Poemas neste tema
Cidade e Cotidiano
Mendes de Carvalho
Altifalantes
Altifalam vozes
nos salões e nas praças
nos ouvidos nos tumultos
martelam esmurram gritam palmejam
comunicam urram.
Conferências discursos aspectos e palestras
lições homenagens notas do dia e da semana
et nunc et semper.
Discursos almicos encomendados traduzidos
decorados divertidos ambaquistas.
Palavras datilografadas improvisos ponderados
palavras dinâmicas magnéticas.
Altifalam palavras.
Hora de camaleões e altifalantes.
nos salões e nas praças
nos ouvidos nos tumultos
martelam esmurram gritam palmejam
comunicam urram.
Conferências discursos aspectos e palestras
lições homenagens notas do dia e da semana
et nunc et semper.
Discursos almicos encomendados traduzidos
decorados divertidos ambaquistas.
Palavras datilografadas improvisos ponderados
palavras dinâmicas magnéticas.
Altifalam palavras.
Hora de camaleões e altifalantes.
938
1
Mendes de Carvalho
S Romão
S. Romão é a terra e o mar
T. o vento o luar a noite total e o sol.
Em S. Romão cada um é rei de si mesmo
e lá os reis a valer não têm qualquer realidade
Em S. Romão podemos ficar ao sol
podemos perder-nos dentro da noite
podemos não fazer coisíssima nenhuma
podemos erguer um hino à preguiça
podemos ficar budamente de mãos na barriga
podemos ter poesia que não venha nos livros
podemos ter um cão nosso conhecido
sem nunca nos ter sido apresentado
um cão sem coleira que ladra à lua
livremente cão esquecido do fisco.
O nome deste lugar anfíbio é fictício
para que não o descubram os turistas
que andam sempre com o nariz no ar
e não seja enviado em cartaz para o estrangeiro
e nem sequer o descubra o Manuel Bandeira
que é amigo do rei de Pasárgada
e este não sabe andar sem comitiva
para que nenhum americano vá construir uma pousada
para week-end vinícola.
Em S. Romão não há pintores paisagistas
nem hoteleiros
nem urbanistas.
Em S. Romão ninguém pensa salvar o mundo
o que só acontece às pessoas perdidas de todo
e aos escritores neorealísticamente locais
que conhecem todas as misérias por fora.
S. Romão não é porto de abrigo
Desde já aviso à navegação.
Não há faroleiro os rochedos são perigosos
o mar sem distância é aventura
promessa de peixe
certeza de fome.
T. o vento o luar a noite total e o sol.
Em S. Romão cada um é rei de si mesmo
e lá os reis a valer não têm qualquer realidade
Em S. Romão podemos ficar ao sol
podemos perder-nos dentro da noite
podemos não fazer coisíssima nenhuma
podemos erguer um hino à preguiça
podemos ficar budamente de mãos na barriga
podemos ter poesia que não venha nos livros
podemos ter um cão nosso conhecido
sem nunca nos ter sido apresentado
um cão sem coleira que ladra à lua
livremente cão esquecido do fisco.
O nome deste lugar anfíbio é fictício
para que não o descubram os turistas
que andam sempre com o nariz no ar
e não seja enviado em cartaz para o estrangeiro
e nem sequer o descubra o Manuel Bandeira
que é amigo do rei de Pasárgada
e este não sabe andar sem comitiva
para que nenhum americano vá construir uma pousada
para week-end vinícola.
Em S. Romão não há pintores paisagistas
nem hoteleiros
nem urbanistas.
Em S. Romão ninguém pensa salvar o mundo
o que só acontece às pessoas perdidas de todo
e aos escritores neorealísticamente locais
que conhecem todas as misérias por fora.
S. Romão não é porto de abrigo
Desde já aviso à navegação.
Não há faroleiro os rochedos são perigosos
o mar sem distância é aventura
promessa de peixe
certeza de fome.
948
1
Maria Braga Horta
O Trem de Ferro
Passa o rio
passa a ponte
passa o sol
e passa o vento
passa o cavalo no pasto
passa boi
passa boiada
passa o cachorro sarnento
de todos e de ninguém
passa a moça na janela
meninos jogando bola
meninos vendendo frutas
mendigos pedindo esmola
já passaram mais de cem.
O que passa neste trecho
passa no trecho que vem.
O trem passa sempre cheio:
mudança que vai, que vem.
Ninguém está satisfeito
onde está e com o que tem.
Passa a vida e passa o trem...
passa a ponte
passa o sol
e passa o vento
passa o cavalo no pasto
passa boi
passa boiada
passa o cachorro sarnento
de todos e de ninguém
passa a moça na janela
meninos jogando bola
meninos vendendo frutas
mendigos pedindo esmola
já passaram mais de cem.
O que passa neste trecho
passa no trecho que vem.
O trem passa sempre cheio:
mudança que vai, que vem.
Ninguém está satisfeito
onde está e com o que tem.
Passa a vida e passa o trem...
1 037
1
Carlos Drummond de Andrade
Serenata
Flauta e violão na trova da rua,
que é uma treva rolando da montanha,
fazem das suas.
Não há garrucha que impeça:
a música viola o domicílio
e põe rosas no leito da donzela.
que é uma treva rolando da montanha,
fazem das suas.
Não há garrucha que impeça:
a música viola o domicílio
e põe rosas no leito da donzela.
1 744
1
Arthur Rimbaud
NO CABARÉ VERDE - às cinco da tarde
Oito dias de estrada, as botas esfoladas
De tanto caminhar. Em Charleroi, desvio:
- Entro no Cabaré Verde: peço torradas
Na manteiga e presunto; que não seja frio.
Despreocupado estiro as pernas sobre a mesa
Verde e me esqueço a olhar os temas primitivos
Sobre a tapeçaria. - Adorável surpresa,
A garota de enormes tetas, olhos vivos,
- Essa, não há de ser um beijo que a afugente! -
Rindo, vem me trazer meu pedido numa
Bandeja multicor: pão com presunto quente,
Presunto rosa e branco aromado de um dente
De alho, e o chope bem gelado, boa espuma,
Que uma réstea de sol doura tardiamente.
Outubro de 1870
De tanto caminhar. Em Charleroi, desvio:
- Entro no Cabaré Verde: peço torradas
Na manteiga e presunto; que não seja frio.
Despreocupado estiro as pernas sobre a mesa
Verde e me esqueço a olhar os temas primitivos
Sobre a tapeçaria. - Adorável surpresa,
A garota de enormes tetas, olhos vivos,
- Essa, não há de ser um beijo que a afugente! -
Rindo, vem me trazer meu pedido numa
Bandeja multicor: pão com presunto quente,
Presunto rosa e branco aromado de um dente
De alho, e o chope bem gelado, boa espuma,
Que uma réstea de sol doura tardiamente.
Outubro de 1870
2 894
1
Viriato Gaspar
Voluntários da Pátria
perdemos a tarde
o ônibus
a paciência
e a vida
perdemos a cor
a calma
a voz
o voto
a vergonha
e agora
voltamos pela rua lentamente
livres do peso da nossa dignidade
— sobrevivemos a mais um dia —
o ônibus
a paciência
e a vida
perdemos a cor
a calma
a voz
o voto
a vergonha
e agora
voltamos pela rua lentamente
livres do peso da nossa dignidade
— sobrevivemos a mais um dia —
1 073
1
Carlos Drummond de Andrade
Chegar À Janela
Há um estilo
de chegar à janela, espiar a rua.
Nenhum passante veja o instante
em que a janela se oferece
para emoldurar o morador.
De onde surgiu, de que etérea
paragem, nublado sótão,
como pousou, quedou ali,
recortado em penumbra?
Modo particularíssimo de ficar
e não ficar ao mesmo tempo
debruçado à janela
diante da segunda-feira
e das eternidades da semana.
De frente? De lado? De nenhum
ângulo? Está e não está
presente, é ilusão de pessoa,
vaso-begônia, objeto que mofou,
exposto ao ar?
A janela e o vulto imobilizado
proíbem qualquer indagação.
de chegar à janela, espiar a rua.
Nenhum passante veja o instante
em que a janela se oferece
para emoldurar o morador.
De onde surgiu, de que etérea
paragem, nublado sótão,
como pousou, quedou ali,
recortado em penumbra?
Modo particularíssimo de ficar
e não ficar ao mesmo tempo
debruçado à janela
diante da segunda-feira
e das eternidades da semana.
De frente? De lado? De nenhum
ângulo? Está e não está
presente, é ilusão de pessoa,
vaso-begônia, objeto que mofou,
exposto ao ar?
A janela e o vulto imobilizado
proíbem qualquer indagação.
2 601
1
Dante Milano
Salmo Perdido
Creio num deus moderno,
Um deus sem piedade,
Um deus moderno, deus de guerra e não de paz.
Deus dos que matam, não dos que morrem,
Dos vitoriosos, não dos vencidos.
Deus da glória profana e dos falsos profetas.
O mundo não é mais a paisagem antiga,
A paisagem sagrada.
Cidades vertiginosas, edifícios a pique,
Torres, pontes, mastros, luzes, fios, apitos, sinais.
Sonhamos tanto que o mundo não nos reconhece mais,
As aves, os montes, as nuvens não nos reconhecem mais,
Deus não nos reconhece mais.
Um deus sem piedade,
Um deus moderno, deus de guerra e não de paz.
Deus dos que matam, não dos que morrem,
Dos vitoriosos, não dos vencidos.
Deus da glória profana e dos falsos profetas.
O mundo não é mais a paisagem antiga,
A paisagem sagrada.
Cidades vertiginosas, edifícios a pique,
Torres, pontes, mastros, luzes, fios, apitos, sinais.
Sonhamos tanto que o mundo não nos reconhece mais,
As aves, os montes, as nuvens não nos reconhecem mais,
Deus não nos reconhece mais.
1 823
1
Vitor Casimiro
Senão
Se não vivesse de porre
Viveria de salário, aluguel
E crediário para pagar
De Graça?
Tudo que puder respirar.
Filho doente
Mulher reclamando
Sogra por perto
Cunhado sem emprego
Sossego? Nem em mesa de bar.
Barraco Apertado
Goteira pingando
Grama por cortar
Carro na oficina
Piscina? Nem pensar.
Se não vivesse de porre
Viveria exatamente
Como quem morre:
Com medo da policia, do ladrão
E de quem fosse me governar.
Viveria de salário, aluguel
E crediário para pagar
De Graça?
Tudo que puder respirar.
Filho doente
Mulher reclamando
Sogra por perto
Cunhado sem emprego
Sossego? Nem em mesa de bar.
Barraco Apertado
Goteira pingando
Grama por cortar
Carro na oficina
Piscina? Nem pensar.
Se não vivesse de porre
Viveria exatamente
Como quem morre:
Com medo da policia, do ladrão
E de quem fosse me governar.
833
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Fúrias
Escorraçadas do pecado e do sagrado
Habitam agora a mais íntima humildade
Do quotidiano. São
Torneira que se estraga atraso de autocarro
Sopa que transborda na panela
Caneta que se perde aspirador que não aspira
Táxi que não há recibo extraviado
Empurrão cotovelada espera
Burocrático desvario
Sem clamor sem olhar
Sem cabelos eriçados de serpentes
Com as meticulosas mãos do dia-a-dia
Elas nos desfiam
Elas são a peculiar maravilha do mundo moderno
Sem rosto e sem máscara
Sem nome e sem sopro
São as hidras de mil cabeças da eficácia que se avaria
Já não perseguem sacrílegos e parricidas
Preferem vítimas inocentes
Que de forma nenhuma as provocaram
Por elas o dia perde seus longos planos lisos
Seu sumo de fruta
Sua fragrância de flor
Seu marinho alvoroço
E o tempo é transformado
Em tarefa e pressa
A contra tempo
Habitam agora a mais íntima humildade
Do quotidiano. São
Torneira que se estraga atraso de autocarro
Sopa que transborda na panela
Caneta que se perde aspirador que não aspira
Táxi que não há recibo extraviado
Empurrão cotovelada espera
Burocrático desvario
Sem clamor sem olhar
Sem cabelos eriçados de serpentes
Com as meticulosas mãos do dia-a-dia
Elas nos desfiam
Elas são a peculiar maravilha do mundo moderno
Sem rosto e sem máscara
Sem nome e sem sopro
São as hidras de mil cabeças da eficácia que se avaria
Já não perseguem sacrílegos e parricidas
Preferem vítimas inocentes
Que de forma nenhuma as provocaram
Por elas o dia perde seus longos planos lisos
Seu sumo de fruta
Sua fragrância de flor
Seu marinho alvoroço
E o tempo é transformado
Em tarefa e pressa
A contra tempo
2 664
1
Pedro Oom
Poema
Há um ar de espanto
no teu rosto em silêncio pequenas pausas
entre nós e as palavras
que desfiamos
Quando o silêncio (pausa mais longa
que nos contrai o peito)
cai bruscamente
duas mãos agitam-se meigamente as nossas
e os mendigos, todos os mendigos
espreitam ao postigo do teu pequeno apartamento
coroados de rosas e crisântemos
É o momento
em que afirmamos a realidade das coisas
não a que vemos na rua
e que sabemos fictícia
mas a outra
aurora cintilante
que põe estrelas no teu sorriso
quando acordas de manhã
com um sol de angústia na garganta
acredita
nada nos distingue
entre a multidão anónima a que pertencemos
embora
o fotógrafo teime sempre
em nos oferecer uma esperança
- fluido imaterial que nem mil anos
poderão condensar -
O nosso rasto
mal se apercebe na areia
condenados ao fracasso
pequena glória dos pequenos heróis deste tempo
ainda aspiramos
no entanto
a ser o índice deste século
único sinal humano, florescente e salubre
de contrário
seremos apenas
um halo de vento
arco-íris de luto
ou estrada para sedentários
É ocioso
preparar a objectiva
que nos vai condenar a um número
nesta cidade onde cada homem
é escravo de uma arma
Ocioso
avivar as flores do cenário
encher de luar o jardim do nosso afecto
Só um acaso
nos poderá revelar
por isso
fechemos o rosto
meu amor
1 116
1
Reynaldo Valinho Alvarez
Maracanã
A multidão arqueja. O sol adeja,
Asas de acácia sobre o mar de grama.
E a multidão regressa, ainda opressa,
Prenhe de estrelas, morta do vazio.
Asas de acácia sobre o mar de grama.
E a multidão regressa, ainda opressa,
Prenhe de estrelas, morta do vazio.
1 341
1
António Franco Alexandre
Julgavas,então,que a poesia era um discurso
de palavras em sentido?Sei quanto a musa aprecia
glória,poder e uniforme,quanto aguarda
o cavaleiro que produz.
A vida,afinal,anda lá fora,antes da folha
ter passado a prensa;
a mais pequena árvore é verde eterna,comparada ao arbusto
que,mal tocada a haste,se desvai em fumo.
Por isso eu fico lendo as crónicas,as lendas,
o jornal que,bem ou mal,cruza as palavras com o tempo,
e contudo!quando o lábio se engana,solta
a mais aguda fífia do trombone,
e de repente o corpo sabe a gente,e então se diz:eis
a verdadeira e pura poesia!pois seria,talvez,
somente a tua mão,cobrindo a folha.
de As Moradas 1 a 3
glória,poder e uniforme,quanto aguarda
o cavaleiro que produz.
A vida,afinal,anda lá fora,antes da folha
ter passado a prensa;
a mais pequena árvore é verde eterna,comparada ao arbusto
que,mal tocada a haste,se desvai em fumo.
Por isso eu fico lendo as crónicas,as lendas,
o jornal que,bem ou mal,cruza as palavras com o tempo,
e contudo!quando o lábio se engana,solta
a mais aguda fífia do trombone,
e de repente o corpo sabe a gente,e então se diz:eis
a verdadeira e pura poesia!pois seria,talvez,
somente a tua mão,cobrindo a folha.
de As Moradas 1 a 3
1 498
1
Roberval Pereyr
A Quem e a Quê
ao que morde o vento
ao que come coca
ao que acorda triste
ao sol de um segredo
ao laço de fita negro
ao deus dócil, inapto
ao coração morno
ao rei de cor púrpura
ao urso sem pólo
ao corpo acossado.
ao Sísifo bêbado
ao cego sisudo.
al curso de los ríos
aos tristes camaradas
à luta de boxe
ao ox no pasto
ao meigo sem pérola
à carne com osso
ao fosso emblemático
à narco-society
ao santo sepulcro
ao lucro ao lucro ao lucro
ao símbolo fálico
ao cálice mítico
ao íntimo desastre
à pequena que come
o fácil chocolate
ao que come coca
ao que acorda triste
ao sol de um segredo
ao laço de fita negro
ao deus dócil, inapto
ao coração morno
ao rei de cor púrpura
ao urso sem pólo
ao corpo acossado.
ao Sísifo bêbado
ao cego sisudo.
al curso de los ríos
aos tristes camaradas
à luta de boxe
ao ox no pasto
ao meigo sem pérola
à carne com osso
ao fosso emblemático
à narco-society
ao santo sepulcro
ao lucro ao lucro ao lucro
ao símbolo fálico
ao cálice mítico
ao íntimo desastre
à pequena que come
o fácil chocolate
890
1
Carlos Drummond de Andrade
O Inglês da Mina
O inglês da mina é bom freguês.
Secos e molhados finíssimos
seguem uma vez por mês
rumo da serra onde ele mora.
Inglês invisível, talvez
mais inventado que real,
mas come bem, bebendo bem,
paga melhor. O inglês existe
além do bacon, do pâté,
do White Horse, que o projetam
no nevoento alto da serra
que um caixeirinho imaginoso
vai compondo, enquanto separa
cada botelha, cada lata
para o grande consumidor?
Que desejo de ver de perto
o inglês bebendo, o inglês comendo
tamanho lote de comibebes.
Ele sozinho? Muitos ingleses
surgem de pronto na mesa longa
posta na serra. Comem calados.
Calados bebem, num só inglês.
Talvez um dia? Talvez. Na vez.
Secos e molhados finíssimos
seguem uma vez por mês
rumo da serra onde ele mora.
Inglês invisível, talvez
mais inventado que real,
mas come bem, bebendo bem,
paga melhor. O inglês existe
além do bacon, do pâté,
do White Horse, que o projetam
no nevoento alto da serra
que um caixeirinho imaginoso
vai compondo, enquanto separa
cada botelha, cada lata
para o grande consumidor?
Que desejo de ver de perto
o inglês bebendo, o inglês comendo
tamanho lote de comibebes.
Ele sozinho? Muitos ingleses
surgem de pronto na mesa longa
posta na serra. Comem calados.
Calados bebem, num só inglês.
Talvez um dia? Talvez. Na vez.
1 669
1
Carlos Drummond de Andrade
Tantas Fábricas
A fábrica de café de João Acaiaba
a fábrica de sabão de Custódio Ribeiro
a fábrica de vinho de João Castilho
a fábrica de meias de François Boissou
a fábrica de chapéus de Monsenhor Felicíssimo
a fábrica de tecidos de Doutor Guerra
a fábrica de ferro do Jirau do Capitão Aires
a fábrica de sonho de cada morador
a fábrica de nãos do governo longínquo
a fábrica de quê? na intérmina conversa
que rumina o milagre
e cospe de esquerda
no chão.
a fábrica de sabão de Custódio Ribeiro
a fábrica de vinho de João Castilho
a fábrica de meias de François Boissou
a fábrica de chapéus de Monsenhor Felicíssimo
a fábrica de tecidos de Doutor Guerra
a fábrica de ferro do Jirau do Capitão Aires
a fábrica de sonho de cada morador
a fábrica de nãos do governo longínquo
a fábrica de quê? na intérmina conversa
que rumina o milagre
e cospe de esquerda
no chão.
1 590
1
Claudio Willer
Dias Circulares
I
Tua presença é monstruosamente reveladora, e sei que devo continuar
a existir imerso em sua transparência. Às vezes, a própria distância
é um encontro, as horas alaranjadas do dia podem ofuscar, e a
[radiação
dos signos irá despertar-me de vez. Tudo flutua no olhar, apontando
para a descida sem limite.
II
O mistério transborda, transforma-se em enxurrada, apaga o rastro
e arrasta consigo os fragmentos dos meus ossos. As manhãs de
Setembro continuam muito frias, e flutuam em seu envoltório de
sobrenatural, crisálidas encerrando a voracidade da posse. Os
[prédios
de gelatina confundem-se com o horizonte e atraem meus passos para
o indecifrável, para a quantidade de enigma presente no teu olhar, e
que escorre pelas mãos, invadindo o ar que respiro. A armadura ainda
ensanguentada, levanto-me, para continuar a caminhada em tua direção,
estátua de sal eternamente à minha frente, absorvendo toda a
[luminosidade
do mundo, monte de signos de todos os acasos incompreensíveis,
anunciadora da queda infinita.
(...)
In: WILLER, Claudio. Dias circulares. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1976.
NOTA: Poema composto de 3 parte
Tua presença é monstruosamente reveladora, e sei que devo continuar
a existir imerso em sua transparência. Às vezes, a própria distância
é um encontro, as horas alaranjadas do dia podem ofuscar, e a
[radiação
dos signos irá despertar-me de vez. Tudo flutua no olhar, apontando
para a descida sem limite.
II
O mistério transborda, transforma-se em enxurrada, apaga o rastro
e arrasta consigo os fragmentos dos meus ossos. As manhãs de
Setembro continuam muito frias, e flutuam em seu envoltório de
sobrenatural, crisálidas encerrando a voracidade da posse. Os
[prédios
de gelatina confundem-se com o horizonte e atraem meus passos para
o indecifrável, para a quantidade de enigma presente no teu olhar, e
que escorre pelas mãos, invadindo o ar que respiro. A armadura ainda
ensanguentada, levanto-me, para continuar a caminhada em tua direção,
estátua de sal eternamente à minha frente, absorvendo toda a
[luminosidade
do mundo, monte de signos de todos os acasos incompreensíveis,
anunciadora da queda infinita.
(...)
In: WILLER, Claudio. Dias circulares. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1976.
NOTA: Poema composto de 3 parte
1 471
1
Murillo Mendes
Modinha do Empregado de Banco
Eu sou triste como um prático de farmácia,
sou quase tão triste como um homem que usa costeletas.
Passo o dia inteiro pensando nuns carinhos de mulher
mas só ouço o tectec das máquinas de escrever.
Lá fora chove e a estátua de Floriano fica linda.
Quantas meninas pela vida afora!
E eu alinhando no papel as fortunas dos outros.
Se eu tivesse estes contos punha a andar
a roda da imaginação nos caminhos do mundo.
E os fregueses do Banco
que não fazem nada com estes contos!
Chocam outros contos para não fazerem nada com eles.
Também se o diretor tivesse a minha imaginação
o Banco já não existiria mais
e eu estaria noutro lugar.
sou quase tão triste como um homem que usa costeletas.
Passo o dia inteiro pensando nuns carinhos de mulher
mas só ouço o tectec das máquinas de escrever.
Lá fora chove e a estátua de Floriano fica linda.
Quantas meninas pela vida afora!
E eu alinhando no papel as fortunas dos outros.
Se eu tivesse estes contos punha a andar
a roda da imaginação nos caminhos do mundo.
E os fregueses do Banco
que não fazem nada com estes contos!
Chocam outros contos para não fazerem nada com eles.
Também se o diretor tivesse a minha imaginação
o Banco já não existiria mais
e eu estaria noutro lugar.
1 302
1
Claudio Willer
Mais uma Vez
mergulho no amor
com a cega convicção dos suicidas
penetro passo a passo
nesta região misteriosa
turva
opaca
aberta pelo encontro dos corpos
e sinto outra familiaridade nas coisas
esta calma permanência dos objetos
agora formas de lembrar-se
o mundo
que se reduz a traços da presença
a realidade
que fala ao transformar-se em memória
tudo é conivência e signo
o espaço uma extensão do gesto
as coisas
matéria de evocação
qualquer coisa treme dentro da noite
como se fosse um som de flauta
e a cidade se contorce e se retrai
MAIS UMA VEZ
ao abrir-se para este turbulento silêncio
de olhar frente ao olhar
pele contra pele
sexo sobre sexo
In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981
com a cega convicção dos suicidas
penetro passo a passo
nesta região misteriosa
turva
opaca
aberta pelo encontro dos corpos
e sinto outra familiaridade nas coisas
esta calma permanência dos objetos
agora formas de lembrar-se
o mundo
que se reduz a traços da presença
a realidade
que fala ao transformar-se em memória
tudo é conivência e signo
o espaço uma extensão do gesto
as coisas
matéria de evocação
qualquer coisa treme dentro da noite
como se fosse um som de flauta
e a cidade se contorce e se retrai
MAIS UMA VEZ
ao abrir-se para este turbulento silêncio
de olhar frente ao olhar
pele contra pele
sexo sobre sexo
In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981
1 527
1
António Pinto de Abreu
Milagre obstétrico
As lampadas da cidade
fundiram-se todas
e numa das esquinas
da grande aldeia de cimento
um latão urbanizado
pariu um pirilampo...
Glória ao novo ser
que nasceu ao anoitecer.
O jornal não deu a grande notícia
- os fotografos tinham as máquinas
aguardando o plano superior.
Contudo
no velho latão urbanizado
o pirilampo brinca e chora
(como alguns meninos)
luzindo com o satírico brilho
da esvaziada lata de sardinhas
da "ração de combate
fundiram-se todas
e numa das esquinas
da grande aldeia de cimento
um latão urbanizado
pariu um pirilampo...
Glória ao novo ser
que nasceu ao anoitecer.
O jornal não deu a grande notícia
- os fotografos tinham as máquinas
aguardando o plano superior.
Contudo
no velho latão urbanizado
o pirilampo brinca e chora
(como alguns meninos)
luzindo com o satírico brilho
da esvaziada lata de sardinhas
da "ração de combate
1 008
1
Silvio Cruz
Pingos de Chuva
Os pingos
da chuva caem calmamente na cidade,
trazendo uma grande nostalgia.
Meu pensamento voa até uma mulher...
Ao compasso dos pingos
e de uma música da Ênya,
meu coração se põe acelerado...
?O que faz ela agora? O que pensa?
Não me importo com isso...me asseguro!
Mas, então, por que estou inquieto?
Não sei, o tempo é o melhor remédio...
E ele me dirá!
da chuva caem calmamente na cidade,
trazendo uma grande nostalgia.
Meu pensamento voa até uma mulher...
Ao compasso dos pingos
e de uma música da Ênya,
meu coração se põe acelerado...
?O que faz ela agora? O que pensa?
Não me importo com isso...me asseguro!
Mas, então, por que estou inquieto?
Não sei, o tempo é o melhor remédio...
E ele me dirá!
973
1
Gregório de Matos
Defende Seu Poeta por Seguro
Eu sou aquele, que os passados anos
Cantei na minha lira maldizente
Torpezas do Brasil, vícios, e enganos.
E bem que os decantei bastantemente,
Canto segunda vez na mesma lira
O mesmo assunto em plectro diferente.
(...)
A narração há de igualar ao caso,
E se talvez ao caso não iguala,
Não tenho por Poeta, o que é Pegaso.
De que pode servir calar, quem cala,
Nunca se há de falar, o que se sente?
Sempre se há de sentir, o que se fala!
Qual homem pode haver tão paciente,
Que vendo o triste estado da Bahia,
Não chore, não suspire, e não lamente?
Isto faz a discreta fantasia:
Discorre em um, e outro desconcerto,
Condena o roubo, e increpa a hipocrisia.
O néscio, o ignorante, o inexperto,
Que não elege o bom, nem mau reprova,
Por tudo passa deslumbrado, e incerto.
E quando vê talvez na doce trova
Louvado o bem, e o mal vituperado,
A tudo faz focinho, e nada aprova.
Diz logo prudentaço, e repousado,
Fulano é um satírico, é um louco,
De língua má, de coração danado.
Néscio: se disso entendes nada, ou pouco,
Como mofas com riso, e algazarras
Musas, que estimo ter, quando as invoco?
Se souberas falar, também falaras,
Também satirizaras, se souberas,
E se foras Poeta, poetizaras.
A ignorância dos homens destas eras
Sisudos faz ser uns, outros prudentes,
Que a mudez canoniza bestas-feras.
Há bons, por não poder ser insolentes,
Outros há comedidos de medrosos,
Não mordem outros não, por não ter dentes.
Quantos há, que os telhados têm vidrosos,
E deixam de atirar sua pedrada
De sua mesma telha receosos.
Uma só natureza nos foi dada:
Não criou Deus os naturais diversos,
Um só Adão formou, e esse de nada.
Todos somos ruins, todos perversos,
Só nos distingue o vício, e a virtude,
De que uns são comensais, outros adversos.
Quem maior a tiver, do que eu ter pude,
Esse só me censure, esse me note,
calem-se os mais, chitom, e haja saúde.
Imagem - 00080001
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.
NOTA: Faz focinho: mostra desprezo ou desagrado, seria equivalente à expressão 'faz beicinho', 'franze o nariz'; chitom: 'silêncio' 'cale-se!'; haja saúde: fórmula de despedida equivalente a 'saúde!' ou a 'adeus', hoje a 'até logo
Cantei na minha lira maldizente
Torpezas do Brasil, vícios, e enganos.
E bem que os decantei bastantemente,
Canto segunda vez na mesma lira
O mesmo assunto em plectro diferente.
(...)
A narração há de igualar ao caso,
E se talvez ao caso não iguala,
Não tenho por Poeta, o que é Pegaso.
De que pode servir calar, quem cala,
Nunca se há de falar, o que se sente?
Sempre se há de sentir, o que se fala!
Qual homem pode haver tão paciente,
Que vendo o triste estado da Bahia,
Não chore, não suspire, e não lamente?
Isto faz a discreta fantasia:
Discorre em um, e outro desconcerto,
Condena o roubo, e increpa a hipocrisia.
O néscio, o ignorante, o inexperto,
Que não elege o bom, nem mau reprova,
Por tudo passa deslumbrado, e incerto.
E quando vê talvez na doce trova
Louvado o bem, e o mal vituperado,
A tudo faz focinho, e nada aprova.
Diz logo prudentaço, e repousado,
Fulano é um satírico, é um louco,
De língua má, de coração danado.
Néscio: se disso entendes nada, ou pouco,
Como mofas com riso, e algazarras
Musas, que estimo ter, quando as invoco?
Se souberas falar, também falaras,
Também satirizaras, se souberas,
E se foras Poeta, poetizaras.
A ignorância dos homens destas eras
Sisudos faz ser uns, outros prudentes,
Que a mudez canoniza bestas-feras.
Há bons, por não poder ser insolentes,
Outros há comedidos de medrosos,
Não mordem outros não, por não ter dentes.
Quantos há, que os telhados têm vidrosos,
E deixam de atirar sua pedrada
De sua mesma telha receosos.
Uma só natureza nos foi dada:
Não criou Deus os naturais diversos,
Um só Adão formou, e esse de nada.
Todos somos ruins, todos perversos,
Só nos distingue o vício, e a virtude,
De que uns são comensais, outros adversos.
Quem maior a tiver, do que eu ter pude,
Esse só me censure, esse me note,
calem-se os mais, chitom, e haja saúde.
Imagem - 00080001
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.
NOTA: Faz focinho: mostra desprezo ou desagrado, seria equivalente à expressão 'faz beicinho', 'franze o nariz'; chitom: 'silêncio' 'cale-se!'; haja saúde: fórmula de despedida equivalente a 'saúde!' ou a 'adeus', hoje a 'até logo
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1
Chacal
Vamp
a rua escura deserta
acelera o desejo
eu piso fundo no mundo
com o farol aceso
uma sirene: polícia
no retrovisor
não sei se é paranóia
ou se sou infrator
em cada curva fechada
espero pelo pior
estranho cheiro de sangue
ninguém ao redor
no carro, o rádio anuncia
mais um assassinato
vejo seu corpo na esquina
paro o carro e salto
como vou te esquecer
seu beijo é mesmo assim
marcas no pescoço dizem
que o tempo todo só
queria assistir a meu fim
um dia seu nome é Ana
no outro dia Janette
o tempo todo na cama
afiando a gilete
só sai na rua se for
em busca de uma brisa
e quando o dia começa
você corre da polícia
a vida inteira agitou
e hoje vive no vício
um vai e vem, entra e sai
na porta do edifício
seu veneno é cruel
seu olhar, assassina
me queimo no seu calor
seu coração de heroína
como vou te esquecer
seu beijo é mesmo assim
marcas no pescoço dizem
que o tempo todo só
queria assistir a meu fim
você só quer aplicar
você não quer nem saber
você só sabe iludir
você espalha o terror
In: CHACAL. Comício de tudo: poesia e prosa. São Paulo: Brasiliense, 1986. p.85-86. (Cantadas literárias, 48
acelera o desejo
eu piso fundo no mundo
com o farol aceso
uma sirene: polícia
no retrovisor
não sei se é paranóia
ou se sou infrator
em cada curva fechada
espero pelo pior
estranho cheiro de sangue
ninguém ao redor
no carro, o rádio anuncia
mais um assassinato
vejo seu corpo na esquina
paro o carro e salto
como vou te esquecer
seu beijo é mesmo assim
marcas no pescoço dizem
que o tempo todo só
queria assistir a meu fim
um dia seu nome é Ana
no outro dia Janette
o tempo todo na cama
afiando a gilete
só sai na rua se for
em busca de uma brisa
e quando o dia começa
você corre da polícia
a vida inteira agitou
e hoje vive no vício
um vai e vem, entra e sai
na porta do edifício
seu veneno é cruel
seu olhar, assassina
me queimo no seu calor
seu coração de heroína
como vou te esquecer
seu beijo é mesmo assim
marcas no pescoço dizem
que o tempo todo só
queria assistir a meu fim
você só quer aplicar
você não quer nem saber
você só sabe iludir
você espalha o terror
In: CHACAL. Comício de tudo: poesia e prosa. São Paulo: Brasiliense, 1986. p.85-86. (Cantadas literárias, 48
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Gregório de Matos
Por Ocasião do Dito Cometa
Que esteja dando o Francês
camoesas ao Romano,
castanhas ao Castelhano,
e ginjas ao Português:
e que estejam todos três
em uma seisma quieta
reconhecendo esta treta
tanto à vista, sem a ver.
Será: mas porém a ser
efeitos são do cometa.
Que esteja o Inglês mui quedo
e o Holandês mui ufano
Portugal cheio de engano,
Castela cheia de medo:
e que Turco viva ledo
vendo a Europa inquieta,
e que cada qual se meta
em uma cova a temer,
tudo será: mas a ser
efeitos são do cometa.
(...)
Que haja no mundo, quem tenha
guisados para comer,
e traças para os haver,
não tenho lume, nem lenha:
e que sem renda mantenha
carro, carroça, carreta,
e sem ter adonde os meta,
dentro em si tanto acomode!
Pode ser: porém se pode,
efeitos são do cometa.
(...)
Que se vejam por prazeres,
sem repararem nas fomes
as mulheres feitas homens,
e os homens feitos mulheres:
e que estejam os misteres
enfronhados na baeta,
sem ouvirem a trombeta
do povo, que é um clarim!
Será: porém sendo assim,
efeitos são do cometa.
(...)
Que o pobre, e rico namore,
e que tenha com esta porfia
o pobre alegre se ria,
e que o rico triste chore:
e que o presumido more
em palácio sem boleta,
e por não ter, que lhe meta,
o tenha cheio de vento!
Pode ser: mas o intento
efeitos são do cometa.
Que ande o mundo, como anda,
e que se ao som do seu desvelo
uns bailem ao saltarelo
e outros à sarabanda:
e que estando tudo à banda,
sendo eu um pobre Poeta,
que nestas cousas me meta,
sem ter licença de Apolo!
Será: porém se eu sou tolo,
efeitos são do cometa.
Imagem - 00080001
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.
NOTA: Treta: por treuta, 'fruta'; boleta: por boleto, requisição para que um habitante aloje um ou mais militares em trânsit
camoesas ao Romano,
castanhas ao Castelhano,
e ginjas ao Português:
e que estejam todos três
em uma seisma quieta
reconhecendo esta treta
tanto à vista, sem a ver.
Será: mas porém a ser
efeitos são do cometa.
Que esteja o Inglês mui quedo
e o Holandês mui ufano
Portugal cheio de engano,
Castela cheia de medo:
e que Turco viva ledo
vendo a Europa inquieta,
e que cada qual se meta
em uma cova a temer,
tudo será: mas a ser
efeitos são do cometa.
(...)
Que haja no mundo, quem tenha
guisados para comer,
e traças para os haver,
não tenho lume, nem lenha:
e que sem renda mantenha
carro, carroça, carreta,
e sem ter adonde os meta,
dentro em si tanto acomode!
Pode ser: porém se pode,
efeitos são do cometa.
(...)
Que se vejam por prazeres,
sem repararem nas fomes
as mulheres feitas homens,
e os homens feitos mulheres:
e que estejam os misteres
enfronhados na baeta,
sem ouvirem a trombeta
do povo, que é um clarim!
Será: porém sendo assim,
efeitos são do cometa.
(...)
Que o pobre, e rico namore,
e que tenha com esta porfia
o pobre alegre se ria,
e que o rico triste chore:
e que o presumido more
em palácio sem boleta,
e por não ter, que lhe meta,
o tenha cheio de vento!
Pode ser: mas o intento
efeitos são do cometa.
Que ande o mundo, como anda,
e que se ao som do seu desvelo
uns bailem ao saltarelo
e outros à sarabanda:
e que estando tudo à banda,
sendo eu um pobre Poeta,
que nestas cousas me meta,
sem ter licença de Apolo!
Será: porém se eu sou tolo,
efeitos são do cometa.
Imagem - 00080001
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.
NOTA: Treta: por treuta, 'fruta'; boleta: por boleto, requisição para que um habitante aloje um ou mais militares em trânsit
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