Poemas neste tema

Cidade e Cotidiano

Ruy Belo

Ruy Belo

Miséria e grandeza

Nem uma só pegada nos deixaste
entre as areias desta praia
que em dias e barcos nos é dada
e à vida pertence dar um rosto
Tudo é táctil demais à nossa volta
e na pessoa quotidiana que passa
incorrigivelmente descobrimos
o anjo que nos diga: "Não temas!"
Só nos é dada a palavra
o nosso modo humano de morder o tempo
Não há outra saída para além de ficarmos
hirtos sob as folhas que caem
nupcialmente sobre nós e os sonhos

Mas lá de quando em quando
distante como um passado lembrado
e então como se fosse para sempre
tu és uma presença redonda no meu ombro de morte
anjo de luz que apetece tocar
em vez da terra que os dedos nos trazem dos dias
e das metáforas mais ou menos subsistentes
como a vida e as outras sombras
e até as palavras quando ´são indiferentes




Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 45 | Editorial Presença Lda., 1984
867
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

RONDEAU - Faz noite em meu coração.

Faz noite em meu coração.
Tenho sono de dormir.
Já me esqueci do porvir.
Não demorem muito, então!
Que o Bi fez chichi no chão.

Não precisam consentir.
Basta-lhe só comichão.
Na cara esfregou o pão
E a manteiga no sorrir,
E fez um chichi no chão.

Vendo bem, e com razão,
Onde o faria? (Advertir
Que o penico é para rir)
No tecto? Claro que não.
O Bi fez chichi no chão.

Envoy

Princesa, este mundo a ir
Para o nada é um sonho vão.
Mande uma (com um esfregão)
Dama de honor aqui vir
Que o Bi fez chichi no chão.
1 342
Ruy Belo

Ruy Belo

Córdoba Lejana y Sola

Nesta cidade aonde fomos jovens
colhemos hoje na praça
raios do último sol
Qual criança que ousaria ainda
nascer em nossos olhos?
Entrar-nos-ia ainda hoje a rua em casa
como quando eram possíveis todos os regressos?
Extingue-se-nos já na boca a tarde
Em que país ouvimos estes sons cair?
Vai longe o tempo em que andávamos
perto dos pássaros
Prometiam os olhos futuras estrelas
morriam-nos no rosto todos os poentes
Agora só a noite virá
estender um manto sobre a nossa agitação
E a tua palavra há-de planar em nossa alma
como qualquer folha de plátano na tarde
Este céu passará e então
teu riso descerá dos montes pelos rios
até desaguar no nosso coração



Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 53 e 54 | Editorial Presença Lda., 1984
1 895
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O Íbis, ave do Egipto,

O Íbis, ave do Egipto,
Pousa sempre sobre um pé
        (O que é
        Esquisito).
É uma ave sossegada
Porque assim não anda nada.

Uma cegonha parece
Porque é uma cegonha.
        Sonha
        E esquece —
Propriedade notável
De toda ave aviável.

Quando vejo esta Lisboa,
Digo sempre, Ah quem me dera
        (E essa era
        Boa)
Ser um íbis esquisito,
Ou pelo menos estar no Egipto.
1 388
Ruy Belo

Ruy Belo

Intervalo de vida

Inútil sol inútil chuva inútil céu
enquanto não imóveis como as árvores
abertas todas elas para tudo
feitas em cada folha tudo para tudo
atravessarmos rígidos os meses

Inútil é o sol feito relógio de pobres
o sol afinal a única
pessoa importante que passa na rua
E as nossas ideias estas ideias latinas que precisam
de ombros para elas entre as árvores fazendo
concorrência às coisas misturando-se e distinguindo-se
ocupando um espaço tão real como aquelas

E as crianças deformando o espaço indo por dentro
enchendo a rua sendo novas ruas
deixando-nos depois como únicos gestos
que ainda perduram palavras nascidas nos lábios delas
mortas mais tarde nas costas de quem passámos

Inútil citadina chuva
pretexto para os nossos guarda-chuvas
chuva que a todos nos molha e nos confunde
e nos iguala companheira chuva
E eu vou por esta chuva acima até à minha infância
debaixo dos meus pés o chão é outra vez o mesmo

a erva cresce. Entre gestos polidos páginas
de livros no meio desta vida exacta e medida
nesta cidade assim mesmo tal e qual
a erva cresce e tem aroma e leva-me
por esse aroma até à erva vou de erva para erva
Rasgam-se em mim adros de aldeia
há plátanos abrindo sobre danças de crianças
Junto da janela passando na rua posso
com toda a propriedade dizer que
conheço infinitamente melhor as montanhas junto do mar
onde tem ninho o pato selvagem
e tudo lembra ainda um passado de águas
que a forma sempre mudável da minha unha
essa unha roída pelos grandes problemas
essa unha de passagem das estações e dos dias
e dos carros de bois antes e depois dos dias

Inútil céu que o sol todos os dias
deixará levará como perdido manto
esquecido sobre as nossas cabeças

A primeira infância passou mas agora ou logo
deus renova todas as coisas
E um dia haverá barcos e seremos livres


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 46 e 47 | Editorial Presença Lda., 1984
1 371
Ruy Belo

Ruy Belo

Jerusalém, Jerusalém... ou Alto da Serafina

Que importa que morramos se a tarde é de sol
e o céu se abre às lágrimas
que sobre a cidade choras?
Esmagam-se lá longe contra a igreja as casas
aonde os homens nascem e aceitam
a grade humilhação da morte
onde as mulheres acenam tristemente panos sujos
de não dizerem adeus a nenhum barco
onde já ninguém sabe onde os anos começam
Pesadamente vão caindo os sinos
e tu a um e um desfolhas
os olhos sobre o tempo
O que trocamos são crostas de silêncio:
tivéssemos em teu reino o lugar
que esta folha de outono tem sobre o asfalto
e a espaços certa música na alma
Que importa que morramos se o passado está certo
se voltas para nós a mágoa que te molha a face
de virmos de tão longe tendo-te tão perto?


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 54 | Editorial Presença Lda., 1984
674
Armando Freitas Filho

Armando Freitas Filho

O primeiro arranha-céu

O primeiro arranha-céu
foi a pedra
do Pão de Açúcar:
monumento onde o mar
se amarra
o mato cresce no pedestal
e o abraço da baía
completa o cenário
— o lugar-comum —
o que já estava escrito
pelos cronistas lapidares
e por mim
quase com as mesmas palavras.


In: FREITAS FILHO, Armando. 3x4, 1981/1983. Pref. Flora Sussekind. Posfácio Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série Depois
1 057
Jorge Macedo

Jorge Macedo

Nos pés do recomeço

1

na cidade
nos pés
o recomeço
vai-se
é-se
reconstrutivo

a parede
demolida
revém
no contorno
do
dia

2

as esquinas
de tudo
entornam
seus rostos
de tempo
emerso
no sol todos os dias outro

3

crescendo
cres
cen
do
crescentes
crescem
acrescendo
rosas
chaminés
crescendo
no elã
guindastes
creem
branco rosar
rosamão
fumo não
caracóis
sim rosas

4

a cidade
nome
doutro oceano
é mais
líquida
vertiginosa
enchente

5

no elã de guindastes
semeando
hastes
no tamanho
das ânsias

o despertar
o loiro

estua
os barcos
guindados
para a dimensão rósea das rotas

1 039
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Rotina

Ao abrir a janela do quarto para outras
janelas de outros quartos, ao veres a rua que desemboca
noutras ruas, e as pessoas que se cruzam, no início da
manhã, sem pensarem com quem se cruzam
em cada início de manhã, talvez te apeteça
voltar para dentro, onde ninguém te espera. Mas
o dia nasceu - um outro dia - e a contagem do tempo
começou a partir do momento em que
abriste a janela, e em que todas as janelas
da rua se abriram, como a tua. Então, resta-te
saber com quem te irás cruzar, esta manhã: se
o rosto que vais fixar, por uns instantes, retribuirá
o teu gesto; ou se alguém, no primeiro café que
tomares, te devolverá a mesma inquietação
que saboreias, enquanto esperas que o líquido
arrefeça.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 27 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 504
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Na 5.ª Avenida

Sou um homem de 47 anos
andando na 5.ª avenida de Nova York
e vivo num mundo onde todos se devoram.
Acabei de ver uma exposição mostrando
como Picasso, Braque, Brancusi, Modigliani, Giacometti e Wlaminck
se apropriaram da arte africana
e se apropriavam eles mesmos
da arte uns dos outros.
De Gauguin e suas figuras da Polinésia
Picasso tirou suas “Duas mulheres sentadas”.
– “Eu não procuro, eu acho” – dizia ele
e assim ia devorando artistas e mulheres.
Esta manhã li
que o deserto do Saara avança 6 a 12 milhas por mês.
Só em 1984 avançou 125 milhas
ameaçando engolir Sahel.
Como são vorazes os artistas e desertos!
Não é tão longe a África nem tão longe a Polinésia!
Ali na esquina, um cidadão acaba de matar
dois jovens canibais que o atacaram
e, nos jornais, virou herói.
1 082
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Isto & História,1968

Ontem, 67 estudantes foram presos na Cinelândia
enquanto se manifestavam contra o governo.
Mas outros tantos, 60 mil, talvez
foram à praia, no mesmo dia.
Fazia um sol estupendo.
Nenhum desses se importava com isto ou a história,
senão com o sol em suas peles bronzeadas, raquetes e pernas.
Que nenhuma folha ou fio de vossos cabelos caia
sem que Aquele que está no Céu o consinta.
Aqueles dois que bebem seu chope no bar da praia,
a babá que empurra o carrinho do bebê,
a colegial azul e branca que toma ônibus
o policial e o cacetete
isto ou aquilo – tudo é história.
Agora, por exemplo,
não estou lendo Marx, a Bíblia ou o que Levi-Strauss
escreveu sobre os bororos,
mas ouvindo os Blood, Sweat and Tears.
1 026
Pero da Ponte

Pero da Ponte

Noutro Dia, Em Carrion

Noutro dia, em Carrion,
queria[m] um salmom vender,
e chegou i um infançom;
e, tanto que o foi veer,
creceu-lhi del tal coraçom
que diss'a um seu hom'entom:
- Peixota quer'hoj'eu comer.

Ca muit'há já que nom comi
salmom, que sempre desejei;
mais, pois que o ach'ora aqui,
já custa nom recearei,
que hoj'eu nom cômia, de pram,
bem da peixota e do pam,
que muit'há que bem nom ceei.

Mais, pois aqui salmom achei,
querrei hoj'eu mui bem cear,
ca nom sei u mi o acharei,
des que me for deste logar;
e do salmom que ora vi,
ante que x'o levem dali,
vai-m'ũa peixota comprar.

Nom quer'eu custa recear,
pois salmom fresco acho, Sinher!
Mais quero ir bem del assũar
por enviar a mia molher
(que morre por el outrossi)
da balea que vej'aqui;
e depois quite quem poder!
608
Pero da Ponte

Pero da Ponte

Eu, Em Toledo, Sempr'ouço Dizer

Eu, em Toledo, sempr'ouço dizer
que mui maa [vila] de pescad'é;
mais non'o creo, per bõa fé,
ca mi fui eu a verdad'en saber:
ca, noutro dia, quand'eu entrei i,
bem vos juro que de mia vista vi
a Peixota su u[m] leito jazer.

Endõado bem podera haver
Peixota quen'a quisesse filhar,
ca non'a vi a nulh'home aparar;
e ũa cousa vos quero dizer
(tenh'eu por mui bõa vileza assaz):
ũa Peixota su o leito jaz
e sol nulh'home non'a quer prender.

E se de mim quiserdes aprender
qual part'há de cima em esta sazom,
non'[a] há i, sol lhis vem i salmom;
mais pescad'outro, pera despender,
mui rafec'é, por vos eu nom mentir:
ca vi eu a Peixota remanir
i sô um leit', assi Deus mi perdom.
459
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Jane com uma boneca japonesa

Entre o escuro das meias e o branco
da combinação, a coxa de Jane situa-se
no enfiamento dos ombros, ao contrário
do seu olhar de perfil, fixo na boneca
japonesa que ela se prepara para limpar
com o algodão seguro nos dedos. Há
algo de decidido no seu gesto, que
contrasta com a fita cor de rosa da
combinação, caída sobre a cadeira
de verga. A esse abandono contrapõem-se,
porém, os pés calçados, como se
tivesse interrompido a toilete para
se ocupar da boneca. Terá acabado
o seu dia? Ou limita-se a olhar a figura
de porcelana, com que ainda brincou, sem
reparar que um caracol se soltou do
cabelo para pontuar o início
do seio com uma interrogação
que oferece a quem, de súbito,
descobre a linha perfeita da perna
que as meias escondem, e revelam?
1 114
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Muito

peguei o táxi para Newport e estudei as pregas no
crânio do motorista, todo o previsto se vai:
a derrota veio tantas vezes
(como a chuva)
que ganhou mais significado
que a vitória, o artista é bom no
piano
e nós esperamos num canto
(este poeta!)
aguardando para recitar
poemas; é como uma cave, isso aqui:
cheia de morcegos e putas
e música sem corpo
movo-me no dorso do mundo, minha cabeça dói,
e procurando determinada porta
penso com carinho no bem-sucedido papai Haydn
se acabando no jardim chuvoso
acima da cópula
desses ratões sem ouvido...
o sol está numa caixa por aí
dormindo como um gato
os morcegos dão rasantes, um corpo
pega na minha mão (a do copo
a mão direita é a que bebe)
uma mulher, uma horrível
danada de uma mulher, uma coisa viva
senta
e pisca
para mim:
Hank, a coisa diz,
estão lhe esperando firme e
forte!
que se fodam, eu digo, que se fodam.
eu engordei um bocado e
fiquei vulgar (uma morte deliberada
na cozinha) e
subitamente caio na risada 
considerando minha excelente forma física
como a de algum porco de um homem de negócios
e nem sequer cuido
de me levantar
para mijar...
Anjos,
nós crescemos apartados
1 063
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Entrevistado por um Ganhador do Guggenheim

esse sul-americano ganhador de um Gugg
entrou aqui com a prostituta dele
e ela sentou na beira da minha cama e
cruzou suas pernas ótimas
e eu fiquei olhando para as pernas dela
e ele apertou o nó da gravata
e eu estava de ressaca
e ele me perguntou
QUE PENSA VOCÊ DOS POETAS
AMERICANOS?
e eu disse que não pensava muita coisa
dos poetas americanos
e aí ele foi em frente e perguntou alguma
outra coisa bem idiota
(enquanto as pernas da puta se estendiam ao longo
do meu cérebro) como por exemplo
BEM, VOCÊ NÃO SE INCOMODA COM NADA,
MAS SE VOCÊ ESTIVESSE DANDO UMA AULA E UM DOS
ALUNOS PERGUNTASSE QUAIS OS POETAS AMERICANOS QUE
ELE DEVERIA LER,
O QUE VOCÊ RESPONDERIA?

ela cruzava as pernas enquanto eu olhava e pensei
que podia botar ele a nocaute com um direto só
estuprar a mulher em 4 minutos
pegar um trem para LA
saltar no Arizona e caminhar para o deserto
e poderia dizer a ele que eu nunca ensinaria a uma
turma
que além de não gostar da poesia americana
eu também não gostava de alunos americanos
nem do trabalho que eles esperariam que
eu fizesse,
então eu disse
Whitman, T. S.Eliot, D. H. Lawrence nos poemas sobre
cobras e bichos, Auden. e aí
constatei que Whitman era o único americano verdadeiro,
que Eliot de certo modo não era americano e os
outros também não, e
ele também sabia disso
ele sabia que eu estava cagando
mas não me desculpei
pensei um pouco mais sobre o estupro
quase amei a mulher mas sabia que quando ela se mandasse
nunca mais a vería de novo
e apertamos as mãos e o Gugg disse

que mandaria o artigo quando fosse publicado
mas eu sabia que ele não conseguira um artigo
e ele também sabia
e então ele disse
vou lhe mandar alguns dos meus poemas traduzidos
para o inglês
e eu disse ótimo
e fiquei vendo eles irem embora
os saltos altos dela batendo
nos degraus verdes
e logo tinham ido
mas eu fiquei me lembrando do vestido dela deslizando sobre tudo nela
como uma segunda pele
e fiquei furioso me lamentando e com amor e tristeza
e por ser um imbecil incapaz de
comunicar
nada
e entrei e terminei aquela cerveja
abri outra
vesti meu velho manto real
e saí para a rua de New Orleans
e nessa mesma noite
sentei com meus amigos e fui cafajeste e
um cretino
todo cheio de bravata e maldade
e eles nunca
e crueldade
souberam por quê.
1 087
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Algumas das Minhas Leitoras

Gostei de sair daquele Café caro
na Alemanha
naquela noite chuvosa
algumas das senhoras tinham sabido que eu
estava ali
e quando eu saía bem-alimentado e
bebido
as senhoras
carregavam cartazes
e gritavam para mim
mas tudo que entendi foi meu
nome.

perguntei a um amigo alemão o que elas
gritavam.

"elas odeiam você", ele disse,
"elas são do Movimento Alemão
de Liberação da Mulher..."

parei e olhei para elas, estavam
belas e gritando, adorei
todas, ri e acenei,
joguei beijos para elas.

aí meu amigo, meu editor e minha
namorada me levaram para o carro, o
motor começou a funcionar,
os limpadores de pára-brisas também
e enquanto partíamos na chuva
olhei para trás
para elas lá, de pé
naquele terrível mau tempo
levantando seus cartazes e seus
punhos.

era ótimo ser reconhecido
no país em que nasci, isso
era o que mais
importava...

de volta ao quarto do hotel
abrindo garrafas de vinho
com meus amigos
senti falta delas,
pobres iradas molhadas
apaixonadas senhoras
da noite.
1 112
Airas Nunes

Airas Nunes

O Meu Senhor o Bispo, Na Redondela, Um Dia

O meu senhor o bispo, na Redondela, um dia,
de noit'e com gram medo, de desonra fogia;
eu, indo-mi aguisando por ir com el mia via,
achei ũa companha assaz brava e crua
que me decerom logo de cima da mia mua:
azêmela e cama levarom-na por sua.

E des que eu nacera nunca entrara em lide;
[e] pero que já fora cabo Valedolide
escovardoas muitas fezerom em Molide.
E ali me lançarom a mim a falcatrua;
a meus 'scudeiros [em] cage o Churruchão [assua]
e atá aos sergentes, ca som gente befua.

Ali me desbulharom do tabardo e dos panos
e nom houverom vergonha dos meus cabelos canos,
nem me derom por ende grã[a]s nem adianos:
leixarom-me qual fui nado no meio da rua;
e um rapaz tinhoso, que há de par em 'strua,
chamava-mi "minhana, velha fududancua!"
663
Allen Ginsberg

Allen Ginsberg

Uivo

“Soltem as fechaduras das portas!
Soltem também as portas dos seus batentes!”

Dedicado a Jack Kerouac, novo Buda da prosa americana, que borrifou inteligência em onze livros escritos na metade deste número de anos (1951-1956) – On the Road, Visions of Neal, Dr. Sax, Springtime Mary, The Subterraneans, San Francisco Blues, Some of the Dharma, Book of Dreams, Wake Up, Mexico City Blues e Visions of Gerard –, criando uma prosódia bop espontânea e uma literatura clássica original. Várias frases e o título de Uivo são tirados dele.
William Seward Burroughs, autor de Naked Lunch, uma novela sem fim que deixará todo mundo louco.
Neal Cassady, autor de The First Third, uma autobiografia (1949) que iluminou Buda.
Todos esses livros estão publicados no Céu.


Uivo
para Carl Solomon


I
Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus,
arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa,
hipsters com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato celestial com o dínamo estrelado na maquinaria da noite,
que pobres, esfarrapados e olheiras fundas, viajaram fumando sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis apartamentos sem água quente, flutuando sobre os tetos das cidades contemplando jazz,
que desnudaram seus cérebros ao céu sob o Elevado e viram anjos maometanos cambaleando iluminados nos telhados das casas de cômodos,
que passaram por universidades com olhos frios e radiantes alucinando Arkansas e tragédias à luz de Blake entre os estudiosos da guerra,
que foram expulsos das universidades por serem loucos & publicarem odes obscenas nas janelas do crânio,
que se refugiaram em quartos de paredes de pintura descascada em roupa de baixo queimando seu dinheiro em cestos de papel, escutando o
Terror através da parede,
que foram detidos em suas barbas púbicas voltando por Laredo com um cinturão de marijuana para Nova York,
que comeram fogo em hotéis mal pintados ou beberam terebintina em Paradise Alley, morreram ou flagelaram seus torsos noite após noite com sonhos, com drogas, com pesadelos na vigília, álcool e caralhos e intermináveis orgias,
incomparáveis ruas cegas sem saída de nuvem trêmula e clarão na mente pulando nos postes dos polos de Canadá & Paterson, iluminando completamente o mundo imóvel do Tempo intermediário,
solidez de Peiote dos corredores, aurora de fundo de quintal com verdes árvores de cemitério, porre de vinho nos telhados, fachadas de lojas de subúrbio na luz cintilante de néon do tráfego na corrida de cabeça feita do prazer, vibrações de sol e lua e árvore no ronco de crepúsculo de inverno de Brooklyn, declamações entre latas de lixo e a suave soberana luz da mente,
que se acorrentaram aos vagões do metrô para o infindável percurso do Battery ao sagrado Bronx de benzedrina até que o barulho das rodas e crianças os trouxesse de volta, trêmulos, a boca arrebentada e o despovoado deserto do cérebro esvaziado de qualquer brilho na lúgubre luz do Zoológico,
que afundaram a noite toda na luz submarina de Bickford’s, voltaram à tona e passaram a tarde de cerveja choca no desolado Fuggazi’s escutando o matraquear da catástrofe na vitrola automática de hidrogênio,
que falaram setenta e duas horas sem parar do parque ao apê ao bar ao Hospital Bellevue ao Museu à Ponte de Brooklyn,
batalhão perdido de debatedores platônicos saltando dos gradis das escadas de emergência dos parapeitos das janelas do Empire State da Lua,
tagarelando, berrando, vomitando, sussurrando fatos e lembranças e anedotas e viagens visuais e choques nos hospitais e prisões e guerras,
intelectos inteiros regurgitados em recordação total com os olhos brilhando por sete dias e noites, carne para a sinagoga jogada à rua,
que desapareceram no Zen de Nova Jersey de lugar algum deixando um rastro de cartões-postais ambíguos do Centro Cívico de Atlantic City,
sofrendo suores orientais, pulverizações tangerianas nos ossos e enxaquecas da China por causa da falta da droga no quarto pobremente mobiliado de Newark,
que deram voltas e voltas à meia-noite no pátio da ferrovia perguntando-se aonde ir e foram, sem deixar corações partidos,
que acenderam cigarros em vagões de carga, vagões de carga, vagões de carga que rumavam ruidosamente pela neve até solitárias fazendas dentro da noite do avô,
que estudaram Plotino, Poe, São João da Cruz, telepatia e bop-cabala pois o Cosmos instintivamente vibrava a seus pés em Kansas,
que passaram solitários pelas ruas de Idaho procurando anjos índios e visionários que eram anjos índios e visionários,
que só acharam que estavam loucos quando Baltimore apareceu em êxtase sobrenatural,
que pularam em limusines com o chinês de Oklahoma no impulso da chuva de inverno na luz das ruas de cidade pequena à meia-noite,
que vaguearam famintos e sós por Houston procurando jazz ou sexo ou rango e seguiram o espanhol brilhante para conversar sobre América e Eternidade, inútil tarefa, e assim embarcaram num navio para a África,
que desapareceram nos vulcões do México nada deixando além da sombra de suas calças rancheiras e a lava e a cinza da poesia espalhadas pela lareira Chicago,
que reapareceram na Costa Oeste investigando o FBI de barba e bermudas com grandes olhos pacifistas e sensuais em suas peles morenas, distribuindo folhetos ininteligíveis,
que apagaram cigarros acesos em seus braços protestando contra o nevoeiro narcótico de tabaco do Capitalismo,
que distribuíram panfletos supercomunistas em Union Square, chorando e despindo-se enquanto as sirenes de Los Alamos os afugentavam gemendo mais alto que eles e gemiam pela Wall Street e também gemia a balsa de Staten Island
que caíram em prantos em brancos ginásios desportivos, nus e trêmulos diante da maquinaria de outros esqueletos,
que morderam policiais no pescoço e berraram de prazer nos carros de presos por não terem cometido outro crime a não ser sua transação pederástica e tóxica,
que uivaram de joelhos no metrô e foram arrancados do telhado sacudindo genitais e manuscritos,
que se deixaram foder no rabo por motociclistas santificados e urraram de prazer,
que enrabaram e foram enrabados por esses serafins humanos, os marinheiros, carícias de amor atlântico e caribeano,
que transaram pela manhã e ao cair da tarde em roseirais, na grama de jardins públicos e cemitérios, espalhando livremente seu sêmen para quem quisesse vir,
que soluçaram interminavelmente tentando gargalhar mas acabaram choramingando atrás de um tabique de banho turco onde o anjo loiro e nu veio trespassá-los com sua espada,
que perderam seus garotos amados para as três megeras do destino, a megera caolha do dólar heterossexual, a megera caolha que pisca de dentro do ventre e a megera caolha que só sabe ficar plantada sobre sua bunda retalhando os dourados fios intelectuais do tear do artesão, que copularam em êxtase insaciável com uma garrafa de cerveja, uma namorada, um maço de cigarros, uma vela, e caíram da cama e continuaram pelo assoalho e pelo corredor e terminaram desmaiando contra a parede com uma visão da boceta final e acabaram sufocando um derradeiro lampejo de consciência,
que adoçaram as trepadas de um milhão de garotas trêmulas ao anoitecer, acordaram de olhos vermelhos no dia seguinte mesmo assim prontos para adoçar trepadas na aurora, bundas luminosas nos celeiros e nus no lago,
que foram transar em Colorado numa miríade de carros roubados à noite, N. C. herói secreto destes poemas, garanhão e Adónis de Denver –
prazer ao lembrar das suas incontáveis trepadas com garotas em terrenos baldios & pátios dos fundos de restaurantes de beira de estrada, raquíticas fileiras de poltronas de cinema, picos de montanha, cavernas ou com esquálidas garçonetes no familiar levantar de saias solitário à beira da estrada & especialmente secretos solipsismos de mictórios de postos de gasolina & becos da cidade natal também,
que se apagaram em longos filmes sórdidos, foram transportados em sonho, acordaram num Manhattan súbito e conseguiram voltar com uma impiedosa ressaca de adegas de Tokay e o horror dos sonhos de ferro da Terceira Avenida & cambalearam até as agências de desemprego,
que caminharam a noite toda com os sapatos cheios de sangue pelo cais coberto por montões de neve, esperando que uma porta se abrisse no East River dando para um quarto cheio de vapor e ópio,
que criaram grandes dramas suicidas nos penhascos de apartamentos do Hudson à luz azul de holofote antiaéreo da lua & suas cabeças receberão coroas de louro no esquecimento,
que comeram o ensopado de cordeiro da imaginação ou digeriram o caranguejo do fundo lodoso dos rios de Bovery,
que choraram diante do romance das ruas com seus carrinhos de mão cheios de cebola e péssima música,
que ficaram sentados em caixotes respirando a escuridão sob a ponte e ergueram-se para construir clavicórdios em seus sótãos,
que tossiram num sexto andar do Harlem coroado de chamas sob um céu tuberculoso rodeados pelos caixotes de laranja da teologia,
que rabiscaram a noite toda deitando e rolando sobre invocações sublimes que ao amanhecer amarelado revelaram-se versos de tagarelice sem sentido,
que cozinharam animais apodrecidos, pulmão coração pé rabo borsht
& tortillas sonhando com o puro reino vegetal,
que se atiraram sob caminhões de carne em busca de um ovo,
que jogaram seus relógios do telhado fazendo seu lance de aposta pela Eternidade fora do Tempo & despertadores caíram nas suas cabeças por
todos os dias da década seguinte,
que cortaram seus pulsos sem resultado por três vezes seguidas, desistiram e foram obrigados a abrir lojas de antiguidades onde acharam que estavam ficando velhos e choraram,
que foram queimados vivos em seus inocentes ternos de flanela em Madison Avenue no meio das rajadas de versos de chumbo & o estrondo contido dos batalhões de ferro da moda & os guinchos de nitroglicerina das bichas da propaganda & o gás mostarda de sinistros editores inteligentes ou foram atropelados pelos táxis bêbados da Realidade Absoluta,
que se jogaram da Ponte de Brooklyn, isso realmente aconteceu, e partiram esquecidos e desconhecidos para dentro da espectral confusão das ruelas de sopa & carros de bombeiros de Chinatown, nem uma cerveja de graça,
que cantaram desesperados nas janelas, jogaram-se da janela do metrô,
saltaram no imundo rio Passaic, pularam nos braços dos negros, choraram pela rua afora, dançaram sobre garrafas quebradas de vinho descalços arrebentando nostálgicos discos de jazz europeu dos anos 30
na Alemanha, terminaram o whisky e vomitaram gemendo no toalete sangrento, lamentações nos ouvidos e o sopro de colossais apitos a vapor,
que mandaram brasa pelas rodovias do passado viajando pela solidão da vigília de cadeia do Gólgota de carro envenenado de cada um ou então a encarnação do Jazz de Birmingham,
que guiaram atravessando o país durante setenta e duas horas para saber se eu tinha tido uma visão ou se você tinha tido uma visão ou se ele tinha tido uma visão para descobrir a Eternidade,
que viajaram para Denver, que morreram em Denver, que retornaram a Denver & esperaram em vão, que espreitaram Denver & ficaram parados pensando & solitários em Denver e finalmente partiram para descobrir o Tempo & agora Denver está com saudades dos seus heróis, que caíram de joelhos em catedrais sem esperança rezando por sua salvação e luz e peito até que a alma iluminasse seu cabelo por um segundo,
que se arrebentaram nas suas mentes na prisão aguardando impossíveis criminosos de cabeça dourada e o encanto da realidade em seus corações que entoavam suaves blues de Alcatraz,
que se recolheram ao México para cultivar um vício ou às Montanhas Rochosas para o suave Buda ou Tânger para os garotos ou Pacífico Sul para a locomotiva negra ou Harvard para Narciso para o cemitério de Woodlawn para a coroa de flores para o túmulo, que exigiram exames de sanidade mental acusando o rádio de hipnotismo & foram deixados com sua loucura & suas mãos & um júri suspeito,
que jogaram salada de batata em conferencistas da Universidade de Nova York sobre Dadaísmo e em seguida se apresentaram nos degraus de granito do manicômio com cabeças raspadas e fala de arlequim sobre suicídio, exigindo lobotomia imediata,
e que em lugar disso receberam o vazio concreto da insulina metrasol choque elétrico hidroterapia psicoterapia terapia ocupacional pingue-pongue & amnésia,
que num protesto sem humor viraram apenas uma mesa simbólica de pingue-pongue, mergulhando logo a seguir na catatonia, voltando anos depois, realmente calvos exceto por uma peruca de sangue e
lágrimas e dedos para a visível condenação de louco nas celas das cidades-manicômio do Leste,
Pilgrim State, Rockland, Greystone, seus corredores fétidos, brigando com os ecos da alma, agitando-se e rolando e balançando no banco de solidão à meia-noite dos domínios de mausoléu druídico do amor, o
sonho da vida um pesadelo, corpos transformados em pedras tão pesadas quanto a lua,
com a mãe finalmente ****** e o último livro fantástico atirado pela janela do cortiço e a última porta fechada às 4 da madrugada e o último telefone arremessado contra a parede em resposta e o último quarto mobiliado esvaziado até a última peça de mobília mental, uma rosa de papel amarelo retorcida num cabide de arame do armário e até mesmo isso imaginário, nada mais que um bocadinho esperançoso de alucinação –
Ah, Carl, enquanto você não estiver a salvo eu não estarei a salvo e agora você está inteiramente mergulhado no caldo animal total do tempo –
e que por isso correram pelas ruas geladas obcecados por um súbito clarão da alquimia do uso da elipse do catálogo do metro & do plano vibratório,
que sonharam e abriram brechas encarnadas no Tempo & Espaço através de imagens justapostas e capturaram o arcanjo da alma entre 2 imagens visuais e reuniram os verbos elementares e juntaram o substantivo e o choque de consciência saltando numa sensação de Pater Omnipotens Aeterne Deus,
para recriar a sintaxe e a medida da pobre prosa humana e ficaram parados à sua frente, mudos e inteligentes e trêmulos de vergonha, rejeitados todavia expondo a alma para conformar-se ao ritmo do pensamento em
sua cabeça nua e infinita,
o vagabundo louco e Beat angelical no Tempo, desconhecido mas mesmo assim deixando aqui o que houver para ser dito no tempo após a morte,
e se reergueram reencarnados na roupagem fantasmagórica do jazz no espectro de trompa dourada da banda musical e fizeram soar o sofrimento da mente nua da América pelo amor num grito de saxofone de eli eli lama lama sabactani que fez com que as cidades tremessem até seu último rádio,
com o coração absoluto do poema da vida arrancado de seus corpos bom para comer por mais mil anos.


II
Que esfinge de cimento e alumínio arrombou seus crânios e devorou seus cérebros e imaginação? Moloch! Solidão! Sujeira! Fealdade! Latas de lixo e dólares inatingíveis! Crianças berrando sob as escadarias!
Garotos soluçando nos exércitos! Velhos chorando nos parques!
Moloch! Moloch! Pesadelo de Moloch! Moloch o mal-amado! Moloch mental! Moloch o pesado juiz dos homens!
Moloch a incompreensível prisão! Moloch o presídio desalmado de tíbias cruzadas e o Congresso dos sofrimentos! Moloch cujos prédios são julgamento! Moloch a vasta pedra da guerra! Moloch os governos atônitos!
Moloch cuja mente é pura maquinaria! Moloch cujo sangue é dinheiro corrente! Moloch cujos dedos são dez exércitos! Moloch cujo peito é um dínamo canibal! Moloch cujo ouvido é um túmulo fumegante!
Moloch cujos olhos são mil janelas cegas! Moloch cujos arranha-céus
jazem ao longo das ruas como infinitos Jeovás! Moloch cujas fábricas sonham e grasnam na neblina! Moloch cujas colunas de fumaça e antenas coroam as cidades!
Moloch cujo amor é interminável óleo e pedra! Moloch cuja alma é eletricidade e bancos! Moloch cuja pobreza é o espectro do gênio!
Moloch cujo destino é uma nuvem de hidrogênio sem sexo! Moloch cujo nome é a Mente!
Moloch em quem permaneço solitário! Moloch em quem sonho com anjos! Louco em Moloch! Chupador de caralhos em Moloch! Mal-amado e sem homens em Moloch!
Moloch que penetrou cedo na minha alma! Moloch em quem sou uma consciência sem corpo! Moloch que me afugentou do meu êxtase natural! Moloch a quem abandono! Despertar em Moloch! Luz
escorrendo do céu!
Moloch! Moloch! Apartamentos de robôs! subúrbios invisíveis! tesouros de esqueletos! capitais cegas! indústrias demoníacas! nações espectrais!
invencíveis hospícios! caralhos de granito! bombas monstruosas!
Eles quebraram suas costas levantando Moloch ao Céu! Calçamentos, árvores, rádios, toneladas! Levantando a cidade ao Céu que existe e está em todo lugar ao nosso redor!
Visões! profecias! alucinações! milagres! êxtases! descendo pela correnteza do rio americano!
Sonhos! adorações! iluminações! religiões! o carregamento todo de bosta sensitiva!
Desabamentos! sobre o rio! saltos e crucifixões! descendo a correnteza!
Ligados! Epifanias! Desesperos! Dez anos de gritos animais e suicídios! Mentes! Amores novos! Geração louca! jogados nos
rochedos do Tempo!
Verdadeiro riso santo no rio! Eles viram tudo! o olhar selvagem! os berros sagrados! Eles deram adeus! Pularam do telhado! rumo à solidão!
acenando! levando flores! Rio abaixo! rua acima!


III
Carl Solomon! Eu estou com você em Rockland
onde você está mais louco do que eu
Eu estou com você em Rockland
onde você deve sentir-se muito estranho
Eu estou com você em Rockland
onde você imita a sombra da minha mãe
Eu estou com você em Rockland
onde você assassinou suas doze secretárias
Eu estou com você em Rockland
onde você ri deste humor invisível
Eu estou com você em Rockland
onde somos grandes escritores na mesma abominável máquina de escrever
Eu estou com você em Rockland
onde seu estado se tomou muito grave e é noticiado pelo rádio
Eu estou com você em Rockland
onde as faculdades do crânio não aguentam mais os vermes dos sentidos
Eu estou com você em Rockland
onde você bebe o chá dos seios das solteironas de Utica
Eu estou com você em Rockland
onde você bolina os corpos das suas enfermeiras as hárpias do Bronx
Eu estou com você em Rockland
onde você grita dentro de uma camisa de força que está perdendo o verdadeiro jogo de pingue-pongue do abismo
Eu estou com você em Rockland
onde você martela o piano catatônico a alma é inocente e imortal e nunca poderia morrer impiamente num hospício armado,
Eu estou com você em Rockland
onde com mais cinquenta eletrochoques sua alma nunca mais
retornará a seu corpo de volta da sua peregrinação rumo a uma cruz no vazio
Eu estou com você em Rockland
onde você acusa seus médicos de loucura e prepara a revolução socialista hebraica contra o Gólgota nacional e fascista
Eu estou com você em Rockland
onde você rasga os céus de Long Island e faz surgir seu Jesus vivo e humano do túmulo sobre-humano
Eu estou com você em Rockland
onde há mais vinte e cinco mil camaradas loucos todos juntos cantando os versos finais da Internacional
Eu estou com você em Rockland
onde abraçamos e beijamos os Estados Unidos sob nossas cobertas os Estados Unidos que tossem a noite toda e não nos deixam dormir
Eu estou com você em Rockland
onde despertamos eletrocutados do coma pelos nossos próprios aeroplanos da mente roncando sobre o telhado eles vieram jogar bombas angelicais o hospital ilumina-se paredes imaginárias desabam Ó legiões esqueléticas correi para fora Ó choque de misericórdia
salpicado de estrelas a guerra eterna chegou Ó vitória esquece tua roupa de baixo estamos livres
Eu estou com você em Rockland
nos meus sonhos você caminha gotejante de volta de uma viagem marítima pela grande rodovia que atravessa a América em lágrimas até a porta do meu chalé dentro da Noite Ocidental
2 710
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

PARAGEM. ZONA

PARAGEM. ZONA

Tragam-me esquecimento em travessas!
Quero comer o abandono da vida!
Quero perder o hábito de gritar para dentro.
Arre, já basta! Não sei o quê. mas já basta...
Então viver amanhã, hein?... E o que se faz de hoje?
Viver amanhã por ter adiado hoje?
Comprei por acaso um bilhete para esse espectáculo?
Que gargalhadas daria quem pudesse rir!
E agora aparece o eléctrico — o de que eu estou à espera —
Antes fosse outro... Ter de subir já!
Ninguém me obriga, mas deixai-o passar, porquê?
Só deixando passar todos, e a mim mesmo, e à vida...
Que náusea no estômago real que é a alma consciente!
Que sono bom o ser outra pessoa qualquer...
Já compreendo porque é que as crianças querem ser guarda-freios...
Não, não compreendo nada...
Tarde de azul e ouro, alegria das gentes, olhos claros da vida...
2 340
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Faíscas

a fábrica longe da Av. Santa Fé era
melhor.
empacotávamos suportes de luminárias
pesados em caixas pesadas e longas
e depois jogávamos as caixas em pilhas
de seis.
aí os carregadores
vinham
esvaziar sua mesa e
você começava as seis seguintes.

jornada de dez horas
quatro no sábado
pagamento pelo sindicato
bom demais para trabalho não especializado
e se você não chegava lá
com músculos
logo, logo ia arranjá-los

a maioria de nós em 
camisetas brancas e jeans
cigarro no bico
cerveja furtiva
a gerência olhando
pro outro lado

poucos brancos
os brancos não demoravam:
trabalhadores preguiçosos
na maioria mexicanos e
pretos
frios e rancorosos

aqui e ali
brilhava uma faca
ou alguém
era ferido
a gerência olhando
pro outro lado

os raros brancos que ficavam
eram loucos

trabalhava-se
e as jovens mexicanas
nos mantinham
acesos e esperançosos
seus olhos piscando
mensagens
de lá da
linha de montagem.

eu era um dos
brancos loucos
que duraram
eu era bom trabalhador
só pelo ritmo da coisa
pelo diabo da coisa
e depois de dez horas
de trabalho duro
depois de trocar insultos
vivendo entre atritos
com os que não eram suficientemente calmos
para se conformar
saíamos
ainda dispostos

subíamos em nossos velhos
carros para
voltar para casa
beber metade da noite
brigar com nossas mulheres

para recomeçar no dia seguinte
a embalar os suportes
sabendo que éramos
uns babacas
fazendo os ricos
mais ricos

enfiávamos
nossa camiseta branca
e o jeans
e deslizávamos
entre as jovens mexicanas

éramos simples e perfeitos
para o que fazíamos
ressaca
podíamos
fazer bem pra burro
nosso trabalho

mas isso
não nos tocou
nunca

entre aquelas paredes despelando

o barulho das brocas
e serras

as faíscas

éramos uma turma boa
naquele balé mortal

éramos maravilhosos

dávamos a eles
muito mais do que pediam

e ainda assim
a eles não dávamos
nada.
1 054
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Noite de Vento

eles sorriem e trazem a comida
sorriem e se curvam
enquanto um pequeno tufão aturde
os cegos

e o íbis escarlate aparece
e dança no esterco
em meu prato

eu não estou mesmo com fome

Leda, Tyndareus, Clytemnestra,
Castor, Pollux ou quem mais seja
que eu conheça não
comia essa porcaria.

peço uma sacola pra comida de cachorro.
ele sorriem e derramam a comida
dentro.

mais tarde, em minha cozinha,
divido a comida nos pratos,
ponho tudo no chão

enquanto os meus três gatos ficam imóveis
olhando pra mim
e eu pergunto: "O que é que há?
O que é que há? Comam!”

com a ventania
os galhos batem no vidro da janela
enquanto apago a luz da
cozinha
e vou para a sala
ligo a TV
bem na hora em que um guarda atira num
homem no alto de uma escada de incêndio
e ele cai e cai
e se esborracha na
rua:

esse nunca mais vai ter que comer
camarão Szechwan com ervilha chinesa
na vida.
1 249
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Treinando para Kid Aztec

eu era um cara moço em Los Angeles.
havia uns bares pequenos
em torno do Plaza, pequenos bares
mexicanos, e havia um
grande, bem-freqüentado, e eu
comecei a noite por ele
mas ele estava muito comportado
cheio de trabalhadores decentes
e aí eu saí
e encontrei um beco pequeno e torto,
escuro,
e segui por ele
com meu canivete no bolso até
que encontrei esse pequeno bar
lá no fim
e entrei
sentei num banco e pedi
uma garrafa de cerveja.
havia quatro mexicanos lá dentro
incluindo o cara do balcão

e eu sentei olhando firme
para a frente
tomando um gole do meu copo
de quando em quando.

eu estava um filho-da-puta muito louco
pronto para ir até o fim
melhor não me
sacanear...

acabei a garrafa
pedi outra.

"onde diabos
estão as mulheres?" perguntei.

nenhuma resposta.

"eu não devia estar aqui",
eu disse, "estou treinando para uma
luta no Olímpico, uma de
quatro rounds, contra o Kid
Aztec..."

silêncio.

desci do meu banco, fiquei
de pé, escarneci: "alguém aqui topa
treinar um pouquinho, hã?"

nenhuma resposta.

botei uma moeda na
vitrola de ficha.
a música começou e comecei
a fazer boxe-sombra
com ela.

quando acabou
eu sentei e
pedi outra cerveja.

"sou um matador", eu disse
ao dono do bar, "um matador
nato... tenho pena
do Kid Aztec..."

o homem recebeu meu
dinheiro, e guardou
na registradora tilitante
de costas para mim.

eu disse para as costas
dele: "e acima de tudo
eu sou um escritor.
escrevo contos,
romances, poemas,
ensaios..."

"Señor, escreve
poemas?", perguntou um
mexicano grandão lá do fim
do bar.

"pô, claro..."

"e sobre que são
esses' poemas?"

"o amor..."

"oh, o amor, Señor?"

"poemas de amor para a
Morte..."

esvaziei minha garrafa
e pedi outra.

"eu também escrevo,
Señor..."

"ah, é?”

"oh, sim, eu meto minha caneta
nas mulheres e escrevo
lá dentro delas."

os outros mexicanos
riram.
esperei até que
parassem.

"vocês são uns idiotas, vocês
riem como uns idiotas!"

"talvez, Señor, mas até idiotas
têm direito de rir,
não?"

tirei o rótulo da cerveja,
colei-o no tampo
do bar, terminei
a garrafa.

"outra cerveja, Señor?", perguntou
o dono do bar.

"nah, já chega, tenho que
descansar..."

caminhei para a
saída.

"boa sorte na sua luta com
Kid Aztec, Senör", disse
alguém.

caminhei de volta pelo
pequeno beco, parei para vomitar num
canto escuro, terminei e alcancei
a rua,
procurando um poema, um bar
melhor, alguma coisa,
qualquer coisa.

eu só tinha enchido o saco deles com
minha periculosidade.
toda noite era a
mesma coisa e de dia era ainda
pior.

parei numa árvore na
esquina do Plaza
para acender um cigarro
e para tentar parecer com
um matador

ninguém notou.

talvez não viessem
a notar nunca.

segurei o fósforo aceso
por tempo demais, ele queimou meus
dedos.
praguejei alto, dei partida e
comecei a caminhar
para a estação de
trem

alguém tinha me avisado
que as putas estavam
chupando bem, lá,
nas escuras rampas de acesso...
1 100
Charles Bukowski

Charles Bukowski

a gata

essa gata relaxa nos ferros da saída de incêndio
e é amarela como um sol
e nunca viu um cão naquela área
da cidade, e, cara, como é gorda,
cheia de ratos e petiscos do HARVEY'S BAR
e eu tenho subido pela saída de incêndio
pra visitar certa dama no hotel
e ela me mostra cartas do filho
na França, e é um quarto muito pequeno
cheio de garrafas de vinho e tristeza,
e às vezes lhe deixo um dinheirinho,
e quando desço pela saída de incêndio,
lá está de novo a gata e
ela se esfrega nas minhas pernas e
enquanto vou até O carro
ela me segue, e preciso ter cuidado
quando dou a partida, mas não muito:
ela é bem esperta, sabe
que o carro não é seu amigo.
e um dia fui visitar a dama
e ela estava morta. quer dizer, ela não estava lá,
o quarto estava vazio. tinha sido uma hemorragia,
me disseram. e agora iam alugar o quarto.
bem, ficar triste não adianta. desci
os degraus de ferro e eis ali a gata. eu
a peguei e fiz carinho nela, mas, estranho,
não era a mesma gata. o pelo era áspero
e os olhos, malignos. joguei-a no chão
e observei sua fuga, olhar raivoso em cima de mim.
então entrei no carro
e fui embora.

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