Cidade e Cotidiano
Charles Bukowski
O Preço
Cordon Rouge – na companhia de putas.
uma se chama Georgia e
não é chegada em meia-calça:
estou sempre tendo que ajudá-la
com suas longas meias negras.
a outra é Pam – mais bonita
porém meio desalmada, e
fumamos e conversamos e
brinco com suas pernas e
enfio meu pé descalço na
bolsa aberta de Georgia.
está cheia de
frascos com pílulas.
tomo algumas delas.
“escutem”, eu digo, “uma de
vocês tem alma, a outra
aparência. posso combinar
vocês duas? pegar a alma
e enfiar na aparência?”
“se você me quer”, diz Pam, “vai
lhe custar cem pratas.”
bebemos um pouco mais e Georgia
despenca no chão e não consegue
se levantar.
digo a Pam que gosto muito
de suas orelhas. seu
cabelo é longo e natural e
ruivo.
“estava de brincadeira quando falei em
cem”, ela diz.
“oh”, eu digo, “quanto vai me
custar?”
ela acende um cigarro com
meu isqueiro e me olha
através da chama:
seus olhos me dizem.
“olhe”, eu digo, “acho que não
poderei pagar aquele preço novamente.”
ela cruza as pernas
dá uma tragada em seu cigarro
sorri enquanto expele a fumaça
e diz, “claro que pode”.
Martha Medeiros
acho que não sou daqui
paro em sinal vermelho
observo os prazos de validade
bato na porta antes de entrar
sei ler, escrever
digo obrigado, com licença
telefono se digo que vou ligar
renovo o passaporte
não engano no troco
até aí tudo bem
mas não sou daqui
também
porque não gosto de samba
de carnaval, de chimarrão
prefiro tênis ao futebol
não sou querida, me atrevo
a cometer duas vezes o mesmo erro
não sou de turma
a cerveja me enjoa
prefiro o inverno
e não me entrego
sem recibo
Charles Bukowski
Barata
sobre os ladrilhos
enquanto eu estava mijando e
ao virar minha cabeça
ela enfiou o traseiro
numa fenda.
peguei o inseticida e disparei o aerossol
e disparei e disparei
e finalmente a barata saiu
e me lançou um olhar muito nojento.
então desabou dentro
da banheira e fiquei assistindo à
sua morte
com um prazer sutil
pois eu pagava o aluguel
e ela não.
recolhi-a com
um tipo de papel higiênico
azul-esverdeado e joguei-a
na descarga. era tudo o que se
tinha a fazer, exceto que
nas redondezas de Hollywood e
Western temos que seguir
fazendo isso.
dizem que algum dia essa
tribo herdará
a terra
mas faremos com que
esperem mais
alguns meses.
Golgona Anghel
Na sala de leitura da insónia
Quando o carro do lixo é
a única resposta ao silêncio
e cada instante é um amante
que matamos num abrir e fechar de pernas,
acompanho em eco, até à estação,
os passos apressados das empregadas de limpeza.
Para elas, não há inferno. Simplesmente,
evitam sonhar.
Para nós, o autocarro 738 irá sempre ao Calvário,
mesmo se pago o bilhete.
No horizonte lento mas seguro de uma utopia light,
passo o dia a vender o meu terceiro mundo
em colóquios e palestras internacionais.
Mostro a toda a gente o canino de ouro,
a minha pele de girafa,
a bibliografia em francês.
Escrevo a palavra vazio
depois da palavra espera.
Pouso as mãos sobre os joelhos cansados.
Limpa
mas mal vestida
– olhai –
Sou o novo modelo para o fracasso
Charles Bukowski
Quem, Diabos, É Tom Jones?
estive dormindo com uma
garota de 24 anos de
Nova York – na época
em que ocorria a greve dos
lixeiros, e certa noite
minha antiga mulher de 34 anos
chegou e disse, “quero ver
minha rival”. foi o que ela fez
e então disse, “ó, você
é a coisinha mais querida!”
depois disso reparei que houve uma
gritaria de gatas selvagens –
urros e unhadas,
lamentos de animal ferido,
sangue e mijo...
eu estava bêbado e só de
calção. tentei
separar as duas e caí,
torcendo o joelho. então
atravessaram a porta e
avançaram rua
afora.
chegaram viaturas cheias
de policiais. um helicóptero da
polícia sobrevoou o local.
fiquei no banheiro
e sorri para o espelho.
não é comum que coisas
tão esplêndidas assim
aconteçam aos 55 anos.
muito melhor do que os distúrbios em
Watts[3].
a de 34 retornou
para dentro. estava toda
mijada e sua roupa
transformada em farrapos e era
seguida por dois policiais que
queriam saber a razão daquilo tudo.
erguendo meus calções
eu tentava explicar.
António Ramos Rosa
Qual É a Cena? Hesito À Luz Escassa
Caminho para ela na distância
atravesso salas e salas
dispostas numa ordem regular
e decisiva
que não consigo definir Aqui
o espectáculo começou antes de mim
Quero tocá-la ou vê-la ou antes
quero-a quando ela deflagra
o meu andar é flexível: não desloco os objectos
Lenda ou narrativa vivi talvez o que em tempos me contaram
e o que escrevo agora Tudo se duplica
num movimento presente
As coisas não voltam para mim as faces cegas
e divididas
É um espaço que se move e desenvolve
Um sopro que vem de todos os lados
anima cada coisa
O meu desejo dela a distante figura
identifica-se
com o percurso obscuro em que já não me distingo
do ilimitado organismo dos sinais
Sou a diferença que caminha e que adere à distância
Cada palavra me separa e me diz o lugar
ou não lugar
em que vou falar-lhe É preciso que lhe fale
Ela não me vê e parece não me ouvir
Alguma vez caminhámos nesta cidade, nesta rede?
Alguma vez te perdeste com ela nesta rua?
O rumo repete-se mas desvia-se do passado
há uma recusa viva na sua face inabordável
Não é possível chegar Não é possível deter-me
É para o labirinto que falo e a linguagem responde-me
Assim posso entender o murmúrio das lâmpadas
cada palavra é um acto com que avanço no escuro
estou mais perto da terra de uma árvore de uma erva
e os meus dedos sentem as raízes do obscuro
Adiro a uma chama insubmissa ao sexo do repouso
o percurso é uma fábula o desesperado encanto
do para sempre perdido na maravilha obscura
Não há centro e a figura distancia-se
mas cada passo meu define uma distância solar
em que a figura dela por vezes é um canto
que se confunde com os meandros do labirinto
Marina Colasanti
Seu José
porteiro do meu prédio
homem bom e lento
de pequenos olhos
e miúdos passos
parecia-me sempre navegar
à procura de terra.
Varria a calçada em frente
à portaria
e juntava dinheiro
a mão fechada
no cabo da vassoura
e nas crescentes posses.
Aposentou-se quando de devido
nem um dia antes
tinha casa terreno apartamento
e a esclerose instalada.
Passa agora seus dias
varrendo a grama
no sítio de subúrbio
e ao fim da tarde pergunta
se já voltaram do monte
as ovelhas da infância.
Charles Bukowski
Social
rasgos de estrada amarela
um volante
uma mulher insana sentada
ao seu lado
reclamando enquanto o oceano
faz espuma
e pessoas em motor homes
amarelas e
brancas
impedem sua passagem
por um tempo
frenético
enquanto você escuta
culpado disso e
culpado daquilo
você admite
isso e aquilo
mas nunca é o
suficiente
ela quer conquistas
esplêndidas
e você está escaldado por
essas conquistas
esplêndidas
chegando lá
ela desce
caminha em direção à
casa
você mija junto ao
para-lamas do seu carro
bêbado de cerveja
pequenas gotas de você
pingando na
poeira
na poeira
seca
depois de fechar o zíper você
se põe em marcha
para encontrar os amigos
dela.
Charles Bukowski
Sinais de Trânsito
no parque olhando o mar ao longe
pondo marcadores ao longo da pista
com gravetos de madeira.
quatro jogam, dois para cada lado
e 18 ou 20 se sentam ao
sol e assistem
percebo isso enquanto sigo
em direção ao banheiro público
enquanto meu carro está no conserto.
o parque abriga um velho canhão
enferrujado e inútil.
seis ou sete veleiros cortam
o mar lá embaixo.
termino a tarefa
saio
e eles continuam jogando.
uma das mulheres usa uma maquiagem carregada
brincos falsos e fuma
um cigarro.
os homens são muito magros
muito pálidos
usam relógios de pulso que lhes machucam
os pulsos.
a outra mulher é muito gorda
e dá uns risinhos
a cada vez que um ponto é marcado
alguns deles têm a minha idade.
eles me enojam
o modo como esperam pela morte
com tanta paixão
quanto um sinal de trânsito.
essas são as pessoas que acreditam em comerciais
essas são as pessoas que compram dentaduras a prazo
essas são as pessoas que comemoram feriados
essas são as pessoas que têm netos
essas são as pessoas que votam
essas são as pessoas que têm funerais
esses são os mortos
neblina e fumaça
o fedor no ar
os leprosos.
esses são afinal quase todos
que existem.
gaivotas são melhores
algas marinhas são melhores
areia suja é melhor
se pudesse posicionar aquele velho canhão
contra eles
e fazê-lo funcionar
eu o faria.
eles me enojam.
Manuel António Pina
Que dia? Que olhar?
Cheguei demasiado tarde
e já todos se tinham ido embora
restavam paeis velhos, vidas mortas,
identidade, sujidade, eternidade.
Comeram o meu corpo e
beberam o meu sangue; e, pelo caminho, a minha biblioteca;
e escreveram a minha Obra Completa;
sobro, desapossado, eu.
Resta-me ver televisão,
votar, passear o cão
(a cidadania!). Prosa também podia,
e lentidão, mas algo (talvez o coração) desacertaria.
Pôr-me aos tiros na cara como Chamfort?
Dar em aforista ou ainda pior?
Mudar de cidade? Desabitar-me?
Posmodernizar-me? Experienciar-me?
Com que palavras e sem que palavras?
Os substantivos rareiam, os verbos vagueiam
por salões vazios e incendiados
entregando-se a guionistas e aparentados.
Cheira excessivamente a morte por aqui
como no fim de uma batalha cansada
de feridas antigas, e eu sobrevivi
do lado errado e pela razão errada.
"Que dia? Que olhar?"
(Beckett, "Dias felizes")
Que feridas? Que estanda-
te? Que alheias cicatrizes?
Estou diante de uma porta (de uma forma)
com o - como dizer? - coração
(um sítio sem lugar, uma situação)
cheio de palavras últimas e discórdia.
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", págs. 304 e 305 | Assírio & Alvim, 2012
Charles Bukowski
Guerra de Trincheira
bebendo cerveja
o rádio num volume
suficientemente alto para superar
os sons produzidos
pelo estéreo das pessoas que
recém se mudaram
para a casa
ao lado.
dormindo ou acordados
eles ajustam seu aparelho
no volume máximo
deixando suas
portas e janelas
abertas.
cada um deles tem
18, casados, vestem
sapatos vermelhos,
são loiros,
magros.
tocam de
tudo: jazz,
música clássica, rock,
country, moderna
contanto que esteja
alta.
este é o problema
de ser pobre:
temos que conviver com
o som dos outros.
semana passada foi
minha vez:
havia duas mulheres
aqui
brigando entre si
e elas
correram pela calçada
gritando.
a polícia veio.
agora é a vez
deles.
agora caminho
pra lá e pra cá em
meus calções sujos,
dois tampões de borracha
enfiados bem fundo
em meus ouvidos.
chego a pensar em
assassinato.
esses coelhos
pequenos e rudes!
pedacinhos ambulantes
de ranho!
mas na nossa terra
e do nosso jeito
nunca terá havido
uma chance;
somente quando
as coisas não estão
indo tão mal
por um instante
que esquecemos.
algum dia cada um
deles estará morto
algum dia cada um
deles terá um
caixão separado
e então haverá
silêncio.
mas por ora
é Bob Dylan
Bob Dylan Bob
Dylan por aí
afora.
Marina Colasanti
Como um cruzar de espadas
os passos não se ouvem
tragados pelas felpas do tapete
nem se ouvem as vozes
que espaço e luzes fazem sussurrantes.
Mulheres
mais que homens
embrenham-se na selva das araras
avançam nas trincheiras de indumentos
encobertos os corpos pelos panos
pés expostos
e os braços prontos a colher a presa.
Um tilintar de ferro contra ferro
funde-se frio no ar climatizado.
Não trai cruzar de lâminas
espadas
são ganchos de cabides que se chocam
tangidos pelas mãos
uns contra os outros
na antiquíssima luta
da coleta.
Charles Bukowski
A Noite Em Que Trepei Com Meu Despertador
passando fome na Filadélfia
eu ocupava um quartinho
caía a tarde e a noite chegava
e me postei junto à janela no 3° andar
no escuro e olhei para uma
cozinha que ficava no outro lado do 2° andar
e avistei uma bela garota loira
abraçar um jovem e ali beijá-lo
com o que parecia ser fome
e fiquei parado a olhá-los até que se
separassem.
então dei meia-volta e acendi a luz do quarto.
vi minha cômoda e suas gavetas
e meu despertador sobre ela.
peguei o relógio
e o levei pra cama comigo
trepei com ele até que os ponteiros caíssem fora.
depois saí e vaguei pelas ruas
até sentir meus pés se encherem de bolhas.
quando voltei fui até a janela
e olhei pra baixo e lá pro outro lado
e a luz na cozinha deles estava
apagada.
Charles Bukowski
Cão
caminhando sozinho numa calçada quente em pleno
verão
parece ter mais poder
do que dez mil deuses.
por que isso?
Charles Bukowski
Cupons
da noite passada
você acende um
se engasga
abre a porta em busca de ar
e junto à entrada
está um pardal morto
sua cabeça e seu peito
arrancados.
pendurado à maçaneta
há um anúncio da All American
Burger
que consiste de alguns cupons
que
dizem
que na compra
de um hambúrguer
de 12 de fev. a 15 de fev.
você ganha de graça
um pacote de batatas
fritas médio e um
copo pequeno de coca-cola.
pego o anúncio
embrulho o pardal com ele
levo até a lata de lixo
e despejo lá
dentro.
veja:
renunciando a batatas fritas e coca
para ajudar a manter
minha cidade
limpa.
Charles Bukowski
Sorte
tudo
é ver as pessoas
bebendo café e
esperando. gostaria de
embebê-los todos
na sorte. eles precisam
disso. precisam bem
mais do que eu.
sento nos cafés
e os vejo a
esperar. não creio
que haja muito mais
a fazer. as moscas
vão pra lá e pra cá
nos vidros das janelas
e bebemos nosso
café e fingimos
não olhar uns
para os outros.
espero junto com eles.
entre o movimento
das moscas
as pessoas vagueiam.
Charles Bukowski
Camas, Banheiros, Você E Eu...
usadas e reutilizadas
para trepar
para morrer.
nesta terra
alguns de nós trepam mais do que
nós morremos
mas a maioria de nós morre
melhor do que
trepamos,
e morremos
bocado a bocado também –
em parques
tomando sorvete, ou
nos iglus
da demência,
ou em esteiras de palha
ou sobre amores
desembarcados
ou
ou.
:camas, camas, camas
:banheiros, banheiros, banheiros
o sistema de esgoto humano
é a maior invenção do
mundo.
e você me inventou
e eu inventei você
e é por isso que nós não
damos
mais certo
nesta cama.
você era a maior invenção
do mundo
até que resolveu
me mandar descarga
abaixo.
agora é a sua vez
de esperar que alguém aperte
o botão.
alguém fará isso
com você,
puta,
e se eles não fizerem
você fará –
misturada ao seu próprio
adeus
verde ou amarelo ou branco
ou azul
ou lavanda.
Charles Bukowski
Roubada
agora
esperando por mim
azul
o para-choque frontal amassado
a cruz de Malta pendurada
no retrovisor.
o tapete de borracha
embolado debaixo dos pedais.
8 km/l
o bom e velho TRV 491
a fiel amante de um homem,
o modo como eu lhe engatava a segunda
ao dobrar uma esquina
o modo como ela podia furar um sinal
quando ninguém estava por perto.
o modo como conquistávamos enormes
e pequenos espaços
chuva
sol
neblina
hostilidade
o impacto das coisas.
saí das lutas no Olympic na última
terça-feira à noite
e minha caranga tinha sumido
com outro amante
para outro lugar.
as lutas tinham sido boas.
chamei um táxi numa estação
e me sentei numa cafeteria para comer
uma rosquinha com geleia acompanhada de café e
esperei,
e eu sabia que se encontrasse
o homem que a havia roubado
eu o mataria.
o táxi chegou. acenei para o
motorista, paguei pela rosquinha e pelo
café, saí noite afora,
entrei no carro, e lhe disse, “Hollywood com
a Western”, e naquela noite
em específico aquilo foi tudo.
Martha Medeiros
você pra lá com seus cachorros
sua insônia de madrugada
sua mania de roer as unhas
suas brigas pelo telefone
e seus acessos de fúria e nostalgia
eu pra cá com minhas doses de uísque
meus porta-retratos, meus diários
minha luz acesa até tarde
minha tosse e meus suspiros
meu amor e loucura, minha alergia
você pra lá com seus sonhos de cowboy
com suas entranhas, sua família
eu pra cá com minhas filhas
meus desmaios e suor
você pra lá
eu pra cá
enfim, sós
Martha Medeiros
ele tinha acabado de dobrar a esquina
quando entrou numa livraria
eu estava saindo de uma loja de discos
onde havia escutado Schubert
ele escolhia um dicionário de rimas
mas estava incerto do que queria
eu parei diante da vitrine
mas estava incerta do que via
ele comprou o dicionário
quando o céu escureceu
eu entrei na livraria
quando a chuva começou
foi então que aconteceu
Charles Bukowski
Noite de Natal, Sozinho
num quarto de motel
junto à costa
perto do Pacífico –
ouviu?
eles tentaram fazer desse lugar algo
espanhol, há
tapeçarias e lâmpadas, e
o banheiro é limpo, há
minibarras de sabonete
rosa.
não nos encontrarão por
aqui:
as piranhas ou as damas ou
os adoradores
de ídolos.
lá na cidade
eles estão bêbados e em pânico
furando sinais vermelhos
arrebentando suas cabeças
em homenagem ao aniversário de
Cristo. isso é uma beleza.
em breve terei terminado esta garrafa de
rum porto-riquenho.
pela manhã vomitarei e tomarei
banho, voltarei para
casa, comerei um sanduíche à uma da tarde,
estarei no meu quarto por volta das
duas,
estirado na cama,
esperando o telefone tocar,
sem responder,
meu feriado é uma
evasão, minha razão
não é.
Nuno Júdice
A origem do mundo
ainda fresca, sai com as raízes; e mistura-se com
a névoa da madrugada. O mundo, então,
fica ao contrário: o céu, que não vejo, está
por baixo da terra; e as raízes sobem
numa direção invisível. De dentro
de casa, porém, um cheiro a café chama
por mim: como se alguém me dissesse
que é preciso acordar, uma segunda vez,
para que as raízes cresçam por dentro da
terra e a névoa, dissipando-se, deixe ver o azul
Charles Bukowski
O Humilde Herdou
máquina de escrever
pense em como eu me sentiria
entre os colhedores
de alface em Salinas?
penso nos homens
que conheci nas
fábricas
sem qualquer chance de
escapar –
sufocados enquanto vivem
sufocados enquanto riem
de Bob Hope ou Lucille
Ball enquanto
2 ou 3 crianças jogam
bolas de tênis contra
as paredes.
alguns suicídios jamais são
registrados.
Pierre Albert-Birot