
azul-esverdeado e joguei-a
na descarga. era tudo o que se
tinha a fazer, exceto que
nas redondezas de Hollywood e
Western temos que seguir
fazendo isso.
dizem que algum dia essa
tribo herdará
a terra
mas faremos com que
esperem mais
alguns meses.
sobre os ladrilhos
enquanto eu estava mijando e
ao virar minha cabeça
ela enfiou o traseiro
numa fenda.
peguei o inseticida e disparei o aerossol
e disparei e disparei
e finalmente a barata saiu
e me lançou um olhar muito nojento.
então desabou dentro
da banheira e fiquei assistindo à
sua morte
com um prazer sutil
pois eu pagava o aluguel
e ela não.
recolhi-a com
um tipo de papel higiênico
azul-esverdeado e joguei-a
na descarga. era tudo o que se
tinha a fazer, exceto que
nas redondezas de Hollywood e
Western temos que seguir
fazendo isso.
dizem que algum dia essa
tribo herdará
a terra
mas faremos com que
esperem mais
alguns meses.
1 131
Charles Bukowski
Quem, Diabos, É Tom Jones?
por duas semanas
estive dormindo com uma
garota de 24 anos de
Nova York – na época
em que ocorria a greve dos
lixeiros, e certa noite
minha antiga mulher de 34 anos
chegou e disse, “quero ver
minha rival”. foi o que ela fez
e então disse, “ó, você
é a coisinha mais querida!”
depois disso reparei que houve uma
gritaria de gatas selvagens –
urros e unhadas,
lamentos de animal ferido,
sangue e mijo...
eu estava bêbado e só de
calção. tentei
separar as duas e caí,
torcendo o joelho. então
atravessaram a porta e
avançaram rua
afora.
chegaram viaturas cheias
de policiais. um helicóptero da
polícia sobrevoou o local.
fiquei no banheiro
e sorri para o espelho.
não é comum que coisas
tão esplêndidas assim
aconteçam aos 55 anos.
muito melhor do que os distúrbios em
Watts[3].
a de 34 retornou
para dentro. estava toda
mijada e sua roupa
transformada em farrapos e era
seguida por dois policiais que
queriam saber a razão daquilo tudo.
erguendo meus calções
eu tentava explicar.
estive dormindo com uma
garota de 24 anos de
Nova York – na época
em que ocorria a greve dos
lixeiros, e certa noite
minha antiga mulher de 34 anos
chegou e disse, “quero ver
minha rival”. foi o que ela fez
e então disse, “ó, você
é a coisinha mais querida!”
depois disso reparei que houve uma
gritaria de gatas selvagens –
urros e unhadas,
lamentos de animal ferido,
sangue e mijo...
eu estava bêbado e só de
calção. tentei
separar as duas e caí,
torcendo o joelho. então
atravessaram a porta e
avançaram rua
afora.
chegaram viaturas cheias
de policiais. um helicóptero da
polícia sobrevoou o local.
fiquei no banheiro
e sorri para o espelho.
não é comum que coisas
tão esplêndidas assim
aconteçam aos 55 anos.
muito melhor do que os distúrbios em
Watts[3].
a de 34 retornou
para dentro. estava toda
mijada e sua roupa
transformada em farrapos e era
seguida por dois policiais que
queriam saber a razão daquilo tudo.
erguendo meus calções
eu tentava explicar.
1 176
Charles Bukowski
Sorte
o que está mal a respeito disso
tudo
é ver as pessoas
bebendo café e
esperando. gostaria de
embebê-los todos
na sorte. eles precisam
disso. precisam bem
mais do que eu.
sento nos cafés
e os vejo a
esperar. não creio
que haja muito mais
a fazer. as moscas
vão pra lá e pra cá
nos vidros das janelas
e bebemos nosso
café e fingimos
não olhar uns
para os outros.
espero junto com eles.
entre o movimento
das moscas
as pessoas vagueiam.
tudo
é ver as pessoas
bebendo café e
esperando. gostaria de
embebê-los todos
na sorte. eles precisam
disso. precisam bem
mais do que eu.
sento nos cafés
e os vejo a
esperar. não creio
que haja muito mais
a fazer. as moscas
vão pra lá e pra cá
nos vidros das janelas
e bebemos nosso
café e fingimos
não olhar uns
para os outros.
espero junto com eles.
entre o movimento
das moscas
as pessoas vagueiam.
1 314