Poemas neste tema

Cidade e Cotidiano

Moacyr Felix

Moacyr Felix

Poema quase Explicação

Luzes cortam a noite básica
e desenham o mundo em que vivemos.
As estátuas de mármore então brotam
dos lábios e das mãos dos que pararam
e verticalmente apenas olham.

E as estrelas derramam pedra e cal
construindo em cada olhar muralhas
onde fonte magra pinga sol e lua,
- e o relógio é um deus cantando as horas
horas de pedra e cal.

Simplificado como uma lágrima
tu cruzaste a ponte em meninos mortos,
e se teus dedos - já cimento, se crisparam,
teus olhos se encheram de relâmpagos
afiados para os homens de olhos de pedra e cal.

Não mais o refletido caminhar
de teus passos na noite iluminada,
mas descer com os olhos a ladeira
e deixá-los no cárcere sem portas
onde os ratos e os anjos se devoram.

Impassível como um tronco de árvore, onde
os homens gravam a canivete o que calaram.

1 291
Fernando Guedes

Fernando Guedes

A Flor

Intercepção globular
No ponto infinitamente repetido
a existência cessa
em cada instante.

Aqui. No caule ou na folha,
no golpe da enxada,
em mim ou em ti,
no lento mover da roda, no fruto,
construí a cidade.
Ceifaras no campo todo o dia
e de noite vieste ao meu encontro.
Entre o que foi e o que será
alterou-se o número
e a posição do movimento.
Nas ruas desertas
furtivos espreitam os velhos
pelos óculos das portas.
Viram-te chegar,
sabem a cor dos teus olhos
e vão dizer que és pura,
quando for meio-dia,
junto à porta grande da cidade.

Não importa que sejas estrangeira
— sou eu tua nação.
Procurei-te entre as casas,
na roda movente,
entre os grãos de milho torturado;
passei o bosque, o rio,
adormecida te encontrei
no espaço absoluto,
no vazio sempre pronto a mais vazio,
e, crescidos, teus cabelos eram um rebanho de cabras
deixando a planície.

Sete rosas marcam tua vida,
dispostas em losangos, dois losangos:
seis flores úmidas, uma de bondade,
brancas, flores brancas.

Quem te encontrar saberá
que existe um corpo existindo na distância,
fora de nós,
para lá de Andrômeda,
contemporâneo do passado,
permanente na sucessão ilimitada e necessária,
uniformemente transeunte.

1 004
Marcelo Tápia

Marcelo Tápia

cidade-luz

metrópole: elétricos
astros encobrem escuros
uracos de pedra

(1983)

951
José Maria Cançado

José Maria Cançado

Rumo à estação da ficção suprema

Que vêm fazer aqui
os lilases de abril de tom eliot
nos poros da estática estouradaça
da caixa de som do rap e do xote?

esse mantra do abril anglicano
na sirene ligada da língua saturno e onano
do rapper e seu programa de paupéria e glória
do terceiro-urbano?

Personas e máscaras dos poetas
do mundo inteiro, uni-vos
e no mesmo passo desuni-vos
no despaisado da vossa condição e lilases:

Tal qual a zona liberada,
num palco da periferia do Brasil,
como a composição de um novo terno
e de um vasto mundo conato,
por tom eliot, seu pelo lilás pentecostal,
e o sujeito marrento no palco,

se a realidade não escreve
nem jamais escreveu,
ela ensaia uma ficção suprema,
entrar e sair do seu lugar nos livros,
e realizar-se no destino emancipado do poema.
554
Marcelo Tápia

Marcelo Tápia

veículos da cidade

nas ruas cada um vai
ou vem traçando
seu roteiro
único
em meio
a tantos trajetos
cruzados cruzados cruzados
fios que se torcem se desenlaçam
se anovelam se anulam dão-se nó
cada um no seu curso
cada qual no seu leito, seu sulco, seu trilho
seu caminho, seu destino
suas vidas atadas desatadas
seus emaranhados de nadas

923
Herberto Helder

Herberto Helder

Os Ritmos 2

Por acidente: fui ter ao inferno.
Eu passeava à hora mais movimentada, na parte baixa da cidade.
Era a minha cidade, a cidade onde vivo, de que tão bem conheço as ruas e casas, os labirintos, os nomes, a secreta matemática dos fluxos e refluxos, as temperaturas.
Não é preciso ser estrangeiro — tomar comboios ou aviões, atravessar as águas.
O inferno é o último segredo do nosso conhecimento quotidiano.
A multidão andava de um lado para outro, era primavera.
A luz varria o ar.
Eu olhava as pessoas envolvidas exaltantemente por essa luz pura.
Pensava no corpo das pessoas, a alegria fervia dentro dos corpos — via-se isso.
A alegria passava de dentro dos corpos para fora, para os vestidos e fatos — e as ruas e prédios pareciam levitar.
Eu procurava palavras, para oferecer às alegrias das coisas, e uma palavra para a geral alegria do mundo.
Estava a olhar uma mulher, segui-a um pouco pela rua principal da cidade, vi-a desaparecer numa tabacaria.
Hesitei, parei à porta, estive a examinar as revistas expostas na entrada.
Via a mancha branca da mulher, lá dentro, junto ao balcão.
Pensava nos nomes.
Ocorriam-me: Corpo — Idade do Ouro — Liberdade.
De repente, eu recuperara a inocência.
Pensei: o saber doloroso dos anos, as mortes dia a dia, a profundeza das noites onde se acumularam todos os silêncios desembocam aqui, quase inexplicavelmente, nesta inocência que me faz tremer.
Nas capas das revistas havia cores explosivas, primitivas.
As letras saltavam como pequenos animais cheios de respiração e circulações de sangue.
Entrei na tabacaria e surpreendi-me por lá não ver a mulher.
Pensei: saiu sem que eu desse por isso.
Mas eu já perdera a inocência.
É assim: por uma distracção, por querer olhar para todos os lados da inocência, a gente perde a inocência.
Comprei cigarros, saí.
Mas as capas das revistas já não eram as mesmas.
Estavam mortas e sobre elas respirava agora ferozmente um alfabeto sombrio e indecifrável.
Salvação, pensei, preciso salvar-me, preciso ressuscitar no meio desta cidade branca, elevar-me aos nomes justos, ao conhecimento dos corpos ambulatórios.
Mas aquela rua não era já a rua principal da cidade de que eu conhecia a matemática e a meteorologia, as imagens e os altos sons vivos.
Andei pela rua, olhando os rostos desconhecidos, e as vozes diziam palavras de uma língua estrangeira.
Em que cidade de que país deambulava um homem perdido, de súbito órfão dos seres e das coisas, dos vocabulários e gestos — órfão do seu contexto diário?
E voltei atrás, procurando a mesma tabacaria, uma referência no caos — um ponto sólido neste espaço inimigo.
Mas já nada reconhecia, e a tabacaria em que entrei era diferente da outra.
Ao fundo havia uma porta onde me pareceu ver escrita, na minha língua, a palavra: ENTRE.
E então entrei.
Atravessei um corredor, desci escadas, percorri novos corredores, e uma exaltação maligna obrigava-me a um enredamento cada vez mais desesperado em escadas e corredores.
Sim, os labirintos sempre me fascinaram.
E de novo a alegria, mas agora uma espécie de alegria negra, brotava não sei de que obscuros lugares da minha já grande idade.
Porque, pensando, eu era velho, velho, os meus anos acumulavam-se num tempo indeciso, e estavam cheios de coisas monstruosas.
Encontrava-me eu então num subterrâneo de pedra, cercado de prateleiras onde se alinhavam muitos recipientes de forma rectangular.
Nesse instante revelou-se-me o verdadeiro silêncio.
Não aquela pausa feita para se reconhecer o valor da voz que parou ou que se erguerá, mas um silêncio sem vozes antes ou depois: o silêncio.
Contudo, alguma coisa riscava esse silêncio.
Parecia-me o ruído de pequenas rodas metálicas no chão de pedra.
Uma enfermeira empurrava um carrinho de criança e, quando se aproximou de mim, vi que sobre o carrinho estava colocado um recipiente igual aos que se encontravam nas prateleiras.
Um ser inqualificável metido em gelo, ele próprio uma vaga forma azulada, congelada, com escamas, uma espécie de peixe.
Estava na caixa rectangular.
Apenas a cabeça fora relativamente salvaguardada.
Tinha guelras, sim, e a boca era uma boca de peixe desesperado — uma boca que quisesse falar, não pudesse falar.
A boca abria-se e fechava-se, sim, como a de um peixe fora de água, as guelras batiam.
Procuravam o idioma, a água.
Alguma coisa fora salvaguardada.
Era uma cabeça quase humana.
Havia o cabelo, os olhos aterrorizados, a testa nobre dos homens.
E então gritei: não — gritei: não, não.
Porque eu sabia: aquilo era a loucura.
Com uma facilidade extraordinária, a mulher levantou o recipiente do carrinho e arrumou-o numa prateleira.
Agora chegavam enfermeiras de todos os lados, empurrando carrinhos.
Ouvia-se o bater das bocas e das guelras dos peixes.
Eu procurava fugir, mas estava cercado pelos muros de pedra, não havia portas.
Via aqueles paralelepípedos de gelo em que seres fusiformes batiam a boca sem voz.
Não, não.
Mas uma das enfermeiras solicitava-me doce e energicamente.
Era persuasiva, a enfermeira.
E eu meti-me dentro do recipiente onde a água principiava a gelar.
O meu corpo transformava-se no de um peixe, sentia escamas nascerem na carne, formarem-se dentro de mim e rebentarem para fora, duras, frias, azuladas, insensíveis.
A intensidade do corpo diminuía, diminuía.
Mal o sentia, agora.
Não, pensava ainda, mas a carne mergulhara no gelo, e eu não tinha braços e pernas, nem tinha coxas, nem pénis, nem ventre, nem peito.
Só a cabeça saía do pescoço de gelo, a boca batia desalmadamente, sem linguagem.
Eu estava morto, e toda a antiga intensidade das mãos, dos pés, do sexo e do coração — todo o fogo dos órgãos trepidantes subira à cabeça.
Eu estava morto, mas atrozmente vivo pela cabeça — pensando a uma velocidade terrível, com força, com muita força.
Encerrado num subterrâneo, numa caixa de gelo, batendo a boca de peixe, sem um só nome para a louca e brutal multiplicidade dos pensamentos, com toda a minha delirante inteligência, sob o doce sorriso de uma enfermeira antisséptica.
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Marcelo Tápia

Marcelo Tápia

essência falsa

as lojas de essências da rua tabatingüera
e da rua silveira martins
na sé em são paulo (e afins)
são um modelo mítico da nossa era:

o totem da verdade caído por terra
dá lugar ao frenesi da imitação
um por um de cada aroma que era
é agora quase tal qual, a não ser por um senão

a marca vira tipo
e o que era espécime se torna espécie
cada nome vira público
e o que era único se torna série

o milagre da multiplicação
se instala para qualquer um
e o que era distante da mão
cai na mão como um fato comum

a fórmula do tal perfume
se obtém sem entrave
mas sua essência permanece posse
falsa de algum dono falso da chave

tudo se chama como se quer
e é tudo como se fosse;
além do perfume, o whisky, o cognac, o liqueur
se fazem sem o tempo de amadurecer

a coloração se faz com caramelão
o sabor com o aroma, o açúcar, o álcool
– a química da depuração da simulação
criando a realidade dúbia, virtual do igual

nestes tempos de reproduções
mesmo as palavras, mesmo as ações
o que se diz, o que se faz
ora é ora não é ou é o que se faz o que se diz

cada coisa que se denomina
pode ser o simulacro do que se designa
ou o que se resigna com o simulado:
o verbo sublimado e recondensado em significado

1 000
Herberto Helder

Herberto Helder

Os Ritmos 15

Mandaram-me fazer um electro-encefalograma.
Era para ver como ia o meu ritmo alfa.
Eles tinham desconfianças.
Falavam de estados crepusculares.
Divertido.
Eu não tinha estados crepusculares.
O ritmo alfa estava óptimo.
Cumprimentaram-me muito.
A sua cabeça é sólida.
Bem, eu tinha uma cabeça sólida.
Era uma coisa alegre.
Encontrei-me algumas vezes ainda com o psicanalista.
Nessa altura, ele interessava-se particularmente pelo Apocalipse.
Não no aspecto erudito, é claro.
Falávamos durante horas sobre a besta com a grande prostituta de escarlate assentada entre os cornos, sobre os cavalos, os sete candelabros, os sete selos e os terríficos gafanhotos de rosto humano e cabelos longos como os das mulheres.
Eu saía do gabinete fervendo de inspiração.
Escrevi poemas apocalípticos e o psicanalista pôs-se a examiná-los.
Foi um bom tempo.
Mas eu tinha uma cabeça sólida, um belo ritmo alfa.
Então, com a minha sólida cabeça, comecei a pensar na morte.
Estudei os melhores venenos, em livros da especialidade, as mais subtis combinações de drogas e, com receitas que arranjava entre os médicos amigos, organizei uma boa colecção.
Gosto da palavra suicídio.
A frequência dos ii, como golpes, as duas sibilantes, e a última consoante, malignamente dental, fascinam-me — fascinam-me.
Mas bastava-me o prestígio da palavra e o jogo de coleccionar comprimidos mortais.
Como alegria, imaginei alguma coisa:
Uma cidade com torres brancas, espancada pela luz, e com navios que saíam das águas vibrantes para todas as partes.
Havia uma árvore inocente no meio da cidade.
Na primavera, enchia-se de espinhos ferozes e dava flores monstruosas, cor de púrpura.
As mães não deixavam que as crianças brincassem perto da árvore.
Durante dias e dias, a luz espancava a cidade.
Nada havia a fazer com a minha maturidade.
Certas noites, vagueava pelas ruas e entrava em todos os bares.
Os bêbedos formam uma maçonaria.
Andávamos pela cidade à procura uns dos outros, bebíamos no meio de inextricáveis conversas.
Um deles disse-me: tens um espírito essencialmente religioso.
Gostei.
Ficámos muito amigos.
Passámos a beber os dois, falando do espírito religioso.
Eu também possuo um espírito essencialmente religioso — garantiu-me ele uma noite, quando já tinha cerveja quase até à garganta.
A minha juventude, disse-lhe eu, foi uma violenta e fulminante viagem através do terror e da alegria.
Estive agarrado às trevas, ouvia o barulho das águas negras, não podia dormir.
Ou então tremia de puro júbilo, era admirável ter um corpo, uma voz, viver no meio da luz e da chuva e das grandes nuvens sobre os campos.
É o espírito religioso, dizia o meu amigo.
Talvez fosse, sim.
Era, com certeza.
Entretanto, principiei a duvidar.
Uma vez em que bebíamos um mau brandy, revelei-lhe a minha paixão pelo crime.
Gostaria de cometer um crime.
O meu amigo falou-me mais uma vez de espírito religioso.
Merda, respondi.
E ele quis saber se eu lera o Crime e Castigo.
Emprestou-mo.
A expiação, disse-lhe depois, é o verdadeiro centro religioso do livro.
O crime é apenas a circunstância propiciatória para o desenvolvimento religioso da personagem.
Ela necessita da expiação, para sua profunda glória.
Eu não amo a expiação.
O meu amigo disse: então és louco.
Tenho uma cabeça sólida, o que desejo é saber o que se faz com um terror morto e uma alegria morta.
E ele respondeu: bebe.
Não bebo mais, estou farto, vou-me embora para um lugar onde me não possa mexer muito — estou cansado de me mexer.
Apareceram então as pessoas que ajudam.
Tinham teorias.
O meu esforço, no entanto, era para recuperar a alegria e o terror.
Não é fácil.
As pessoas incitavam-me a diversas tarefas: a ética, a estética, a política, a numismática.
Sugeriram mesmo que eu deveria ir para África, e falaram da maneira rápida como ainda se pode enriquecer lá.
E depois há as florestas, ainda por cima, diziam.
Comecei a ter medo das pessoas.
Escreviam-me cartas assim:
Creio que te posso ajudar.
És um espírito rico, contraditório, de uma espantosa vitalidade.
Podes fazer coisas, resolveres as tuas contradições, ganhar a partida.
Então fiz as malas, e ia dizendo baixinho: merda, merda.
Parti para um lugar, com o propósito de semear cabeças de crianças, e ouvi-las cantar quando o dia acaba.
Como se fosse um campo de trigo.
Esta é, realmente, a minha embaraçosa chegada à maturidade.
Não me é possível pensar em qualquer salvação.
583
Sílvia Rocha

Sílvia Rocha

Haicai

chuva de verão
transito no trânsito
chora coração

solidão
não te come não te mata
te retrata

993
Herberto Helder

Herberto Helder

As Imagens

Ele disse que era uma mancha de esperma, esperma ainda vivo.
Esperma?
A mancha azul, ao meio do quadro, no chão, entre aqueles corpos grandes das mulheres.
Que era esperma?
Disse que era esperma ainda vivo.
Disse que ele próprio tinha esperma nas mãos.
Havia esperma por toda a parte.
Terrível.
Sim, terrível.
Um dia agarrou-me na cabeça, passou os dedos pela minha boca e disse: tens esperma na boca.
Já não sabia que fazer, pois encontrava esperma entre as páginas dos livros, nos bolsos, nos cigarros.
Uma vez atirou fora os cigarros e gritou: porque está aqui esperma, nos cigarros?
Nem se pode fumar.
E depois como foi?
Parece que o esperma invadia tudo.
Descobri que ele não imaginava que o esperma era posto aqui e ali pelas pessoas.
O esperma aparecia simplesmente, existia uma força qualquer, uma extraordinária força corruptora, que atingia tudo.
Mas essa ideia não o repugnava e revoltava, unicamente.
Era, para além disso e mais fundo, uma alegria dolorosa, como se o espírito fosse por fim vencido, na sua orgulhosa pureza, pela carne, pelo sangue, pelas fezes, as unhas, os pêlos, o suor, o odor áspero e invencível do corpo, pelo movimento e acção do corpo, pelo esperma, por tudo aquilo que.
Certo angelismo.
Entendes?
Seria isso?
Ele disse-me que estava impotente, mas que eu poderia salvá-lo.
Terrível.
Sim, é claro que era terrível.
Pediu que eu me despisse, para ver o meu corpo que já não via desde a infância, quando tomávamos banho juntos.
Que éramos irmãos, disse eu.
Fui estúpida.
E despiste-te?
Sim, acabei por me despir, mas já era tarde.
Eu estava nua, num canto do quarto, completamente constrangida, sem saber os gestos, se havia de sorrir, dizer qualquer coisa.
Ele olhava-me friamente.
Com uma espécie de frio terror.
E disse-me: tens o corpo todo sujo de esperma.


Ela diz odeio viagens.
Descia-se da camioneta e começava o ritual, as pessoas negras abanando devagar as cabeças e a saberem demais sobre o que ia acontecer.
Eu não.
Ele diz viajava sempre, todos os meses, todas as semanas.
Ao princípio era pelos corredores, durante o dia inteiro.
Eu sabia tudo acerca de corredores.
Então ela diz atravessava um jardim, doce jardim, atravessava uma casa, doce casa, que tinha cortinas no lugar de portas, e via o quintal surpreendido, cheio de flores, florinhas.
Eu entrava em crença, à falta de indícios do mal.
Mais tarde começou o período das escadas diz ele, eu ainda não conhecia as pessoas.
Não tinham cor.
Ensinaram-me aquilo.
Era uma grande paixão, tinha doze andares, e em cima ficava a torre toda envidraçada à volta.
Explicavam-me a cidade.
Eu estava apaixonado.
Diziam vê a cidade, e como as pessoas não tinham cor senão darem-me as escadas e a torre em cima, eu absorvia com a paixão aquela cidade: telhados, parques, caminhos-de-ferro, mar, colinas, e aquilo distante era uma fortaleza com um nome de santo.
De cada vez que eu acreditei diz ela então construí uma cadeira para me sentar, e veio o inesperado movimento bêbedo da mãe e partiu tudo.
Foi assim que construí muitas cadeiras e que perdi a esperança de me sentar.
Depois diz ele.
Depois diz ela vi-me no espelho.
Diz ele depois foi a época dos túneis.
Viajava por um túnel, e numa ponta havia a porta fechada, na outra a poeira quente.
Uma vez gritei.
Sabia o que era — medo, medo.
As pessoas não existiam.
Senti que tinha de procurar, tinha de viajar cada vez mais, e mais depressa.
Não se sabe se uma pessoa desaparecerá depressa do lugar, não se sabe mesmo se o lugar vai desaparecer.
Vi-me diz ela vi-me no espelho, com o meu corpo à superfície — e achava arriscado tê-lo assim.
Falo no imperfeito, porque elas deslizaram já, estas coisas, e o imperfeito é o bom tempo da narração.
Narrava-se.
Anoitecia-se.
Entravam-me pelo quarto.
Era por causa do corpo.
Andava de uma casa para outra, naquela cidade, é o que posso dizer.
À força de conhecer tanta gente, ganhei uma inteligência muito aguda — inteligia as pessoas.
Inteligia que elas nunca estavam lá.
Uma criança não fala sobre o conhecimento, a profundidade.
Ela pensa.
E pensa isto: são inferiores a mim, estas pessoas que estão e que não estão.
É preciso procurar mais.
Esta ideia devorava-me: havia o espaço todo e o tempo todo para percorrer.
Havia um dínamo.
Não julgues que aumento diz ela que aumento as coisas, o espaço que ocupam é mesmo a mais.
Aprendi a desistir de um modo ainda mais sóbrio, isento, que o sóbrio e isento modo masculino de desistir.
Nunca caí em tentação.
Bem, bem, bem.
Diz ele bem.
Depois diz era no que eu caía sempre.
Caía em toda a espécie de tentações, porque eu era um espião.
Estava a espiar os lugares para ver se apareciam as pessoas, espiava as pessoas, alguma coisa poderia passar-me desapercebida.
Estava louco de atenção.
Tinha medo da minha inteligência.
Ela exercia-se apaixonadamente no vácuo.
Dei passeios, fui ver a levada, era uma água completamente branca onde as pessoas iam contrastar.
Gostei.
Também havia o poço dos afogados, mas era escuro, sobrecarregado de historiazinhas de coração.
O jardim estúpido funcionava.
Em casa agitava-se a mãe.
Agitou-se.
Foi um ser com barulho interior.
Mexeu-se demais.
Mexeu demais: nos telefones, nas revistas, na solidão dos outros.
Olha: começaram a dar-me nomes, esperavam coisas de mim, mas eu só pensava nisto: aniquilar-me na impossível decifração do grande espaço desabitado.
Aprendera a viajar tão furiosamente que só podia desejar disse ele desejar morrer.
Sabes como é a morte de uma criança cheia da ira do conhecimento?
Sabes perguntou ele como é o desejo de morte de uma criança que principiou pela ciência dos corredores, e depois caminhou por aí fora, passando pela visão alta de uma cidade, e andando de pessoas para pessoas, a saber cada vez mais, até ao vazio sabes? perguntou.
Tinha também um ferro esquisito para arranjar o cabelo, a mãe.
Punha o ferro na lenha em brasa e ficava a olhar.
Depois cuspia em cima do ferro, e quando já havia sinais de tudo arder ficava extremamente alegre e ia a correr para o espelho enrolar o cabelo sexual.
Decerto, decerto murmurou ele, havia as irmãs.
Eu descobrira essa coisa espantosa da menstruação, via panos sujos de sangue, havia o odor da menstruação, o segredo.
Vi as irmãs nuas.
Como é possível saber tantas coisas?
Mas ninguém estava próximo.
E é assim: saber coisas é ficar só, sobretudo se se não sabe a idade, que é um conhecimento demasiado tardio, e é o que traz a paz.
Apenas a ciência dos cem anos é que tem em si a paz.
Quando se é criança, não se tem cem anos.
Tu existias por longe das pessoas diz ela, mas nunca percebi bem.
Parece que te viram passar no baldio.
Nunca foste para o lado da levada, mas não te pergunto agora porquê.
Eu era uma pessoa negra sim diz ele, mas era outra a treva, e o que eu sabia era outra coisa, e não abanava a cabeça devagar.
Talvez pensasse em ti, pensaria se estivesse mais livre e não houvesse tantas escadas, tantas mudanças de coisa nenhuma para coisa nenhuma.
Fui ao baldio disse ela.
Fui a toda a parte, a ver se havia saída, mas não.
O baldio tinha as amoras silvestres, e havia umas hastes duras que eu enterrava nas amoras, devagar, como se a haste estivesse a fazer amor com as amoras.
Eu tinha a febre de enterrar hastes em amoras e amoras em hastes, e era uma febre quente como não podes supor.
Ele disse só pensava em ir para a cama com as minhas irmãs.
Dia a dia, acrescentava-se a minha ciência.
Examinava a roupa interior delas, as calças, os panos da menstruação.
Punha-me a ouvi-las urinar.
Uma mulher a urinar.
Às vezes as lágrimas desciam-me dos olhos para a boca, e era o gosto exaltante das lágrimas.
Masturbava-me muito depressa, porque era preciso encher o espaço, encontrar alguém, morrer depressa.
Mas nunca te encontrei, a ti.
Daquela terra percebo eu disse ela, tinha um castelo podre, o céu era íngreme, as casas lisas, é tudo muito bonito, tenho o filme disso.
Tu existias no quarto interior, pegado ao meu, mas eu não te via, e a culpa era tua.
À tua volta estavam as coisas, mas não se pode entrar no lugar delas.
E à volta das coisas estavas tu com o teu delírio: nunca chamaste por mim.
Detestava-te.
Sabia porquê.
Sabia que havias de ir para uma cidade distante.
Sabes, olhei tanto tempo para o relógio, que nem sequer estava certo, e pensei: deixo o tempo passar disse ela.
Eu não via nada, nem ouvia, nem falava disse ele, estava ocupado naquela profundidade vazia de saber tantas coisas ao mesmo tempo.
O meu ofício era aquele grande erro que se tinham esquecido de não pôr lá.
Preparava-me ferozmente para a distracção.
Era preciso ser forte disse ele, e isto quer dizer passar depressa.
Eu já nem olhava, pois sabia que não estava ninguém.
Só havia uma coisa: andar, encher o espaço, mexer as mãos e os pés como se isso fosse respiração.
Não havia quartos ao lado.
E ela disse escondi garrafas.
Nunca cortei com elas os pulsos, para espantá-los.
Soube sempre que ninguém era espantável naquela região.
Parece que nas ilhas, por exemplo, já se não passa assim: se acredita no espanto e se pode correr riscos.
Podia dizer-te mais e mais, mas eras capaz de te assustares.
Ele perguntou medo?
Só tenho o meu disse, o meu terror.
Estou sempre ocupado nisso: chegar ao pé de portas, sair de túneis para o meio da poeira, espreitar para os enigmas, andar depressa pelos labirintos, estudar topografias.
Sim tenho disse ele o amor dos mapas.
Parecem reais.
Foi ali fixada qualquer coisa extremamente móvel, fugidia, inexistente: os lugares, e as pessoas nos lugares, mas isso nem nos mapas vem.
Talvez fosse bom parar, mas talvez eu já não saiba.
Não me lembro de ter estado imóvel.
É por causa do medo: é imóvel.
Amo-te disse ela, chamei-te.
Sim, sim, amo-te, talvez eu tivesse querido ouvir, já não sei, talvez eu queira saber foi o que ele disse, sim.
(Eles estavam deitados, e isto pode perceber-se, pode perceber-se tudo.
Pode perceber-se que ela lhe desabotoou a camisa e esfregou o rosto e a boca no peito dele, e esteve assim muito tempo, e nenhum deles falava.
E ela despiu-o, e depois despiu-se, e esfregou de novo a cara e a boca pelo corpo dele, e encostou o rosto ao sexo dele, e sentia-se só no meio das trevas.
Estava cega.
Beijou-lhe o sexo devagar, e a boca tremia, queria desaparecer, morrer, ou queria amar aquele homem como se isso fosse poder amar de repente o mundo todo, parar, parar.
E apertou entre os lábios o pénis, devorou-o lentamente, enchendo a boca com aquela coisa quente e viva, e isso dava-lhe um sombrio e doce desejo de dormir.
E então ficou imóvel, somente a boca tremia, e isso quase que podia ter um nome: paz.
Que eu seja humilhada pensou ela, humilhada.
E fechou os olhos e abriu-os: a treva, sempre.
Então ergueu a cabeça, subiu na cama até junto ao rosto dele e disse-lhe ao ouvido puta, chama-me puta.
E ele disse puta.
E ela voltou-se e pôs-se de joelhos na cama, dobrada, e disse mete no cu.
E, se fechavam ou abriam os olhos, era a treva.
Para ambos e para sempre.
Amavam o terror, um no outro, cada um o seu terror no outro.
Talvez pudessem morrer.)


Num país estrangeiro, ao norte, cercados pela noite onde a neve palpita friamente.
O ruído chega ao quarto como um vapor ligeiro, indistintamente iluminado.
Falando baixo, enquanto a neve desliza pela janela e um comboio passa, brutal.
Isto ao mesmo tempo que a noite, a neve e o rumor.
E a conversa interrompe-se, tendo ficado pelo meio uma qualquer palavra, com sentido, essa também, porque todas as palavras eram animadas de uma inspiração capital.
Era tudo terrivelmente importante.
Tudo é importante, enquanto a noite cria o seu labirinto e o quarto se desloca para o coração do labirinto.
Estamos inclinados um para o outro, por dentro, e eu sinto uma vertigem leve, como se soubesse que o chão poderia não ser completamente seguro, e o abismo sempre prometido se fosse revelar.
O amado e temível abismo.
Estamos a pensar nos enigmas.
Na cidade, em nós, em todas as leis.
Naquela anarquia que a nossa força e fraqueza introduziram na ordem, para que se possam criar as novas leis — as outras.
Pensamos nos enigmas, e falamos como de outra coisa, fazendo alguns gestos que parecem possuir apenas a intenção prática, a deslocada intenção, agora que se supõe não haver nenhum acto prático a realizar.
Num país estrangeiro, ao norte.
Colocados rigorosamente nesta situação definitiva de duas pessoas com a carga de uma equação.
Ela diz que eu pareço um morto.
Pareces um morto, diz.
E sorri com uma hostilidade distraída.
Encosto-me à parede, erguendo o corpo sobre os lençóis frios.
Peço um cigarro.
E ela estende-me um, aceso.
Merda.
Pareces um morto.
Um decapitado.
Estou atento e nada se perde: decapitado.
Decapitado?
Sim, diz ela, decapitado e descolhoado.
Sem colhões?
Isso: sem tesão, sem força.
Morto.
E sorria sempre, enquanto eu fumava encostado à parede, sobre os lençóis húmidos.
Ela sentara-se no chão com a cabeça debruçada para a cama, por altura dos meus joelhos.
Perguntei: como é?
Sou uma espécie de puta, eu, e não tenho medo, murmurou levemente.
E a frase quase se perdia no rumor, na luz, na noite, na neve, no estrangeiro.
Eu tinha toda a atenção, e a frase foi essa, essa coisa tremenda e quase errada, quase certa.
Contudo, ela não se prostituíra, não, nem eu tinha medo.
E no entanto eu parara, como morto, e alguém, antes da subversão das leis, poderia dizer que ela se prostituíra.
Não é assim.
Inclinei-me mais, e rocei a mão onde tinha o cigarro pela sua cabeça muito viva.
O fumo descia, subia, metia-se-lhe nos cabelos, e eu estremeci, porque de repente aquilo era belo, embora nós talvez estivéssemos perdidos.
Ouve: eu tinha a mão na tua cabeça, e o fumo do cigarro confundia-se com os cabelos.
Não, não chega.
Havia na sua voz uma espécie de maligna exaltação, porque lhe parecera porventura que eu procurava uma fuga.
Ouve: há uma estranha beleza em tudo isto.
E ela então levantou-se, vestiu o velho casaco grosso e saiu, sem me olhar, sem dizer nada.
Eu estava encostado à parede, fumando ainda, e olhava o fogão de granito preto, vazio e retórico.
Ela tinha saído para a cidade, caminhava pela névoa.
Embebia-se da fria luz do norte, sob a qual os cabelos se tornam húmidos e brilhantes.
Vi o quarto horizontalmente, ao clarão geladíssimo da lâmpada.
Malas, roupas, a mesa com bâtons, pontas de cigarro, um frasco de compota vazio, um livro velho.
Estes quartos forrados de papel.
Via o quarto a direito, sob a luz áspera.
Estou num país, estou só.
Desejava pensar bastante nisto.
Completamente só, com alguma fome acumulada, uma certa angústia para definir uma posição pessoal perante não sei que enigmas, que movimentos do tempo.
Só, até que ela voltasse.
Às vezes um de nós saía, andava misteriosamente pela cidade e voltava com cigarros, pão, queijo, café.
Partilhávamos do que um e outro conseguíamos apanhar.
Havia um silêncio quente e aéreo em volta dos cigarros e do café.
Bebíamos, fumávamos.
Uma noite embebedámo-nos com cerveja.
Pusemo-nos em frente do espelho, inteiramente nus, abraçados, e eu perguntei:
O que nos vai acontecer?
E quando ela entrava com a cara vermelha do frio e o ar delicadamente enigmático de quem vinha do meio das noites, de uma zona indevassável, e fora apanhada de repente pelas luzes fortes.
Sorria, tinha segredos.
Dispunha sobre a mesa o que trazia.
A cidade fecha-se, confunde as pistas, lança neve sobre as pegadas — para que fiquemos isolados.
Tudo contra as virtudes do homem: armadilhas, caminhos, muros, luzes ferozes, e o idioma, a base idiomática da emoção e do pensamento.
Eis um homem e uma mulher, e tremem: estão providos de forças, lutam contra a memória, e têm outra memória.
Eles lutam, e vejam: é um sentido, uma medida, uma arma, uma virtude.
Isto é no norte.
Quer dizer: o homem e a mulher são extremos, despiram muitos vestidos, são implacáveis.
E, dentro da sua justa ferocidade, em frente do norte ascético, possuem uma doçura essencial.
Estão acordados.
Há muitas coisas por cima da cabeça deles.
Vejamos: fome?
Sim.
E cansaço?
Sim.
E doença e frio e medo?
Sim, sim.
E ela voltou mais tarde.
Escuta, disse eu, não tenho medo.
Trazia café e cigarros.
Vamos salvar isto, murmurei.
Mas ela sabia tudo.
Tomámos café, fechando as mãos em volta das chávenas quentes, para desentorpecer os dedos.
Se tivéssemos algum dinheiro, podíamo-nos embebedar.
Ela veio, com a sua maneira solitária e profunda de andar, e o seu movimento entre os objectos assumia uma dignidade extrema.
Então, tocou-me com a ponta dos dedos na cara, e os dedos escorregaram com uma subtileza incrível, passando pelos meus lábios.
Depois a mão caiu e fechou-se.
Escreve o teu livro.
Mas qual era o meu livro?
Para que escreveria eu um livro?
Salva tudo isto.
E a mão estava fechada contra a coxa, fortemente.
Saio, não é?, e aparece sempre algum dinheiro.
Tens a certeza de que eu o não arranjo indo para a cama com homens?
E tu sais, e como arranjas algum dinheiro, às vezes?
Não, não tinha importância.
O assunto era este: para quê?
Decerto: para a gente se livrar de tudo, ser cada vez mais rigorosa com as coisas, salvar aquela fonte cujo sussurro se perde entre todas as vozes.
Não te quero ver morto, não quero morrer, oh não.
Escuta, disse eu, não tenho medo.
Não te impacientes.
Foi a última vez que me decapitaram.
Mas eu abaixo-me sempre, e apanho a cabeça que rolou pelo chão.
Coloco-a, cheia de sangue, sobre os ombros.
É um livro?
Ela girou de novo pelo quarto, lenta, densa, e estava na ponta do quarto, junto ao fogão.
Entre nós, a mesa desordenada, as malas, as chávenas sujas.
Percebes?, perguntou, percebes isto?
Não é um livro.
É um acto onde já nada se disperse, e onde tudo esteja contido com rigor.
Aquela beleza na minha cabeça, percebes?
Não é assim, não.
Há uma forma para as coisas, não uma forma para cada coisa, mas uma forma una e pura de todas elas.
Uma única forma.
Devemos estar completamente juntos, percebes?
E nada mais tem importância.
Não estou morto.
Não, tu respiras.
É preciso atenção.
Quando a cidade for pelos ares.
Eu sei, disse eu, nunca mais morreremos.
Depois, ela começou a despir-se, e eu também, e quando estávamos ambos nus fomos para diante do espelho.
Estamos nus, percebes?
E, apesar de eu ser um homem cansado, apesar da minha memória e solidão, disse que percebia.
E percebia.
A luz vinha pelas nossas costas e, no espelho, parecia que os nossos corpos saltavam para diante, como tremendos anjos brancos, cheios de uma violenta anunciação.
Lá atrás, junto à janela, escorregava a neve, e havia ainda a noite, e todas as coisas difíceis.
Os nossos corpos saltavam na luz.
Éramos fortes como o diabo.
Merda, disse ela, temos de salvar tudo.
Também éramos frágeis, no espelho, e tremíamos por causa da nossa força.
Como se fôssemos demasiado frágeis para a nossa força.
Escuta, disse eu, temos uma lei formidável.
Nós somos os anjos.
Ninguém mais sabia disto, porque eles estavam todos distraídos, com a noite deles, a neve e a cidade.
Se soubessem, matavam-nos.
E então a alegria, a nossa, irrompeu da maior profundidade, e os nossos corpos brilhavam terrivelmente no espelho.


Telefono à noite.
Expectativa confusa e sensível que as noites carregam de uma espécie de pendente anunciação ou insuportável subtileza.
A geografia nocturna dos telefones.
Ia por ali, quase com o vício de ganhar e perder lugares, rejeitando uma cabine em favor de nova hipótese, guiado pela cegueira pontilhada de pequeníssimas estrelas.
Breve intuição, momento de fulgor, uma imaginação gasosa.
Mas evoluí.
A idade, a idade interior, a interioridade — limpou-me da retórica.
E o meu estilo das cabines públicas tornou-se ático e centrípeto.
Talvez eu tenha encontrado o classicismo do meu próprio delírio.
O que digo verdadeiramente é que acabara por me fixar numa só cabine.
Era um telefone na esquina de duas avenidas, quase oculto por uma árvore e rodeado de uma grossa cintura de terra, onde floriam furiosamente ininteligíveis corolas: amarelas, brancas, vermelhas, lilases.
A cabine tinha as vantagens incomunicáveis a outrem, as minhas secretas.
E pequenas vantagens de pormenor, que direi:
Por exemplo:
À altura da minha cabeça faltava-lhe um vidro, e por ali, ao mesmo tempo que telefonava (ou antes, ou depois), ouvia o ruído difuso da cidade.
O rodar dos automóveis.
O barulho dos eléctricos.
Um barco que apitasse no porto.
O rangido das gruas trabalhando nos cais.
Um comboio que entrava ou saía de uma estação.
As telefonias.
A música de um bar cuja porta de repente se abria e logo fechava.
Os risos e as vozes humanas.
As pequenas canções humanas — fúteis, comoventes canções trauteadas por um grupo de duas ou três ou quatro pessoas que passavam.
E quando a cidade era atravessada por um desses espantosos silêncios que por vezes as varam como uma queimadura de gelo, eu inclinava a cabeça, afastava de mim o auscultador, e sentia tudo parado.
Não, a terra não se movia, nem a lua, se acaso estivesse lá em cima, nem as nuvens.
Estava tudo suspenso: era uma profunda, terrível ameaça.
Enlouqueceríamos, todos?
E as plantas, os animais, as coisas — tudo, tudo?
Então levantava-se a brisa ligeiríssima, as flores vibravam de leve, caía uma folha de árvore e raspava na cabine, rangiam algures uns sapatos e alguém falava não sei onde.
De novo os sons, os quentes embora distantes, embora alheios sons.
Mas não era essa a minha tarefa.
Tratava-se dos arredores dela, dos meus próprios subúrbios.
O estilo flutuante, a adolescência ambulatória ao longo da solidão.
E eu sei que as lateralidades arborizadas, floridas, sonoras, silenciosas — eram irrelevantes em volta da seca fatalidade dos telefonemas.
Desejava algo mais vasto e fundo, mais glorioso e impiedoso (conforme), nos seus resultados.
Um telefonema somente.
Aquele que iria ou não aparecer numa noite, num momento, no ocasional cruzamento de imperscrutáveis forças.
Isso — periclitante ordem nova no meio da confusão e acaso das linhas, dos poderes sonolentos, da matéria frágil e indecisa das coisas.
O resto era uma técnica: os telefonemas.
Mete-se uma moeda, sai uma pessoa.
A voz de uma pessoa, apenas?
Bem, teríamos de discutir acerca deste novo tema: as vozes.
Os sons calorosamente organizados para transportar a aflita, doce, inteligente, participadora matéria das pessoas.
Ou o contrário, isto é: outros adjectivos.
As pessoas.
A quem telefonava eu?
A ninguém, a um número.
Por detrás do número, de ninguém — deveria aparecer um dia alguém, segundo a própria base da aventura.
Não, eu não pedia.
Não se pode pedir.
Há regras para todas estas coisas.
E que pediria eu?
Tempo, gentileza, nome, conversa, amor?
Sejamos sensatos.
Não é possível meter uma moeda, ouvir uma voz, e dizer: dê-me tempo, nome, inteligência, amor.
Seria ridículo.
Aliás, eu próprio me veria embaraçado, se a voz dissesse: peça.
Bem, não pedia.
Eu não pedia.
Não se pode dizer: dê-me tempo, nome, inteligência, amor.
Marcava um número ao acaso, com seis algarismos.
Esperava.
Uma voz.
As palavras iniciais não variavam muito.
Está?, quem fala?
Ou: sim.
Ou: alô.
Ou ainda: hum, hum.
E a minha habilidade era extremamente simples, e invariável.
Trocava a ordem de um algarismo ou substituía-o por outro, dentro do contexto do número.
83 46 26 era 83 26 46.
Qualquer coisa como isto.
Não, dizia a voz, aqui fala do 83 46 26.
Foi engano, desculpe.
Não tem importância.
E eu dizia: não?, acha que não tem importância?
Ah, como eu conhecia a zona ainda anódina desse jogo.
Claro que a voz perguntaria, estupefacta: como?
Se acha mesmo que não tem importância?
E a voz: merda.
Ou: é parvo.
Não me chateie, também diziam às vezes.
Ou então desligavam secamente.
Durante um momento, o som do telefone desligado zumbia no meu ouvido, e o velho abismo refazia-se em mim, calmamente tenebroso.
Pousava eu próprio o auscultador e, através dos vidros, as ruas e as praças abriam-se como um deserto, e o céu vazio coroava o silêncio de tudo.
Recomeçava os telefonemas.
Não te entregues ao acaso, dizia-me eu.
Mas eu não me entregava ao acaso.
Trabalhava para ele, isso sim, como humildemente se executa o erro e a emenda, quando se pensa na verdade, ou como em silêncio nos aplicamos na treva em favor da nossa pequena e possível luz futura.
E que podemos fazer nós, não é?, senão amarmos no nosso espírito a possibilidade do acaso?
Merece o acaso de um instante, incitava-me eu, merece-o.
E uma noite apareceu a voz.
Reconheci-a logo.
Reconheci-a naquela espécie de desastre que a atravessava, desde o mais breve som.
Era uma voz lenta e como que vazia, onde cada palavra vacilava, destacada por blocos de silêncio.
E era, no entanto, uma voz muito próxima.
Eu dela apenas sabia que atravessava a cidade, por um milagre espantoso, e que caminhava sobre o tempo, nascida de uma amarga sabedoria ou de um pudor doloroso.
Não sei o que dissemos.
Talvez tivéssemos falado de coisas muito simples, ou de alguma coisa sem sentido.
Não sei.
Estávamos muito próximos.
E era nos grandes silêncios, nas duas pontas do fio, sobretudo aí, com certeza, que se formava aquele novo e insólito calor.
Registei o número do telefone e, durante o resto da noite e todo o dia seguinte, ele foi para mim como que o milagre de uma combinação inédita, o sinal de uma ordem concreta por onde eu entrava no equilíbrio universal.
Quando chegou a noite, fui à cabine e liguei.
Durante muito tempo ouvi o sinal.
O som repetia-se, vindo dos confins da ausência.
Cinco, dez minutos — monotonamente o telefone tocava no outro lado, num quarto vazio que eu não sabia como era.
Um quarto que não existia.
E apercebi-me subitamente de que isso estava certo, embora fosse terrível.
E quando desliguei senti, através do vidro partido da cabine, que esse gelado silêncio trespassava o mundo e que tudo ficava suspenso sobre os abismos.
Hoje sei que os telefones não existem.
Bell, que os inventou, era um homem tão rudimentar que ignorava a realidade do que, em vergonhoso calão, chamamos — alma humana.
O silêncio está nas cidades.
A peste nasce do silêncio.
Os olhos luciferinos dos anjos.
Quero dizer: têm uma luz — possuem a qualidade veemente mas fria da espera, da promessa: sim?, da anunciação.
Penso nas estátuas brancas, com seus olhos desprovidos de pupilas.
Colocadas assim nas trevas, essas estátuas ressaltam com uma doçura dolorosa e intempestiva e parecem indicar outro tempo: a luz, ou a treva maior, aquela que nem somos capazes de presumir.
Deste modo é que ela surgira no pórtico, e havia os pequenos e fortes cornos que irrompiam ao cimo da testa, acompanhando com maligna e rápida subtileza o movimento da cabeleira.
Aérea, a cabeleira.
Existia ainda uma boca para todo o silêncio.
Porque se tratava de silêncio, evidentemente.
Era esse o tema — é esse o tema das aparições.
Além do longo vestido, o tema branco — que obliquamente se insinuava, como se insinuam os múltiplos planos — no tema das trevas.
Ah, sim: era o tema branco, e as mãos não traziam nenhum lírio pictórico, a haste comprida, a corola consagrada à alta e luminosa representação do angelismo.
Os braços caíam ao longo do vestido e as mãos estavam coladas às pernas.
Era quase um emblema ambíguo — sê-lo-ia, se o tempo houvesse parado antes, e eu apenas tivesse ali chegado como se chega à história antiga, ao facto de pedra: um monumento, uma capela, um túmulo, a casa do príncipe que criara a concentração dos seus mitos tumultuosos na matéria adormecida.
Porque andava, eu, andava de um lado para outro, na penumbra em que se erguia a sobreposição de cilindros, de diâmetro cada vez menor, conforme se levantava a vista até ao cimo — e no cimo, no último pequeno cilindro, estava um longo mastro nu, sem bandeira de cidade ou nação.
Era difícil pôr-se a imaginar o serviço de todos os pórticos abertos à roda de cada cilindro — não se esperasse, como seria possível, que em cada pórtico surgisse uma árvore assim direita, uma figura, aquela mensagem silenciosa e vibrante — coisa mineral, vegetal: o coração dos dias desabitados.
Uma diferente figura em cada pórtico, ou a proliferação, num momento inflacionista, de imagens todas iguais, como múltiplos avisos, múltiplos sinais da trepidação interior?
Por quantos lados ressuscita a vida enterrada?
É apenas para que se saiba: há muitos pórticos, e em cada pórtico tu próprio podes aparecer, para o primeiro passo em direcção ao teu lugar de trevas ou à cidade de Deus.
Mas ela era só uma e tinha para si um só pórtico, e ali estava, e a sua beleza contraditória e veloz acabava agora mesmo de ferir-me no que eu andava: porque eu andava de cá para lá, à frente do edifício.
Acorda-se, há um dia em que se acorda — e então a gente põe-se a andar.
Vai-se ser repentinamente surpreendido — não ainda pelo resultado do julgamento que decorre lá dentro, no tribunal sobreposto cilindricamente, não ainda isso — mas por aquilo, aquilo que vem antes: o anjo.
E o anjo olha-te como se olhasse o espaço prometido.
O amor do anjo cerca-te como um anel de prata em brasa, e então tu ficas fascinado pela fascinação que fizeste nascer no anjo.
Vês de novo as hastes curvas no cimo da testa, os cabelos alvoroçados de mulher, e os olhos abertos para o teu movimento de criatura que respira o seu pavor e o seu desejo, e a boca que não é para dizer.
Vês ainda as vestes claras que seriam para o vento, para a condição vital onde as desejarias: vestes brancas agitadas pelas ventanias dos lugares do mundo, onde se ri, e canta, e se fica sufocado pela grandeza exaltante dos júbilos, do júbilo.
Vês ainda as vestes disso, mas ali não: ali são brancas sim, mas imóveis, caídas, hieráticas — vês as mãos tombadas: mortas, mortas, mortas.
E então ficas parado — é quando começas a amar.
E pensava: que estou eu a amar?
E eu amava o amor dela, com os cornos em cima e o vestido branco em baixo, longo, e amava o meu amor pelo seu amor, e amava-a a ela, e a mim, e, mais do que a tudo quanto estava e era, àquilo que estaria e seria — não, não sabia como, nem em que tempo, nem onde.
Talvez tivesse sido muito antes — porque: o que é o tempo, e o lugar o que é?
Pergunto: o que é a realidade?
Amava, mergulhava nesta ciência nova — e vi.
Fala-me disso que é teu — poderia eu pedir à figura que agora avançava para mim, e ela estava a responder avançando dessa maneira, na sua fascinação, e ela poderia pedir-me: fala do que é teu, mas eu avançava para ela e não dizia: vou na minha fascinação, mas era isso — porque eu amava e estava a dizer no meu silêncio, e via.
Víamos.
É como se a gente soubesse tudo, quando o pavor, como uma seiva atormentada e fria, sobe e se espalha por cada ramificação da viva árvore interior.
Eu tremia, era um modo agora de conhecer o meu corpo — e ela, sim, ela incorria nessa ciência de conhecer o corpo, tremia: e o nosso amor estava a ser vermos o corpo tremendo, vendo cada um o seu corpo e o corpo do outro.
Depois ela ergueu os braços e estendeu-mos para eu ver que ela tremia, que tinha um corpo já ciente.
Possuíamos o medo de saber assim: porque tremes? — diria ela, e ficaria aterrorizada.
O anjo pressentira a minha noite, o chão negro de onde brotava a vida, e sabia como isso seria mortal.
E, se eu pudesse gritar, gritaria: porque eu também lhe estendera as minhas mãos — amávamo-nos, amávamo-nos — e eu sabia o ser que amava e por quem era amado: a minha própria noite.
Que se amem, e se apavorem um do outro — disse ele, o que deixara tudo acontecer e agora aparecia a um pórtico superior, lá no alto, junto do mastro vazio.
Temem a loucura um do outro — disse ele — e é isso que se amam.
Depressa, depressa.
Era um crime.
Os anjos não tocam violino.

Vem das estampas de ouro, o sono encurva-lhe os cabelos, fica branca de andar encostada à noite, e respira, respira,

sim respira, como uma colina tão nua que os pulmões fossem uma renda de prata atormentada, ou água cruel aberta

por ti, tubarão crepitando pelo índico, entre geladas barragens de sal em rama, com uma garra no ventre, uma síncope, um mergulho como uma flor

que se não chama negra, nem cujo nome pode ser dito assim: aquilo é a paixão,

mas que, tremendo, se pode pronunciar como beleza este espaço, crime esta paisagem, ou então: a lua dança

como um vestido bêbedo — ata lenços de um branco que desfaleça nos dedos, e atira fora esse ramo, e aí verás como é que eu me movo:

sim, eu respiro, estou direita, deixa-me passar — aqui vai uma ilha de pés descalços, aqui é um espelho caminhando como a voz por onde entram e saem imagens cambaleantes,

e tu chamas-te então: como eu vi o tempo, era uma maneira cega de haver junquilhos que giravam até se arrancarem dos terrenos nocturnos

e viverem como crianças ondulantes, esquecidas do seu texto, num exílio de espanto e beleza brusca, de fazer pensar, súbito, na morte prometida a todas as coisas

que se aproximam demasiado do nosso amor, e é então que tu dizes: há casas desabitadas, eu estou nessas casas

que tremem quando movo as mãos, a minha cabeleira palpita: é o sangue que sobe do coração apavorado e se faz dócil, quando o pente arrefece um a um os cabelos,

e então o meu nome é: pimenta, areia sentada, abertura da luz para onde saltam laranjas que pulsam,

ah, deixa-me passar, digo-te baixo como hoje me chamo e como nunca mais me chamarei: loucura,

loucura unida à rítmica matéria das coisas, e se abrires o teu sono, dessa vez única verás o que sou: uma figura

impelida pela vertigem, a inclinação do teu próprio conhecimento sobre a morte iluminada por todos os lados,

depois terei um só nome: revelação, até que os dias arquejantes me sufoquem e, no terror que te atravessa como água dolorosa,

eu seja a tua ilha a prumo, onde habitas, tu próprio uma ilha desabitada,

entre a lua como uma rosa infrene e os peixes frios e selvagens.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Até Cada Objecto Se Encher de Luz E Ser Apanhado

até cada objecto se encher de luz e ser apanhado
por todos os lados hábeis, e ser ímpar,
ser escolhido,
e lampejando do ar à volta,
na ordem do mundo aquela fracção real dos dedos juntos
como para escrever cada palavra:
pegar ao alto numa coisa em estado de milagre: seja:
um copo de água,
tudo pronto para que a luz estremeça:
o terror da beleza, isso, o terror da beleza delicadíssima
tão súbito e implacável na vida administrativa
634
Herberto Helder

Herberto Helder

Em Certas Estações Obsessivas

Em certas estações obsessivas
insondáveis
pela doçura e a desordem, eu vi
sobre
o barulho dos buracos terrestres
as caras
engolfadas fulgurando até ao sangue, sua teia
de ossos fechada
por membranas que respiram com luz
própria.

O luxo do espaço é um talento da árvore,
a arte do mundo húmido.
Por dentro da terra
o ouro cresce
em cadeia. Vi
a massa arterial das casas
contorcendo-se
no fundo
da luz,
onde o dia faz uma ressaca onde
gira a noite com seu tronco de planetas.

Eram
rápidas,
fortes,
espaçosas
as noites do poder. O alimento vinha
com o apuro do mel. O dom
desenvolvia em mim esses mesmos rostos
abertos a meio, com a lua
e o sol dentro e fora.
Lanho a lanho
cerrara-se a carne em seu tecido
redondo.

Vêem-se as raízes animais dos cancros, mas
no coração estrangulado, assim
estrangulada a água por circuitos
cegos,
quem vê a queimadura
do ouro
inteiro?

As caras irrompem
dos nós de sangue, dos rins, de uma
coluna
enraizada, uma
constelação calcária.
Às vezes
o mármore reflui numa onda muscular,
e sobre a torsão
interna
as mãos cruas ardem.
E o golpe que me abre desde a uretra
à garganta
brilha
como o abismo venoso da terra.
A pupila deste animal grande como uma pálpebra
ao espelho, nua, a dormir,
sob as radiações
brancas.

Longas estrelas rodam entre os pólos
das salas, voltam-se
as camisas
na translação dos dias ópticos, todo o ar se enche
de noites
largas.
O braço enxuto plantado.
Na límpida teia das mãos,
a colher que se arqueia
desde
a traça alimentar à costura cirúrgica
da garganta
onde a voz rebenta
num buraco de sangue. Mas as cabeças, que olham
pelos lados
novos
de gárgulas jorrando toda a força
da luz interna,
vivem da energia
da nossa graça, da ferida
da elegância. A violência envenena-me.

As aberturas
que os braços fazem na água, aquilo
que eu fecho quando
o sono me corrompe ou quando
incito ou afugento as paisagens,
o que alimenta
as musas
abismadas
é tudo quanto me cega.

Também as mulheres se alumiam
pela abundância, pela
boca até ao fundo, o pêlo que salta,
omoplatas,
mãos redondas, os borbotões
da seda
escoada.
Têm
caras ascensionais, magnéticas. Inspira-as
o movimento dos quartos, a matriz
secreta
do ouro afundada entre
a vulva e o coração,
a órbita
das laranjas à volta
estuante
da estaca.

A estrela voltaica queimando
a minha obra
morosa afina sombriamente cada cara
soldada
ponto a ponto,
sobre as válvulas, sobre
a luz que se abre e se fecha
na carne
lunar, implacável.
Tudo faísca: a fruta
que se apanha, o feixe
vertebral, os orifícios de sangue
entre os poros
da madeira.
Respira,
dói.
Como uma artéria radial,
a atenção
que dói de baixo para o alto, as meninges
abertas
por fendas luminosas.

Alimentava-me
dos rostos minados pela rede dos nervos
negros e das veias
até à raiz cravada
da voz
— o terrífico
aparelho da fome. Toda a obra.
Dói.
A memória maneja a sua luz, os dedos,
a matéria.
É mais forte assim
queimada no écran onde brilha
o buraco da carne,
os espelhos
fechados
de repente vivos como oceanos sob
os antebraços, as mãos.

Desta cadeira vejo
a marcenaria da árvore.
Os fulcros do ouro, o hausto
do meio da terra.
O som espacial da pedra cai
no fundo do dia,
pulsa
a noite vascular, estendida
como uma toalha.
E dentro dessa noite cheia de ar negro,
os planetas
luzem
como rostos que se aproximam com as fendas
de sangue.
Às vezes
meu sangue enreda-se no fundo dos mortos.
O ar,
abraçam-no as grandes constelações
tácteis.

A noite
é uma árvore crua,
voraz,
entranhada.
Se a estrela transborda da boca,
a água
vivente
torce-se entre os braços ferozes. E das crateras
arranca-se
o rosto com os poros brancos
a toda a volta.
Quando
as veias dos mortos fazem um nó furioso
com as minhas veias,
a voz
costura-se com as linhas de sangue
da sua fala. E os dedos gravitacionais
sobre a queimadura
manobram os pequenos sóis
enxameados e baixos.

Com a fundura cristalográfica das caras
enervadas
na claridade, a estrela oficinal
crepitando
sobre
a ressaca redonda da carne.
O ouro fundido nos pulmões, cortado
na boca. Respira
o buraco onde o ar se incendeia.
E o equilíbrio
lunar
do sono, do poder.

Eu movo-me no mundo
como púrpura, a vara
das maçãs fechadas.
E escoa-se em mim o caudal
nuclear dos astros. Remoinhos de mel
obscuro. Os filões do álcool.
Esta golfada de luz pela ferida de um espelho.
E o rosto fendido e a claridade
arrancada
ao interior mais forte
da imagem.
Constelação de sangue,
o halo
de um orifício nocturno.

Os sóis turbilhonam entre
as espáduas.
Este é o dia rítmico e abundante.
Olho a brancura espasmódica,
a queimadura central
dessa imagem.
Meu sangue envolve os mortos
como um braço profundo.
Solda-os.
E toda a fruta está soldada à potência
da sua árvore.

Engolfo-me no espelho como a água
que pulsa num rosto, nessa abertura
salgada. Recebo a cara nos feixes
da minha cara, entre
constelações vertebrais, o fundo
das artérias.

Vi
dorsos torcerem-se à volta da sua dor.
No meio
o sorvedouro fazia um laço
de carne. Rodava em torno das válvulas negras
a estrela atómica.
Afronte
ao alto da beleza áspera,
labaredas
vazadas de lado a lado do corpo
como uma corola cesariana.
E nessa
carne focal
curva,
o toque de um ferro vivo, um dedo, um osso
fechado,
no centro das aberturas onde a energia
se desencadeia.

E é cruel surpreender
a inocência
frenética, a taciturna doçura
com que devora:
às vezes
a força dos rostos que tem contra Deus.
Assim:
o nervo que entrelaça a carne toda,
de estrela a estrela da obra.


22-23.XI.77.
1 172
Gilberto Diener

Gilberto Diener

Rio bagagem

Agreste, agreste canção
Que fala dos moleques
No rio tomando banho,
Caçando passarinho
Pelas estradas;
O rio era um quintal
Moleques banhando.

Canção da terra;
Dois corações
Podem ser felizes.
Tinha um negrinho, tiziu,
Sua risada espantava a passarada;
No seu coração, guardava um segredo:
Moça dos seus olhos
Tinha cabelos como espiga de milho;
Um sonho tão forte na noite
Onde a lua clareia
E reflete no Bagagem
A sua mocidade...
Um amor tão impossível
Não tem cura;
Duas raças tão puras
Não se podem misturar.

Nos dias que vadiava pela cidade,
Aspirava fundo o cheiro,
Alegria súbita de ver
Seus olhos claros;
Ao seu encontro a terra estremecia,
Sua risada espantava a passarada,
Um veneno exalava dos olhos nas janelas;
A cidade não consente um amor como este.

Banhos de rio, agreste canção;
Velhos amigos, velhos corações
Fez desse amor
A tristeza mais profunda.
E na noite em que os cães latem,
E silenciam instantaneamente...
A cidade prepara sua tocaia,
Seu bote escorraçador;
Ataca e bane velozmente
E, no clarear do dia,
O resto da violência
Se acabou a risada,
Tomou conta a passarada.

Nas noites de estrelas,
Pelo vale nas estradas,
Vem tanger os guaribas;
A terra estremece
Com a sua presença,
Os amigos o abraçam
E relembra a cor dos cabelos
De sua amada, banhos de rio...
Assim quando sopra o vento o milharal
Agreste, agreste canção.
Bahia / 1982

982
António Ferra

António Ferra

Gótica de Corpete Negro

Que bem que passa aquela gótica,
de negra cabeleira espevitada
na noite fria, um tanto asmática,
onde mora a madrugada!

Toda de negro e prata na cabeça,
redonda e larga a bota alta
num corpete negro de mistério
quando a altas horas se aperalta,

é falsa tristeza, é falso olhar,
é tudo uma questão a produzir
o lábio fino e roxo a falsear
a alegria reprimida de se rir.

De umbigo solto, fascinante,
por baixo da frágil sombra da olheira,
outros olhares atrai, só por instante,
o corpete da miúda que se esgueira.

Mas vem dos seus genes ancestrais
aquele corpo reflectido nos espelhos,
vem de longe um galante de T-shirt
que por vergonha não tomba de joelhos.

E alta noite, já quando regressada
de passear a solidão pela cidade,
remove a máscara, atira-se p’rá cama,
e por fim fica nua de verdade.
634
Eduardo Pitta

Eduardo Pitta

Hesitas quanto à natureza

Hesitas quanto à natureza do travo na língua,
a boca sempre vulnerável ao bitterness
do chilled pineapple-moscato zabaglione,
ou só o frio a arder de Union Square para Central Park West.

Até que os elefantes olham para ti
com um garbo irreprimível.
(Nenhum deles sabe que isso acontece
para que se repita uma cena.)

Álvaro de Castro, patrono de outra prodigiosa
manada,
também não sabia.
Mas foi lá que tudo começou,

entre torcidos manuelinos e calções de caqui
com ravina e mar ao fundo.
Trinta anos de intervalo cabem inteiros
neste confronto.

Desvias o olhar e corres para o clarão do gelo
e o ziguezague dos batedores.
A tarde cai do outro lado mundo.
499
Valter Hugo Mãe

Valter Hugo Mãe

a capitalização do amor

não escondemos que aprendemos a
capitalizar o amor, entregando
amplamente os nossos melhores
momentos às raparigas mais carentes.
o amor, sabemos bem, é o caminho directo
para a inutilidade, e nós procuramos as
raparigas que mais rapidamente se
inutilizem perante as coisas clássicas
da vida. não nos queremos atarefar com
a vulgaridade, e gostaríamos até de
impregnar cada gesto com características
alienígenas, mas o tempo escapa-se e o
dinheiro também e, se só pensamos no amor,
não temos como fazer de outro modo
senão vendê-lo entusiasticamente, como
fontes de trovões bonitos jorrando nas
praças mais movimentadas das cidades. e
as raparigas correm para nós urgentes
e cheias de vida, férteis de tudo quanto o
amor se abate sobre elas, uma alegria rica
de se ver, e nós a balançar os braços para
chamar a atenção de mais e mais e
já nem sabemos como parar, como forças
incontroladas, à semelhança de mecanismos
ferozes da natureza, e só sairemos daqui
quando desfalecermos de amor até
pelas raparigas mais feias
665
Virgílio Fernandes Almeida

Virgílio Fernandes Almeida

Crônica de Um Dia Digital

Sete horas da manhã: uma xícara de café, forte, cheiroso e real. É hora de começar o dia. Por onde? Pelo mundo material que conhecemos e estamos acostumados ou por um mundo novo, digital, regido pelos bits dos computadores? Um bit é o menor elemento da informação. Comparando com a matéria, é como se fosse o átomo da informação. Por razões práticas, um bit é representado pelos dígitos 0 ou 1. Números, nomes, livros, jornais, retratos de família, filmes românticos, CDs de rock, fitas de samba, vídeos violentos, programas de computador podem todos ser reduzidos a simples sequências de 0s e 1s. Por exemplo, o número 6 seria representado pela sequência 110. De maneira semelhante, todas as outras coisas mencionadas seriam codificadas em intermináveis sequências de bits, que podem ser transmitidos pelas linhas telefônicas e satélites por todo o planeta em poucos segundos. É o mundo digital, com novos termos e novos hábitos.
Ligar o carro ou ``logar’’ no computador, isto é, dar seu nome e sua senha para entrar no sistema. Dirigir pela Avenida Afonso Pena, Antônio Carlos rumo ao campus da universidade ou, usando a nova linguagem, navegar pelas vias de informação da Internet. Sentar numa poltrona e ler os jornais no seu tradicional formato 45x57 cm em papel ou percorrer com os olhos a fria e pequena tela do computador em busca das notícias do dia. Conversar face-a-face com o colega de sala ou entabular uma diálogo eletrônico, através de mensagens pela Internet, com algum amigo digital, localizado a milhares de kilômetros daqui. Ir a uma loja, folhear livros, examinar presentes, enfrentar filas, conversar com os vendedores, comprar, pagar e levar ou conectar-se ao Internet Shoping Center e, solitariamente, vasculhar os catálogos de produtos, fechar a compra por cartão de crédito e aguardar alguns dias até a chegada da encomenda pelo correio. Fugir de um bando de pivetes que procura roubar uma bolsa ou se proteger dos piratas eletrônicos que navegam na Internet em busca de informações confidenciais de negócios ou de um simples número de cartão de crédito de algum desavisado. Participar de alguma associação comunitária de seu bairro ou envolver-se em uma comunidade eletrônica, onde os participantes digitais discutem através da Internet as políticas ambientais nos vários países do planeta. Assombrar-se com a variedade e riqueza das informações dos museus, bibliotecas, centros de pesquisa existentes nas infovias do espaço cibernético ou indignar-se com a pobreza absoluta de milhares de pessoas analfabetas que vagam pelas ruas e estradas do Brasil.
No mundo digital as noções de espaço e tempo tomam novas feições. Por exemplo, a Biblioteca Nacional de Medicina em Washington já não está tão longe assim e visitá-la na Internet requer apenas alguns segundos. Dia após dia, as tecnologias da informática e telecomunicação seguem silenciosamente alterando o estilo de vida de um número cada vez maior de pessoas. Basta ver como as crianças tratam de maneira tão natural palavras como computador, software, disquete, CD-ROM, e games. A Internet tornou-se capa de revistas, assunto de programas de televisão, notícia diária nos jornais e, no próximo carnaval, será tema de enredo de escola de samba. São os objetos e ícones desse novo mundo digital, que se constrói sobre o velho mundo material, repleto de divisões, contrastes e injustiças. Diante de tudo isso, vejo surgir uma versão moderna do dilema de Hamlet. Ser ou não ser digital, eis uma nova questão!

1 120
Vitor Casimiro

Vitor Casimiro

Fim, de Noite

Copos cheios.
Garrafas nem tanto
Mesas?
Por todos os cantos.
Não faz sentido
O seu espanto...

É noite
O tempo passa
A fumaça sobe
Pessoas falam
Outras escutam
A música

Não há nada
De mal nisso
Escolha a sua dose
A vida continua assim
Começo, meio
E fim.

1 000
Virgílio Fernandes Almeida

Virgílio Fernandes Almeida

O poeta, o temor e o computador

Mais um congestionamento. O trânsito segue seu rítmo lento habitual. Buzinas, impaciência e pensamentos. De repente, surge Chico Buarque no rádio, cantando o clássico samba de Paulinho da Viola: Sinal Fechado. "Olá como vai? Tudo bem, eu vou indo correndo pegar um lugar no futuro e você?". Qual o meu lugar no futuro? Eis uma questão que muitos brasileiros indagam. O futuro vem sempre acompanhado de um mistura de esperanças e incertezas. Existem algumas invenções humanas que claramente têm a cara do futuro. Os computadores, os softwares, os robôs e as redes de comunicação com certeza serão ubíquos num futuro não muito distante. É sempre bom lembrar que o próximo milênio chega daqui a cinco anos! No plano das incertezas quanto ao futuro cibernético, muitos se perguntam: será que o computador vai ocupar o meu lugar?
Em um de seus ensaios sobre literatura e tecnologia, o mexicano Octavio Paz, prêmio Nobel de literatura, questiona se o computador tomaria o lugar do poeta. "Nada impede que o poeta se sirva de um computador para escolher e combinar as palavras que hão de compor seus poemas". Entretanto, o computador não suprime o poeta, como não o suprimem os dicionários e os tratados sobre como fazer poesia. Um poema não é fruto apenas de um amplo vocabulário e de um conjunto de regras para escolher e combinar as palavras do vocabulário. O poema é fruto principalmente da atitude criadora da alma humana. Isto se estende aos vários campos da criatividade do homem: a literatura, a pintura, a música, o cinema e outros. Não há computador que substitua a arte e o talento de um Drummond, um Guimarães Rosa, um Chico Buarque, um Portinari uma Fernanda Montenegro ou uma Adélia Prado.
As histórias do homem e suas máquinas têm sido construídas juntas. Algumas máquinas tem o papel de ajudar o homem na transformação de seu ambiente. Auxiliam na construção de estradas, barragens, portos, etc. Outras máquinas, como carros e aviões buscam ajudar o homem a vencer limitações de distância e tempo. Existem máquinas cujo objetivo é ampliar as habilidades dos seres humanos. Por exemplo, o microscópio e o telescópio ampliam a visão das pessoas e o telefone amplia a capacidade de comunicação. Com sua capacidade de processar velozmente grandes massas de informação e controlar complexas operações, os computadores se incluem nesta última categoria. O computador e seus softwares não devem ser vistos como ameaças ao homem e sim como uma possibilidade de ampliar e acentuar suas habilidades. A automação não deve ser vista simplisticamente como forma de substituir pessoas e sim como um recurso para aumentar a qualificação e a capacidade da força de trabalho.
Muitas pessoas veêm com temor o acelerado progresso da tecnologia dos computadores e sua silenciosa e constante penetração em quase todos espaços da vida contemporânea. Nos bancos, no comércio, nos hospitais, nos tribunais, nos governos, nas indústrias e no lazer há sempre um computador presente. Há sempre o temor do computador tomar o lugar das pessoas e reduzir os empregos. A experiência externa tem mostrado que os diversos tipos de trabalhos de uma sociedade são afetados diferentemente pela ampliação dos domínios do computador. Trabalhos de natureza mais repetitiva em fábricas e escritórios têm sido mais atingidos pelo avanço da informática. É imprescindível que sindicatos, associações de classes, empresários e governo criem uma agenda de discussão sobre a evolução da informática numa sociedade complexa, dividida e injusta como a brasileira. Discutir e negociar o grau e a velocidade da informatização da sociedade, a reciclagem do trabalhador brasileiro e a alfabetização em informática são tarefas chaves no desenho do futuro de nosso país .

674
Vitor Casimiro

Vitor Casimiro

Entre o Céu e a Terra

Antes éramos um ponto
Hoje não me contento
Estou rodeado
Por cimento

Vivemos em sociedades
Não somos primitivos
Ganhamos adjetivos
Enquanto perdemos qualidades

Será uma máquina,
Arranha-céu, ou fato extraordinário
capaz de apagar o cenário
bonito, do anil infinito?

915
Ruy Belo

Ruy Belo

Rua do Sol a Sant'Ana

Entretanto, num ano, na cidade em construção
que dos gestos emerge num cessar de mãos
e é confiada à noite pelo dia
numa assembleia de olhos temporariamente mortos
e trabalhada ao lume e ao relento
para poder então ser transmitida ao sol mais próximo do dia
no princípio das ruas devassadas pelo vento
através das profanas novidades de palavras
da floresta dos braços pertencentes à imensa multidão
e de muitos corações condescendentes
coleccionadores de meigos sentimentos
entre cartas que vão de mão em mão em alegre comércio
lá onde a vida multiplica a paisagem
e a natureza aceita muda humanos movimentos
sob altos céus propícios mas distantes
aí precisamente aí os santos são crucificados lentamente longas tardes]
e há quem consiga vê-los através dos vários rostos
que nos risos avultam ou nas ruas ou nos rios
exactamente quando o telefone afere a força de uma voz
a par dos gestos estritamente necessários
da dignidade da mulher no parto
dos pequeninos e apeninos passos que se dão dentro de casa
Porém nenhum rasto desiste ou renasce distante
ou talvez nalgum reino isto seja importante

Este é o tempo das grandes descobertas
se soubermos seguir os preciosos passos dos turistas
o sacristão sagaz que sabe o sítio de minúsculos objectos
respeitáveis senhoras que transpiram leque e caridade
Não é tão agradável ser católico
saber se nos havemos de sentar ou levantar
quem condenar quem absolver com magnanimidade
entre quem com que cuidados ratear a culpa pelo mais tímido gesto]
ou como converter à nossa imaculada vida Deus?
Quase tão agradável como no inverno introduzir os pés frios na cama]
e ouvir pela manhã resfolegar o caterpillar número seis
e acordar os funcionários do sindicato em frente
Tão modestos subsídios para uma rudimentar teoria do envenenamento]

Nascemos e morremos e é sempre o mesmo sol lá fora
Inúmeras possibilidades há nesta ou em qualquer manhã
Há consultas marcadas nos dentistas
há saltos que se prendem nas calçadas
orçamentos familiares prédios de rendimento óculos de publicidade]
e calças que já vão ficando curtas
Importantes assuntos passam nas agendas de ano para ano
e muitas outras coisas fazem as pessoas infelizes
Há vários subsecretários sem emprego
uma mulher depois um ministério assim a vida inteira
o que é preciso é termos qualquer coisa
Consta que há uns generais suicidando-se
e outros as memórias publicando
um singular olhar que se perdeu durante a conferência
e a nespereira tão intensamente seca num quintal
e o mar inacessível impossível de saudar
e não amarmos Cristo de maneira inalterável

Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo por tudo e designadamente]
por um olho vazado por esta minha mão que nunca mais conheço
pelo que há de matinal na voz da vendedeira de jornais
É bom saber que há revolução lá longe
recebê-la ainda quente das máquinas dos dedos
para tudo morrer na boca que se abre (de sono ou no dentista)
Lavam de inúmeras questões as mãos os mais prudentes
imerecidamente vão secando flores
e os filhos protegendo os braços nus das mães
que por mais um verão os mostrarão ainda
Das casas das melhores famílias da cidade
sobe ao cair da tarde o complexo perfume
das orações transpirações dejectos
É no entanto de notar o nobilíssimo costume
segundo o qual as mulheres não vão à guerra

E apesar disso luta-se à entrada da cidade
e há a considerar os êxitos contemporâneos
e a imbecil camaradagem dos colegas de repartição
e o mal que por trás das nossas persistentes caras
depositamos nos vizinhos alicerces
Somos vistos por fora temos corpos
resgatam-se os chapéus nos restaurantes
a tarde cola-se viscosamente à pele
e nem os bons chefes de família sabem já a conta certa
de todos os domingos vindos pelas persianas
e das vozes insólitas às portas do sol-pôr

Pelas janelas já os edifícios como que nos fitam
diminuem na arca os cobertores
e vão as últimas crianças demorando a voz
naquela eternidade azul que a hora lhes concede
antes do sono sobre os mais humanos pensamentos
Ensinam-nos os velhos a não temer a noite
e o amor dá-nos os braços com que vamos
a quanto amamos (mais que ao que animamos)
Mais débil veste basta que cruzar a tarde
el polvo roba el dia y le escurece
e nasce o fruto mais insólito nos lábios
quando algumas cidades conhecidas (e até desconhecidas) se nos cruzam na memória]
e as farmácias começam a fazer negócio
e crescem muitas vezes nalgum pátio assustadoras vozes
e descem das montanhas elefantes brancos todos os rebanhos
e partem por nós dentro todos os caminhos
e a noite enfuna as árvores de vento
e unge em suas assombrosas mãos o corpo da cidade
esmaga-lhe a boca arquiva-lhe os cabelos
mata-lhe os olhos dá-lhe nas esquinas cotovelos
precisamente porque há um caminho para o mar
e em certos gestos nascem coisas muito grandes
e é dia lá onde o olhar dos loucos abre

Levanto-me dos olhos para o meu poema
regulo o vento evito-lhe as esquinas
e levemente o levo pela mão à noite
e dou-lhe a calculada dose em minha provisória morte

Levantam-se nas casas todas as mulheres
as menos belas olham as mais belas
as da Jónia passeiam levemente nuas
as de Tarso veladas e Paulo morto há pouco
E a esperança, quando o sol afasta as nuvens
com róseos dedos sobre Esparta ou a arenosa Pilos,
que o tempo para sempre haja mudado
E houve uma tarde e uma manhã primeiro último dia

Ó homens há séculos erguidos e caídos
magnanimi heroes nati melioribus annis
vindos no lombo dos meses menos habitáveis
de hirtas mãos abertas entre a vida
talvez vos não receba o coração
de uma grande cidade em construção


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 73 a 76 | Editorial Presença Lda., 1984
1 936
Tereza Cristina Fraga

Tereza Cristina Fraga

Querendo

O sol penetra
Traz as pessoas para começar o dia.

As crianças sonolentas
Os adultos quase despertos.

Na copa eståo as Marias
Na porta o Joåo
Nas ruas a solidåo.

Sobre um céu
Dentro da terra

E o mar qual distante de meus olhos
Que eståo perto do cerrado
Tristes
Encabulados.

Procurando uma vontade
Esse tolo desejo
De mato molhado.
De um bicho ao meu lado.

823
Ruy Belo

Ruy Belo

Mortis causa

Mulher de gestos dia a dia mais pequenos,fosses tu qualquer coisa, uma cadeira ao menos
houvesse para ti sempre lugar em tua casa
e não ires um dia assim convencional serena
como papel ou lixo pela escada abaixo

Mulher espremida enquanto deste vida
e resumida à pequenina luz que se liberta
do gesto estritamente necessário linha recta
para anular o espaço entre a mão e a coisa
movimentos dos dias divergentes de outros dias
E tudo vai moendo e remoendo momento a momento
triturando colhendo arrepanhando
face ficta fraca e fixa
a fruta em frente fita, frígida fremente



Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 123 | Editorial Presença Lda., 1984
748
Teresa Bartholomeu

Teresa Bartholomeu

Das Ruas

Boca grande, boca pequena
chuta meninos cóa ponta da bota, cóa raquete de tenis, cóa jaqueta

xó xó xó sai de banda moleque!

que educação cumpadi, que educação coroné-boné
quem vive de cuspe em cuspe nas esquinas de babel
tem a vontade de trabalho na mão, porque mais nada resta não!
limpo todos os parabrisas dos olhares e vidraças de telhado e casas
grande.

xó xó xó danação dos canteiros, sua cara mesquinha!

Mas, dexa entrar, num favor! dexa um cantinho?
fico de boca pequena, ando devagarinho e só de quando em quando
descalça corro pelos latifúndios da poesia a conhecer as únicas glebas
produtivas dessas terras de bois que puxam barcos a arar imaginações.
corro descalça por esses alqueires a modo do vento da meiguice dos
poetas acariciar meu rosto. deixo meu burro e minha burrice atrelada na
entrada e entro lisa.

xó xó xó urubu mal quisto!

Nem me visto de frases e issos e aquilos (se bem que vai ser difícil)
deixo a tolice na gaiola da parvoice.
Minha fala tem a confusão das esquinas
Entende-se tanto quanto a fórmula dos soros das clínicas
sei lá quantos mortos
Entende-se tanto quanto suas economias e vacas profanas e cabritos
juro que nem trocado peço e não tropeço nos trecos e fico de boca
pequena. se me der um prato até que como.

xô xô xô quem nu vi mais gordo!

tou descalça. sou uma peste. meu olhar ácido te queima em medo. mas tô
sangrando tanto! a dor de tantos enxotos e tantas penduras e tantos
pedidos. além da dor dos homicídios: a faca, a revolver, a frase, ou
a negação!

xô xô xô desgruda a bunda do carro, menina!

tá bom recolho o corpo: dou meia volta: e engano
corro entre verdes de cana paraibanos cortando meu rosto
como cajús: também tenho meus dias de banquete imaginário!

xô xô xô
todos tem, todos tem
coitados (diria a madame antes de ser assaltada)

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