Poemas neste tema
Casa e Lar
Paulo Henriques Britto
nenhum mistério - X
Dentro da noite por fim construída
há tempo para tudo, e muito espaço.
Longas janelas. Cortinas corridas.
Nos armários vazios, grandes chumaços
de algodão a preencher cada centímetro
cúbico de cada compartimento
e gaveta. Na parede, um termômetro
no qual ninguém dá corda há muito tempo.
Nas prateleiras, livros entulhados
de palavras que escorrem devagar,
formando umas poças ralas no chão.
É uma espécie de véspera. Calados,
os cômodos esperam o raiar
de alguma coisa como um dia. Ou não.
há tempo para tudo, e muito espaço.
Longas janelas. Cortinas corridas.
Nos armários vazios, grandes chumaços
de algodão a preencher cada centímetro
cúbico de cada compartimento
e gaveta. Na parede, um termômetro
no qual ninguém dá corda há muito tempo.
Nas prateleiras, livros entulhados
de palavras que escorrem devagar,
formando umas poças ralas no chão.
É uma espécie de véspera. Calados,
os cômodos esperam o raiar
de alguma coisa como um dia. Ou não.
709
Charles Bukowski
Pai, Que Estais No Céu –
meu pai era um homem prático.
ele tinha uma ideia.
veja bem, meu filho, ele disse,
posso pagar esta casa ao longo de minha vida,
então ela será minha.
quando eu morrer eu a passo para você.
agora durante a sua vida você adquire uma casa
e assim você terá duas casas
e passará essas duas casas ao seu
filho, e durante a vida dele mais uma casa será adquirida,
então ele morre, e o filho dele –
entendi, eu disse.
meu pai morreu enquanto tentava beber um
copo d’água. eu o enterrei.
caixão de sólido mogno. depois do funeral
fui ao hipódromo, conheci uma japa alta.
depois das corridas fomos ao apartamento dela
para jantar e fazer coisas boas.
vendi sua casa depois de um mês.
vendi seu carro e seus móveis
e me livrei de todos os seus quadros exceto de um
e de todos os seus potes de geleia
(cheios de frutas fervidas no calor do verão)
e coloquei seu cachorro num canil
tive dois encontros com sua namorada
mas não indo a nenhum lugar
desisti.
bebi e queimei no jogo o dinheiro.
agora vivo num pátio frontal e barato em Hollywood
e levo o lixo para fora para
economizar no aluguel.
meu pai era um homem prático.
ele se engasgou com aquele copo d’água
e economizou nas contas do
hospital.
ele tinha uma ideia.
veja bem, meu filho, ele disse,
posso pagar esta casa ao longo de minha vida,
então ela será minha.
quando eu morrer eu a passo para você.
agora durante a sua vida você adquire uma casa
e assim você terá duas casas
e passará essas duas casas ao seu
filho, e durante a vida dele mais uma casa será adquirida,
então ele morre, e o filho dele –
entendi, eu disse.
meu pai morreu enquanto tentava beber um
copo d’água. eu o enterrei.
caixão de sólido mogno. depois do funeral
fui ao hipódromo, conheci uma japa alta.
depois das corridas fomos ao apartamento dela
para jantar e fazer coisas boas.
vendi sua casa depois de um mês.
vendi seu carro e seus móveis
e me livrei de todos os seus quadros exceto de um
e de todos os seus potes de geleia
(cheios de frutas fervidas no calor do verão)
e coloquei seu cachorro num canil
tive dois encontros com sua namorada
mas não indo a nenhum lugar
desisti.
bebi e queimei no jogo o dinheiro.
agora vivo num pátio frontal e barato em Hollywood
e levo o lixo para fora para
economizar no aluguel.
meu pai era um homem prático.
ele se engasgou com aquele copo d’água
e economizou nas contas do
hospital.
1 072
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Luz E a Casa
Em redor da luz
Com sombras e brancos
A casa se procura
Minhas mãos quase tocam
O brando respirar
Da sua atenção pura
Com sombras e brancos
A casa se procura
Minhas mãos quase tocam
O brando respirar
Da sua atenção pura
1 334
Sophia de Mello Breyner Andresen
Um Pálido Inverno
Um pálido inverno escorria nos quartos
Brancos de silêncio como a névoa
Um frio azul brilhava no vidro das janelas
As coisas povoavam os meus dias
Secretas graves nomeadas
Brancos de silêncio como a névoa
Um frio azul brilhava no vidro das janelas
As coisas povoavam os meus dias
Secretas graves nomeadas
1 138
Paulo Henriques Britto
X
Dentro da noite por fim construída
há tempo para tudo, e muito espaço.
Longas janelas. Cortinas corridas.
Nos armários vazios, grandes chumaços
de algodão a preencher cada centímetro
cúbico de cada compartimento
e gaveta. Na parede, um termômetro
no qual ninguém dá corda há muito tempo.
Nas prateleiras, livros entulhados
de palavras que escorrem devagar,
formando umas poças ralas no chão.
É uma espécie de véspera. Calados,
os cômodos esperam o raiar
de alguma coisa como um dia. Ou não.
há tempo para tudo, e muito espaço.
Longas janelas. Cortinas corridas.
Nos armários vazios, grandes chumaços
de algodão a preencher cada centímetro
cúbico de cada compartimento
e gaveta. Na parede, um termômetro
no qual ninguém dá corda há muito tempo.
Nas prateleiras, livros entulhados
de palavras que escorrem devagar,
formando umas poças ralas no chão.
É uma espécie de véspera. Calados,
os cômodos esperam o raiar
de alguma coisa como um dia. Ou não.
735
Elisa Lucinda
Para um Amor na Rua
Meu amor,
vem pra casa que ouvi dizer
que vai estourar a guerra
Nostradamus previu
Raimunda, nega Raimunda confirmou
Por favor, ponha os pés na terra
Chão firme cama da gente
ouvi dizer que vai estourar a guerra.
Você que é mundano convicto
você que erra
vai argumentar que não há perigo e o escambou
que é apenas o "bicho" internacional.
Vai confundir tudo com show
vai dizer que tem Prince, Rock nroll
Guns NRoses e talvez Gal;
É mau, meu bem
tem também Sadam, Bushes e mesquinharias
Vem pra casa guardar num cofre sua ingenuidade
vem proteger da maldade sua fotografia.
Aqui fiz cuscuz farofa e feijão fraldinho
aqui pintei filosofia, comigo-ninguém-pode
espada de São Jorge, jasmim, arruda, carinho.
Tudo anti-míssil
tudo bruxaria anti-crueldade bélica
Lá fora alguns meninos
querem experimentar a potência
de seus terríveis brinquedos.
Não tenha medo
vem pra casa sem nem telefonar
aqui tem ar, poesia, fé
e tudo que a alegria da alma encerra.
Vem, meu amor
que ouvi dizer que vai estourar a guerra.
(verão de 1991)
vem pra casa que ouvi dizer
que vai estourar a guerra
Nostradamus previu
Raimunda, nega Raimunda confirmou
Por favor, ponha os pés na terra
Chão firme cama da gente
ouvi dizer que vai estourar a guerra.
Você que é mundano convicto
você que erra
vai argumentar que não há perigo e o escambou
que é apenas o "bicho" internacional.
Vai confundir tudo com show
vai dizer que tem Prince, Rock nroll
Guns NRoses e talvez Gal;
É mau, meu bem
tem também Sadam, Bushes e mesquinharias
Vem pra casa guardar num cofre sua ingenuidade
vem proteger da maldade sua fotografia.
Aqui fiz cuscuz farofa e feijão fraldinho
aqui pintei filosofia, comigo-ninguém-pode
espada de São Jorge, jasmim, arruda, carinho.
Tudo anti-míssil
tudo bruxaria anti-crueldade bélica
Lá fora alguns meninos
querem experimentar a potência
de seus terríveis brinquedos.
Não tenha medo
vem pra casa sem nem telefonar
aqui tem ar, poesia, fé
e tudo que a alegria da alma encerra.
Vem, meu amor
que ouvi dizer que vai estourar a guerra.
(verão de 1991)
1 793
Paulo Henriques Britto
VÉSPERA
No trivial do sanduíche a morte aguarda.
Na esquiva escuridão da geladeira
dorme a sono solto, imersa em mostarda.
A hora é lerda. A casa sonha. A noite inteira
algo cricrila sem parar — insetos?
O abacaxi impera na fruteira,
recende esplêndido, desperdiçando espetos.
A lua bate o ponto e vai-se embora.
Mesmo os ladrilhos ficam todos pretos.
A geladeira treme. Mas ainda não é hora.
Se houvesse um gato, ele seria pardo.
A morte ainda demora. O dia tarda.
Na esquiva escuridão da geladeira
dorme a sono solto, imersa em mostarda.
A hora é lerda. A casa sonha. A noite inteira
algo cricrila sem parar — insetos?
O abacaxi impera na fruteira,
recende esplêndido, desperdiçando espetos.
A lua bate o ponto e vai-se embora.
Mesmo os ladrilhos ficam todos pretos.
A geladeira treme. Mas ainda não é hora.
Se houvesse um gato, ele seria pardo.
A morte ainda demora. O dia tarda.
701
Adélia Prado
Descritivo
As formigas passeiam na parede,
perto de um vidro de cola que perdeu a rolha. Há mais:
um maço de jornais, uma bilha e seu gargalo fálico,
um copo de plástico e um quiabo seco,
guardado ali por causa das sementes.
Tudo sobre uma cômoda, num quarto.
O vidro de cola está arrolhado com uma bucha de papel.
É sábado, é tarde, é túrgida minha bexiga feminina
e por isso vai ser menos belo que eu me levante e a esvazie.
Os analistas dirão, segundo Freud: complexo de castração.
Eu não digo nada, pela primeira vez, humildemente.
Vou me deitar pra dormir, não antes sem rezar,
pelos meus e os teus.
perto de um vidro de cola que perdeu a rolha. Há mais:
um maço de jornais, uma bilha e seu gargalo fálico,
um copo de plástico e um quiabo seco,
guardado ali por causa das sementes.
Tudo sobre uma cômoda, num quarto.
O vidro de cola está arrolhado com uma bucha de papel.
É sábado, é tarde, é túrgida minha bexiga feminina
e por isso vai ser menos belo que eu me levante e a esvazie.
Os analistas dirão, segundo Freud: complexo de castração.
Eu não digo nada, pela primeira vez, humildemente.
Vou me deitar pra dormir, não antes sem rezar,
pelos meus e os teus.
1 304
Adélia Prado
Chorinho Doce
Eu já tive e perdi
uma casa,
um jardim,
uma soleira,
uma porta,
um caixão de janela com um perfil.
Eu sabia uma modinha e não sei mais.
Quando a vida dá folga, pego a querer
a soleira,
o portal,
o jardim mais a casa,
o caixão de janela e aquele rosto de banda.
Tudo impossível,
tudo de outro dono,
tudo de tempo e vento.
Então me dá choro, horas e horas,
o coração amolecido como um figo na calda.
uma casa,
um jardim,
uma soleira,
uma porta,
um caixão de janela com um perfil.
Eu sabia uma modinha e não sei mais.
Quando a vida dá folga, pego a querer
a soleira,
o portal,
o jardim mais a casa,
o caixão de janela e aquele rosto de banda.
Tudo impossível,
tudo de outro dono,
tudo de tempo e vento.
Então me dá choro, horas e horas,
o coração amolecido como um figo na calda.
2 028
Adélia Prado
Registro
Visíveis no facho de ouro jorrado porta adentro,
mosquitinhos, grãos maiores de pó.
A mãe no fogão atiça as brasas
e acende na menina o nunca mais apagado da memória:
uma vez banqueteando-se, comeu feijão com arroz
mais um facho de luz. Com toda fome.
mosquitinhos, grãos maiores de pó.
A mãe no fogão atiça as brasas
e acende na menina o nunca mais apagado da memória:
uma vez banqueteando-se, comeu feijão com arroz
mais um facho de luz. Com toda fome.
1 244
Adélia Prado
A Menina do Olfato Delicado
Quero comer não, mãe
(no canto do fogão o caldeirão esmaltado)
quero comer não, mãe
(arroz com feijão, macarrão grosso)
quero comer não, mãe
(sem massa de tomate)
quero comer não, mãe
(com gosto de serragem)
quero comer não, mãe
(com cheiro de carbureto)
quero comer não,
(vi um gato no caminho, fervendo de bicho)
quero comer não, mãe
(quando inaugurar a luz elétrica e o pai
consumir com o gasômetro, eu como).
Vamos ficar no escuro, mãe. Põe lamparina,
põe gasômetro não, o azul dele tem cheiro,
o cheiro entra na pele, na comida, no pensamento,
toma a forma das coisas. Quando a senhora tem
raiva sem xingar é igual a ruindade do gasômetro,
a azuleza dele. Vomito mãe. Vou comer agora não.
Vou esperar a luz elétrica.
(no canto do fogão o caldeirão esmaltado)
quero comer não, mãe
(arroz com feijão, macarrão grosso)
quero comer não, mãe
(sem massa de tomate)
quero comer não, mãe
(com gosto de serragem)
quero comer não, mãe
(com cheiro de carbureto)
quero comer não,
(vi um gato no caminho, fervendo de bicho)
quero comer não, mãe
(quando inaugurar a luz elétrica e o pai
consumir com o gasômetro, eu como).
Vamos ficar no escuro, mãe. Põe lamparina,
põe gasômetro não, o azul dele tem cheiro,
o cheiro entra na pele, na comida, no pensamento,
toma a forma das coisas. Quando a senhora tem
raiva sem xingar é igual a ruindade do gasômetro,
a azuleza dele. Vomito mãe. Vou comer agora não.
Vou esperar a luz elétrica.
1 271
António Ramos Rosa
Poema de Duas Faces
Quando havia antes um antigamente
havia uma esperança
agora no próprio coração da ilusão
onde a água limpa as pedras das ruínas
entre destroços límpidos
deito-me sobre a minha sombra e durmo
e durmo
Quando havia antes um amanhecer
à beira do abismo
agora no próprio coração do coração
durmo estrangulando um monstro inerme
um palhaço de palha seco e pálido
quando havia antes um caminho
Não houve nunca amigos nem pureza
nem carinhos de mãe salvam a noite
É preciso ir mais longe na incerteza
É preciso no silêncio não escutar
A manhã que eu procuro não foi sonhada
Uma árvore me ignora na raiz
Perfeitamente desesperado é o meu sonho
Os pássaros insultam-me na cama
Só com doidos com doidos amaria
perfeitamente presente na frescura
do mar
Uma casa para eu ter a humildade de ser espaço
a líquida frescura duma jarra
um passo leve e certo em cada sombra
um ninho em cada ouvido
de doces abelhas cegas
Uma casa uma caixa de música e sossego
Um violão adormecido na doçura
Um mar longínquo à volta atrás do campo
Uma inundação de verdura e espessa paz
Uma repetida e vasta constelação de grilos
e os galos alacres do silêncio
Um mar de espuma e alegria obscura
Um mar de espuma e alegria clara
entre o verde e a brisa
Na brancura dos quartos
a inocência poderá sonhar desnuda
os insectos poderão entrar
juntamente com as plantas e as aves
Uma longa asa passará
o mundo e o silêncio a mesma ave
e o mar
o mudo leão longínquo e fresco
faiscará entre o verde as lâminas solares
havia uma esperança
agora no próprio coração da ilusão
onde a água limpa as pedras das ruínas
entre destroços límpidos
deito-me sobre a minha sombra e durmo
e durmo
Quando havia antes um amanhecer
à beira do abismo
agora no próprio coração do coração
durmo estrangulando um monstro inerme
um palhaço de palha seco e pálido
quando havia antes um caminho
Não houve nunca amigos nem pureza
nem carinhos de mãe salvam a noite
É preciso ir mais longe na incerteza
É preciso no silêncio não escutar
A manhã que eu procuro não foi sonhada
Uma árvore me ignora na raiz
Perfeitamente desesperado é o meu sonho
Os pássaros insultam-me na cama
Só com doidos com doidos amaria
perfeitamente presente na frescura
do mar
Uma casa para eu ter a humildade de ser espaço
a líquida frescura duma jarra
um passo leve e certo em cada sombra
um ninho em cada ouvido
de doces abelhas cegas
Uma casa uma caixa de música e sossego
Um violão adormecido na doçura
Um mar longínquo à volta atrás do campo
Uma inundação de verdura e espessa paz
Uma repetida e vasta constelação de grilos
e os galos alacres do silêncio
Um mar de espuma e alegria obscura
Um mar de espuma e alegria clara
entre o verde e a brisa
Na brancura dos quartos
a inocência poderá sonhar desnuda
os insectos poderão entrar
juntamente com as plantas e as aves
Uma longa asa passará
o mundo e o silêncio a mesma ave
e o mar
o mudo leão longínquo e fresco
faiscará entre o verde as lâminas solares
1 158
Adélia Prado
Figurativa
O pai cavando o chão mostrou pra nós,
com o olho da enxada, o bicho bobo,
a cobra de duas cabeças.
Saía dele o cheiro de óleo e graxa,
cheiro-suor de oficina, o brabo cheiro bom.
Nós tínhamos comido a janta quente
de pimenta e fumaça, angu e mostarda.
Pisando a terra que ele desbarrancava aos socavões,
catava tanajuras voando baixo,
na poeira de ouro das cinco horas.
A mãe falou pra mim: ‘vai na sua avó buscar polvilho,
vou fritar é uns biscoitos pra nós’.
A voz dela era sem acidez. ‘Arreda, arreda’,
o pai falava com amor.
As tanajuras no sol, a beira da linha,
o verde do capim espirrando entre os tijolos
da beirada da casa descascada, a menina embaraçada
com a opressão da alegria, o coração doendo,
como se triste fosse.
com o olho da enxada, o bicho bobo,
a cobra de duas cabeças.
Saía dele o cheiro de óleo e graxa,
cheiro-suor de oficina, o brabo cheiro bom.
Nós tínhamos comido a janta quente
de pimenta e fumaça, angu e mostarda.
Pisando a terra que ele desbarrancava aos socavões,
catava tanajuras voando baixo,
na poeira de ouro das cinco horas.
A mãe falou pra mim: ‘vai na sua avó buscar polvilho,
vou fritar é uns biscoitos pra nós’.
A voz dela era sem acidez. ‘Arreda, arreda’,
o pai falava com amor.
As tanajuras no sol, a beira da linha,
o verde do capim espirrando entre os tijolos
da beirada da casa descascada, a menina embaraçada
com a opressão da alegria, o coração doendo,
como se triste fosse.
1 388
Martha Medeiros
Hoje Me Desfiz Dos Meus Bens
hoje me desfiz dos meus bens
vendi o sofá cujo tecido desenhei
e a mesa de jantar onde fizemos planos
o quadro que fica atrás do bar
rifei junto com algumas quinquilharias
da época em que nos juntamos
a tevê e o aparelho de som
foram adquiridos pela vizinha
testemunha do quanto erramos
a cama doei para um asilo
sem olhar pra trás e lembrar
do que ali inventamos
aquele cinzeiro de cobre
foi de brinde com os cristais
e as plantas que não regamos
coube tudo num caminhão de mudança
até a dor que não soubemos curar
mas que um dia vamos
vendi o sofá cujo tecido desenhei
e a mesa de jantar onde fizemos planos
o quadro que fica atrás do bar
rifei junto com algumas quinquilharias
da época em que nos juntamos
a tevê e o aparelho de som
foram adquiridos pela vizinha
testemunha do quanto erramos
a cama doei para um asilo
sem olhar pra trás e lembrar
do que ali inventamos
aquele cinzeiro de cobre
foi de brinde com os cristais
e as plantas que não regamos
coube tudo num caminhão de mudança
até a dor que não soubemos curar
mas que um dia vamos
1 774
Adélia Prado
A Casa
É um chalé com alpendre,
forrado de hera.
Na sala,
tem uma gravura de Natal com neve.
Não tem lugar pra esta casa em ruas que se conhecem.
Mas afirmo que tem janelas,
claridade de lâmpada atravessando o vidro,
um noivo que ronda a casa
— esta que parece sombria —
e uma noiva lá dentro que sou eu.
É uma casa de esquina, indestrutível.
Moro nela quando lembro,
quando quero acendo o fogo,
as torneiras jorram,
eu fico esperando o noivo, na minha casa aquecida.
Não fica em bairro esta casa
infensa à demolição.
Fica num modo tristonho de certos entardeceres,
quando o que um corpo deseja é outro corpo pra escavar.
Uma ideia de exílio e túnel.
forrado de hera.
Na sala,
tem uma gravura de Natal com neve.
Não tem lugar pra esta casa em ruas que se conhecem.
Mas afirmo que tem janelas,
claridade de lâmpada atravessando o vidro,
um noivo que ronda a casa
— esta que parece sombria —
e uma noiva lá dentro que sou eu.
É uma casa de esquina, indestrutível.
Moro nela quando lembro,
quando quero acendo o fogo,
as torneiras jorram,
eu fico esperando o noivo, na minha casa aquecida.
Não fica em bairro esta casa
infensa à demolição.
Fica num modo tristonho de certos entardeceres,
quando o que um corpo deseja é outro corpo pra escavar.
Uma ideia de exílio e túnel.
1 297
António Ramos Rosa
Tertúlia
Não encontro casa
casa onde estar
Ai amigo senta-te
fala-me de ti
Não encontro amiga
não encontro amigo
Se não tenho casa
como ser amigo?
Os meus estão longe
e não têm casa
A natureza é longe
A uma mesa de café
somos quatro quatro quê?
casa onde estar
Ai amigo senta-te
fala-me de ti
Não encontro amiga
não encontro amigo
Se não tenho casa
como ser amigo?
Os meus estão longe
e não têm casa
A natureza é longe
A uma mesa de café
somos quatro quatro quê?
1 096
Herberto Helder
Quatro Poemas Árabes - Ornatos
O vinho cor-de-rosa é bom, ó companheiros.
Sim, eu voltei, e melhor do que o vinho é o regresso.
Dai-me esse vinho antigo no seu vestido de vidro,
jacinto flamante no interior de uma pérola.
Cinzela nele a água ornatos cor de prata,
ramalhete de círculos evanescentes
que me livraram, eles, das chamas do inferno —
o que não posso negar e humildemente agradeço.
Sim, eu voltei, e melhor do que o vinho é o regresso.
Dai-me esse vinho antigo no seu vestido de vidro,
jacinto flamante no interior de uma pérola.
Cinzela nele a água ornatos cor de prata,
ramalhete de círculos evanescentes
que me livraram, eles, das chamas do inferno —
o que não posso negar e humildemente agradeço.
1 140
Vinicius de Moraes
Viagem À Sombra
Tua casa sozinha — lassidão infinita dos devaneios, dos segredos. Frocos
verdes de perfume sobre a malva penumbra (e a tua carne em pianíssimo,
grande gata branca de fala moribunda) e o fumo branco da cidade
inatingível, e o fumo branco, e a tua boca áspera, onde há dentes de
inocência ainda.
És, de qualquer modo, a Mulher. Há teu ventre que se cobre, invisível, de
odor marítimo dos brigues selvagens que eu não tive; há teus olhos mansos
de louca, ó louca! e há tua face obscura, dolorosa, talhada na pedra que quis
falar. Nos teus seios de juventude, o ruído misterioso dos duendes
ordenhando o leite pálido da tristeza do desejo.
E na espera da música, o vaivém infantil dos gestos de magia. Sim, é dança!
— o colo que aflora oferecido é a melodiosa recusa das mãos, a anca que
irrompe à carícia é o ungido pudor dos olhos, há um sorriso de infinita
graça, também, frio sobre os lábios que se consomem. Ah! onde o mar e as
trágicas aves da tempestade, para ser transportado, a face pousada sobre o
abismo?
Que se abram as portas, que se abram as janelas e se afastem as coisas aos
ventos. Se alguém me pôs nas mãos este chicote de aço, eu te castigarei,
fêmea! — Vem, pousa-te aqui! Adormece tuas íris de ágata, dança! — teu
corpo barroco em bolero e rumba. — Mais! — dança! dança! — canta,
rouxinol! (Oh, tuas coxas são pântanos de cal viva, misteriosa como a carne
dos batráquios…)
Tu que só és o balbucio, o voto, a súplica — oh mulher, anjo, cadáver da
minha angústia! — sê minha! minha! minha! no ermo deste momento, no
momento desta sombra, na sombra desta agonia — minha — minha —
minha — oh mulher, garça mansa, resto orvalhado de nuvem...
Pudesse passar o tempo e tu restares horizontalmente, fraco animal, as
pernas atiradas à dor da monstruosa gestação! Eu te fecundaria com um
simples pensamento de amor, ai de mim!
Mas ficarás com o teu destino.
verdes de perfume sobre a malva penumbra (e a tua carne em pianíssimo,
grande gata branca de fala moribunda) e o fumo branco da cidade
inatingível, e o fumo branco, e a tua boca áspera, onde há dentes de
inocência ainda.
És, de qualquer modo, a Mulher. Há teu ventre que se cobre, invisível, de
odor marítimo dos brigues selvagens que eu não tive; há teus olhos mansos
de louca, ó louca! e há tua face obscura, dolorosa, talhada na pedra que quis
falar. Nos teus seios de juventude, o ruído misterioso dos duendes
ordenhando o leite pálido da tristeza do desejo.
E na espera da música, o vaivém infantil dos gestos de magia. Sim, é dança!
— o colo que aflora oferecido é a melodiosa recusa das mãos, a anca que
irrompe à carícia é o ungido pudor dos olhos, há um sorriso de infinita
graça, também, frio sobre os lábios que se consomem. Ah! onde o mar e as
trágicas aves da tempestade, para ser transportado, a face pousada sobre o
abismo?
Que se abram as portas, que se abram as janelas e se afastem as coisas aos
ventos. Se alguém me pôs nas mãos este chicote de aço, eu te castigarei,
fêmea! — Vem, pousa-te aqui! Adormece tuas íris de ágata, dança! — teu
corpo barroco em bolero e rumba. — Mais! — dança! dança! — canta,
rouxinol! (Oh, tuas coxas são pântanos de cal viva, misteriosa como a carne
dos batráquios…)
Tu que só és o balbucio, o voto, a súplica — oh mulher, anjo, cadáver da
minha angústia! — sê minha! minha! minha! no ermo deste momento, no
momento desta sombra, na sombra desta agonia — minha — minha —
minha — oh mulher, garça mansa, resto orvalhado de nuvem...
Pudesse passar o tempo e tu restares horizontalmente, fraco animal, as
pernas atiradas à dor da monstruosa gestação! Eu te fecundaria com um
simples pensamento de amor, ai de mim!
Mas ficarás com o teu destino.
1 159
Ruy Belo
Laboratório (1)
Não era aquela casa a quem a morte
deu de beber do cântaro mais cheio
de sóis e anéis azuis? Quem de tal sorte
quebrou tão puramente pelo meio-
-dia das correrias no recreio?
Ou de lua que lívida a transporte
alguma vez algum olhar nos veio
que tamanha criança assim suporte?
Envólucro quebrado contra a aresta
do antigo cipreste, ó fantástica festa
de quem consigo mesmo pela frente
se encontra e reencontra finalmente
E hora entreaberta como esta
em que país do sul Deus nos consente?
Ruy Belo, “Todos os poemas”, pág. 135 | Círculo de Leitores, Dez 2000
deu de beber do cântaro mais cheio
de sóis e anéis azuis? Quem de tal sorte
quebrou tão puramente pelo meio-
-dia das correrias no recreio?
Ou de lua que lívida a transporte
alguma vez algum olhar nos veio
que tamanha criança assim suporte?
Envólucro quebrado contra a aresta
do antigo cipreste, ó fantástica festa
de quem consigo mesmo pela frente
se encontra e reencontra finalmente
E hora entreaberta como esta
em que país do sul Deus nos consente?
Ruy Belo, “Todos os poemas”, pág. 135 | Círculo de Leitores, Dez 2000
522
Adélia Prado
Janela
Janela, palavra linda.
Janela é o bater das asas da borboleta amarela.
Abre pra fora as duas folhas de madeira à toa pintada,
janela jeca, de azul.
Eu pulo você pra dentro e pra fora, monto a cavalo em
[você,
meu pé esbarra no chão.
Janela sobre o mundo aberta, por onde vi
o casamento da Anita esperando neném, a mãe
do Pedro Cisterna urinando na chuva, por onde vi
meu bem chegar de bicicleta e dizer a meu pai:
minhas intenções com sua filha são as melhores possíveis.
Ô janela com tramela, brincadeira de ladrão,
claraboia na minha alma,
olho no meu coração.
Janela é o bater das asas da borboleta amarela.
Abre pra fora as duas folhas de madeira à toa pintada,
janela jeca, de azul.
Eu pulo você pra dentro e pra fora, monto a cavalo em
[você,
meu pé esbarra no chão.
Janela sobre o mundo aberta, por onde vi
o casamento da Anita esperando neném, a mãe
do Pedro Cisterna urinando na chuva, por onde vi
meu bem chegar de bicicleta e dizer a meu pai:
minhas intenções com sua filha são as melhores possíveis.
Ô janela com tramela, brincadeira de ladrão,
claraboia na minha alma,
olho no meu coração.
1 497
Ricardo Aleixo
Mesmo esta, agora, é
Nunca pude escrever nem uma
única linha sobre as casas onde morei.
Nunca, para você ter uma idéia,
alguma delas amanheceu com
estrondos, fendas inexplicáveis ou um
gato degolado junto às rosas
e à pequena horta.
Eram casas, apenas. Estruturas,
antienigmas, pedras encimando
pedras. Mesmo esta, agora, é
uma mera máquina de signos –
demasiado gastos para que se extraia
dela, na melhor das hipóteses, mais
que uma outra (mera) máquina de
signos gastos.
única linha sobre as casas onde morei.
Nunca, para você ter uma idéia,
alguma delas amanheceu com
estrondos, fendas inexplicáveis ou um
gato degolado junto às rosas
e à pequena horta.
Eram casas, apenas. Estruturas,
antienigmas, pedras encimando
pedras. Mesmo esta, agora, é
uma mera máquina de signos –
demasiado gastos para que se extraia
dela, na melhor das hipóteses, mais
que uma outra (mera) máquina de
signos gastos.
734
António Ramos Rosa
Estou Em Minha Casa
Estou em minha casa
ou em casa roubada?
A minha água é de outro,
o meu princípio é já passado,
as palavras apagam-se na parede fria,
quem me distingue ou sopra
um ar já percorrido onde vivi já morto?
Quem me procuro? Viver na nuvem clara
fora dos anos, facilidade lisa,
força da fragilidade nua,
campo de verso aberto sobre o espaço,
onda de bocas múltiplas,
onda a lavrar o ar,
e uma boca interdita,
uma só palavra calada à beira de água.
Quem me rouba ou a casa é de vento?
Onde estou senão onde a parede acaba?
Quem me atravessa os ossos e me acende as letras
que sobre o sangue giram?
O meu nome é rente ao muro que o sinto,
mas o ar que respiro não tem pátria,
sou livre quando o vento me trespassa
sem idade,
e perco o olhar na claridade.
Nenhuma palavra me é dada,
nenhuma casa, nenhum destino.
Tudo eu quero, tudo me falta
e é precisamente por nada ter, por nada ser,
que me lanço e me perco contra o ar,
e por isso não invento nenhuma face
nem qualquer mistério que não seja a sede
de me igualar ao ar.
Minha bebedeira é de ar
numa cidade.
Deslizo entre automóveis que ignoram
a minha ciência de deslizar entre eles.
Mas as árvores mais nuas pertencem à minha fronte livre.
Sou obstinado na minha marcha nesta cidade
em que se repararmos bem ninguém se lembra de respirar.
O ar é ainda livre nas ruas.
É necessário afirmar este acto elementar.
Alguém ainda caminha e respira,
mortos!
ou em casa roubada?
A minha água é de outro,
o meu princípio é já passado,
as palavras apagam-se na parede fria,
quem me distingue ou sopra
um ar já percorrido onde vivi já morto?
Quem me procuro? Viver na nuvem clara
fora dos anos, facilidade lisa,
força da fragilidade nua,
campo de verso aberto sobre o espaço,
onda de bocas múltiplas,
onda a lavrar o ar,
e uma boca interdita,
uma só palavra calada à beira de água.
Quem me rouba ou a casa é de vento?
Onde estou senão onde a parede acaba?
Quem me atravessa os ossos e me acende as letras
que sobre o sangue giram?
O meu nome é rente ao muro que o sinto,
mas o ar que respiro não tem pátria,
sou livre quando o vento me trespassa
sem idade,
e perco o olhar na claridade.
Nenhuma palavra me é dada,
nenhuma casa, nenhum destino.
Tudo eu quero, tudo me falta
e é precisamente por nada ter, por nada ser,
que me lanço e me perco contra o ar,
e por isso não invento nenhuma face
nem qualquer mistério que não seja a sede
de me igualar ao ar.
Minha bebedeira é de ar
numa cidade.
Deslizo entre automóveis que ignoram
a minha ciência de deslizar entre eles.
Mas as árvores mais nuas pertencem à minha fronte livre.
Sou obstinado na minha marcha nesta cidade
em que se repararmos bem ninguém se lembra de respirar.
O ar é ainda livre nas ruas.
É necessário afirmar este acto elementar.
Alguém ainda caminha e respira,
mortos!
996
Charles Bukowski
Eu Tenho Um Quarto
eu tenho um quarto aqui em cima onde me sento sozinho e é bem
parecido com meus quartos do passado – garrafas e papéis, livros,
cintos, pentes, jornais velhos, lixo de todo tipo espalhado.
minha desordem jamais foi escolha, ela apenas chegou e
permaneceu.
no tempo de cada um não há nunca tempo suficiente para deixar
tudo arrumado – há sempre colapso, perda, a
dura matemática da
confusão e
do cansaço.
somos arengados por imensas e triviais tarefas
e chegam os momentos de estoicismo ou de horror quando fica
impossível pagar uma conta de gás ou até responder à ameaça da
Receita Federal ou de cupins ou da condenação papal de entregar
a alma para autovigilância.
tenho um quarto aqui em cima e é bem o mesmo de sempre:
o fracasso de viver grandiosamente com a mulher ou com o
universo, fica tão abafado, tudo em carne viva com auto-
acusação, atrito, re-
prises.
tenho um quarto aqui em cima e já tive este mesmo quarto em
tantas cidades – os anos subitamente remotos, sigo
sentado e o sentimento é igual ao da minha juventude.
o quarto sempre foi – ainda é – melhor à noite –
o amarelo da luz elétrica enquanto bebo
sentado – tudo de que precisamos era um pequeno retiro
de todo o irritante absurdo:
sempre poderíamos aguentar o pior se nos fosse permitido
às vezes o mais ínfimo despertar do pesadelo,
e os deuses, até aqui, nos permitiram
isso.
tenho um quarto aqui em cima e me sento sozinho nos extremos
flutuantes, batentes, loucos, e sou preguiçoso nestes campos da dor
e as minhas amigas, as paredes, apoiam essa aposta-única –
meu coração não consegue rir mas às vezes sorri
na luz elétrica amarela: ter chegado tão longe para
sentar sozinho
de novo
neste quarto aqui em cima.
parecido com meus quartos do passado – garrafas e papéis, livros,
cintos, pentes, jornais velhos, lixo de todo tipo espalhado.
minha desordem jamais foi escolha, ela apenas chegou e
permaneceu.
no tempo de cada um não há nunca tempo suficiente para deixar
tudo arrumado – há sempre colapso, perda, a
dura matemática da
confusão e
do cansaço.
somos arengados por imensas e triviais tarefas
e chegam os momentos de estoicismo ou de horror quando fica
impossível pagar uma conta de gás ou até responder à ameaça da
Receita Federal ou de cupins ou da condenação papal de entregar
a alma para autovigilância.
tenho um quarto aqui em cima e é bem o mesmo de sempre:
o fracasso de viver grandiosamente com a mulher ou com o
universo, fica tão abafado, tudo em carne viva com auto-
acusação, atrito, re-
prises.
tenho um quarto aqui em cima e já tive este mesmo quarto em
tantas cidades – os anos subitamente remotos, sigo
sentado e o sentimento é igual ao da minha juventude.
o quarto sempre foi – ainda é – melhor à noite –
o amarelo da luz elétrica enquanto bebo
sentado – tudo de que precisamos era um pequeno retiro
de todo o irritante absurdo:
sempre poderíamos aguentar o pior se nos fosse permitido
às vezes o mais ínfimo despertar do pesadelo,
e os deuses, até aqui, nos permitiram
isso.
tenho um quarto aqui em cima e me sento sozinho nos extremos
flutuantes, batentes, loucos, e sou preguiçoso nestes campos da dor
e as minhas amigas, as paredes, apoiam essa aposta-única –
meu coração não consegue rir mas às vezes sorri
na luz elétrica amarela: ter chegado tão longe para
sentar sozinho
de novo
neste quarto aqui em cima.
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Sinésio Cabral
Introspecção II
A vida, neste mundo, é mesmo passageira.
Certeza ninguém tem de estar vivo, amanhã.
O ímpio endeusa a matéria, ao encher a algibeira.
Longe o Povo de Deus de qualquer coisa vã.
A alma — sopro divino. O corpo, esfeito em poeira,
sob outra forma, um dia... A doutrina cristã,
dentro da BOA NOVA — a fonte verdadeira —
diz sobre o Bem e o Mal — no maior talismã.
Nesta minha rotina, há pesados encargos.
E, se não fosse Deus, como suportaria
ver-te a sofrer, também, momentos tão amargos!
Mas me ajudas, meu bem, na luta, noite e dia,
a carregar a cruz, em gestos sempre largos
e a trazer nosso lar em constante harmonia.
Certeza ninguém tem de estar vivo, amanhã.
O ímpio endeusa a matéria, ao encher a algibeira.
Longe o Povo de Deus de qualquer coisa vã.
A alma — sopro divino. O corpo, esfeito em poeira,
sob outra forma, um dia... A doutrina cristã,
dentro da BOA NOVA — a fonte verdadeira —
diz sobre o Bem e o Mal — no maior talismã.
Nesta minha rotina, há pesados encargos.
E, se não fosse Deus, como suportaria
ver-te a sofrer, também, momentos tão amargos!
Mas me ajudas, meu bem, na luta, noite e dia,
a carregar a cruz, em gestos sempre largos
e a trazer nosso lar em constante harmonia.
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