Poemas neste tema

Cidade e Cotidiano

Martha Medeiros

Martha Medeiros

casada, três filhos, arquiteta

casada, três filhos, arquiteta
não foi vista tomando um campari
na companhia de um turista alemão


senhor respeitável, discreto, comprometido
não foi apanhado em flagrante
com uma morena gostosa sem sutiã


filha de deputado, 17 anos, namorado firme
não foi surpreendida nos braços de outro
quando deveria estar na aula de inglês


senhora decente, viúva, cinquentona
não foi alvo de comentários
por hospedar na sua casa o marido de alguém


fidelidade é não contar pra ninguém
1 011
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Lira Pedestre

Gerontologia econômica

Simone de Beauvoir, tua lição
não me interessa, não, sobre a velhice.
Prefiro agora ver José da Cruz,
mineiro de Ouro Preto (quem diria?),
trabalhando de dar sumiço a velhos.
“Já não valem mais nada”, ele declara.
Como não? Valem muito: à custa deles,
cria José, em meio à vida cara,
uma nova e rendosa profissão.


No balcão

O cafezinho está mais caro?
Sabe melhor o cafezinho?
De diâmetro aumentou a xícara?
A colherzinha não é mais de prata
(se algum dia foi), e um sorriso
de boas-vindas nos acolhe
sob os bigodes do gerente?
É mais café o cafezinho,
mais quente, inspira mais piadas
a seus costumeiros clientes?
Tem um pó mais fino, o adoçante
não mata mais que o ciclamato,
e há no açúcar um princípio
de tornar o dia contente
quando o céu da boca relembra
o cafezinho em pé tomado?
O cafezinho contém mesmo
café do bom, que a velha casa
de nosso avô servia a todos,
e repetiam todos, uai?
Não. Simplesmente, meus amigos,
o cafezinho está mais caro.


Acordo entre cavalheiros

O esquadrão primeiro, depois
de liquidar mil marginais,
ao esquadrão número dois
se dirigiu em termos tais:
— Se tu me tascas, eu te tasco,
não sobra um para semente.
É melhor acordo: um carrasco
não deve morrer inocente!


Quem avisa amigo é

Que vontade antiga de ir a Roma,
ver as coisas antigas, sentir
a alma antiga das coisas.
Certa manhã,
entrar na Basílica de São Pedro,
procurar Miguel Ângelo:
ainda briga muito com Bramante?
Depois, ajoelhar-me,
pedir a Deus a graça, entre milhares,
de que careço…
— Ah, isso não — adverte Paulo VI
em amistoso alarme:
É tão esplendoroso aqui, bofé,
que rezar nesta igreja não dá pé.

25/04/1970
635
Martha Medeiros

Martha Medeiros

vestidos muito longos e justos incomodam

vestidos muito longos e justos incomodam
o beijo dos galãs não tem sabor
e Hollywood fica longe demais
do meu supermercado favorito


ser bela e calma, quanta inutilidade
mais vale um bom olhar profundo
e uma vida de verdade


dois filhos de cabeça boa
um marido bem tarado
uma empregada chamada Maria
cinema de mãos dadas
um salário legal no fim do mês
aquela viagem marcada


novela, trânsito, profissão
sexo, banho morno, musse de limão


me corrijam se eu estiver errada
a realidade é nossa maior fantasia
688
Ruy Belo

Ruy Belo

Mors semper prae oculis

Narro-me letra por letra para ti
e sou a breve palavra que tu deixas
como uma esteira branca
no céu azul do tempo
Subo tijolo a tijolo até ás tuas mãos
e sou dos edifícios da cidade
um dos que hão-de ruir amanhã
Tombaram-nos primeiro os avós
e chega já a vez dos nossos pais
Quando faltar um choupo
no caminho da infância que vai dar ao rio
receberemos no rosto a morte
com a surpresa do primeiro homem
Eu fui um dia um nome escrito numa pedra
onde as mulheres da minha aldeia
batiam a roupa que nos cobre no tempo
E depois já não soube mais nada
mas a primavera passou rente a mim:
a morte fora continuava


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 39 | Editorial Presença Lda., 1984
1 220
Martha Medeiros

Martha Medeiros

pois não, senhor

pois não, senhor
disse assim que viu todo encurvado
com aquele paletó surrado
o cliente que acabara de entrar


estava sentado ali na praça, mocinho
nada fazia, só relembrava
quando surgiu uma dor de cabeça danada
resolvi lhe procurar


pois não, senhor
já consultou um doutor?


pior que a cabeça é o estômago
nossa, como incomoda
ainda ontem, contrariado
dormi todo contraído


pois não, senhor
sal de frutas, conta-gotas, antitérmico?


para complicar minha situação
tenho pedra nos rins
não disfarce, pode ter pena de mim


pois não, senhor
drágeas, xarope, injeção?


não vou nem lhe mostrar minha garganta
tão inflamada que mal posso lhe contar
todas as doenças que tenho


pois não, senhor
pomada, colírio, expectorante?


bem se vê que não tens experiência, rapaz
pois cá estou nesta farmácia
feliz de poder conversar
mas pra não dizer que lhe tomei o tempo
com licença, vou me pesar
1 092
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Queda

Por que caiu o elevado?
Por deficiência do projeto
que falhou no cálculo das tensões
e não previu uma abertura
na laje superior?
Por falta de injeção
de calda de cimento?
Defeito nos aparelhos
de apoio de neoprene?
Artes da fatalidade,
que assume o ônus das catástrofes?
Por culpa de que, de quem
caiu o elevado?
Vai começar a discussão
na batalha judicial.
Os nomes técnicos espocam
em esplendor processional.
Os culpados juram inocência.
Os inocentes serão culpados?

O culpado sou eu, você,
que não sabemos uma palavra
das palavras que cruzam no ar?
Que não cursamos o curso
dos engenheiros,
não fundamos a firma
dos empreiteiros,
não integramos a equipe
dos inspetores,
e assistimos ao desabamento
de um monumento
como uma xícara
caindo das mãos
e cujos cacos
esmagam vidas, fuscas e ônibus
na — ironia —
avenida do nome ilustre
de Frontin?

De quem a culpa? Está-se apurando
entre destroços.
Se cai o resto,
antes de findo o julgamento?
E, se não cai,
ficará o colosso mutilado
entre céu e terra
no ofício de fantasma,
apavorando quem passar?

Na paz conquistada
já não correm perigo
os mortos do elevado.
E os vivos?

15/01/1972
660
Ruy Belo

Ruy Belo

Quanto morre um homem

Quando eu um dia decisivamente voltar a face
daquelas coisas que só de perfil contemplei
quem procurará nelas as linhas do teu rosto?
Quem dará o teu nome a todas as ruas
que encontrar no coração e na cidade?
Quem te porá como fruto nas árvores ou como paisagem
no brilho de olhos lavados nas quatro estações?
Quando toda a alegria for clandestina
alguém te dobrará em cada esquina?



Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 38 e 39 | Editorial Presença Lda., 1984
1 831
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

No ocaso, sobre Lisboa, no tédio dos dias que passam,

No ocaso, sobre Lisboa, no tédio dos dias que passam,
Fixo no tédio do dia que passa permanentemente
Moro na vigília involuntária como um fecho de porta
Que não fecha coisa nenhuma.
Meu coração involuntário, impulsivo,
Naufraga a esfinges indigentes
Nas consequências e fins, [acordando?] no [além?]...
1 379
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Bolsa, o Bolso

“À Bolsa!” é o novo grito. A Bolsa, a vida
em milhares de ações reflorescida.
Investir é o mot d’ordre. Investimento
com sua rima de financiamento.
A Belgo deu filhote? A Brahma chama?
A Sousa Cruz do lucro atiça a flama?
Estou de olho na José Olympio
(Querer uma bolada não é ímpio.)
Discutem dois garotos. Investiram.
No quadro as cotações, atentos, miram.
Aquela é sua, bicho? Ai, antes fosse.
(Ao portador: Vale do Rio Doce.)
Viu mulher investindo? E como investe
em indústrias no Norte e no Nordeste.
Já não fala em dez-mais, em longo e mídi:
é Bradesco, Banespa, BEG e BIDE.
Compre na baixa, venda na alta. Eis tudo
que se exige. De leve, de veludo.
O Banco do Brasil, a Petrobras
estão enchendo de ouro o meu cabaz.
Que fazer com o excesso de tutu,
de que meu bolso outrora andava nu?
Rumo à Bolsa de Arte, e arrematar
dois Volpi, três Dacosta e mais Guignard,
não esquecendo, é claro, Cavalcanti
(Di), Djanira, Pancetti, tutti quanti
couber na cobertura da Lagoa.
Não tenho cobertura? Oh, essa é boa.
Compro-a logo na Barra da Tijuca,
de faz de conta, sonho. Minha cuca
vai abrindo outras Bolsas de Valores:
de Glória, de Poder, de Amor-Amores.
A Bolsa de Beleza, a de Romance,
a de Poesia, pelo maior lance.
Ações de tudo. Até de não agir,
de quedar no Arpoador, calmo, a sorrir.
A Bolsa de Viver em Paz… existe
só na Utopia, que, teimosa, insiste?
Uma Bolsa onde todos os papéis
se despojassem de signos cruéis,
e os bens tivessem nome de Alegria,
de Tolerância como de Harmonia.
Estou pedindo muito. Os pacifistas,
eles próprios, violentos, jogam cristas
com os belicosos. Só me resta, mesmo,
em verso pobre divagar a esmo.
O índice BV (Boa Vontade)
bate de porta em porta na cidade
de muros de granito ou de basalto,
mas quem abre, com medo de um assalto,
nas partes repartidas do planeta
cada vez mais confuso e de veneta?
Enquanto não se adensa tal miragem,
vou também, parafuso na engrenagem,
tentando o meu joguinho. À Bolsa! O bolso,
quero-o bem cheio, múltiplo reembolso.
Que títulos comprar? Aço, tecidos?
Docas, brinquedos, plásticos, sabidos
negócios, ou empresas de futuro?
Não sei se vejo claro ou vejo escuro.
Vale-me, corretor, vale-me, sorte,
nas jogadas de macro ou micro porte,
que eu prometo, se acerto na tacada,
a dica fornecer para a moçada,
e fundarei também a minha empresa
de capital aberto, em volta à mesa
de papo ameno e dose bem legal
de escocês dividendo… Então, que tal?
09/05/1971
1 350
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Microlira

Festival da Canção

Esta dúvida mordente
eu peço que se esclareça.
Quando a música é mais quente:
com cabeça ou sem cabeça?


Arte

No Salão Moderno
obras se desfazem
antes de exibidas.
Resumo:
são consumidas
em autoconsumo.


Solução

O papagaio atleticano
não vai calar o gol do Galo,
e não é justo nenhum plano
que tenha em mira silenciá-lo.

Evitem, pois, brigas forenses.
Outro projeto, mais certeiro,
aqui proponho aos cruzeirenses:
É ensinar: “Gol do Cruzeiro”

a um papagaio de igual força.
Haja, entre os dois, uma peleja
em que cada mineiro torça,
e, entre foguetes e cerveja,

o papagaio vitorioso
proclamado seja campeão
desse grato esporte verboso
de que sente falta a Nação.


Trato e distrato

Em Paris, um tratado
gravemente firmado
renova outro tratado
longamente ajustado,
pesado, blablablado,
que tinha estruturado
o muito fofocado
acordo estipulado,
agora validado
e bem atualizado
para ser destratado
por um outro lado
conforme for do agrado
ou não, e emaranhado
o risco do bordado
da guerra do passado,
amanhã retramado.
Tudo bem combinado,
medido e conformado,
eis fica evidenciado:
Todo e qualquer tratado
deve ser observado
como papo-furado.


A renda cortada

Ante o decisório
voto do Supremo,
ai — geme o notário,
no amargor extremo.
Público e notório
o ganho planetário
deste meu cartório?
Sim, mas que precário!


Falta uma cartilha

Problema na pista:
Educar pedestre
mais o motorista.
Mas cadê o mestre
que eduque automóvel?


Força do hábito

Em grupo ou sozinho,
em casa ou em viagem,
de avião ou balsa,
Nixon, precavido,
no bolso da calça
leva o aparelhinho
de autoespionagem.


Dúvida

A paz entre os maçons
pede acurado exame.
Será mais complicada
que a paz no Vietname?


Superstição

Por mera precaução
ou velada crendice,
para evitar desgosto
resolve João Brandão:
— Chegando a um alto posto,
serei meu próprio vice.


Enigma

Faço e ninguém me responde
esta perguntinha à toa:
Como pode o peixe vivo
morrer dentro da Lagoa?

16/06/1973
1 572
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Nova Rua São José

Cultivando o prazer de andar a pé,
tiro de meus alforjes lexicais
o mais puro louvor a Gildo Borges,
renovador da Rua São José.

Quem ali passa logo se detém,
senta no banco (banco de sentar,
não de pagar imposto e duplicata)
e escuta, embevecido, uma sonata.

De que piano vem, música errante,
se não vejo instrumento musical?
Vem de sentir no ar essa aliança
entre a cidade e a forma natural.

É pedaço de rua, por enquanto,
mas nele se devolve à criatura
o pouso, a paz, a pomba, o pensamento
de existir, existindo com doçura.

Em seus vasos, a múltipla folhagem,
ainda tímida, pede-nos licença
para nos ofertar sua presença
consoladora do monstro-garagem.

A flor, em flor, na rua — que convite
ao passante angustiado: “Para um pouco.
Dez ou quinze minutos de far niente
e voltarás depois ao mundo louco.

Mas voltarás de cuca restaurada,
alma leve, levando na lembrança
um bailado de asas e a dourada
alegria da hora lenta e mansa.

Aqui não te perseguem carro trêfego,
maléfica fumaça, rumor túrbido,
aqui encontrarás paradisíaca
pasárgada de pobre e milionário.

Aqui é teu domínio; aqui és rei
de teu nariz, das nuvens e das aves,
e fruirás o simples estar quieto,
erigindo o relax em tua lei”.

Assim murmura a flor, e corre a brisa,
“Apoiado”, ciciando ao perpassar,
enquanto São José, na sua igreja,
e Tiradentes põem-se a meditar

(pois estátua medita) e os dois reunidos
aprovam Gildo Borges e seu sonho
de tornar a cidade mais humana
e cada ser humano mais humano.

11/08/1973
1 150
Martha Medeiros

Martha Medeiros

há quase meio ano

há quase meio ano
que não te vejo vibrar com um gol
que não falas nada do trabalho
que não fazes um comentário positivo
ou negativo
faz muito tempo que não ouço tua opinião
sobre um casaco na vitrine
sobre um artigo de jornal
sobre a morte de um artista
se vai chover ou não
qual foi a última vez
que você lembrou de um aniversário
diga qual é todo o meu nome
atenda uma vez o telefone
comente a sujeira do chão
faça qualquer bobagem
para mostrar que ainda está vivo
que alguma coisa ainda faz sentido
e que não existe só a televisão
transmita o que você sente
comente o fim da novela
fale do absurdo da prestação
diga se gostou do meu vestido
brigue com o zelador
elogie o feijão com arroz
se você não está mais aqui
busque seu corpo então
1 118
Ruy Belo

Ruy Belo

Espaço preenchido

Somos todos de aqui. Basta-nos a pátria
que uma tarde de domingo -nos consente
entre folhas de outono e frases de abandono
E abrem-se-nos ruas
para ir a sítios demasiado precisos
quando um só sítio se encontra
ao fim de todas as ruas e de todos os rios
Somos todos da raça dos mortos
ou vivos mais além
Mensagens de outra pátria não as traz
arauto algum que o nosso tempo vestisse

O que é preciso é dar lugar
aos pássaros nas ruas da cidade


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 40 | Editorial Presença Lda., 1984
1 358
Vasko Popa

Vasko Popa

Dente de leão

Na beira do passeio
No fim do mundo
Olho amarelo da solidão

Cegos pés
Apertam-lhe o pescoço
No abdômen de pedra

Cotovelos subterrâneos
Empurram suas raízes
Para o húmus do céu

Pata canina ereta
Faz-lhe troça
Com o aguaceiro recozido

Contenta-o apenas
O olhar sem dono do passante
Que em sua coroa
Pernoita

E assim
A ponta de cigarro vai queimando
No lábio inferior da impotência
No fim do mundo


1 047
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Pré-Inverno

— E vem um novo inverno todo em vês
ou todo em is? de frio fino e… — Flora!
Este babado de poetar já era.
Agora
a coisa tem que ser assim:
In
ver no par que o ver de
ar pi pila.
— Traduza para mim. — Pois não:
Inverno. Parque. O verde ar pipila.

— Não era o par que pipilava amores
no verde parque?
— Como quiser. O jogo é múltiplo.
Seja também assim:
Noverin pardever que lapipi.
— Parece nome de remédio!
— E daí? Os mais lindos sons da língua
são nomes de remédio, e cobram royalties.

Ah, declaro o papo fin-
do, antes que inverno pegue fogo.
Muito melhor ouvir o Tom Jobim
cantar, pianoviolão,
no Jardim das rosas, de sonho e medo,
no clarão das águas, no deserto negro,
enquanto, lerê, lará,
o Matita Perê negaceia:
“Eu quero ver, eu quero ver
você me pegar.”
Quem pega Tom Jobim, no Rancho das nuvens,
de Nuvens douradas? Leva Ana Luísa
no Trem para Cordisburgo. Conta-lhe
a Crônica da casa assassinada.
Fala de Milagres e palhaços,
e se é Tempo de mar, com Pedrinho de Morais,
Chora o coração de Vinicius de Moraes.
Fluem, fluem
as Águas de março e vai fluindo
em poesia rosiana
o límpido som
de Tom,
na palma da mão, cor do Brasil.

Vejo camisolas de algodão
(modelos decotados) nas vitrinas;
frente única de lã, e barriguinhas
de fora, desfilando na calçada.
É um frio maroto, com saudade
do verão, ou o verão reincidente
a infiltrar-se, maroto, neste inverno?
De pés de lã, brotos de Lan
mimam na praia o rito carioca:
(in) verniverão.
O rito?
O mito?
Esta cidade é um tanto periquito
australiano, de assobio colorido
especialmente alegre todo ano,
e faz do pré-inverno pré-estreia
do calor de dezembro a florescer
na rosinha do umbigo das garotas.

Cai um pingo de chuva nesta página?
Salta do solo o Sol e sela a sala
de ouro.
— Não é nada disto (protesta o Poet/Sintétiko),
Negó seguin:

RIO RAIO RISTE
PRAIA SPRAY
SOL
SAL
SUL
SAL MAIOR
SUL MELHOR
SOL BEMOL

12/05/1973
1 333
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Notícias de Janeiro

Janeiro:
preparo lento e longo combimed
o coração batendo comcitec
nervos elétricos comsart
na geografia
que o Rio transformou em Cesgranrio.
Janeiro, estoura o grito
de euforia em frente ao gabarito
ou o morder de lábios do malogro
que o computador tritura em números.
(Computador: cara moderna do destino.)
Janeiro, o ano inteiro
a repetir os jogos malabares
da arte de decifrar em amarelo
rosa verde azul e cor de angústia
a quíntupla verônica da esfinge?
Janeiro, me levaste
(ah, não foi justo este começo de ano)
o mais jovem poeta brasileiro,
aquele que ia sempre mariscando
dentro do verso um outro verso
não verso, exato signo
no campo visual onde o poema
envolve em sua luz a linha livre.

Caríssimo Cassiano
Ricardo em Lourdes completado,
sutil denunciador
de nossa condição sobrevivente
à espera de nascer,
como nasce a caviúna
de sua própria raiz,
solene anunciador
da infância futura.

Requintaste, janeiro, em desfalcar-nos,
e já nos levas outro: Nilo Aparecida,
poeta-concha, quase silencioso
conversador da Rua São José
(ou sua concha era o castelo do soneto
despojado de enxúndias parnasianas,
objeto sereno e cristalino?).

Outras faltas prometes, e já vejo
um ano despojado de matérias-
-primas, ano de tanga
ou sem ela. Faltará também amor,
essa matéria-prima entre as mais primas,
que resume em rondó todas as rimas?
Faltará ao encontro a namorada
como à vista faltou o Kohoutek?
Juízo faltará… ou já faltava,
e a gente nem sequer desconfiava?

Não me faltem ao menos os crepúsculos
no salso belvedere do Arpoador,
mesmo que eu lá não vá; quero saber
do ir e vir de gaivotas, e da tarde
pousando sobre a espuma em leque de íris.

Quero, 74, ter a graça
de ver uma rolinha visitar
a janela e, chegando entre meus livros
e o rosto de Baudelaire por Manet
gravado (que é presente de uma amiga),
sair sem censurar que perdi tempo,
meu tempo consumindo entre aparências
de sombras, palpitantes nessas páginas.

O que te peço? Umas pequenas coisas,
independentes de poder ou guerra,
umas coloridas, outras brancas,
todas leves, levíssimas, no vento…
Ora, atende-me, pois; vê se te mancas.

19/01/1974
615
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Esparsos de 1976

Rios de Petrópolis

A poluição faz rios coloridos.
Não é tão feia assim. Como atração
reproduz, em matizes escolhidos,
as belas cores da televisão.

*

Mais uma

Novo serviço: tacar fogo
mediante módico estipêndio.
Se já pagamos taxa d’água,
vamos pagar taxa de incêndio.

*

Propaganda eleitoral

Na TV, só teu retrato,
com teu número e teu nome.
Serás mesmo candidato
ou simples sombra que some?

*


Aniversário

Ó Palácio da Cultura!
Quem te viu e quem te vê,
tão desfigurado, jura
fitar, nesse miserê,
a tua caricatura.

*

Candidato

Se sai o tabelamento
de artigos alimentícios,
requeiro neste momento
gozar de seus benefícios,

não para baixar o preço
das coisas essenciais,
mas para entrar sem tropeço
no batalhão dos fiscais.

*

150 anos da Câmara dos Deputados

É rima difícil: Câmara
e controvérsia ilimitada.
A mais tentadora tâmara
perde o sabor quando enlatada.

*


Repetição

Aumenta o salário mínimo?
O custo de vida, máximo,
torna o mínimo mais mínimo
criando o mínimo máximo.

*

Comércio da privacidade

Mas esta é a velha Garbo, seminua
assim na praia, lamentavelmente?
Não. O retrato, em que a maldade estua,
é da alma do fotógrafo, somente.

*
848
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Textos Mínimos

Cariocas:
do alto do Pão de Açúcar
40 casais de turistas
vos contemplam sem História.

De repente fica na moda
não estar na moda.
Torna-se impossível
estar, estando.

Arrependido
o ladrão devolveu
aquele quadro falso do Museu.

O sino da igreja desabada
caído no chão
repica em silêncio.
Cada badalada
cria a procissão.

Gosto tanto de ir ao teatro
que por amor ao teatro
vê lá se vou ao teatro.

Solto na jaula
o tigre observa
o Jardim Zoológico
do mundo.

Chovia tanto tanto
naquele reino da Ásia

que a chuva dissolveu
o rei com seu palácio e suas leis.

Arte dos 70:
sacramento
do excremento.

Declara o cientista
que floresta não presta
e no seu lugar
plante-se capim.
Teremos, a perder de vista,
no capinzal da Amazônia,
o pasto da ciência?

Assim termina
o autopoema:
A poesia é necessária,
mas o poeta, será?

— O senhor cultiva
epigramas?
— Não, só a grama
do meu jardim.

Última palavra
em computador:
o anticomputador.

A bomba francesa
detonada longe
da douce France
é uma garantia
para quem escapa
e sendo turista
respira e deduz:
Paris intacta
continua sendo
a Cidade-Luz.

Quando acabarem de consertar
este atrapalhado Rio de Janeiro
haverá morador
para o prazer de morar nele?
E haverá morada
para o morador?

Cartão de identidade
(informa o broto cintilante)
não levo comigo.
Acho bastante
o umbigo.

A casa, na avenida,
postou-se no rumo
do automóvel.
Quem mandou ser distraída?

Se as nações alinhadas
perdem a linha,
fazem cada papel,
prefiro Tia Miquinha
alegre desalinhada,
revel.

O dono do Sítio Paraíso
derrubou a mata,
mas ecologicamente
comprou uma gravata
verde.

O garoto curioso
pergunta:
No Colégio Eleitoral
haverá prova pública
pelo audiovisual,
ou simples aprovação
por antecipação?

08/09/1973
647
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Carnaval Chegando

A vitória

A Escola de Samba Unidos da Floresta
— já ganhou! já ganhou! —
desponta garbosíssima, sem medo,
na Avenida Antônio Carlos
entre cadáveres de árvores.
Vence todos os quesitos e esquisitos
(outros mais, se inventassem, venceria)
com seu maravilhoso samba-enredo:
Amor, Todo o Amor à Ecologia.


Turista

— Que dura arquibancada! — Este protesta.
Ver o desfile, assim, castiga o corpo…
E o corpo, de sabido, lhe retruca:
— Não é melhor ficar fazendo sesta
naquele hotel da Barra da Tijuca?


Tantos anos depois

O velho político pessedista
nascido perremista
observa, satisfeito,
e pisca o olho, triunfante:
— Agora, lavo o peito.
Vivi bastante
para ver Getúlio Vargas
entregar o poder a Antônio Carlos.


Confidência

— Qual a sua fantasia para o baile do Municipal?
— A você (mas não espalhe) eu digo.
Vai ser a mais original.
Esconderei completamente o umbigo.


Previsão

Qualquer dia
decide o fisco:
Passistas
bateristas
destaques
mestres-salas
porta-estandartes
trabalhadores autônomos
da folia
devem pagar imposto de alegria.


Lacuna carioca

Carece urgentemente construir
larguíssima avenida, reservada
aos caprichosos passos do ir e vir
não de pedestres, mas da batucada.


Pronunciamento

— Caro mestre estruturalista,
pode dizer-me, porventura,
se há perigo aqui na pista,
de me esmagar, a uma lufada,
a estrutura da arquibancada?
— Isso depende (e eu digo antes
que Barthes ponha numa escritura)
da radotagem dos actantes,
como também (partes iguais)
de isotomias fundamentais
verbalizadas quando o problema
dribla o sema e chega ao semema
pela leitura sintagmática
de monemas paradigmáticos…
Morou, ignaro?
— Perfeito, claro. O mestre dava
para letrista de samba-enredo.

09/02/1974
1 218
Anízio Vianna

Anízio Vianna

Aviso na entrada do cinema

não nos responsabilizamos por objetos perdidos na sala
não nos responsabilizamos por perdidos na sala
não nos responsabilizamos pelo escuro da sala
não nos responsabilizamos pela sala

não nos responsabilizamos pela prática de atividades
escusas no escuro da sala não nos responsabilizamos
pela venda de objetos estranhos na sala não nos
responsabilizamos por vendidos na sala

não nos responsabilizamos pelo sexo na sala não nos
responsabilizamos por estranhos não identificados
no escuro da sala não nos responsabilizamos por
objetos de estranhos que voam pela sala

não nos responsabilizamos por objetos voadores
não identificados escusos
e perdidos na sala

1 315
Anízio Vianna

Anízio Vianna

via olhos d’água

ao invés de heróis ulisses
um grafiti sem autoria
num muro da rua outono

e sua mão disfarçando o crime na camisa

dentro do ônibus,
enquanto trago um poema,

você tem fogo?

980
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Rua da Amargura

A minha rua é longa e silenciosa como um caminho que foge
E tem casas baixas que ficam me espiando de noite
Quando a minha angústia passa olhando o alto.
A minha rua tem avenidas escuras e feias
De onde saem papéis velhos correndo com medo do vento
E gemidos de pessoas que estão eternamente à morte.
A minha rua tem gatos que não fogem e cães que não ladram
Tem árvores grandes que tremem na noite silente
Fugindo as grandes sombras dos pés aterrados.
A minha rua é soturna...
Na capela da igreja há sempre uma voz que murmura louvemos
Sozinha e prostrada diante da imagem
Sem medo das costas que a vaga penumbra apunhala.

A minha rua tem um lampião apagado
Na frente da casa onde a filha matou o pai
Porque não queria ser dele.
No escuro da casa só brilha uma chapa gritando quarenta.

A minha rua é a expiação de grandes pecados
De homens ferozes perdendo meninas pequenas
De meninas pequenas levando ventres inchados
De ventres inchados que vão perder meninas pequenas.
É a rua da gata louca que mia buscando os filhinhos nas portas das casas.

É a impossibilidade de fuga diante da vida
É o pecado e a desolação do pecado
É a aceitação da tragédia e a indiferença ao degredo
Como negação do aniquilamento.

É uma rua como tantas outras
Com o mesmo ar feliz de dia e o mesmo desencontro de noite.
É a rua por onde eu passo a minha angústia
Ouvindo os ruídos subterrâneos como ecos de prazeres inacabados.
É a longa rua que me leva ao horror do meu quarto
Pelo desejo de fugir à sua murmuração tenebrosa
Que me leva à solidão gelada do meu quarto...

Rua da amargura...
1 190
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Vida Passada a Limpo

Ó esplêndida lua, debruçada
sobre Joaquim Nabuco, 81.
Tu não banhas apenas a fachada
e o quarto de dormir, prenda comum.

Baixas a um vago em mim, onde nenhum
halo humano ou divino fez pousada,
e me penetras, lâmina de Ogum,
e sou uma lagoa iluminada.

Tudo branco, no tempo. Que limpeza
nos resíduos e vozes e na cor
que era sinistra, e agora, flor surpresa,

já não destila mágoa nem furor:
fruto de aceitação da natureza,
essa alvura de morte lembra amor.
1 154
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A WINTER DAY

I

'Tis a void winter day, sad as a moan.
A sense of loneliness, as of a stone
Upon a grave, or of a rock in sea
Rests like a mighty shadow over me.
I am unnerved, unminded by the pall
Of solemn clouds that, weighty over all,
Curtail the vision; and upon mine ear

The City's rumble brings despair and fear
To crush my spirit free and wild.
        The rain,
Reiterated horribly, again
Beast with its drops at my cold window‑pane
With such a sound as makes us know it cold.
The world is ghostly, undaylike and old,
And weary passengers, with cautious tread,
Yet hurried, walk within the streets soul‑dead
In the unkindness of their hue of lead.

The streets are streamlets, and perpetual
A sound of little waters, on roof, on wall,
Down in the streets, in pipes, in window‑glass
And into rooms doth wetly come and pass.
        All is the rain's.
All is pale wetness, darkness inly cold,
A sentiment of waste things and of old
Making all things exterior sorrows, pains;
And all we hear and feel and know and see
Is wrapt around as with a masking cloak
In inconceivable monotony.

All in the houses and up from the street
Is a long watery shuffle of heavy feet,
A sound of drenched garments, and a sense
Of a sad chillness, latently intense.
Through cracks in doors and windows a gust cold
Of wind penetrates like a memory of old
Times to make freeze my body, ill reclined
Upon a couch, a sufferer with my mind.

Life in the streets is sad, a monotone
More dull than usual ordinariness:
Business and work have lost their usual stress,
The vender's cries are each of them a moan
Grotesque, desolate, as forlorn and half‑dead
Hearts might produce which make a war (?) attempt
At talking normally, as if they not bled.
Half‑childish urchins, gloriously unkempt
Laugh at the water that cart‑wheels upshed.

The muddy urchins in the streets that play
Make shades of envy in my soul to stay.
Couples, some newly‑married, others not,
Who in the commonness of their no‑thought

Have a deep happiness I would not have,
A joy to which I would prefer the grave,
Pass in the street. some gay and some sedate.
I feel me no like men in any way.
I envy those - I speak true - without hate
And without admiration, isolate (?).
I would that l were happy as they are
But not with that their happiness. Thus far
Such living as theirs is were unto me
Misery, penury, monotony.

Alas for all who dream! Alas for us,
Poor poets, more or less mad, more or less
Foolish! In this consists true happiness!
In knowing how to be monotonous.
Happy are they who can see without sorrow
        To‑day yield us to‑morrow
And yet to‑morrow and to‑day to them
Different days because different days,
Which are to me (save that they pass) the same.

II

The view I have of this cold winter day,
The deep depression that makes my thoughts stray
Is but a symbol and a synthesis
Of what my life perpetually is.

How deep my thoughts in pain and sadness are!
How wreck'd my soul in its intense despair!
How desolate, disconsolately mute
My heart is of the words that like scents shoot
From the full flower of true youthfulness!
How locked am I within my own distress!
How in the tragic circle soul‑confined
        Of my abhorred self!
Not one ambition leads me - power nor pelf,
No wish for fame, no love of poor mankind.
But I am weary, desolate and cold
E'vn as this winter day. I have grown old
In watching dreams go by and pass away
        Leaving a memory pure and bright
        Of aught that was and died as light
Without the living horror of decay.

Is this thy life, irresolute soul of mine?
How pale the sun of thy sad morn doth shine!
How it forebodes the cloudiness that comes
Outstretched wings of the storm whose muffled drums
Of warning in the paling day are heard
Deep in the distance lesseningly blurred.

Thou look'st not death nor evil in the face
Poor soul despairing in life's troubled race!
All forms of life, all things have been to thee
Mutations of eternal misery.
All years, all homes to thee have been
In the same drama many a change of scene.
Thou hast not learned to live, but thou dost cling
Madly to life (dreading Death's night severe),
As if life or the world were anything!
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