Poemas neste tema
Cidade e Cotidiano
Martim Soares
Nostro Senhor, Com'eu Ando Coitado
Nostro Senhor, com'eu ando coitado
com estas manhas que mi quisestes dar:
som mui gram putanheir[o] aficado
e pago-me muito d'os dados jogar;
des i ar hei mui gram sabor de morar
per estas ruas, vivend'apartado.
Podera-m'eu bem, se foss'avegoso,
caer em bom prez e honrado seer;
mais pago-m'eu deste foder astroso
e destas tavernas e deste bever;
e, pois eu já mais nom posso valer,
quero-m'andar per u seja viçoso.
E pois eu entendo que rem nom valho,
nem hei por outra bondad[e] a catar,
nom quer'eu perder este fodestalho,
nem estas putas nem est[e] entençar,
nem quer'ir per outras fronteiras andar,
perdend'o viç'e dando-mi trabalho.
Ainda eu outras manhas havia,
per que eu nom posso já muito valer:
nunca vos entro na tafularia
que lhi nom haja algum preit'a volver;
porque hei pois em gram coita [a] seer,
é fugir [e] guarir na putaria.
E pois, quando me vej[o] em meu lezer,
merendo logo; e pois vou mia via;
e leix[o] i putas de mi bem dizer,
e de mias manhas e de mia folia.
com estas manhas que mi quisestes dar:
som mui gram putanheir[o] aficado
e pago-me muito d'os dados jogar;
des i ar hei mui gram sabor de morar
per estas ruas, vivend'apartado.
Podera-m'eu bem, se foss'avegoso,
caer em bom prez e honrado seer;
mais pago-m'eu deste foder astroso
e destas tavernas e deste bever;
e, pois eu já mais nom posso valer,
quero-m'andar per u seja viçoso.
E pois eu entendo que rem nom valho,
nem hei por outra bondad[e] a catar,
nom quer'eu perder este fodestalho,
nem estas putas nem est[e] entençar,
nem quer'ir per outras fronteiras andar,
perdend'o viç'e dando-mi trabalho.
Ainda eu outras manhas havia,
per que eu nom posso já muito valer:
nunca vos entro na tafularia
que lhi nom haja algum preit'a volver;
porque hei pois em gram coita [a] seer,
é fugir [e] guarir na putaria.
E pois, quando me vej[o] em meu lezer,
merendo logo; e pois vou mia via;
e leix[o] i putas de mi bem dizer,
e de mias manhas e de mia folia.
564
Heiner Müller
Olhar estranho: despedida de Berlim
De minha cela perante a folha em branco
Na cabeça um drama para plateia nenhuma
Surdos os vencedores os vencidos mudos
Sobre a cidade estranha um olhar estranho
Cinza-amarelas passam as nuvens sobre mim
Branco-cinza cagam as pombas sobre Berlim
:
Fremder Blick: Abschied von Berlin
Aus meiner Zelle vor dem leeren Blatt
Im Kopf ein Drama für kein Publikum
Taub sind die Sieger die Besiegten stumm
Ein fremder Blick auf eine fremde Stadt
Graugelb die Wolken ziehn am Fenster hin
Weißgrau die Tauben scheißen auf Berlin
Na cabeça um drama para plateia nenhuma
Surdos os vencedores os vencidos mudos
Sobre a cidade estranha um olhar estranho
Cinza-amarelas passam as nuvens sobre mim
Branco-cinza cagam as pombas sobre Berlim
:
Fremder Blick: Abschied von Berlin
Aus meiner Zelle vor dem leeren Blatt
Im Kopf ein Drama für kein Publikum
Taub sind die Sieger die Besiegten stumm
Ein fremder Blick auf eine fremde Stadt
Graugelb die Wolken ziehn am Fenster hin
Weißgrau die Tauben scheißen auf Berlin
1 007
Charles Bukowski
Liberdade
ela estava sentada na janela
do quarto 1010 no Chelsea
em Nova York,
o antigo quarto de Janis Joplin.
fazia 40 graus
e ela estava alterada
e tinha uma perna para fora
do peitoril,
e se inclinava para fora e dizia,
“Deus isso é ótimo!”
e então ela escorregou
e quase caiu lá embaixo,
agarrando-se no momento final.
foi por pouco.
voltou para dentro e se esticou
na cama.
já perdi um bocado de mulheres
de um bocado de modos diferentes
mas teria sido
a primeira vez
desse modo.
então ela rolou da cama
caindo de costas
e quando me aproximei
ela estava dormindo.
ela passara o dia todo querendo
ver a Estátua da Liberdade.
agora por um tempo ela não me incomodaria
com isso.
do quarto 1010 no Chelsea
em Nova York,
o antigo quarto de Janis Joplin.
fazia 40 graus
e ela estava alterada
e tinha uma perna para fora
do peitoril,
e se inclinava para fora e dizia,
“Deus isso é ótimo!”
e então ela escorregou
e quase caiu lá embaixo,
agarrando-se no momento final.
foi por pouco.
voltou para dentro e se esticou
na cama.
já perdi um bocado de mulheres
de um bocado de modos diferentes
mas teria sido
a primeira vez
desse modo.
então ela rolou da cama
caindo de costas
e quando me aproximei
ela estava dormindo.
ela passara o dia todo querendo
ver a Estátua da Liberdade.
agora por um tempo ela não me incomodaria
com isso.
1 282
Alberto da Costa e Silva
Outro Adeus
Sob o teto e a ferrugem
do mercado, em Fortaleza,
ele tocava a rabeca
e era cego. Tocava
com a cabeça inclinada,
esta mesma que vejo
na fieira de músicos
sobre a porta da igreja
larga e ocre de Sória,
os mesmos pés descalços
e chagados na pedra,
e a voz que me chega,
baixa, rouca, irritante,
toda sujo e pobreza.
Como dizer a outrem
o que está no meu sangue?
Que levei ao curral
os corcéis de Patroclo
e deitei minha nuca
sobre um colo de espinhos?
Mas, em Medinaceli,
Alberca e entardeceres,
senti o mesmo cheiro
de palha, urina e pêlo
de um jumento suado
sob o sol de Sobral
e o rancor da saudade
e a saudade sonhada.
Por que reparo tanto
em cada coisa, atento
ao poro, ao grão, ao risco,
ao veio, à sombra e ao brilho?
Para me amanhecer.
E não ter, à distância
de outro chão e outra luz,
esta carne. Contemplo
o cego e o céu do tempo:
um odor de farelo
repousa a servidão
deste corpo em que perco
o que em nós há de encontro
entre o ausente e o eterno.
In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. Poema integrante da série As Linhas da Mão.
do mercado, em Fortaleza,
ele tocava a rabeca
e era cego. Tocava
com a cabeça inclinada,
esta mesma que vejo
na fieira de músicos
sobre a porta da igreja
larga e ocre de Sória,
os mesmos pés descalços
e chagados na pedra,
e a voz que me chega,
baixa, rouca, irritante,
toda sujo e pobreza.
Como dizer a outrem
o que está no meu sangue?
Que levei ao curral
os corcéis de Patroclo
e deitei minha nuca
sobre um colo de espinhos?
Mas, em Medinaceli,
Alberca e entardeceres,
senti o mesmo cheiro
de palha, urina e pêlo
de um jumento suado
sob o sol de Sobral
e o rancor da saudade
e a saudade sonhada.
Por que reparo tanto
em cada coisa, atento
ao poro, ao grão, ao risco,
ao veio, à sombra e ao brilho?
Para me amanhecer.
E não ter, à distância
de outro chão e outra luz,
esta carne. Contemplo
o cego e o céu do tempo:
um odor de farelo
repousa a servidão
deste corpo em que perco
o que em nós há de encontro
entre o ausente e o eterno.
In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. Poema integrante da série As Linhas da Mão.
1 459
Ruy Belo
Ode do homem de pé
"O que vês, escreve-o"
Apoc., I,11
Rua ferida pelo sol mais uma vez te saúdo
pelos passos lentos como o rolar dos anos
pelos dias vulgares cheios de maçãs
pela timidez que na loja nos assalta de pedir o troco
pelas crianças mal vestidas para a vida
nos bicos dos pés te saúdo
pela paixão que transferiu campaspe
do amor de alexandre então dono do mundo
pra o coração de apeles pintor pobre
que tinha como dom o simples dom de olhar
por tantas coisas belas que ficaram fora dos meus versos
pelos rostos presentes pelo grande ausente por tudo
Oh como o sofrimento purifica minha rua
Ele passa-nos as mãos por todo o corpo
desce por nós como um olhar de mãe
e a mais agasalhada vida vê-se nua
Voz justificação de toda esta arquitectura que somos
chove a meu lado atrás de mim na minha frente
Eu mero obstáculo à incondicional vitória da chuva
peço o teu concurso para cantar a rua à chuva
Rua onde as casas olham quase com desgosto
aquela que a seu lado é demolida
onde eu pecador me confesso e agradeço
este milagre de estar vivo ainda na quinta-feira
passadas já segunda terça e quarta
e poder erguer as duas mãos acima da terra
rua onde passaram os meus pais
onde invejei pela primeira vez o vinco das calças dos adultos
onde compartilhei com estranhos a estrela da manhã
e chorei a queda do maior amigo que não sei quem foi
rua onde tudo ganhei tudo logo perdi
onde assisti ao convívio silencioso das mais diversas árvores
e vi van gogh o holandês entre elas esperar as estações
que vinham alegres e submissas de mãos dadas com crianças
onde pensei que a dança liberta da condição de seres poisados que todos temos na vida de todos os dias
e muitas outras coisas que depois esqueci
rua que me levaste a tanto sonho vão
que me viste passar neste meu corpo sem nunca o conhecer
bem pouco basta minha rua para fazer feliz o homem:
acender por exemplo repentinamente a luz
na sala onde pairava um certo mal-estar
o que dissipa como que para sempre a sua triste condição
Ou então na morte do escritor amigo recitar
o elogio fúnebre de há muito preparado
que se haverá de matar ainda mais o morto
a ele vivo terá por força de o imortalizar
Inútil inverter-te como antes rua para renovar a vida
A inquietação que eu sentia quando me esquecia do sinal da cruz
quando de pernas excessivamente livres
cingia não de cruz mas sim de coração os inúteis caminhos
quando se me exigia o sacrifício dos olhares
e era meu dever nunca fazer ruído algum ao passar pela vida
Deixou de ser uma aventura atravessar-te rua
ao fim de ti nem há já esse pequeno almoço
aonde pelo menos qualquer coisa começava
Não disponho de alento para muitos anos
Sinto-me velho: nasci em 33 estamos em 60
vou fazer vinte anos. Isento do serviço militar
incapaz de lutar mandar obedecer
como que fiquei sempre à espera da maioridade
É tempo de assistir aos funerais dos amigos
começo a estar bom para jazer
«bom é acabar» - dizia o vice-rei
Já sou de deus deixei de ter idade rua
ele passou a ser a minha própria idade
não me levou em conta o céu antecipado
e se algum dia porventura alguma criatura me moveu
o deus que é também teu há muito o esqueceu já ó rua
Se título algum tive já me vai caindo
só deus é minha veste e minha história
Que ele me abra ó rua a porta da palavra
Agora que por fim alguém em sua voz me chama
pelos rostos presentes pelo grande ausente
que me livrou num tempo de injustiça por tudo
ao fim de ti ó rua te saúdo mais uma vez te saúdo
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 55 a 57 | Editorial Presença Lda., 1984
Apoc., I,11
Rua ferida pelo sol mais uma vez te saúdo
pelos passos lentos como o rolar dos anos
pelos dias vulgares cheios de maçãs
pela timidez que na loja nos assalta de pedir o troco
pelas crianças mal vestidas para a vida
nos bicos dos pés te saúdo
pela paixão que transferiu campaspe
do amor de alexandre então dono do mundo
pra o coração de apeles pintor pobre
que tinha como dom o simples dom de olhar
por tantas coisas belas que ficaram fora dos meus versos
pelos rostos presentes pelo grande ausente por tudo
Oh como o sofrimento purifica minha rua
Ele passa-nos as mãos por todo o corpo
desce por nós como um olhar de mãe
e a mais agasalhada vida vê-se nua
Voz justificação de toda esta arquitectura que somos
chove a meu lado atrás de mim na minha frente
Eu mero obstáculo à incondicional vitória da chuva
peço o teu concurso para cantar a rua à chuva
Rua onde as casas olham quase com desgosto
aquela que a seu lado é demolida
onde eu pecador me confesso e agradeço
este milagre de estar vivo ainda na quinta-feira
passadas já segunda terça e quarta
e poder erguer as duas mãos acima da terra
rua onde passaram os meus pais
onde invejei pela primeira vez o vinco das calças dos adultos
onde compartilhei com estranhos a estrela da manhã
e chorei a queda do maior amigo que não sei quem foi
rua onde tudo ganhei tudo logo perdi
onde assisti ao convívio silencioso das mais diversas árvores
e vi van gogh o holandês entre elas esperar as estações
que vinham alegres e submissas de mãos dadas com crianças
onde pensei que a dança liberta da condição de seres poisados que todos temos na vida de todos os dias
e muitas outras coisas que depois esqueci
rua que me levaste a tanto sonho vão
que me viste passar neste meu corpo sem nunca o conhecer
bem pouco basta minha rua para fazer feliz o homem:
acender por exemplo repentinamente a luz
na sala onde pairava um certo mal-estar
o que dissipa como que para sempre a sua triste condição
Ou então na morte do escritor amigo recitar
o elogio fúnebre de há muito preparado
que se haverá de matar ainda mais o morto
a ele vivo terá por força de o imortalizar
Inútil inverter-te como antes rua para renovar a vida
A inquietação que eu sentia quando me esquecia do sinal da cruz
quando de pernas excessivamente livres
cingia não de cruz mas sim de coração os inúteis caminhos
quando se me exigia o sacrifício dos olhares
e era meu dever nunca fazer ruído algum ao passar pela vida
Deixou de ser uma aventura atravessar-te rua
ao fim de ti nem há já esse pequeno almoço
aonde pelo menos qualquer coisa começava
Não disponho de alento para muitos anos
Sinto-me velho: nasci em 33 estamos em 60
vou fazer vinte anos. Isento do serviço militar
incapaz de lutar mandar obedecer
como que fiquei sempre à espera da maioridade
É tempo de assistir aos funerais dos amigos
começo a estar bom para jazer
«bom é acabar» - dizia o vice-rei
Já sou de deus deixei de ter idade rua
ele passou a ser a minha própria idade
não me levou em conta o céu antecipado
e se algum dia porventura alguma criatura me moveu
o deus que é também teu há muito o esqueceu já ó rua
Se título algum tive já me vai caindo
só deus é minha veste e minha história
Que ele me abra ó rua a porta da palavra
Agora que por fim alguém em sua voz me chama
pelos rostos presentes pelo grande ausente
que me livrou num tempo de injustiça por tudo
ao fim de ti ó rua te saúdo mais uma vez te saúdo
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 55 a 57 | Editorial Presença Lda., 1984
1 640
Charles Bukowski
Não Toque Nas Garotas
ela está lá em cima vendo meu médico
tentando conseguir umas pílulas para emagrecer;
ela não é gorda, precisa do barato.
sigo até o bar mais próximo e espero.
às 3h20 da tarde de uma terça-feira.
eles têm uma dançarina.
há apenas um outro cara no bar.
ela faz seus passos
olhando-se no espelho.
parece uma macaca
escura
coreana.
ela não é muito boa,
esquelética e previsível
e ela estica sua língua para mim e
depois para o outro cara.
os tempos devem ser bem difíceis, penso.
tomo mais algumas cervejas e me levanto para sair.
ela me acena.
“já vai?”, pergunta.
“sim”, eu digo, “minha esposa tem câncer.”
dou-lhe um aperto de mão.
ela aponta para um cartaz atrás de si:
NÃO TOQUE NAS GAROTAS.
ela aponta para o cartaz e diz,
“o cartaz diz ‘NÃO TOQUE NAS GAROTAS’.”
sigo até o estacionamento e espero.
ela aparece.
“conseguiu as pílulas?” pergunto.
“sim”, ela diz.
“então ganhou o dia.”
penso na dançarina cruzando minha
cozinha. não consigo visualizar. morrerei
sozinho
do mesmo modo que vivo.
“leve-me para casa”, ela diz,
“tenho que me preparar para o curso noturno”.
“claro”, eu digo e a levo embora.
tentando conseguir umas pílulas para emagrecer;
ela não é gorda, precisa do barato.
sigo até o bar mais próximo e espero.
às 3h20 da tarde de uma terça-feira.
eles têm uma dançarina.
há apenas um outro cara no bar.
ela faz seus passos
olhando-se no espelho.
parece uma macaca
escura
coreana.
ela não é muito boa,
esquelética e previsível
e ela estica sua língua para mim e
depois para o outro cara.
os tempos devem ser bem difíceis, penso.
tomo mais algumas cervejas e me levanto para sair.
ela me acena.
“já vai?”, pergunta.
“sim”, eu digo, “minha esposa tem câncer.”
dou-lhe um aperto de mão.
ela aponta para um cartaz atrás de si:
NÃO TOQUE NAS GAROTAS.
ela aponta para o cartaz e diz,
“o cartaz diz ‘NÃO TOQUE NAS GAROTAS’.”
sigo até o estacionamento e espero.
ela aparece.
“conseguiu as pílulas?” pergunto.
“sim”, ela diz.
“então ganhou o dia.”
penso na dançarina cruzando minha
cozinha. não consigo visualizar. morrerei
sozinho
do mesmo modo que vivo.
“leve-me para casa”, ela diz,
“tenho que me preparar para o curso noturno”.
“claro”, eu digo e a levo embora.
837
Fernando Pessoa
Lá fora a vida estua e tem dinheiro.
Lá fora a vida estua e tem dinheiro.
Eu, aqui, nulo e afastado, fico
O perpétuo estrangeiro
Que nem de sonhar já sou rico.
Não sou ninguém, o meu trabalho é nada
Neste enorme rolar da vida cheia,
Vivo uma vida que nem é regrada
Nem é destrambelhada e alheia.
E um século depois terá esquecido
Tudo quanto estuou e foi ruído
Nesta hora em que vivo. E os bisnetos
Dos opressores de hoje, desta louca luta
Saberão, mas vagamente, a data
– E claramente os meus sonetos.
02/09/1922
Eu, aqui, nulo e afastado, fico
O perpétuo estrangeiro
Que nem de sonhar já sou rico.
Não sou ninguém, o meu trabalho é nada
Neste enorme rolar da vida cheia,
Vivo uma vida que nem é regrada
Nem é destrambelhada e alheia.
E um século depois terá esquecido
Tudo quanto estuou e foi ruído
Nesta hora em que vivo. E os bisnetos
Dos opressores de hoje, desta louca luta
Saberão, mas vagamente, a data
– E claramente os meus sonetos.
02/09/1922
3 760
Martha Medeiros
o cenário, o oitavo distrito
o cenário, o oitavo distrito
cheguei às 3:20h da manhã
escoltada por dois policiais
para um encontro com o delegado
público muito restrito
três travestis histéricos
alguém que bebeu demais
e um casal visivelmente drogado
avaliaram o meu modelito
e me levaram pra cela
amanhã vai sair nos jornais
e nem tenho advogado
não sei qual foi meu delito
mas eles têm todas as provas
juram ser minhas as digitais
encontradas num homem casado
cheguei às 3:20h da manhã
escoltada por dois policiais
para um encontro com o delegado
público muito restrito
três travestis histéricos
alguém que bebeu demais
e um casal visivelmente drogado
avaliaram o meu modelito
e me levaram pra cela
amanhã vai sair nos jornais
e nem tenho advogado
não sei qual foi meu delito
mas eles têm todas as provas
juram ser minhas as digitais
encontradas num homem casado
1 092
Charles Bukowski
Óculos Escuros
nunca uso óculos escuros
mas esta ruiva foi buscar
uma receita preenchida no Hollywood Blvd.
e ela seguia discutindo comigo,
rilhando os dentes e rosnando.
deixei-a junto ao balcão da prescrição
e fui dar uma volta e comprei um enorme tubo de
Crest e uma garrafa gigante de Joy.
então me aproximei de um mostruário de óculos escuros
e comprei o mais terrível par
que pude encontrar.
pagamos por nossas coisas
fomos até um restaurante mexicano
e ela pediu um taco do qual não daria conta
e ficou ali sentada
rilhando os dentes e rosnando e rosnando pra mim
e após comer pedi 3 cervejas
sequei-as
depois pus meus óculos.
“ó meu Deus”, ela disse, “puta que pariu!”
e eu a acertei dos dois lados
a mais excelente das respostas
rosnando fedorentas balas de marmelada
rajadas de merda
peidos vindos do inferno,
então me levantei
paguei
ela saindo atrás de mim
nós dois de óculos escuros
e as calçadas se dividindo.
encontramos o carro dela
entramos e partimos
eu ali sentado
empurrando os óculos novamente contra meu nariz
arrancando-lhe a espinha
agitando-a do lado de fora da janela
como um mastro partido da Confederação...
os óculos escuros e malévolos ajudando.
“puta que pariu!” ela disse,
e o sol brilhava no céu
e eu não percebia.
saíram a bagatela de US$ 4.25
mesmo levando-se em consideração que esqueci a Crest
e a Joy no
mexicano do taco.
mas esta ruiva foi buscar
uma receita preenchida no Hollywood Blvd.
e ela seguia discutindo comigo,
rilhando os dentes e rosnando.
deixei-a junto ao balcão da prescrição
e fui dar uma volta e comprei um enorme tubo de
Crest e uma garrafa gigante de Joy.
então me aproximei de um mostruário de óculos escuros
e comprei o mais terrível par
que pude encontrar.
pagamos por nossas coisas
fomos até um restaurante mexicano
e ela pediu um taco do qual não daria conta
e ficou ali sentada
rilhando os dentes e rosnando e rosnando pra mim
e após comer pedi 3 cervejas
sequei-as
depois pus meus óculos.
“ó meu Deus”, ela disse, “puta que pariu!”
e eu a acertei dos dois lados
a mais excelente das respostas
rosnando fedorentas balas de marmelada
rajadas de merda
peidos vindos do inferno,
então me levantei
paguei
ela saindo atrás de mim
nós dois de óculos escuros
e as calçadas se dividindo.
encontramos o carro dela
entramos e partimos
eu ali sentado
empurrando os óculos novamente contra meu nariz
arrancando-lhe a espinha
agitando-a do lado de fora da janela
como um mastro partido da Confederação...
os óculos escuros e malévolos ajudando.
“puta que pariu!” ela disse,
e o sol brilhava no céu
e eu não percebia.
saíram a bagatela de US$ 4.25
mesmo levando-se em consideração que esqueci a Crest
e a Joy no
mexicano do taco.
1 079
Ruy Belo
Primeiro poema do Outono
Mais uma vez é preciso
reaprender o outono -
todos nós regressamos ao teu
inesgotável rosto
Emergem do asfalto aquelas
inacreditáveis crianças
e tudo incorrigivelmente principia
Já na rua se não cruzam
olhos como armas
Recebe-nos de novo o coração
E sabe deus a minha humana mão
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 52 | Editorial Presença Lda., 1984
reaprender o outono -
todos nós regressamos ao teu
inesgotável rosto
Emergem do asfalto aquelas
inacreditáveis crianças
e tudo incorrigivelmente principia
Já na rua se não cruzam
olhos como armas
Recebe-nos de novo o coração
E sabe deus a minha humana mão
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 52 | Editorial Presença Lda., 1984
1 708
Martha Medeiros
habito um castelo que cabe
habito um castelo que cabe
na página dupla de uma revista semanal
não tem piscina nem árvores centenárias
mas tem eu cozinhando um espagueti
ele experimentando outro tempero
e nossa filha encantada nos provando
tem uma cortina que se abre
e deixa entrar o sol de fevereiro
tem um tapete que compramos outro dia
uma garagem entulhada de bagulhos
e nossa filha cantando no chuveiro
habitamos um castelo de verdade
que fica entre uma casa e uma igreja
não temos uma pia de granito
nem um lustre imitando os de Versailles
mas tem eu experimentando uma camisa
ele servindo outra fatia
e nossa filha alinhavando esse segredo
na página dupla de uma revista semanal
não tem piscina nem árvores centenárias
mas tem eu cozinhando um espagueti
ele experimentando outro tempero
e nossa filha encantada nos provando
tem uma cortina que se abre
e deixa entrar o sol de fevereiro
tem um tapete que compramos outro dia
uma garagem entulhada de bagulhos
e nossa filha cantando no chuveiro
habitamos um castelo de verdade
que fica entre uma casa e uma igreja
não temos uma pia de granito
nem um lustre imitando os de Versailles
mas tem eu experimentando uma camisa
ele servindo outra fatia
e nossa filha alinhavando esse segredo
1 132
Ruy Belo
Poema vindo dos dias
A tua cruz senhor é pouco funcional
Não fica bem em nenhum jardim da cidade
dizem os vereadores e é verdade
E além disso os nossos olhos cívicos
ficam-se nos corpos de que nos cercaste
Saudamo-nos por fora como bons cidadãos
Submetemos os ombros ao teu peso
mas há tantos outros pesos pelo dia
E quando tu por um acaso passas
retocado pelas nossas tristes mãos
através dos pobres hábitos diários
só desfraldamos colchas e pegamos
em pétalas para te saudar
Queríamos ver-te romper na tarde
e morrem-nos as pálpebras de sono
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 55 | Editorial Presença Lda., 1984
Não fica bem em nenhum jardim da cidade
dizem os vereadores e é verdade
E além disso os nossos olhos cívicos
ficam-se nos corpos de que nos cercaste
Saudamo-nos por fora como bons cidadãos
Submetemos os ombros ao teu peso
mas há tantos outros pesos pelo dia
E quando tu por um acaso passas
retocado pelas nossas tristes mãos
através dos pobres hábitos diários
só desfraldamos colchas e pegamos
em pétalas para te saudar
Queríamos ver-te romper na tarde
e morrem-nos as pálpebras de sono
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 55 | Editorial Presença Lda., 1984
1 116
Martha Medeiros
o homem do campo
o homem do campo
sem o apelo dos neons
dos elevadores e dos aviões
consegue olhar para dentro
o homem urbano
sem ovelhas, colheitas de arroz
sem figueiras nem estrelas
prefere espiar os outros apartamentos
sem o apelo dos neons
dos elevadores e dos aviões
consegue olhar para dentro
o homem urbano
sem ovelhas, colheitas de arroz
sem figueiras nem estrelas
prefere espiar os outros apartamentos
1 041
Carlos Drummond de Andrade
Miniversos
1
Tudo tem limite
exceto
o amor de Brigitte.
2
Tevê colorida
fará azul-rósea
a cor da vida?
3
Última atração na areia
do Leme:
a tiro, mata-se a baleia.
4
Acabar com assalto
a trens pagadores
num momento:
suprimindo trens
e pagamento.
5
7 anos de idade.
Muro de Berlim
é eternidade.
6
Biafra: a guerra come
a safra
de sua própria fome.
7
Separatismo espanhol:
lado do escuro,
lado do sol.
8
Quem papa a pílula
poupa parto, papinhas,
porém perde parúsia.
9
Se o Papa ganha a Parada
você me garante
que a Amazônia será
povoada?
10
Às doenças mortais
junta-se outra mais:
transparente.
11
Estruturas: afinal
serão reformadas
com soldo integral?
12
Solução 100%
(disse Deus) só
se for Presidente
o Arigó.
13
Bruxuleia o ciro votivo
a Nossa Senhora
do Facultativo.
14
O pintor a meu lado
reclama:
Quando serei falsificado?
15
A moda cigana
é passada a limpo
na Limpeza Urbana?
16
O inocente afiança
a culpa que não tem
na esperança
do mal chegar ao bem.
17
Cautela: em agosto
não vire o rosto
ao rei da vela.
18
No festival da canção
fica abafadinho
o ai da inflação.
19
A reforma universitária
prevê o curso
de reforma universitária.
20
O censor olhou-se
no espelho e censurou-o:
Que horror!
16/08/1968
Tudo tem limite
exceto
o amor de Brigitte.
2
Tevê colorida
fará azul-rósea
a cor da vida?
3
Última atração na areia
do Leme:
a tiro, mata-se a baleia.
4
Acabar com assalto
a trens pagadores
num momento:
suprimindo trens
e pagamento.
5
7 anos de idade.
Muro de Berlim
é eternidade.
6
Biafra: a guerra come
a safra
de sua própria fome.
7
Separatismo espanhol:
lado do escuro,
lado do sol.
8
Quem papa a pílula
poupa parto, papinhas,
porém perde parúsia.
9
Se o Papa ganha a Parada
você me garante
que a Amazônia será
povoada?
10
Às doenças mortais
junta-se outra mais:
transparente.
11
Estruturas: afinal
serão reformadas
com soldo integral?
12
Solução 100%
(disse Deus) só
se for Presidente
o Arigó.
13
Bruxuleia o ciro votivo
a Nossa Senhora
do Facultativo.
14
O pintor a meu lado
reclama:
Quando serei falsificado?
15
A moda cigana
é passada a limpo
na Limpeza Urbana?
16
O inocente afiança
a culpa que não tem
na esperança
do mal chegar ao bem.
17
Cautela: em agosto
não vire o rosto
ao rei da vela.
18
No festival da canção
fica abafadinho
o ai da inflação.
19
A reforma universitária
prevê o curso
de reforma universitária.
20
O censor olhou-se
no espelho e censurou-o:
Que horror!
16/08/1968
1 151
Martha Medeiros
cinderela insone
cinderela insone
idade postiça
decote remunerado
recheio de silicone
coxas de paetê
oferta de camelô
bustiê bordô
carinha de fome
idade postiça
decote remunerado
recheio de silicone
coxas de paetê
oferta de camelô
bustiê bordô
carinha de fome
1 097
Carlos Drummond de Andrade
Relatório de Maio
Naquele maio
decidiu-se a opção
entre violão e violência
voaram paralelepípedos
exigindo a universidade crítica
e a paz sem sandálias
fugindo ao palácio das negociações
martirizou os pés
na vala de encanamentos cortados
naquele maio
o fogo o fogo o fogo o fogo
vinha no vento do telex
soprado de muito longe
tornado muito perto
o delegado saiu prendendo
cortando cabelo
mandando dormir mais cedo
naquele maio
a Bolsa fechou por excesso de instruções
que mandavam fazer o oposto do contrário
ou
o contrário do contrário do contrário
naquele inverno
o grupo Lire le Capital
reformulava a dialética anti-Hegel
e o estruturalismo continuava na onda
passando à frente de Bonnie & Clyde
sem desbancar McLuhan, Chacrinha e o
teatro do absurdo institucionalizado
Qorpo Santo é quem tinha razão
naquele maio
o túnel fechou cansado de servir
a eternos carros e personas
que nunca lhe agradeceram
a abertura para o Sul e para o Norte
naquele maio
os mendigos dormiam abraçados
no gelo da rua
não por amor: para cada um
tirar o quentinho do outro
naquele maio
os municípios eram divididos
em dois pelotões: os autônomos
até certo ponto
e os tutelados
oh tão melhor ser tutelado: vinha um homem
fardado por fora ou por dentro
dizia o que era lícito fazer
dispensando os cidadãos da difícil escolha
entre o azul e o amarelo
o bom e o mau
o nariz e a gaivota
a laranja e a banana
o X e o Y
naquele maio
o Ibope consolava o Governo
meu querido
saiba que tem havido outros piores
mas não pergunte mais que eu não respondo
naquele maio
as manhãs eram lindíssimas, as tardes
pingavam chuva fina
o mar entristecia
a luz era cortada de repente
como prefixo de morte
e mesmo assim na treva uma ave tonta
riscava o céu naquele maio.
26/05/1968
decidiu-se a opção
entre violão e violência
voaram paralelepípedos
exigindo a universidade crítica
e a paz sem sandálias
fugindo ao palácio das negociações
martirizou os pés
na vala de encanamentos cortados
naquele maio
o fogo o fogo o fogo o fogo
vinha no vento do telex
soprado de muito longe
tornado muito perto
o delegado saiu prendendo
cortando cabelo
mandando dormir mais cedo
naquele maio
a Bolsa fechou por excesso de instruções
que mandavam fazer o oposto do contrário
ou
o contrário do contrário do contrário
naquele inverno
o grupo Lire le Capital
reformulava a dialética anti-Hegel
e o estruturalismo continuava na onda
passando à frente de Bonnie & Clyde
sem desbancar McLuhan, Chacrinha e o
teatro do absurdo institucionalizado
Qorpo Santo é quem tinha razão
naquele maio
o túnel fechou cansado de servir
a eternos carros e personas
que nunca lhe agradeceram
a abertura para o Sul e para o Norte
naquele maio
os mendigos dormiam abraçados
no gelo da rua
não por amor: para cada um
tirar o quentinho do outro
naquele maio
os municípios eram divididos
em dois pelotões: os autônomos
até certo ponto
e os tutelados
oh tão melhor ser tutelado: vinha um homem
fardado por fora ou por dentro
dizia o que era lícito fazer
dispensando os cidadãos da difícil escolha
entre o azul e o amarelo
o bom e o mau
o nariz e a gaivota
a laranja e a banana
o X e o Y
naquele maio
o Ibope consolava o Governo
meu querido
saiba que tem havido outros piores
mas não pergunte mais que eu não respondo
naquele maio
as manhãs eram lindíssimas, as tardes
pingavam chuva fina
o mar entristecia
a luz era cortada de repente
como prefixo de morte
e mesmo assim na treva uma ave tonta
riscava o céu naquele maio.
26/05/1968
1 290
Carlos Drummond de Andrade
A Semana Foi Assim
A semana? Passou que nem corisco,
somente aqui e ali deixando um risco
além do velho céu, hoje quadrado,
pelas naves do cosmo ultrapassado.
Que pretendem os homens: descobrir
um novo mundo, onde se possa rir?
brincar de amor? jogar de ser feliz?
tirar diploma de deus-aprendiz?
(Daqui a pouco o trânsito no espaço
estará de fundir cuca e espinhaço.)
Minha tia mineira não se espanta.
Há sempre uma cantiga na garganta
para saudar o sonho, embora a ruga
da experiência prefira a tartaruga
em seu calmo ficar aqui por perto,
tartarugando no roteiro certo…
É isso a espécie: um revoar aos trancos,
aos gemidos, aos cálculos e arrancos,
entre miséria e ciência, na poesia
da eternidade posta num só dia.
Ninguém entende bem o tal contexto
de que tanto se fala; e Paulo VI,
dos bispos a escutar o iroso brado,
chora, talvez, ou se mantém calado?
Eu contesto o contexto, diz a voz
em torno, em cima, até dentro de nós,
e a humanidade, enquanto assim contesta,
do próprio contestar faz uma festa.
Ainda bem que aí salta o Jô Soares,
a provar que cirandam pelos ares
mil amores sobrando para o Gordo,
que por isso não sente mais a dor do
regime, derramando pleno açúcar
no café, no pospasto, até no púcar(o)
da laranjada… Ai, vida, que doçura
quando magros e gordos, de mistura,
se sentirem amados por igual
em todo o território nacional,
e as nações forem todas um só povo,
na veludosa paz do homem novo!
Deliras, minha lira? Por enquanto
não devo reclamar prodígio tanto.
Olha o Dia do Mestre: o professor
(que do dinheiro ainda não viu a cor
em Minas) recebendo na bandeja
confetes de ternura e de ora-veja…
Em São Paulo calou-se o sax-barítono
de Booker Pittman: procuro um terno átono
para exprimir a falta, a grande pena
do som perdido, em meio à dor de Eliana.
E o sax-soprano, o clarinete? Música
de jazz, que jaz, silente, em flauta mágica.
Mas voltemos à rima, com Bandeira
pintor, Antônio, e sua vida inteira
convertida em pintura da mais fina,
que veremos no MAM: pintura é sina
e prêmio de viver após a vida
tão longe e tão depressa fenecida.
E viva, viva o Vasco: o sofrimento
há de fugir, se o ataque lavra um tento.
Time, torcida, em coro, neste instante,
vamos gritar: Casaca! ao Almirante.
E deixemos de briga, minha gente.
O pé tome a palavra: bola em frente.
18/10/1969
somente aqui e ali deixando um risco
além do velho céu, hoje quadrado,
pelas naves do cosmo ultrapassado.
Que pretendem os homens: descobrir
um novo mundo, onde se possa rir?
brincar de amor? jogar de ser feliz?
tirar diploma de deus-aprendiz?
(Daqui a pouco o trânsito no espaço
estará de fundir cuca e espinhaço.)
Minha tia mineira não se espanta.
Há sempre uma cantiga na garganta
para saudar o sonho, embora a ruga
da experiência prefira a tartaruga
em seu calmo ficar aqui por perto,
tartarugando no roteiro certo…
É isso a espécie: um revoar aos trancos,
aos gemidos, aos cálculos e arrancos,
entre miséria e ciência, na poesia
da eternidade posta num só dia.
Ninguém entende bem o tal contexto
de que tanto se fala; e Paulo VI,
dos bispos a escutar o iroso brado,
chora, talvez, ou se mantém calado?
Eu contesto o contexto, diz a voz
em torno, em cima, até dentro de nós,
e a humanidade, enquanto assim contesta,
do próprio contestar faz uma festa.
Ainda bem que aí salta o Jô Soares,
a provar que cirandam pelos ares
mil amores sobrando para o Gordo,
que por isso não sente mais a dor do
regime, derramando pleno açúcar
no café, no pospasto, até no púcar(o)
da laranjada… Ai, vida, que doçura
quando magros e gordos, de mistura,
se sentirem amados por igual
em todo o território nacional,
e as nações forem todas um só povo,
na veludosa paz do homem novo!
Deliras, minha lira? Por enquanto
não devo reclamar prodígio tanto.
Olha o Dia do Mestre: o professor
(que do dinheiro ainda não viu a cor
em Minas) recebendo na bandeja
confetes de ternura e de ora-veja…
Em São Paulo calou-se o sax-barítono
de Booker Pittman: procuro um terno átono
para exprimir a falta, a grande pena
do som perdido, em meio à dor de Eliana.
E o sax-soprano, o clarinete? Música
de jazz, que jaz, silente, em flauta mágica.
Mas voltemos à rima, com Bandeira
pintor, Antônio, e sua vida inteira
convertida em pintura da mais fina,
que veremos no MAM: pintura é sina
e prêmio de viver após a vida
tão longe e tão depressa fenecida.
E viva, viva o Vasco: o sofrimento
há de fugir, se o ataque lavra um tento.
Time, torcida, em coro, neste instante,
vamos gritar: Casaca! ao Almirante.
E deixemos de briga, minha gente.
O pé tome a palavra: bola em frente.
18/10/1969
1 131
Ruy Belo
Friso de raparigas de Jerusalém
Raparigas no lusco-fusco recortadas
prestes a entoar o cântico da noite
e envoltas no inconsútil tule da sua juventude
dispostas a rasgar os véus vigilantes dos sonhos
são compridos ciprestes soerguidos sobre
as colinas que dezassete vezes viram
destruir a cidade de Jerusalém
Os amados virão quando vier o sábado
pais e mães jazerão sob a pedra da idade
e então elas sozinhas e suaves pensarão
em quem antes do verão virá em nuvens quentes de vapor
E por uma manhã de luz ainda rasa
toucadas de alegria e de neblina
elas hão-de passar a pertencer-lhes e
eles serão seus donos como de uma casa
A sombra adensa-se e condensa-se nos vales
e as mesmas estrelas que séculos antes
olharam cintilantes já as águas do dilúvio
hão-de furar o manto envolvente da noite
Será então a hora de as eternas raparigas
levantando nas mãos as ansiosas ânforas
derramarem o liquido das vozes sobre essa cidade
se dezassete vezes destruída já dezoito construída
E através do tempo os braços dessas raparigas
ligados uns aos outros pela seiva da imorredoura juventude
insistirão na transmissão da vida
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, págs. 46 e 47 | Editorial Presença Lda., 1981
prestes a entoar o cântico da noite
e envoltas no inconsútil tule da sua juventude
dispostas a rasgar os véus vigilantes dos sonhos
são compridos ciprestes soerguidos sobre
as colinas que dezassete vezes viram
destruir a cidade de Jerusalém
Os amados virão quando vier o sábado
pais e mães jazerão sob a pedra da idade
e então elas sozinhas e suaves pensarão
em quem antes do verão virá em nuvens quentes de vapor
E por uma manhã de luz ainda rasa
toucadas de alegria e de neblina
elas hão-de passar a pertencer-lhes e
eles serão seus donos como de uma casa
A sombra adensa-se e condensa-se nos vales
e as mesmas estrelas que séculos antes
olharam cintilantes já as águas do dilúvio
hão-de furar o manto envolvente da noite
Será então a hora de as eternas raparigas
levantando nas mãos as ansiosas ânforas
derramarem o liquido das vozes sobre essa cidade
se dezassete vezes destruída já dezoito construída
E através do tempo os braços dessas raparigas
ligados uns aos outros pela seiva da imorredoura juventude
insistirão na transmissão da vida
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, págs. 46 e 47 | Editorial Presença Lda., 1981
1 000
João Baveca
Um Escudeiro Vi Hoj'arrufado
Um escudeiro vi hoj'arrufado
por tomar penhor a Maior Garcia,
por dinheiros poucos que lhi devia;
e diss'ela, poilo viu denodado:
- Senher, vós nom mi afrontedes assi,
e será 'gora um judeu aqui,
com que barat', e dar-vos-ei recado
de vossos dinheiros de mui bom grado;
e tornad'aqui ao meio dia,
e entanto verrá da Judaria
aquel judeu com que hei baratado,
e um mouro, que há 'qui de chegar,
com que hei outrossi de baratar;
e, em como quer, farei-vos eu pagado.
E o mouro foi log'ali chegado,
e cuidou-s'ela que el pagaria
dívida velha que ela devia;
mais diss'o mouro: - Sol nom é pensado
que vós paguedes rem do meu haver,
meos d'eu carta sobre vós fazer,
ca um judeu havedes enganado.
E ela disse: - Fazede vós qual
carta quiserdes sobre mim, pois d'al
nom poss'haver aquel homem pagado.
E o mouro log'a carta notou
sobr'ela e sobre quanto lh'achou;
e pagou-a e leixou-lh'o tralado.
por tomar penhor a Maior Garcia,
por dinheiros poucos que lhi devia;
e diss'ela, poilo viu denodado:
- Senher, vós nom mi afrontedes assi,
e será 'gora um judeu aqui,
com que barat', e dar-vos-ei recado
de vossos dinheiros de mui bom grado;
e tornad'aqui ao meio dia,
e entanto verrá da Judaria
aquel judeu com que hei baratado,
e um mouro, que há 'qui de chegar,
com que hei outrossi de baratar;
e, em como quer, farei-vos eu pagado.
E o mouro foi log'ali chegado,
e cuidou-s'ela que el pagaria
dívida velha que ela devia;
mais diss'o mouro: - Sol nom é pensado
que vós paguedes rem do meu haver,
meos d'eu carta sobre vós fazer,
ca um judeu havedes enganado.
E ela disse: - Fazede vós qual
carta quiserdes sobre mim, pois d'al
nom poss'haver aquel homem pagado.
E o mouro log'a carta notou
sobr'ela e sobre quanto lh'achou;
e pagou-a e leixou-lh'o tralado.
454
João Baveca
Pero D'ambroa, Sodes Maiordomo
Pero d'Ambroa, sodes maiordomo
e trabalhar-s'-á de vos enganar
o albergueiro; mais d'escarmentar-
-lo havedes. E direi-vos eu como:
se vos mentir do que vosco poser,
seja de vós e de nós, como quer,
é brita[r]-lh'os narizes no momo.
E de nosso ................
[...]
E ..........................
[...]
E pois mercade lo al: logo cedo
vos amonstr'a roupa que vos dará;
e se pois virdes que vo-la nom dá,
ide sarrar la porta, vosso quedo,
e desses vossos narizes log'i
fiqu'o seu cuu quebrantad', assi
que já sempr'haja d'espanhoes medo.
e trabalhar-s'-á de vos enganar
o albergueiro; mais d'escarmentar-
-lo havedes. E direi-vos eu como:
se vos mentir do que vosco poser,
seja de vós e de nós, como quer,
é brita[r]-lh'os narizes no momo.
E de nosso ................
[...]
E ..........................
[...]
E pois mercade lo al: logo cedo
vos amonstr'a roupa que vos dará;
e se pois virdes que vo-la nom dá,
ide sarrar la porta, vosso quedo,
e desses vossos narizes log'i
fiqu'o seu cuu quebrantad', assi
que já sempr'haja d'espanhoes medo.
557
Vasco Graça Moura
Praias
1
na praia lá do guincho as velas
de windsurf saltam sobre as ondas
e o meu olhar, equestre,
pula nos peitos das banhistas, enquanto
um cachorro tenta agarrar a cauda.
nos feriados tudo é insuportável
menos o sol e o mar
apesar das famílias.
e sustendo as gaivotas na mais alta
imaginação, porque hoje não vi nenhuma,
o vento traz de tudo
e antónio nobre e lorca às pandas roupas
que modelam os corpos em míticas figuras
com o seu drapejado esvoaçante,
entre dunas e lixo e vendedores de gelados.
restaria o campo, mas
«no campo não há bicas nem paperbacks»
diz uma amiga minha e tem razão.
que seria de nós, bucólicos, sem esses indicadores da alma? dou
lume a uma italiana e enquanto
ela agradece ocorre-me que despi-la já não é
cosa mentale; faz-me lembrar o algarve, mas no verão
o algarve é a continuação
da política por outros meios. antes
a nortada, os surfistas,
na crista da onda, a areia que entra no poema,
e o regresso mais cedo, quando já não se
aguenta.
2
agora que passaste muito queimada do sol
o vento vem pela estrada até à duna
com uma folha de jornal desdobrada
aos baldões e as vozes dos piqueniques.
tu desceste da moto e foste
comprar um gelado, afastando impaciente
algumas crianças. era a impostura
para a sede, avivada pelos guarda-sóis
de cor berrante. nas rochas havia
alguns pares esfregando-se
mais ou menos à vista. penduraste
os óculos de sol no decote da blusa
e o gelado avançou para os teus dentes muito brancos.
tudo isto dava uma fotografia
com o teu peito em grande plano
e a cena reflectida nos óculos escuros.
na praia lá do guincho as velas
de windsurf saltam sobre as ondas
e o meu olhar, equestre,
pula nos peitos das banhistas, enquanto
um cachorro tenta agarrar a cauda.
nos feriados tudo é insuportável
menos o sol e o mar
apesar das famílias.
e sustendo as gaivotas na mais alta
imaginação, porque hoje não vi nenhuma,
o vento traz de tudo
e antónio nobre e lorca às pandas roupas
que modelam os corpos em míticas figuras
com o seu drapejado esvoaçante,
entre dunas e lixo e vendedores de gelados.
restaria o campo, mas
«no campo não há bicas nem paperbacks»
diz uma amiga minha e tem razão.
que seria de nós, bucólicos, sem esses indicadores da alma? dou
lume a uma italiana e enquanto
ela agradece ocorre-me que despi-la já não é
cosa mentale; faz-me lembrar o algarve, mas no verão
o algarve é a continuação
da política por outros meios. antes
a nortada, os surfistas,
na crista da onda, a areia que entra no poema,
e o regresso mais cedo, quando já não se
aguenta.
2
agora que passaste muito queimada do sol
o vento vem pela estrada até à duna
com uma folha de jornal desdobrada
aos baldões e as vozes dos piqueniques.
tu desceste da moto e foste
comprar um gelado, afastando impaciente
algumas crianças. era a impostura
para a sede, avivada pelos guarda-sóis
de cor berrante. nas rochas havia
alguns pares esfregando-se
mais ou menos à vista. penduraste
os óculos de sol no decote da blusa
e o gelado avançou para os teus dentes muito brancos.
tudo isto dava uma fotografia
com o teu peito em grande plano
e a cena reflectida nos óculos escuros.
2 455
Carlos Drummond de Andrade
Assanhamento
Que venha o censo de 70
e com ele venha
a recenseadora mais bacana,
aquela que ao dizer, com voz de açúcar
(a doce voz é a melhor senha):
“Preencha direitinho
este questionário, por favor”,
tenha sempre dos homens a resposta:
“Por você, minha flor,
preencho tudo, sou capaz até
de reclamar duzentos questionários,
passando a vida inteira a preenchê-los,
mesmo os mais complicados e mais vários,
tendo-a a meu lado, é claro, a me ajudar”.
Ah, por que o Governo
não faz todo ano um censo cem por cento
com uma garota assim, a censear?
Por que não reformula
a engrenagem severa da Fazenda
e bota a coleção dessas meninas
cobrando a domicílio
(pois resistir quem há-de ao seu veneno)
todas as taxas, todos os impostos,
inclusive — terrível — o de renda?
08/08/1970
e com ele venha
a recenseadora mais bacana,
aquela que ao dizer, com voz de açúcar
(a doce voz é a melhor senha):
“Preencha direitinho
este questionário, por favor”,
tenha sempre dos homens a resposta:
“Por você, minha flor,
preencho tudo, sou capaz até
de reclamar duzentos questionários,
passando a vida inteira a preenchê-los,
mesmo os mais complicados e mais vários,
tendo-a a meu lado, é claro, a me ajudar”.
Ah, por que o Governo
não faz todo ano um censo cem por cento
com uma garota assim, a censear?
Por que não reformula
a engrenagem severa da Fazenda
e bota a coleção dessas meninas
cobrando a domicílio
(pois resistir quem há-de ao seu veneno)
todas as taxas, todos os impostos,
inclusive — terrível — o de renda?
08/08/1970
1 071
Martha Medeiros
da janela da frente
da janela da frente
vejo uma delicatessen
uma praça e o salão de beleza
onde faço permanente
da janela dos fundos
vejo o pátio da vizinha
com seu varal cheio de trapos
e um sofá vagabundo
da janela da frente
vejo crianças na calçada
saindo da escola com a empregada
de uniforme reluzente
da janela dos fundos
vejo crianças ranhentas
comendo com as mãos
e deixando o chão imundo
da janela da frente
vejo carros estacionados
e uma loja de importados
que todo bairro é cliente
da janela dos fundos
vejo a área de serviço alheia
escuto gritos histéricos
e há um cheiro de urina profundo
da janela da frente
vejo um prédio de vidro fumê
sacadas organizadas
e bares de adolescentes
da janela dos fundos
vejo o crime organizado
dezenas de delinquentes
cheirando e queimando fumo
da janela da frente
eu vejo o mundo
da janela dos fundos
eu vejo a gente
vejo uma delicatessen
uma praça e o salão de beleza
onde faço permanente
da janela dos fundos
vejo o pátio da vizinha
com seu varal cheio de trapos
e um sofá vagabundo
da janela da frente
vejo crianças na calçada
saindo da escola com a empregada
de uniforme reluzente
da janela dos fundos
vejo crianças ranhentas
comendo com as mãos
e deixando o chão imundo
da janela da frente
vejo carros estacionados
e uma loja de importados
que todo bairro é cliente
da janela dos fundos
vejo a área de serviço alheia
escuto gritos histéricos
e há um cheiro de urina profundo
da janela da frente
vejo um prédio de vidro fumê
sacadas organizadas
e bares de adolescentes
da janela dos fundos
vejo o crime organizado
dezenas de delinquentes
cheirando e queimando fumo
da janela da frente
eu vejo o mundo
da janela dos fundos
eu vejo a gente
1 024
Martha Medeiros
abro a lata, como
abro a lata, como
como um doce, engordo
engordo a conta, gasto
gasto o tempo, sobra
sobra o rango, guardo
guardo a chave, perco
perco o sono, saio
saio à noite, chove
chove à beça, encolhe
encolhe a grana, peço
peço o nome, anoto
anoto a placa, esqueço
esqueço a fome, fumo
fumo o troço, apanho
apanho a gata, sumo
como um doce, engordo
engordo a conta, gasto
gasto o tempo, sobra
sobra o rango, guardo
guardo a chave, perco
perco o sono, saio
saio à noite, chove
chove à beça, encolhe
encolhe a grana, peço
peço o nome, anoto
anoto a placa, esqueço
esqueço a fome, fumo
fumo o troço, apanho
apanho a gata, sumo
1 121