Poemas neste tema
Cidade e Cotidiano
Charles Bukowski
A Captura
que nojo, ele disse,
puxando o negócio da água,
o que é isso?
uma Baleia Junina com Lordose, eu disse.
não, disse um cara junto a nós no píer,
é um Papa-Terra Voador.
um cara que passava disse,
é um da Esquadrilha Fandango sem as tiras.
apanhamos o gancho e erguemos a coisa que se
peidou toda. era cinzenta e coberta de pelos
e gorda e fedia a meia velha.
ela começou a andar pelo píer e nós a seguimos.
comeu um cachorro-quente e um bolo tomados das mãos de
uma garotinha. então ela saltou de súbito num carrossel
e montou um cavalo malhado. ela desabou perto do fim e
rolou sobre a serragem.
nós a apanhamos.
glub, ela disse, glub.
então ela voltou a cruzar o píer.
uma enorme multidão nos seguia enquanto caminhávamos.
deve ser uma jogada publicitária, disse alguém,
é um homem numa roupa de borracha.
então enquanto caminhava por ali a coisa começou a respirar
com dificuldade. caiu sobre as
próprias costas e começou a se debater.
alguém derramou um copo de cerveja sobre sua cabeça.
glub, ela fazia, glub.
depois disso morreu.
rolamos a coisa até a beirada do píer e a empurramos
de volta para as águas. ficamos vendo-a afundar e sumir.
uma Baleia Junina com Lordose, eu disse.
não, disse o outro cara, é um Papa-Terra Voador.
não, disse o outro entendido, é um da Esquadrilha Fandango
sem as tiras.
então cada um de nós tomou seu rumo em meio à tarde de agosto.
puxando o negócio da água,
o que é isso?
uma Baleia Junina com Lordose, eu disse.
não, disse um cara junto a nós no píer,
é um Papa-Terra Voador.
um cara que passava disse,
é um da Esquadrilha Fandango sem as tiras.
apanhamos o gancho e erguemos a coisa que se
peidou toda. era cinzenta e coberta de pelos
e gorda e fedia a meia velha.
ela começou a andar pelo píer e nós a seguimos.
comeu um cachorro-quente e um bolo tomados das mãos de
uma garotinha. então ela saltou de súbito num carrossel
e montou um cavalo malhado. ela desabou perto do fim e
rolou sobre a serragem.
nós a apanhamos.
glub, ela disse, glub.
então ela voltou a cruzar o píer.
uma enorme multidão nos seguia enquanto caminhávamos.
deve ser uma jogada publicitária, disse alguém,
é um homem numa roupa de borracha.
então enquanto caminhava por ali a coisa começou a respirar
com dificuldade. caiu sobre as
próprias costas e começou a se debater.
alguém derramou um copo de cerveja sobre sua cabeça.
glub, ela fazia, glub.
depois disso morreu.
rolamos a coisa até a beirada do píer e a empurramos
de volta para as águas. ficamos vendo-a afundar e sumir.
uma Baleia Junina com Lordose, eu disse.
não, disse o outro cara, é um Papa-Terra Voador.
não, disse o outro entendido, é um da Esquadrilha Fandango
sem as tiras.
então cada um de nós tomou seu rumo em meio à tarde de agosto.
639
Charles Bukowski
Meu Amigo, Andre
o cara costumava lecionar na Kansas U.
então eles o mandaram embora
ele foi parar numa fábrica de feijão
então ele e sua mulher se mudaram para a costa
ela arrumou um emprego e trabalhou por algum tempo
ele queria encontrar um trabalho como ator.
quero muito ser um ator, ele me disse,
é tudo o que quero ser.
ele aparecia com a mulher.
ele aparecia sozinho.
as ruas aqui da redondeza estão cheias de caras que
querem ser atores.
eu o vi ontem.
ele fechava um cigarro.
servi-lhe um pouco de vinho branco.
minha mulher está cansando de esperar, ele disse,
vou ensinar caratê.
suas mãos estavam inchadas de golpear
tijolos e paredes e portas.
ele me falou sobre os grandes lutadores do
oriente. havia um cara tão bom
que podia virar a cabeça 180 graus
para ver quem estava atrás dele. isso é muito difícil de fazer,
ele disse.
mais: é pior enfrentar 4 homens bem posicionados do que
enfrentar mais adversários. quando há mais gente
eles acabam se atrapalhando, e um bom lutador que tenha
força e agilidade se vira bem.
alguns dos grandes lutadores, ele disse,
conseguem esconder os bagos dentro do próprio corpo.
isto pode ser feito – até certo ponto – porque há
cavidades naturais no corpo... se você ficar de cabeça para baixo
poderá entender o que eu digo.
servi a ele um pouco mais de vinho branco,
então ele se foi.
você sabe, às vezes ter de se virar com uma máquina de escrever
não é no fim das contas
tão doloroso.
então eles o mandaram embora
ele foi parar numa fábrica de feijão
então ele e sua mulher se mudaram para a costa
ela arrumou um emprego e trabalhou por algum tempo
ele queria encontrar um trabalho como ator.
quero muito ser um ator, ele me disse,
é tudo o que quero ser.
ele aparecia com a mulher.
ele aparecia sozinho.
as ruas aqui da redondeza estão cheias de caras que
querem ser atores.
eu o vi ontem.
ele fechava um cigarro.
servi-lhe um pouco de vinho branco.
minha mulher está cansando de esperar, ele disse,
vou ensinar caratê.
suas mãos estavam inchadas de golpear
tijolos e paredes e portas.
ele me falou sobre os grandes lutadores do
oriente. havia um cara tão bom
que podia virar a cabeça 180 graus
para ver quem estava atrás dele. isso é muito difícil de fazer,
ele disse.
mais: é pior enfrentar 4 homens bem posicionados do que
enfrentar mais adversários. quando há mais gente
eles acabam se atrapalhando, e um bom lutador que tenha
força e agilidade se vira bem.
alguns dos grandes lutadores, ele disse,
conseguem esconder os bagos dentro do próprio corpo.
isto pode ser feito – até certo ponto – porque há
cavidades naturais no corpo... se você ficar de cabeça para baixo
poderá entender o que eu digo.
servi a ele um pouco mais de vinho branco,
então ele se foi.
você sabe, às vezes ter de se virar com uma máquina de escrever
não é no fim das contas
tão doloroso.
645
Charles Bukowski
Nervos
contorcendo-se nos lençóis –
para encarar a luz do sol mais uma vez,
isso é problema
na certa.
gosto bem mais da cidade quando as
luzes de neon cintilam e
os corpos nus dançam sobre o balcão de um
bar
ao som da música violenta.
estou aqui debaixo deste lençol
pensando.
meus nervos estão entorpecidos pela
história –
a preocupação mais memorável da humanidade
é a coragem necessária para
encarar a luz do sol mais uma vez.
o amor começa com o encontro de dois
estranhos. amor ao mundo é
impossível. prefiro ficar na cama
e dormir.
desnorteado pelos dias e pelas ruas e pelos anos
puxo as cobertas até o pescoço.
viro minha bunda para a parede.
odeio as manhãs mais do que a
qualquer homem.
para encarar a luz do sol mais uma vez,
isso é problema
na certa.
gosto bem mais da cidade quando as
luzes de neon cintilam e
os corpos nus dançam sobre o balcão de um
bar
ao som da música violenta.
estou aqui debaixo deste lençol
pensando.
meus nervos estão entorpecidos pela
história –
a preocupação mais memorável da humanidade
é a coragem necessária para
encarar a luz do sol mais uma vez.
o amor começa com o encontro de dois
estranhos. amor ao mundo é
impossível. prefiro ficar na cama
e dormir.
desnorteado pelos dias e pelas ruas e pelos anos
puxo as cobertas até o pescoço.
viro minha bunda para a parede.
odeio as manhãs mais do que a
qualquer homem.
764
Charles Bukowski
Nós, Os Artistas –
em São Francisco a senhoria, 80, me ajudou a arrastar a Vitrola
verde escada acima e eu toquei a 5ª do Beethoven
até que batessem nas paredes.
havia um balde enorme no meio do quarto
cheio de garrafas de cerveja e de vinho;
então, pode ter sido o delirium tremens, certa tarde
ouvi o som de algo como um sino
só que o sino estava zunindo ao invés de bater,
e logo uma luz dourada apareceu no canto do quarto
bem perto do teto
e através do som e da luz
brilhou a face de uma mulher, envelhecida mas bonita,
e ela me olhou voltando os olhos para baixo
e então uma face masculina apareceu ao seu lado,
a luz se tornou mais forte e o homem disse:
nós, os artistas, estamos orgulhosos de você!
então a mulher disse: o pobrezinho está assustado,
e eu estava, e então eles desapareceram.
levantei, me vesti, e fui até o bar
me perguntando quem eram os artistas e por que razão estariam
orgulhosos de mim. havia umas vivas almas no bar
e consegui algumas bebidas de graça, coloquei fogo nas calças graças
às brasas do meu cachimbo de sabugo, quebrei um copo deliberadamente,
não me sentia incomodado, conheci um homem que dizia ser William
Saroyan, e bebemos até que uma mulher entrou e
puxou-o para fora pela orelha e pensei, não, esse não pode ser o
William, e um outro cara apareceu e disse: velho, você fala
grosso, bem, escute, há pouco saí por assalto e
agressão, então não se meta comigo! fomos para fora do
bar, ele era um bom garoto, sabia como usar os punhos, e aquilo seguiu
bastante parelho, até que eles nos separaram e voltamos
a entrar e bebemos por mais um par de horas. voltei
para o meu quarto, coloquei a 5a de Beethoven e
quando bateram nas paredes eu bati de
volta.
continuo pensando em mim mesmo jovem, lá, o jeito que eu era,
e mal posso acreditar nisso mas não importa.
espero que os artistas sigam orgulhosos de mim
mas eles nunca mais
retornaram.
a guerra atropelou tudo e quando me dei conta
estava em Nova Orleans
caminhando bêbado até um bar
depois de cair no meio da lama numa noite chuvosa.
vi um homem esfaquear outro e fui até uma juke box
colocar uma moeda.
aquilo era um começo. São
Francisco e Nova Orleans eram duas das minhas
cidades favoritas.
verde escada acima e eu toquei a 5ª do Beethoven
até que batessem nas paredes.
havia um balde enorme no meio do quarto
cheio de garrafas de cerveja e de vinho;
então, pode ter sido o delirium tremens, certa tarde
ouvi o som de algo como um sino
só que o sino estava zunindo ao invés de bater,
e logo uma luz dourada apareceu no canto do quarto
bem perto do teto
e através do som e da luz
brilhou a face de uma mulher, envelhecida mas bonita,
e ela me olhou voltando os olhos para baixo
e então uma face masculina apareceu ao seu lado,
a luz se tornou mais forte e o homem disse:
nós, os artistas, estamos orgulhosos de você!
então a mulher disse: o pobrezinho está assustado,
e eu estava, e então eles desapareceram.
levantei, me vesti, e fui até o bar
me perguntando quem eram os artistas e por que razão estariam
orgulhosos de mim. havia umas vivas almas no bar
e consegui algumas bebidas de graça, coloquei fogo nas calças graças
às brasas do meu cachimbo de sabugo, quebrei um copo deliberadamente,
não me sentia incomodado, conheci um homem que dizia ser William
Saroyan, e bebemos até que uma mulher entrou e
puxou-o para fora pela orelha e pensei, não, esse não pode ser o
William, e um outro cara apareceu e disse: velho, você fala
grosso, bem, escute, há pouco saí por assalto e
agressão, então não se meta comigo! fomos para fora do
bar, ele era um bom garoto, sabia como usar os punhos, e aquilo seguiu
bastante parelho, até que eles nos separaram e voltamos
a entrar e bebemos por mais um par de horas. voltei
para o meu quarto, coloquei a 5a de Beethoven e
quando bateram nas paredes eu bati de
volta.
continuo pensando em mim mesmo jovem, lá, o jeito que eu era,
e mal posso acreditar nisso mas não importa.
espero que os artistas sigam orgulhosos de mim
mas eles nunca mais
retornaram.
a guerra atropelou tudo e quando me dei conta
estava em Nova Orleans
caminhando bêbado até um bar
depois de cair no meio da lama numa noite chuvosa.
vi um homem esfaquear outro e fui até uma juke box
colocar uma moeda.
aquilo era um começo. São
Francisco e Nova Orleans eram duas das minhas
cidades favoritas.
1 155
Charles Bukowski
Charles
92 anos
seu dente tem andado a incomodá-lo
é preciso preenchê-lo
ele perdeu o olho esquerdo 40 anos
atrás
– um açougueiro, ele diz, ele só queria
operar para ganhar grana. mais tarde
descobri que podia ter sido
salvo.
– eu tiro o olho todas as noites, ele diz,
dói. eles nunca fizeram a coisa direito.
– qual dos olhos, Charles?
– este aqui, ele aponta,
então pede licença. ele tem que se levantar e
ir até a
cozinha. ele está assando biscoitos no forno.
logo ele aparece com uma
bandeja.
– experimente alguns.
eu o faço. eles são
bons.
– quer café? ele pergunta.
– não, obrigado, Charles, não tenho conseguido dormir
à noite.
ele se casou aos 70 com uma mulher de
58. 22 anos atrás. agora ela está num lar de idosos.
– ela está melhorando, ele diz, ela me reconhece.
eles a deixam levantar para ir ao banheiro.
– isto é legal, Charles.
– não consigo entender, no entanto, a desgraçada da filha dela, eles acham
que estou atrás de grana.
– há alguma coisa que eu possa fazer por você, Charles? precisa
de alguma coisa da loja, alguma coisa do
gênero?
– não, fiz as compras hoje pela manhã.
suas costas são tão eretas quanto a parede e ele
mal tem
barriga. enquanto conversa
mantém seu único olho na tevê.
– vou indo, Charles, você tem meu número?
– claro.
– como as garotas têm tratado você, Charles?
– meu amigo, faz alguns anos que não tenho pensado
em garotas.
– boa noite, Charles.
– boa noite.
vou até a porta
abro-a
fecho-a
do lado de fora
o cheiro dos biscoitos recém-assados
me acompanha.
seu dente tem andado a incomodá-lo
é preciso preenchê-lo
ele perdeu o olho esquerdo 40 anos
atrás
– um açougueiro, ele diz, ele só queria
operar para ganhar grana. mais tarde
descobri que podia ter sido
salvo.
– eu tiro o olho todas as noites, ele diz,
dói. eles nunca fizeram a coisa direito.
– qual dos olhos, Charles?
– este aqui, ele aponta,
então pede licença. ele tem que se levantar e
ir até a
cozinha. ele está assando biscoitos no forno.
logo ele aparece com uma
bandeja.
– experimente alguns.
eu o faço. eles são
bons.
– quer café? ele pergunta.
– não, obrigado, Charles, não tenho conseguido dormir
à noite.
ele se casou aos 70 com uma mulher de
58. 22 anos atrás. agora ela está num lar de idosos.
– ela está melhorando, ele diz, ela me reconhece.
eles a deixam levantar para ir ao banheiro.
– isto é legal, Charles.
– não consigo entender, no entanto, a desgraçada da filha dela, eles acham
que estou atrás de grana.
– há alguma coisa que eu possa fazer por você, Charles? precisa
de alguma coisa da loja, alguma coisa do
gênero?
– não, fiz as compras hoje pela manhã.
suas costas são tão eretas quanto a parede e ele
mal tem
barriga. enquanto conversa
mantém seu único olho na tevê.
– vou indo, Charles, você tem meu número?
– claro.
– como as garotas têm tratado você, Charles?
– meu amigo, faz alguns anos que não tenho pensado
em garotas.
– boa noite, Charles.
– boa noite.
vou até a porta
abro-a
fecho-a
do lado de fora
o cheiro dos biscoitos recém-assados
me acompanha.
1 100
Charles Bukowski
Problema Com Espanha
entrei no chuveiro
e queimei meus bagos
na última quarta-feira.
conheci este pintor chamado Espanha,
não, ele era um cartunista,
bem, conheci-o numa festa
e todos ficaram putos comigo
por eu não saber quem ele era
ou o que ele fazia.
ele era um cara bem bonito
e suponho que ele tenha ficado com ciúmes
por eu ser tão feio.
eles me disseram seu nome
e ele estava encostado contra a parede
parecendo bonito, e eu disse:
ei, Espanha, gosto desse nome: Espanha.
mas não gosto de você. por que não vamos
até o jardim para eu dar uma bica nesse seu
rabo?
isto deixou a anfitriã irritada
e ela foi em sua direção e lhe esfregou o pau
enquanto eu ia até o banheiro
e me aliviava.
mas todos estão brabos comigo
Bukowski, ele já não sabe escrever, está acabado.
vazio. vejam como ele bebe.
nunca teve o hábito de ir a festas.
agora vem às festas e bebe todas
e insulta aqueles que têm talento de verdade.
eu costumava ter admiração por ele quando cortou os pulsos
ou quando tentou se matar com
gás. olhem para ele agora secando aquela garota de 19
anos, e vocês sabem que ele
já não levanta.
eu não apenas queimei meus bagos naquele chuveiro
na última quarta-feira, eu me virei para escapar daquela água
fervente e queimei também o olho do
cu.
e queimei meus bagos
na última quarta-feira.
conheci este pintor chamado Espanha,
não, ele era um cartunista,
bem, conheci-o numa festa
e todos ficaram putos comigo
por eu não saber quem ele era
ou o que ele fazia.
ele era um cara bem bonito
e suponho que ele tenha ficado com ciúmes
por eu ser tão feio.
eles me disseram seu nome
e ele estava encostado contra a parede
parecendo bonito, e eu disse:
ei, Espanha, gosto desse nome: Espanha.
mas não gosto de você. por que não vamos
até o jardim para eu dar uma bica nesse seu
rabo?
isto deixou a anfitriã irritada
e ela foi em sua direção e lhe esfregou o pau
enquanto eu ia até o banheiro
e me aliviava.
mas todos estão brabos comigo
Bukowski, ele já não sabe escrever, está acabado.
vazio. vejam como ele bebe.
nunca teve o hábito de ir a festas.
agora vem às festas e bebe todas
e insulta aqueles que têm talento de verdade.
eu costumava ter admiração por ele quando cortou os pulsos
ou quando tentou se matar com
gás. olhem para ele agora secando aquela garota de 19
anos, e vocês sabem que ele
já não levanta.
eu não apenas queimei meus bagos naquele chuveiro
na última quarta-feira, eu me virei para escapar daquela água
fervente e queimei também o olho do
cu.
1 027
Charles Bukowski
Eu Estava Feliz
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
ressaca de sexta-feira à tarde
eu não tinha um emprego
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
eu não sabia tocar violão
ressaca de sexta-feira à tarde
ressaca de sexta-feira à tarde
do outro lado da rua do Norm’s
do outro lado da rua do Red Fez
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
rompido com minha namorada e deprimido e demente
eu estava feliz por ter minha caderneta de poupança e ficar na fila
eu via os ônibus seguirem até Vermont
eu estava louco demais para trabalhar como motorista de ônibus
e eu sequer olhava para as jovens garotas
fiquei tonto esperando na fila mas eu
apenas seguia pensando que eu tenho dinheiro neste prédio
ressaca de sexta-feira à tarde
eu não sabia como tocar piano
ou mesmo tocar a merda de um emprego num lava-jato
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
finalmente cheguei até o guichê
era a minha garota japonesa
ela me sorriu como se eu fosse algum deus espetacular
de volta, hein? ela disse e sorriu
quando mostrei a ela meu comprovante e minha caderneta
enquanto os ônibus aceleravam em direção a Vermont
os camelos trotavam através do Saara
ela me alcançou o dinheiro e eu peguei o dinheiro
ressaca de sexta-feira à tarde
segui para o mercado e peguei um carrinho
e joguei salsichas e ovos e bacon e pão para dentro
joguei cerveja e salame e tempero e picles e mostarda para dentro
eu olhava para as jovens donas de casa em seu rebolado natural
joguei costeletas e bifes e palitos de carne para dentro
e tomates e pepinos e laranjas para dentro do carrinho
ressaca de sexta-feira à tarde
rompido com minha namorada e deprimido e demente
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
ressaca de sexta-feira à tarde
eu não tinha um emprego
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
eu não sabia tocar violão
ressaca de sexta-feira à tarde
ressaca de sexta-feira à tarde
do outro lado da rua do Norm’s
do outro lado da rua do Red Fez
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
rompido com minha namorada e deprimido e demente
eu estava feliz por ter minha caderneta de poupança e ficar na fila
eu via os ônibus seguirem até Vermont
eu estava louco demais para trabalhar como motorista de ônibus
e eu sequer olhava para as jovens garotas
fiquei tonto esperando na fila mas eu
apenas seguia pensando que eu tenho dinheiro neste prédio
ressaca de sexta-feira à tarde
eu não sabia como tocar piano
ou mesmo tocar a merda de um emprego num lava-jato
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
finalmente cheguei até o guichê
era a minha garota japonesa
ela me sorriu como se eu fosse algum deus espetacular
de volta, hein? ela disse e sorriu
quando mostrei a ela meu comprovante e minha caderneta
enquanto os ônibus aceleravam em direção a Vermont
os camelos trotavam através do Saara
ela me alcançou o dinheiro e eu peguei o dinheiro
ressaca de sexta-feira à tarde
segui para o mercado e peguei um carrinho
e joguei salsichas e ovos e bacon e pão para dentro
joguei cerveja e salame e tempero e picles e mostarda para dentro
eu olhava para as jovens donas de casa em seu rebolado natural
joguei costeletas e bifes e palitos de carne para dentro
e tomates e pepinos e laranjas para dentro do carrinho
ressaca de sexta-feira à tarde
rompido com minha namorada e deprimido e demente
eu estava feliz em ter dinheiro na poupança
1 146
Charles Bukowski
Incapazes de Sonhar
velhas e grisalhas garçonetes
à noite nos cafés
já desistiram,
e enquanto eu avanço por calçadas
luminosas e olho através das janelas
das casas de repouso
posso ver que alguma coisa não está mais
com eles.
vejo pessoas sentadas nos bancos dos parques
e posso ver pelo modo como
sentam e olham
que essa coisa se foi.
vejo pessoas dirigindo carros
e vejo pelo modo como
dirigem seus carros
que eles não amam nem sequer são
amados –
nem levam o sexo em
consideração. está tudo apagado
feito um filme antigo.
vejo pessoas em lojas de departamento e
supermercados
caminhando pelos corredores
comprando coisas
e posso ver pelo jeito como vestem suas
roupas e pelo modo como caminham
e por seus rostos e olhos
que não se importam com nada
e que nada se importa
com eles.
posso ver umas cem pessoas por dia
que desistiram de tudo
completamente.
se vou até o hipódromo
ou a um evento esportivo
posso ver milhares
que não têm apreço por nada ou
ninguém
e não obtêm nenhum sentimento
em troca.
em toda parte eu vejo aqueles
implorando por nada além de
comida, abrigo, e
roupas; eles se concentram
nisso,
incapazes de sonhar.
não consigo entender por que essas pessoas não
desaparecem
não consigo entender por que essas pessoas não
expiram
por que as nuvens
não os assassinam
ou por que os cães
não os assassinam
ou por que as flores e as crianças
não os assassinam,
não consigo entender.
suponho que eles sejam assassinados
ainda que não consiga me adequar
ao fato deles
porque eles são
muitos.
a cada dia,
a cada noite,
há mais deles
nos metrôs e
nos prédios e
nos parques
eles não sentem nenhum terror
por não amarem
ou não
serem amados
tantos tantos tantos
de meus camaradas
humanos.
à noite nos cafés
já desistiram,
e enquanto eu avanço por calçadas
luminosas e olho através das janelas
das casas de repouso
posso ver que alguma coisa não está mais
com eles.
vejo pessoas sentadas nos bancos dos parques
e posso ver pelo modo como
sentam e olham
que essa coisa se foi.
vejo pessoas dirigindo carros
e vejo pelo modo como
dirigem seus carros
que eles não amam nem sequer são
amados –
nem levam o sexo em
consideração. está tudo apagado
feito um filme antigo.
vejo pessoas em lojas de departamento e
supermercados
caminhando pelos corredores
comprando coisas
e posso ver pelo jeito como vestem suas
roupas e pelo modo como caminham
e por seus rostos e olhos
que não se importam com nada
e que nada se importa
com eles.
posso ver umas cem pessoas por dia
que desistiram de tudo
completamente.
se vou até o hipódromo
ou a um evento esportivo
posso ver milhares
que não têm apreço por nada ou
ninguém
e não obtêm nenhum sentimento
em troca.
em toda parte eu vejo aqueles
implorando por nada além de
comida, abrigo, e
roupas; eles se concentram
nisso,
incapazes de sonhar.
não consigo entender por que essas pessoas não
desaparecem
não consigo entender por que essas pessoas não
expiram
por que as nuvens
não os assassinam
ou por que os cães
não os assassinam
ou por que as flores e as crianças
não os assassinam,
não consigo entender.
suponho que eles sejam assassinados
ainda que não consiga me adequar
ao fato deles
porque eles são
muitos.
a cada dia,
a cada noite,
há mais deles
nos metrôs e
nos prédios e
nos parques
eles não sentem nenhum terror
por não amarem
ou não
serem amados
tantos tantos tantos
de meus camaradas
humanos.
1 078
Charles Bukowski
Mais Potente do Que de Carne Moída Com Batata –
o movimento do coração humano:
estrangulado no Missouri;
recoberto por cera quente em Boston;
assado feito batata em Norfolk;
perdido nas Montanhas Allegheny;
encontrado mais uma vez numa cama de mogno com dossel
em Nova Orleans;
ensopado e moído com feijões-rajados
em El Paso;
suspenso numa cruz como um cão embriagado
em Denver;
cortado ao meio e tostado em
Kalamazoo;
tomado de câncer num barco pesqueiro
para além da costa do México;
enganado e encurralado em Daytona Beach;
chutado por uma babá
usando um vestido verde e branco de algodão,
que atende mesas numa rodoviária
da Carolina do Norte;
besuntado em azeite e mijo de cabra
por uma puta enxadrista no East Village;
pintado de vermelho, branco e azul
por um ato do Congresso;
torpedeado por uma loira aguada
com o maior rabo em Kansas;
estripado e barbarizado por uma mulher
com a alma de um touro
em East Lansing;
petrificado por uma garota de dedos minúsculos,
faltava a ela um dente,
um da frente na arcada superior, e bombeando gás
em Mesa;
o movimento do coração humano segue
e segue
e segue e segue
por algum tempo.
estrangulado no Missouri;
recoberto por cera quente em Boston;
assado feito batata em Norfolk;
perdido nas Montanhas Allegheny;
encontrado mais uma vez numa cama de mogno com dossel
em Nova Orleans;
ensopado e moído com feijões-rajados
em El Paso;
suspenso numa cruz como um cão embriagado
em Denver;
cortado ao meio e tostado em
Kalamazoo;
tomado de câncer num barco pesqueiro
para além da costa do México;
enganado e encurralado em Daytona Beach;
chutado por uma babá
usando um vestido verde e branco de algodão,
que atende mesas numa rodoviária
da Carolina do Norte;
besuntado em azeite e mijo de cabra
por uma puta enxadrista no East Village;
pintado de vermelho, branco e azul
por um ato do Congresso;
torpedeado por uma loira aguada
com o maior rabo em Kansas;
estripado e barbarizado por uma mulher
com a alma de um touro
em East Lansing;
petrificado por uma garota de dedos minúsculos,
faltava a ela um dente,
um da frente na arcada superior, e bombeando gás
em Mesa;
o movimento do coração humano segue
e segue
e segue e segue
por algum tempo.
646
Charles Bukowski
Salve o Píer
você devia ter ido nessa festa,
eu sei que você odeia festas
mas você ia se enturmar.
seja como for, levei minha garota, você conhece
ela –
Java Jane?
sim, essa festa foi no parquinho
onde eles estão tentando derrubar o píer, você
sabe onde fica?
sim, com a pintura vermelha, as janelas
quebradas –
sim, bem, minha garota vive num quarto logo acima do
parquinho. era uma
festa de aniversário da mulher que é dona do
parquinho.
ela está tentando salvar o píer
está tentando salvar o parquinho –
bebida de montão para todo mundo, minha garota vive no
quarto logo acima do
parquinho.
parece ótimo.
liguei. mas você não
estava.
tudo bem.
bem, havia um montão de coisas para beber e eles acionaram o
carrossel, era de graça, música e tudo
mais.
parece ótimo.
minha garota e eu começamos a
brigar, toda aquela bebida –
claro.
evito ficar perto dela
ela evita ficar perto de mim.
ela estava com um copo de vinho na mão.
lanço para ela um daqueles olhares mortíferos,
ela sente o poder
ela recua
a coisa está girando
o casco de um cavalo acerta o rabo dela.
ela cai sobre a base rodopiante.
tudo acontece muito rápido –
mas eu percebo
que durante todo o tempo em que ela está girando
ao som da música debaixo daqueles cavalos
ela segura seu copo de vinho de pé
para não deixar cair nem uma
gota.
bravura.
claro. acontece que o tempo inteiro ela ficou pagando
calcinha. brilhante e cintilante.
rosa.
maravilha. como eles ficam?
eles conspiram.
o rosa cintilante?
sim. então as calcinhas dela estão aparecendo e eu penso
bem, está tudo bem mas é provável que pareça
infinitamente melhor para eles do que para
mim, então eu avancei um passo e disse,
Jane.
o que aconteceu?
ela seguiu girando e segurando sua bebida
mostrando seu traseiro rosa... parecia haver alguma coisa
frágil nisso, deliciosamente inútil...
a pequena glória chega e avança aos gritos afinal...
exatamente. ela seguia girando e girando
as pernas escancaradas –
mareada com a vida –
vingativa –
ela devia ter pensado em mim antes de mostrar
a calcinha para todas aquelas
pessoas. seja como for, ela seguia dando voltas
até que sua perna acertou a perna de um cara –
ele se aproximou para ver melhor.
ele tinha 67 anos e estava com a esposa
e os dois comiam
espaguete em pratos de papelão, enfim,
a perna da minha garota acertou a dele
ela seguiu se equilibrando sobre a bunda
segurando ainda o copo de vinho na posição vertical.
me aproximei e a juntei da base
e ela continuou mantendo o copo
nivelado. então ela o ergueu e
bebeu tudo.
me parece que foi uma
ótima festa.
eu liguei. você não estava
em casa.
teias de aranha de sexo gotejante
e orvalhado como
sonhos de halitose.
exatamente. você deveria estar
lá.
desculpa.
eu sei que você odeia festas
mas você ia se enturmar.
seja como for, levei minha garota, você conhece
ela –
Java Jane?
sim, essa festa foi no parquinho
onde eles estão tentando derrubar o píer, você
sabe onde fica?
sim, com a pintura vermelha, as janelas
quebradas –
sim, bem, minha garota vive num quarto logo acima do
parquinho. era uma
festa de aniversário da mulher que é dona do
parquinho.
ela está tentando salvar o píer
está tentando salvar o parquinho –
bebida de montão para todo mundo, minha garota vive no
quarto logo acima do
parquinho.
parece ótimo.
liguei. mas você não
estava.
tudo bem.
bem, havia um montão de coisas para beber e eles acionaram o
carrossel, era de graça, música e tudo
mais.
parece ótimo.
minha garota e eu começamos a
brigar, toda aquela bebida –
claro.
evito ficar perto dela
ela evita ficar perto de mim.
ela estava com um copo de vinho na mão.
lanço para ela um daqueles olhares mortíferos,
ela sente o poder
ela recua
a coisa está girando
o casco de um cavalo acerta o rabo dela.
ela cai sobre a base rodopiante.
tudo acontece muito rápido –
mas eu percebo
que durante todo o tempo em que ela está girando
ao som da música debaixo daqueles cavalos
ela segura seu copo de vinho de pé
para não deixar cair nem uma
gota.
bravura.
claro. acontece que o tempo inteiro ela ficou pagando
calcinha. brilhante e cintilante.
rosa.
maravilha. como eles ficam?
eles conspiram.
o rosa cintilante?
sim. então as calcinhas dela estão aparecendo e eu penso
bem, está tudo bem mas é provável que pareça
infinitamente melhor para eles do que para
mim, então eu avancei um passo e disse,
Jane.
o que aconteceu?
ela seguiu girando e segurando sua bebida
mostrando seu traseiro rosa... parecia haver alguma coisa
frágil nisso, deliciosamente inútil...
a pequena glória chega e avança aos gritos afinal...
exatamente. ela seguia girando e girando
as pernas escancaradas –
mareada com a vida –
vingativa –
ela devia ter pensado em mim antes de mostrar
a calcinha para todas aquelas
pessoas. seja como for, ela seguia dando voltas
até que sua perna acertou a perna de um cara –
ele se aproximou para ver melhor.
ele tinha 67 anos e estava com a esposa
e os dois comiam
espaguete em pratos de papelão, enfim,
a perna da minha garota acertou a dele
ela seguiu se equilibrando sobre a bunda
segurando ainda o copo de vinho na posição vertical.
me aproximei e a juntei da base
e ela continuou mantendo o copo
nivelado. então ela o ergueu e
bebeu tudo.
me parece que foi uma
ótima festa.
eu liguei. você não estava
em casa.
teias de aranha de sexo gotejante
e orvalhado como
sonhos de halitose.
exatamente. você deveria estar
lá.
desculpa.
1 152
Cora Coralina
O Passado
O
salão da frente recende a cravo.
Um grupo de gente moça
se reúne ali.
"Clube Literário Goiano".
Rosa Godinho.
Luzia de Oliveira.
Leodegária de Jesus,
a presidência.
Nós, gente menor,
sentadas, convencidas, formais.
Respondendo à chamada.
Ouvindo atentas a leitura da ata.
Pedindo a palavra.
Levantando idéias geniais.
Encerrada a sessão com seriedade,
passávamos à tertúlia.
O velho harmônio, uma flauta, um bandolim.
Músicas antigas. Recitativos.
Declamavam-se monólogos.
Dialogávamos em rimas e risos.
D. Virgínia. Benjamim.
Rodolfo. Ludugero.
Veros anfitriões.
Sangrias. Doces. Licor de rosa.
Distinção. Agrado.
O Passado...
Homens sem pressa,
talvez cansados,
descem com leva
madeirões pesados,
lavrados por escravos
em rudes simetrias,
do tempo das acutas.
Inclemência.
Caem pedaços na calçada.
Passantes cautelosos
desviam-se com prudência.
Que importa a eles o sobrado?
Gente que passa indiferente,
olha de longe,
na dobra das esquinas,
as traves que despencam.
Que vale para eles o sobrado?
Quem vê nas velhas sacadas
de ferro forjado
as sombras debruçadas?
Quem é que está ouvindo
o clamor, o adeus, o chamado?...
Que importa a marca dos retratos na parede?
Que importam as salas destelhadas,
e o pudor das alcovas devassadas...
Que importam?
E vão fugindo do sobrado,
aos poucos,
os quadros do passado.
salão da frente recende a cravo.
Um grupo de gente moça
se reúne ali.
"Clube Literário Goiano".
Rosa Godinho.
Luzia de Oliveira.
Leodegária de Jesus,
a presidência.
Nós, gente menor,
sentadas, convencidas, formais.
Respondendo à chamada.
Ouvindo atentas a leitura da ata.
Pedindo a palavra.
Levantando idéias geniais.
Encerrada a sessão com seriedade,
passávamos à tertúlia.
O velho harmônio, uma flauta, um bandolim.
Músicas antigas. Recitativos.
Declamavam-se monólogos.
Dialogávamos em rimas e risos.
D. Virgínia. Benjamim.
Rodolfo. Ludugero.
Veros anfitriões.
Sangrias. Doces. Licor de rosa.
Distinção. Agrado.
O Passado...
Homens sem pressa,
talvez cansados,
descem com leva
madeirões pesados,
lavrados por escravos
em rudes simetrias,
do tempo das acutas.
Inclemência.
Caem pedaços na calçada.
Passantes cautelosos
desviam-se com prudência.
Que importa a eles o sobrado?
Gente que passa indiferente,
olha de longe,
na dobra das esquinas,
as traves que despencam.
Que vale para eles o sobrado?
Quem vê nas velhas sacadas
de ferro forjado
as sombras debruçadas?
Quem é que está ouvindo
o clamor, o adeus, o chamado?...
Que importa a marca dos retratos na parede?
Que importam as salas destelhadas,
e o pudor das alcovas devassadas...
Que importam?
E vão fugindo do sobrado,
aos poucos,
os quadros do passado.
3 085
Charles Bukowski
Metido de Novo Em Alguma Enrascada Impossível
e o cara do pé grande, o imbecil, nem se mexeu
enquanto eu passava entre os bancos; naquela noite na festinha
de dança típica Elmer Whitefield perdeu um dente brigando com o grande
Eddie Green;
a gente pega o rádio dele e o relógio dele, disseram,
apontando para mim, ianque desgraçado; mas não sabiam
que eu era um poeta insano e fiquei lá encostado bebendo vinho
e amando todas as mulheres deles
com meus olhos, e eles ficaram assustados e intimidados
como vaquinhas de cidade pequena
tentando bolar um jeito de me matar
mas primeiro
tolamente
precisando de um motivo; eu poderia ter contado a eles
como não muito tempo atrás
eu quase matara por falta de motivo;
em vez disso, peguei o ônibus das 8:15
para Memphis.
enquanto eu passava entre os bancos; naquela noite na festinha
de dança típica Elmer Whitefield perdeu um dente brigando com o grande
Eddie Green;
a gente pega o rádio dele e o relógio dele, disseram,
apontando para mim, ianque desgraçado; mas não sabiam
que eu era um poeta insano e fiquei lá encostado bebendo vinho
e amando todas as mulheres deles
com meus olhos, e eles ficaram assustados e intimidados
como vaquinhas de cidade pequena
tentando bolar um jeito de me matar
mas primeiro
tolamente
precisando de um motivo; eu poderia ter contado a eles
como não muito tempo atrás
eu quase matara por falta de motivo;
em vez disso, peguei o ônibus das 8:15
para Memphis.
1 036
Charles Bukowski
Inferno Não Guarda Nenhuma Fúria...
ela estava esperando em seu fusca laranja
enquanto eu caminhava pela rua
com 2 fardos e meio litro de uísque
e ela saltou do carro
e começou a agarrar as garrafas de cerveja e
espatifá-las contra a calçada
e ela apanhou o uísque e
também o espatifou,
dizendo: ah, então você ia embebedar ela
com isso tudo e depois meter nela!
continuei até a entrada onde a outra mulher
estava na metade dos degraus,
então ela veio correndo da rua
e escada acima e acertou a outra mulher
com a bolsa, dizendo:
ele é meu homem! ele é meu homem!
e então ela saiu correndo e
pulou dentro do fusca laranja
e arrancou dali.
busquei uma vassoura
e comecei a varrer os cacos de vidro
quando escutei um som
e lá estava o fusca laranja
avançando por sobre a calçada
e sobre mim –
mal consegui dar um salto e me colar contra uma parede
enquanto o carro passava.
então voltei a pegar a vassoura e a varrer
os cacos mais uma vez,
e de repente ela estava novamente ali;
me tomou a vassoura e a partiu em três
partes.
então ela encontrou uma garrafa de cerveja inteira
e jogou-a através da janela de vidro da porta.
o buraco que se formou era perfeito
e a outra mulher gritou para mim da
escada: pelo amor de Deus, Bukowski, vá com
ela!
eu entrei dentro do fusca laranja e nós
seguimos juntos dentro do carro.
enquanto eu caminhava pela rua
com 2 fardos e meio litro de uísque
e ela saltou do carro
e começou a agarrar as garrafas de cerveja e
espatifá-las contra a calçada
e ela apanhou o uísque e
também o espatifou,
dizendo: ah, então você ia embebedar ela
com isso tudo e depois meter nela!
continuei até a entrada onde a outra mulher
estava na metade dos degraus,
então ela veio correndo da rua
e escada acima e acertou a outra mulher
com a bolsa, dizendo:
ele é meu homem! ele é meu homem!
e então ela saiu correndo e
pulou dentro do fusca laranja
e arrancou dali.
busquei uma vassoura
e comecei a varrer os cacos de vidro
quando escutei um som
e lá estava o fusca laranja
avançando por sobre a calçada
e sobre mim –
mal consegui dar um salto e me colar contra uma parede
enquanto o carro passava.
então voltei a pegar a vassoura e a varrer
os cacos mais uma vez,
e de repente ela estava novamente ali;
me tomou a vassoura e a partiu em três
partes.
então ela encontrou uma garrafa de cerveja inteira
e jogou-a através da janela de vidro da porta.
o buraco que se formou era perfeito
e a outra mulher gritou para mim da
escada: pelo amor de Deus, Bukowski, vá com
ela!
eu entrei dentro do fusca laranja e nós
seguimos juntos dentro do carro.
1 233
João Ferry
Valença do Piauí
200 anos! Como está velhinha!
mas tão linda, tão guapa, tão bonita,
Parecendo hoje ser uma mocinha,
Com um diadema de fita,
Tendo no peito uma rosa,
Sobre o seu vestido novo,
Que te faz tão graciosa
Ao doce olhar do teu povo.
200 anos de deslumbramentos!
Mas que lutas meu Deus, quantos tormentos,
Para vencer a estrada caprichosa
Conquistando esta data gloriosa
Que hoje feliz com inusitado brilho
Mostra o progresso conquistado e forte,
Recebido do amor de cada filho
A quem tiveste confiada a sorte.
200 anos! Como está velhinha!
Mas tão linda, tão guapa, tão bonita,
Parecendo hoje ser uma mocinha,
Com o seu vestido de chita
Fazendo inveja aos rapazes,
Que te querem namorar,
Mas que ainda não são capazes
De contigo se casar.
Minha querida e imortal Valença!
Hoje teus filhos com alegria imensa,
Glorificando o teu bicentenário,
Fazem de ti um talismã lendário,
Que lhes dará todo um porvir brilhante
Na tua gloriosa trajetória
Para que num futuro bem distante
Maiores loiros tenha a tua história!
mas tão linda, tão guapa, tão bonita,
Parecendo hoje ser uma mocinha,
Com um diadema de fita,
Tendo no peito uma rosa,
Sobre o seu vestido novo,
Que te faz tão graciosa
Ao doce olhar do teu povo.
200 anos de deslumbramentos!
Mas que lutas meu Deus, quantos tormentos,
Para vencer a estrada caprichosa
Conquistando esta data gloriosa
Que hoje feliz com inusitado brilho
Mostra o progresso conquistado e forte,
Recebido do amor de cada filho
A quem tiveste confiada a sorte.
200 anos! Como está velhinha!
Mas tão linda, tão guapa, tão bonita,
Parecendo hoje ser uma mocinha,
Com o seu vestido de chita
Fazendo inveja aos rapazes,
Que te querem namorar,
Mas que ainda não são capazes
De contigo se casar.
Minha querida e imortal Valença!
Hoje teus filhos com alegria imensa,
Glorificando o teu bicentenário,
Fazem de ti um talismã lendário,
Que lhes dará todo um porvir brilhante
Na tua gloriosa trajetória
Para que num futuro bem distante
Maiores loiros tenha a tua história!
1 309
Charles Bukowski
Folhas Das Palmeiras
exatamente à meia-noite
1973-74
Los Angeles
começou a chover nas
folhas das palmeiras para além de minha janela
as buzinas e os foguetes
se ergueram
e então trovejou.
eu tinha ido para cama às 9 da noite
apaguei as luzes
puxei as cobertas –
sua satisfação, sua felicidade,
seus gritos, seus chapéus de papelão,
seus automóveis, suas mulheres,
seus porres de amador...
a noite de Ano-Novo sempre me
aterroriza
a vida não sabe nada sobre os anos.
agora as buzinas pararam e
os foguetes e os trovões...
tudo se acaba em cinco minutos...
tudo o que ouço é a chuva
nas folhas das palmeiras,
e penso,
nunca entenderei os homens,
mas consegui
sobreviver.
1973-74
Los Angeles
começou a chover nas
folhas das palmeiras para além de minha janela
as buzinas e os foguetes
se ergueram
e então trovejou.
eu tinha ido para cama às 9 da noite
apaguei as luzes
puxei as cobertas –
sua satisfação, sua felicidade,
seus gritos, seus chapéus de papelão,
seus automóveis, suas mulheres,
seus porres de amador...
a noite de Ano-Novo sempre me
aterroriza
a vida não sabe nada sobre os anos.
agora as buzinas pararam e
os foguetes e os trovões...
tudo se acaba em cinco minutos...
tudo o que ouço é a chuva
nas folhas das palmeiras,
e penso,
nunca entenderei os homens,
mas consegui
sobreviver.
1 171
Charles Bukowski
Viagem de Trem Pelo Inferno
vai vai vai vai vai!, eles berram
e um macaco estica o braço e desenrosca a lâmpada
e a ruiva velha de vestido preto
levanta a saia e dança
vai vai vai vai vai!
ela sacode a bem-feita corcova do rabo
e aí o tira entra pelo vestíbulo
e eles dão vivas
oba!!! oba!!!
e ele cai fora com a ruiva diante de si
cabelo nos olhos dela, boca descaída em desgosto,
e eles gritam para ele
vai fundo! manda ver! oba!!!
é uma viagem de trem pelo inferno,
os perdedores do hipódromo voltando cento e cinquenta quilômetros para casa
para empregos e nenhum emprego, esposas e nenhuma esposa, vidas e nenhuma vida,
e o camarada do bar só tem cerveja,
ela flutua numa lixeira de gelo e ele joga a cerveja quente ali dentro –
(oba!!! oba!!!, eles berram toda vez que uma pessoa nova entra no vagão do bar)
e pega latas e as abre e as vende tão rápido quanto a máquina
é capaz de furar buraquinhos...
vai vai vai vai vai!!!, encontraram uma nova
e ela dança (as putas embarcam em San Clemente
onde estiveram sentadas nos bares
e elas rumam ao norte para L.A.
colhendo o que conseguem)
e agora ela está rolando dados imaginários,
não, eles são reais, há moedinhas no piso,
ela sacode os dados, ela sacode sua lata e eles gritam
vai vai vai vai vai!!!
o tira aparece de novo e os dados desaparecem,
ele está fumando um cigarro e seu quepe está levantado para trás,
ele é cinza e parece mais bêbado do que qualquer um de nós,
oba!!! oba!, eles saúdam, e ele vai andando.
um extrovertido de camisa esportiva azul
circula abraçando e beijando as mulheres,
aí uma garota de cor se pendura pelos joelhos numa barra transversal,
oba! vai vai vai! oba!
um homossexual esfrega seu rosto no meu,
“você estava no hipódromo?”
eu me afasto dele, vou até o bar e
suo na espera por uma cerveja.
oba! vai vai vai vai!
a garota de cor dança de frente para um chinês,
vai vai vai vai!
eu pego minha cerveja.
lá fora passam os prédios, pessoas olham televisão,
em Berlim eles fodem com o muro,
pessoas ponderam questões de estado com pedras,
aqui uma loira velha força o flanco contra o meu,
compro uma cerveja pra ela e um maço de Pall Mall,
então ela diz “vem comigo, preciso ir no banheiro”,
e vamos passando pelo tumulto,
oba! oba! lá vão eles! vai vai vai vai!!!
ela está de calças largas e a barriga dela querendo sair pra
fora, e eu espero junto à plaquinha externa que diz mulheres,
e estou suado e impaciente pelo pouco que a cerveja me dá
e esvazio a lata e a lanço no vestíbulo
e bebo a dela também, e no outro vagão
as pessoas estão cansadas e infelizes, ressonhando suas perdas,
chapados em seus assentos, bonecos empalhados,
engolidos – de novo – pelo mundo,
e a minha puta sai
e nós entramos no vagão do bar outra vez,
oba! oba! vai vai vai vai!
dança, dança, dança!
e ela começa a dançar balançando o que resta do
disfarce de sua carne e eu me afasto dela e vou para o bar,
vai vai vai vai vai vai vai vai vai!
ainda resta cerveja, o camarada puxa latas dos armários,
o trem ginga ginga correndo a 145 153 158
o maquinista um perdedor também
estourando um barrilete de cerveja entre as pernas,
e eu penso nas batalhas travadas ao longo dos séculos,
as batalhas em pequenos recintos, em campos de batalha,
louco, gênio, idiota, farsante,
todos tirando sangue, tudo desperdiçado, desperdiçado, desperdiçado,
as baratas vão rastejar por todo lado
sobre a Sinfonia #9 de Schubert,
pra dentro e pra fora dos nossos ouvidos
vai vai vai vai!!!
no entanto aqui
isso também
significa alguma coisa
e a minha puta voltou e nós bebemos
até que um cara maluco liga o sistema de incêndio
e as luzes se apagam
e ficamos todos sob um chuveiro frio
oba! oba! vai vai vai vai vai vai vai!
alguém desliga a água e liga as luzes
e as mulheres todas ganham cabeças de sapo
o cabelo escorrido, rímel apagado, pálpebras apagadas, e elas dão risadinhas,
bolsas e espelhos na mão, pentes na mão, tentando se esconder da vida de novo,
e eu desvio meu olhar, tranquilo afinal, pego mais umas cervejas,
acho um cigarro seco e o acendo,
e aí como outra chaga
Los Angeles se impõe a nós
e saímos pelas portas
correndo rampas abaixo
oba! vai, vai, vai, vai!
há uma cadeira de rodas no corredor,
e o extrovertido da camisa esportiva azul
senta seu amigo nela,
um doente! um doente! abram alas!
ei abram alas! um moribundo!
eles se movem numa tremenda velocidade
para dizer o mínimo, ei! abram alas! um doente!
ah, vai vai vai vai vai vai!
ah, vai vai vai vai, vai, vai! oba!!
um guarda os detém e pega a cadeira de rodas
e aí meu amigo da camisa azul
junta o amigo do chão e o coloca sobre o ombro
e se precipita rampa abaixo
ei! ei! abram alas, um moribundo!
minha puta ainda está comigo quando chego ao meu carro
no estacionamento, ela entra
e rodamos pela frente da prefeitura
ingressando na autoestrada, e há mais uma corrida
para correr sem vencedor, e por todos os lados dirigem
pessoas que estavam no jogo de beisebol
ou na praia ou no cinema ou na tia Sarah,
e a puta diz “é o Marmatz. eu simplesmente não sei.
o garoto não quer vencer por mim.”
20 minutos depois ela está no meu quarto.
vai, vai, vai, vai, vai, vai!
oba.
lá fora tudo está quieto, e dá pra ouvir os bombardeiros no alto,
dá pra ouvir os camundongos fazendo amor; dá pra ouvi-los cavando
as sepulturas nos cemitérios, dá pra ouvir os vermes rastejando para dentro das
órbitas, e o trem no qual viemos, ele está bem quietinho agora,
está parado, as janelas nada mostram senão o luar,
há uma tristeza que lembra velhos rios, e é mais real
do que jamais foi.
e um macaco estica o braço e desenrosca a lâmpada
e a ruiva velha de vestido preto
levanta a saia e dança
vai vai vai vai vai!
ela sacode a bem-feita corcova do rabo
e aí o tira entra pelo vestíbulo
e eles dão vivas
oba!!! oba!!!
e ele cai fora com a ruiva diante de si
cabelo nos olhos dela, boca descaída em desgosto,
e eles gritam para ele
vai fundo! manda ver! oba!!!
é uma viagem de trem pelo inferno,
os perdedores do hipódromo voltando cento e cinquenta quilômetros para casa
para empregos e nenhum emprego, esposas e nenhuma esposa, vidas e nenhuma vida,
e o camarada do bar só tem cerveja,
ela flutua numa lixeira de gelo e ele joga a cerveja quente ali dentro –
(oba!!! oba!!!, eles berram toda vez que uma pessoa nova entra no vagão do bar)
e pega latas e as abre e as vende tão rápido quanto a máquina
é capaz de furar buraquinhos...
vai vai vai vai vai!!!, encontraram uma nova
e ela dança (as putas embarcam em San Clemente
onde estiveram sentadas nos bares
e elas rumam ao norte para L.A.
colhendo o que conseguem)
e agora ela está rolando dados imaginários,
não, eles são reais, há moedinhas no piso,
ela sacode os dados, ela sacode sua lata e eles gritam
vai vai vai vai vai!!!
o tira aparece de novo e os dados desaparecem,
ele está fumando um cigarro e seu quepe está levantado para trás,
ele é cinza e parece mais bêbado do que qualquer um de nós,
oba!!! oba!, eles saúdam, e ele vai andando.
um extrovertido de camisa esportiva azul
circula abraçando e beijando as mulheres,
aí uma garota de cor se pendura pelos joelhos numa barra transversal,
oba! vai vai vai! oba!
um homossexual esfrega seu rosto no meu,
“você estava no hipódromo?”
eu me afasto dele, vou até o bar e
suo na espera por uma cerveja.
oba! vai vai vai vai!
a garota de cor dança de frente para um chinês,
vai vai vai vai!
eu pego minha cerveja.
lá fora passam os prédios, pessoas olham televisão,
em Berlim eles fodem com o muro,
pessoas ponderam questões de estado com pedras,
aqui uma loira velha força o flanco contra o meu,
compro uma cerveja pra ela e um maço de Pall Mall,
então ela diz “vem comigo, preciso ir no banheiro”,
e vamos passando pelo tumulto,
oba! oba! lá vão eles! vai vai vai vai!!!
ela está de calças largas e a barriga dela querendo sair pra
fora, e eu espero junto à plaquinha externa que diz mulheres,
e estou suado e impaciente pelo pouco que a cerveja me dá
e esvazio a lata e a lanço no vestíbulo
e bebo a dela também, e no outro vagão
as pessoas estão cansadas e infelizes, ressonhando suas perdas,
chapados em seus assentos, bonecos empalhados,
engolidos – de novo – pelo mundo,
e a minha puta sai
e nós entramos no vagão do bar outra vez,
oba! oba! vai vai vai vai!
dança, dança, dança!
e ela começa a dançar balançando o que resta do
disfarce de sua carne e eu me afasto dela e vou para o bar,
vai vai vai vai vai vai vai vai vai!
ainda resta cerveja, o camarada puxa latas dos armários,
o trem ginga ginga correndo a 145 153 158
o maquinista um perdedor também
estourando um barrilete de cerveja entre as pernas,
e eu penso nas batalhas travadas ao longo dos séculos,
as batalhas em pequenos recintos, em campos de batalha,
louco, gênio, idiota, farsante,
todos tirando sangue, tudo desperdiçado, desperdiçado, desperdiçado,
as baratas vão rastejar por todo lado
sobre a Sinfonia #9 de Schubert,
pra dentro e pra fora dos nossos ouvidos
vai vai vai vai!!!
no entanto aqui
isso também
significa alguma coisa
e a minha puta voltou e nós bebemos
até que um cara maluco liga o sistema de incêndio
e as luzes se apagam
e ficamos todos sob um chuveiro frio
oba! oba! vai vai vai vai vai vai vai!
alguém desliga a água e liga as luzes
e as mulheres todas ganham cabeças de sapo
o cabelo escorrido, rímel apagado, pálpebras apagadas, e elas dão risadinhas,
bolsas e espelhos na mão, pentes na mão, tentando se esconder da vida de novo,
e eu desvio meu olhar, tranquilo afinal, pego mais umas cervejas,
acho um cigarro seco e o acendo,
e aí como outra chaga
Los Angeles se impõe a nós
e saímos pelas portas
correndo rampas abaixo
oba! vai, vai, vai, vai!
há uma cadeira de rodas no corredor,
e o extrovertido da camisa esportiva azul
senta seu amigo nela,
um doente! um doente! abram alas!
ei abram alas! um moribundo!
eles se movem numa tremenda velocidade
para dizer o mínimo, ei! abram alas! um doente!
ah, vai vai vai vai vai vai!
ah, vai vai vai vai, vai, vai! oba!!
um guarda os detém e pega a cadeira de rodas
e aí meu amigo da camisa azul
junta o amigo do chão e o coloca sobre o ombro
e se precipita rampa abaixo
ei! ei! abram alas, um moribundo!
minha puta ainda está comigo quando chego ao meu carro
no estacionamento, ela entra
e rodamos pela frente da prefeitura
ingressando na autoestrada, e há mais uma corrida
para correr sem vencedor, e por todos os lados dirigem
pessoas que estavam no jogo de beisebol
ou na praia ou no cinema ou na tia Sarah,
e a puta diz “é o Marmatz. eu simplesmente não sei.
o garoto não quer vencer por mim.”
20 minutos depois ela está no meu quarto.
vai, vai, vai, vai, vai, vai!
oba.
lá fora tudo está quieto, e dá pra ouvir os bombardeiros no alto,
dá pra ouvir os camundongos fazendo amor; dá pra ouvi-los cavando
as sepulturas nos cemitérios, dá pra ouvir os vermes rastejando para dentro das
órbitas, e o trem no qual viemos, ele está bem quietinho agora,
está parado, as janelas nada mostram senão o luar,
há uma tristeza que lembra velhos rios, e é mais real
do que jamais foi.
1 299
Charles Bukowski
Ritmo Acelerado
voltei cansadíssimo com um dedo decepado e geada
nos pés e o relâmpago despencando pelo papel de parede;
enforcaram três homens nas ruas e o prefeito estava bêbado
de doces, e afundaram a maldita frota e os abutres
fumavam charutos Havana; ok, posso ver onde certa beldade
banhada cortou seu pulso esquerdo e a encontraram em estado
de coma no quarto dela – provavelmente sofrendo de amor
por minha causa, mas preciso me mudar dessa cidade: achei que eu fosse um
rapaz tranquilão, uma rocha, mas acabo de descobrir um
cabelo grisalho acima da
minha orelha esquerda.
nos pés e o relâmpago despencando pelo papel de parede;
enforcaram três homens nas ruas e o prefeito estava bêbado
de doces, e afundaram a maldita frota e os abutres
fumavam charutos Havana; ok, posso ver onde certa beldade
banhada cortou seu pulso esquerdo e a encontraram em estado
de coma no quarto dela – provavelmente sofrendo de amor
por minha causa, mas preciso me mudar dessa cidade: achei que eu fosse um
rapaz tranquilão, uma rocha, mas acabo de descobrir um
cabelo grisalho acima da
minha orelha esquerda.
1 083
Charles Bukowski
Penso Em Hemingway
penso em Hemingway sentado
numa cadeira, ele tinha uma máquina de escrever
e agora já não toca
sua máquina de escrever, não tem mais
o que dizer.
e agora Belmonte não tem mais
touros para matar, às vezes penso que
não tenho mais poemas para escrever
nem mais mulheres para amar.
penso na forma do poema
mas meus pés doem, há sujeira
nas janelas.
os touros dormem noites inteiras nos
campos, eles dormem bem sem
Belmonte.
Belmonte dorme bem sem
Belmonte mas eu não durmo
tão bem.
não tenho criado tampouco
amado faz um tempo, golpeio
uma mosca e erro, sou um
velho cão cinzento ficando des-
dentado.
eu tenho uma máquina de escrever e agora
minha máquina de escrever já não tem
coisa alguma para dizer.
vou beber até que a manhã
me descubra na cama com a
maior puta de todas:
eu mesmo.
Belmonte & Papa,
entendo, é assim que
funciona, de verdade.
eu os observei trazendo
a terra durante a manhã toda
para preencher os buracos nas
ruas. eu os observei
instalando cabos novos nos
postes, choveu
ontem à noite, uma chuva
muito seca, não foi
um bombardeio, só que o
mundo está acabando e eu sou
incapaz de escrever
a respeito.
numa cadeira, ele tinha uma máquina de escrever
e agora já não toca
sua máquina de escrever, não tem mais
o que dizer.
e agora Belmonte não tem mais
touros para matar, às vezes penso que
não tenho mais poemas para escrever
nem mais mulheres para amar.
penso na forma do poema
mas meus pés doem, há sujeira
nas janelas.
os touros dormem noites inteiras nos
campos, eles dormem bem sem
Belmonte.
Belmonte dorme bem sem
Belmonte mas eu não durmo
tão bem.
não tenho criado tampouco
amado faz um tempo, golpeio
uma mosca e erro, sou um
velho cão cinzento ficando des-
dentado.
eu tenho uma máquina de escrever e agora
minha máquina de escrever já não tem
coisa alguma para dizer.
vou beber até que a manhã
me descubra na cama com a
maior puta de todas:
eu mesmo.
Belmonte & Papa,
entendo, é assim que
funciona, de verdade.
eu os observei trazendo
a terra durante a manhã toda
para preencher os buracos nas
ruas. eu os observei
instalando cabos novos nos
postes, choveu
ontem à noite, uma chuva
muito seca, não foi
um bombardeio, só que o
mundo está acabando e eu sou
incapaz de escrever
a respeito.
1 476
Charles Bukowski
Eu Achei Que Ia Me Dar Bem
eu tinha acabado de vomitar fora da porta do meu carro
misturas vermelhas, vinho, cerveja e uísque.
tarde da noite no sábado
não, cedo na manhã de domingo;
eu não aguentaria muito mais; eu estava sempre
me matando
indo parar em cadeias, hospitais, soleiras de porta, pisos...
traduzido para 7 línguas
tema de meia dúzia de cursos de lit. moderna,
eu ainda não sabia nada,
não queria saber;
forcei o último jato
fechei a porta
e rodei a leste pelo Sunset –
quando vi uma coisa com longos cabelos loiros
vomitando, realmente botando pra
fora – expelindo a vida podre o trago podre –
as calças femininas caídas e arrastadas no chão,
bunda nua sob o luar hollywoodiano de cartolina –
a coisa estava realmente passando mal:
ela arfava, então andava um pouquinho,
arfava, aquela bunda branca toda,
e eu pensei, caralho, vou me dar bem –
já faz uns 2 anos e estou cansado de escrever sobre
punhetas –
mas quando me aproximei
percebi que não eram calças femininas e sim masculinas;
era só um garoto de cabelo comprido com uma grande bunda pelada,
mas ora, como dizia o meu amigão Benny –
“qual diabo é a diferença?”
e eu estava prestes a parar junto dele
quando a viatura o viu
e se intrometeu entre nós
e os dois tiras saltaram
bem felizes e empolgados com seu achado –
“ei, mãe, quê que cê tá fazendo com o furo
de fora?”
o garoto afastou as pernas, jogou os braços para o ar.
“ei, você!”, um dos tiras gritou para mim.
desliguei meus faróis e caí fora devagar como se eu não tivesse
escutado. aí pisei fundo na primeira
à direita. na Gramercy Place com Hollywood Blvd. eu parei
abri a porta e
vomitei de novo.
pobre filho da puta, pensei, em vez de
levá-lo pra casa ou para um hospital
vão levá-lo pra cadeia – aquela bunda branca toda.
talvez eles se aproveitem um pouco. bem, era tarde demais para
mim.
fechei a porta, liguei os faróis, rodei em frente,
tentando lembrar onde eu
morava.
misturas vermelhas, vinho, cerveja e uísque.
tarde da noite no sábado
não, cedo na manhã de domingo;
eu não aguentaria muito mais; eu estava sempre
me matando
indo parar em cadeias, hospitais, soleiras de porta, pisos...
traduzido para 7 línguas
tema de meia dúzia de cursos de lit. moderna,
eu ainda não sabia nada,
não queria saber;
forcei o último jato
fechei a porta
e rodei a leste pelo Sunset –
quando vi uma coisa com longos cabelos loiros
vomitando, realmente botando pra
fora – expelindo a vida podre o trago podre –
as calças femininas caídas e arrastadas no chão,
bunda nua sob o luar hollywoodiano de cartolina –
a coisa estava realmente passando mal:
ela arfava, então andava um pouquinho,
arfava, aquela bunda branca toda,
e eu pensei, caralho, vou me dar bem –
já faz uns 2 anos e estou cansado de escrever sobre
punhetas –
mas quando me aproximei
percebi que não eram calças femininas e sim masculinas;
era só um garoto de cabelo comprido com uma grande bunda pelada,
mas ora, como dizia o meu amigão Benny –
“qual diabo é a diferença?”
e eu estava prestes a parar junto dele
quando a viatura o viu
e se intrometeu entre nós
e os dois tiras saltaram
bem felizes e empolgados com seu achado –
“ei, mãe, quê que cê tá fazendo com o furo
de fora?”
o garoto afastou as pernas, jogou os braços para o ar.
“ei, você!”, um dos tiras gritou para mim.
desliguei meus faróis e caí fora devagar como se eu não tivesse
escutado. aí pisei fundo na primeira
à direita. na Gramercy Place com Hollywood Blvd. eu parei
abri a porta e
vomitei de novo.
pobre filho da puta, pensei, em vez de
levá-lo pra casa ou para um hospital
vão levá-lo pra cadeia – aquela bunda branca toda.
talvez eles se aproveitem um pouco. bem, era tarde demais para
mim.
fechei a porta, liguei os faróis, rodei em frente,
tentando lembrar onde eu
morava.
1 103
Charles Bukowski
Latrina Dos Homens
olha só esse aqui:
primeiro antes de cagar ele limpa com
tranquila graça a
tampa do assento, realmente lustra o maldito
troço
aí ele espalha papel higiênico pelo assento,
bem bonitinho, chegando até mesmo a
suspender um bocado de papel onde sua poderosa genitália
balançará, e aí ele baixa com
dignidade e virilidade
suas cuecas e calças
e
senta e
caga
quase sem paixão
brigando com um velho jornal sujo
entre seus pés e lendo sobre o jogo de basquete
de ontem –
isso que você vê aqui é um Homem: conhecedor do mundo, e nada de chatos pro
bebezinho, e uma cagada
tranquila bem
tranquilona, e ele limpa a bunda
enquanto conversa com o sujeito que lava as mãos
na pia mais próxima,
e se você estiver parado por perto
aqueles pequenos olhos de camundongo incidirão sobre os seus sem o menor
tremor, e aí –
as cuecas sobem, as calças sobem, o cinto se afivela, ressoa a
descarga,
lavam-se as mãos
e aí ele se posta diante do espelho
inspecionando a glória de si mesmo
penteando o cabelo cuidadosamente em perfeitas e
delicadas arremetidas, finalizando,
então botando aquela
cara
perto do espelho
e se olhando por dentro e por fora, então
satisfeito
ele sai
primeiro se certificando de te dar um pé na bunda
ou o ponderoso insulto apavorante de seus olhos
vazios, e aí com
o rodopio de suas emudecidas nádegas egoístas
ele sai do banheiro dos homens,
e sou deixado ali com toalhas de rosto como flores
espelhos como o mar
e sou deixado com a mais doentia das esperanças
de que um dia o ser humano verdadeiro vai chegar
para que haja algo pra salvar
cagar então
nem se
fala.
primeiro antes de cagar ele limpa com
tranquila graça a
tampa do assento, realmente lustra o maldito
troço
aí ele espalha papel higiênico pelo assento,
bem bonitinho, chegando até mesmo a
suspender um bocado de papel onde sua poderosa genitália
balançará, e aí ele baixa com
dignidade e virilidade
suas cuecas e calças
e
senta e
caga
quase sem paixão
brigando com um velho jornal sujo
entre seus pés e lendo sobre o jogo de basquete
de ontem –
isso que você vê aqui é um Homem: conhecedor do mundo, e nada de chatos pro
bebezinho, e uma cagada
tranquila bem
tranquilona, e ele limpa a bunda
enquanto conversa com o sujeito que lava as mãos
na pia mais próxima,
e se você estiver parado por perto
aqueles pequenos olhos de camundongo incidirão sobre os seus sem o menor
tremor, e aí –
as cuecas sobem, as calças sobem, o cinto se afivela, ressoa a
descarga,
lavam-se as mãos
e aí ele se posta diante do espelho
inspecionando a glória de si mesmo
penteando o cabelo cuidadosamente em perfeitas e
delicadas arremetidas, finalizando,
então botando aquela
cara
perto do espelho
e se olhando por dentro e por fora, então
satisfeito
ele sai
primeiro se certificando de te dar um pé na bunda
ou o ponderoso insulto apavorante de seus olhos
vazios, e aí com
o rodopio de suas emudecidas nádegas egoístas
ele sai do banheiro dos homens,
e sou deixado ali com toalhas de rosto como flores
espelhos como o mar
e sou deixado com a mais doentia das esperanças
de que um dia o ser humano verdadeiro vai chegar
para que haja algo pra salvar
cagar então
nem se
fala.
1 069
Charles Bukowski
Viciado Em Cavalo
nós trabalhávamos em banquetas lado a lado.
ele era negro e eu era branco
mas não é uma história racial –
nós éramos camaradas de apostas em cavalo
e ficávamos ali sentados enfiando cartas
a noite toda e por horas extras.
nossos olhos pareciam olhos de drogados:
estávamos viciados em Cavalo.
pelas 2 da manhã eu dava um salto e jogava minhas cartas todas no chão,
“ah, jesus!”, eu gritava, “ah, jesus cristo!”
“o quê o quê?”, meu camarada perguntava.
eu ficava ali parado com um cigarro queimando meus lábios:
“ah, jesus do céu, eu saquei! eu saquei! ah, jesus do céu,
é tão simples! me veio do nada! por que é que eu nunca tinha pensado?”
“o que é?”, ele perguntava, “me conta.”
então o supervisor vinha ver:
“Bukowski, qual é o maldito problema com você? cuide da sua estante! você
enlouqueceu?”
eu ficava ali parado e acendia calmamente um novo cigarro:
“escuta, bebê, cai fora! você me irrita! vou ser o primeiro a te contar, bebê,
meus dias de trabalho aqui estão definitivamente contados! eu saquei! eu realmente saquei
agora!”
“seus dias de trabalho aqui, Bukowski, estão definitivamente contados! agora cuide da sua estante e
pare de gritar!”
eu olhava pra ele como um cocô de cachorro e pegava o rumo da
latrina. por que é que eu não tinha pensado antes? eu ia comprar uma casa em Hollywood
Hills, beber e trepar a noite toda, ficar na jogatina o dia
todo.
então eu voltava, calmo.
ficava tudo bem até 4 da manhã e aí meu camarada dava um salto
jogando a correspondência pela estante toda:
“está tudo acabado! está tudo acabado! eu saquei! ah, meu deus, eu saquei!
é tão simples! tudo que você precisa fazer é pegar o cavalo que...”
“sim, sim?”, eu perguntava.
e o supervisor vinha correndo de novo
e perguntava ao meu camarada:
“e agora qual é o maldito problema com você? tá louco também?”
“escuta, cara, sai fora! tira essa cara da minha cara
ou eu te tiro no tapa!”
“tá me ameaçando, cara?”
“eu tô te dizendo, já era pra mim esse emprego! agora sai
fora!”
nós corríamos ao hipódromo no dia seguinte pra cair matando
mas de noite já estávamos de volta em nossas banquetas postais, como
sempre. sem dúvida, não faz muito sentido trabalhar a 20 ou 30 pratas por noite
quando você perde 50 pratas por dia. ele largou primeiro e eu logo
larguei atrás. vejo ele na pista todos os dias agora.
a esposa cuida dele. “eu finalmente aperfeiçoei minha jogada”, ele me diz.
“claro”, eu digo e me afasto pensando, esse filho da puta é realmente louco,
então vou até o guichê de 5 pela vitória pra apostar no meu esquema mais recente,
basta pegar a média de velocidade, acrescentar os 2 primeiros números na coluna de
dinheiro recebido, aí você...
ele era negro e eu era branco
mas não é uma história racial –
nós éramos camaradas de apostas em cavalo
e ficávamos ali sentados enfiando cartas
a noite toda e por horas extras.
nossos olhos pareciam olhos de drogados:
estávamos viciados em Cavalo.
pelas 2 da manhã eu dava um salto e jogava minhas cartas todas no chão,
“ah, jesus!”, eu gritava, “ah, jesus cristo!”
“o quê o quê?”, meu camarada perguntava.
eu ficava ali parado com um cigarro queimando meus lábios:
“ah, jesus do céu, eu saquei! eu saquei! ah, jesus do céu,
é tão simples! me veio do nada! por que é que eu nunca tinha pensado?”
“o que é?”, ele perguntava, “me conta.”
então o supervisor vinha ver:
“Bukowski, qual é o maldito problema com você? cuide da sua estante! você
enlouqueceu?”
eu ficava ali parado e acendia calmamente um novo cigarro:
“escuta, bebê, cai fora! você me irrita! vou ser o primeiro a te contar, bebê,
meus dias de trabalho aqui estão definitivamente contados! eu saquei! eu realmente saquei
agora!”
“seus dias de trabalho aqui, Bukowski, estão definitivamente contados! agora cuide da sua estante e
pare de gritar!”
eu olhava pra ele como um cocô de cachorro e pegava o rumo da
latrina. por que é que eu não tinha pensado antes? eu ia comprar uma casa em Hollywood
Hills, beber e trepar a noite toda, ficar na jogatina o dia
todo.
então eu voltava, calmo.
ficava tudo bem até 4 da manhã e aí meu camarada dava um salto
jogando a correspondência pela estante toda:
“está tudo acabado! está tudo acabado! eu saquei! ah, meu deus, eu saquei!
é tão simples! tudo que você precisa fazer é pegar o cavalo que...”
“sim, sim?”, eu perguntava.
e o supervisor vinha correndo de novo
e perguntava ao meu camarada:
“e agora qual é o maldito problema com você? tá louco também?”
“escuta, cara, sai fora! tira essa cara da minha cara
ou eu te tiro no tapa!”
“tá me ameaçando, cara?”
“eu tô te dizendo, já era pra mim esse emprego! agora sai
fora!”
nós corríamos ao hipódromo no dia seguinte pra cair matando
mas de noite já estávamos de volta em nossas banquetas postais, como
sempre. sem dúvida, não faz muito sentido trabalhar a 20 ou 30 pratas por noite
quando você perde 50 pratas por dia. ele largou primeiro e eu logo
larguei atrás. vejo ele na pista todos os dias agora.
a esposa cuida dele. “eu finalmente aperfeiçoei minha jogada”, ele me diz.
“claro”, eu digo e me afasto pensando, esse filho da puta é realmente louco,
então vou até o guichê de 5 pela vitória pra apostar no meu esquema mais recente,
basta pegar a média de velocidade, acrescentar os 2 primeiros números na coluna de
dinheiro recebido, aí você...
1 143
Charles Bukowski
A Lésbica
(dedicado a todas elas)
eu estava sentado no meu sofá certa noite,
como de costume, de cueca e camiseta,
bebendo cerveja e sem pensar em grande coisa
quando houve uma batida na porta –
“uuh huuu! uuh huuu!”
que diabo agora?, pensei.
“uuh huuu! uuh huuu!”
“o que é?”, perguntei.
“consegui uma magrinha! consegui uma magrinha pra você!”
uma magrinha?
o som era de voz feminina.
“espera um minuto”, pedi.
fui até o banheiro, vesti uma camisa rasgada e
minhas calças chino sujas. então saí e abri a
porta.
era a lésbica que morava nos fundos.
“comprei uma magrinha pra você”, ela disse.
“ah é?”
ela estava de suéter justinho e short,
ela ligou o luar.
“tá vendo? perdi 9 quilos! você gostou?”
“entra”, eu falei.
ela sentou na cadeira diante de mim e
cruzou as pernas.
“não conta pra senhoria que eu vim aqui.”
“não se preocupe”, falei.
e ela cruzou as pernas no outro sentido. as pernas tinham
grandes machucados roxos por todo lado. fiquei imaginando quem
os teria botado ali.
ela falou e fez perguntas, falou e fez perguntas –
quem era aquela mulher que veio aqui com a garotinha? a minha garotinha, era
a minha garotinha? sim, mas elas não moravam aqui. puxa, que legal.
o pai dela a sustentava, o pai lhe dava um monte de dinheiro, o pai era um
cara legal. aquela pintura na parede era minha? sim, era. ela entendia um pouco de
Arte – ela disse. eu tinha uma namorada? o que é que eu fazia quando eu não estava dormindo?
ela falou e fez perguntas, falou e fez perguntas. eu estava entediado,
completamente aéreo.
na minha juventude
eu achava que podia alterar a natureza,
mas uma lésbica tinha mostrado ser pura madeira –
madeira com olho de nó –
e a outra
(eu tentei duas vezes)
tinha quase me matado,
correndo atrás de mim por três lances de escada e
por meio
Bunker Hill.
aquela diante de mim se levantou
se aproximou, então esfregou os seios na minha
cara –
“não quer um pouquinho, não?”
“hmm hmm.”
ela apontou para um troninho no canto –
“você ainda usa aquilo?”
“ah sim. pinica um pouco as minhas nádegas mas me traz
boas lembranças...”
“boa noite!” ela correu até a porta, abriu, bateu
com força.
“boa noite”, eu
disse, e aí terminei minha garrafa de cerveja, pensando,
qual será o problema com
ela hoje?
*
depois teve um homem com perninhas minúsculas correndo lá
atrás. ele tinha um corpo comprido, e aquelas perninhas minúsculas
começavam onde estariam os joelhos de um homem comum
e o cara ia correndo com aquelas perninhas minúsculas
levando cestas de comida para a lésbica lá atrás.
minha nossa, tem algo de errado com aquele pobre sujeitinho,
pensei.
o senhorio o escorraçou de lá certa manhã pelas 5 horas
“ei! que diabo cê tá fazendo aí em cima? some
daqui!”
“eu trouxe comida pra ela! eu trouxe comida pra ela!”
“some daqui!”
o senhorio correu atrás dele pela entrada da garagem. “você tá lá em cima todo
santo dia às 3 da manhã. eu tô ficando de saco cheio! você não dorme nunca?
qual é o maldito problema com as suas pernas?”
“eu durmo! eu durmo! eu trabalho de noite!”
eles passaram correndo pela minha janela.
“você trabalha de noite? qual é maldito problema com você? por que você não arranja um emprego
durante o dia?”
o perninhas apenas seguiu correndo. ele fez uma curva rápida contornando uma cerca viva e subiu a
rua. o senhorio gritou atrás dele:
“idiota desgraçado! você não sabe que ela é sapatão? que diabo você vai fazer com uma
sapatão?”
não houve resposta, é
claro.
*
depois o sujeito do pátio contíguo, um cara tendendo um pouco pro lado
subnormal, herdou 20 mil
dólares. quando eu vi já estava escutando a voz da lésbica
lá dentro. as paredes eram bem finas.
deus, ela ficou de joelhos e esfregou todos os
pisos. e não parava de sair pela porta dos fundos com o
lixo. ele devia estar com um ano de lixo acumulado lá
dentro. toda vez que ela corria pelos fundos a porta de tela
batia – bam! bam! bam!, deve ter batido 70 vezes em uma
hora e meia. ela estava mostrando para ele.
meu quarto era contíguo ao deles. de noite eu escutava o cara comendo
ela. não havia muita ação. meio morto. só um corpo em
movimento. adivinha qual.
poucos dias depois a lésbica começou a dar ordens –
vindo da cozinha –
“ah não, garoto! de pé! de pé! você não pode ir pra cama a essa hora
do dia! não vou arrumar a sua cama duas vezes!”
e uma semana depois acabou. não voltei a escutar a voz dela.
ela estava de novo na casa dela nos fundos.
eu estava parado na minha varanda um dia pensando a respeito –
pobre coitada. por que é que ela não arranja uma namorada? não tenho preconceito, não
tenho nada contra nenhuma lésbica, não senhor! Safo por exemplo. eu não
tinha nada contra Safo
tampouco.
aí levantei o rosto e lá vinha ela pela
entrada da garagem, era tarde demais para fugir pra dentro
de casa. fiquei bem quieto, tentando ser parte da varanda.
ela se aproximou com seu short branco e o pescoço curvado como um abutre e
aí me viu e fez um som incrível:
“yawk!”
“bom dia”, eu disse.
“yawk!”, ela fez de novo.
caramba, pensei, ela acha que eu sou um pássaro. entrei às pressas na minha casa e
fechei a porta, espiei pelas
cortinas. ela estava lá fora respirando
forte. então ela começou a abanar os braços pra cima e pra baixo, fazendo
“yawk! yawk! yawk!”
ela pirou, eu
pensei.
então lentamente lentamente ela começou a subir pelo
ar.
ah não, pensei.
ela estava um metro acima da cerca viva,
abanando o ar – os seios quicando tristemente,
as pernas gigantes dando coices
procurando apoio no
ar. aí ela subiu, mais e
mais alto. ela estava acima dos prédios residenciais, subindo
pela névoa poluída de Los Angeles. então ela pairou sobre o Sunset Boulevard
bem alto acima do Banco Crocker-Citizens, e
então vi outro objeto que vinha voando do
sul. ele parecia ser só corpo com umas perninhas curtas
atrás. aí eles voaram um ao
encontro do outro. quando vi os dois se abraçando em pleno ar
eu me virei, entrei na cozinha e
baixei todas as
cortinas.
e esperei pelo fim do
mundo.
minha cabeça ressoava como um sino
e eu comecei a chorar.
eu estava sentado no meu sofá certa noite,
como de costume, de cueca e camiseta,
bebendo cerveja e sem pensar em grande coisa
quando houve uma batida na porta –
“uuh huuu! uuh huuu!”
que diabo agora?, pensei.
“uuh huuu! uuh huuu!”
“o que é?”, perguntei.
“consegui uma magrinha! consegui uma magrinha pra você!”
uma magrinha?
o som era de voz feminina.
“espera um minuto”, pedi.
fui até o banheiro, vesti uma camisa rasgada e
minhas calças chino sujas. então saí e abri a
porta.
era a lésbica que morava nos fundos.
“comprei uma magrinha pra você”, ela disse.
“ah é?”
ela estava de suéter justinho e short,
ela ligou o luar.
“tá vendo? perdi 9 quilos! você gostou?”
“entra”, eu falei.
ela sentou na cadeira diante de mim e
cruzou as pernas.
“não conta pra senhoria que eu vim aqui.”
“não se preocupe”, falei.
e ela cruzou as pernas no outro sentido. as pernas tinham
grandes machucados roxos por todo lado. fiquei imaginando quem
os teria botado ali.
ela falou e fez perguntas, falou e fez perguntas –
quem era aquela mulher que veio aqui com a garotinha? a minha garotinha, era
a minha garotinha? sim, mas elas não moravam aqui. puxa, que legal.
o pai dela a sustentava, o pai lhe dava um monte de dinheiro, o pai era um
cara legal. aquela pintura na parede era minha? sim, era. ela entendia um pouco de
Arte – ela disse. eu tinha uma namorada? o que é que eu fazia quando eu não estava dormindo?
ela falou e fez perguntas, falou e fez perguntas. eu estava entediado,
completamente aéreo.
na minha juventude
eu achava que podia alterar a natureza,
mas uma lésbica tinha mostrado ser pura madeira –
madeira com olho de nó –
e a outra
(eu tentei duas vezes)
tinha quase me matado,
correndo atrás de mim por três lances de escada e
por meio
Bunker Hill.
aquela diante de mim se levantou
se aproximou, então esfregou os seios na minha
cara –
“não quer um pouquinho, não?”
“hmm hmm.”
ela apontou para um troninho no canto –
“você ainda usa aquilo?”
“ah sim. pinica um pouco as minhas nádegas mas me traz
boas lembranças...”
“boa noite!” ela correu até a porta, abriu, bateu
com força.
“boa noite”, eu
disse, e aí terminei minha garrafa de cerveja, pensando,
qual será o problema com
ela hoje?
*
depois teve um homem com perninhas minúsculas correndo lá
atrás. ele tinha um corpo comprido, e aquelas perninhas minúsculas
começavam onde estariam os joelhos de um homem comum
e o cara ia correndo com aquelas perninhas minúsculas
levando cestas de comida para a lésbica lá atrás.
minha nossa, tem algo de errado com aquele pobre sujeitinho,
pensei.
o senhorio o escorraçou de lá certa manhã pelas 5 horas
“ei! que diabo cê tá fazendo aí em cima? some
daqui!”
“eu trouxe comida pra ela! eu trouxe comida pra ela!”
“some daqui!”
o senhorio correu atrás dele pela entrada da garagem. “você tá lá em cima todo
santo dia às 3 da manhã. eu tô ficando de saco cheio! você não dorme nunca?
qual é o maldito problema com as suas pernas?”
“eu durmo! eu durmo! eu trabalho de noite!”
eles passaram correndo pela minha janela.
“você trabalha de noite? qual é maldito problema com você? por que você não arranja um emprego
durante o dia?”
o perninhas apenas seguiu correndo. ele fez uma curva rápida contornando uma cerca viva e subiu a
rua. o senhorio gritou atrás dele:
“idiota desgraçado! você não sabe que ela é sapatão? que diabo você vai fazer com uma
sapatão?”
não houve resposta, é
claro.
*
depois o sujeito do pátio contíguo, um cara tendendo um pouco pro lado
subnormal, herdou 20 mil
dólares. quando eu vi já estava escutando a voz da lésbica
lá dentro. as paredes eram bem finas.
deus, ela ficou de joelhos e esfregou todos os
pisos. e não parava de sair pela porta dos fundos com o
lixo. ele devia estar com um ano de lixo acumulado lá
dentro. toda vez que ela corria pelos fundos a porta de tela
batia – bam! bam! bam!, deve ter batido 70 vezes em uma
hora e meia. ela estava mostrando para ele.
meu quarto era contíguo ao deles. de noite eu escutava o cara comendo
ela. não havia muita ação. meio morto. só um corpo em
movimento. adivinha qual.
poucos dias depois a lésbica começou a dar ordens –
vindo da cozinha –
“ah não, garoto! de pé! de pé! você não pode ir pra cama a essa hora
do dia! não vou arrumar a sua cama duas vezes!”
e uma semana depois acabou. não voltei a escutar a voz dela.
ela estava de novo na casa dela nos fundos.
eu estava parado na minha varanda um dia pensando a respeito –
pobre coitada. por que é que ela não arranja uma namorada? não tenho preconceito, não
tenho nada contra nenhuma lésbica, não senhor! Safo por exemplo. eu não
tinha nada contra Safo
tampouco.
aí levantei o rosto e lá vinha ela pela
entrada da garagem, era tarde demais para fugir pra dentro
de casa. fiquei bem quieto, tentando ser parte da varanda.
ela se aproximou com seu short branco e o pescoço curvado como um abutre e
aí me viu e fez um som incrível:
“yawk!”
“bom dia”, eu disse.
“yawk!”, ela fez de novo.
caramba, pensei, ela acha que eu sou um pássaro. entrei às pressas na minha casa e
fechei a porta, espiei pelas
cortinas. ela estava lá fora respirando
forte. então ela começou a abanar os braços pra cima e pra baixo, fazendo
“yawk! yawk! yawk!”
ela pirou, eu
pensei.
então lentamente lentamente ela começou a subir pelo
ar.
ah não, pensei.
ela estava um metro acima da cerca viva,
abanando o ar – os seios quicando tristemente,
as pernas gigantes dando coices
procurando apoio no
ar. aí ela subiu, mais e
mais alto. ela estava acima dos prédios residenciais, subindo
pela névoa poluída de Los Angeles. então ela pairou sobre o Sunset Boulevard
bem alto acima do Banco Crocker-Citizens, e
então vi outro objeto que vinha voando do
sul. ele parecia ser só corpo com umas perninhas curtas
atrás. aí eles voaram um ao
encontro do outro. quando vi os dois se abraçando em pleno ar
eu me virei, entrei na cozinha e
baixei todas as
cortinas.
e esperei pelo fim do
mundo.
minha cabeça ressoava como um sino
e eu comecei a chorar.
1 207
Charles Bukowski
Queimando Na Água, Afogando-Se Na Chama
pessoas copiadas em carbono
escolhendo roupas e sapatos e objetos
pessoas copiadas em carbono
entrando em edifícios e saindo deles,
vendo o mesmo sol
a mesma lua,
lendo o mesmo jornal
olhando os mesmos programas
tendo as mesmas ideias,
dormindo ao mesmo tempo,
levantando ao mesmo tempo,
comendo a mesma comida,
dirigindo os mesmos carros pelas mesmas autoestradas
pessoas copiadas em carbono
com filhos copiados em carbono
em casas copiadas em carbono
com Natais e Anos Novos copiados em carbono
e aniversários e vidas e
mortes
e gramados e lava-louças e tapetes
e vasos e amores e cópulas, e
elas têm dentistas copiados em carbono e
prefeitos e governadores e presidentes copiados em carbono
todas vendo o mesmo sol e a mesma lua,
ó caixões copiados em carbono
ó túmulos copiados em carbono
ó enterros copiados em carbono
sob a mesma lua,
a grama copiada em carbono a geada
as lápides copiadas em carbono,
a risada copiada em carbono
os gritos copiados em carbono
as piadas copiadas em carbono
os poemas copiados em carbono
a cópia em carbono copiada em carbono
loucos e bêbados e drogados e estupradores
e cães e gatos e pássaros e cobras e aranhas,
há um excesso de todas as coisas tudo parecido,
eu tenho dedos e há dedos em todos os lugares,
se eu entro por uma porta devo sair por uma porta,
faço cocô e há cocô em todos os lugares,
tenho olhos e há olhos em todos os lugares.
tenho pesadelos e há pesadelos em todos os lugares,
se durmo devo acordar,
se trepo devo parar de trepar,
se como devo parar de comer,
não posso fazer nada que quero,
estou trancado numa repetição de mesmice...
estou queimando na água
estou me afogando na chama
sou lançado em nuvens de açúcar que mijam vinagre,
mas você também e eles também e nós também,
e pensamentos e lutas
contra um dínamo de similares contorções,
ajuda ajuda ajuda ajuda ajuda ajuda ajuda
eu dou o grito de ajuda copiado em carbono contra o céu copiado em carbono,
que todo esse carbono e papelão contêm sangue e dor,
até mesmo amor e história e esperança,
esse é o empecilho, ou esse é o truque?
como poderemos saber? os psiquiatras e pregadores e filósofos
copiados em carbono nos dizem coisas copiadas em carbono...
morte? existe morte? talvez o portão se abra
e nós seremos acolhidos por anjos torrados e torturados
onde seremos afinal trapaceados numa insuficiente Eternidade,
uma piada pior do que a Vida...
não seria uma merda?
escapar de homens como alavancas de câmbio e mulheres como
carne de cavalo, apenas para
despontar em algo pior? ah,
pense então nos irritados suicídios
nos heróis mortos de guerras mortas...
nas crianças atropeladas,
nos santos queimados na fogueira –
todos eles defraudados, enrolados, dopados,
vendidos a uma escravidão pior do que ranho
cante as suas mortes cante as suas mortes cante as suas
mortes, cante a sua vida, cante
a vida, isso não é nada
bom, isso não é nada
bom. meu deus, esqueci de botar um
papel-carbono embaixo desta
folha...
escolhendo roupas e sapatos e objetos
pessoas copiadas em carbono
entrando em edifícios e saindo deles,
vendo o mesmo sol
a mesma lua,
lendo o mesmo jornal
olhando os mesmos programas
tendo as mesmas ideias,
dormindo ao mesmo tempo,
levantando ao mesmo tempo,
comendo a mesma comida,
dirigindo os mesmos carros pelas mesmas autoestradas
pessoas copiadas em carbono
com filhos copiados em carbono
em casas copiadas em carbono
com Natais e Anos Novos copiados em carbono
e aniversários e vidas e
mortes
e gramados e lava-louças e tapetes
e vasos e amores e cópulas, e
elas têm dentistas copiados em carbono e
prefeitos e governadores e presidentes copiados em carbono
todas vendo o mesmo sol e a mesma lua,
ó caixões copiados em carbono
ó túmulos copiados em carbono
ó enterros copiados em carbono
sob a mesma lua,
a grama copiada em carbono a geada
as lápides copiadas em carbono,
a risada copiada em carbono
os gritos copiados em carbono
as piadas copiadas em carbono
os poemas copiados em carbono
a cópia em carbono copiada em carbono
loucos e bêbados e drogados e estupradores
e cães e gatos e pássaros e cobras e aranhas,
há um excesso de todas as coisas tudo parecido,
eu tenho dedos e há dedos em todos os lugares,
se eu entro por uma porta devo sair por uma porta,
faço cocô e há cocô em todos os lugares,
tenho olhos e há olhos em todos os lugares.
tenho pesadelos e há pesadelos em todos os lugares,
se durmo devo acordar,
se trepo devo parar de trepar,
se como devo parar de comer,
não posso fazer nada que quero,
estou trancado numa repetição de mesmice...
estou queimando na água
estou me afogando na chama
sou lançado em nuvens de açúcar que mijam vinagre,
mas você também e eles também e nós também,
e pensamentos e lutas
contra um dínamo de similares contorções,
ajuda ajuda ajuda ajuda ajuda ajuda ajuda
eu dou o grito de ajuda copiado em carbono contra o céu copiado em carbono,
que todo esse carbono e papelão contêm sangue e dor,
até mesmo amor e história e esperança,
esse é o empecilho, ou esse é o truque?
como poderemos saber? os psiquiatras e pregadores e filósofos
copiados em carbono nos dizem coisas copiadas em carbono...
morte? existe morte? talvez o portão se abra
e nós seremos acolhidos por anjos torrados e torturados
onde seremos afinal trapaceados numa insuficiente Eternidade,
uma piada pior do que a Vida...
não seria uma merda?
escapar de homens como alavancas de câmbio e mulheres como
carne de cavalo, apenas para
despontar em algo pior? ah,
pense então nos irritados suicídios
nos heróis mortos de guerras mortas...
nas crianças atropeladas,
nos santos queimados na fogueira –
todos eles defraudados, enrolados, dopados,
vendidos a uma escravidão pior do que ranho
cante as suas mortes cante as suas mortes cante as suas
mortes, cante a sua vida, cante
a vida, isso não é nada
bom, isso não é nada
bom. meu deus, esqueci de botar um
papel-carbono embaixo desta
folha...
953
Charles Bukowski
Poema Para Dante
Dante, bebê, o Inferno
é aqui agora.
eu queria que você pudesse
ver. por certo tempo
tivemos o poder de
explodir a terra
e agora estamos descobrindo
o poder de abandoná-
la. mas a maioria terá de
ficar e
morrer. ou pela Bomba
ou então pelo refugo de ossos
empilhados
e outros recipientes vazios,
e merda e vidro e fumaça,
Dante, bebê, o Inferno
é aqui agora.
e as pessoas ainda contemplam rosas
pedalam bicicletas
batem relógio de ponto
compram casas e pinturas e carros;
as pessoas continuam a
copular
em todos os lugares, e os jovens olham em volta
e gritam
que este deveria ser um lugar melhor,
como sempre fizeram,
e aí ficaram velhos
e entraram no mesmo jogo sujo.
só que agora
todos os jogos sujos dos séculos
se somaram a um placar que parece quase
impossível de reverter.
alguns ainda tentam –
nós os chamamos de santos, poetas, loucos, tolos.
Dante, bebê, ó Dante, bebê,
você devia ver a gente
agora.
é aqui agora.
eu queria que você pudesse
ver. por certo tempo
tivemos o poder de
explodir a terra
e agora estamos descobrindo
o poder de abandoná-
la. mas a maioria terá de
ficar e
morrer. ou pela Bomba
ou então pelo refugo de ossos
empilhados
e outros recipientes vazios,
e merda e vidro e fumaça,
Dante, bebê, o Inferno
é aqui agora.
e as pessoas ainda contemplam rosas
pedalam bicicletas
batem relógio de ponto
compram casas e pinturas e carros;
as pessoas continuam a
copular
em todos os lugares, e os jovens olham em volta
e gritam
que este deveria ser um lugar melhor,
como sempre fizeram,
e aí ficaram velhos
e entraram no mesmo jogo sujo.
só que agora
todos os jogos sujos dos séculos
se somaram a um placar que parece quase
impossível de reverter.
alguns ainda tentam –
nós os chamamos de santos, poetas, loucos, tolos.
Dante, bebê, ó Dante, bebê,
você devia ver a gente
agora.
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