Poemas neste tema

Cidade e Cotidiano

Marcelo Penido Silva

Marcelo Penido Silva

A fonte luminosa

A fonte luminosa da praça
não brilha mais.
Suas luzes secas esgotaram-se
na noite de anos atrás;
suas águas tão lúcidas
apagaram-se ruivas
no rosto verde
azul dos casais.

E o poço de outrora
agora repousa
apenas auroras
e um canto roxo e repleto
do luar vazio
da lua nova.

E a última gota
os casais perguntam
- seria rosa? -
A última boca,
suspensa num beijo :
nossa.

852
Pablo Neruda

Pablo Neruda

I. Conversação Marítima

Encontrei Rubén Darío nas ruas de Valparaíso,
esmirrado aduaneiro, singular rouxinol que nascia:
era ele uma sombra nas gretas do porto, na fumaça marinha,
um delgado estudante de inverno desprendido do fogo de seu natalício.

Sob o amplo gabão tiritava seu longo esqueleto
e leva bolsos repletos de espelhos e cisnes:
até havia chegado a jogar com a fome nas águas do Chile,
e em abandonadas adegas ou invencíveis depósitos de mercadorias,
através de armazéns imensos que só custodiam o frio
o pobre poeta passeava com sua Nicarágua fragrante, como se levasse no peito
um limão de mamilos azuis ou a lembrança em redoma amarela.
Companheiro, disse-lhe, a nave volveu ao fragoroso estupor do oceano,
e tu, desterrado de mãos de ouro, contemplas este amargo edifício:
aqui começou o universo do vento
e chegam do Polo os grandes navios carregados de névoa mortuária.
Não deixes que o frio atormente teus cisnes, nem rompa teu espelho sagrado,
a chuva de junho ameaça teu suave chapéu,
a noite de antárticos olhos navega cobrindo a costa com seu matrimônio de espinhos,
e tu, que propicias a rosa que enlaça o aroma e a neve,
e tu, que originas em teu coração de açafrão a borbulha e o canto claríssimo,
reclama um caminho que corta o granito das cordilheiras
ou some nas vestimentas da fumaça e da chuva de Valparaíso.

Afugenta as névoas do Sul de tua América amarga
e ainda que Balmaceda sustenha suas luvas de prata em tuas mãos,
escapa montando na rajada de tua serpentina quimera!
E corre a cantar com teu rio de mármore a ilustre sonata
que se desenvolve em teu peito desde tua Nicarágua natal!

Arisca era a fumaça dos arsenais, e cheirava o inverno
a desenfreadas violetas que se descoloriam manchando o murcho crepúsculo:
tinha o inverno o cheiro de uma alfombra molhada por anos de chuva
e quando o apito de um rouco navio cruzou como um condor cansando o recinto dos molhes,
senti que meu pai poeta tremia, e um imperceptível lamento
ou melhor vibração de sino que no alto prepara o tangido
ou talvez comoção mineral da música envolta na sombra,
algo vi ou escutei porque o homem olhou-me sem
olhar-me nem ouvir-me.

E senti que subiu até sua torre o relâmpago de um calafrio.

Creio que ali constelado ficou, atravessado por raios de luz inaudita
e era tanto o fulgor que levava debaixo de sua vestimenta puída
que com suas duas mãos escuras tentava cobrir sua linhagem.
E não vi silêncio no mundo como o daquele homem adormecido,
adormecido e andando e cantando sem voz pelas ruas de Valparaíso.
908
Frederico de Brito

Frederico de Brito

Canoa do Tejo

Canoa de vela erguida
Que vens do Cais da Ribeira,
Gaivota que anda perdida
Sem encontrar companheira,
O Vento sopra nas Fragas,
O Sol parece um morango
E o Tejo baila com as vagas
A ensaiar um fandango

Estribilho:
Canoa, conheces bem,
Quando há Norte pela proa,
Quantas docas tem Lisboa
E as muralhas que ela tem!
Canoa, por onde vais,
Se algum barco te abalroa,
Nunca mais voltas ao Cais!
Nunca, nunca, nunca mais!!

Canoa de vela panda
Que vens da Boca da Barra
E trazes na aragem branda
Gemidos duma guitarra,
Teu arrais prendeu a vela;
E se adormeceu, deixá-lo!
Agora muita cautelaa
Não vá o Mar acordá-lo!

1 835
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Manhã - XXXI

Com loureiros do Sul e orégão de Lota
cinjo-te a coroa, pequena monarca de meus ossos,
e não pode faltar-te essa coroa
que elabora a terra com bálsamo e folhagem.


És, como o que te ama, das províncias verdes:
de lá trouxemos barro que nos corre no sangue,
na cidade andamos, como tantos, perdidos,
temerosos de que fechem o mercado.


Bem-amada, tua sombra tem olor de ameixa,
teus olhos esconderam no Sul suas raízes,
teu coração é uma pomba de alcanzia,


teu corpo é liso como as pedras na água,
teus beijos são cachos com orvalho,
e eu a teu lado vivo com a terra.
1 206
Pablo Neruda

Pablo Neruda

IV - Os Homens

Somos torpes os transeuntes, nos atropelamos de cotovelos,
de pés, de calças, de maletas,
descemos do trem, do jato, do navio, descemos
com roupas amassadas e chapéus funestos.
Somos culpáveis, somos pecadores,
chegamos de hotéis estagnados ou da paz industrial,
esta é talvez a última camisa limpa,
perdemos a gravata,
mas ainda assim, deslocados, solenes,
filhos da puta considerados nos melhores ambientes,
ou simples taciturnos que não devemos nada a ninguém,
somos os mesmos e o mesmo diante do tempo,
diante da solidão: os pobres homens
que ganharam a vida e a morte trabalhando
de maneira normal ou burotrágica,
sentados ou amontoados nas estações do metrô,
nos barcos, nas minas, nos centros de estudo, nos cárceres,
nas universidades, nas fábricas de cerveja
(debaixo da roupa a mesma pele sedenta
e o cabelo, o mesmo cabelo, repartido em cores).
1 167
Walkiria Lopes Cruz

Walkiria Lopes Cruz

Conversa Vai, Conversa Vem

Sem saber o que me esperava
eu liguei aquela TV que se digita
e pode falar numa tal Internet.
O computador!

Fui entrando numa sala
com uma tal faixa etária
e logo fui questionada:
— Quer conversar comigo?

Como estava sozinha, aceitei.
Conversa vai, conversa vem
justamente nele me gamei.

Nunca esperava conversar com aquele carioca de novo.
Mas numa segunda-feira o aparelho toca.
Era ele! Que loucura!
Conversa vai, conversa vem
ele me pede em namoro!

No mês do Carnaval ele vem me visitar
Vou esquecer tudo em volta
e deixar meu mundo rolar.
Com tudo isso
acredito muito mais em destino!!!

855
Myriam Fraga

Myriam Fraga

A Cidade

Foi plantada no mar
E entre corais se levanta.
O salitre é seu ar,
Sua coroa, sua trança
de salsugem,
Seu vestido de ametista,
Seu manto de sal
E musgo.

Armada em firme silêncio
Dependura-se dos montes
E tão precário equilíbrio
Se propõe
Que além da porta ou portada,
De janela ou de horizonte,
O que a sustenta é o mistério,
Triste chão, sombra vazia,
Tempo escorrendo das pedras,
Lacerado nas esquinas,
Tempo — sudário e guia.

Mas que fera (ou animal)
Esta cidade antiga
Com sua densa pupila
Espreitando entre torres,
Seu hálito de concha
A babujar segredos,
Deitada entre os meus pés,
Minha cadela e amiga.

Repete esta dureza
Este arfar entre dentes,
Seu pulmão de basalto
Onde a morte respira.
E nas sombras da tarde
Em sangue no poente,
Abre os olhos sem pálpebras
E dança. Em maresia
E estrelas afogada.

E nesta coreografia,
Sopro de antigas paisagens
Um calendário se arrasta,
Nas corroídas legendas
Apodrecidas fachadas
A mastigar as divisas
E outros símbolos manchados,
Nos brasões onde goteja
O limo do esquecimento.

Não fosse a imaginada
Profecia, face e apelo
Das inscrições lapidares
Palimpsesto ou astrolábio
Na pedra, na cal, nos muros,
Fendida casca de um mundo
Coagulado em memórias.

Restavam ossos e nomes,
Desassistida batalha
Contra o tempo. E esta cidade,
Com seu signo, seu quadrante
De cristal,
Sua mensagem de calcário,
Desfeita em vaga o soluço,
Mergulharia no espaço
Pássaro alado, albergália.

1 182
Carlos Nogueira Fino

Carlos Nogueira Fino

indicação do lugar

chegamos a uma página em branco atravessada por
um súbito silêncio uníssono
o rio é uma dobra do olhar onde sempre estivemos em surdina

é o exacto lugar
indiciador dos músculos

quem ousa escancarar as portas à cidade

976
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Lá fora a vida estua e tem dinheiro.

Lá fora a vida estua e tem dinheiro.
Eu, aqui, nulo e afastado, fico
O perpétuo estrangeiro
Que nem de sonhar já sou rico.

Não sou ninguém, o meu trabalho é nada
Neste enorme rolar da vida cheia,
Vivo uma vida que nem é regrada
Nem é destrambelhada e alheia.

E um século depois terá esquecido
Tudo quanto estuou e foi ruído
Nesta hora em que vivo. E os bisnetos

Dos opressores de hoje, desta louca luta
Saberão, mas vagamente, a data
– E claramente os meus sonetos.


02/09/1922
3 761
Myriam Fraga

Myriam Fraga

Calendário

Janeiro

Verão

E esta cidade como um sáurio,
Como um réptil,
Emergindo das águas

Verão...

E esta cidade
Como um pássaro
Renascendo das brasas

Verão...

E esta cidade como um signo,
Astrolábio ou mandala,

Esta cidade
Como um dado
Atirado ao acaso

De males nunca dantes
Confessados.

1 210
Myriam Fraga

Myriam Fraga

Sete Poemas

I
Não me deixes ficar,
Não me abandones
Neste ninho de abutres,
Neste burgo
Que espreita o mar
De cima de seus montes
Como fera que espreita,
Ave de rapina,
Atenta aos inimigos
Que surgem no horizonte.

Não me deixes ficar,
Não espedaces
O que ainda resta de mim,
Não abandones
A quem te deu o corpo
E o pensamento
E a quem pisaste um dia
Como pisa o dono
O chão de seus alquebres.

Não me esqueças aqui.
Arrasta com teu fado
Este bicho inocente
Que fareja teu rastro,
Esta pobre coisa triste
Que existe porque existes.

Ai, não me deixes não.
Apaga nos espelhos
A imagem que criaste,
O sono e o pesadelo.

Horas de sofrimento,
Instantes de alegria,

O açoite da chibata
E o bálsamo dos dedos,
O caminho para as Índias
E o rastro para o abismo

A curva de meu seio
Em tua mão tremendo,
Minha boca em tua boca
As sílabas repetindo
Deste amor que me trouxe
Como dote e destino,
Horas de sofrimento,
Instantes de alegria.

II
... às vezes o teu amor
É como o mel que embriaga
Mas às vezes como açoite,
Me corta o corpo em pedaços

E então me olhas com raiva,
Me humilhas, me maltratas
E tua língua tem o frio
Fino corte das navalhas.

Tuas palavras são farpas,
Punhal que fere e que mata.
Me desprezas como coisa
Que se usa e se despreza,
Como uma negra fugida
Que o feitor persegue e caça.

Triste amor que me separa
De minha terra e de tudo,
Amor que engole os minutos
Como cobra engole o rabo,
Amor que aponta o caminho
Mas não dá o itinerário,
Amor que arma suas velas
Mas depois afunda o barco,

Amor que arde em meu corpo
Como círio nos altares,
Como lâmpada na parede,
Lanternas que o vento apaga.

III
Maria de Póvoas,
Maria dos Povos,
Maria, alma ardente
E as mãos tão vazias...

Que vida enganosa
A tua, Maria,
Tecendo as esperas,
Somando as partilhas,
O sexo em chamas
E a fala macia.

Maria ... a cinza na testa,
A oração na madrugada,
Maria, um lobo na espreita,
Um verso como cilada,
O amor é como veneno,
Como sombra na calçada,

Assombração que faz medo,
Maria, é só um poeta
Caminhando pela estrada
E a noite esconde o segredo
De tua pele alvoroçada,
De tua língua, de seus dedos

Somente um poeta
E a chama
Que te confunde e reclama

O ontem já tão distante...
Tantos dias, longos anos,
Maria, tanto abandono,
Somente o vento nas folhas
E no peito... desenganos.

IV
Eu sou o avesso do mundo,
Eu sou a terra
Que pisaste, cuspiste, que esmagaste,
A poder de ferraduras
E de açoite.

Eu sou a terra
A quem amaste tanto
Que caíste a sangrar
Em suas pedras
E onde rolaste, porco,
A charfurdar na lama.

Eu sou a flor escura
De teu sexo
Buscando outras canalhas,
Outros usos,
Por desejares demais
E além da conta...

Não pode o amor humano
Ser medido
Senão na intemperança,
Na luxúria?

Neste bornal de pústulas
Tamanhas
Que criaste a teu gozo
E meu martírio?

Ó amor feito de nada
O que desejo
É apenas o côncavo do escuro,

Apenas
Habitar os teus olhos como pássaro
Que habita nestas torres,
Nestes altos
Campanários que soam pela tarde

Quando a tarde é como um pano
Que desatas
Ao vento deste mar,

Apenas uma vela
Neste oceano sem fim onde navegas,
Ó navegante bêbado!

Sem norte, sem destino, sem chegada...

V
Esta cidade tão suja
E tão deserta,
Esta cidade que ladra
À minha porta
Como um cachorro faminto
E que desperta
A lembrança de coisas
Tão remotas...

Esta Cidade-abismo
Que devora
O amor, a esperança, a mocidade...
E converte a beleza que cantaste
Em cinza fria, em pó,
Em sombra, em nada.
Esta cidade que arde
Como um câncer,
Como um cautério na carne
E que arrebata
A nós todo futuro
E a mim divide a vida
Em dois pedaços.

Esta Cidade, meu amor,
E como um claustro
Onde te ausentas de ti,
Do teu cansaço
De inventar equilíbrio
Ao desacerto.

Esta Cidade é como
Um corpo aceso,
Ofegante de mágoa e de desejo
Colado à tua boca que blasfema
De amor, de impiedade
E que arrebenta
Os diques do silêncio
Nestas tardes
Em que galopam soltos pelas veias
Meu sangue, meus desejos, meus alarmes,

Aves reinventando minhas mágoas.

VI
Como posso, Poeta,
Decifrar-te
Se és sempre a incerteza,
A dissonante
Face dupla do amor,
Sombria e clara?

E como maldizer
O sofrimento
Se ao martírio de amar
Me fiz constante,
Companheira da dor,
Irmã do engano?

Como posso, meu Poeta,
Nesta hora,
Desvendar em silêncio
Teus segredos

Inventando entrelinhas
Na escritura
Vacilante e indecisa
De teus dedos?

Como posso falar
Do desespero
Se a força do desejo
Em tua boca
É um delírio de pragas
E de beijos,

Se a angústia de perder
O que me mata
Faz-me a vida odiar
Mais do que a morte,

Pois que ao perder-te
Perco mais que a vida,
Perco o sonho, a memória,
A fantasia...

E este gosto de viver
Como quem morre.

VII
Caminhos, encruzilhadas,
Becos, vielas, quebradas,
Ladeiras que se despencam,
Caminhos que se bifurcam,
Beijo salobro das praias,
Beijo doce das nascentes,
Brejos, diques, atalaias...

Uma cidade é como gente
Que se alisa e maltrata,
Como uma fêmea deitada
Que o amante navega e sente...

Assim se fez de meu sangue
Esta cidade encantada,
Este burgo, esta alimária
Como uma fera empinada,
Esfinge que espia o Outro
Surgindo da encruzilhada...
Me devoras, te devoro,
No fim não restará nada.

Só a sombra na parede,
Somente o nó da laçada,
Ou melhor:
Resta o que resta,
A tua boca de brasa,
O sinal desta passagem
Como uma gesta tatuada.

Como um vendaval de açoite,
Vento sul de madrugada.

Resta a poesia nascendo
De tua língua danada,
Resta o poema crescendo
Como flor e como espada,

Resta o que resta, restolho,
Que de mim não restou nada
Além do verso e da mágoa.

2 257
Menezes y Morais

Menezes y Morais

Memórias (Caminhos de Estrelas)

Vênus incendiava teus cabelos naquela noite
em q caminhávamos refletidos nas águas
margens assassinadas do rio poti
e no mangal
eu viajei na constelação dos teus olhos
e te dizia
a vida vai além daquilo q a gente imagina
e a liberdade pode estar ali
na próxima esquina
e sobre os trilhos noturnos
convergendo olhares favelados
com a tua mão esquerda dentro da minha direita
sentimos o fogo estrelar daquela noite azul
no céu de teresina
e o vento soprou leve
sussurrando em tua boca
entre o rio e a cidade existe um caminho
onde o tempo cicatriza toda dor

853
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Vi - Os Homens

Eu sou Ramón Gonzáles Barbagelata, de qualquer parte,
de Cucuy, de Paraná, de Rio Turbio, de Oruro,
de Maracaibo, de Parrai, de Ovalle, de Loncomilla,
tanto faz, sou o pobre diabo do pobre Terceiro Mundo,
o passageiro de terceira instalado, Jesus!,
na luxuosa brancura das cordilheiras nevadas,
dissimulado entre as orquídeas de fina idiossincrasia.


Cheguei a este famoso ano 2000, e que ganho,
o que me adianta, o que tenho a ver
com os três zeros que se ostentam gloriosos
sobre meu próprio zero, sobre minha inexistência?
Ai daquele coração que esperou sua bandeira
ou do homem enredado pelo amor mais terno,
hoje não resta nada além do meu vago esqueleto,
meus olhos arruinados diante do tempo inicial.


Tempo inicial: são estes barracões perdidos,
estas pobres escolas, estes ainda farrapos,
esta insegurança terrosa de minhas pobres famílias,
este é o dia, o século inicial, a porta de ouro?


Eu, pelo menos, sem falar de mais, quieto,
como fui na fábrica, remendado e absorto,
proclamo o supérfluo da inauguração:
aqui cheguei com tudo que andou comigo,
a má sorte e os piores empregos,
a miséria esperando sempre de par em par,
a mobilização da gente amontoada
e a geografia numerosa da fome.
1 008
Marigê Quirino Marchini

Marigê Quirino Marchini

República Celeste da Poesia

Aquática e translúcida Veneza,
arquétipo insulano, passional,
do Adriático a núbil Dogaresa,
lunissolar pintura do irreal,

em ti me construindo astral poema
de celestial cidade em tua finura,
por ele te habitar, Amor me emblema
com centelhas de íntima ternura,

põe em Veneza e em mim a geometria
de uns altos picos, recendendo a lume,
loura noite que náutica alumia,

por águas de salinas violetas
fosforece dos sonhos o cardume,
fixa a cidade, giram-me os planetas.

- III -

Água e eu, este dom, dádiva inteira
como Veneza, tu, Domus antiga,
se rodeamos, sonho, a cumeeira
silvestre nos perfuma a lua cheia.

O luar de Vivaldi, mensageiro,
atravessando o céu em suas estrelas
e o seu caminho é o mesmo que o de Amor,
angelical paixão é a lua cheia.

O luar de Vivaldi e cancioneiros
damore é demorado o seu perfume,
silvestre é o deslizar dos gondoleiros,

silvestre a doação, que faço inteira,
como Laguna e Golfo e doce lume,
à angelical paixão da lua cheia.

- VI -

Em arquipélago, amoráveis ilhas,
raia Veneza em água, alacridade,
cortam seus pulsos, lendas, maravilhas
de um latejar de sol e mocidade.

De palavras celeste viração
agita lentamente os seus canais,
e tudo flui em ondas e canção,
perpassa em flauta o vento seus murais.

Enquanto um celestial texto eu vou lendo,
reflexos nágua e lírica poesia,
já vai Amor em brasa me escrevendo

e mais já fere Amor em seus enganos,
com sua perfídia, fogo e maresia,
do que a gentil cidade em desenganos.

934
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Tudo Certo, Camus

encontrei esse cara em algum lugar, inferno, seus olhos pareciam aqueles
de um louco
ou talvez fosse apenas meu reflexo neles.
bem, de qualquer modo, ele me disse, você leu Camus?
estamos ambos no bar sem mulheres procurando
um pedaço de rabo ou alguma saída através do teto do céu e
não estava funcionando - só havia o balconista do bar perguntando-se
por que
havia se metido nesse negócio
e eu, muito desanimado com o fato de até agora só ter sido traduzido
em 6 ou 7 línguas.
o cara continuava a falar -
O estrangeiro, você sabe, o livro que retrata nossa sociedade moderna -
sobre o homem amortecido que não
conseguia chorar no funeral da mãe dele, que
matou um árabe ou dois sem nem mesmo saber por quê -
ele prosseguia e prosseguia
e prosseguia e prosseguia
contando-me que filho de uma puta era O estrangeiro,
e fiquei pensando que talvez ele tivesse razão -
você sabe, esses discursos horrorosos diante da Academia Francesa -
você não saberia dizer se Camus estava falando pelo
canto da sua boca ou
se ele estava
sério. ele certamente não soava melhor que
o sujeito a meu lado no bar
e nós estávamos apenas procurando
xota.
foi muito triste -
o tempo todo O estrangeiro havia sido meu herói
porque eu achava que ele enxergara para além da tentativa
ou do cuidado
porque tudo era uma tamanha chatice
tão sem sentido -
a vida em um grande buraco no chão olhando para cima -
e eu estava errado mais uma vez:
inferno, eu era O estrangeiro e o livro simplesmente não havia saído
do jeito que
deveria.
1 062
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Cachorro Morto

Bartkowski completou um arremesso a gol de 58 jardas
para derrotar o Packers no último minuto.
eu ouço pelo rádio
é domingo e estou a caminho das pistas de corrida
devo chegar para o terceiro páreo.
o Falcons segura a vitória e isso é bom.
desligo o rádio.
depois, quando a Harbor Freeway se ramifica
na Pasadena
vejo um cachorro na rampa
é dos grandes e é manco
mas ainda respira
sua cabeça está esmagada.
pessoas que levam cachorros em seus carros
e os deixam dependurados para fora da janela
quando esses cachorros caem na rodovia
muitas vezes elas apenas continuam a dirigir.
eu sei entrar no túnel.
você pega a pista mais à direita quando
as outras pistas desviam à esquerda.
eu sigo e cruzo.
quando saio do túnel
deslizo de volta para a via expressa.
esses filhos da puta e seus cachorros
mortos.
chego ao hipódromo à 1:20 da tarde.
vou ao estacionamento preferencial
acho uma vaga no F-5
tranco
e enquanto caminho entre os carros
vejo dois homens que
arrombaram um carro.
eles tiraram o rádio,
o estéreo e os alto-falantes.
eles me veem e eu os vejo.
"não diga nada, cara!
se você fizer isso, lembre-se de que nós o veremos
de novo algum outro dia!"
entro no hipódromo
são quatro minutos para apostar
no terceiro páreo que vem aí
a multidão apostou em Shameen
com Delahousseye montando
dando de 4 para 2 a 1.
Song for Two dá uma linha de 2
es.
avalio os cavalos
e aposto 10 em Song for Two na ponta.
Song for Two ganha no fotochart
o Shoe ainda sabe montar
e estou $31 à frente.
esses filhos da puta e seus cachorros
mortos.
perco o 4o, 50 e 60 páreos.
no 70 eles jogam Back"n Time para baixo
de 3 para 5 em uma tabela de 99
nos cinco quartos de milha em Del Mar
mas o potro tem 3 anos
competindo com cavalos mais velhos
e nunca correu a milha.
posso vê-lo entrando na reta
com uma liderança de 4 corpos e sendo batido
na chegada
por outro.
mas quem vai batê-lo?
ainda há 6 outros cavalos.
eu ponho $50 em Back"n Time na ponta
e assisto à corrida.
o potro tem quatro corpos de vantagem ao entrar
na reta
então Don F.
o menos provável no páreo
começa a chegar perto
e é cabeça a cabeça na chegada.
eles vão ver a foto
nós esperamos
então eles põem Don. F.
com 19 para 1.
eu pego $2.80 pelo placê
assim faço $20
perco o 80
aí fico apenas com $18.
no Jo
aposto 10 na ponta em Fleet Ruler
e 2 na ponta em Forecast
então deixo o hipódromo
fico no estacionamento
escutando o locutor
que está berrando
Forecast está na frente
e aí vem Fleet Ruler
é Fleet Ruler e Forecast
chegando juntos.
é evidentemente no fotochart.
vou até meu carro para sair
antes da multidão.
eu estou com o rádio
na estação dos resultados das corridas.
ainda estou na Pasadena Freeway
quando ouço o resultado:
é Forecast
e Forecast pagou $90.70
assim
o dia não foi de todo desperdiçado.
porém mais tarde
quando entro na via de acesso
lá está aquele gato de Manx
com sua cauda rudimentar e
com sua língua dependurada para fora.
ele se recusa a dar passagem para o carro.
eu desço.
pego-o e
o jogo no banco da frente.
entramos na garagem
juntos.
saímos do carro
e os outros dois gatos estão à espera
(amantes de cabeças de peixes, sonhadores com
pássaros)
abro a porta
e todos os gatos entram junto
comigo.
eles correm para a cozinha
eu noto que Dallas e San Diego estão jogando
agora. Danny White é zagueiro no
Dallas.
eu sempre gostei de Danny White,
esse é um jogador.
eu poderia assistir a algumas rodadas.
domingo é um dia de descanso.
todas as coisas importantes deveriam ser esquecidas.
decido que sequer vou alimentar os gatos
por algum tempo.
e na terça ou quarta-feira vou começar a trabalhar
em meu romance sobre a infância
outra vez.
666
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Vii - Os Outros Homens

Em troca eu, pecador pescador,
ex-vanguardista já passado de moda,
daqueles anos mortos e remotos
hoje estou à entrada do milênio,
anarcopitalista furibundo,
disposto com as duas bochechas a morder
a maçã do mundo.
Idade mais florescente nem Florença
conheceu, mais florida que Florida,
mais Paraíso que Valparaíso.
Respiro a plenos pulmões
no jardim bancário deste século
que é por fim uma grande conta corrente
em que por sorte sou credor.
Graças à inversão e à subversão
faremos mais higiênica esta idade,
nenhuma guerra colonial terá esse nome
tão desacreditado e repetido,
a democracia pulverizadora
tomará a cargo o novo dicionário:
é belo este 2000 igual ao 1000:
os três zeros iguais nos resguardam
de toda insurreição desnecessária.
974
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Moro em Uma Vizinhança De Assassinatos

as baratas cospem clipes
enferrujados
e o helicóptero dá voltas e voltas
farejando sangue
holofotes esquadrinhando nossos
banheiros
procurando por nosso esconderijo com dupla tampa sob o
colchão
5 caras nesta quadra têm pistolas
um outro tem um
machete
nós somos todos assassinos e
alcoólatras
mas há piores no hotel
atravessando a rua;
eles ficam na entrada verde e branca
banais e depravados
esperando serem
presos.
aqui cada um de nós tem uma planta que está murchando
em nossa entrada
e quando brigamos com nossas mulheres às 3 da madrugada
fazemos isso
em tons de sussurro
enquanto fora em cada varanda
fica um pequeno pires de ração
que sempre é comido pela manhã
supomos que
pelos
gatos.
986
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Dois Tipos de Inferno

frequentei o mesmo bar por 7 anos, das 6 da manhã
até as 2 da madrugada.
às vezes eu não me lembrava de haver voltado
para meu quarto.
era como se eu ficasse sentado naquela banqueta do bar
continuamente.
eu não tinha dinheiro mas de algum modo os drinques iam
chegando.
eu não era o palhaço do bar mas sim o
louco do bar.
mas com frequência um louco pode encontrar alguém ainda mais
louco para
lhe oferecer bebidas.
afortunadamente,
era um lugar
cheio de gente.
mas eu tinha um objetivo: eu estava esperando que
algo extraordinário
acontecesse.
mas enquanto os anos se passavam à deriva
nada acontecia a não ser que eu
provocasse.
um espelho de bar quebrado, uma luta com um gigante
de mais de dois metros, um flerte com uma lésbica,
a habilidade de dar nome aos bois e de
resolver discussões que eu não havia
começado etc.
um dia eu simplesmente me levantei e caí fora.
simples assim.
e quando comecei a beber sozinho achei minha própria companhia
mais que satisfatória.
então, como se os deuses estivessem chateados por minha paz de
espírito, as mulheres começaram a bater à minha porta.
os deuses estavam mandando mulheres para o
louco!
as mulheres chegavam uma por vez e quando uma ia embora
os deuses imediatamente - sem dar nenhuma folga - me mandavam
outra.
e cada uma delas parecia à primeira vista ser um milagre renovado, mas
então tudo
que à primeira vista parecia maravilhoso acabava
mal.
minha culpa, é claro, era o que elas habitualmente me
diziam
os deuses simplesmente não deixarão um homem beber sozinho; eles têm
ciúmes dos
prazeres simples; assim eles mandam que uma mulher vá
bater em sua porta.
lembro todos aqueles hotéis baratos; era como se todas as mulheres
fossem uma; a primeira batida delicada na madeira e então,
"oh, ouvi você tocando aquela música adorável em seu rádio. somos
vizinhos. moro aqui no 603 mas nunca o vi
no saguão antes!"
"entre?
e lá se foi sua reclusão.
você também se lembra da vez em que
subiu atrás do gigante de 2 metros e derrubou seu
chapéu de caubói, berrando,
"aposto que você é alto demais para chupar os
peitos da sua mãe!"
e alguém no bar dizendo, "ei, senhor, esqueça, ele é um caso
psiquiátrico, é um chato, ele não sabe o que está
dizendo!"
"sei EXATAMENTE o que eu estou dizendo e vou dizer de novo,
"aposto que você é alto demais...""
ele ganhou a briga mas você não morreu, não do modo como você
morreu por dentro depois
de os deuses arranjarem para que todas aquelas mulheres viessem bater à
sua porta.
a troca de socos foi mais justa: ele era lento, estúpido e estava até um
pouco
assustado e a batalha foi a seu favor por algum tempo
do mesmo modo como aconteceu no começo com aquelas mulheres que
os deuses
lhe mandaram.
a diferença sendo, eu resolvi, que ao menos tive uma chance com as
mulheres.
1 211
Charles Bukowski

Charles Bukowski

4 Quarteirões

levei minha filha de carro até o auditório da escola
onde sua mãe deveria encontrá-la
as 5 da tarde.
eu a deixei descer do carro
e ela enfiou a cabeça pela janela
e me beijou
como sempre fazia.
ela estava com 8 anos. eu com 52.
duas mulheres gordas ficaram nos observando.
eu acenei até logo para minha filha
e enquanto ela caminhava até a entrada
uma das mulheres gordas perguntou-lhe,
"espere um minuto, quem era esse homem?"
e ela respondeu, "esse é meu pai".
então uma das gordas correu na minha direção:
"espere um minuto, pode me dar uma carona, só 4
quarteirões?"
"meu carro é muito sujo", eu disse.
"não quero me intrometer", ela disse,
entrando.
"é só seguir pela rodovia. não é longe."
segui pela rodovia.
"Marina", ela disse, "é uma menina muito boa, nós
todas gostamos de Marina."
"sim", eu disse, "ela é uma garota muito quieta e
educada."
"sim," ela respondeu, "sim, ela é."
"costumo ser muito quieto e atencioso também",
eu disse.
"bem", ela respondeu, "acho que se você não se
elogiar, então ninguém vai fazer isso, hahaha!"
"está ventando muito hoje", eu disse.
"agora", ela disse, "vá dois quarteirões para o norte, então vire
à direita."
"tudo certo", eu disse, "vou fazer."
"espero", ela disse, "que não o esteja levando para muito longe
do seu caminho. espero não estar me
intrometendo.
"a senhora conheceu a mãe de Marina?", eu perguntei.
"ah, sim", ela disse, "é uma pessoa adorável, mesmo,
uma pessoa adorável."
"tem certeza de que mais ninguém vai?" eu perguntei.
"vai o quê?", ela perguntou.
"elogiar você se você não se elogiar a si mesmo", eu
respondi.
"bem", ela disse, "são mais 3 quarteirões,
então o senhor dobra à direita."
eu subi 3 quarteirões e dobrei à
direita.
"agora", ela disse, "está vendo esse caminhão com a porta
bem aberta?"
"estou vendo", eu disse.
"é só o senhor parar bem ao lado do caminhão e eu
desço do carro."
estacionei ali e ela desceu
do carro.
"com certeza quero lhe agradecer", ela disse,
"e espero não me haver
intrometido."
"eu a vejo por aí", eu disse.
"cuide-se bem."
eu segui em frente e entrei de novo à direita
em uma rua de mão única. o oceano estava
lá. não havia nenhum veleiro
à vista. vagamente eu pensei em
peixes voadores
e os dispensei como um mito.
fiz o balão
na primeira oportunidade
e segui de volta
para Los Angeles.
1 019
Marco Antônio Rosa

Marco Antônio Rosa

Fortaleza

Fortaleza, Fortaleza,
já quase quites então:
quantos turistas
fazem uma cidade,
com quantas ausências
se faz solidão?

881
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Os Anarquistas

certa vez passei a andar lá em casa
com uns sujeitos com longas barbas negras
que eram muito intensos.
muitas pessoas vêm me ver mas
costumo dispensá-las depois de um tempo.
nenhuma delas traz mulheres,
escondem suas mulheres.
tomo cerveja e ouço, mas não muito
atentamente.
mas esse bando em particular continuava sempre
voltando. para mim era principalmente cerveja e
papo. reparei que eles
costumavam chegar em caravana e tinham
alguma organização central, embora confusa.
eu continuava a dizer-lhes que estava me
lixando - tanto para a América quanto para
eles. eu apenas ficava sentado lá e a cada
manhã quando acordava eles haviam ido embora -
e isso era a melhor parte.
enfim, eles pararam de vir e uns
meses depois eu escrevi um conto
sobre seu bate-papo político - o qual,
é claro, arrasava seu idealismo.
o conto foi publicado em algum lugar e
coisa de um mês mais tarde
o líder entrou,
sentou-se e abriu um engradado de meia dúzia de cervejas:
"quero lhe dizer uma coisa, Chinaski,
nós lemos aquele conto. fizemos uma reunião
e votamos se deveríamos matar
você ou não. você foi poupado, 6 a 5".
eu ri então, isso faz alguns anos,
mas eu não rio mais. e embora
eu até mesmo pagasse a maior parte da cerveja e
embora até mesmo
alguns dos caras mijassem na
tampa da privada, eu agora agradeço por aquele
voto a mais.
1 063
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Livre?

tem uma empresa aérea
eles oferecem champanhe de graça
mas eu já estive lá
antes.
quando a comissária de bordo passou
eu disse, não.
estava quente e
aquilo saía direto da
garrafa.
a comissária ia e voltava
reabastecendo.
foi um voo tranquilo
mas então
começou:
corrida aos toaletes.
filas se formaram.
os saquinhos de vômito
surgiram.
eu fiquei lá
escutando os
grunhidos e os
vômitos.
quando chegamos ao aeroporto
alguns ainda
estavam indo
lá.
alguns vomitavam enquanto esperavam por sua
bagagem. outros vomitavam nas
escadas rolantes e no estacionamento.
alguns vomitavam em seus carros enquanto
dirigiam para casa. alguns continuaram vomitando em
casa.
quando cheguei em casa
liguei o noticiário da TV
abri uma cerveja gelada
e deixei a água do banho
correr.
619
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Porrada Importada

eles seguem trazendo lutadores para cá
do Brasile da Argentina
com escores como 11-2-1 ou
7-4-0
e todos eles têm 27 ou 28 anos
de idade
e eles os pôem para enfrentar
nossos rapazes
com escores como
22-0-0, idades de 21 ou
22.
os brasileiros e argentinos
lutam orgulhosamente
e dificilmente lhes faltam
colhões
mas eles têm compleição
baixa e são lentos
ainda usam técnicas de
boxe
que já eram
nos anos
20.
é mais que triste
e eu me pergunto o que
esses brasileiros e
argentinos pensam
depois de
sangrarem
e então
serem nocauteados?
é só
mais uma porra de um voo besta
de volta à América do Sul
para eles
enquanto cruzam com seus
compatriotas
voando para o Norte
sem chance
alguma.
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