Poemas neste tema

Céu, Estrelas e Universo

Leopoldo Brígido

Leopoldo Brígido

Visão Noturna

Como surge do linho alvo e fragrante
Esplêndida mulher formosa e nua,
Já despida das brumas do Levante
Pálida e bela me parece a Lua.

Sobe, forma de sonho deslumbrante,
No manso lago sideral flutua,
E límpido lhe brilha o corpo amante,
E o seio à tepidez da vaga estua.

Avança sem temor, Náiade ousada,
Serenamente, airosamente nada,
E as mansas vagas osculando-a pelas

Úmidas pomas, pela espádua albente,
Ela vai-se, enredada docemente
Nos nenúfares brancos das estrelas.

913
Pablo Neruda

Pablo Neruda

LVI

Não achas que os dromedários
preservam lua em suas corcovas?

Não a semeiam nos desertos
com persistência clandestina?

E não estará emprestado o mar
por um curto tempo à terra?

Não teremos que devolvê-lo
com suas marés à lua?
1 222
Pablo Neruda

Pablo Neruda

LVII

Não será bom proibir
os beijos interplanetários?

Por que não analisar as coisas
antes de habilitar planetas?

E por que não o ornitorrinco
com sua espacial indumentária?

As ferraduras não se fizeram
para cavalos da lua?
1 014
Pablo Neruda

Pablo Neruda

LVIII

E o que palpitava na noite?
Eram planetas ou ferraduras?

Devo escolher esta manhã
entre o mar desnudo e o céu?

E por que o céu está vestido
tão cedo com suas neblinas?

O que me esperava em Ilha Negra?
A verdade verde ou o decoro?
934
Mafalda Veiga

Mafalda Veiga

Baile

Deixei as cartas na mesa
alguém as há-de jogar
soltei a alma no vento
entre os claros do luar
vou cavalgar mais que o tempo
e antes do tempo chegar
à beira do sentimento

Correr os rumos do mundo
sem saber onde se vai
contar as estrelas no céu
respirar os vendavais
vou cavalgar mais que o vento
pra depois me demorar
à beira do sentimento

Vou dançar e escapar
numa fresta rasgada pela luz
vou rodar
pressentir
e fugir como o ar
vou dançar e escapar
numa fresta rasgada pela luz
vou rodar
pressentir
e fugir como o ar

Ser dono do infinito
que anda nos brilhos da noite
calor e fulgor do corpo
que a lua rouba o alento
vou cavalgar mais que o vento
pra depois me demorar
à beira do sentimento

Vou dançar e escapar
numa fresta rasgada pela luz
vou rodar
pressentir
e fugir como o ar
vou dançar e escapar
numa fresta rasgada pela luz
vou rodar
pressentir
e fugir como o ar
1 307
Alphonsus de Guimaraens

Alphonsus de Guimaraens

XII - Noite de Luar

A MARINHO DE ANDRADE

Ó luar, dá-me na tua asa branca o seu beijo,
Dá-me a sua carícia, o seu amor e aquela
Doce luz que roubaste aos meigos olhos dela,
Que é toda a minha vida e todo o meu desejo.

Uma estrela falar-me uma noite assim veio,
Deixando na minh'alma um cristalino rasto:
"É impossível que o luar sendo assim puro e casto
Não lhe tenha roubado a brancura do seio!"

E tu ó luar, disseste assim risonho: "Deixa
Falar a estrela! Foi esse astro que, sonhando,
A luz branca do olhar lhe roubou, terno e brando,
Enquanto a noite vinha arrancar-lhe a madeixa"

Estrela, mentes? Luar, mentes também? Seria
Uma blasfêmia cruel dizer agora ao certo
Se de vós veio a luz que ela tem, ou se o aberto
Olhar que tendes, dela em gotas veio um dia...

Uma blasfêmia... Pois eu não posso dizer-vos
Se ela é do céu, ou se vós sois da terra, tanto
É o sensualismo que me vem do vosso pranto,
Tanta é a celeste luz que me vem dos seus nervos!


In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 546-547. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20). Poema integrante da série Salmos da Noite
3 342
Raul Machado

Raul Machado

Céu do Brasil

Praz-me ver este céu que em palpitante messe
De àureas constelações a arder perpetuamente,
Montes, campos e mar ilumina; e os guarnece
De uma renda de luz e prata resplendente!

Céu suspenso jardim, horto magnificente,
Que em grinaldas de sóis e de estrelas floresce!
Cúpula nupcial, de onde, em floco nitente,
Como um véu de noivado, o luar diáfano desce!

Céu que incendeia o ocaso em de fogueiras;
Que aos outros céus em faz e colorido excele,
Na glória das manhãs e noites brasileiras!

Céu que a alma contempla, humílima, de rastros...
Céu que é um altar em festa: — e acesa, dentro dele,
Brilha a cruz do Senhor, numa moldura de astros!

1 072
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

[1] A Cabeça do Grifo: O INFANTE D. HENRIQUE

Em seu trono entre o brilho das esferas,
Com seu manto de noite e solidão,
Tem aos pés o mar novo e as mortas eras —
O único imperador que tem, deveras,
O globo mundo em sua mão.

6 974
Afrânio Peixoto

Afrânio Peixoto

Anch'io

Na poça de lama
Como no divino céu,
Também passa a lua.


In: PEIXOTO, Afrânio. Miçangas: poesia e folclore. São Paulo: Ed. Nacional, 1931. p. 24
1 224
Castro Alves

Castro Alves

O Navio Negreiro, Tragédia no Mar (I)

'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar — doirada borboleta —
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.

'Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias
— Constelações do líquido tesouro...

'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estritam num abraço insano
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dois é o céu? Qual o oceano?...

'Stamos em pleno mar... Abrindo as velas
Ao quente arfar das variações marinhas,
Veleiro brigue à flor dos mares
Como roçam na vaga as andorinhas...

Donde vem?... Onde vai?... Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste Saara os córceis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.

Bem feliz quem ali pode nest'hora
Sentir deste painel a majestade!...
Embaixo — o mar... em cima — o firmamento...
E no mar e no céu — a imensidade!

Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! Como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!

Homens do mar! Ó rudes marinheiros
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!

Esta selvagem, livre poesia...
Orquestra — é o mar que ruge pela proa,
E o vento que nas cordas assobia...

..............................................

Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávio poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!

Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu, que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviatã do espaço!
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas...

(...)


Publicado no livro A Cachoeira de Paulo Afonso: poema original brasileiro (1876).

In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986. p. 277-278.


5 737
Alberto de Oliveira

Alberto de Oliveira

Os Amores da Estrela

Já sob o largo pálio a tenebrosa
Noite as estrelas nítidas e belas
Prendera ao seio, como mãe piedosa.

De umas as brancas lúcidas capelas,
De outras o manto e as clâmides de linho
Viam-se à luz da lua. Estas e aquelas,

Todas no lácteo sideral caminho
Dormiam, como bando alvinitente
De aves, à sombra, nos frouxéis de um ninho.

Vênus, porém, chorava; ela somente
De pé, cismando, o níveo olhar mais níveo
Que a prata, abria na amplidão dormente.

Olhava ao longo o célico declívio,
Como a buscar alguém que desejava,
Qual se deseja alguém que é doce alívio.

Só, no espaço desperta, como a escrava
Romana ao pé do leito da senhora
Velando à noite, a mísera velava.

Um deus de formas válidas adora;
São seus cabelos ouro puro, o peito
Veste a armadura de cristal da aurora.

Quando ele sai das púrpuras do leito,
O arco na mão, parece de diamantes
E rosados rubins seu rosto feito.

Dera por vê-lo agora as cintilantes
Lágrimas todas, líquido tesouro,
Que lhe tremem às pálpebras brilhantes...

Mas soa de repente um grande coro
Pelas cavas abóbadas... E logo
Assoma ao longe um capacete de ouro.

O deus ouviu-lhe o suplicante rogo!
Ei-lo que vem! seu plaustro os ares corta;
Ouve o relincho aos seus corcéis de fogo.

Já do roxo Levante se abre a porta...
E ao ver-lhe o vulto e as chamas da armadura,
Fria, trêmula, muda e quase morta,

Vênus desmaia na infinita altura.


Publicado no livro Poesias: segunda série. Poema integrante da série Alma Livre, 1898/1901.

In: OLIVEIRA, Alberto de. Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.2. (Fluminense
2 735
Gregório de Matos

Gregório de Matos

Descreve um Horroroso Dia de Trovões

Na confusão do mais horrendo dia,
Painel da noite em tempestade brava.
O fogo com o ar se embaraçava,
Da terra, e ar o ser se confundia.

Bramava o mar, o vento embravecia,
A noite em dia enfim se equivocava,
E com estrondo horrível, que assombrava,
A terra se abalava, e estremecia.

Desde o alto aos côncavos rochedos,
Desde o centro aos altos obeliscos
Houve temor nas nuvens, e penedos.

Pois dava o Céu ameaçando riscos
Com assombros, com pasmos, e com medos
Relâmpagos, trovões, raios, coriscos.


In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992
4 066
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

La noche de San Juan

El poniente impecable en esplendores
quebró a filo de espada las distancias.
Suave como un sauzal está la noche.
Rojos chisporrotean
los remolinos de las bruscas hogueras;
leña sacrificada
que se desangra en altas llamaradas,
bandera viva y ciega travesura.
La sombra es apacible como una lejanía;
hoy las calles recuerdan
que fueron campo un día.
Toda la santa noche la soledad rezando
su rosario de estrellas desparramadas.


"Fervor de Buenos Aires" (1923)



Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 48 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 345
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

El sur

Desde uno de tus patios haber mirado
las antiguas estrellas,
desde el banco de
la sombra haber mirado
esas luces dispersas
que mi ignorancia no ha aprendido a nombrar
ni a ordenar en constelaciones,
haber sentido el círculo del agua
en el secreto aljibe,
el olor del jazmín y la madreselva,
el silencio del pájaro dormido,
el arco del zaguán, la humedad
- esas cosas, acaso, son el poema.



Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 21 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
6 439
Eloise Petter

Eloise Petter

SOMBRA DE UM ABUTRE INSIDIOSO

Declaro a mim mesmo estes versos
Que a nuvem da paixão tornam dispersos
Encontrar meus desígnios absortos
Sombra de um abutre insidioso

Lua incandescente a derreter
Neste céu escuro deste ser
Carne flamejante, tenebrosa
Vaporosa se dissolve de prazer

Corpo insaciável desta vida
Lingua louca, contingente oceano
Nas palavras que te podem ser ditas
Não sucumbem à frieza ao teu encanto

Incorpórea sombra dança intermitente
Eu a sigo, apaixonada peregrina
Sobre o céu clemente e lento, eu me despeço
Uma noite no sepulcro do universo

920
Primo Vieira

Primo Vieira

Haicai

Ao luar, o sapo
tenta engolir uma estrela:
cai fundo no poço!

Marulho de vagas.
Há ecos de eternidade
nos búzios do mar.

1 159
Paulo F. Cunha

Paulo F. Cunha

O Múltiplo Uno

Eu que , como todos , sou feito
de matéria igual às estrelas
e às pedras , não posso
ser o mesmo , nunca !
Sou dual triplo às vezes uno .
Cristalizo-me em matéria ,
,ou vibro em ondas infinitas
adequando-me às condições
e aos infinitos ambientes .
Se com uma vibro e com
a outra me torno sólido ,
não é culpa minha , mas
das infinitas probabilidades
que ser pedra e ser estrela
me conferem .
Vagando na verdade da incerteza
não me oponho- por não poder-
à inexorável submissão à natureza .
E é dentro dela que
me realizo e penso que sendo
uno dual ou triplo ,
jamais perco a essência mesma
de ser eu.

903
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

La promisión en alta mar

No he recobrado tu cercanía, mi patria, pero ya tengo tus estrellas.
Lo más lejano del firmamento las dijo y ahora se pierden en su gracia los mástiles.
Se han desprendido de las altas cornisas como un asombro de palomas.
Vienen del patio donde el aljibe es una torre inversa entre dos cielos.
Vienen del creciente jardín cuya inquietud arriba al pie del muro como un agua sombría.
Vienen de un lacio atardecer de provincia, manso como un yuyal.
Son inmortales y vehementes; no ha de medir su eternidad ningún pueblo.
Ante su firmeza de luz todas las noches de los hombres se curvarán como hojas secas.
Son un claro país y de algún modo está mi tierra en su ámbito.


"Luna de enfrente"(1925)


Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 75 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 371
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Manuscrito hallado en un libro de Joseph Conrad

En las trémulas tierras que exhalan el verano,
el día es invisible de puro blanco. El día
es una estría cruel en una celosía,
un fulgor en las costas y una fiebre en el llano.

Pero la antigua noche es honda como un jarro
de agua cóncava. El agua se abre a infinitas huellas,
y en ociosas canoas, de cara a las estrellas,
el hombre mide el vago tiempo con el cigarro.

El humo desdibuja gris las constelaciones
remotas. Lo inmediato pierde prehistoria y nombre.
El mundo es unas cuantas tiernas imprecisiones.
El río, el primer río. El hombre, el primer hombre.


"Luna de enfrente"


Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 72 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 155
João Alexandre Júnior

João Alexandre Júnior

Flúvio-Cosmo-Variantes

Há um mini-Jesus Cristo
inútil em minha cela
enquanto as apostas dobram:
— trinta dinheiros
na Besta do Apocalipse!
Passeio na dominical monotonia
pelos corredores do jornal:
— um Messias eletrônico
engenha novos furos
no cinturão de Von Hallen
em defesa da segurança nacional
da gravidez telúrica.
Maiakovsky reclama direitos autorais
(a verdade leninista
continua a mais vendida).
Nova estrela-arauto
reformula o comercial do Salvador
e em cadeia via Intelstar
anuncia à Aldeia Global:
...Pioneer acusa! ...Pioneer acusa!
Júpiter, a Outra Terra Prometida
...e a estrela é a salvação.
Clandestina felicidade de Clarisse,
sem rosto, branca, choca um ovo,
sem cor, sem promessa,
de síntese marxista.
Poesia faz Manchete
e os Campos abstratos
são o radical secreto do amor-tese
(fez-se do Paulo a síntese de mendigo).

740
Isabel Vilhena

Isabel Vilhena

Alma das Coisas

Olhando a serra, lá distante,
E o sol que sobre a serra desce,
Escuto nesse instante
O pássaro feliz e as flores da campina,
O arvoredo que vive sem saber
Agasalhando a paz dos ninhos,
Dizerem sua prece!
E quando no horizonte o dia acorda,
Na pompa da alvorada,
À hora virginal do amanhecer,
É para mim como se eu mesma visse
O próprio Deus olhando para o mundo!
Então, minha alma reza ajoelhada,
Em silêncio profundo,
A prece mais bonita que eu já disse
E que a ninguém na terra eu vou dizer!
Ao ver o rio deslizar sereno,
Na sua vida plena de bonança,
Nessa marcha saudosa de partida,
Refletindo no espelho de águas mansas
Um retalho do céu todo estrelado,
Os ninhos e um pedaço da montanha,
Eu o comparo àquele que, na vida,
É bem feliz, porque o rio
Sonha acordado...
E sem saber que sonha!

1 007
Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe

Alone

From childhood's hour I have not been
As others were; I have not seen
As others saw; I could not bring
My passions from a common spring.
From the same source I have not taken
My sorrow; I could not awaken
My heart to joy at the same tone;
And all I loved, I loved alone.
Then- in my childhood, in the dawn
Of a most stormy life- was drawn
From every depth of good and ill
The mystery which binds me still:
From the torrent, or the fountain,
From the red cliff of the mountain,
From the sun that round me rolled
In its autumn tint of gold,
From the lightning in the sky
As it passed me flying by,
From the thunder and the storm,
And the cloud that took the form
(When the rest of Heaven was blue)
Of a demon in my view.


1829

1 952
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Insomnio

De fierro,
de encorvados tirantes de enorme fierro tiene que ser la noche,
para que no la revienten y la desfonden
las muchas cosas que mis abarrotados ojos han visto,
las duras cosas que insoportablemente la pueblan.

Mi cuerpo ha fatigado los niveles, las temperaturas, las luces:
en vagones de largo ferrocarril,
en un banquete de hombres que se aborrecen,
en el filo mellado de los suburbios
en una quinta calurosa de estatuas húmedas,
en la noche repleta donde abundan el caballo y el hombre.

El universo de esta noche tiene la vastedad
del olvido y la presición de la fiebre.

En vano quiero distraerme de mi cuerpo
y del desvelo de un espejo incesante
que lo prodiga y que lo acecha
y de la casa que repite sus patios
y del mundo que sigue hasta un despedazado arrabal
de callejones donde el viento se cansa y de barro torpe.

En vano espero
las desintegraciones y los símbolos que preceden el sueño.

Sigue la historia universal:
los rumbos minuciosos de la muerte en las caries dentales,
la circulación de mi sangre y de los planetas.

(He odiado el agua crapulosa de un charco,
he aborrecido en el atardecer el canto de un pájaro.)

Las fatigadas leguas incesantes del suburbio del Sur,
leguas de pampa basurera y obscena , leguas de execración.
no se quieren ir del recuerdo.

Lotes anegadizos, ranchos en montón como perros charcos de plata fétida:
soy el aborrecible centinela de esas colocaciones inmóviles.
Alambre, terraplenes, papeles muertos, sobras de Buenos Aires.

Creo esta noche en la terrible inmortalidad:
ningún hombre ha muerto en el tiempo, ninguna mujer, ningún muerto
porque esta inevitable realidad de fierro y de barro
tiene que atravesar la indiferencia de cuantos estén dormidos o muertos
aunque se oculten en la corrupción o en los siglos
y condenarlos a vigilia espantosa.

Toscas nubes color borra de vino infamarán el cielo;
amanecerá en mis párpados apretados.



Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 167 e 168 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
2 140
Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe

Dreams

Oh! that my young life were a lasting dream!
My spirit not awakening, till the beam
Of an Eternity should bring the morrow.
Yes! tho' that long dream were of hopeless sorrow,
'Twere better than the cold reality
Of waking life, to him whose heart must be,
And hath been still, upon the lovely earth,
A chaos of deep passion, from his birth.
But should it be— that dream eternally
Continuing— as dreams have been to me
In my young boyhood— should it thus be given,
'Twere folly still to hope for higher Heaven.
For I have revell'd, when the sun was bright
I' the summer sky, in dreams of living light
And loveliness,— have left my very heart
In climes of my imagining, apart
From mine own home, with beings that have been
Of mine own thought— what more could I have seen?
'Twas once— and only once— and the wild hour
From my remembrance shall not pass— some power
Or spell had bound me— 'twas the chilly wind
Came o'er me in the night, and left behind
Its image on my spirit— or the moon
Shone on my slumbers in her lofty noon
Too coldly— or the stars— howe'er it was
That dream was as that night—wind— let it pass.

I have been happy, tho' in a dream.
I have been happy— and I love the theme:
Dreams! in their vivid coloring of life,
As in that fleeting, shadowy, misty strife
Of semblance with reality, which brings
To the delirious eye, more lovely things
Of Paradise and Love— and all our own!
Than young Hope in his sunniest hour hath known.


1827

1 658