Poemas neste tema
Chuva e Tempestades
Renato Rezende
Águas de Março
Amanhece chovendo
no meu apartamento
em Laranjeiras.
Tudo está mais lento.
Até mesmo o morro de pedra, sob a água,
o mirante de Dona Marta
fica mais doce, doce molhado, doce aço.
Chega até minha cama de solteiro
o cheiro suave da chuva,
e do vento:
o casamento
entre todos os elementos do universo.
Trégua
na luta geral da vida.
A cortina d'água na janela
se transforma numa tela
onde se projeta meu exílio
(esta vida nesta terra).
Memória.
A chuva molha
antigas companheiras
de cama em manhãs cinzentas como esta.
As férias na fazenda,
a infância
e o que ela teve de assombrosa e santa.
As tardes solitárias
na Espanha, na Itália, na França.
Ah, a Europa
de poliglotas cópulas.
(Toda chuva
a continuação da última).
Talvez em algumas dessas horas
eu tenha sido pleno.
Talvez em alguns desses momentos
de silêncio
eu tenha sido inteiro.
Chove. A água
silencia o tempo
e une a pedra à alma.
Rio de Janeiro, 17 de março 1997
no meu apartamento
em Laranjeiras.
Tudo está mais lento.
Até mesmo o morro de pedra, sob a água,
o mirante de Dona Marta
fica mais doce, doce molhado, doce aço.
Chega até minha cama de solteiro
o cheiro suave da chuva,
e do vento:
o casamento
entre todos os elementos do universo.
Trégua
na luta geral da vida.
A cortina d'água na janela
se transforma numa tela
onde se projeta meu exílio
(esta vida nesta terra).
Memória.
A chuva molha
antigas companheiras
de cama em manhãs cinzentas como esta.
As férias na fazenda,
a infância
e o que ela teve de assombrosa e santa.
As tardes solitárias
na Espanha, na Itália, na França.
Ah, a Europa
de poliglotas cópulas.
(Toda chuva
a continuação da última).
Talvez em algumas dessas horas
eu tenha sido pleno.
Talvez em alguns desses momentos
de silêncio
eu tenha sido inteiro.
Chove. A água
silencia o tempo
e une a pedra à alma.
Rio de Janeiro, 17 de março 1997
960
Daniel Faria
Magoa ver a magnólia cair Acredita
O relâmpago vem
sobre ela.A tempestade.
As plantas são tão frágeis como as cabanas dos homens.
Somos muito frágeis os dois neste poema
com o relâmpago,a cabana,com a magnólia aos ombros
sem nenhum terreno pulmonar intacto
para depois de nos olharmos um de nós dizer
plantêmo-la aqui-aqui
é o meu pulso,a minha boca
é a retina com que procuras,é a madeira da porta
com que te fechas em casa.Prometo-te
eu nunca vou fechar os olhos
as mãos.
de Dos Líquidos (2000)
sobre ela.A tempestade.
As plantas são tão frágeis como as cabanas dos homens.
Somos muito frágeis os dois neste poema
com o relâmpago,a cabana,com a magnólia aos ombros
sem nenhum terreno pulmonar intacto
para depois de nos olharmos um de nós dizer
plantêmo-la aqui-aqui
é o meu pulso,a minha boca
é a retina com que procuras,é a madeira da porta
com que te fechas em casa.Prometo-te
eu nunca vou fechar os olhos
as mãos.
de Dos Líquidos (2000)
2 199
Henriqueta Lisboa
Frutescência
Em solidão amadurece
a fruta arrebatada ao galho
antes que o sol amanhecesse.
Antes que os ventos a embalassem
ao murmurinho do arvoredo.
Antes que a lua a visitasse
de seus mundos altos e quedos.
Antes que as chuvas lhe tocassem
a tênue cútis a desejo.
Antes que o pássaro libasse
do palpitar de sua seiva
o sumo, no primeiro enlace.
Na solidão se experimenta
a fruta de ácido premida.
Mas ao longo de sua essência
já sem raiz e cerne e caule
perdura, por milagre, a senha.
Então na sombra ela adivinha
o sol que a transfigura em sol
a suaves pinceladas lentas.
E ouve o segredo desses bosques
em que se calaram os ventos.
E sonha invisíveis orvalhos
junto à epiderme calcinada.
E concebe a imagem da lua
dentro de sua própria alvura.
E aceita o pássaro sem pouso
que a ensina, doce, a ser mais doce.
de Além da imagem (1963)
1 143
Antunes da Silva
Senhor Vento
Senhor Vento, ó Senhor Vento,
já não me posso conter,
veio a seca, tanto sol,
que anda por aqui a fazer?
Vá-se embora Senhor Vento,
não são horas daqui estar,
não há trevo nem há água
para o gado apascentar.
Tudo seco, Senhor Vento,
ai que morte, que morrer,
não há suco nem há seiva,
cinco meses sem chover...
Se cá ficar, Senhor Vento,
não tempera, só destapa
os horizontes de nuvens,
não há chuva neste mapa.
Tape a chaga, Senhor Vento,
siga siga para o mar,
já lhe disse, vá-se embora,
não são horas daqui estar!
Dou-lhe um tiro, Senhor Vento,
se andar aqui mais um dia,
gira gira, fora fora,
mande a chuva, não se ria.
Obrigado, Senhor Vento,
Empurre a nuvens, agora,
isso mesmo, traga as águas!
De contente, a terra chora.
já não me posso conter,
veio a seca, tanto sol,
que anda por aqui a fazer?
Vá-se embora Senhor Vento,
não são horas daqui estar,
não há trevo nem há água
para o gado apascentar.
Tudo seco, Senhor Vento,
ai que morte, que morrer,
não há suco nem há seiva,
cinco meses sem chover...
Se cá ficar, Senhor Vento,
não tempera, só destapa
os horizontes de nuvens,
não há chuva neste mapa.
Tape a chaga, Senhor Vento,
siga siga para o mar,
já lhe disse, vá-se embora,
não são horas daqui estar!
Dou-lhe um tiro, Senhor Vento,
se andar aqui mais um dia,
gira gira, fora fora,
mande a chuva, não se ria.
Obrigado, Senhor Vento,
Empurre a nuvens, agora,
isso mesmo, traga as águas!
De contente, a terra chora.
1 217
Angela Santos
Aguarela
Matizes
cinza suspensos,
em eco passos e risos
mistura de fumo
e nuvens
que se cruzam apressadas
Gritos, ecos e latidos
a lembrar a vida , breve……
e a suave batida do gotejar
da água
sobre os remendos de musgo
que cresceram nos beirais…
Contínuo o som da chuva
é um adagio na vidraça,
como cinzento é o dia
que o sopro da tarde arrasta
e lentas se desprendendo
de um relógio de parede
as horas gastam o dia,
escoando devagar o tempo.
Da varanda da memória
colhem-se pedaços de azul.
e um quadro de girassóis
lembra estios passados,
enquanto a palavra emerge
e vai traçando os contornos
que compõem a aguarela
que com o dia se vai.
cinza suspensos,
em eco passos e risos
mistura de fumo
e nuvens
que se cruzam apressadas
Gritos, ecos e latidos
a lembrar a vida , breve……
e a suave batida do gotejar
da água
sobre os remendos de musgo
que cresceram nos beirais…
Contínuo o som da chuva
é um adagio na vidraça,
como cinzento é o dia
que o sopro da tarde arrasta
e lentas se desprendendo
de um relógio de parede
as horas gastam o dia,
escoando devagar o tempo.
Da varanda da memória
colhem-se pedaços de azul.
e um quadro de girassóis
lembra estios passados,
enquanto a palavra emerge
e vai traçando os contornos
que compõem a aguarela
que com o dia se vai.
1 013
Sosigenes Costa
A chuva vem cair na Ingauíra
Cada pingo d'água
é um cabelo da chuva.
Cada gole de água do arco-íris
é um aguaceiro.
Essa lagoa é o copo
por onde bebe um gigante.
Para a boca do arco-íris
só uma taça redonda.
Para a sede de um gigante
só a água de um pote rodeado de flores.
É na Lagoa dos Cocos
que o arco-íris bebe água.
Fui ver um dia
esse copo de flores.
Estômagos cheios
da água de um coco,
as nuvens vêm vindo.
Barriga pesada
com a água de um coco,
as nuvens vêm vindo.
Lagoa dos cocos,
Bandeja redonda cheia de copos de água.
Hi! vem chuva como cabelo de sapo.
Cada pingo d'água
é um cabelo da chuva.
Cada gole de água do arco-íris
é um aguaceiro.
E cada gota de orvalho
é um diamante pingo d'água.
Hi! vem chuva como cabelo de sapo.
Aqueles pássaros enormes,
que não podem voar direito,
de tanta água na barriga,
vão cair nesta volta do rio.
Adília, minha irmã, prepare-se:
Sobre a nossa casa vão cair do céu
sete copos de água.
Teu banho de hoje, Sinhá,
será dentro de um copo d'água.
929
Barbara Guest
Uma razão
É por isso que estou aqui
não entre os íbis. Por que
a perene sombrinha da cidade
cobre até a mim.
Foram as chuvas
na estação oculta. Foram as neves
nas escarpas inferiores. Foi água
e neve na minha boca.
Uma falta de sapatos
sobre o que pareciam ser pedrinhas
que eram ainda antiguidade
Bom brava brava qualquer coisa
em bruto mais silente azul
o vaso prende os caules
pétalas caem o crisântemo escurece
Por vezes esta sensação mostarda
apanha a mim também. Meu sono se calcula
aos canudos
Contudo acordo
e me seguem pela rua.
A reason (in The Blue Stairs, 1968)
That is why I am here
not among the ibises. Why
the permanent city parasol
covers even me.
It was the rains
in the occult season. It was the snows
on the lower slopes. It was water
and cold in my mouth.
A lack of shoes
on what appeared to be cobbles
which were still antique
Well wild wild whatever
in wild more silent blue
the vase grips the stems
petals fall the chrysanthemum darkens
Sometimes this mustard feeling
clutches me also. My sleep is reckoned
in straws
Yet I wake up
and am followed into the street.
não entre os íbis. Por que
a perene sombrinha da cidade
cobre até a mim.
Foram as chuvas
na estação oculta. Foram as neves
nas escarpas inferiores. Foi água
e neve na minha boca.
Uma falta de sapatos
sobre o que pareciam ser pedrinhas
que eram ainda antiguidade
Bom brava brava qualquer coisa
em bruto mais silente azul
o vaso prende os caules
pétalas caem o crisântemo escurece
Por vezes esta sensação mostarda
apanha a mim também. Meu sono se calcula
aos canudos
Contudo acordo
e me seguem pela rua.
:
A reason (in The Blue Stairs, 1968)
That is why I am here
not among the ibises. Why
the permanent city parasol
covers even me.
It was the rains
in the occult season. It was the snows
on the lower slopes. It was water
and cold in my mouth.
A lack of shoes
on what appeared to be cobbles
which were still antique
Well wild wild whatever
in wild more silent blue
the vase grips the stems
petals fall the chrysanthemum darkens
Sometimes this mustard feeling
clutches me also. My sleep is reckoned
in straws
Yet I wake up
and am followed into the street.
689
Barbara Guest
Lírios vermelhos
Alguém lembrou-se de secar a louça;
retiraram o acidente do fogão.
Depois, lírios para a janta; ali
as linhas diante da janela
esfregam-se à mesa de pedra
O papel alça voo
e aterrissa à medida que o vento
repete, repete seu canto de ave.
Aqueles braços sob o travesseiro
os braços que escavam que clivam na noite
enquanto o rebocador dá molde à água
chamando-se a si próprios de galhos
É você a árvore
a manta é o que a aquece
neve irrompe do cardo;
a neve derrama de você.
Uma mão fria sobre os pratos
colocando um pires dentro
dela que se despiu para a janta
flutuando aquele cabelo rumo à neve
apagou-se a luz-piloto
do fogão
O papel dobrou-se como um guardanapo
outras asas colidiram com a pedra.
:
Red lillies (in Moscow Mansions, 1973)
Someone has remembered to dry the dishes;
they have taken the accident out of the stove.
Afterwards lilies for supper; there
the lines in front of the window
are rubbed on the table of stone
The paper flies up
then down as the wind
repeats, repeats its birdsong.
Those arms under the pillow
the burrowing arms they cleave
at night as the tug kneads water
calling themselves branches
The tree is you
the blanked is what warms it
snow erupts from thistle;
the snow pours out of you.
A cold hand on the dishes
placing a saucer inside
her who undressed for supper
gliding that hair to the snow
The pilot light
went out of the stove
The paper folded like a napkin
other wings flew into the stone.
.
.
.
retiraram o acidente do fogão.
Depois, lírios para a janta; ali
as linhas diante da janela
esfregam-se à mesa de pedra
O papel alça voo
e aterrissa à medida que o vento
repete, repete seu canto de ave.
Aqueles braços sob o travesseiro
os braços que escavam que clivam na noite
enquanto o rebocador dá molde à água
chamando-se a si próprios de galhos
É você a árvore
a manta é o que a aquece
neve irrompe do cardo;
a neve derrama de você.
Uma mão fria sobre os pratos
colocando um pires dentro
dela que se despiu para a janta
flutuando aquele cabelo rumo à neve
apagou-se a luz-piloto
do fogão
O papel dobrou-se como um guardanapo
outras asas colidiram com a pedra.
:
Red lillies (in Moscow Mansions, 1973)
Someone has remembered to dry the dishes;
they have taken the accident out of the stove.
Afterwards lilies for supper; there
the lines in front of the window
are rubbed on the table of stone
The paper flies up
then down as the wind
repeats, repeats its birdsong.
Those arms under the pillow
the burrowing arms they cleave
at night as the tug kneads water
calling themselves branches
The tree is you
the blanked is what warms it
snow erupts from thistle;
the snow pours out of you.
A cold hand on the dishes
placing a saucer inside
her who undressed for supper
gliding that hair to the snow
The pilot light
went out of the stove
The paper folded like a napkin
other wings flew into the stone.
.
.
.
652
Amir Calixto Sabbag
Reminiscências
Vento que vem do Sul,
veloz e cantante,
para fazer as nuvens negras
do meu céu cantarem.
Relâmpagos covardes
penetram nas nuvens
e desmancham o espetáculo
da dança no espaço.
Chuvas caem,
formam enxurradas.
Minha mente retrocede:
Lembro-me da infância,
quando soltava
barquinhos de papel.
veloz e cantante,
para fazer as nuvens negras
do meu céu cantarem.
Relâmpagos covardes
penetram nas nuvens
e desmancham o espetáculo
da dança no espaço.
Chuvas caem,
formam enxurradas.
Minha mente retrocede:
Lembro-me da infância,
quando soltava
barquinhos de papel.
1 019
Carlos Frydman
Chuvisco Espanhol
Para Priscila Marie Netto Soares
Há chuviscos
em obliquidade precisa,
brincando, variando
na gravidade das tardes.
Há chuviscos
sem pressa,
indiferentes ao tempo
que nos levam
sem percebermos.
Sendo véus diáfanos, os chuviscos
clareiam anseios abandonados.
Sendo lantejoulas cristalinas,
projetam recordações nubladas.
Sendo tules de odaliscas
de natureza amainada,
casam com meu amor circunspecto
em meus ímpetos serenados.
Tomado pelo chuvisco
penso numa tarde flamenca
e vislumbro uma triste espanhola.
Seu olhar é envolvente e aguçado
e seu corpo esguio é enlaçado
num atávico chale rendado.
Ela ignora meu amor silente
mas me envolve num sonho realista
porque me conformo em sonhá-la
perdido num chuvisco,
afogado
em meus desejos contidos.
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
Há chuviscos
em obliquidade precisa,
brincando, variando
na gravidade das tardes.
Há chuviscos
sem pressa,
indiferentes ao tempo
que nos levam
sem percebermos.
Sendo véus diáfanos, os chuviscos
clareiam anseios abandonados.
Sendo lantejoulas cristalinas,
projetam recordações nubladas.
Sendo tules de odaliscas
de natureza amainada,
casam com meu amor circunspecto
em meus ímpetos serenados.
Tomado pelo chuvisco
penso numa tarde flamenca
e vislumbro uma triste espanhola.
Seu olhar é envolvente e aguçado
e seu corpo esguio é enlaçado
num atávico chale rendado.
Ela ignora meu amor silente
mas me envolve num sonho realista
porque me conformo em sonhá-la
perdido num chuvisco,
afogado
em meus desejos contidos.
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
959
Glauco Mattoso
Haicais Paulistanos, 1983-1991 [1
Cadáver no asfalto.
Do alto do viaduto
aplaudem o salto.
No trânsito lento
tento entrar na transversal.
Engarrafamento.
Se engana quem passa
pela Praça da República
querendo de graça.
Chuva na avenida.
Cão desbrida na enxurrada.
Luta pela vida.
Ator principal.
Palmas para o pipoqueiro
do Municipal.
De noite chuvisca.
Sem som, faísca a Paulista:
É a torre que pisca.
Fuga da FEBEM.
No Belém já tem refrega.
E o cego é refém.
Vai correr pelado
lá do vale até o túnel.
Morre atropelado.
In: MATTOSO, Glauco. Poemas de Glauco Mattoso: amostra quase grátis. São Paulo: U. Tavares, 1993 (Poesia já, 2)
Do alto do viaduto
aplaudem o salto.
No trânsito lento
tento entrar na transversal.
Engarrafamento.
Se engana quem passa
pela Praça da República
querendo de graça.
Chuva na avenida.
Cão desbrida na enxurrada.
Luta pela vida.
Ator principal.
Palmas para o pipoqueiro
do Municipal.
De noite chuvisca.
Sem som, faísca a Paulista:
É a torre que pisca.
Fuga da FEBEM.
No Belém já tem refrega.
E o cego é refém.
Vai correr pelado
lá do vale até o túnel.
Morre atropelado.
In: MATTOSO, Glauco. Poemas de Glauco Mattoso: amostra quase grátis. São Paulo: U. Tavares, 1993 (Poesia já, 2)
1 629
Marcela Bueno
Por fim lhe traí
Sentirei no corpo a brisa
Que sopra leve, desapercebida,
Passando suavemente pela vida
Que custei tanto para conseguir...
Assim serei borboleta,
Assim serei sereia,
O que será feito de mim?
Ao voar todas as manhãs
Por campos compenetrados de mistério
Com o rosto sério a me subestimar...
Sentirei por dentro um frio,
Vou querer afundar meu olhar
Na poça mais suja da rua
E ali indagar o pensar:
"Serei a sereia sua?"
Cantarei para seu espelho
Aquelas velhas músicas que lembram
Todos que já lhe esqueceram.
Eu levarei você comigo para o abrigo
Da chuva tola que molha o jardim
E você irá, sem mim,
Para o paraíso
Esta será a estória do Alecrim...
...o menino do mato que nasceu
Sem ser semeado...;
Como o nosso amor.
Sentirei a chuva, enfim
Caindo sobre mim,
Caindo e levando tudo
O que custei para conseguir.
Parece divertido ficar aqui lhe esperando,
Você que não chega na hora marcada
E não há nada mais triste,
Inconfundivelmente chato,
Do que amar sem ser amada.
Por fim, eu lhe traí.
Preferi o vento
À este sentimento
Que menti
Ser sincero no momento...
Que sopra leve, desapercebida,
Passando suavemente pela vida
Que custei tanto para conseguir...
Assim serei borboleta,
Assim serei sereia,
O que será feito de mim?
Ao voar todas as manhãs
Por campos compenetrados de mistério
Com o rosto sério a me subestimar...
Sentirei por dentro um frio,
Vou querer afundar meu olhar
Na poça mais suja da rua
E ali indagar o pensar:
"Serei a sereia sua?"
Cantarei para seu espelho
Aquelas velhas músicas que lembram
Todos que já lhe esqueceram.
Eu levarei você comigo para o abrigo
Da chuva tola que molha o jardim
E você irá, sem mim,
Para o paraíso
Esta será a estória do Alecrim...
...o menino do mato que nasceu
Sem ser semeado...;
Como o nosso amor.
Sentirei a chuva, enfim
Caindo sobre mim,
Caindo e levando tudo
O que custei para conseguir.
Parece divertido ficar aqui lhe esperando,
Você que não chega na hora marcada
E não há nada mais triste,
Inconfundivelmente chato,
Do que amar sem ser amada.
Por fim, eu lhe traí.
Preferi o vento
À este sentimento
Que menti
Ser sincero no momento...
846
Henriqueta Lisboa
Caboclo-d'Água
Caboclo-d'água Ô
caboclo-d'água.
Caboclo-d'água
vem de noite
— assombração.
Caboclo-d'água
molengão
tocando viola.
Caboclo-d'água
vá-se embora
vá-se embora
caboclo-d'àgua
não me chame
não!
A chuva é muita
sobe o rio
no barranco.
O vento chora
mais que reza
uma oração.
Acende a vela
minha gente,
eu tenho medo.
Eu tenho medo
de afogar
na escuridão.
Publicado no livro O Menino Poeta (1943).
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 1985. p.87-8
caboclo-d'água.
Caboclo-d'água
vem de noite
— assombração.
Caboclo-d'água
molengão
tocando viola.
Caboclo-d'água
vá-se embora
vá-se embora
caboclo-d'àgua
não me chame
não!
A chuva é muita
sobe o rio
no barranco.
O vento chora
mais que reza
uma oração.
Acende a vela
minha gente,
eu tenho medo.
Eu tenho medo
de afogar
na escuridão.
Publicado no livro O Menino Poeta (1943).
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 1985. p.87-8
2 361
Raquel Naveira
Camalotes
Na cheia
Os camalotes bóiam,
Estufados corpos aquáticos
Que a correnteza leva;
Conjunto de leques duros,
Verdes,
Que se dissolvem no silêncio;
Aqui e ali um buquê de flores
Arrebenta lilás;
A malha fina de raízes
Apanha peixes,
Escamas,
Pés delicados de pássaros que pousam;
A canoa de folhas
Navega sem leme
Rumo à foz,
À pedra,
Ao mar que espreme
E espuma.
Os camalotes bóiam,
Estufados corpos aquáticos
Que a correnteza leva;
Conjunto de leques duros,
Verdes,
Que se dissolvem no silêncio;
Aqui e ali um buquê de flores
Arrebenta lilás;
A malha fina de raízes
Apanha peixes,
Escamas,
Pés delicados de pássaros que pousam;
A canoa de folhas
Navega sem leme
Rumo à foz,
À pedra,
Ao mar que espreme
E espuma.
1 085
Leila Mícollis
Sempre, de vez em quando
Toda vez que amanheço
de porre, sem ter bebido,
é prenuncio de tempestades.
Os calos não doem
com a mudança do tempo,
mas meu coração dispara
e o olfato fica mais aguçado
que faro de perdigueiro.
Nestas horas,
não adianta ninguém me dizer
que "viver é experimentar",
porque o máximo que eu consigo
é avaliar as avarias
causadas pelos arpões.
de porre, sem ter bebido,
é prenuncio de tempestades.
Os calos não doem
com a mudança do tempo,
mas meu coração dispara
e o olfato fica mais aguçado
que faro de perdigueiro.
Nestas horas,
não adianta ninguém me dizer
que "viver é experimentar",
porque o máximo que eu consigo
é avaliar as avarias
causadas pelos arpões.
911
Mário Del Rey
Verão
Asas ao vento
campos de um só verde
pódios de pardais
Um aguaceiro
noite de relâmpagos
ideogramas
campos de um só verde
pódios de pardais
Um aguaceiro
noite de relâmpagos
ideogramas
1 043
Alexandre Marino
Águas
pés na enxurrada
eu vou chovendo
enquanto o dia chora
e a vida
por dentro
me molha.
eu vou chovendo
enquanto o dia chora
e a vida
por dentro
me molha.
915
Almeida Garrett
A Tempestade (1828)
Virgílio,
Coeco carpitur igni
I
Sobre um rochedo
Que o mar batia,
Triste gemia
Um desgraçado,
Terno amador.
Já nem lhe caem
Dos olhos lágrimas,
Suspiros férvidos
Apenas contam
Seu triste amor.
II
Ondas, clamava o mísero,
Ondas que assim bramais,
Ouvi meus tristes ais!
Horrível tempestade,
Medonho furacão,
Não é mais agitado
Do que o meu coração,
O vosso despregado,
Horrisonoo bramar!
Ancia que atropela
Meu lânguido peito,
É mais violenta
Que o tempo desfeito,
Que a onda encapela,
Que a agita a tormenta
No seio do mar.
III
Mas, ah! se o negrume
O sol dissipara
Calmara
Seu nume,
O horror do tufão.
Assim à minha alma
A calma
Daria
De Armia
Um sorriso:
Um raio de esprança
Do paraíso
Traria
A bonança
Ao meu coração.
Coeco carpitur igni
I
Sobre um rochedo
Que o mar batia,
Triste gemia
Um desgraçado,
Terno amador.
Já nem lhe caem
Dos olhos lágrimas,
Suspiros férvidos
Apenas contam
Seu triste amor.
II
Ondas, clamava o mísero,
Ondas que assim bramais,
Ouvi meus tristes ais!
Horrível tempestade,
Medonho furacão,
Não é mais agitado
Do que o meu coração,
O vosso despregado,
Horrisonoo bramar!
Ancia que atropela
Meu lânguido peito,
É mais violenta
Que o tempo desfeito,
Que a onda encapela,
Que a agita a tormenta
No seio do mar.
III
Mas, ah! se o negrume
O sol dissipara
Calmara
Seu nume,
O horror do tufão.
Assim à minha alma
A calma
Daria
De Armia
Um sorriso:
Um raio de esprança
Do paraíso
Traria
A bonança
Ao meu coração.
2 376
Jorge Lescano
Primavera
Estação das flores.
Nem a chuva afasta os gatos
do meu quintal.
Nem a chuva afasta os gatos
do meu quintal.
954
Susana Thénon
Oração
Quando deixará a lua
de preferir a esses poucos
que tanto à meia-noite
como ao amanhecer
gritam seu ardor sem freio.
Quando será definitivo
o direito a sonhar
sem verificar números
papéis rasgados, sexos,
velocidade sem pressa do sangue.
Quando morrerá o céu
- seus castigos -
e o raio será um menino
entre as folhas.
Quando arderão os ventos
sepultados.
de preferir a esses poucos
que tanto à meia-noite
como ao amanhecer
gritam seu ardor sem freio.
Quando será definitivo
o direito a sonhar
sem verificar números
papéis rasgados, sexos,
velocidade sem pressa do sangue.
Quando morrerá o céu
- seus castigos -
e o raio será um menino
entre as folhas.
Quando arderão os ventos
sepultados.
732
Lígia Diniz
Meus Filhos
Fechei a porta
Finalmente o vento parou de bater
O monstro alado parou de lutar
Fechei a porta no último minuto
Nem precisei usar força
Talvez nem mesmo a tenha fechado
Ela se fechou sozinha
Como quando o vento muda de direção.
Saí para ver o céu
Finalmente a chuva parou de cair
As gotas grossas pararam de me machucar
Saí para ver o céu no último dia
Nem precisei esperar
Talvez nem mesmo tenha saído
O céu entrou em mim
Como quando fechamos os olhos e ainda vemos a luz.
Finalmente o vento parou de bater
O monstro alado parou de lutar
Fechei a porta no último minuto
Nem precisei usar força
Talvez nem mesmo a tenha fechado
Ela se fechou sozinha
Como quando o vento muda de direção.
Saí para ver o céu
Finalmente a chuva parou de cair
As gotas grossas pararam de me machucar
Saí para ver o céu no último dia
Nem precisei esperar
Talvez nem mesmo tenha saído
O céu entrou em mim
Como quando fechamos os olhos e ainda vemos a luz.
943
Anselmo Gonçalves
O Sangue da Terra é a Chuva
Ao Zé é o fim, vai-lhe faltando a crençae faz desfeita dura ao Padinciço:- Padim, cumé, vois tendi a disavençacum nóis caboco? Para já cum isso!...
Não chove há muito tempo, falta a águae falta tudo, falta o pranto até.Falta a farinha seca e sobra a mágoa,moça donzela foi-se ao mundo e a pé.
Morrendo o gado pelo pasto mortoos "avoantes" nisto, vão-se embora,o pau na caatinga está mais torto.
Matuto sábio bem curtindo a "uva"filosofando e claro e sem demora,- A terra não tem sangue, farta a chuva!
Não chove há muito tempo, falta a águae falta tudo, falta o pranto até.Falta a farinha seca e sobra a mágoa,moça donzela foi-se ao mundo e a pé.
Morrendo o gado pelo pasto mortoos "avoantes" nisto, vão-se embora,o pau na caatinga está mais torto.
Matuto sábio bem curtindo a "uva"filosofando e claro e sem demora,- A terra não tem sangue, farta a chuva!
895
Amadeu Fontana
Haicai
Despetala a rosa
o vento... Que desalento
na tarde chuvosa
Rosa, a rosa flor,
caída ao chão, esquecida,
lembra um pobre amor
o vento... Que desalento
na tarde chuvosa
Rosa, a rosa flor,
caída ao chão, esquecida,
lembra um pobre amor
933
Daniel Faria
Deve ser o último tempo
Deve ser o último tempo
A chuva definitiva sobre o último animal nos pastos
O cadáver onde a aranha decide o círculo.
Deve ser o último degrau na escada de Jacob
E último sonho nele
Deve ser-lhe a última dor no quadril.
Deve ser o mendigo à minha porta
E a casa posta à venda.
Devo ser o chão que me recebe
E a árvore que me planta.
Em silêncio e devagar no escuro
Deve ser a véspera. Devo ser o sal
Voltado para trás.
Ou a pergunta na hora de partir.
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
A chuva definitiva sobre o último animal nos pastos
O cadáver onde a aranha decide o círculo.
Deve ser o último degrau na escada de Jacob
E último sonho nele
Deve ser-lhe a última dor no quadril.
Deve ser o mendigo à minha porta
E a casa posta à venda.
Devo ser o chão que me recebe
E a árvore que me planta.
Em silêncio e devagar no escuro
Deve ser a véspera. Devo ser o sal
Voltado para trás.
Ou a pergunta na hora de partir.
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
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