Chuva e Tempestades
Carlos Drummond de Andrade
Tânatos Tanajura
Tanajura
flor de chuva
chuviflor
em revoo
de arco-íris.
Erráticas
no ar escuro
que se aclara
ao sol da caça.
Foi o trovão,
tanajura,
tempo de amar,
tanajura,
tempinho de botar ovo
e de morrer,
tanajura.
II
Corre-corre na rua
a colher na enxurrada
a chuvatanajura.
Na tonta procura,
qual a mais gordinha
rainha do reino obscuro?
Oi, tana, tana, tanajura,
morte bailante
na tarde impura.
Esta hei de guardá-la,
esta hei de querer-lhe
como ao gato, ao caramujo
de minha estimação.
Matilde Campilho
Rugove
Foi como daquela vez em que morava na América
E regressei a casa para o contrário disso — a quebra
Prometeram-nos dias de sol depois após terror dos 30 dias
Disseram que fevereiro seria o contrário disto — o breu
Vesti-me a rigor para o desenho na casca dos jacarandás
Porque estava anunciado nos cartazes o contrário disto
Achei que nalgum momento a luz viria tomar conta de tudo
Que de forma ou outra lavaríamos os cabelos no mar
Mas hoje o que se vê da janela é o oposto do clarão
É mais uma volta na avenida com ombros cobertos de pavor
E eu só sei que acordamos sempre para o contrário disto
Somos os filhos do verão — somos o inverso da escuridão
Manuel Bandeira
Cantilena
Musset
O céu parece de algodão.
O dia morre. Choveu tanto!
As minhas pálpebras estão
Como embrumadas pelo pranto
Sinto-o descer devagarinho,
Cheio de mágoa e mansidão.
A minha testa quer carinho,
E pede afago a minha mão.
Debalde o rio docemente
Canta a monótona canção:
Minh'alma é um menino doente
Que a ama acalenta mas em vão.
A névoa baixa. A obscuridade
Cresce. Também no coração
Pesada névoa de saudade
Cai. Ó pobreza! Ó solidão!
Clavadel, 1913
Manuel Bandeira
Poema Só para Jaime Ovalle
(Embora a manhã já estivesse avançada).
Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação
Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.
Então me levantei,
Bebi o café que eu mesmo preparei,
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando...
— Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.
Charles Bukowski
Orador Debaixo de Mau Tempo
fazer.
elas são tão legais de se ter por perto.
elas têm um jeito de tocar
as bolas
e olhar para o pau muito
seriamente
virando-o
puxando-o
examinando cada parte
enquanto seus longos cabelos caem
sobre a sua barriga.
não é apenas o foder e o chupar
que alcançam o interior do homem
e o amaciam, são os extras,
está tudo nos extras.
agora é noite e está chovendo
e não há ninguém
estão todas em outros lugares
examinando coisas
em novos quartos
com novos humores
mesmo que em velhos
quartos.
seja o que for, é noite e está chovendo,
uma chuva torrencial, maldita e
pesada...
muito pouco a fazer.
já li o jornal
paguei a conta do gás
a conta de luz
a conta do telefone.
continua chovendo.
elas amaciam um homem
e então o deixam a nadar
em seu próprio suco.
preciso de uma vagabunda no velho estilo
batendo à porta esta noite
fechando seu guarda-chuva verde,
gotas de chuva enluarada sobre
sua bolsa, dizendo, “merda, cara,
não consegue achar uma música melhor do que
essa no seu rádio?
e aumente o aquecimento...”
é sempre quando um homem está tomado
de amor e tudo
mais
que continua chovendo
alagadoura
encharcante
chuva
boa para as árvores e para a
grama e para o ar...
boa para coisas que
vivem sozinhas.
eu daria qualquer coisa
pela mão de uma fêmea em mim
esta noite.
elas amaciam um homem e
depois o deixam
escutando a chuva.
Fernando Pessoa
Do que quero renego, se o querê-lo
Me pesa na vontade. Nada que haja
Vale que lhe concedamos
Uma atenção que doa.
Meu balde exponho à chuva, por ter água.
Minha vontade, assim, ao mundo exponho.
Recebo o que me é dado,
E o que falta não quero.
O que me é dado quero
Depois de dado, grato.
Nem quero mais que o dado
Ou que o tido desejo.
14/03/1931
António Ramos Rosa
O Losango da Pureza
e o turbilhão fixado na leveza de uns traços.
A subtil gazela detém-se numa pausa,
cúmplice de um insecto e de uma chuva florida.
Gracioso é o fogo do arbusto que cintila
e adormece entre anjos e formigas.
Ágil seda e já sopro diurno
do pleno espaço puro, na trama verde,
o corpo é língua harmoniosa e sombra nítida.
Um canto branco, mas um hálito, uma noção
nua para um destino de asa ou para um sonho
que fosse a ordem límpida de um teatro
ou a imóvel geometria de um relâmpago.
Marina Colasanti
Ainda há
era alguém que se encontrava a toda hora
ou mandava emissários
no tempo em que
o arado afundava na terra
o leite esguichava da teta
e a peste abocanhava na garganta.
Multiplicaram-se as gentes
e os deuses não mais deram
atendimento personalizado.
Agora
vou sozinha pela vida
empurrando carrinhos de comida
e não encontro Deus no shopping center
não o vejo na fila do cinema
nem lhe peço licença no aeroporto.
Mas ainda há tardes de chuva e
luzes lentas no engarrafamento
em que a palheta chora contra o vidro
o ar se embaça
e Deus vai
em silêncio
no banco do carona.
António Ramos Rosa
Um Cenário de Rochedos E de Mar
(A água não cintila não reflecte)
é uma discreta superfície
ela
bruscamente vê-se figurada
pela presença de uma multidão
indivisível
Desliza ainda mas sem rosto
esperando vertical
Veloz caminha no ar negro e brilhante
afunda-se cada vez mais reduz-se
a um ponto luminoso
sem jamais desaparecer
Ouvem-se ao longe detonações surdas
de uma tempestade subterrânea
Eis o momento da primeira cintilação
A cena é apenas indicada nos limites
Não é o projecto de uma história
mas anuncia-o
Breves estilhas
segmentos separados poderiam reunir-se
noutro lado
Há o gesto de duas mãos que se encontram
os quartos o bosque uma sombria álea
o alvorecer numa praia deserta
Uma das mãos corre ao longo das pernas
à superfície do corpo buscando
apoderar-se de uma forma de um centro líquido
Surge uma clareira de ramos baixos
O gesto desfaz-se num refluxo
ouvem-se golpes passam sombras húmidas
traços cada vez mais desligados
antes que o outro desapareça sob o nome
Eis os nomes aprendidos em que se dissimula
o fundo sem nome em que ela se transforma
terra idêntica música ventre
tempestade matéria muro animal
azul vermelho chuva chão madeira…
Nuno Júdice
Cena de Inverno
Parada no meio do campo, na tarde de chuva,
a mulher não avança para o meio da estrada, nem recua
para perto da casa. Apanha chuva, com a cabeça virada
para o chão, como se esperasse que a terra a engula,
ou que o céu se esqueça dela, e as nuvens se afastem.
Numa tarde de chuva, no meio do campo, há mulheres
que não sabem para onde ir; e entre a casa e a estrada
ficam paradas, ouvindo o ruído da chuva, e pensando
na vida que as levou para o meio do campo, indecisas
entre a terra e o céu, enquanto a chuva não pára.
Ao ver a mulher parada no meio do campo, pensei
em chamá-la, para que saísse de dentro da lama; mas
continuei o meu caminho, como se ela não existisse,
sabendo que se parasse ao lado dela também eu olharia
para o chão, até que a terra me engolisse.
Martha Medeiros
ele tinha acabado de dobrar a esquina
quando entrou numa livraria
eu estava saindo de uma loja de discos
onde havia escutado Schubert
ele escolhia um dicionário de rimas
mas estava incerto do que queria
eu parei diante da vitrine
mas estava incerta do que via
ele comprou o dicionário
quando o céu escureceu
eu entrei na livraria
quando a chuva começou
foi então que aconteceu
Nuno Júdice
Beatitude
ouvindo os anjos tocarem alaúde
e flauta, as nuvens acorrem
como ovelhas
à sua beira. Então, os santos
pegam nas tesouras e começam
a tosquia das nuvens. Lá
em baixo, nos prados onde as almas
se juntam, começa a chover: e como
já não haverá guarda-chuvas,
na idade de ouro,
as almas constipam-se,
amaldiçoando
as ovelhas, as nuvens
e os santos. Só os anjos, continuando
a tocar, se riem, beatíficos, ouvindo
o bater da chuva
por entre o espirrar
das almas.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 16 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
Charles Bukowski
Boletim do Tempo
neste momento
enquanto me sinto mal
deste jeito;
gosto de pensar nisso
agora.
vamos a um vilarejo mexicano –
isso soa bem:
um vilarejo mexicano
enquanto me sinto mal
deste jeito
as paredes amareladas pelo tempo –
aquela chuva
lá fora,
um porco se movendo em seu chiqueiro à noite
incomodado pela chuva,
os olhos diminutos como pontas de cigarro,
e seu maldito rabo:
pode vê-lo?
não consigo imaginar as pessoas.
talvez elas também estejam se sentindo mal,
quase tão mal quanto eu.
pergunto-me o que elas fazem quando se sentem
assim?
provavelmente não o mencionam.
dizem apenas,
“veja, está chovendo”.
Assim é melhor mesmo.
André Pieyre de Mandiargues
Brulote
Fernando Pessoa
Hoje estou triste, estou triste.
Estarei alegre amanhã...
O que se sente consiste
Sempre em qualquer coisa vã.
Ou chuva, ou sol, ou preguiça...
Tudo influi, tudo transforma...
A alma não tem justiça,
A sensação não tem forma.
Uma verdade por dia...
Um mundo por sensação...
Estou triste. A tarde está fria.
Amanhã, sol e razão.
22/04/1928
Fernando Pessoa
No fim da chuva e do vento
Voltou ao céu que voltou
A lua; e o luar cinzento
De novo, branco, azulou.
Pela imensa constelação
Do céu dobrado e profundo,
Os meus pensamentos vão
Buscando sentir o mundo.
Mas perdeu-se como uma onda
E o sentimento não sonda
O que o pensamento vale.
Que importa? Tantos pensaram
Como penso e pensarei.
02/10/1928
António Ramos Rosa
Perdi o Nascimento da Árvore
chove sobre as minhas páginas brancas.
Quero apertar a argila entre os meus dedos,
possuir a madeira, o sal, o vidro, o fogo.
Quero ouvir a canção que é uma ilha de chuva.
Escrevo. Uma música hesita entre ser água
ou espaço. Uma palavra cinge a luz
do ar. Uma folhagem abriga o rosto.
Descanso como a água inteiramente em si mesma.
Aqui é a redondez de um aroma de silêncio.
O tempo que leva uma sombra a cair
é uma evidência que abriga obscura e leve.
Cerimónia pura em lugar tão aberto.
Que sede de água com as mãos ardentes!
Cai o corpo no corpo e o silêncio no silêncio.
Fernando Pessoa
Cai chuva. É noite. Uma pequena brisa
Substitui o calor.
P'ra ser feliz tanta coisa é precisa.
Este luzir é melhor.
O que é a vida? O espaço é alguém para mim.
Sonhando sou eu só.
A luzir, em quem não tem fim
E, sem querer, tem dó.
Extensa, leve, inútil passageira,
Ao roçar por mim traz
Uma ilusão de sonho, em cuja esteira
A minha vida jaz.
Barco indelével pelo espaço da alma,
Luz da candeia além
Da eterna ausência da ansiada calma,
Final do inútil bem.
Que se quer, e, se veio, se desconhece
Que, se flor, seria
O tédio de o haver... E a chuva cresce
Na noite agora fria.
18/09/1920
João Baveca
Dom Bernaldo, Pesa-Me Que Tragedes
mal aguadeir'e[n'] esse balandrau;
e aqui dura muit'o tempo mau,
e vós e[m] esto mentes nom metedes;
e conselho-vos que catedes al
que 'n cobrades, ca esse nom é tal
que vos vós sô el muito nom molhedes.
E quem vos pois vir la saia molhada,
bem lheu terrá que é com escasseza,
e em vós houve sempre gram largueza;
e pois aqui vee[m] la invernada,
maravilha será se vos guardar
um dia puderdes de vos molhar
so ũa mui boa capa dobrada.
E Dom Bernaldo, vel em esta guerra,
de quanto vo-lo vosso home al mete,
haved'ũa capa ou um capeirete,
pero capa nunca s'a vós bem serra;
ar queredes-vos vós crás acolher
e cavalgar, e nom pode seer
que vos nom molhedes en'essa terra.
Áurea de Arruda Féres
Verão
o teto do pescador
com a chuva de pedra!
Num vaso solitário
perfuma toda a sala
um único jasmin.
Vasko Popa
Caracol estrelado
Depois da chuva de prata
As estrelas com seus ossos
Sós construíram-te uma casa
Aonde a levas sobre uma toalha
O tempo capenga te persegue
Para alcançar-te para esmagar-te
Estende os chifres caracol
Te arrastas por uma face gigante
Que jamais hás de fitar
Direto para a boca do nada
Retorna à linha da vida
À minha palma de mão sonhada
Enquanto não é tarde demais
E deixa-me como herança
A toalha mágica de prata
Fernando Pessoa
A WINTER DAY
'Tis a void winter day, sad as a moan.
A sense of loneliness, as of a stone
Upon a grave, or of a rock in sea
Rests like a mighty shadow over me.
I am unnerved, unminded by the pall
Of solemn clouds that, weighty over all,
Curtail the vision; and upon mine ear
The City's rumble brings despair and fear
To crush my spirit free and wild.
The rain,
Reiterated horribly, again
Beast with its drops at my cold window‑pane
With such a sound as makes us know it cold.
The world is ghostly, undaylike and old,
And weary passengers, with cautious tread,
Yet hurried, walk within the streets soul‑dead
In the unkindness of their hue of lead.
The streets are streamlets, and perpetual
A sound of little waters, on roof, on wall,
Down in the streets, in pipes, in window‑glass
And into rooms doth wetly come and pass.
All is the rain's.
All is pale wetness, darkness inly cold,
A sentiment of waste things and of old
Making all things exterior sorrows, pains;
And all we hear and feel and know and see
Is wrapt around as with a masking cloak
In inconceivable monotony.
All in the houses and up from the street
Is a long watery shuffle of heavy feet,
A sound of drenched garments, and a sense
Of a sad chillness, latently intense.
Through cracks in doors and windows a gust cold
Of wind penetrates like a memory of old
Times to make freeze my body, ill reclined
Upon a couch, a sufferer with my mind.
Life in the streets is sad, a monotone
More dull than usual ordinariness:
Business and work have lost their usual stress,
The vender's cries are each of them a moan
Grotesque, desolate, as forlorn and half‑dead
Hearts might produce which make a war (?) attempt
At talking normally, as if they not bled.
Half‑childish urchins, gloriously unkempt
Laugh at the water that cart‑wheels upshed.
The muddy urchins in the streets that play
Make shades of envy in my soul to stay.
Couples, some newly‑married, others not,
Who in the commonness of their no‑thought
Have a deep happiness I would not have,
A joy to which I would prefer the grave,
Pass in the street. some gay and some sedate.
I feel me no like men in any way.
I envy those - I speak true - without hate
And without admiration, isolate (?).
I would that l were happy as they are
But not with that their happiness. Thus far
Such living as theirs is were unto me
Misery, penury, monotony.
Alas for all who dream! Alas for us,
Poor poets, more or less mad, more or less
Foolish! In this consists true happiness!
In knowing how to be monotonous.
Happy are they who can see without sorrow
To‑day yield us to‑morrow
And yet to‑morrow and to‑day to them
Different days because different days,
Which are to me (save that they pass) the same.
II
The view I have of this cold winter day,
The deep depression that makes my thoughts stray
Is but a symbol and a synthesis
Of what my life perpetually is.
How deep my thoughts in pain and sadness are!
How wreck'd my soul in its intense despair!
How desolate, disconsolately mute
My heart is of the words that like scents shoot
From the full flower of true youthfulness!
How locked am I within my own distress!
How in the tragic circle soul‑confined
Of my abhorred self!
Not one ambition leads me - power nor pelf,
No wish for fame, no love of poor mankind.
But I am weary, desolate and cold
E'vn as this winter day. I have grown old
In watching dreams go by and pass away
Leaving a memory pure and bright
Of aught that was and died as light
Without the living horror of decay.
Is this thy life, irresolute soul of mine?
How pale the sun of thy sad morn doth shine!
How it forebodes the cloudiness that comes
Outstretched wings of the storm whose muffled drums
Of warning in the paling day are heard
Deep in the distance lesseningly blurred.
Thou look'st not death nor evil in the face
Poor soul despairing in life's troubled race!
All forms of life, all things have been to thee
Mutations of eternal misery.
All years, all homes to thee have been
In the same drama many a change of scene.
Thou hast not learned to live, but thou dost cling
Madly to life (dreading Death's night severe),
As if life or the world were anything!
Tite de Lemos
Altamira's gift
a cores sobre os muros de uma gruta.
No exterior a nuvem chumbo passa
mãe grávida do seu rebento, a Bruta
Chuva, presságio de celestes raivas
das estações nascendo sem cessar.
O escuro firmamento faiscava.
Criaturas aéreas bebem ar
que um criador lhes serve qual champagne
nos profundos copinhos. Não me estranhe,
disse-me face a face a onça pintada
nas minhas quatro ou mais interiores
paredes. Eu apenas sou seu lado
do avesso a te seguir aonde fores
Tite de Lemos
um último poema é uma fragata
avizinhando-se do cais do porto
uma canção que nos consola e mata
alegremente o coração já morto
lembra-me gypsies, margaridas; chuvas
ressurreições. A brisa bruxa acorda
as donzelas princesas e as viúvas
senhoras dos seus mestres e seus corpos
os adeuses têm gosto de suspiros
são doces brevidades souvenirs
ursinhos de pelúcia esquecimentos.
Quando nos visitar a inconhecida
visitante estaremos, longe, ausentes
e ao mesmo tempo sempre, sempre, aqui.
.
.
.