Poemas neste tema

Cidade e Cotidiano

Manuel de Freitas

Manuel de Freitas

URINOL

As melhores horas da nossa vida,
as mais contentes, passámo-las
num urinol qualquer, vendo correr o mijo
capaz e fluente numa certeza de louça
branca, amarela ou cinzenta.
Instantes de pouca opressão,
cumprindo embora um estúpido dever,
desses do corpo, sob o silêncio infecto de Deus
- que talvez fosse aquele puxador
de autoclismo que um dia me ficou na mão,
numa taberna discreta ao Poço dos Negros.
Guardei-o ainda alguns meses, mas de Deus
como de um autoclismo, de tudo
acabamos por nos cansar. Até de poemas.

São ruas velhas assim, onde paira
a suposição grosseira de um urinol
divino e sombrio, que nos fazem aceitar
esta voraz forma de extermínio. O nosso,
incandescente, num apogeu de melancólicas
retretes onde os insetos e bactérias do acaso
nos distraem o olhar
embaciado pelo abuso da lixívia.

Uma lucidez pegajosa, toldando a idade
das mãos invariavelmente senis.
Como se bastassem, ou fossem mesmo
excessivas, certas baixas certezas de cão,
desastres menores. Sabendo-se de fonte
segura que o mijo pode ser um poema.
Um poema cansado do que antes foi vinho,
a suicidar-se agora - contente e tão triste -
no vazio evidente de uma louça
branca, amarela, sagrada.

Pequenas alegrias e no entanto as maiores,
essas mesmas que bastarão,
que terão de bastar,
no dia
em que formos
morrer.
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Manuel de Freitas

Manuel de Freitas

ZULMIRA, AO AMANHECER

No urinol público lia-se UTILIZAÇÃO GRATUITA.
Fiquei quase feliz (quantas coisas gratuitas
há neste mundozinho de horror?).
Mas o que desta manhã eu mais agradeço, Zulmira,
é a tua sopa, essa que tantas vezes
me salvou a vida, entre centenas de superbocks.

Não me inquietam os chulos, os assassinos
ou estes mendigos calados. Ilustríssima gente,
de uma má-raça inegável. Prefiro perder
com eles os meus dias, e falar da fome, dos joanetes
ou do preço do azeite. Não tenho tempo
para aprofundar desrazões, nem para conviver com puetas.

Sei apenas que as poucas pessoas que amei
estavam por detrás de um balcão
onde o álcool ardia, muito devagar.
Os meus pobres anjos.
Também por isso gostava de te obrigar a esta taberna,
exílio cantante de todas as minhas antigas manhãs.

Por esta mãe desolada, pelo rumor sombrio
do vinho que nunca azedou nos meus lábios,
por certas inábeis palavras que sobre os barris
faleceram e te pertenciam somente.

Mas “até logo, Zulmira”, bem sabes que do amor
ou do futebol nada poderei jamais dizer
ou sentir. Entre os teus braços largos deponho
em silêncio aquela negra noite do meu mal.
Por uma sopa encorpada, sobre destroços
imperecíveis, bocados de morte partidos.
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Manuel de Freitas

Manuel de Freitas

BENILDE AO BALCÃO I

Valerá a pena uma voz vária?
Benilde está ao balcão, repara nas moscas
pulando ao acaso num canto desvanecido,
e os homens - mudos e sonolentos -
dão à taberna um sepulcral prestígio
que em certos dias me apraz.
Envelhecemos todos, com vocação
ou sem ela. Não sei se as moscas também,
indiferentes a uma pergunta errada.

Mas eis que alguém canta um fado,
estando Benilde ao Balcão.
Talvez só então me aperceba de
que a tristeza é um luxo, impossível
um poema nos tempos que correm
ou param. Benilde ao balcão saberá?

Vou omitir por piedade a inércia
gutural do que ouvi, pronto motivo
para que outros se levantassem também
- subitamente fadistas por obrigação
ou desforra. Sai-lhes da reforma pequena
uma voz destruída pelo álcool, inter-
mitente, capaz ainda assim de vislumbres
de sabedoria: «a vida é uma estória
e a estória é mentira».

Benilde, ao balcão, não se pronuncia.
Nasceu mulher, e ainda por cima existe
(não veio da peça de teatro que tornou
literário o seu nome). Aqui quem actua
são eles, frutos disformes de uma «alma
nacional» que subscrevemos sem pensar muito.
Depois dá nisto: brando desespero
com quase vergonha de o ser.

Acendem-se na tarde as perdidas coisas,
imunes ao fado e às moscas
e a tudo. Quem pudesse remediar o defeito
grave deste existir lodoso, sem comunhão
à vista. Enobrecê-lo, pelo menos.
Mas não, apesar de tudo. Benilde
é a imagem estóica - embora desconheça
o termo - de um reino que não pôde ser,
por excesso de dor ou por nada.

Não é por conveniência retórica
que o confundo com uma taberna
onde as paredes, o urinol exíguo,
a demitida luz, me lembram de ti
ou da morte. Estamos todos aqui, acontece.
Até que me interrompam, do lado
de fora do poema, para me dizerem
com o rosto chagado e incerto
que «não vale a pena pensar nessas coisas».

Poder-se-ia suprimir o complemento directo,
se não fosse deselegante sujar
de gramática o que é lição pura de desespero.
Dou-lhe um cigarro, mais não posso dar
- e não é culpa minha a consternação
quando uma mulher, destroçada embora,
entra num reduto de decadência viril.
Se perdoam Benilde é porque está ao balcão.

Por quanto tempo não sei. Lá fora
o trânsito e os rostos
tingem-se de irrealidade, vistos deste reino
que não chegou a sê-lo. O relógio
há tantos poemas parado não sustém o tempo
homicida, e um dia a praça das Flores
será um ameno lugar de chacina
privado de bêbados como eu.
1 110
Manuel de Freitas

Manuel de Freitas

VIDALVAZ

Talvez viver seja isso,
isto precisamente.

Um ovo estrelado com pão,
uma taberna sob impiedosa trovoada
quando a cidade anoitece e se ouve
qualquer relato decerto importante
em que o herói se chama Sporting.

Estas tabernas, lugares sombrios
onde sob o pouco aprumo dos tonéis
morreu ou foi morrendo um poeta
que os abutres da nação fazem questão
de aclamar. Tinto ou branco, vai sempre
dar ao mesmo, modo apenas de vomitar
uma ausência fulgurante.

Entretanto dizem-se aqui os “até amanhãs”,
celebra-se a calma metafísica de uma sopa
amornada e doente. São os mesmos que amanhã
cá estarão, vacilantes e anónimos, dizendo
de novo “até amanhã” para que a eternidade
se finja repetir. São os mesmos até mais ver,
a sopa, o ovo estrelado, o futebol, a
recusada tristeza de envelhecer.

E talvez viver seja isto, a cruel poesia
dos tonéis, o mármore de balcões engordurados,
este morrer
de um modo gentil, quase despercebido.

Não importa quem lembra as tabernas
que lentamente se apagam,
os versos tristes que as cantam
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Ana Martins Marques

Ana Martins Marques

Horóscopo

Há duas ou três promessas
espreitando o dia.
Indício de visitas
e incêndios.
Saúde, mas nenhuma alegria.
Distrações e alegrias no trabalho.
No amor talvez não seja bem isso.
Indiferença não é uma saída nessa hora.
Família e dívidas preocupam.
Os astros continuam rodando à toa.
Impossível domar
a fera que te habita
o signo inexato.
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Manuel de Freitas

Manuel de Freitas

CANSADA DE SERVIR NINGUÉM

A primeira e talvez a única
condição da poesia: a falsidade.
Posso no entanto jurar que foi
hoje mesmo, pelo fim da tarde, que
ela entrou desconexa, com um anel rutilante
em cada dedo, na taberna de praça das Flores.

O velho, sentado à minha mesa, teve
de ouvir uma canção de marinheiros,
inevitavelmente triste. Só então
me apercebi, como ele, de que trazia ao colo
uma pomba. Pediu-lhe que voasse
- e ela voou, contornando as moscas
deste Verão precoce, em direcção ao jardim
(sempre tiveram jeito para voar, as pombas).
Quase não vi aquelas mãos caírem sobre
uns seios gastos, a pretexto do colar.

Benilde, sentada, apenas viu nisso tudo
uma espécie de loucura mansa,
o modo como a tarde docilmente se despede,
à sombra parada do relógio. Sessenta
anos de balcão pesavam-lhe hoje mais nas pernas,
indiferentes aos poemas que nunca lerá,
enquanto um último refrão, entre muletas
e copos vazios, nos volta a impor a única verdade.

A pomba - de um branco acastanhado -
parecia não se importar muito.
1 116
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Balada Das Meninas de Bicicleta

Meninas de bicicleta
Que fagueiras pedalais
Quero ser vosso poeta!
Ó transitórias estátuas
Esfuziantes de azul
Louras com peles mulatas
Princesas da zona sul:
As vossas jovens figuras
Retesadas nos selins
Me prendem, com serem puras
Em redondilhas afins.
Que lindas são vossas quilhas
Quando as praias abordais!
E as nervosas panturrilhas
Na rotação dos pedais:
Que douradas maravilhas!
Bicicletai, meninada
Aos ventos do Arpoador
Solta a flâmula agitada
Das cabeleiras em flor
Uma correndo à gandaia
Outra com jeito de séria
Mostrando as pernas sem saia
Feitas da mesma matéria.
Permanecei! vós que sois
O que o mundo não tem mais
Juventude de maiôs
Sobre máquinas da paz
Enxames de namoradas
Ao sol de Copacabana
Centauresas transpiradas
Que o leque do mar abana!
A vós o canto que inflama
Os meus trint'anos, meninas
Velozes massas em chama
Explodindo em vitaminas.
Bem haja a vossa saúde
À humanidade inquieta
Vós cuja ardente virtude
Preservais muito amiúde
Com um selim de bicicleta
Vós que levais tantas raças
Nos corpos firmes e crus:
Meninas, soltai as alças
Bicicletai seios nus!
No vosso rastro persiste
O mesmo eterno poeta
Um poeta - essa coisa triste
Escravizada à beleza
Que em vosso rastro persiste,
Levando a sua tristeza
No quadro da bicicleta.
1 142
Salgado Maranhão

Salgado Maranhão

VULTO 1

Sozinho com os vampiros
e a madrugada,
ainda guardo
estas flores de pedra
(a noite é voraz,
mas a casa está fresca
para os colibris).
Rompendo as esquinas
e a largura das horas,
sou pouco mais
que um vulto
entre os bichos.
A cidade é um ganido
em meus ossos; a cidade
que me vende em retalhos. A mim
com meus desdobrados voos.
O tempo que me resgata
é surdo e não dói na carne.
O que dói é a vontade
aprendendo a sonhar.
720
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Valsa À Mulher do Povo

Oferenda

Oh minha amiga da face múltipla
Do corpo periódico e geral!
Lúdica, efêmera, inconsútil
Musa central-ferroviária!
Possa esta valsa lenta e súbita
Levemente copacabanal
Fazer brotar do povo a flux
A tua imagem abruptamente
Ó antideusa!


Valsa

Te encontrarei na barca Cubango, nas amplas salas da Cubango
Vestida de tangolomango
Te encontrarei!
Te encontrarei nas brancas praias, pelas pudendas brancas praias
Itinerante de gandaias
Te encontrarei.
Te encontrarei nas feiras-livres
Entre moringas e vassouras, emolduradas de cenouras
Te encontrarei.
Te encontrarei tarde na rua
De rosto triste como a lua, passando longe como a lua
Te encontrarei.
Te encontrarei, te encontrarei
Nos longos footings suburbanos, tecendo os sonhos mais humanos
Capaz de todos os enganos
Te encontrarei.
Te encontrarei nos cais noturnos
Junto a marítimos soturnos, sombras de becos taciturnos
Te encontrarei.
Te encontrarei, oh mariposa
Oh taxi-girl, oh virginete pregada aos homens a alfinete
De corpo saxe e clarinete
Te encontrarei.
Oh pulcra, oh pálida, oh pudica
Oh grã-cupincha, oh nova-rica
Que nunca sais da minha dica: sim, eu irei
Ao teu encontro onde estiveres
Pois que assim querem os malmequeres
Porque és tu santa entre as mulheres
Te encontrarei!
1 123
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Cinepoema

O preto no branco
Manuel Bandeira


O preto no banco
A branca na areia
O preto no banco
A branca na areia
Silêncio na praia
De Copacabana.
A branca no branco
Dos olhos do preto
O preto no banco
A branca no preto
Negror absoluto
Sobre um mar de leite.
A branca de bruços
O preto pungente
O mar em soluços
A espuma inocente
Canícula branca
Pretidão ardente.
A onda se alteia
Na verde laguna
A branca se enfuna
Se afunda na areia
O colo é uma duna
Que o sol incendeia.
O preto no branco
Da espuma da onda
A branca de flanco
Brancura redonda
O preto no banco
A gaivota ronda.
O negro tomado
Da linha do asfalto
O espaço imantado:
De súbito um salto
E um grito na praia
De Copacabana.
Pantera de fogo
Pretidão ardente
Onda que se quebra
Violentamente
O sol como um dardo
Vento de repente.
E a onda desmaia
A espuma espadana
A areia ventada
De Copacabana
Claro-escuro rápido
Sombra fulgurante.
Luminoso dardo
O sol rompe a nuvem
Refluxo tardo
Restos de amarugem
Sangue pela praia
De Copacabana...
1 278
Herculano Moraes

Herculano Moraes

O rio de minha terra

O rio de minha terra é um deus estranho.
Ele tem braços, dentes, corpo, coração,
muitas vezes homicida,
foi ele quem levou o meu irmão.

É muito calmo o rio de minha terra.

Suas águas são feitas de argila e de mistérios.
Nas solidões das noites enluaradas
a maldição de Crispim desce
sobre as águas encrespadas.

O rio de minha terra é um deus estranho.

Um dia ele deixou o monótono caminhar de corpo mole
para subir as poucas rampas do seu cais.
Foi conhecendo o movimento da cidade,
a pobreza residente nas taperas marginais.

Pois tão irado e tão potente fez-se o rio
que todo um povo se juntou para enfrentá-lo.
Mas ele prosseguiu indiferente,
carregando no seu dorso bois e gente,
até roçados de arroz e de feijão.

Na sua obstinada e galopante caminhada,
destruiu paredes, casas, barricadas,
deixando no percurso mágoa e dor.

Depois subiu os degraus da igreja santa
e postou-se horas sob os pés do Criador.

E desceu devagarinho, até deitar-se
novamente no seu leito.

Mas toda noite o seu olhar de rio
fica boiando sob as luzes da cidade.

1 343
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Mensagem a Rubem Braga

Os doces montes cônicos de feno
(Decassílabo solto num postal de Rubem Braga, da Itália.)

A meu amigo Rubem Braga
Digam que vou, que vamos bem: só não tenho é coragem de escrever
Mas digam-lhe. Digam-lhe que é Natal, que os sinos
Estão batendo, e estamos no Cavalão: o Menino vai nascer
Entre as lágrimas do tempo. Digam-lhe que os tempos estão duros
Falta água, falta carne, falta às vezes o ar: há uma angústia
Mas fora isso vai-se vivendo. Digam-lhe que é verão no Rio
E apesar de hoje estar chovendo, amanhã certamente o céu se abrirá de azul
Sobre as meninas de maiô. Digam-lhe que Cachoeiro continua no mapa
E há meninas de maiô, altas e baixas, louras e morochas
E mesmo negras, muito engraçadinhas. Digam-lhe, entretanto
Que a falta de dignidade é considerável, e as perspectivas pobres
Mas sempre há algumas, poucas. Tirante isso, vai tudo bem
No Vermelhinho. Digam-lhe que a menina da caixa
Continua impassível, mas Caloca acha que ela está melhorando
Digam-lhe que o Ceschiatti continua tomando chope, e eu também
Malgrado uma avitaminose B e o fígado ligeiramente inchado.
Digam-lhe que o tédio às vezes é mortal; respira-se com a mais extrema
Dificuldade; bate-se, e ninguém responde. Sem embargo
Digam-lhe que as mulheres continuam passando no alto de seus saltos, e a
moda das saias curtas
E das mangas japonesas dão-lhes um novo interesse: ficam muito
provocantes.
O diabo é de manhã, quando se sai para o trabalho, dá uma tristeza, a
rotina: para a tarde melhora.
Oh, digam a ele, digam a ele, a meu amigo Rubem Braga
Correspondente de guerra, 250 FEB, atualmente em algum lugar da Itália
Que ainda há auroras apesar de tudo, e o esporro das cigarras
Na claridade matinal. Digam-lhe que o mar no Leblon
Porquanto se encontre eventualmente cocô boiando, devido aos despejos
Continua a lavar todos os males. Digam-lhe, aliás
Que há cocô boiando por aí tudo, mas que em não havendo marola
A gente se aguenta. Digam-lhe que escrevi uma carta terna
Contra os escritores mineiros: ele ia gostar. Digam-lhe
Que outro dia vi Elza-Simpatia-é-quase-Amor. Foi para os Estados Unidos
E riu muito de eu lhe dizer que ela ia fazer falta à paisagem carioca
Seu riso me deu vontade de beber: a tarde
Ficou tensa e luminosa. Digam-lhe que outro dia, na rua Larga
Vi um menino em coma de fome (coma de fome soa esquisito, parece
Que havendo coma não devia haver fome: mas havia).
Mas em compensação estive depois com o Aníbal
Que embora não dê para alimentar ninguém, é um amigo.
Digam-lhe que o Carlos
Drummond tem escrito ótimos poemas, mas eu larguei o Suplemento.
Digam-lhe que está com cara de que vai haver muita miséria-de-fim-de-ano
Há, de um modo geral, uma acentuada tendência para se beber e uma ânsia
Nas pessoas de se estrafegarem. Digam-lhe que o Compadre está na
insulina
Mas que a Comadre está linda. Digam-lhe que de quando em vez o Miranda
passa
E ri com ar de astúcia. Digam-lhe, oh, não se esqueçam de dizer
A meu amigo Rubem Braga, que comi camarões no Antero
Ovas na Cabaça e vatapá na Furna, e que tomei plenty coquinho
Digam-lhe também que o Werneck prossegue enamorado, está no tempo
De caju e abacaxi, e nas ruas
Já se perfumam os jasmineiros. Digam-lhe que tem havido
Poucos crimes passionais em proporção ao grande número de paixões
À solta. Digam-lhe especialmente
Do azul da tarde carioca, recortado
Entre o Ministério da Educação e a ABI. Não creio que haja igual
Mesmo em Capri. Digam-lhe porém que muito o invejamos
Tati e eu, e as saudades são grandes, e eu seria muito feliz
De poder estar um pouco a seu lado, fardado de segundo sargento. Oh
Digam a meu amigo Rubem Braga
Que às vezes me sinto calhorda mas reajo, tenho tido meus maus momentos
Mas reajo. Digam-lhe que continuo aquele modesto lutador
Porém batata. Que estou perfeitamente esclarecido
E é bem capaz de nos revermos na Europa. Digam-lhe, discretamente,
Que isso seria uma alegria boa demais: que se ele
Não mandar buscar Zorinha e Roberto antes, que certamente
Os levaremos conosco, que quero muito
Vê-lo em Paris, em Roma, em Bucareste. Digam, oh digam
A meu amigo Rubem Braga que é pena estar chovendo aqui
Neste dia tão cheio de memórias. Mas
Que beberemos à sua saúde, e ele há de estar entre nós
O bravo capitão Braga, seguramente o maior cronista do Brasil
Grave em seu gorro de campanha, suas sobrancelhas e seu bigode
circunflexos
Terno em seus olhos de pescador de fundo
Feroz em seu focinho de lobo solitário
Delicado em suas mãos e no seu modo de falar ao telefone
E brindaremos à sua figura, à sua poesia única, à sua revolta, e ao seu cavalheirismo
Para que lá, entre as velhas paredes renascentes e os doces montes cônicos de feno
Lá onde a cobra está fumando o seu moderado cigarro brasileiro
Ele seja feliz também, e forte, e se lembre com saudades
Do Rio, de nós todos e ai! de mim.
1 022
Tatiana Faia

Tatiana Faia

o que eu sei da filha de agamémnon

para lá de tudo isto o teu entendimento
um campo de feno exposto no interior da lente
antes do golpe da luz
quando a precisão de um momento te invade
e se vira exposto sobre si próprio
como papel de prata na violência do vento
e altos edifícios de pedra selam as saídas
de ruas interiores por onde carros circulam
a baixa velocidade

o que eu me lembro não é
o que nenhum poeta da antiguidade
pudesse ter deixado escrito
em versos a que sopro nenhum
imprimiria o ritmo da fala
onde ela assomasse de carne e osso
não uma criatura literária
mas a urgência de um corpo livre do seu enredo

o que eu me lembro dela
é um dia de parada quando o suor
me colava a camisa ao corpo
e a segui por entre a multidão
para lá dos guardas e das linhas de gente
reunidas para ver soldados desfilar
o que me lembro
é entender que pode ser um erro gracioso
a conclusão mais lógica de um passo
e reparar que forma nenhuma
traria de volta o momento antes da manhã romper
quando o rosto encontra o seu duplo
na superfície vítrea de um lago
claro que nada disto teve nada
de uma quietude campestre
a limpidez de uma manhã mitológica
cortada pela seta de um deus em degredo

segui-a e perdi-a e tornei a encontrá-la ainda
em ruas paralelas onde os cafés ficam vazios
a meio da tarde por causa do estado de sítio da rotina
e há secretos motivos cultivados atrás
de portas que se fecham subitamente
mas não aprendi nada do mundo dela
nem poderia precisar a extensão do seu segredo

peão e estratega
o que ficou comigo muito tempo depois
foi essa longa caminhada de muitas centenas de metros
por ruas cheias de gente
o cabelo preso que lhe caía pelas costas
o que lhe ia chamar eu antes que soubesse o que fosse
pó, ouro, o corte de papel na memória de um fantasma
inevitável, real mesmo antes
da manhã se derramar com a luz
na impessoalidade de um quarto estranho
depois de uma noite de insónia


Oxford, 3 de Setembro de 2017
Leopardo e Abstracção, Fresca, 2020
683
Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo

Terza Rima

É belo dentre a cinza ver ardendo
Nas mãos do fumador um bom cigarro,
Sentir o fumo em névoas recendendo,

Do cachimbo alemão no louro barro
Ver a chama vermelha estremecendo
E até... perdoem... respirar-lhe o sarro!

Porém o que há mais doce nesta vida,
O que das mágoas desvanece o luto
E dá som a uma alma empobrecida,
Palavra d’honra, és tu, ó meu charuto!

2 435
Tatiana Faia

Tatiana Faia

ALGUNS POEMAS PORTÁTEIS

1.
entrando e saindo de livrarias de arte
tenho-me julgado civilizada
este engano deve-se a uma educação
encontros de poetas e artistas
à rejeição do melodrama enquanto
forma de arte inapropriada
a ter perdido tempo com alguns profetas do deserto
longas horas passadas em bibliotecas

a minha civilização deve-se tanto
a noções cosmopolitas
quanto à solidão de carruagens vazias
de comboios nocturnos assobiando
através de túneis o maquinista
mais uma solidão sublinhada
na luz da carruagem da frente
e também nenhum agulheiro poderá mudar
o sentido das linhas das palmas das mãos

a minha civilização deve-se a enredos
pensados em cidades estrangeiras
a encontros entre homens e mulheres
numa rota de colisão febril
fermentada no sangue
à solidão de horas passadas a ler em escritórios
muito depois de estes terem ficado vazios
e as portas principais se fecharem e um guarda solitário
se sentar com uma lanterna e um jornal

tenho sido civilizada por razões que não são naturais
com o tipo de hesitação com que um homem
aperta o nó de uma gravata pára um momento
considera a escuridão azul e chata do fato
a luz do rosto no vazio do espelho

 2.
entrando e saindo de livrarias de arte
tenho-me comportado de certas maneiras
que podem não soar perfeitamente razoáveis
e tenho estado presente em reuniões marcadas
com livros com que me encontrei antes

como a bíblia ilustrada de chagall
um livro cujas páginas finais
são pontuadas de atmosferas vermelhas
paisagens vermelhas, as mãos de deus vermelhas
paisagens onde se alojam como âncoras danças pagãs
mas não é provável que os nossos finais
aconteçam em vermelho
eles serão azuis, azuis escuros, amarelos
como a sorte nos sorri
nada menos do que o céu estrelado
nas costas de eugène boch no quadro de van gogh

não é provável que os nossos finais
aconteçam em vermelho
porque vivemos rodeados de coisas
que constantemente começam e acabam
e que só se manifestam por meio de meias medidas
coisas que numa altura ou noutra acreditámos
que eram sagradas — e o que quero dizer com isto
é —, dignas de um cuidado especial
coisas que se manifestam por exemplo

em amantes que adormecem
agarrados um ao outro como conchas
em cidades onde as noites são demasiado longas
onde o inverno dura o ano inteiro
ou no cabelo vermelho da tua mulher
recordado por ti muito tempo depois
no trabalho de certos entardeceres
em ruas movimentadas de escritórios
e gente e carros ou na ordem da cor
e do cheiro das romãs na solidão
de uma tarde a chegar ao fim
no teu pequeno apartamento suburbano

um sopro ligando-se a outro sopro
atando as imagens que constituem
o registo do que pode bem ter sido a tua vida
ou nem isso porque é preciso perguntar
a mim própria o que é que pretendo lamentar
aqui ou melhor o que pretendo lamentar
ao certo com este poema

3.
um estudioso de munch
depois do roubo de «o grito»
criticou noutros historiadores da arte
a preocupação em restaurar o quadro
que não tinha voltado intacto
das mãos dos ladrões

este estudioso defendia
que munch não ia querer saber de restaurar o quadro
nódoas negras e escoriações
eram apenas a marca de mais uma viagem
e munch ficaria contente em manter o quadro como estava

o estudioso pensava que munch não ia querer saber
porque o pintor amava coisas baratas
e pintava as suas obras com materiais baratos
e mantinha os seus cães perto da sua arte

4.
vivo numa cidade onde a polícia se ocupa
sobretudo de vigiar pedintes
e se à noite passearmos pelas artérias principais
as cenas que se repetem são as de homens em farrapos
sozinhos com os seus cães
cobrindo as cabeças com as mãos
enquanto as carrinhas da polícia passam lentamente

eles mantêm o seu silêncio
e eu lembro-me que foi adrienne rich quem escreveu
que eu vivo num país onde os poetas não são presos
por serem poetas
são presos por serem negros, mulheres, pobres

revejo versões desta cena todas as noites
quando regresso a casa depois do trabalho
e conheço-a bem porque tenho vivido
o mesmo dia durante os últimos sete meses
e presto atenção espero pela carrinha da polícia
a dumka nos meus ouvidos não me permite negar
que o mundo é uma bola de vidro
que a estabilidade de cada peça depende
de a rotação total do globo
não ultrapassar uma certa velocidade

e penso que sou responsável sobretudo
por estas horas em que me cruzo com gente na rua
em que paro de ser um agente
ao serviço de uma corporação cujo deus
é previsivelmente de um verde monótono e jamais
cometeria o erro de um grande final vermelho

eu estou viva quieta e sou responsável
por escrever estas palavras
a caneta contra o papel
o frio na cara
o som de um violoncelo nos ouvidos
que segredo pode ser encontrado na quietude?

que temos existido exaustos
do lado de fora de paisagens previsíveis
quando a minha cara deixa de poder ser reconhecível
e reparo que nos últimos meses

a minha letra mudou
munch pintou «o grito» depois
de um ataque de pânico numa ponte em paris
um ataque sofrido na companhia de amigos

ele dizia que «o grito»
não representava um homem a gritar
mas um homem a tentar conter
como as barreiras fazem com os rios
o grito de tudo o que o rodeia



Um Quarto em Atenas, Tinta da China, 2018
920
Tatiana Faia

Tatiana Faia

o mistério dos homens adormecidos

alguns jazem no plaino abandonado
que a morna brisa aquece
no bolso direito das calças a cigarrilha breve
o peito exposto ao ar os braços cruzados
debaixo da nuca
na vulnerabilidade de um gesto
para lá da farda regimental
do fato e gravata de todos os dias
e depois da poeira sobre os sapatos
a respiração tão regular do corpo
é de repente um acidente da sorte
uma dádiva improvável e oportuna
trazendo de volta a desaceleração do quotidiano

alguns nem estão à espera de ver o mundo arder
cumprem os dias como se tudo
o que alguma vez lhes tivesse sido dado viver
fosse um dia só
e apenas uma só versão desse dia existisse
a profundidade existe apenas
quando jazem sem cuidado
ao comprido num sofá num vigésimo segundo andar
num apartamento de vinte cinco metros quadrados
rodeados por um marulhar de barulhos
por todos os lados e sem que o nada os acosse
um leve sorriso cai sobre os lábios
e um cigarro arde no cinzeiro
enquanto eles deslizam pelo aqueronte do sono adentro
sem espadas e sem escudos que lancem a agulha
da resistência ao desconhecido
noite adentro a confiança ou uma promessa
de amantes pode ser algo como isto

alguns regam as plantas cinco minutos antes
e desfazem os nós dos atacadores
e tiram ordeiramente os sapatos
e reconhecem até mesmo a proximidade da morte
mesmo agora enquanto comem uma refeição enlatada

enquanto me dou conta de que alguns são
ainda até atléticos e musculares e necessários
e mesmo a sua extrema necessidade
alimenta o desejo de todas as coisas
a precisão de alguns instantes quando
rapazes jogam à bola debaixo dos olhares de leões
e as cidades são imponentes e inteligentes e sem perdão
como os aborrecidamente espertos quartetos de mozart

alguns fecham os olhos e inadvertidamente
deitam abaixo a última parede do mito
aquela que postulava que a inteligência que permite
ler os dias é uma espera posta à destruição

adormecendo alguns entrelaçam as mãos sobre o peito
como guerreiros medievais sepultados em túmulos de pedra
no coração das cidades
e é estelar o seu abandono como um fragmento
de vidro que se ilumina de repente na escuridão do ar
e mergulhados profundamente no sono
intuem a profundidade do azul na obscuridade da noite
as chamas que marcam as amuradas da noite
as coordenadas do sal na pele
para lá das horas em que escreveram
linhas em que declararam conhecer bem o sal
que se cola à pele vindo das orlas de certas praias no atlântico

e no entanto alguns persistem e aceleram
para lá do sono em carros que cortam pela noite
demasiado cansados e um pouco decadentes
na fronteira com a extrema incoerência
um pouco para lá do cansaço
para lá do facilmente evidente



Nápoles, 8 de Outubro de 2017
Leopardo e Abstracção, Fresca, 2020
650
Angela Santos

Angela Santos

Trans-Via

A noite caiu....

Ele desce a calçada
salto alto em equilíbrio
lábios de carmim....
e o desenho da boca
simulando o beijo

Num gesto estudado
aconchega os seios
requebra o andar
insinuando prazer
a quem passa....

A noite se alonga
na calçada fétida....
e num recanto escuro
acertado o preço
o seu corpo vende
aquele que passa..

Recompõe o vestido
retoca o carmim
espera quem passa
em busca do lado
que transgride a noite....

.. e sob um vestido
vermelho cintado
os prazeres proibidos
num recanto fétido
goza apressado.

960
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Aurora, Com Movimento

(Posto 3)

A linha móvel do horizonte
Atira para cima o sol em diabolô
Os ventos de longe
Agitam docemente os cabelos da rocha
Passam em fachos o primeiro automóvel, a última estrela
A mulher que avança
Parece criar esferas exaltadas pelo espaço
Os pescadores puxando o arrastão parecem mover o mundo
O cardume de botos na distância parece mover o mar.
1 100
Tatiana Faia

Tatiana Faia

alguns sons antes da manhã

às vezes harmonia e desarmonia ganham fôlego
para se somarem em algo
que parece raro, definitivo, surpreendente
um cavalo ferido em contraluz
nos campos de nevoeiro
ergue-se finalmente diante dos olhos

não exactamente música
mas um pedaço da minha vida
cifrado no estrépito de uma voz
que desce em ângulos
de ironia e esperança
alegria e indiferença

e rebate na luz dos olhos baixos
acendendo-se apagando-se

trouxe-me aqui uma memória
que insistiria em atravessar um continente
por poucas horas, uma garrafa de vinho
a vitalidade de uma certa
quantidade de conversa fiada
numa sucessão de acontecimentos
que não conjuram exactamente uma ordem
embora tu ao contrário de mim
acredites que há no universo uma ordem
eu regressei mesmo pela extrema necessidade
de um pouco de caos

é preciso queimar este tempo
antes de entrarmos de novo na realidade
diz cinco minutos cinco horas

ou talvez a mais adequada forma fossem
as coisas mais imediatas mais fáceis
a espessura de um licor escuro e amargo
num copo minúsculo e raso
ou de uma chávena cheia de café
de manhã, no estômago vazio
os meus ouvidos atentíssimos
plantados entre os leões
assaltados pelo tilintar de colheres em chávenas
facas e garfos contra os pratos
famílias inteiras rindo
e enchendo as mesas para jantar
enquanto sobre mim se abate
a absurda ideia de que nem sequer
ouvi os teus passos afastarem-se
que devemos ser agora um pouco
menos misteriosos mas mais reais
em algum ponto da cidade
os sinos da catedral maceram o ar
e aquele martelo que ouvi
trabalhar ao longe
os golpes desferidos a intervalos regulares
sobre a pedra
foi-se silenciando
mas vai daqui a algumas horas ou dias ou meses
acertar-me em cheio no centro do torso
esmagar-me o peito no mais absurdo
tropeço de ternura

todo o vidro desta atmosfera é febril
tilinta nas conversas
que se vão distanciando
mas não há mais nenhum rosto
para além do teu
e não há já ninguém
não resta quase resíduo nenhum
de tudo o que existe e é real
a estas horas toda a cidade está vazia

daqui tu observas já
os pontos da cronologia
a que se hão-de agarrar
as garras e os ganchos desta madrugada
a fixação destes instantes
na história da vida de alguém

não sei como é que
à medida que o tempo acelera
à minha frente só a promessa
do incêndio da manhã
ainda a algumas horas de distância
é evidente

o girar cada vez mais rápido
de cada vez mais e mais cor
colando-se a cada minuto
de um carro que acelera a toda velocidade
para romper a primeira barreira da escuridão
quando ainda não percebo ao certo
se é noite ou manhã
e finalmente a abertura definitiva
um archote deflagrando entre dois instantes
precipitando-se da mão
de um anjo muito com os copos
e muito em desequilíbrio
que contra a harmonia do mais celeste dos coros
encena por apoteose
a tarefa de se atirar do alto da primeira arcada do céu
trazendo com ele fiapos de penas, confusão e desarmonia
como uma teimosa diva no último acto de uma ópera
de olhos fechados, de braços cruzados sobre o peito
para um tráfego de rolls royces lá em baixo

mas é ainda mais cómica a evidência
agora indisputada:
através do nevoeiro
despenhando-se contra os faróis:
a noite transformada em manhã


Roma, 19 de Dezembro de 2017
Leopardo e Abstracção, Fresca, 2020
684
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Crepúsculo Em New York

Com um gesto fulgurante o Arcanjo Gabriel
Abre de par em par o pórtico do poente
Sobre New York. A gigantesca espada de ouro
A faiscar simetria, ei-lo que monta guarda
A Heavens, Incorporations. Do crepúsculo
Baixam serenamente as pontes levadiças
De U.S.A. Sun até a ilha da Manhattan.
Agora é tudo anúncio, irradiação, promessa
Da Divina Presença. No imo da matéria
Os átomos aquietam-se e cria-se o vazio
Em cada coração de bicho, coisa e gente.

E o silêncio se deixa assim, profundamente...

Mas súbito sobe do abismo um som crestado
De saxofone, e logo a atroz polifonia
De cordas e metais, síncopas, arreganhos
De jazz negro, vindos de Fifty Second Street.
New York acorda para a noite. Oito milhões
De solitários se dissolvem pelas ruas
Sem manhã. New York entrega-se.
Do páramo Balizas celestiais põem-se a brotar, vibrantes
À frente da parada, enquanto anjos em nylon
As asas de alumínio, as coxas palpitantes
Fluem langues da Grande Porta diamantina.

Cai o câmbio da tarde. O Sublime Arquiteto
Satisfeito, do céu admira sua obra.
A maquete genial reflete em cada vidro
O olho meigo de Deus a dardejar ternuras.
Como é bela New York!
Aço e concreto armado
A erguer sempre mais alto eternas estruturas!
Deus sorri complacente. New York é muito bela!
Apesar do East Side, e da mancha amarela
De China Town, e da mancha escura do Harlem
New York é muito bela! As primeiras estrelas Afinam na amplidão
cantilenas singelas...
Mas Deus, que mudou muito, desde que enriqueceu
Liga a chave que acende a Broadway e apaga o céu
Pois às constelações que no espaço esparziu
Prefere hoje os ersätze sobre La Guardia Field.

1 055
José Paulo Paes

José Paulo Paes

O POETA, AO ESPELHO, BARBEANDO-SE

o rito
do dia
o ríctus
do dia
o risco
do dia
EU?
UE?
587
José Paulo Paes

José Paulo Paes

À MODA DA CASA

feijoada
marmelada
goleada
quartelada
688
Aleilton Fonseca

Aleilton Fonseca

nova meditação sobre o tietê

"Águas do Tietê,
onde me queres levar?
- Rio que entras pela terra
e que me afastas do mar..."
(Mário de Andrade)

águas do tietê,
no jorro de tuas nascentes:
melhor ficassem paradas
em teus reflexos afluentes

tietê: índias águas verdadeiras
quando te chamavas anhembi
e tuas sinuosas ribeiras
guiavam um povo guarani

aquieta-te como lago,
esta pressa para que,
se adiante a luz de espelho
logo tu vais perder?

te insinuas por quilômetros
em teu leito decidido,
insisto no meu reclamo
mas descrês do meu aviso

segues murmurando marchas
incertas em certo destino
e mal sabes o destrato
dos esgotos mais íntimos

por teus caminhos indiretos
viajaram bandeirantes heris,
e agora bandeiam os dejetos
dos seus netos fabris

tuas águas conduziram à glória
os vencedores das regatas
nas linhas d’água da memória
da cidade que não te resgata

águas do tietê,
onde me queres levar?
- teu traçado e teu destino
não se casam com o mar...

exala antes que tarde
o aroma que será deposto!
em tua cor se resguarde
o teu sabor sem desgosto!

pois já te vão injetando
mais volume e vida a menos:
e nas tuas líquidas veias
os insanos vícios dos venenos

em tuas artérias aguascentes,
no percurso transformadas,
corre agora o pus demente:
e mal deságuas putrefatas

eis que te tornas plumas,
brancas formas cristalinas:
belo engano para os olhos,
e o odor corrói as narinas

há remédio mais perfeito
do que apenas uma lágrima,
se todos chorassem em teu leito,
lavando tuas águas da mácula

mas ninguém me escuta, corres
sem garças, só antíteses,
desde o lugar onde morres
até o pasto de lamas líquidas

águas do tietê,
onde me queres levar?
- eis as pontes e tudo é noite,
e muito longe dorme o mar...

te olho e não me vês, assim
em vão, corpo cego de águas:
em verso te afogo em mim,
em ti me afogo em mágoas...

aleilton fonseca, sp, 95

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Vasco Graça Moura

Vasco Graça Moura

Praias

1
na praia lá do guincho as velas
de windsurf saltam sobre as ondas
e o meu olhar, equestre,
pula nos peitos das banhistas, enquanto
um cachorro tenta agarrar a cauda.

nos feriados tudo é insuportável
menos o sol e o mar
apesar das famílias.
e sustendo as gaivotas na mais alta
imaginação, porque hoje não vi nenhuma,

o vento traz de tudo
e antónio nobre e lorca às pandas roupas
que modelam os corpos em míticas figuras
com o seu drapejado esvoaçante,
entre dunas e lixo e vendedores de gelados.

restaria o campo, mas
«no campo não há bicas nem paperbacks»
diz uma amiga minha e tem razão.
que seria de nós, bucólicos, sem esses indicadores da alma? dou

lume a uma italiana e enquanto
ela agradece ocorre-me que despi-la já não é
cosa mentale; faz-me lembrar o algarve, mas no verão
o algarve é a continuação
da política por outros meios. antes
a nortada, os surfistas,
na crista da onda, a areia que entra no poema,
e o regresso mais cedo, quando já não se
aguenta.

2
agora que passaste muito queimada do sol
o vento vem pela estrada até à duna
com uma folha de jornal desdobrada
aos baldões e as vozes dos piqueniques.

tu desceste da moto e foste
comprar um gelado, afastando impaciente
algumas crianças. era a impostura
para a sede, avivada pelos guarda-sóis

de cor berrante. nas rochas havia
alguns pares esfregando-se
mais ou menos à vista. penduraste
os óculos de sol no decote da blusa

e o gelado avançou para os teus dentes muito brancos.
tudo isto dava uma fotografia
com o teu peito em grande plano
e a cena reflectida nos óculos escuros.
2 455