Poemas neste tema
Casa e Lar
Raimundo Bento Sotero
Tapera
Tornei à casa onde morei um dia
E, no espanto mortal de quem se corta,
Eu observava aquela casa torta,
Sem um traço que fosse da alegria.
Ua ventura, meu Deus, não existia.
Só os fantasmas no vão de cada porta,
Em cada canto uma lembrança morta.
Naquela casa nada mais havia!
Cada buraco aberto na parede
Pelo tempo feroz, cruel, adrede,
Semelhava-se a um meu antepassado.
Todos eles me olhavam gravemente,
Pois sabiam que o tempo, indiferente,
Esculpia também o meu passado.
E, no espanto mortal de quem se corta,
Eu observava aquela casa torta,
Sem um traço que fosse da alegria.
Ua ventura, meu Deus, não existia.
Só os fantasmas no vão de cada porta,
Em cada canto uma lembrança morta.
Naquela casa nada mais havia!
Cada buraco aberto na parede
Pelo tempo feroz, cruel, adrede,
Semelhava-se a um meu antepassado.
Todos eles me olhavam gravemente,
Pois sabiam que o tempo, indiferente,
Esculpia também o meu passado.
1 006
Clemente Rebora
Texto XXXIV dos Framment lirici
Ciência vence natureza:
é glória. Imensamente ferve
de máquinas ressoa e de moedas
o atrito humano,
enquanto, à parte, o coro dos vencidos
geme ou submerge, e sem sentido
a melodia da floresta
jaz sem ser ouvida.
Ó, nas ruas da aurora um despertar de fogo,
quando
pássaros de ninhos urbanos
por entre chaminés e canos
revoam altas as sirenes
em meio a incensos de fumaça
chamando para o bom trabalho!
E assim se desata a jornada
de hora em hora, até o meio-dia
e daí descendo pela encosta
a forjar coisas, pensamentos,
nas sucessões entrelaçadas
nos movimentos martelados,
até que a noite acolhe o peito que arde
aspirando sua força e sua vontade
na dura volta para casa
que nos subúrbios escurece entre os ecos
das mais tardias oficinas,
e agora o tremular das formas
que se demoram, precavidas,
no tinir luminoso de alamedas.
(tradução de Maurício Santana Dias)
é glória. Imensamente ferve
de máquinas ressoa e de moedas
o atrito humano,
enquanto, à parte, o coro dos vencidos
geme ou submerge, e sem sentido
a melodia da floresta
jaz sem ser ouvida.
Ó, nas ruas da aurora um despertar de fogo,
quando
pássaros de ninhos urbanos
por entre chaminés e canos
revoam altas as sirenes
em meio a incensos de fumaça
chamando para o bom trabalho!
E assim se desata a jornada
de hora em hora, até o meio-dia
e daí descendo pela encosta
a forjar coisas, pensamentos,
nas sucessões entrelaçadas
nos movimentos martelados,
até que a noite acolhe o peito que arde
aspirando sua força e sua vontade
na dura volta para casa
que nos subúrbios escurece entre os ecos
das mais tardias oficinas,
e agora o tremular das formas
que se demoram, precavidas,
no tinir luminoso de alamedas.
(tradução de Maurício Santana Dias)
800
Bernardino Lopes
XXXVIII [O casebre esburacado
O casebre esburacado
É pobre como senzala;
Tem mesmo o fogo na sala
E a picumã no telhado.
Habita-o o casal de pretos...
Vê-se no canto metido
Um oratório encardido
E atrás da porta uns gravetos.
Reina o silêncio. Anoitece.
Reza a mulher, de mãos postas
O dia a um santo oferece...
Entre as ingás bem dispostas
O proletário aparece
Com a ferramenta nas costas.
Publicado no livro Cromos (1881).
In: LOPES, B. Poesias completas. Pref. Andrade Muricy. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
É pobre como senzala;
Tem mesmo o fogo na sala
E a picumã no telhado.
Habita-o o casal de pretos...
Vê-se no canto metido
Um oratório encardido
E atrás da porta uns gravetos.
Reina o silêncio. Anoitece.
Reza a mulher, de mãos postas
O dia a um santo oferece...
Entre as ingás bem dispostas
O proletário aparece
Com a ferramenta nas costas.
Publicado no livro Cromos (1881).
In: LOPES, B. Poesias completas. Pref. Andrade Muricy. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
1 090
António Osório
Não é uma coisa só,
Não é uma coisa só,
São muitas coisas nuas.
Não é o desabar de uma casa.
É percorrer os seus escombros.
Não é aguardar por um filho.
É voltar a sê-lo.
Não é penetrar em ti.
É sair de mim.
Não é pedir-te que faças.
É fazer-te.
Não é dormir lado a lado.
É estar jacente de mãos dadas.
Não é ouvir vento e chuva.
É franquear-lhes a cama.
E relâmpago que pela terra se funde.
São muitas coisas nuas.
Não é o desabar de uma casa.
É percorrer os seus escombros.
Não é aguardar por um filho.
É voltar a sê-lo.
Não é penetrar em ti.
É sair de mim.
Não é pedir-te que faças.
É fazer-te.
Não é dormir lado a lado.
É estar jacente de mãos dadas.
Não é ouvir vento e chuva.
É franquear-lhes a cama.
E relâmpago que pela terra se funde.
1 241
Albano Dias Martins
Poema para
habitar
A casa desabitada que nós somos
pede que a venham habitar,
que lhe abram as portas e as janelas
e deixem passear o vento pelos corredores.
Que lhe limpem
os vidros da alma
e ponham a flutuar as cortinas do sangue
– até que uma aurora simples nos visite
com o seu corpo de sol desgrenhado e quente.
Até
que uma flor de incêndio rompa
o solo das lágrimas carbonizadas e férteis.
Até que as palavras de pedra que arrancamos da língua
sejam aproveitadas para apedrejarmos a morte.
A casa desabitada que nós somos
pede que a venham habitar,
que lhe abram as portas e as janelas
e deixem passear o vento pelos corredores.
Que lhe limpem
os vidros da alma
e ponham a flutuar as cortinas do sangue
– até que uma aurora simples nos visite
com o seu corpo de sol desgrenhado e quente.
Até
que uma flor de incêndio rompa
o solo das lágrimas carbonizadas e férteis.
Até que as palavras de pedra que arrancamos da língua
sejam aproveitadas para apedrejarmos a morte.
1 817
Albano Dias Martins
Espaço
disponível
Deito-me no
teu corpo
como se fosses
a minha última cama
no meu quarto de hóspede dos dias.
Deito-me e
velo
a criança lúcida
que dorme reclinada
na orla marítima do silêncio.
Ali onde o
tempo
se anula e renova
na substância palpável
dum gesto ou dum olhar
colhidos sobre a água
construo a minha casa,
habito o espaço inteiro
disponível para a vida,
necessário para a morte.
in:Em Tempo
e Memória(1974)
Deito-me no
teu corpo
como se fosses
a minha última cama
no meu quarto de hóspede dos dias.
Deito-me e
velo
a criança lúcida
que dorme reclinada
na orla marítima do silêncio.
Ali onde o
tempo
se anula e renova
na substância palpável
dum gesto ou dum olhar
colhidos sobre a água
construo a minha casa,
habito o espaço inteiro
disponível para a vida,
necessário para a morte.
in:Em Tempo
e Memória(1974)
1 206
Albano Dias Martins
Preciso de
arrumar a casa, rever o sistema, brunir
os móveis e o tacto.
Preciso de opor o tempo ao tempo.
O espaço ao espaço.
os móveis e o tacto.
Preciso de opor o tempo ao tempo.
O espaço ao espaço.
1 522
Marta Gonçalves
Cristaleira
Vamos abrir juntos a janela
escutar a conversa da cristaleira.
Quero sorver o vinho mas me agarro
ao cristal.
escutar a conversa da cristaleira.
Quero sorver o vinho mas me agarro
ao cristal.
998
Jorge Pieiro
Os Abismos Horizontais de Sérgio Campos
Tempo e maturidade são fatores essenciais para consolidar as relações viscerais entre a poesia e o poeta. Convém esclarecer que essa afirmativa anula a concepção comum de tempo, enquanto representação dos movimentos do Universo. Concebido assim, sem as prisões estabelecidas pelo homem e seus métodos, mas como parcela íntima e individual, o tempo do poeta contraria a inevitável degeneração funcional e orgânica do ser humano. Dessa forma, permite elastecer a mirada dos horizontes e aprofundar a contemplação das esferas de vivência interior; já a maturidade, provável conseqüência dos escrutínios da vida, toma-se motivo condutor da experiência poética, estendida entre a realidade e o imaginário.
Com as cicatrizes marcando um rosto, um poeta busca luz ao beber o sol e as constelações, para assim delimitar suas pedras, suas veredas, suas margens e suas amplidões. É privilégio apenas de verdadeiros poetas estabelecer os contornos do infinito e do ínfimo pelo jogo e artifício das palavras com as quais lida.
Sem os alardes vazios de tantos poetas nacionais, apregoadores de falsas grandezas, um poeta buscou a eternidade nas palavras e, com elas, compôs um mundo manual, épico, abissal. Como se houvesse cumprido o rastro da sua luz, legou-nos espetáculos de aurora e crepúsculos um mundo sensível, belo e generoso de poesia. Embora já ausente o principal protagonista, a singularidade do poeta carioca Sérgio Campos (l941-1994), leva-me a reverenciar sua poesia pela leitura reunida de seus dez anos de escrutínio de palavras.
Mar Anterior (Mundo Manual Edições, 1994) foi a celebração e o registro apurado de sua poesia publicada. Selecionados e revistos, a obra reúne poemas desde A Casa do Elementos (CE), 1984, Passando por Bichos (B), 1985, Ciclo Amatório (CA), 1986, Montanhecer (M), 1987, Nativa Idade (NI), O Lobo e o Pastor (LP) e As Iras do Dia (ID), todos de 1990, Móbiles de Sal (MS), 1991, A Cúpula e o Rumor (CR), 1992, até Leitura de Cinzas (LC), 1993.
Mar Anterior é uma obra poética em dinâmico refluxo, que possibilita reconhecer a variedade de estratagemas no possível sal marinho de suas entranhas. Exala uma maresia provocada, não pelo agito das ondas de um tempo infelizmente contemporâneo ao que resta de valor sob a superfície desse nosso caosmos de todo dia, mas surgido de uma complacência com os valores arcaicos da mitologia pulsante na inconsciência de nossos cicios de sol e lua.
A um poeta que afirmou ter se fixado nas formas clássicas de poesia, também a ele foi exigida a absoluta modernidade de seu dassicismo, sob a ameaça de não ser compreendido pelos seus pares, e, principalmente, pelas castas dos cartesianos e positivistas de tocaia. Mas isso não importa tanto, pois para quem fazer uma arte arcaica assustou mais aos outros poetas que ao poder, cabe-me estender os olhos às suas poéticas como quem vai assumir uma postura irremediavelmente solene, livre porém dos artifícios burocráticos.
A ausência desses efeitos de repartição pública é reflexo, talvez, das declarações do poeta em várias situações e ocasiões, ao enunciar que a sua estética era basicamente a da repetição. Não escreveu Campos poemas semelhantes, mas os reescreveu elevando a escritura à enésima potência. Quis cumprir a teoria da repetição ao recriar as próprias versões de sua simplicidade harmônica. A prova precisa se dá nesses versos do soneto Apenas o que Dou não é Perdido (LP): "pois o que sei e fiz trouxe da ausência / e refazer é meu melhor inventa" (p. 51).
Em sua curta trajetória poética de 10 anos Sérgio Campos não foi apenas um transcriador dos mitos greco-latinos, mas um venturoso perseguidor da consciência, um viajante na idealidade imaginária que seguiu a trajetória da busca, como Odisseu, em seu Tecido de abismos (ID): sigo em busca de um ouro em que tudo se oculta (p. 36).
Mar Anterior é uma peça solene. Reúne poemas que se reafirmam formalmente em sonetos, odes ou formulações livres, enfeitados, contudo, dentro de uma perspectiva épica moderníssima, o que possibilita vislumbrar origens fragmentárias em suas extensões. A obra, com seus entes, espaços, vazios e suas plenitudes reunidos de forma sucinta, porém bastante impetuosa, sugere a intenção de Campos em construir sua poesia como se construísse abismos horizontais. A profundidade não é vertical; a perpendicularidade dos limites é que revela a sua própria extensão...
Fazendo um paralelo com as construções poéticas greco-latinas, premiadas pelo tempo e pela ousadia, ou com as procriações barrocas, Mar Anterior deixa-se revelar como um exemplar iceberg poético, onde as ruínas dos estilos aparentes ascendem do nível comum dos mortais, deixando submersas as raízes de sua profusão, para mesclar-se com as exigidas fagulhas da poesia mais contemporânea. Ora, não são das ruínas, ou dos encantados ossos que se constrói uma urbe perdida ou um ancestral?
Os poemas mais curtos de Sérgio Campos, na realidade pequenos tentáculos de um abismo mais extenso, são os que considero mais clássicos. Como constituem elos de um enunciado maior, (in)visível, sugerem a figura dos submersos icebergs. Veja-se o exemplo nessa Encantação dos Fios (MS): — "Ó Adriane / o que não se escreve para a beleza / resta sempre inacabada" (p. 31), ou em Lumina (CR): "Entre o que sucede / e intermedia / está a velocidade da flexa / contra a corrente // entre o significado e Delfos o âmbar da profecia // "Mas de inocência e perigo / a manhã faz seus ninhos" (p. 90).
Note-se que o caminho mitológico, nesses exemplos, são fragmentos de erudição diante da grandeza metafórica das nuanças do cotidiano, da incompletude eterna da beleza à possibilidade maniqueísta de como a manhã faz seus ninhos...
do sótão ao porão
Como não poderia deixar de figurar entre os elementos essenciais de uma poética, Sérgio Campos também definiu e deixou florescer elementos simbólicos em sua obra. Exemplo mais evidente dá-se com as construções em tomo da palavra ou do lugar-asilo, a casa. Com efeitos extremamente valiosos, Campos ativa sua motivação e atenção às notas de Gaston Bachelard, eminente fenomenólogo, em sua Poética do Espaço.
Nos poemas dedicados à casa, ruminações dos espaços íntimos, Campos imprimiu com precisão e sutileza a sua previdente solidão, por meio de um texto figurativo, sem ilusões. A exemplo de um eremita que devaneou com a audição de melodias provençais, o poeta revelou o segredo de suas imensidões marginais: acendeu a vela no porão e permitiu a luz do sótão... ou seja, revelou-se.
Em Ruínas Horizontais (MS), o poeta refletiu: "a casa / é seus arredores" (p. 11); "raptos de aromas / de crianças no quintal" (p. 13); "a casa / é seus crepúsculos" (p. 14); "a casa / é suas ruínas" (p. 16); "a casa / é seu corpo e viagem" (p. 17).
Numa evidente busca do passado, o poeta reviveu a ancestralidade de seu espaço e foi consumido por sua gênese. Pois a casa foi / é ainda "alvenaria de acasos", "vômito das clarabóias", "espantalho de rendas no colo das tias", e tantas outras dimensões sintagmáticas, que convergem para uma única compreensão da vida: "toda ruína é humana". A essência do cotidiano, que engole a memória e desatina a lembrança, é a própria fórmula da maravilha poética de Sérgio Campos.
As Ilhas da Casa (CR) projetam-se mais graves quanto às conclusões do poeta sobre seus arredores. Preso à sua sombra, o poeta admite que "memórias são sucessões / de espelhos aprisionados" (p. 94) para, em seguida, declarar de viva voz o seu desejo de regresso ao hiato que o separa do passado. Tendo, ora as visões de todas as janelas e corredores, ora de seus espaços imaginários, o poeta quer " — Deixar as portas abertas / para paixões circulares" (p. 97).
Com essas imagens e as visões das extremidades cíclicas do espaço, Campos reformulou as divagações de Gaston Bachelard, a respeito da poética e da solidão. Coube a ele revelar aq
Com as cicatrizes marcando um rosto, um poeta busca luz ao beber o sol e as constelações, para assim delimitar suas pedras, suas veredas, suas margens e suas amplidões. É privilégio apenas de verdadeiros poetas estabelecer os contornos do infinito e do ínfimo pelo jogo e artifício das palavras com as quais lida.
Sem os alardes vazios de tantos poetas nacionais, apregoadores de falsas grandezas, um poeta buscou a eternidade nas palavras e, com elas, compôs um mundo manual, épico, abissal. Como se houvesse cumprido o rastro da sua luz, legou-nos espetáculos de aurora e crepúsculos um mundo sensível, belo e generoso de poesia. Embora já ausente o principal protagonista, a singularidade do poeta carioca Sérgio Campos (l941-1994), leva-me a reverenciar sua poesia pela leitura reunida de seus dez anos de escrutínio de palavras.
Mar Anterior (Mundo Manual Edições, 1994) foi a celebração e o registro apurado de sua poesia publicada. Selecionados e revistos, a obra reúne poemas desde A Casa do Elementos (CE), 1984, Passando por Bichos (B), 1985, Ciclo Amatório (CA), 1986, Montanhecer (M), 1987, Nativa Idade (NI), O Lobo e o Pastor (LP) e As Iras do Dia (ID), todos de 1990, Móbiles de Sal (MS), 1991, A Cúpula e o Rumor (CR), 1992, até Leitura de Cinzas (LC), 1993.
Mar Anterior é uma obra poética em dinâmico refluxo, que possibilita reconhecer a variedade de estratagemas no possível sal marinho de suas entranhas. Exala uma maresia provocada, não pelo agito das ondas de um tempo infelizmente contemporâneo ao que resta de valor sob a superfície desse nosso caosmos de todo dia, mas surgido de uma complacência com os valores arcaicos da mitologia pulsante na inconsciência de nossos cicios de sol e lua.
A um poeta que afirmou ter se fixado nas formas clássicas de poesia, também a ele foi exigida a absoluta modernidade de seu dassicismo, sob a ameaça de não ser compreendido pelos seus pares, e, principalmente, pelas castas dos cartesianos e positivistas de tocaia. Mas isso não importa tanto, pois para quem fazer uma arte arcaica assustou mais aos outros poetas que ao poder, cabe-me estender os olhos às suas poéticas como quem vai assumir uma postura irremediavelmente solene, livre porém dos artifícios burocráticos.
A ausência desses efeitos de repartição pública é reflexo, talvez, das declarações do poeta em várias situações e ocasiões, ao enunciar que a sua estética era basicamente a da repetição. Não escreveu Campos poemas semelhantes, mas os reescreveu elevando a escritura à enésima potência. Quis cumprir a teoria da repetição ao recriar as próprias versões de sua simplicidade harmônica. A prova precisa se dá nesses versos do soneto Apenas o que Dou não é Perdido (LP): "pois o que sei e fiz trouxe da ausência / e refazer é meu melhor inventa" (p. 51).
Em sua curta trajetória poética de 10 anos Sérgio Campos não foi apenas um transcriador dos mitos greco-latinos, mas um venturoso perseguidor da consciência, um viajante na idealidade imaginária que seguiu a trajetória da busca, como Odisseu, em seu Tecido de abismos (ID): sigo em busca de um ouro em que tudo se oculta (p. 36).
Mar Anterior é uma peça solene. Reúne poemas que se reafirmam formalmente em sonetos, odes ou formulações livres, enfeitados, contudo, dentro de uma perspectiva épica moderníssima, o que possibilita vislumbrar origens fragmentárias em suas extensões. A obra, com seus entes, espaços, vazios e suas plenitudes reunidos de forma sucinta, porém bastante impetuosa, sugere a intenção de Campos em construir sua poesia como se construísse abismos horizontais. A profundidade não é vertical; a perpendicularidade dos limites é que revela a sua própria extensão...
Fazendo um paralelo com as construções poéticas greco-latinas, premiadas pelo tempo e pela ousadia, ou com as procriações barrocas, Mar Anterior deixa-se revelar como um exemplar iceberg poético, onde as ruínas dos estilos aparentes ascendem do nível comum dos mortais, deixando submersas as raízes de sua profusão, para mesclar-se com as exigidas fagulhas da poesia mais contemporânea. Ora, não são das ruínas, ou dos encantados ossos que se constrói uma urbe perdida ou um ancestral?
Os poemas mais curtos de Sérgio Campos, na realidade pequenos tentáculos de um abismo mais extenso, são os que considero mais clássicos. Como constituem elos de um enunciado maior, (in)visível, sugerem a figura dos submersos icebergs. Veja-se o exemplo nessa Encantação dos Fios (MS): — "Ó Adriane / o que não se escreve para a beleza / resta sempre inacabada" (p. 31), ou em Lumina (CR): "Entre o que sucede / e intermedia / está a velocidade da flexa / contra a corrente // entre o significado e Delfos o âmbar da profecia // "Mas de inocência e perigo / a manhã faz seus ninhos" (p. 90).
Note-se que o caminho mitológico, nesses exemplos, são fragmentos de erudição diante da grandeza metafórica das nuanças do cotidiano, da incompletude eterna da beleza à possibilidade maniqueísta de como a manhã faz seus ninhos...
do sótão ao porão
Como não poderia deixar de figurar entre os elementos essenciais de uma poética, Sérgio Campos também definiu e deixou florescer elementos simbólicos em sua obra. Exemplo mais evidente dá-se com as construções em tomo da palavra ou do lugar-asilo, a casa. Com efeitos extremamente valiosos, Campos ativa sua motivação e atenção às notas de Gaston Bachelard, eminente fenomenólogo, em sua Poética do Espaço.
Nos poemas dedicados à casa, ruminações dos espaços íntimos, Campos imprimiu com precisão e sutileza a sua previdente solidão, por meio de um texto figurativo, sem ilusões. A exemplo de um eremita que devaneou com a audição de melodias provençais, o poeta revelou o segredo de suas imensidões marginais: acendeu a vela no porão e permitiu a luz do sótão... ou seja, revelou-se.
Em Ruínas Horizontais (MS), o poeta refletiu: "a casa / é seus arredores" (p. 11); "raptos de aromas / de crianças no quintal" (p. 13); "a casa / é seus crepúsculos" (p. 14); "a casa / é suas ruínas" (p. 16); "a casa / é seu corpo e viagem" (p. 17).
Numa evidente busca do passado, o poeta reviveu a ancestralidade de seu espaço e foi consumido por sua gênese. Pois a casa foi / é ainda "alvenaria de acasos", "vômito das clarabóias", "espantalho de rendas no colo das tias", e tantas outras dimensões sintagmáticas, que convergem para uma única compreensão da vida: "toda ruína é humana". A essência do cotidiano, que engole a memória e desatina a lembrança, é a própria fórmula da maravilha poética de Sérgio Campos.
As Ilhas da Casa (CR) projetam-se mais graves quanto às conclusões do poeta sobre seus arredores. Preso à sua sombra, o poeta admite que "memórias são sucessões / de espelhos aprisionados" (p. 94) para, em seguida, declarar de viva voz o seu desejo de regresso ao hiato que o separa do passado. Tendo, ora as visões de todas as janelas e corredores, ora de seus espaços imaginários, o poeta quer " — Deixar as portas abertas / para paixões circulares" (p. 97).
Com essas imagens e as visões das extremidades cíclicas do espaço, Campos reformulou as divagações de Gaston Bachelard, a respeito da poética e da solidão. Coube a ele revelar aq
1 144
Carlos Drummond de Andrade
O Visitante Inábil
Café coado na hora,
adoçado a rapadura bem escura,
deve ser servido na tigela
de flores de três cores,
flores pegando fogo, de tão quente
deve ser o café pra ser café
oferecível.
Queimo os dedos, viram cacos
as cores das três flores,
molho a calça, queimo a perna,
me envergonho:
Este café tem plenas condições
de ser bebido com prazer e continência,
e não correspondi à etiqueta
de beber café pelando em casa alheia.
adoçado a rapadura bem escura,
deve ser servido na tigela
de flores de três cores,
flores pegando fogo, de tão quente
deve ser o café pra ser café
oferecível.
Queimo os dedos, viram cacos
as cores das três flores,
molho a calça, queimo a perna,
me envergonho:
Este café tem plenas condições
de ser bebido com prazer e continência,
e não correspondi à etiqueta
de beber café pelando em casa alheia.
1 186
Sophia de Mello Breyner Andresen
Casas
à Luiza Neto Jorge
Casas — casas roucas
Atentos muros — umbrais medidos e solenes
Quarto após quarto penumbra sequiosa
Tectos lentos
Como no espelho afloram
Lagos e magia: caminho
Submerso do possível
A paixão habita seu jogo mais secreto
Sua trágica e precisa
Perfeição
1987
Casas — casas roucas
Atentos muros — umbrais medidos e solenes
Quarto após quarto penumbra sequiosa
Tectos lentos
Como no espelho afloram
Lagos e magia: caminho
Submerso do possível
A paixão habita seu jogo mais secreto
Sua trágica e precisa
Perfeição
1987
2 021
Roberto Pontes
Ode à Cama
Então pode-se ouvir certo ruído
O doce farfalhar feito e desfeito
O cálido fluir do ser que é
Fundado sobre o cê e o verbo ama
A lânguida canção. Lida do leito.
Cama em que os filhos fiz
E onde virá baixar a morte
Lugar de amor, viagem, transe.
Oh! entre madeira, verniz e pano
Vai selada nossa vida e nossa sorte.
O doce farfalhar feito e desfeito
O cálido fluir do ser que é
Fundado sobre o cê e o verbo ama
A lânguida canção. Lida do leito.
Cama em que os filhos fiz
E onde virá baixar a morte
Lugar de amor, viagem, transe.
Oh! entre madeira, verniz e pano
Vai selada nossa vida e nossa sorte.
1 145
Sophia de Mello Breyner Andresen
Habitação
Muito antes do chalet
Antes do prédio
Antes mesmo da antiga
Casa bela e grave
Antes de solares palácios e castelos
No princípio
A casa foi sagrada —
Isto é habitada
Não só por homens e por vivos
Mas também pelos mortos e por deuses
Isso depois foi saqueado
Tudo foi reordenado e dividido
Caminhamos no trilho
De elaboradas percas
Porém a poesia permanece
Como se a divisão não tivesse acontecido
Permanece mesmo muito depois de varrido
O sussurro de tílias junto à casa de infância
Antes do prédio
Antes mesmo da antiga
Casa bela e grave
Antes de solares palácios e castelos
No princípio
A casa foi sagrada —
Isto é habitada
Não só por homens e por vivos
Mas também pelos mortos e por deuses
Isso depois foi saqueado
Tudo foi reordenado e dividido
Caminhamos no trilho
De elaboradas percas
Porém a poesia permanece
Como se a divisão não tivesse acontecido
Permanece mesmo muito depois de varrido
O sussurro de tílias junto à casa de infância
2 671
Carlos Drummond de Andrade
Vida Vidinha
A solteirona e seu pé de begônia
a solteirona e seu gato cinzento
a solteirona e seu bolo de amêndoas
a solteirona e sua renda de bilro
a solteirona e seu jornal de modas
a solteirona e seu livro de missa
a solteirona e seu armário fechado
a solteirona e sua janela
a solteirona e seu olhar vazio
a solteirona e seus bandós grisalhos
a solteirona e seu bandolim
a solteirona e seu noivo-retrato
a solteirona e seu tempo infinito
a solteirona e seu travesseiro
ardente, molhado
de soluços.
a solteirona e seu gato cinzento
a solteirona e seu bolo de amêndoas
a solteirona e sua renda de bilro
a solteirona e seu jornal de modas
a solteirona e seu livro de missa
a solteirona e seu armário fechado
a solteirona e sua janela
a solteirona e seu olhar vazio
a solteirona e seus bandós grisalhos
a solteirona e seu bandolim
a solteirona e seu noivo-retrato
a solteirona e seu tempo infinito
a solteirona e seu travesseiro
ardente, molhado
de soluços.
1 565
Carlos Drummond de Andrade
Visita À Casa de Tatá
A casa de Tatá é um silêncio perto da igreja.
Silêncio de lençóis engomados
para sua única pessoa.
A viuvez tão antiga que virou de nascença
derrama brancura em tudo.
O presépio de Tatá emerge de Belém como flor
cheirando a cânfora e alfazema.
Na ordem dos anjos e animais, a ordem estrita
de Deus.
O melhor da casa é a arca,
o melhor da arca, suspiros
feitos da brancura mesma de Tatá,
brancura surda.
Silêncio de lençóis engomados
para sua única pessoa.
A viuvez tão antiga que virou de nascença
derrama brancura em tudo.
O presépio de Tatá emerge de Belém como flor
cheirando a cânfora e alfazema.
Na ordem dos anjos e animais, a ordem estrita
de Deus.
O melhor da casa é a arca,
o melhor da arca, suspiros
feitos da brancura mesma de Tatá,
brancura surda.
1 323
Sophia de Mello Breyner Andresen
Vela
Em redor da luz
A casa sai da sombra
Intensamente atenta
Levemente espantada
Em redor da luz
A casa se concentra
Numa espera densa
E quase silabada
Em redor da chama
Que a menor brisa doma
E que um suspiro apaga
A casa fica muda
Enquanto a noite antiga
Imensa e exterior
Tece seus prodígios
E ordena seus milénios
De espaço e de silêncio
De treva e de esplendor
A casa sai da sombra
Intensamente atenta
Levemente espantada
Em redor da luz
A casa se concentra
Numa espera densa
E quase silabada
Em redor da chama
Que a menor brisa doma
E que um suspiro apaga
A casa fica muda
Enquanto a noite antiga
Imensa e exterior
Tece seus prodígios
E ordena seus milénios
De espaço e de silêncio
De treva e de esplendor
3 262
Mário Donizete Massari
Quadrante
casa
pirâmide embalsamada
de cimento e cal
guardas o segredo
—de viver ao relento
Solidão
Nas ruínas de um templo
Nos becos e labirintos
No coração dos ateus
imagem
— mora a solidão
Um rosto pálido
se reflete
nesse espelho
refletindo a minha
transfigurada imagem
— o tempo passou e eu
nem percebi
face
tece na face
a outra face
não a quente
nem ardente
— a face fria
pirâmide embalsamada
de cimento e cal
guardas o segredo
—de viver ao relento
Solidão
Nas ruínas de um templo
Nos becos e labirintos
No coração dos ateus
imagem
— mora a solidão
Um rosto pálido
se reflete
nesse espelho
refletindo a minha
transfigurada imagem
— o tempo passou e eu
nem percebi
face
tece na face
a outra face
não a quente
nem ardente
— a face fria
871
Sophia de Mello Breyner Andresen
Passam Os Carros E Fazem Tremer a Casa
Passam os carros e fazem tremer a casa
A casa em que estou só.
As coisas há muito já foram vividas:
Há no ar espaços extintos
A forma gravada em vazio
Das vozes e dos gestos que outrora aqui estavam.
E as minhas mãos não podem prender nada.
Porém eu olho para a noite
E preciso de cada folha.
Rola, gira no ar a tua vida,
Longe de mim…
Mesmo para sofrer este tormento de não ser
Preciso de estar só.
Antes a solidão de eternas partidas
De planos e perguntas,
De combates com o inextinguível
Peso de mortes e lamentações
Antes a solidão porque é completa.
Creio na nudez da minha vida.
Tudo quanto me acontece é dispensável.
Só tenho o sentimento suspenso de tudo
Com a eternidade a boiar sobre as montanhas.
Jardim, jardim perdido
Os nossos membros cercando a tua ausência…
As folhas dizem uma à outra o teu segredo,
E o meu amor é oculto como o medo.
A casa em que estou só.
As coisas há muito já foram vividas:
Há no ar espaços extintos
A forma gravada em vazio
Das vozes e dos gestos que outrora aqui estavam.
E as minhas mãos não podem prender nada.
Porém eu olho para a noite
E preciso de cada folha.
Rola, gira no ar a tua vida,
Longe de mim…
Mesmo para sofrer este tormento de não ser
Preciso de estar só.
Antes a solidão de eternas partidas
De planos e perguntas,
De combates com o inextinguível
Peso de mortes e lamentações
Antes a solidão porque é completa.
Creio na nudez da minha vida.
Tudo quanto me acontece é dispensável.
Só tenho o sentimento suspenso de tudo
Com a eternidade a boiar sobre as montanhas.
Jardim, jardim perdido
Os nossos membros cercando a tua ausência…
As folhas dizem uma à outra o teu segredo,
E o meu amor é oculto como o medo.
2 665
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ouve
Ouve:
Como tudo é tranquilo e dorme liso;
Claras as paredes, o chão brilha,
E pintados no vidro da janela
O céu, um campo verde, duas árvores.
Fecha os olhos e dorme no mais fundo
De tudo quanto nunca floresceu.
Não toques nada, não olhes, não te lembres
Qualquer passo
Faz estalar as mobílias aquecidas
Por tantos dias de sol inúteis e compridos
Não te lembres, nem esperes.
Não estás no interior dum fruto:
Aqui o tempo e o sol nada amadurecem.
Como tudo é tranquilo e dorme liso;
Claras as paredes, o chão brilha,
E pintados no vidro da janela
O céu, um campo verde, duas árvores.
Fecha os olhos e dorme no mais fundo
De tudo quanto nunca floresceu.
Não toques nada, não olhes, não te lembres
Qualquer passo
Faz estalar as mobílias aquecidas
Por tantos dias de sol inúteis e compridos
Não te lembres, nem esperes.
Não estás no interior dum fruto:
Aqui o tempo e o sol nada amadurecem.
2 049
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Palácio
Era um dos palácios do Minotauro
— O da minha infância para mim o primeiro —
Tinha sido construído no século passado (e pintado a vermelho)
Estátuas escadas veludo granito
Tílias o cercavam de música e murmúrio
Paixões e traições o inchavam de grito
Espelhos ante espelhos tudo aprofundavam
Seu pátio era interior era átrio
As suas varandas eram por dentro
Viradas para o centro
Em grandes vazios as vozes ecoavam
Era um dos palácios do Minotauro
O da minha infância — para mim o vermelho
Ali a magia como fogo ardia de Março a Fevereiro
A prata brilhava o vidro luzia
Tudo tilintava tudo estremecia
De noite e de dia
Era um dos palácios do Minotauro
— O da minha infância para mim o primeiro —
Ali o tumulto cego confundia
O escuro da noite e o brilho do dia
Ali era a fúria o clamor o não-dito
Ali o confuso onde tudo irrompia
Ali era o Kaos onde tudo nascia
— O da minha infância para mim o primeiro —
Tinha sido construído no século passado (e pintado a vermelho)
Estátuas escadas veludo granito
Tílias o cercavam de música e murmúrio
Paixões e traições o inchavam de grito
Espelhos ante espelhos tudo aprofundavam
Seu pátio era interior era átrio
As suas varandas eram por dentro
Viradas para o centro
Em grandes vazios as vozes ecoavam
Era um dos palácios do Minotauro
O da minha infância — para mim o vermelho
Ali a magia como fogo ardia de Março a Fevereiro
A prata brilhava o vidro luzia
Tudo tilintava tudo estremecia
De noite e de dia
Era um dos palácios do Minotauro
— O da minha infância para mim o primeiro —
Ali o tumulto cego confundia
O escuro da noite e o brilho do dia
Ali era a fúria o clamor o não-dito
Ali o confuso onde tudo irrompia
Ali era o Kaos onde tudo nascia
2 342
Sophia de Mello Breyner Andresen
Musa
Musa ensina-me o canto
Venerável e antigo
O canto para todos
Por todos entendido
Musa ensina-me o canto
O justo irmão das coisas
Incendiador da noite
E na tarde secreto
Musa ensina-me o canto
Em que eu mesma regresso
Sem demora e sem pressa
Tornada planta ou pedra
Ou tornada parede
Da casa primitiva
Ou tornada o murmúrio
Do mar que a cercava
(Eu me lembro do chão
De madeira lavada
E do seu perfume
Que me atravessava)
Musa ensina-me o canto
Onde o mar respira
Coberto de brilhos
Musa ensina-me o canto
Da janela quadrada
E do quarto branco
Que eu possa dizer como
A tarde ali tocava
Na mesa e na porta
No espelho e no copo
E como os rodeava
Pois o tempo me corta
O tempo me divide
O tempo me atravessa
E me separa viva
Do chão e da parede
Da casa primitiva
Musa ensina-me o canto
Venerável e antigo
Para prender o brilho
Dessa manhã polida
Que poisava na duna
Docemente os seus dedos
E caiava as paredes
Da casa limpa e branca
Musa ensina-me o canto
Que me corta a garganta
Venerável e antigo
O canto para todos
Por todos entendido
Musa ensina-me o canto
O justo irmão das coisas
Incendiador da noite
E na tarde secreto
Musa ensina-me o canto
Em que eu mesma regresso
Sem demora e sem pressa
Tornada planta ou pedra
Ou tornada parede
Da casa primitiva
Ou tornada o murmúrio
Do mar que a cercava
(Eu me lembro do chão
De madeira lavada
E do seu perfume
Que me atravessava)
Musa ensina-me o canto
Onde o mar respira
Coberto de brilhos
Musa ensina-me o canto
Da janela quadrada
E do quarto branco
Que eu possa dizer como
A tarde ali tocava
Na mesa e na porta
No espelho e no copo
E como os rodeava
Pois o tempo me corta
O tempo me divide
O tempo me atravessa
E me separa viva
Do chão e da parede
Da casa primitiva
Musa ensina-me o canto
Venerável e antigo
Para prender o brilho
Dessa manhã polida
Que poisava na duna
Docemente os seus dedos
E caiava as paredes
Da casa limpa e branca
Musa ensina-me o canto
Que me corta a garganta
2 224
Sophia de Mello Breyner Andresen
Meio da Vida
Porque as manhãs são rápidas e o seu sol quebrado
Porque o meio-dia
Em seu despido fulgor rodeia a terra
A casa compõe uma por uma as suas sombras
A casa prepara a tarde
Frutos e canções se multiplicam
Nua e aguda
A doçura da vida
Porque o meio-dia
Em seu despido fulgor rodeia a terra
A casa compõe uma por uma as suas sombras
A casa prepara a tarde
Frutos e canções se multiplicam
Nua e aguda
A doçura da vida
2 419
Sophia de Mello Breyner Andresen
Casa
A antiga casa que os ventos rodearam
Com suas noites de espanto e de prodígio
Onde os anjos vermelhos batalharam
A antiga casa de inverno em cujos vidros
Os ramos nus e negros se cruzaram
Sob o íman dum céu lunar e frio
Permanece presente como um reino
E atravessa meus sonhos como um rio
Com suas noites de espanto e de prodígio
Onde os anjos vermelhos batalharam
A antiga casa de inverno em cujos vidros
Os ramos nus e negros se cruzaram
Sob o íman dum céu lunar e frio
Permanece presente como um reino
E atravessa meus sonhos como um rio
3 865
Masako Akeho
Haicai
Casa de vespas
zunindo em círculos
palavras picantes
O morro iluminado
do barracão sem luz
choro de criança
zunindo em círculos
palavras picantes
O morro iluminado
do barracão sem luz
choro de criança
923