Poemas neste tema
Cidade e Cotidiano
Cida Pedrosa
Milena
gosto quando milena fala
dos homens
que comeu durante a noite
é a única voz soante
nesta cantina de repartição
onde todos contam:
do filho drogado do preço do pão
do sapato carmim, exposto na vitrine
da rua sicrano de tal do bairro
de casa amarela
onde você pode comprar
e começar a pagar apenas em abril
sem a voz de milena
o café desce amargo
dos homens
que comeu durante a noite
é a única voz soante
nesta cantina de repartição
onde todos contam:
do filho drogado do preço do pão
do sapato carmim, exposto na vitrine
da rua sicrano de tal do bairro
de casa amarela
onde você pode comprar
e começar a pagar apenas em abril
sem a voz de milena
o café desce amargo
887
Al Berto
7 a noite chega-me
a noite chega-me irrequieta de cíclicos ventos, cintilam peixes pelas
paredes do quarto
durmo sobre as águas e tenho medo
encolho-me no leito estreito, no fundo dele, onde o linho já não fulgura
queda a queda, voo
não consigo dormir com esta ferida
as máquinas sussurram, trepam pelas paredes, escancaram portas, invadem a casa, ocupam os sonhos
sirenes, alarmes lancinantes, cremalheiras da noite ressoando no limite do corpo
levanto-me e saio para a rua
caminho na chuva adocicada da manhã, as pedras acendem-se por dentro, reconhecem-me
uma voz líquida arrasta-se no interior dos meus passos, ecoa pelos recantos ainda vivos do teu corpo
em ti acostam os barcos e a sombra dos grandes navios do mundo
vive o peixe, agitam-se algas e medusas de mil desejos
em ti descansam os pássaros chegados doutras rotas
secam as redes, põe-se o sol
em ti se abandona a ressaca das ondas e o sal dos meus olhos
as árvores inclinadas, os frutos e as dunas
em ti pernoita a seiva cansada de palavras, o suco das ervas e o açúcar transparente das camarinhas
em ti cresce o precioso silêncio, as ostras doentes e as pérolas dos mares sem rumo
em ti se perdem os ventos, a solidão do mar e este demorado lamento.
paredes do quarto
durmo sobre as águas e tenho medo
encolho-me no leito estreito, no fundo dele, onde o linho já não fulgura
queda a queda, voo
não consigo dormir com esta ferida
as máquinas sussurram, trepam pelas paredes, escancaram portas, invadem a casa, ocupam os sonhos
sirenes, alarmes lancinantes, cremalheiras da noite ressoando no limite do corpo
levanto-me e saio para a rua
caminho na chuva adocicada da manhã, as pedras acendem-se por dentro, reconhecem-me
uma voz líquida arrasta-se no interior dos meus passos, ecoa pelos recantos ainda vivos do teu corpo
em ti acostam os barcos e a sombra dos grandes navios do mundo
vive o peixe, agitam-se algas e medusas de mil desejos
em ti descansam os pássaros chegados doutras rotas
secam as redes, põe-se o sol
em ti se abandona a ressaca das ondas e o sal dos meus olhos
as árvores inclinadas, os frutos e as dunas
em ti pernoita a seiva cansada de palavras, o suco das ervas e o açúcar transparente das camarinhas
em ti cresce o precioso silêncio, as ostras doentes e as pérolas dos mares sem rumo
em ti se perdem os ventos, a solidão do mar e este demorado lamento.
1 586
Daniel Jonas
CANTONEIROS
A pura simetria dos cantoneiros
concordes na sintonia clássica
da sua dança, no modo como desmantelam
a embriaguez, induzem o vómito a caixotes
ou dispõem de bolas de plástico
e as lançam para a baliza ruminativa
sem tempo para comemorarem os golos.
Pulgas da quietude,
industriosos entre o mar de detritos,
fosforescentes noctilucos,
espectros a céu aberto,
ídolos de montureiros,
aclarando das margens as nuvens rentes
sob aguaceiros desabridos.
Acrobatas da morosidade
fúnebre do seu curso,
a cidade ignora-os
ou execra aquele féretro deletério
se apanhada no cortejo de ocasião.
concordes na sintonia clássica
da sua dança, no modo como desmantelam
a embriaguez, induzem o vómito a caixotes
ou dispõem de bolas de plástico
e as lançam para a baliza ruminativa
sem tempo para comemorarem os golos.
Pulgas da quietude,
industriosos entre o mar de detritos,
fosforescentes noctilucos,
espectros a céu aberto,
ídolos de montureiros,
aclarando das margens as nuvens rentes
sob aguaceiros desabridos.
Acrobatas da morosidade
fúnebre do seu curso,
a cidade ignora-os
ou execra aquele féretro deletério
se apanhada no cortejo de ocasião.
1 056
1
Renato Rezende
New York City, Meio-Dia
Vestido num saco de lixo
negro, um menino negro
pede esmola -- e é bonito.
Uma jovem de patins passa
por mim e esbarra sua mão na minha.
Um homem me olha
e quando o surpreendo com meu olho
sustenta o olhar, sem vergonha ou medo.
Durante todo o dia quis-se revelar
uma alegria nova, mas familiar
que finalmente agora compreendo.
A de estar entre os que estão
aqui
vivendo.
Nova York, setembro 1996
negro, um menino negro
pede esmola -- e é bonito.
Uma jovem de patins passa
por mim e esbarra sua mão na minha.
Um homem me olha
e quando o surpreendo com meu olho
sustenta o olhar, sem vergonha ou medo.
Durante todo o dia quis-se revelar
uma alegria nova, mas familiar
que finalmente agora compreendo.
A de estar entre os que estão
aqui
vivendo.
Nova York, setembro 1996
923
Fernando Pessoa
Entre o que vejo de um campo e o que vejo de outro campo
Entre o que vejo de um campo e o que vejo de outro campo
Passa um momento uma figura de homem.
Os seus passos vão com «ele» na mesma realidade,
Mas eu reparo para ele e para eles, e são duas coisas:
O «homem» vai andando com as suas ideias, falso e estrangeiro,
E os passos vão com o sistema antigo que faz pernas andar.
Olho-o de longe sem opinião nenhuma.
Que perfeito que é nele o que ele é – o seu corpo,
A sua verdadeira realidade que não tem desejos nem esperanças,
Mas músculos e a maneira certa e impessoal de os usar.
20/04/1919 (Athena, nº 5, Fevereiro de 1925)
Passa um momento uma figura de homem.
Os seus passos vão com «ele» na mesma realidade,
Mas eu reparo para ele e para eles, e são duas coisas:
O «homem» vai andando com as suas ideias, falso e estrangeiro,
E os passos vão com o sistema antigo que faz pernas andar.
Olho-o de longe sem opinião nenhuma.
Que perfeito que é nele o que ele é – o seu corpo,
A sua verdadeira realidade que não tem desejos nem esperanças,
Mas músculos e a maneira certa e impessoal de os usar.
20/04/1919 (Athena, nº 5, Fevereiro de 1925)
2 336
Fernando Pessoa
Noite de S. João para além do muro do meu quintal.
Noite de S. João para além do muro do meu quintal.
Do lado de cá, eu sem noite de S. João.
Porque há S. João onde o festejam.
Para mim há uma sombra de luz de fogueiras na noite,
Um ruído de gargalhadas, os baques dos saltos.
E um grito casual de quem não sabe que eu existo.
12/04/1919 (Athena, nº 5, Fevereiro de 1925)
Do lado de cá, eu sem noite de S. João.
Porque há S. João onde o festejam.
Para mim há uma sombra de luz de fogueiras na noite,
Um ruído de gargalhadas, os baques dos saltos.
E um grito casual de quem não sabe que eu existo.
12/04/1919 (Athena, nº 5, Fevereiro de 1925)
2 640
Renato Rezende
As Moiras
Gostaria de estar lá, testemunha, bem na hora
quando as moiras tecem o destino dos homens.
-- Você (ainda apenas uma alma)
está condenado a caminhar de joelhos
por 35 anos
na cidade do Rio de Janeiro.
Essa foi boa! É o mendigo
que vi ontem sob o sol
na praia do Flamengo.
Levariam elas em conta a lei oriental do karma?
Compreenderiam elas que, afinal
a vida é sonho
e não importa nada?
Não é verdade que no fim das contas
todo destino é igual
e todo homem um expatriado de si mesmo?
Veja eu, por exemplo
Renato Rezende, 32 anos
e ainda não morri de fome e de sede
(este fato me surpreende).
Carrego um iceberg no peito
cuja minúscula ponta são todos os meus versos.
Parece mesmo que meu destino
é este gesto já quase desfeito
este desejo imenso de não sei bem o quê
este gigantesco amor-desatino
este aparente
bater a esmo.
As moiras, na sua Glória, eu sei, gostam dessa gente
que é torta, desses sem jeito
que descasam o fim do começo,
que são menos carne do que espírito.
Como o mendigo do Flamengo
eu sou um escolhido
e vivo de joelhos dentro de mim mesmo.
Todas as minhas vitórias sempre serão
maravilhosa, necessariamente um sinal de menos.
Rio de Janeiro, 15 de fevereiro 1997
quando as moiras tecem o destino dos homens.
-- Você (ainda apenas uma alma)
está condenado a caminhar de joelhos
por 35 anos
na cidade do Rio de Janeiro.
Essa foi boa! É o mendigo
que vi ontem sob o sol
na praia do Flamengo.
Levariam elas em conta a lei oriental do karma?
Compreenderiam elas que, afinal
a vida é sonho
e não importa nada?
Não é verdade que no fim das contas
todo destino é igual
e todo homem um expatriado de si mesmo?
Veja eu, por exemplo
Renato Rezende, 32 anos
e ainda não morri de fome e de sede
(este fato me surpreende).
Carrego um iceberg no peito
cuja minúscula ponta são todos os meus versos.
Parece mesmo que meu destino
é este gesto já quase desfeito
este desejo imenso de não sei bem o quê
este gigantesco amor-desatino
este aparente
bater a esmo.
As moiras, na sua Glória, eu sei, gostam dessa gente
que é torta, desses sem jeito
que descasam o fim do começo,
que são menos carne do que espírito.
Como o mendigo do Flamengo
eu sou um escolhido
e vivo de joelhos dentro de mim mesmo.
Todas as minhas vitórias sempre serão
maravilhosa, necessariamente um sinal de menos.
Rio de Janeiro, 15 de fevereiro 1997
756
Paulo Teixeira
Cidade ao nascer da lua
A toda a largura do pano vê-se a cidade
com o seu perfil a velar-se, bizantino,
no poente. Abismada está na própria imagem,
onde o brilho do crisólito lembra,
num relance, o seu esplendor perdido:
invólucro fetal lançado, noite calada,
na água que ressuma, lenta, junto às margens.
O ouro foi todo acrisolado na água
em que ferveram as cinzas e a escória
de metais. A chuva e o vento vão
exfoliando as paredes, moendo as tintas,
até se não reconhecer mais o festo às fachadas.
Entre a solidão hirta das duas torres
a lua, mormosa, insinua-se.
com o seu perfil a velar-se, bizantino,
no poente. Abismada está na própria imagem,
onde o brilho do crisólito lembra,
num relance, o seu esplendor perdido:
invólucro fetal lançado, noite calada,
na água que ressuma, lenta, junto às margens.
O ouro foi todo acrisolado na água
em que ferveram as cinzas e a escória
de metais. A chuva e o vento vão
exfoliando as paredes, moendo as tintas,
até se não reconhecer mais o festo às fachadas.
Entre a solidão hirta das duas torres
a lua, mormosa, insinua-se.
648
Renato Rezende
Passeio
Demoro-me
no centro da cidade,
no Castelo, no Passeio.
Demoro-me
no Rio de Janeiro
como se fosse outrora
e se dissesse:
Ele demorava-se no Centro,
a esmo.
Demoro-me como quem quer
ser atropelado
sumir num tropeção
esquecer-se de si mesmo.
Demoro-me como se demoram
os mendigos que moram na rua
e que esperam o dia inteiro
para suas casas serem abandonadas.
Demoro-me como um destituído
cuja única felicidade
o clarão de luz na cara.
Rio de Janeiro, 2 de fevereiro 1997
no centro da cidade,
no Castelo, no Passeio.
Demoro-me
no Rio de Janeiro
como se fosse outrora
e se dissesse:
Ele demorava-se no Centro,
a esmo.
Demoro-me como quem quer
ser atropelado
sumir num tropeção
esquecer-se de si mesmo.
Demoro-me como se demoram
os mendigos que moram na rua
e que esperam o dia inteiro
para suas casas serem abandonadas.
Demoro-me como um destituído
cuja única felicidade
o clarão de luz na cara.
Rio de Janeiro, 2 de fevereiro 1997
1 051
Renato Rezende
Jagunço
Meio desistido de mim mesmo
caminho quase a esmo
pelo Rio de Janeiro.
Quase a esmo --estou bem vestido
e entre brancos, mulatas e negros
procuro um qualquer emprego.
Uma ocupação que me sustente
e permita-me desistir-me
mais completamente, mais inteiro.
Algo que eu farei com zêlo,
algo simples, humilde; desistir-se
não requer muito dinheiro.
O segredo deste esconder-se
é que quanto mais me desisto
mais me encontro
sublime, dentro de mim mesmo
e rio, e sou livre, e vôo
e crio
meu jeito de ser artista e gente.
Rio de Janeiro, 7 de março 1997
caminho quase a esmo
pelo Rio de Janeiro.
Quase a esmo --estou bem vestido
e entre brancos, mulatas e negros
procuro um qualquer emprego.
Uma ocupação que me sustente
e permita-me desistir-me
mais completamente, mais inteiro.
Algo que eu farei com zêlo,
algo simples, humilde; desistir-se
não requer muito dinheiro.
O segredo deste esconder-se
é que quanto mais me desisto
mais me encontro
sublime, dentro de mim mesmo
e rio, e sou livre, e vôo
e crio
meu jeito de ser artista e gente.
Rio de Janeiro, 7 de março 1997
963
Renato Rezende
Estelita Lins Com Laranjeiras
Nesta esquina havia um mendigo
que queria sempre falar comigo.
Quando me via me chamava.
Ei, ei, preciso falar com você!
Mas eu passava apressado e deprimido.
E lá ficava ele, sentado
entre cocôs de cachorro e lixo.
Quem sabe ele era o anjo, um Zipruana
São Francisco de Assis, o próprio Jesus Cristo
que me levaria enfim ao Paraíso.
Talvez ele fosse o anjo do eu-redimido.
Talvez ele fosse o meu anjo prometido.
Duvido.
Rio de Janeiro, 27 de fevereiro 1997
que queria sempre falar comigo.
Quando me via me chamava.
Ei, ei, preciso falar com você!
Mas eu passava apressado e deprimido.
E lá ficava ele, sentado
entre cocôs de cachorro e lixo.
Quem sabe ele era o anjo, um Zipruana
São Francisco de Assis, o próprio Jesus Cristo
que me levaria enfim ao Paraíso.
Talvez ele fosse o anjo do eu-redimido.
Talvez ele fosse o meu anjo prometido.
Duvido.
Rio de Janeiro, 27 de fevereiro 1997
912
Paulo Teixeira
Berghain
A cidade desliza lá fora com o luar.
Dentro, vai-se enchendo o silo de cimento.
Sobe-se por esta realidade arborescente
até à sala parlamentar onde,
sob uma vagina de Wolfgang Tillmans,
os olhos falam com o medo
a constelar as faces de desejo.
O desespero busca exprimir-se
no movimento acelerado dos braços,
no puro dinamismo dos ossos,
a telegrafia sem fios:
a ela se entregam os funâmbulos
sobre altos cubos negros;
para ninguém ensaiam as suas acrobacias
e sortes de prestidigitação.
O ideograma das luzes banha-os
como num palco.
Desatrelados, soltos,
os corpos secos e nervosos
deixam ver o íncubo,
o duplo espectral:
aqui acedem a um breve estatuto icónico,
emaciados cristos de tronco nu
e leather pants.
O WC é logo ali ao lado
e nas guaritas ao fundo do salão
perde-se em manobras de bastidores
quem não arrisca ir mais longe,
descer às fundas minas de estanho,
avançar às apalpadelas por território desconhecido,
o labirinto onde o Minotauro se alimenta
da carne de sete rapazes —
há que habituar os olhos à penumbra,
ao movimento dos corpos a tremeluzir
numa silente inquirição.
A música é um moscardo que zumbe ao longe
e o mundo apenas esse estrondo residual.
No triclínio, sobre um colchão sujo,
ou contra os pilares —
o stalker vigia a solidão
que aqui abriu a sua cerca.
Dentro, vai-se enchendo o silo de cimento.
Sobe-se por esta realidade arborescente
até à sala parlamentar onde,
sob uma vagina de Wolfgang Tillmans,
os olhos falam com o medo
a constelar as faces de desejo.
O desespero busca exprimir-se
no movimento acelerado dos braços,
no puro dinamismo dos ossos,
a telegrafia sem fios:
a ela se entregam os funâmbulos
sobre altos cubos negros;
para ninguém ensaiam as suas acrobacias
e sortes de prestidigitação.
O ideograma das luzes banha-os
como num palco.
Desatrelados, soltos,
os corpos secos e nervosos
deixam ver o íncubo,
o duplo espectral:
aqui acedem a um breve estatuto icónico,
emaciados cristos de tronco nu
e leather pants.
O WC é logo ali ao lado
e nas guaritas ao fundo do salão
perde-se em manobras de bastidores
quem não arrisca ir mais longe,
descer às fundas minas de estanho,
avançar às apalpadelas por território desconhecido,
o labirinto onde o Minotauro se alimenta
da carne de sete rapazes —
há que habituar os olhos à penumbra,
ao movimento dos corpos a tremeluzir
numa silente inquirição.
A música é um moscardo que zumbe ao longe
e o mundo apenas esse estrondo residual.
No triclínio, sobre um colchão sujo,
ou contra os pilares —
o stalker vigia a solidão
que aqui abriu a sua cerca.
572
Gil Vicente
Depois de ida Roma
Depois de ida Roma, entram dous lavradores, um per nome Amâncio Vaz e outro Diniz Lourenço, e diz Amâncio Vaz:
AMÂNCIO VAZ Compadre, vás tu à feira?
DINIZ LOURENÇO À feira, compadre.
AMÂNCIO VAZ Assi,
ora vamos eu e ti
ó longo desta ribeira.
DINIZ LOURENÇO Bofá, vamos.
AMÂNCIO VAZ Folgo bem
de te vir aqui achar.
DINIZ LOURENÇO Vás tu lá buscar alguém,
ou esperas de comprar?
AMÂNCIO VAZ Isso te quero contar,
e iremos patorneando,
e er também aguardando
polas moças do lugar.
Compadre, enha mulher
é muito destemperada,
e agora, se Deus quiser,
faço conta de a vender,
e dá-la-ei por quase nada.
Qu'eu quando casei com ela
diziam-me, «Hétega é».
E eu cuidei pola abofé
que mais cedo morresse ela,
e ela anda inda em pé.
E porque era hétega assim
foi o que m' a mim danou:
avonda qu'ela engordou
e fez-me hétego a mim.
DINIZ LOURENÇO Tens boa mulher de teu:
não sei que tu hás, amigo.
AMÂNCIO VAZ S'ela casara contigo
renegaras tu com' eu
e dixeras o que eu digo.
DINIZ LOURENÇO Pois, compadre, cant'à minha,
é tão mole e desatada,
que nunca dá peneirada
que não derrame a farinha.
E não põe cousa a guardar,
que a tope quanda a cata;
e por mais que homem se mata,
de birra não quer falar.
Trás d' üa pulga andará
três dias, e oito, e dez,
sem lhe lembrar o que fez,
nem tão pouco o que fará.
Pera que t'hei-de falar?
Quando ontem cheguei do mato
pôs üa enguia a assar,
e crua a leixou levar,
por não dizer sape a um gato.
Quant'a mansa, mansa é ela;
dei-m'ê logo conta disso.
AMÂNCIO VAZ Juro-t'eu que mais vale isso
cinquenta vezes qu'ela.
A minha te digo eu
que se a visses assanhada,
parece demoninhada,
ante São#Bertolameu.
DINIZ LOURENÇO Já sequer terá esp'rito:
mas renega da mulher
que ó tempo do mister
não é cabra nem cabrito.
AMÂNCIO VAZ A minha tinh'eu em guarda
pera bem da minha prol,
cuidando que era ourinol,
e tornou-se-me bombarda.
Folga tu que ess'outra tenhas,
porque a minha é tal perigo,
que por nada que lhe digo
logo me salta nas grenhas.
Então tanto punho seco
me chimpa nestes focinhos;
eu chamo polos vizinhos,
e ela nego dar-me em xeco.
DINIZ LOURENÇO Isso é de coraçuda;
não cures de a vender,
que s'alguém te mal fizer,
já sequer tens quem te acuda.
Mas a minha é tão cortês,
que se viesse ora à mão
que m'espancasse um rascão,
não diria, «Mal fazês».
Mas antes s' assentaria
a olhar como eu bradava.
Todavia a mulher brava
é, compadre, a qu'eu queria.
AMÂNCIO VAZ Pardeus! Tanto me farás
que feire a minha contigo.
DINIZ LOURENÇO Se queres feirar comigo,
vejamos que me darás.
AMÂNCIO VAZ Mas antes m' hás-de tornar
pois te dou mulher tão forte,
que te castigue de sorte
que não ouses de falar,
nem no mato nem na corte.
Outro bem terás com ela:
quando vieres da arada,
comerás sardinha assada,
porqu ' ela jenta a panela.
Então geme, pardeus, si,
diz que lhe dói a moleira.
DINIZ LOURENÇO Eu faria per maneira
que esperasse ela por mi.
AMÂNCIO VAZ Que lh'havias de fazer?
DINIZ LOURENÇO Amâncio Vaz, eu o sei bem.
AMÂNCIO VAZ Diniz Lourenço, ei-las cá vêm!
Vamo-nos nós esconder,
vejamos que vêm catar,
qu'elas ambas vêm à feira.
Mete-te nessa silveira,
qu'eu daqui hei-d' espreitar.
Vêm Branca Anes a brava, e Marta Dias a mansa, e vem dizendo a brava:
BRANCA ANES Pois casei má hora, e nela,
e com tal marido, prima,
comprarei cá üa gamela,
para o ter debaixo dela,
e um grão penedo em cima.
Porque vai-se-me às figueiras,
e come verde e maduro;
e quantas uvas penduro
jeita nas gorgomileiras:
parece negro monturo.
Vai-se-m'às ameixieiras
antes que sejam maduras,
ele quebra as cerejeiras,
ele vindima as parreiras,
e não sei que faz das uvas.
Ele não vai à lavrada,
ele todo o dia come,
ele toda a noite dorme,
ele não faz nunca nada,
e sempre me diz que há fome.
Jesu! Jesu! Posso-te dizer
e jurar e tresjurar,
e provar e reprovar,
e andar e revolver,
qu' é melhor pera beber,
que não pera maridar.
O demo que o fez marido,
que assim seco como é
beberá a torre da Sé!
Então arma um arruído
assi debaixo do pé.
MARTA DIAS Pois bom homem parece ele.
DINIZ LOURENÇO Aquela é a minha frouxa.
MARTA DIAS Deu-t'ele a fraldinha roxa?
BRANCA ANES Melhor lh'esfole eu a pele.
Que homem há i da puxa.
Ó diabo que o eu dou,
que o leve em fatiota,
e o ladrão que m'o gabou;
e o frade que me casou
inda o veja na picota.
E rogo à Virgem da Estrela,
e a santa Gerjalém,
e ós choros de Madanela
e à asninha de Belém,
que o veja ir#à#vela
pera donde nunca vem.
DINIZ LOURENÇO Compadre, no mais sofrer:
sai de lá desse silvado.
AMÂNCIO VAZ Pera eu ser arrepelado.
Não havi'eu mais mister.
DINIZ LOURENÇO E não n'hás tu de vender?
AMÂNCIO VAZ Tu dizes que a qués feirar.
DINIZ LOURENÇO Não qu'ela se me tomar
leixar-m'á quando quiser.
Mas demo-las à má estreia;
e voto que nos tornemos,
e er depois tornaremos
com as cachopas d'aldeia:
entonces concertaremos.
AMÂNCIO VAZ Isso me parece a mi
muito melhor que eu ir lá.
Oh, que couces que me dá,
quando me colhe sob si!
DINIZ LOURENÇO Cant' àquela si dará.
DIABO Mulheres, vós que quereis?
Nesta feira que buscais?
MARTA DIAS Queremo-la ver, no mais.
Pera ver em que tratais,
e as cousas que vendeis.
Tendes vós aqui anéis?
DIABO Quejandos? De que feição?
MARTA DIAS D'uns que fazem de latão.
DIABO Pera as mãos, ou pera os pés?
MARTA DIAS Não - Jesu, nome de Jesu,
Deus e homem verdadeiro!
Foge o Diabo e Marta Dias diz:
MARTA DIAS Nunca eu vi bofalinheiro
tão prestes tomar o mu.
Branc'Anes mana, crê tu
que, como Jesu é Jesu,
era este o Diabo inteiro.
BRANCA ANES Não é ele pau de boa lenha,
nem lenha de bom madeiro.
MARTA DIAS Bofá, nunc'ele cá venha.
BRANCA ANES Viagem de Jão Moleiro,
que foi pola cal d'azenha.
MARTA DIAS Pasmada estou eu de Deus
fazer o Demo marchante!
Mana, daqui por diante
não caminhemos nós sós.
BRANCA ANES S'eu soubera quem ele era,
fizera-lhe bom partido:
que me levara o marido,
e quanto tenho lhe dera,
e o touca
AMÂNCIO VAZ Compadre, vás tu à feira?
DINIZ LOURENÇO À feira, compadre.
AMÂNCIO VAZ Assi,
ora vamos eu e ti
ó longo desta ribeira.
DINIZ LOURENÇO Bofá, vamos.
AMÂNCIO VAZ Folgo bem
de te vir aqui achar.
DINIZ LOURENÇO Vás tu lá buscar alguém,
ou esperas de comprar?
AMÂNCIO VAZ Isso te quero contar,
e iremos patorneando,
e er também aguardando
polas moças do lugar.
Compadre, enha mulher
é muito destemperada,
e agora, se Deus quiser,
faço conta de a vender,
e dá-la-ei por quase nada.
Qu'eu quando casei com ela
diziam-me, «Hétega é».
E eu cuidei pola abofé
que mais cedo morresse ela,
e ela anda inda em pé.
E porque era hétega assim
foi o que m' a mim danou:
avonda qu'ela engordou
e fez-me hétego a mim.
DINIZ LOURENÇO Tens boa mulher de teu:
não sei que tu hás, amigo.
AMÂNCIO VAZ S'ela casara contigo
renegaras tu com' eu
e dixeras o que eu digo.
DINIZ LOURENÇO Pois, compadre, cant'à minha,
é tão mole e desatada,
que nunca dá peneirada
que não derrame a farinha.
E não põe cousa a guardar,
que a tope quanda a cata;
e por mais que homem se mata,
de birra não quer falar.
Trás d' üa pulga andará
três dias, e oito, e dez,
sem lhe lembrar o que fez,
nem tão pouco o que fará.
Pera que t'hei-de falar?
Quando ontem cheguei do mato
pôs üa enguia a assar,
e crua a leixou levar,
por não dizer sape a um gato.
Quant'a mansa, mansa é ela;
dei-m'ê logo conta disso.
AMÂNCIO VAZ Juro-t'eu que mais vale isso
cinquenta vezes qu'ela.
A minha te digo eu
que se a visses assanhada,
parece demoninhada,
ante São#Bertolameu.
DINIZ LOURENÇO Já sequer terá esp'rito:
mas renega da mulher
que ó tempo do mister
não é cabra nem cabrito.
AMÂNCIO VAZ A minha tinh'eu em guarda
pera bem da minha prol,
cuidando que era ourinol,
e tornou-se-me bombarda.
Folga tu que ess'outra tenhas,
porque a minha é tal perigo,
que por nada que lhe digo
logo me salta nas grenhas.
Então tanto punho seco
me chimpa nestes focinhos;
eu chamo polos vizinhos,
e ela nego dar-me em xeco.
DINIZ LOURENÇO Isso é de coraçuda;
não cures de a vender,
que s'alguém te mal fizer,
já sequer tens quem te acuda.
Mas a minha é tão cortês,
que se viesse ora à mão
que m'espancasse um rascão,
não diria, «Mal fazês».
Mas antes s' assentaria
a olhar como eu bradava.
Todavia a mulher brava
é, compadre, a qu'eu queria.
AMÂNCIO VAZ Pardeus! Tanto me farás
que feire a minha contigo.
DINIZ LOURENÇO Se queres feirar comigo,
vejamos que me darás.
AMÂNCIO VAZ Mas antes m' hás-de tornar
pois te dou mulher tão forte,
que te castigue de sorte
que não ouses de falar,
nem no mato nem na corte.
Outro bem terás com ela:
quando vieres da arada,
comerás sardinha assada,
porqu ' ela jenta a panela.
Então geme, pardeus, si,
diz que lhe dói a moleira.
DINIZ LOURENÇO Eu faria per maneira
que esperasse ela por mi.
AMÂNCIO VAZ Que lh'havias de fazer?
DINIZ LOURENÇO Amâncio Vaz, eu o sei bem.
AMÂNCIO VAZ Diniz Lourenço, ei-las cá vêm!
Vamo-nos nós esconder,
vejamos que vêm catar,
qu'elas ambas vêm à feira.
Mete-te nessa silveira,
qu'eu daqui hei-d' espreitar.
Vêm Branca Anes a brava, e Marta Dias a mansa, e vem dizendo a brava:
BRANCA ANES Pois casei má hora, e nela,
e com tal marido, prima,
comprarei cá üa gamela,
para o ter debaixo dela,
e um grão penedo em cima.
Porque vai-se-me às figueiras,
e come verde e maduro;
e quantas uvas penduro
jeita nas gorgomileiras:
parece negro monturo.
Vai-se-m'às ameixieiras
antes que sejam maduras,
ele quebra as cerejeiras,
ele vindima as parreiras,
e não sei que faz das uvas.
Ele não vai à lavrada,
ele todo o dia come,
ele toda a noite dorme,
ele não faz nunca nada,
e sempre me diz que há fome.
Jesu! Jesu! Posso-te dizer
e jurar e tresjurar,
e provar e reprovar,
e andar e revolver,
qu' é melhor pera beber,
que não pera maridar.
O demo que o fez marido,
que assim seco como é
beberá a torre da Sé!
Então arma um arruído
assi debaixo do pé.
MARTA DIAS Pois bom homem parece ele.
DINIZ LOURENÇO Aquela é a minha frouxa.
MARTA DIAS Deu-t'ele a fraldinha roxa?
BRANCA ANES Melhor lh'esfole eu a pele.
Que homem há i da puxa.
Ó diabo que o eu dou,
que o leve em fatiota,
e o ladrão que m'o gabou;
e o frade que me casou
inda o veja na picota.
E rogo à Virgem da Estrela,
e a santa Gerjalém,
e ós choros de Madanela
e à asninha de Belém,
que o veja ir#à#vela
pera donde nunca vem.
DINIZ LOURENÇO Compadre, no mais sofrer:
sai de lá desse silvado.
AMÂNCIO VAZ Pera eu ser arrepelado.
Não havi'eu mais mister.
DINIZ LOURENÇO E não n'hás tu de vender?
AMÂNCIO VAZ Tu dizes que a qués feirar.
DINIZ LOURENÇO Não qu'ela se me tomar
leixar-m'á quando quiser.
Mas demo-las à má estreia;
e voto que nos tornemos,
e er depois tornaremos
com as cachopas d'aldeia:
entonces concertaremos.
AMÂNCIO VAZ Isso me parece a mi
muito melhor que eu ir lá.
Oh, que couces que me dá,
quando me colhe sob si!
DINIZ LOURENÇO Cant' àquela si dará.
DIABO Mulheres, vós que quereis?
Nesta feira que buscais?
MARTA DIAS Queremo-la ver, no mais.
Pera ver em que tratais,
e as cousas que vendeis.
Tendes vós aqui anéis?
DIABO Quejandos? De que feição?
MARTA DIAS D'uns que fazem de latão.
DIABO Pera as mãos, ou pera os pés?
MARTA DIAS Não - Jesu, nome de Jesu,
Deus e homem verdadeiro!
Foge o Diabo e Marta Dias diz:
MARTA DIAS Nunca eu vi bofalinheiro
tão prestes tomar o mu.
Branc'Anes mana, crê tu
que, como Jesu é Jesu,
era este o Diabo inteiro.
BRANCA ANES Não é ele pau de boa lenha,
nem lenha de bom madeiro.
MARTA DIAS Bofá, nunc'ele cá venha.
BRANCA ANES Viagem de Jão Moleiro,
que foi pola cal d'azenha.
MARTA DIAS Pasmada estou eu de Deus
fazer o Demo marchante!
Mana, daqui por diante
não caminhemos nós sós.
BRANCA ANES S'eu soubera quem ele era,
fizera-lhe bom partido:
que me levara o marido,
e quanto tenho lhe dera,
e o touca
1 767
Renato Rezende
Trapo
O dia deu em nada?
A fome, o fogo, a sede
que pulsaram fortes
nas manhãs de outrora,
nas noites cheias de estrelas
extinguem-se hoje
sem muitas palavras, sem alarde
nesta praia, no final da tarde.
Sou agora mínimos desejos.
Nas veias corre água do mar.
O coração esfarela-se em areia.
O vulcão dentro do peito
que me deu o mundo inteiro
e me levou aos sete mares, aos mil abraços
aos reinos do sol, das sombras, do medo
dissipa-se em água, em anônimo cansaço
que se esvai como a maré entre os dedos.
Não parece sobrar nada
do que antes foi ardor e sonho.
No meio da vida,
sou fim ou sou começo?
Me desfaço no teu solo
ó Rio de Janeiro,
sou solta branca rosa que bóia
no mar de suas auroras
na boca de suas noites.
Sou finalmente neutro,
sem primavera, côr ou aroma.
Rio de Janeiro, 8 de março 1997
A fome, o fogo, a sede
que pulsaram fortes
nas manhãs de outrora,
nas noites cheias de estrelas
extinguem-se hoje
sem muitas palavras, sem alarde
nesta praia, no final da tarde.
Sou agora mínimos desejos.
Nas veias corre água do mar.
O coração esfarela-se em areia.
O vulcão dentro do peito
que me deu o mundo inteiro
e me levou aos sete mares, aos mil abraços
aos reinos do sol, das sombras, do medo
dissipa-se em água, em anônimo cansaço
que se esvai como a maré entre os dedos.
Não parece sobrar nada
do que antes foi ardor e sonho.
No meio da vida,
sou fim ou sou começo?
Me desfaço no teu solo
ó Rio de Janeiro,
sou solta branca rosa que bóia
no mar de suas auroras
na boca de suas noites.
Sou finalmente neutro,
sem primavera, côr ou aroma.
Rio de Janeiro, 8 de março 1997
798
Renato Rezende
Domingo
Passeamos hoje, domingo
no Aterro do Flamengo.
Fazia um dia lindo
Parecia uma cidade estrangeira
(quando eu nela chegava
pela primeira vez,
jovem e ingênuo,
e a luz do sol sumindo-se na curva
suave de cada rua parecia anunciar
uma infinidade de aventuras:
a vida jorrava em si mesma).
A liberdade não existe,
é um estado de espírito.
Passeava, domingo, no Aterro
na Barra, no Parque Guinle,
a classe média brasileira,
e sem mistério, sem desespero,
gozava seu merecido recreio.
Aqui estou eu, no meio
do dia a dia da vida:
um invólucro vazio
do que já foi risco e incêndio.
Rio de Janeiro, 8 de março 1997
no Aterro do Flamengo.
Fazia um dia lindo
Parecia uma cidade estrangeira
(quando eu nela chegava
pela primeira vez,
jovem e ingênuo,
e a luz do sol sumindo-se na curva
suave de cada rua parecia anunciar
uma infinidade de aventuras:
a vida jorrava em si mesma).
A liberdade não existe,
é um estado de espírito.
Passeava, domingo, no Aterro
na Barra, no Parque Guinle,
a classe média brasileira,
e sem mistério, sem desespero,
gozava seu merecido recreio.
Aqui estou eu, no meio
do dia a dia da vida:
um invólucro vazio
do que já foi risco e incêndio.
Rio de Janeiro, 8 de março 1997
677
José Miguel Silva
Salão de beleza (1ª impressão)
Divertidas aporias alimentam os diários
de quem vive o abandono das cidades.
O que fazes, terra vã, nesse passo movediço
de carreta funerária, os lábios uma taça
esbotenada, os olhos como duas pás de cinza,
o que esperas tu à porta da Beleza?
Ditirâmbica ilusão, descordoada lira
cujo timbre nenhum salmo recupera,
por que tintas queres vestir-te para o baile,
se a morte, esse fácil D. Juan, que não sabe
dizer não, é o único galã que permanece
na penumbra do salão e tu própria
já não sabes muito bem
a que santo encomendar as tuas pernas.
de quem vive o abandono das cidades.
O que fazes, terra vã, nesse passo movediço
de carreta funerária, os lábios uma taça
esbotenada, os olhos como duas pás de cinza,
o que esperas tu à porta da Beleza?
Ditirâmbica ilusão, descordoada lira
cujo timbre nenhum salmo recupera,
por que tintas queres vestir-te para o baile,
se a morte, esse fácil D. Juan, que não sabe
dizer não, é o único galã que permanece
na penumbra do salão e tu própria
já não sabes muito bem
a que santo encomendar as tuas pernas.
552
Paulo Teixeira
Heaven underneath the arches
O medo, o cansaço dos sismos quotidianos
leva-me à rua, aí onde só vive quem
não suporta ver o crepúsculo de casa.
Fora espera por mim a luz do céu londrino
e a noite abortiva de sono. Esse rumor
escuro da beleza que de longe me acena
como um semáforo ou um sinal de perigo.
Sem lei passeio até Embankment a minha
angústia civilizada. Aí o laser trespassa
a noite com a sua flora esverdeada,
as suas fitas mortuárias. Com uma fúria
obstinada estendo e recolho os braços
em dádiva e aceitação do que vem,
corpo dedilhado à toa nas cocheiras
até se gravar como uma paisagem sumariamente
perdida para sempre no negativo da visão.
Entre as farpas da música, nesse desespero verde
e polido que sulca a noite, perco-me o nome
e o rasto. Fora, a lua podia ser o meu caixão.
leva-me à rua, aí onde só vive quem
não suporta ver o crepúsculo de casa.
Fora espera por mim a luz do céu londrino
e a noite abortiva de sono. Esse rumor
escuro da beleza que de longe me acena
como um semáforo ou um sinal de perigo.
Sem lei passeio até Embankment a minha
angústia civilizada. Aí o laser trespassa
a noite com a sua flora esverdeada,
as suas fitas mortuárias. Com uma fúria
obstinada estendo e recolho os braços
em dádiva e aceitação do que vem,
corpo dedilhado à toa nas cocheiras
até se gravar como uma paisagem sumariamente
perdida para sempre no negativo da visão.
Entre as farpas da música, nesse desespero verde
e polido que sulca a noite, perco-me o nome
e o rasto. Fora, a lua podia ser o meu caixão.
610
Renato Rezende
Impressões do Parque Lage
Na floresta do Parque Lage
celebro
a minha enorme liberdade.
Sou o primeiro
homem a penetrar este reino
ainda selvagem.
Tudo é meu.
E eu também sou o alheio,
o esquecido, o estrangeiro.
Me sinto completo,
me sinto inteiro.
A mata está fechada.
O cheiro forte da jaca
faz total silêncio.
Caminho na picada.
Nesse mundo vegetal
comungam indigentes
adúlteros, solitários
soldados armados
olhando as mulheres que passam
drogados, aleijados, malucos
delinqüentes, prostitutas
crianças sem inocência.
Um jogo de passeios, de veredas
de miradas e mirantes
de olhos que se baixam
de movimentos obscuros
atrás dos arbustos
de corpos que se cruzam
de águas
que escutam
silenciosos anseios.
Tudo isso sou eu, tudo isso corre
nas minhas veias.
Macacos pulam
de galho em galho.
Surgem borboletas
que foram caçadas
mas de alguma forma sobreviveram.
Estamos no reino
da memória e da sombra
ou luz trespassada
do alto das árvores
fantasmas, almas penadas
coisas perdidas
primitiva vida sem idade.
Aqui é o ponto zero
da cidade.
Aqui é a cidade
antes de ser cidade.
Aqui eu bebo
a cidade
em tudo que ela tem de luz
e de intimidade,
em tudo o que nela é voraz
e eternidade,
aqui eu devoro a cidade pública
e impudica.
(Isso debaixo
detrás
do Cristo
envolvido em nuvens).
Rio de Janeiro, 10 de março 1997
celebro
a minha enorme liberdade.
Sou o primeiro
homem a penetrar este reino
ainda selvagem.
Tudo é meu.
E eu também sou o alheio,
o esquecido, o estrangeiro.
Me sinto completo,
me sinto inteiro.
A mata está fechada.
O cheiro forte da jaca
faz total silêncio.
Caminho na picada.
Nesse mundo vegetal
comungam indigentes
adúlteros, solitários
soldados armados
olhando as mulheres que passam
drogados, aleijados, malucos
delinqüentes, prostitutas
crianças sem inocência.
Um jogo de passeios, de veredas
de miradas e mirantes
de olhos que se baixam
de movimentos obscuros
atrás dos arbustos
de corpos que se cruzam
de águas
que escutam
silenciosos anseios.
Tudo isso sou eu, tudo isso corre
nas minhas veias.
Macacos pulam
de galho em galho.
Surgem borboletas
que foram caçadas
mas de alguma forma sobreviveram.
Estamos no reino
da memória e da sombra
ou luz trespassada
do alto das árvores
fantasmas, almas penadas
coisas perdidas
primitiva vida sem idade.
Aqui é o ponto zero
da cidade.
Aqui é a cidade
antes de ser cidade.
Aqui eu bebo
a cidade
em tudo que ela tem de luz
e de intimidade,
em tudo o que nela é voraz
e eternidade,
aqui eu devoro a cidade pública
e impudica.
(Isso debaixo
detrás
do Cristo
envolvido em nuvens).
Rio de Janeiro, 10 de março 1997
809
Renato Rezende
Copacabana, 1997
O mar brilha e arde.
O mar, areia líquida.
É tarde
em Copacabana
e na minha vida.
Pessoas de idade
caminham de mãos dadas.
Jovens quase pelados
patinam em velocidade
ou jogam vôlei.
Crianças gritam
atrás de bolas e cachorros.
A luz excessiva
me fere a vista.
A vida excessiva
me fere a vida.
Atravesso a avenida
em alta perplexidade.
"Quem sou eu e o que faço
entre as coisas?"
Sem nenhuma vontade
me sento
me disfarço
e peço um copo de álcool.
Depois danço e grito e salto.
Rio de Janeiro, 2 de abril 1997
O mar, areia líquida.
É tarde
em Copacabana
e na minha vida.
Pessoas de idade
caminham de mãos dadas.
Jovens quase pelados
patinam em velocidade
ou jogam vôlei.
Crianças gritam
atrás de bolas e cachorros.
A luz excessiva
me fere a vista.
A vida excessiva
me fere a vida.
Atravesso a avenida
em alta perplexidade.
"Quem sou eu e o que faço
entre as coisas?"
Sem nenhuma vontade
me sento
me disfarço
e peço um copo de álcool.
Depois danço e grito e salto.
Rio de Janeiro, 2 de abril 1997
929
Paulo Teixeira
Potsdamer Platz
Na clareira aberta pelas bombas
Renzo Piano ergueu em memória
da Haus Vaterland um carrocel gigante
com tenda de circo e bazar de luzes:
numa redoma de vidro, a Kaisersaal
lembra uma gruta de anacoreta:
dos restaurantes, como corbelhas
acesas, olha-se o que há vinte anos
era uma forja: ia-se sobre sucata,
retorcida, oxidada, até plataformas
ver o outro lado: os lustres e lampadários
do café Josty numa galeria decorada
como um retábulo: atravessado pelo muro
e a ronda das sentinelas: viam-se na mira
das armas automáticas, vigiavam as hordas
de um e do outro lado da muralha
da China e o mundo suspendia-se do mover
dos seus dedos: numa cápsula de tempo,
sob o gibão listrado, este sonho de cenógrafo:
no globo da sibila as datas hão-se servir
muito tempo de enigma aos historiadores.
Renzo Piano ergueu em memória
da Haus Vaterland um carrocel gigante
com tenda de circo e bazar de luzes:
numa redoma de vidro, a Kaisersaal
lembra uma gruta de anacoreta:
dos restaurantes, como corbelhas
acesas, olha-se o que há vinte anos
era uma forja: ia-se sobre sucata,
retorcida, oxidada, até plataformas
ver o outro lado: os lustres e lampadários
do café Josty numa galeria decorada
como um retábulo: atravessado pelo muro
e a ronda das sentinelas: viam-se na mira
das armas automáticas, vigiavam as hordas
de um e do outro lado da muralha
da China e o mundo suspendia-se do mover
dos seus dedos: numa cápsula de tempo,
sob o gibão listrado, este sonho de cenógrafo:
no globo da sibila as datas hão-se servir
muito tempo de enigma aos historiadores.
673
Renato Rezende
O Alto
Subo o Pão de Açúcar.
Subo o Corcovado.
E quero lançar-me lá de cima
acabar com tudo
num vôo de liberdade.
Mas me sento nas escadas
que brilham
e queimam a carne.
É alto o desespero
nesta cidade.
Apesar da claridade
visto de cima
tudo
é tranqüila fatalidade.
A cidade é frágil.
A cidade é um brinco.
Fácil, o mar se une ao lago.
Vamos todos morrer afogados.
Finjo
que não sei de nada
e não reajo.
Rio de Janeiro, 4 de abril 1997
Subo o Corcovado.
E quero lançar-me lá de cima
acabar com tudo
num vôo de liberdade.
Mas me sento nas escadas
que brilham
e queimam a carne.
É alto o desespero
nesta cidade.
Apesar da claridade
visto de cima
tudo
é tranqüila fatalidade.
A cidade é frágil.
A cidade é um brinco.
Fácil, o mar se une ao lago.
Vamos todos morrer afogados.
Finjo
que não sei de nada
e não reajo.
Rio de Janeiro, 4 de abril 1997
699
Renato Rezende
A Ilha
Levanto as mãos para o céu,
os braços para o alto
num gesto
menos de agradecimento
do que desamparo.
Não sei como ainda me sustento
dentro dos sapatos.
Cada passo
um novo compasso.
Caminho pela cidade,
pelo Estácio
onde vim acalmar o sentido...
e penso
"A vida inteira que não foi
e que poderia ter sido".
A promessa, o sonho, o beijo
não propriamente esquecidos,
mas diluídos
no dia a dia do corpo.
Penso naquele que fui
sem saber que era
e procuro a essência da primavera
para dela partir novamente.
Mistério. Difícil
dilema:
me busco no passado ou me reconstruo
do nada?
Sou fênix ou sou cinzas?
Navego no escuro.
Contenho
no peito o grito.
Liberdade! Liberdade
é bairro em São Paulo.
ou ainda
Terra a vista!
ai, quem me dera, que vontade
de encontrar-me
Robinson Crusoé perdido em sua ilha.
Rio de Janeiro, 3 de abril 1997
os braços para o alto
num gesto
menos de agradecimento
do que desamparo.
Não sei como ainda me sustento
dentro dos sapatos.
Cada passo
um novo compasso.
Caminho pela cidade,
pelo Estácio
onde vim acalmar o sentido...
e penso
"A vida inteira que não foi
e que poderia ter sido".
A promessa, o sonho, o beijo
não propriamente esquecidos,
mas diluídos
no dia a dia do corpo.
Penso naquele que fui
sem saber que era
e procuro a essência da primavera
para dela partir novamente.
Mistério. Difícil
dilema:
me busco no passado ou me reconstruo
do nada?
Sou fênix ou sou cinzas?
Navego no escuro.
Contenho
no peito o grito.
Liberdade! Liberdade
é bairro em São Paulo.
ou ainda
Terra a vista!
ai, quem me dera, que vontade
de encontrar-me
Robinson Crusoé perdido em sua ilha.
Rio de Janeiro, 3 de abril 1997
738
Paulo Teixeira
Uma Residência
Um ano depois de eu nascer,
Berlim era um convés de voo
com naves laterais e galeria
de ventilação, forças aerotransportáveis
e sereia de alarme aéreo.
Imagino Gombrowicz chegando,
espécie de nómada insolente,
com o cinismo prático
e as mil facetas da sua alma dialéctica,
proscrito uma vez mais,
por decisão unilateral,
para um ano longe da pampa.
A Alemanha era uma arte de decompor em partes
um direito adquirido com o nascimento,
e a cidade uma protuberância da guerra fria,
purga de ar de que ele podia seguir
as descargas luminosas no alto penhasco
onde o alojaram em Hohenzollerndamm.
Tivesse o dom de vaticinar
e saberia que era citado
a depor com o corpo a infância polaca
nos aromas que se libertam
de aceres e bétulas nas áleas do Tiergarten.
Uma dissidência terminava assim,
neste retiro verde e sossegado —
como um castigo corporal
ou qualquer coisa de congénito,
a Europa vinha ao seu encontro
e a morte com um odor característico
irrompia, longe da confusão e do caos,
por entre os néons e a névoa da pax americana.
Berlim era um convés de voo
com naves laterais e galeria
de ventilação, forças aerotransportáveis
e sereia de alarme aéreo.
Imagino Gombrowicz chegando,
espécie de nómada insolente,
com o cinismo prático
e as mil facetas da sua alma dialéctica,
proscrito uma vez mais,
por decisão unilateral,
para um ano longe da pampa.
A Alemanha era uma arte de decompor em partes
um direito adquirido com o nascimento,
e a cidade uma protuberância da guerra fria,
purga de ar de que ele podia seguir
as descargas luminosas no alto penhasco
onde o alojaram em Hohenzollerndamm.
Tivesse o dom de vaticinar
e saberia que era citado
a depor com o corpo a infância polaca
nos aromas que se libertam
de aceres e bétulas nas áleas do Tiergarten.
Uma dissidência terminava assim,
neste retiro verde e sossegado —
como um castigo corporal
ou qualquer coisa de congénito,
a Europa vinha ao seu encontro
e a morte com um odor característico
irrompia, longe da confusão e do caos,
por entre os néons e a névoa da pax americana.
705
Renato Rezende
Mercado de Frutas
Quando saí de casa hoje
a rua estava em silêncio
como se a vida geral se tivesse cansado
de tanta história
e se deixasse levar sem grandes vontades.
Lento, na calçada ao lado
passava um negro
quebrando o silêncio com uma doce toada.
"Vassoureiro!
Vassoura de pêlo!"
E carregava umas vassouras imensas
que pareciam mesmo coisas antigas
do tempo dos escravos.
Parecia um Rio de Janeiro de outrora.
Era um momento raro,
o presente permitia
a vitória do passado.
Com especial cuidado
desci a rua
em direção à feira
do Largo do Machado.
Longe, fugia a voz do negro
como se acaba um longo beijo:
"Vassoureiro!
Vassoura de pêlo!"
Com renovado cuidado
escolhi as frutas
que me sustentarão neste dia.
A cidade eterna e efêmera
navega em si mesma;
comigo em seu seio.
Rio de Janeiro, 7 de abril 1997
a rua estava em silêncio
como se a vida geral se tivesse cansado
de tanta história
e se deixasse levar sem grandes vontades.
Lento, na calçada ao lado
passava um negro
quebrando o silêncio com uma doce toada.
"Vassoureiro!
Vassoura de pêlo!"
E carregava umas vassouras imensas
que pareciam mesmo coisas antigas
do tempo dos escravos.
Parecia um Rio de Janeiro de outrora.
Era um momento raro,
o presente permitia
a vitória do passado.
Com especial cuidado
desci a rua
em direção à feira
do Largo do Machado.
Longe, fugia a voz do negro
como se acaba um longo beijo:
"Vassoureiro!
Vassoura de pêlo!"
Com renovado cuidado
escolhi as frutas
que me sustentarão neste dia.
A cidade eterna e efêmera
navega em si mesma;
comigo em seu seio.
Rio de Janeiro, 7 de abril 1997
959