Cidade e Cotidiano
Nuno Júdice
Em Lisboa
(fim dos anos 60)
Bebi numa taça a cera derretida do passado.
À superficial análise sentia-se um sabor humano
a desgraça; mas quando, seca, a língua a percorria,
um autêntico pavão animal abria o seu leque
descendo,
como um deus, pela escadaria ampla do corpo.
À transparência manual do pescoço surgia, então,
um outonal jardim do Luxemburgo, de madrugada,
enquanto as cúpulas das igrejas e palácios emergiam
da noturna névoa. Os barulhos da cidade juntavam-se,
no aro frio, com um sussurro de mar tempestuoso.
Tudo confluía numa determinada imagem de Norte.
Mas logo, dissipada a primitiva impressão do sonho,
chegavas com os teus dedos reais e ambos,
naquele recanto do café,
víamos chegar o inverno,
o beco sem saída das nossas vidas,
o tédio oficial dos primeiros jornais do dia.
Nuno Júdice | "Por dentro do fruto da chuva", 2004
Charles Bukowski
12:18 A.M.
noite
coçando os lados do meu corpo
estou coberto de mordidas
livro aos chutes minhas pernas brancas dos lençóis
enquanto as sirenes soam
há um disparo de arma de fogo.
vou à cozinha
em busca de um copo d’água
destruir o devaneio de uma barata
destruir a própria barata.
um vendaval vem do norte
enquanto o homem no apartamento
da frente
enfia seu pau no rabo de sua
filha de 4
anos.
escuto os gritos
acendo um charuto
enfio-o nos lábios de minha
cabeça decapitada.
é um corona
envelhecido
um Medalist Naturáles, Nº 7.
retorno ao banheiro
com um inseticida.
aperto a válvula.
sai o spray. tenho
náuseas,
penso em antigas batalhas
em amores mortos.
tanta coisa acontece na escuridão
ainda que amanhã
o sol continue seguindo seu rumo,
você receberá uma multa se estacionar
do lado sul de uma rua numa
quinta-feira
ou do lado norte na
sexta.
a eficiência do sol e da
lei
protege a sanidade.
alguma coisa me morde.
disparo
enlouquecidamente o spray em meus
lençóis.
volto-me
vejo o espelho na escuridão –
o charuto
a pança flácida
meu reflexo
envelhecido.
dou uma risada.
é bom que eles não
saibam.
pego minha cabeça
coloco-a novamente em meu
pescoço
entro sob os lençóis e
não consigo dormir.
Martha Medeiros
aquela hora que você me convidou para
subir até o terraço
eu senti que não podia mais voltar atrás
sabe aquele aperto que dá, aquela vontade
de fugir e ficar
naquele instante eu senti: não posso mais
e fui com você, não querendo pensar
em mais nada
já no elevador sua expressão mudou, me
olhava só eu sei como
e éramos só nós dois, ninguém mais, até
o 16o andar
você não disse uma palavra até chegar
e foi lá em cima que eu senti como
estava frio
e como a cidade havia crescido e como
era bonito
e como eu tremia
você, como eu previa, não disse nada,
só me olhava
eu já estava ficando angustiada, sabia
que o encanto quebraria
caso eu falasse alguma coisa
você mudo, quieto, com as mãos no bolso
talvez até mais nervoso do que eu
e eu então tomei a iniciativa, voraz,
cheguei perto de você
bem perto mesmo, e pensei
timidez, recato, moral, insegurança,
orgulho, machismo
descansem em paz
Ruy Belo
Poema de Carnaval
de dentro povoar-me de cidade o coração
prometido para o lugar
onde costumamos deixar as palavras
Tinham posto de novo fitas nas árvores
reuniram-se os corpos e as vozes
para todos juntos sentirem
pontualmente a alegria
E tu pousaste então ó meu pássaro naquele coração
cingido no meio da cidade
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 50 | Editorial Presença Lda., 1984
Charles Bukowski
Os Insanos Sempre Me Amaram
ao longo de todo o ensino
fundamental
ensino médio
faculdade
os rejeitados se
uniam a
mim.
caras com um só braço
caras com tiques
caras com problemas de fala
caras com uma película branca
sobre um dos olhos,
covardes
misantropos
assassinos
tarados
e ladrões.
e em todas
as fábricas e na
vagabundagem
sempre atraí
os rejeitados. eles me encontravam
logo de cara e se grudavam
em mim. continuam
fazendo isso.
aqui na vizinhança há agora
um que me
encontrou.
ele anda por aí empurrando um
carrinho de supermercado
cheio de lixo:
bengalas partidas, cadarços
sacos vazios de batata frita,
caixas de leite, jornais, canetas...
“ei, parceiro, o que tá fazendo?”
eu paro e conversamos um
pouco.
então eu digo adeus
mas ele continua me
seguindo
para além dos
puteiros e dos
prostíbulos...
“me mantenha informado,
parceiro, me mantenha informado,
quero saber o que está
acontecendo.”
esse é o meu insano do momento.
nunca o vi falar
com mais
ninguém.
o carrinho chacoalha
um pouco atrás
de mim
então alguma coisa
cai.
ele se detém para
juntá-la.
enquanto ele se ocupa disso eu
entro pela porta de um
hotel verde que fica na
esquina
cruzo
o saguão
saio pela porta
dos fundos e
ali há um gato
cagando
absolutamente deliciado,
que me arreganha os
dentes.
Charles Bukowski
Uma Janela de Vidros Espelhados
muito diferentes.
frequentemente vou comer nesse
lugar
por volta das 2h20 da tarde
porque todas as pessoas que almoçam
ali estão particularmente arruinadas
felizes pelo simples fato de estarem vivas e
comendo feijão
próximas a uma janela de vidros espelhados
que impede a passagem do calor
e não deixa que os carros e as
calçadas cheguem ao interior.
podemos tomar quanto café
de graça quisermos
e nos sentamos e em silêncio bebemos
o café preto e forte.
é bom estar sentado em algum lugar
neste mundo às 2h20 da tarde
sem sentir-se carneado até o
branco dos ossos. mesmo
estando arruinados, sabemos disso.
ninguém nos incomoda
não incomodamos ninguém.
anjos e cães não são
muito diferentes
às 2h20 da tarde.
tenho minha mesa favorita
e depois de terminar
empilho os pratos, pires,
o copo, os talheres
com cuidado –
faço à sorte minha oferenda –
e lá fora o sol
segue trabalhando bem
descrevendo
seu arco
enquanto aqui dentro
reina
a escuridão.
Nuno Júdice
O homem de Munique
Charles Bukowski
Boletim do Tempo
neste momento
enquanto me sinto mal
deste jeito;
gosto de pensar nisso
agora.
vamos a um vilarejo mexicano –
isso soa bem:
um vilarejo mexicano
enquanto me sinto mal
deste jeito
as paredes amareladas pelo tempo –
aquela chuva
lá fora,
um porco se movendo em seu chiqueiro à noite
incomodado pela chuva,
os olhos diminutos como pontas de cigarro,
e seu maldito rabo:
pode vê-lo?
não consigo imaginar as pessoas.
talvez elas também estejam se sentindo mal,
quase tão mal quanto eu.
pergunto-me o que elas fazem quando se sentem
assim?
provavelmente não o mencionam.
dizem apenas,
“veja, está chovendo”.
Assim é melhor mesmo.
Charles Bukowski
Scarlet
e feliz quando se vão
feliz quando escuto os saltos
se aproximando de minha porta
feliz quando esses saltos
se afastam
feliz por foder
feliz por me importar
feliz quando tudo termina
e
desde que as coisas ou estão
começando ou terminando
fico feliz
a maior parte do tempo
e os gatos caminham pra cima e pra baixo
e a terra gira em torno do sol
e o telefone toca:
“é a Scarlet”.
“quem?”
“Scarlet.”
“certo, pinta aí.”
e desligo pensando
talvez seja isso
entro
dou uma cagada rápida
me barbeio
me banho
me visto
ponho o lixo
e as caixas cheias de garrafas vazias
pra fora
me sento ao som dos
saltos se aproximando
parecendo mais a aproximação de um exército
do que o som da vitória
é Scarlet
e na minha cozinha a torneira
continua pingando
precisando de conserto.
cuidarei disso mais
tarde.
Charles Bukowski
99 Para Um
quer meus bagos
enquanto atravesso a seção de carnes
em busca de salame e queijo
donas de casa púrpuras
apalpando abacates de 75 centavos
sabem que meu carrinho é um
pau monstruoso
sou um homem com um relógio antigo
parado em uma cabine telefônica numa espelunca
chupando um bico vermelho como morango
de cabeça para baixo em meio à multidão na Filadélfia.
de repente tudo ao meu redor são gritos de
ESTUPRO ESTUPRO ESTUPRO ESTUPRO ESTUPRO
e eu estou metendo em alguma coisa debaixo de mim
cabelos de um ruivo opaco, mau hálito, dentes azuis
costumava gostar de Monet
costumava gostar muito de Monet
era divertido, eu pensava, o que ele fazia
com as cores
mulheres são caras demais
coleiras para cachorro são caras
vou começar a vender ar em sacos alaranjados
com os dizeres: florescências da lua
costumava gostar de garrafas cheias de sangue
jovens garotas em casacos de pelo de camelo
Príncipe Valente
o toque mágico do Popeye
o esforço está no esforço
como um saca-rolhas
um homem de verdade não deixa farelos de cortiça no vinho
este pensamento já ocorreu a milhões de homens
ao se barbearem
a remoção da vida talvez fosse preferível à
remoção dos pelos
cuspa algodão e limpe seu espelho
retrovisor, corra como se tivesse vontade, ex-atleta,
as putas vencerão, os tolos vencerão,
mas dispare como um cavalo ao sinal da largada.
Ruy Belo
Idola Fori
saber é afinal a minha única ocupação
Sei pouco de manhãs
mas talvez possam dizer de mim que amei o mar
e cada árvore que me viu passar
e insistir na vida como uma canção em voga
Quem mais que eu
quem foi esqueceu?
Estamos mal feitos pronto
Para quê a doçura no olhar
de uma mulher certos dias?
O morno calor do sol rasante pelas tardes
de setembro na senhora da guia
senti-lo em abril numa sala voltada ao poente
de súbito sabendo de todos os papéis
ou outra eternidade que não essa
Talvez ouvir egmont sentindo-me importante de repente
ou então conversar sobre o poeta à beira da água
chegar a mangualde ao pôr-do-sol
ou a duas igrejas na semana santa
ouvir os sinos na matriz vizinha
cheirar madeira nova nas gavetas
fechar a porta sobre todos os cuidados
cantar a triunfante juventude
não mais andar perdido de ano em ano
não mais a morte questão para ociosos
à tarde no café dos reformados
Oh quem me dera ser católico
ou pelo menos morar alguma vez
em lisboa ou nos arredores de lisboa
Não há remédio nenhum
esqueci-me de tanta coisa
Sei que isto não é grande coisa
mas nenhuma outra coisa me é dada
o que é preciso é que não doa muito
Depois que me escondam na terra como uma vergonha
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 176 e 177 | Editorial Presença Lda., 1984
Charles Bukowski
Junkies
disse. eu disse que era para me aplicar
na bunda e ela tentou e disse, “oh-oh”,
e eu disse, “que merda está acontecendo?”
ela disse, “nada, este é o modo Nova York
de fazer a coisa”, e tentou enfiar a agulha de novo e disse,
“oh, merda”. Peguei o negócio e tentei me aplicar
no braço, consegui injetar uma parte.
“não sei por que as pessoas
se metem com isso, não há nada
de mais. acho que são todos uns coitados
e querem realmente chegar ao fundo do poço. não
há saída, é como se eles não conseguissem
chegar onde querem ou pretendem
e não tivessem outra saída.
isso tinha que ser assim.
ela aplicou no pescoço.”
“eu sei”, eu disse. “liguei pra ela, ela
mal conseguia falar, disse que estava com
laringite. tome um pouco deste vinho.”
era vinho branco e 4h20 da manhã e sua
filha dormia no quarto. a tevê
a cabo estava ligada sem volume e
um enorme pôster com um John Wayne ainda jovem
nos velava, e não nos beijamos nem sequer fizemos
amor e acabei saindo de lá às 6h15
depois que a cerveja e o vinho acabaram
e também para que sua filha não acordasse para ir ao
colégio e me encontrasse ali sentado na
cama de sua mãe
com o John Wayne e a noite encerrada
e sem quaisquer esperanças para quem quer que fosse...
Charles Bukowski
Um Cavalo de Olhos Azul-Esverdeados
os hospícios raramente
estão visíveis.
que continuemos caminhando por aí
e nos coçando e acendendo
cigarros
é mais miraculoso
do que os banhos das beldades
do que as rosas e as mariposas.
sentar-se em um pequeno quarto
e beber uma latinha de cerveja
e fechar um cigarro
ouvindo Brahms
em um radinho vermelho
é como ter voltado
de uma dúzia de batalhas
com vida
ouvir o som
da geladeira
enquanto as beldades banhadas apodrecem
e as laranjas e maçãs
rolam para longe.
André Pieyre de Mandiargues
Meridiana
Frank O'Hara
São Paulo e tudo mais
Carlos Drummond de Andrade
A Lamentável História Dos Namorados
não vos vejo mais alados,
sublimes, alcandorados
nos miríficos estados
de êxtases multiplicados
em horizontes dourados
de mundos ensolarados.
Estais casmurros, calados
entre carinhos cansados
e sonhos desanimados.
Que vos sucede, coitados?
Acaso foram arquivados
os projetos encantados,
alvo de finos cuidados,
pelos dois armazenados?
Onde os férvidos agrados,
os toques maravilhados
de vossos dias passados?
Namorados, namorados,
deixai-nos desarvorados!
Diviso em vossos semblantes
sombras, traços inquietantes,
diversos dos crepitantes,
abertos e fulgurantes
sinais festivos de antes.
Já não sois doces amantes,
não carregais, exultantes,
o suave peso de instantes
que pareciam diamantes
nos volteios elegantes
dos jogos inebriantes
e nos beijos delirantes
quando adultos são infantes
buscando refrigerantes
que em vez de serem calmantes
inda são mais excitantes.
Já não sois os bandeirantes
de descobertos faiscantes.
Diviso em vossos semblantes
amarguras humilhantes.
Chegou-me a resposta no ar,
após muito meditar
e livros mil consultar:
A inflação tentacular,
com guantes de arrebentar,
ferrou-vos na jugular.
Vosso anseio de morar
em casinha à beira-mar
ou qualquer outro lugar
desfez-se no limiar.
A recessão de lascar
nem vos deixa respirar,
e de empregos, neste andar,
quem ousa mais cogitar?
Um pacote singular
de rigidez tumular
desaba no patamar
da pretensão de casar.
Chegou-me a resposta no ar:
não dá mais pra namorar.
Fernando Pessoa
É inda quente o fim do dia...
Meu coração tem tédio e nada...
Da vida sobe maresia...
Uma luz azulada e fria
Pára nas pedras da calçada...
Uma luz azulada e vaga
Um resto anónimo do dia...
Meu coração não se embriaga
Vejo como que em si o dia...
É uma luz azulada e fria.
13/07/1928
Fernando Pessoa
Passava eu na estrada pensando impreciso,
Triste à minha moda.
Cruzou um garoto, olhou-me, e um sorriso
Agradou-lhe a cara toda.
Bem sei, bem sei, sorrirá assim
A um outro qualquer.
Mas então sorriu assim para mim...
Que mais posso eu querer?
Não sou nesta vida nem eu nem ninguém,
Vou sem ser nem prazo...
Que ao menos na estrada me sorria alguém
Ainda que por acaso.
22/04/1928
Irene Lisboa
Pequenos poemas mentais
I
Quem não sai de sua casa,
não atravessa montes nem vales,
não vê eiras
nem mulheres de infusa,
nem homens de mangual em riste, suados,
quem vive como a aranha no seu redondel
cria mil olhos para nada.
Mil olhos!
Implacáveis.
E hoje diz: odeio.
Ontem diria: amo.
Mas odeia, odeia com indômitos ódios.
E se se aplaca, como acha o tempo pobre!
E a liberdade inútil,
inútil e vã,
riqueza de miseráveis.
II
Como sempre, há-de-chegar, desde os tempos!
Vozes, cumprimentos, ofegantes entradas.
Mas que vos reunirá, pensamentos?
Chegais a existir, pensamentos?
É provável, mas desconfiados e inválidos,
Rosnando estúpidos, com cães.
Ó inúteis, aquietai-vos!
Voltai como os cães das quintas
ao ponto da partida, decepcionados.
E enrolai-vos tristonhos, rabugentos, desinteressados.
III
Esse gesto...
Esse desânimo e essa vaidade...
A vaidade ferida comove-me,
comove-me o ser ferido!
A vaidade não é generosa, é egoísta,
Mas chega a ser bela, e curiosa!
E então assim acabrunhada...
Com franqueza, enternece-me.
Subtil
A minha mão que, julgo, ridicularizas,
de que desconheces a suavidade,
cerra-te pacificamente os olhos
e aquieta benignamente o ar.
Paira sobre a tua cabeça, móbil, branda,
na prática de um velho rito,
feminil, piedoso, desconhecido e inconfesso.
IV
Ó luxúria brutal, perversa e felina,
dos outros, alheia,
sem pensamentos nem repouso!
retira-me da frente o venenoso cálice,
a tua peçonha adocicada.
Que a morte, o nirvana, a indiferença
dos longuíssimos anos sem sobressaltos, me retome.
Abro os braços e meço: cá, lá... cá, lá...
solidão, infinita solidão!
E neste movimento, neste balouço, adormeço,
Cá, lá... morte, vida... morte, vida...
Todas as ausências, todas as negações.
V
Os poetas cumprimentam-se, delicados.
Cada um como seu metro, o seu espírito, a sua forma;
as suas credenciais...
Mas são simpáticos os poetas!
Sensíveis, femininos, curiosos.
Envolve-os um mistério.
Não! Esta é a linguagem de toda gente: o mistério...
Que mistério?
Os poetas são apenas reservados, são apenas...
perturbados e capciosos.
VI
Cai um pássaro do ar, devagar, muito devagar.
E as árvores soturnas não se mexem.
Estio!
Não se vêem bulir as árvores, em bloco, ou aos arcos,, estampadas...
Elegante Lapa! Sol fosco, paisagem de manhã.
A gente do sítio, pobreza e riqueza, ainda recolhida.
Aqui, uma janela discreta que se abre, preta, cega.
Ali outra fechada.
E esta alternância, bastante irregular, vai-se repetindo, repete-se...
E eu, ai eu! Prisioneira, sempre prisioneira; tão enfadada!
Carlos Drummond de Andrade
“A Kiss, Un Baiser, Un Bacio”
para a terra que o acolheu.
Assim quis nosso Stefan Baciu
saudar o Rio antigo e seu.
Não muito antigo, mas trint’anos
tecem uma quase eternidade.
Entre danos e desenganos,
resta porém a claridade
(ou a penumbra) de lembrar
em surdina dias e gentes,
muito doce, bem devagar.
E as coisas tornam-se presentes.
Jornal e bonde e mortadela
comida à pressa, num minuto.
Contra a sorte cinz’amarela,
a Poesia: último reduto.
Praias e ondas do Havaí,
pulsando ao sol e ao vento vário,
não nos tiram Baciu daqui:
carioca ele é, mais que honorário.
Martha Medeiros
no fundo sabemos
que somos todos loucos
ninguém em sã consciência
se regraria dessa forma
sem saber afinal
para onde iremos
ninguém repetiria os mesmos passos
e aceitaria tão poucas escolhas
medicina engenharia arquitetura
música teatro escultura
homeopatia hipnose acupuntura
ninguém
a não ser por loucura
seria casado ou solteiro
trabalhador ou biscateiro
gremista ou colorado
entre londres e new york
entre o álcool e a gasolina
entre a vida e a pantomima
quem de nós arriscará
uma outra alternativa
a essa altura?
Ruy Belo
Mortis causa
houvesse para ti sempre lugar em tua casa
e não ires um dia assim convencional serena
como papel ou lixo pela escada abaixo
Mulher espremida enquanto deste vida
e resumida à pequenina luz que se liberta
do gesto estritamente necessário linha recta
para anular o espaço entre a mão e a coisa
movimentos dos dias divergentes de outros dias
E tudo vai moendo e remoendo momento a momento
triturando colhendo arrepanhando
face ficta fraca e fixa
a fruta em frente fita, frígida fremente
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 123 | Editorial Presença Lda., 1984
Martha Medeiros
há pessoas que perdem os óculos
o emprego, o ônibus, o fígado
rompem contratos, noivados
perdem a estreia do teatro
há pessoas que perdem a viagem, os amigos
rompem o nervo ciático
perdem a cabeça, a deixa, a memória
faturam cachês minguados
há pessoas que perdem dinheiro, fazenda, anéis
a missa das seis
rompem a noite atrás de motéis, de mulheres
que perdem o vestido, a calcinha, o pudor
há pessoas que perdem o valor, o isqueiro
perdem o lugar, o sono, o poder
corrompem o amor, perdem sua vez
há mães que perdem seus filhos
então não há mais nada a perder
Ruy Belo
Rua do Sol a Sant'Ana
que dos gestos emerge num cessar de mãos
e é confiada à noite pelo dia
numa assembleia de olhos temporariamente mortos
e trabalhada ao lume e ao relento
para poder então ser transmitida ao sol mais próximo do dia
no princípio das ruas devassadas pelo vento
através das profanas novidades de palavras
da floresta dos braços pertencentes à imensa multidão
e de muitos corações condescendentes
coleccionadores de meigos sentimentos
entre cartas que vão de mão em mão em alegre comércio
lá onde a vida multiplica a paisagem
e a natureza aceita muda humanos movimentos
sob altos céus propícios mas distantes
aí precisamente aí os santos são crucificados lentamente longas tardes]
e há quem consiga vê-los através dos vários rostos
que nos risos avultam ou nas ruas ou nos rios
exactamente quando o telefone afere a força de uma voz
a par dos gestos estritamente necessários
da dignidade da mulher no parto
dos pequeninos e apeninos passos que se dão dentro de casa
Porém nenhum rasto desiste ou renasce distante
ou talvez nalgum reino isto seja importante
Este é o tempo das grandes descobertas
se soubermos seguir os preciosos passos dos turistas
o sacristão sagaz que sabe o sítio de minúsculos objectos
respeitáveis senhoras que transpiram leque e caridade
Não é tão agradável ser católico
saber se nos havemos de sentar ou levantar
quem condenar quem absolver com magnanimidade
entre quem com que cuidados ratear a culpa pelo mais tímido gesto]
ou como converter à nossa imaculada vida Deus?
Quase tão agradável como no inverno introduzir os pés frios na cama]
e ouvir pela manhã resfolegar o caterpillar número seis
e acordar os funcionários do sindicato em frente
Tão modestos subsídios para uma rudimentar teoria do envenenamento]
Nascemos e morremos e é sempre o mesmo sol lá fora
Inúmeras possibilidades há nesta ou em qualquer manhã
Há consultas marcadas nos dentistas
há saltos que se prendem nas calçadas
orçamentos familiares prédios de rendimento óculos de publicidade]
e calças que já vão ficando curtas
Importantes assuntos passam nas agendas de ano para ano
e muitas outras coisas fazem as pessoas infelizes
Há vários subsecretários sem emprego
uma mulher depois um ministério assim a vida inteira
o que é preciso é termos qualquer coisa
Consta que há uns generais suicidando-se
e outros as memórias publicando
um singular olhar que se perdeu durante a conferência
e a nespereira tão intensamente seca num quintal
e o mar inacessível impossível de saudar
e não amarmos Cristo de maneira inalterável
Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo por tudo e designadamente]
por um olho vazado por esta minha mão que nunca mais conheço
pelo que há de matinal na voz da vendedeira de jornais
É bom saber que há revolução lá longe
recebê-la ainda quente das máquinas dos dedos
para tudo morrer na boca que se abre (de sono ou no dentista)
Lavam de inúmeras questões as mãos os mais prudentes
imerecidamente vão secando flores
e os filhos protegendo os braços nus das mães
que por mais um verão os mostrarão ainda
Das casas das melhores famílias da cidade
sobe ao cair da tarde o complexo perfume
das orações transpirações dejectos
É no entanto de notar o nobilíssimo costume
segundo o qual as mulheres não vão à guerra
E apesar disso luta-se à entrada da cidade
e há a considerar os êxitos contemporâneos
e a imbecil camaradagem dos colegas de repartição
e o mal que por trás das nossas persistentes caras
depositamos nos vizinhos alicerces
Somos vistos por fora temos corpos
resgatam-se os chapéus nos restaurantes
a tarde cola-se viscosamente à pele
e nem os bons chefes de família sabem já a conta certa
de todos os domingos vindos pelas persianas
e das vozes insólitas às portas do sol-pôr
Pelas janelas já os edifícios como que nos fitam
diminuem na arca os cobertores
e vão as últimas crianças demorando a voz
naquela eternidade azul que a hora lhes concede
antes do sono sobre os mais humanos pensamentos
Ensinam-nos os velhos a não temer a noite
e o amor dá-nos os braços com que vamos
a quanto amamos (mais que ao que animamos)
Mais débil veste basta que cruzar a tarde
el polvo roba el dia y le escurece
e nasce o fruto mais insólito nos lábios
quando algumas cidades conhecidas (e até desconhecidas) se nos cruzam na memória]
e as farmácias começam a fazer negócio
e crescem muitas vezes nalgum pátio assustadoras vozes
e descem das montanhas elefantes brancos todos os rebanhos
e partem por nós dentro todos os caminhos
e a noite enfuna as árvores de vento
e unge em suas assombrosas mãos o corpo da cidade
esmaga-lhe a boca arquiva-lhe os cabelos
mata-lhe os olhos dá-lhe nas esquinas cotovelos
precisamente porque há um caminho para o mar
e em certos gestos nascem coisas muito grandes
e é dia lá onde o olhar dos loucos abre
Levanto-me dos olhos para o meu poema
regulo o vento evito-lhe as esquinas
e levemente o levo pela mão à noite
e dou-lhe a calculada dose em minha provisória morte
Levantam-se nas casas todas as mulheres
as menos belas olham as mais belas
as da Jónia passeiam levemente nuas
as de Tarso veladas e Paulo morto há pouco
E a esperança, quando o sol afasta as nuvens
com róseos dedos sobre Esparta ou a arenosa Pilos,
que o tempo para sempre haja mudado
E houve uma tarde e uma manhã primeiro último dia
Ó homens há séculos erguidos e caídos
magnanimi heroes nati melioribus annis
vindos no lombo dos meses menos habitáveis
de hirtas mãos abertas entre a vida
talvez vos não receba o coração
de uma grande cidade em construção
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 73 a 76 | Editorial Presença Lda., 1984