Poemas neste tema

Cidade e Cotidiano

Fontoura Xavier

Fontoura Xavier

VI - Dogaressa

Veneza; um grande sol, numa púrpura acesa,
Vermelha, semelhante ao rico colorido
De Ticiano, agoniza entre o Canal e o Lido:
A agonia do sol da glória de Veneza.

A sua dor de luz vibra como um gemido;
As balsas do Canal são negras de tristeza...
E é tudo o que recorda a colossal grandeza
De um mundo vencedor sobre um mundo vencido.

A quadriga de bronze, os jarretes em arcos,
Numa ânsia de aclamar a jornada de Arcole,
Escarva, piaffé, o frontão de São Marcos.

Dogaressa é um pombal; por Mocenigo, aos tombos,
Palácio que abrigou Byron e Guiccioli,
Beijam-se febrilmente, arruflados, dois pombos.


In: XAVIER, Fontoura. Opalas. 4.ed. Rio de Janeiro: Gráf. Sauer, 1928
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Adélia Prado

Adélia Prado

Invitatório

De onde estou vejo através da chuva
a torre do Bom Jesus,
alguma árvore, casas,
a desolação me toma.
A vida inteira para estar aqui
neste domingo,
nesta cidade sem história,
nesta chuva
mensageira de um medo
que não o de relâmpagos,
pois é mansa.
É inapelável morrer?
Não há um álibi, um fato novo,
um homem novo portador de alvíssaras?
Quatro meninos entram no matagal
e retornam fumando,
batendo o cisco da roupa.
Uma negra sobe a ladeira, um velho,
alguém joga o lixo
por um buraco no muro,
tudo como em mil novecentos e setenta e seis.
Por que se erra?
Queria escrever mil setecentos e noventa e seis,
que mecanismo desviou-me?
Há um cheiro no ar
que — para meu susto — mais ninguém percebe,
um cheiro de metal
que me fere as narinas,
cheiro de ferro.
Nada tem sentido,
quero uma bacia grande
para catar as partes e montá-las
quando as visitas se forem.
Ninguém me logra, pois não há ninguém,
é uma fita antiga de um cinema mudo,
os lábios movem-se e é só.
Senhor, Senhor Jesus, ouvi-me. Existo?
Faz tempo que não sonho, existo?
Responde-me, tem piedade de mim,
me dá a antiga alegria, os medos confortadores,
não este, este não, pois sou fraca demais.
Ouvi-me, pobre de mim,
Nossa Senhora da Conceição, valei-me.
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Adélia Prado

Adélia Prado

Mural

Recolhe do ninho os ovos
a mulher
nem jovem nem velha,
em estado de perfeito uso.
Não vem do sol indeciso
a claridade expandindo-se,
é dela que nasce a luz
de natureza velada,
seu próprio gosto
em ter uma família,
amar a aprazível rotina.
Ela não sabe que sabe,
a rotina perfeita é Deus:
as galinhas porão seus ovos,
ela porá sua saia,
a árvore a seu tempo
dará suas flores rosadas.
A mulher não sabe que reza:
que nada mude, Senhor.
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José Bonifácio, o Moço

José Bonifácio, o Moço

O Barão e Seu Cavalo

CANTO I

O DELÍRIO

Donde vens, Inacinho, a horas mortas,
No meio de tigelas e comportas,
Co'uma vela na mão, cheio de empolas
Montado numa réstia de cebolas?
Onde foste buscar a enorme gorra,
O chapéu com feitio de pichorra?
Tu sonhas... tu deliras... que venturas?!
Foste acaso no Brás comprar verduras?

Não, Inácio Pindoba, és grande e forte!
Comes confeitos, capataz da morte;
Morcego de fardão e berimbau,
És capaz de engolir carvão e pau!
Donde vens? Donde vens? Das terras sardas
Não pode ser que vens de calças pardas!
Ei-lo murmura triste com voz aflita:
Não me deixam comer banana frita.

Sem sapatos, de meias de canhamo
Traz na destra gentil um verde ramo,
É como Ulisses procurando a Itália
Sem ter ciência de que foi à Gália...
As crianças assustam-se nas ruas
Por ver o Guimarães de costas nuas,
E dele as rondas quase deram cabo,
Vendo um cão a latir de lata ao rabo.

Ei-lo que chega à porta da polícia,
E assentou-se no chão! A tribunícia,
Loquela ardente, magistral viveiro,
Quis soltar, mas caiu sobre o terreiro!
Deu um passo, ei-lo entrando o corredor...
Solta um grito infernal: que dor, que dor!!

Galga os degraus, as portas arrebenta,
Torce um pé, machuca a esquerda venta,
Espirra sem querer, procura um banco,
Pede pão com manteiga e vinho branco...
"Tragam, tragam-me já o meu cigarro,
Tragam depressa que senão escarro!"
E ao som do bandolim
Com harmonias suaves
Cantou sozinho um cântico sem fim...
Tinha perdido dos baús as chaves!


In: BONIFÁCIO, José, o moço. Poesias. Org. e apres. Alfredo Bosi e Nilo Scalzo. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1962. (Poesia, 5).

NOTA: Poema satírico, dirigido contra o presidente da Província de São Paulo, Barão de Itaúna (Candinho), publicado em O Ipiranga, out./nov. 1868. Inacinho = Dr. Inácio Guimarães, chefe de políci
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da Costa e Silva

da Costa e Silva

Refrão do Trem Noturno

Corre o trem dentro do túnel estrelado da noite
tonto de velocidade
ávido de espaço
a arrastar uma rua ruidosa de carros
e lá vai
acelerando mais e mais as rodas rápidas
da máquina que marcha
— Muita força pouca terra
muita força pouca terra

Andam, resfolegam, sopram, bufam
os cavalos-vapor a galopar invisíveis
nitrindo aflitos
silva a locomotiva
a pupila alucinada reverberando na treva
— compasso de relâmpago
tomando a distância
perdida na noite
— Muita força pouca terra
muita força pouca terra

Em disparada o comboio foge trepidando
ao vaivém dos vagões entrechocados na carreira
como elefantes perseguidos no deserto

É um pesadelo sob o silêncio o trem que passa
o trem que desfila como um sonho rumoroso
o trem que leva oscilando na perspectiva fugidia
árvores
campos
montes
repentinamente em movimento
o trem que se lança no espaço como a vida no tempo
— Muita força pouca terra
muita força pouca terra


Publicado no livro Poesias completas (1950). Poema integrante da série Alhambra.

In: SILVA, Da Costa e. Poesias completas. Org. Alberto da Costa e Silva. 3.ed. rev. e anot. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Brasília: INL, 1985. p.315
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Adélia Prado

Adélia Prado

Tal Qual Um Macho

Comi em frente da televisão
sem usar faca
e repeti o prato
como os caminhoneiros que falam de boca cheia
e vi um programa até o fim.
Até altas da madrugada
fiquei vendo a moças rebolantes
locutores boçais dizerem
segura meu microfone, gracinha.
Depois fui dormir e sonhei,
voava perseguida por soldados
um voo medroso
temendo me embaraçar na rede elétrica.
Acordei com decepção e ânsias,
macho verdadeiro
sonharia com rebolâncias.
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Miriam Paglia Costa

Miriam Paglia Costa

O Novo Mundo

há cidades que
desde a primeira casa
fermentam
avolumadas em massa
desde a primeira planta
que ainda há de virar casa

planta-se ali
no oco da terra
um pau
palmito que não será só pão, mas caibro
e parede e teto de folhagem

ali onde houve índio e taba
a casa cresce
outra aparece
e logo é centro o confim da vila
e logo o centro não cabe no olho
e
-olha!
eis a cidade
904
Adélia Prado

Adélia Prado

A Diva

Vamos ao teatro, Maria José?
Quem me dera,
desmanchei em rosca quinze quilos de farinha,
tou podre. Outro dia a gente vamos.
Falou meio triste, culpada,
e um pouco alegre por recusar com orgulho.
TEATRO! Disse no espelho.
TEATRO! Mais alto, desgrenhada.
TEATRO! E os cacos voaram
sem nenhum aplauso.
Perfeita.
2 796
Ascânio Lopes

Ascânio Lopes

Cataguazes

Para Carlos Drummond de Andrade

Nem Belo Horizonte, colcha de retalhos iguais,
cidade européia de ruas retas, árvores certas,
casas simétricas,
crepúsculos bonitos, sempre bonitos;
Nem juiz de Fora. Ruído. Rumor.
Apitos. Klaxons.
Cidade inglesa de céu enfumaçado, cheio de chaminés negras;
Nem Ouro Preto, cidade morta,
Bruges sem Rodenbach,
onde estudantes passadistas continuam a tradição das coisas que já esquecemos;
Nem Sabará, cidade relíquia,
onde não se pode tocar, para não desmanchar o passado arrumadinho;
Nem Estrela do Sul, a sonhar com tesouros,
tesouros nos cascalhos extintos de seu rio barrento;
Nem Uberaba, nem, nem, cidades arrivistas de gente que não pretende ficar:
Nã-o ! Cataguazes... Há coisa mais bela e serena oculta nos teus flancos.
Nas tuas ruas brinca a inconsciência das cidades
que nunca foram, que não cuidam de ser.
Não sabes, não sei, ninguém compreenderá jamais o que desejas, o que serás.
Não és do passado, não és do futuro; não tens idade...
Só sei que és
a mais mineira cidade de Minas Gerais...
Nem geometria, nem estilo europeu, nem invasão americana de bangalôs derniecri.
Tuas casas são largas casas mineiras feitas na previsão de muitos hóspedes.
Não há em ti o terror das cidades plantadas na mata virgem.
Nem o ramerrão dos bondes atrasados, cheios de gente apressada.
Nem os dísticos de aqui esteve aqui aconteceu.
Nem o tintim áspero dos padeiros.
Nem a buzina incômoda dos tintureiros.
Teus leiteiros ainda levam o leite em burricos.
Os padeiros deixam o pão à janela (cidade mineira).
Teu amanhecer é suave.
Que alegria de só ter gente conhecida faz teu habitante voltar-se para cumprimentar
todos que passam.
Delícia de não encontrar estrangeiros de olhar agudo esperto mau, a suspeitar
riquezas nas terras.
Alegria dos fordes brincando (são dois) na praça.
(Depois vão dormir juntinhas numa só garagem).
Jacaré!
João Arara!
João Gostoso!
teus tipos populares.
A criançada atira-lhes pedras e eles se voltam imprecando.
Rondas alegres de meninas nas ruas, às tardes, sem perigo de veículos,
papagaios que se embaraçam nos fios de luz, balões que sobem,
foguetes obrigatórios nas festas de chegada do chefe político.
Jardins onde meninas ariscas passeiam meia hora só antes do cinema.
Ar morno e sensual de voluptuosidade gostosa que vibra
nas tuas tardes chuvosas, quando as goteiras pingam nos passantes
e batem isócronas nos passeios furados.
Há em ti a delícia da vida que passa porque vale a pena passar,
que passa sem dar por isso, sem supor que se vai transformando.
Em ti se dorme tranqüilo sem guardas-noturnos.
Mas com o cricri dos grilos,
o ranram dos sapos,
o sono é tranqüilo como o de uma criança de colo.
Vale a pena viver em ti.
Nem inquietude,
nem peso inútil de recordações
Mas a confiança que nasce das coisas que não mudam bruscas,
nem ficam eternas.

1 125
Mauricio Segall

Mauricio Segall

Como é triste

Como é
triste
Admirar as garotas de Ipanema
Que pensam que sabem muito
Mas sabem apenas
Que o sol queima
E a praia brozeia
Que cuca é careta
Legal é o gozo
Na liberdade do corpo
Desnudo de tudo
No culto de si
No altar do formoso.

Na passarela as zona sul
O desfile contínuo
Das coxas carnudas
No andar lascivo
Das peles douradas
Das nádegas fofas
Da aerrogância pontuda
Dos bicos dos seios
Dos lábios salientes
Nas tangas colantes
Das pernas abertas
Das pernas fechadas no bar da patota
Das pernas vibrantes
No footing da areia.

A dureza precoce
Nos traços da face
Nos olhares sabidos
De sábia malícia
Mas burras do mundo
Ignorantes de tudo
Prenúncios do nada
Prenúncios doídos.

Quanto desejo frio/quente impregnados de pena
Suscitam as esplendorosas estátuas de Ipanema.

918
Miriam Paglia Costa

Miriam Paglia Costa

A Canção dos Insetos

brilha
a redação
eternidade de néon
aprisionados entre cimento e vidro
escrevemos sobre o mundo que anoitece
nada se vê pelas janelas
só reflexo de nossas caras amarelas
jornalistas no aquário
lá longe, tão depressa
nas escadas do teatro
um mendigo troca andrajos
encerra o ato
sem vaia nem aplauso pega o troco
exit
801
Mauricio Segall

Mauricio Segall

Venham admirar

Venham,
venham admirar
o mais recente monumento
neoclássico da civilização ocidental

Não tenham medo nem receio
das alvas chaminés marítimas,
vigilantes sentinelas avançadas
que vomitam os rugidos do boulez electrônico.

Atravessem ousadamente
o happening programado
vasto pátio de milagres,
repleto de artistas amadores,
profissionais do subemprego
(não esqueçam a moedinha, por favor)
e adentrem a queixada
do mais recente dos molochs.

Tranquilizem-se com as criancinhas
virgens, puras e rosadas
armadilhas inocentes
entrevistas nas provetas
dos ascéticos e desinfetados
ateliers de cria-cria-criatividade.

Venham, venham ser moídos
pela recepção glacial toda sorrisos
deglutidos pelas entranhas desnudas
e expelidos pelas peristálticas tripas de vidro
do mais novo monstro sagrado da arte
sorvedouro metálico
das multidões famintas
de verbo e cor
de som e espetáculo.

Transatlântico multicolorido
circo travestido
novo templo de aço
digerindo tecnologicamente
séculos de sensibilidade
e anos de orçamento.

Cultura nuclear instantânea
para os telespectadores
extasiados com a prestidigitação
arquitetônica do futuro
inserida a golpes de fórceps
entre os velhos tetos de paris.

Ah! Que saudades dos Halles
sacrificados no altar da especulação,
cujo imenso buraco desnudo
nos faz chorar a má-fé dos homens.

Centro Beaubourg-Pompidou
fruto da megalomania furiosa,
ditadura da nova moda,
agencia central da arte
igreja dos novos templos
ritual da nova liturgia,
computador maldito
piscando eternamente
anunciando a nova
e duradoura alienação.

810
Bocage

Bocage

Das terras a pior tu és, ó Goa,

Das terras a pior tu és, ó Goa,
Tu pareces mais ermo que cidade,
Mas alojas em ti maior vaidade
Que Londres, que Paris ou que Lisboa.

A chusma de teus íncolas pregoa
Que excede o Grão Senhor na qualidade;
Tudo quer senhoria; o próprio frade
Alega, para tê-la, o jus da croa!

De timbres prenhe estás; mas oiro e prata
Em cruzes, com que dantes te benzias,
Foge a teus infanções de bolsa chata.

Oh que feliz e esplêndida serias,
Se algum fusco Merlim, que faz bagata,
Te alborcasse a pardaus as senhorias!

2 390
Angela Santos

Angela Santos

Transfiguração

O
quotidiano uiva, grita, sangra
esmaga, dilacera, esventra
corpos almas, sonhos.
quotidiano servido
em taças de amargo gosto
leva-nos na crista de alterosas vagas
sentimos a vida no silencio ou como grito
a vida que espontânea brota
e nos faz sentir
tocados pela morte com suas leves asas
roçando cada instante
de nossos dias

Irrompe a luz e a alvorada,
emerge da terra a rubra papoila
ri a criança nos braços da sua mãe,
o abraço amante numa noite enluarada,
a beleza viva nos traços que o pincel eternizou
ou que a mão do poeta rasgou
levam-nos de volta à vida
frágil, perene
e ao sabor das coisas únicas, simples
aos campos da guerra quotidiana
onde salva a beleza guardada em nossos olhos
e a vontade de e teimar ir além.

Guerreiros sem nome
batemo-nos indómitos nesse imenso campo
onde a vida se dá e se furta também.

673
Angela Santos

Angela Santos

Meninos

Olho
os meninos que habitam a rua
casa que abriga
quem dentro das casas escoa os restos
da sua alma nua

E nas noites frias
em bando se juntam, sacudindo o frio
que trazem colado à pele e à vida,

Meninos,
perdidos pelas esquinas
nem sabem que existe um tempo adiante
que já não conjugam,
futuro imperfeito cravado nos dias.

E os meninos olham-nos
com seus olhos fundos que nos desafiam
e sentimos medo… não sentimos culpa!

1 085
Angela Santos

Angela Santos

Entrelinhas

Ali
naquele instante em que não paramos,
não vimos
que não há dias iguais
no seu aparente igual suceder

Um banco de jardim
um sol morno
a tarde que lenta cai,
rodopiando em correrias
uma criança, um cão
e lá longe a linha do horizonte
fundindo tons de azul

Aqui, fixando um sol laranja
dois amantes se entreolham
e tocam num gesto subtil,
seus dedos se enlaçam
e de repente o corpo respira desejo.

E enchem a vida
os quotidianos, vulgares, ínfimos sinais
passamos, e passamos adiante
sem decifrar na superfície do acontecer
que nada se repete,
que não há dias iguais.

1 013
Yolandino Maia

Yolandino Maia

Haicai

Simplicidade

Sim... fechei o livro
e li durante a viagem
anúncios no bonde.

No teatro

Na platéia escura
nossa vida adormeceu.
No palco, ela sonha

796
Carlos Frydman

Carlos Frydman

Questionário

Meus ávidos olhos fotografam sentimentos;
minhalma, porém, nem sempre os revela com exatidão
O certo é que sou um barco,
carregando uma crescente carga humana e ativa,
densa e colorida.
Trago evidente um contínuo horizonte,
embora proibido de aportar nos portos da sofreguidão.
(...)

Hoje, quando volto ao mundo do egoísmo,
ao mundo do medo e do fetichismo,
te peço, encantadora aeromoça,
de nebulosa e inconsequente expressão,
que respondas meu questionário informal,
proposto por meu conturbado coração:

Como apreciar-te,
Neste sorriso multi-adestrado?
Como encontrar-te,
nesta fosforescência do grande nada?
Como será tua meiguice
em tua bondade-assalariada?
Como será o brilho dos teus olhos
sem o reflexo dos "neons"
das más intenções?
Que dirás ao teu noivo,
ao teu marido, ao teu amante,
depois de multifazer tuas atenções,
depois de estudar
um mundo de feições,
depois de viver
tantas efêmeras aproximações?
Ainda tens noção profunda do que é a firmeza
em tua profissionalidade aérea?

Como sabes o que preferem;
se um sorriso sensual ou teu olhar de pureza?
Estarás feliz na rota íntima que vôas?
Poderás voar ao além do pão de cada dia,
ao além dos "nylons" que te amaciam,
ao além dos cosméticos que te escondem?
....................................................
Venho voando dum mundo
de curtas asas para ilusões
e encontro teus olhos
perdidos em "neons".

Aeroporto de Zurich, 22/10/1962


In: Nossa Voz, São Paulo, 29 nov. 196
1 024
Carlos Frydman

Carlos Frydman

Asfalto

Quando andares cabisbaixo
com a carga de um dia... de dois dias...
de não sei quantos dias...
ou com a carga de uma vida,
vê o asfalto como fala
e compartilha...

Fala claro seu negrume
calado, mas premente,
de ecléticos vestígios
passados e presentes,
civilizados e degradantes,
rolando ao vento,
deleitando os fatalistas,
os retardatários e fatigados,
os impelidos, os submissos e os contrafeitos
pelo impacto compacto;
enquanto,
ao mesmo compasso
descompassado do tempo,
nas mesmas ruas
com itinerários diferentes,
marcham seres em seus caminhos,
amando, acreditando,
na escolha emaranhada
de seus destinos,
embora para todos
o asfalto é negro,
submisso e prestadio.
Quando tiveres sede de paisagens
e te faltar a gênese do horizonte,
especialmente num dia chuvoso,
vê como o asfalto apanha e enriquece
os sensacionalistas clarões dos fosforescentes,
e faz numa só sequência
um guache trêmulo, refletido,
deixando as lágrimas da chuva
arrastarem a lama;
e a vida prevalece
em seu elaborado destino.

Solidão... vazio...
quanta esperança... quanto estio
em teu negrume
— asfalto amigo,
que Mário soube tragar
da "Paulicéia Desvairada"
e onde muito me apaixonei.

(...)

Minha Paulicéia novaiorquina, moscovita,
plagiadora londrina,
colmeia universal,
expressão nítida do advento,
rosário de alegria e de luto,
que me fizeste amante
e companheiro consequente.

Asfalto,
amo tua noite onde rondam
desolações e aconchegos
em teu negro seio.

Incansavelmente te perpassam
mágoas na agitação afogadas,
multidões nostálgicas,
alegrias ilusórias em correntezas diluídas,
homens cavalgando semelhantes
e calafetados contra a verdade;
e homens destemidos no prisma da esperança,
mesmo quando a bruma
parece fechar o caminho em cada esquina.

(...)

Imagem - 00700004


In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
1 037
Ruy Belo

Ruy Belo

Enterro sob o sol

Era a calma do mar naquele olhar
Ela era semelhante a uma manhã
teria a juventude de um mineral
Passeava por vezes pelas ruas
e as ruas uma a uma eram reais
Era o cume da esperança: eternizava
cada uma das coisas que tocava
Mas hoje é tudo como um fruto de setembro
ó meu jardim sujeito à invernia
A aurora da cólera desponta
já não sei da idade do amor
Só me resta colher as uvas do castigo
Sou um alucinado pela sede
Caminho sob o sol enterro de água



Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, pág. 13 | Editorial Presença Lda., 1981
1 415
Ruy Belo

Ruy Belo

Friso de raparigas de Jerusalém

Raparigas no lusco-fusco recortadas
prestes a entoar o cântico da noite
e envoltas no inconsútil tule da sua juventude
dispostas a rasgar os véus vigilantes dos sonhos
são compridos ciprestes soerguidos sobre
as colinas que dezassete vezes viram
destruir a cidade de Jerusalém
Os amados virão quando vier o sábado
pais e mães jazerão sob a pedra da idade
e então elas sozinhas e suaves pensarão
em quem antes do verão virá em nuvens quentes de vapor
E por uma manhã de luz ainda rasa
toucadas de alegria e de neblina
elas hão-de passar a pertencer-lhes e
eles serão seus donos como de uma casa
A sombra adensa-se e condensa-se nos vales
e as mesmas estrelas que séculos antes
olharam cintilantes já as águas do dilúvio
hão-de furar o manto envolvente da noite
Será então a hora de as eternas raparigas
levantando nas mãos as ansiosas ânforas
derramarem o liquido das vozes sobre essa cidade
se dezassete vezes destruída já dezoito construída
E através do tempo os braços dessas raparigas
ligados uns aos outros pela seiva da imorredoura juventude
insistirão na transmissão da vida



Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, págs. 46 e 47 | Editorial Presença Lda., 1981
1 002
Vargas Neto

Vargas Neto

Meio-dia

Todo o ar treme sob o sol do meio-dia!
O capim se dobrou sobre si mesmo, trepidando...
A gente olhando o campo
tem a impressão que derramam sobre ele
qualquer coisa derretida !

O gado invadiu as restingas e os capões,
para fugir à graxa quente, que o sol derrama
derretida
sobre a grama.

No lombo da coxilha
só um cavalo velho bate o casco,
varado de sede,
porque teve preguiça de fugir do sol,
porque tem preguiça de descer à sanga
Debaixo dos cinamomos da fazenda
a peonada dorme, estirada de costas, com o chapéu nos olhos.

Um guaipeca, deitado aos pés de um peão
erra bocadas nas moscas, estalando os dentes.
Depois cocoricoca uma galinha que botou
e tudo volta ao silêncio porque o calor tonteia.

Até o vento tem preguiça de ventar!...
Apenas se ouve, zunindo, longo, infindo,
o monótono zunzum das moscas vagabundas...

982
Ruy Belo

Ruy Belo

Ode do homem de pé

"O que vês, escreve-o"
Apoc., I,11

Rua ferida pelo sol mais uma vez te saúdo
pelos passos lentos como o rolar dos anos
pelos dias vulgares cheios de maçãs
pela timidez que na loja nos assalta de pedir o troco
pelas crianças mal vestidas para a vida
nos bicos dos pés te saúdo
pela paixão que transferiu campaspe
do amor de alexandre então dono do mundo
pra o coração de apeles pintor pobre
que tinha como dom o simples dom de olhar
por tantas coisas belas que ficaram fora dos meus versos
pelos rostos presentes pelo grande ausente por tudo

Oh como o sofrimento purifica minha rua
Ele passa-nos as mãos por todo o corpo
desce por nós como um olhar de mãe
e a mais agasalhada vida vê-se nua

Voz justificação de toda esta arquitectura que somos
chove a meu lado atrás de mim na minha frente
Eu mero obstáculo à incondicional vitória da chuva
peço o teu concurso para cantar a rua à chuva

Rua onde as casas olham quase com desgosto
aquela que a seu lado é demolida
onde eu pecador me confesso e agradeço
este milagre de estar vivo ainda na quinta-feira
passadas já segunda terça e quarta
e poder erguer as duas mãos acima da terra
rua onde passaram os meus pais
onde invejei pela primeira vez o vinco das calças dos adultos
onde compartilhei com estranhos a estrela da manhã
e chorei a queda do maior amigo que não sei quem foi
rua onde tudo ganhei tudo logo perdi
onde assisti ao convívio silencioso das mais diversas árvores
e vi van gogh o holandês entre elas esperar as estações
que vinham alegres e submissas de mãos dadas com crianças
onde pensei que a dança liberta da condição de seres poisados que todos temos na vida de todos os dias
e muitas outras coisas que depois esqueci
rua que me levaste a tanto sonho vão
que me viste passar neste meu corpo sem nunca o conhecer
bem pouco basta minha rua para fazer feliz o homem:
acender por exemplo repentinamente a luz
na sala onde pairava um certo mal-estar
o que dissipa como que para sempre a sua triste condição
Ou então na morte do escritor amigo recitar
o elogio fúnebre de há muito preparado
que se haverá de matar ainda mais o morto
a ele vivo terá por força de o imortalizar

Inútil inverter-te como antes rua para renovar a vida
A inquietação que eu sentia quando me esquecia do sinal da cruz
quando de pernas excessivamente livres
cingia não de cruz mas sim de coração os inúteis caminhos
quando se me exigia o sacrifício dos olhares
e era meu dever nunca fazer ruído algum ao passar pela vida
Deixou de ser uma aventura atravessar-te rua
ao fim de ti nem há já esse pequeno almoço
aonde pelo menos qualquer coisa começava
Não disponho de alento para muitos anos
Sinto-me velho: nasci em 33 estamos em 60
vou fazer vinte anos. Isento do serviço militar
incapaz de lutar mandar obedecer
como que fiquei sempre à espera da maioridade
É tempo de assistir aos funerais dos amigos
começo a estar bom para jazer
«bom é acabar» - dizia o vice-rei
Já sou de deus deixei de ter idade rua
ele passou a ser a minha própria idade
não me levou em conta o céu antecipado
e se algum dia porventura alguma criatura me moveu
o deus que é também teu há muito o esqueceu já ó rua
Se título algum tive já me vai caindo
só deus é minha veste e minha história
Que ele me abra ó rua a porta da palavra

Agora que por fim alguém em sua voz me chama
pelos rostos presentes pelo grande ausente
que me livrou num tempo de injustiça por tudo
ao fim de ti ó rua te saúdo mais uma vez te saúdo



Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 55 a 57 | Editorial Presença Lda., 1984
1 641
Ruy Belo

Ruy Belo

Poema vindo dos dias

A tua cruz senhor é pouco funcional
Não fica bem em nenhum jardim da cidade
dizem os vereadores e é verdade
E além disso os nossos olhos cívicos
ficam-se nos corpos de que nos cercaste
Saudamo-nos por fora como bons cidadãos
Submetemos os ombros ao teu peso
mas há tantos outros pesos pelo dia
E quando tu por um acaso passas
retocado pelas nossas tristes mãos
através dos pobres hábitos diários
só desfraldamos colchas e pegamos
em pétalas para te saudar
Queríamos ver-te romper na tarde
e morrem-nos as pálpebras de sono



Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 55 | Editorial Presença Lda., 1984
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