Poemas neste tema

Casa e Lar

Nuno Júdice

Nuno Júdice

A origem do mundo

De manhã, apanho as ervas do quintal. A terra,
ainda fresca, sai com as raízes; e mistura-se com
a névoa da madrugada. O mundo, então,
fica ao contrário: o céu, que não vejo, está
por baixo da terra; e as raízes sobem
numa direção invisível. De dentro
de casa, porém, um cheiro a café chama
por mim: como se alguém me dissesse
que é preciso acordar, uma segunda vez,
para que as raízes cresçam por dentro da
terra e a névoa, dissipando-se, deixe ver o azul
2 164
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Scarlet

fico feliz quando elas chegam
e feliz quando se vão

feliz quando escuto os saltos
se aproximando de minha porta
feliz quando esses saltos
se afastam

feliz por foder
feliz por me importar
feliz quando tudo termina

e
desde que as coisas ou estão
começando ou terminando
fico feliz
a maior parte do tempo

e os gatos caminham pra cima e pra baixo
e a terra gira em torno do sol
e o telefone toca:

“é a Scarlet”.

“quem?”

“Scarlet.”

“certo, pinta aí.”

e desligo pensando
talvez seja isso

entro
dou uma cagada rápida
me barbeio
me banho

me visto

ponho o lixo
e as caixas cheias de garrafas vazias
pra fora

me sento ao som dos
saltos se aproximando
parecendo mais a aproximação de um exército
do que o som da vitória

é Scarlet
e na minha cozinha a torneira
continua pingando
precisando de conserto.

cuidarei disso mais
tarde.
1 257
Martha Medeiros

Martha Medeiros

já que vim mesmo

já que vim mesmo
vamos aos finalmentes
pra começo de conversa
não me toque, acabou
não tinha nada a ver
e eu já tenho outro
doa a quem doer
não venha com essa cara de choro
você sabia que isso um dia
iria acontecer
eu não tenho muito tempo
só vim pegar minhas coisas
e saber de você
tô te achando mais magro
a casa tá meio suja
você tem se alimentado direito?
embora eu não me arrependa
ainda sinto saudades daqui
lembra daquele domingo
esquece, deixa pra lá
eu só vim te avisar
pra me deixar no meu canto
toca tua vida, vai fundo
eu vou me virando
engraçado
parece que você que tá indo
e eu que tô ficando
1 120
Martha Medeiros

Martha Medeiros

cozinha adentro entrei chorando

cozinha adentro entrei chorando
pia, panela, geladeira no canto
coentro, louro, noz moscada
desanimada fui fazer um molho branco
azeite, páprica, fermento
misturei lamento, sal e desespero
tempero, lágrima, pimenta
refoguei meu abandono em fogo brando
1 119
Ruy Belo

Ruy Belo

Quasi Flos

A morte é a verdade e a verdade é a morte

Tão contente de vento, ó folha que nomeio
como quem à passagem te colhesse,
palavra de que tu, ó árvore, dispões para vir até mim
do alto da tua inatingível condição

De muito longe vinda, inviável lembrança
indecisa nas mãos ou consentida
por alguma impossível infância
E a alegria é uma casa recém-construída

Face melhor de todos nós, ó folha
dos álamos nocturnos e antigos visitados pelo vento,
no calmo outono, o dos primeiros frios, sais
do ângulo dos olhos, acolhes-te ao poema
como no alto mês de maio a flor imóvel do jacarandá

Não há outro lugar para habitar
além dessa, talvez nem essa, época do ano
e uma casa é a coisa mais séria da vida



Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 73 | Editorial Presença Lda., 1984
1 521
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Volto À Casa de Helena

A casa de Helena é a casa de daqui a 20 anos,
de daqui a 50, ao incontável.
É uma casa pousada em nós, em nosso sangue.
Podemos torná-la real: o risco arquitetônico de Helena
fica estampado na consciência.
E, quando Helena se cala
na aparência mortal,
seu risco viçoso e alegre e delicado perdura,
lição de Helena Antipoff mineira universal.
1 418
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Casa do Mar

Esta é a casa na areia incerta e fresca.
Um rio a atravessa no coração dos nomes.
Quantas pedras sólidas, quantas arestas vivas!
Enlaço-te na frescura das folhas que estremecem.
Nas cavernas de sombras há um odor a chuva e vento.

Uma sílaba no silêncio, uma sílaba vermelha
como se o coração batesse no coração da noite.
Quantos rostos habitam uma só face imóvel,
quanta invenção de espuma nas bocas distraídas!
A minha pele grita o ardor de uma frase única.

Cada coisa cintila na pupila luminosa
abrindo em música o sítio do abandono.
As veias das pétalas são palavras minúsculas.
A sombra se conhece em redonda suavidade.
A escrita respira onde o mar principia.
1 054
Ai Qing

Ai Qing

Mensagem do Sol

Janelas, abri-vos!
Portas, abri-vos!
Deixai-me entrar, deixai-me entrar,
Deixai-me pôr os pés na vossa casa humilde.
Entro com ramos de flores douradas,
Entro com a fragrância fresca da floresta,
Entro com a luz e o calor,
Entro com o corpo molhado de orvalho.
Levantai-vos, depressa!
Erguei as cabeças da almofada,
Abri os olhos estremunhados,
Para presenciar a minha chegada.
Abre-me os corações, casa humilde, construída de tábuas.
Abre-me as janelas de há muito fechadas,
Deixa-me encher os teus corações de flores, fragrância, luz,
[calor e orvalho.
14 de Junho de 1942
.
.
.
1 137
Martha Medeiros

Martha Medeiros

habito um castelo que cabe

habito um castelo que cabe
na página dupla de uma revista semanal
não tem piscina nem árvores centenárias
mas tem eu cozinhando um espagueti
ele experimentando outro tempero
e nossa filha encantada nos provando
tem uma cortina que se abre
e deixa entrar o sol de fevereiro
tem um tapete que compramos outro dia
uma garagem entulhada de bagulhos
e nossa filha cantando no chuveiro
habitamos um castelo de verdade
que fica entre uma casa e uma igreja
não temos uma pia de granito
nem um lustre imitando os de Versailles
mas tem eu experimentando uma camisa
ele servindo outra fatia
e nossa filha alinhavando esse segredo
1 132
Martha Medeiros

Martha Medeiros

a primeira vez que partiu foi ao Uruguai

a primeira vez que partiu foi ao Uruguai
mas sentiu falta de um clima mais temperado
depois morou três anos em San Francisco
ainda era garoto e quase saiu de lá viciado
foi acolhido por uma holandesa sardenta
deixou em Roterdam um apartamento montado
tentou a vida na Áustria
mas sentiu-se pouco sofisticado
da temporada que passou em Estoril
herdou uma paixão doentia pelo fado
e de uma praia italiana chamada Alássio
todos lhe invejaram o bronzeado
trabalhou de porteiro num hotel em Marrocos
alguma coisa o deixou contrariado
se encantou por uma ilha da Grécia
na qual bem poderia ter ficado
apaixonou-se onze meses na Índia
fez um filho e por pouco não esteve casado
cada primeira vez que aportava
era como se houvesse voltado
cada novo lugar que descobria
havia um novo homem resgatado
quando já tinha setenta e poucos anos
nem tão jovem e já um pouco cansado
voltou para a casa onde nascera
finalmente havia chegado
1 088
Áurea de Arruda Féres

Áurea de Arruda Féres

Verão

Parece tarrafa
o teto do pescador
com a chuva de pedra!

Num vaso solitário
perfuma toda a sala
um único jasmin.

1 049
Martha Medeiros

Martha Medeiros

entrei no teu apartamento, aquele

entrei no teu apartamento, aquele
ambiente sombrio
cujos móveis herdaram a poeira, solitários
não saía água das torneiras, a luz estava
cortada
e as janelas imensas não davam pra nada


entrei no teu apartamento, aquele
pedaço tão frio
cujos restos de pizza vagavam no assoalho
cujas cortinas do quarto não tinham
mais cor
e o banheiro jazia silencioso no corredor


entrei no teu apartamento, aquele buraco
vazio
onde uma cama restara sem colcha
ou lençol
onde um tapete esfiapado dormia sob
o chão
e o espelho atrás da porta refletia
a escuridão
entrei no teu apartamento, aquele espaço
servil
onde fios desencapados pendiam do teto
a umidade escorria e alagava a parede
e a memória, cansada, balançava na rede
1 060
Gonzaga Leão

Gonzaga Leão

Soneto Um

No chão marcas de pés sujos de lama;
o alpendre para o sonho e para a rede;
janelas para a fuga; na parede
o salto do telhado; a noite e a cama

com destinos iguais para quem ama:
- água e fonte servindo `a mesma sede.
A casa em construção ainda, que de
de suor e barro se edifica, chama

para se completar, seus moradores.
Fumo de chaminé nos arredores
da noite terminada. E, no profundo

silêncio com que a vida se cobria,
um galo bate as asas e anuncia
a casa e a manhã dentro do mundo.

1 185
Gonzaga Leão

Gonzaga Leão

Soneto Dois

Não fosse de barro e presa
aos alicerces, então
não me seria surpresa
ver elevar-se do chão

como ave ou como avião
a casa em sua certeza
de cama, e de vinho e pão
sobrando em cima da mesa.

Sua certeza de azul
e de verde ao norte e sul
dos seus domínios. Pois não

sendo somente desnudo
muro, viga e telha, tudo
na casa é levitação.

1 135
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

ELEGY

On the marriage of my dear friend Mr. Jinks
(but which may with equal aptness be applied
to the marriage of many other gentlemen)

I

Ye nymphs whose beauties all your hills
                Adorn,
Embodied graces of the sun‑traced rills,
                Mourn;
For gentle Corydon henceforth,
In this hard world where all must pass,
Will feel as icy as the North.
                Alas!

II

        Ah, Corydon! Ah, Corydon!
        And hast thou left all happiness,
        Immoraled joy and whiskied liberty?
                Ah, Corydon!
        Great is our distress.
        And art thou no more free?
Bars shall be useless now. Alas! in vain
The music‑hall shall ring with voices known,
In vain the horse shall course the plain
        And the struck sparrer groan.
        And dogs and beasts and women,
        And brandy, gin and wine,
        And brutish brutes and human ­-
Oh, say, shall all these joys no more be thine?

lll

        Ah, frailness of mankind!
Thou who didst laugh at woman and didst hold
Thyself superior, now, alas! wilt find,
Amid thy waning joy and waning gold,
        Thou learnedst in a sorry school
        That taught thee to disdain
The seeming‑tender being whose dread rule
Shall now wreak on thee horrid pain.
        Too late now wilt thou learn, too late,
        When thy voice is low and humble thy gait,
        When thy soul is crushed and thy dress sedate,
The greatest of all ills the gods on humans rain.

IV

Ah, what avails all mourning? Thou art gone
From life and youth and gaudy loveliness,
From that deep rest that men call drunkenness.
        Ah, Corydon! Ah, Corydon!
        Thou the first hope of all our race
Hast left the blessed paths of peace and love.
        Ah, wilt thou be content to rove
From shop to shop with her, thy mother‑in‑law,
        Or tremble full to hear at night,
        With horror deep and deep affright.
The wordy torrent from thy spouse's jaw?

V

Oh, the troubles to come to thee can ever I dare name?
To work in the day, and at night to walk the bedroom's length,
On a seeming‑heavy baby to waste thy seeming‑waning strength,
And as the husband of thy wife to reach the light of fame.
Now my voice is broke with weeping, and mine eyes red, as with sand,
And my spirit worn with sighing, and with sighing worn my breast ­
Ah, farewell, that thou art gone now to the dreaded obscure land
Where the wicked cease from troubling and the weary never rest.
1 704
João Gulart de Souza Gomos

João Gulart de Souza Gomos

dia

encher d’água os pratos
e descobrir o óbulo
(há baratas!)
lavar a latrina e arrumar
almofadas no sofá
- costume dos antigos -
dor, rotina

videos, games
eletrônicos
barbitúricos coloridos
oligofônicos

tempos idos de filosofia
é noite é dia é noite
de manhã chovia

Goulart Gomes, Salvador, BA

752
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A tua janela é alta,

A tua janela é alta,
A tua casa branquinha.
Nada lhe sobra ou lhe falta
Se não morares sozinha.
1 335
Ruy Belo

Ruy Belo

A exegese de um sentimento

Estão os pássaros laboriosamente construindo
em meio deste dia as paredes de uma tarde antiga
Começa-lhes no bico aquela alegria
onde eu corria de canto para canto
e andava dentro dela de janela em janela

Que me trouxe de novo até à minha casa?

Podem calar-se os pássaros inúteis



Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 36 | Editorial Presença Lda., 1984
1 134
Ruy Belo

Ruy Belo

Homem de grandes dias

E a cal casa de cada qual

Tens as orelhas brancas
longa é a lança que dos olhos lanças
És tu e tens mistérios de mulher
ó breve ó longo
Faço percebes horas
Há muitos pés pela cidade
Oh [longo] és possível
elefante branco visto em África
E não há mais ninguém


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 123 | Editorial Presença Lda., 1984
1 030
Deborah Brennand

Deborah Brennand

Só Alguns Cravos

Nada sei de tílias e carvalhos
agapantos, tulipas, jasmins do Cairo.
Conheço bem urtiga, as locas, o mato
algemas de cipós, liana em laços.

Por sorte, só por sorte ainda guardo,
naquele pote a colônia macerada
— dói a alma, dói e não passa —
lembrando a timidez dos bredos
selvagens.

E, agora para enfeitar uma casa
alva casa entre gramas sem trato
vôo pousado, varanda em asas
eu escolhi, só alguns cravos.

Cravos sem sangue, mas... encarnados.

1 200
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

All my heart weeps for

All my heart weeps for
Is a cottage left
By some one before
Time into space crept,
A small cottage left
Near a silent shore.

There the constant waves
Murmur like vain rest.
There the soft raves
Like a soul possessed
Of rest that not saves.

There the shore‑winds breathe
Possibilities
Of less cares than wreathe
Round our lives their cries
From up and beneath.

Where that cottage is
Rests with wishing it.
Is therewhere is bliss?
No, nor does bliss fit
Into that strange place.

Why desire it then?
Ah, it's different
From the homes of men.
There perhaps are blent
Dreams and what we ken.

There at least alone,
Alone by the sea,
We shall cease to moan...
To moan need not be
Where we are alone...

These are words. Let sleep
Close our eyes to find
That small cottage, deep
In Farness. We are blind
And life is to weep.
1 511
Ruy Belo

Ruy Belo

Imaginatio locorum

Era uma vez talvez algum país de sinos
de sons entreouvidos no passado
constantemente renovado de quem morre cada dia
e forra de manhãs o interior dos olhos
pastor de escolhos vários entre os limos e os nimbos

Talvez ainda agora haja crianças
ou venha no inverno saudar-nos o verão
Talvez primeiros passos olhos limpos
escolas jogos coisas novamente novas haja ainda
Sob as pontes do Tibre a mesma água correrá talvez

Talvez na minha tarde tudo caiba ainda
chuva no olhar ou ave núbil sobre a rubra Babilónia
e suba no entulho a derrocada casa cedo percorrida
ou nasçam nas regueiras pela primavera outra vez as rãs
- ah! poder eu molhar os meus actuais pés pela primeira vez
Caíram as maçãs onde nupcial algum rosto ondulava
havia muita gente a proteger-me
e não tinha talvez chovido ainda
Talvez possa chorar à periferia a beira-mar da minha vida
talvez seja cantar o último recurso

Talvez eu espere o mês possível entre abril e maio
o calmo manto sobre a agitação dos homens
a ilha - ó cisne, ó ilha branca de bondade -
a hora-pérola o rosto inabordável mas familiar
frequentes braços sobre penas e cansaços
a voz não conhecida e afinal a prometida
contida numa pedra branca e sempre nova apesar de sem cessar a mesma

Talvez além dos montes haja a única cidade
a do inverno dos pinhais do vento
dos novelos de vida além das evidentes oliveiras
do fim definitivo de semana
de cada um dos dias esmagados contra a mais aguda esquina
das lágrimas das névoas ou do mar
(afinal pouco mais neste país eu quis cantar:
talvez nem mesmo o mar nem uns olhos ocasionais
- todos aqueles por onde tu não vais
nem jamais podes ir)

Talvez nos reste uma janela sobre a madrugada
cingindo o rosto aos mais distantes gestos
Acerquemo-nos mais: talvez possamos ser apenas um
num corpo só uma infância comum
Pela janela o sol e o comboio o sino e mesmo o cão
- nenhuma outra voz que não
a sua entre nós e a proibida aldeia
e os áditos de Deus e o coração da suspirada tarde
e o anónimo assobio perdido na azinhaga
com cheiros e com vozes e com passos de crianças
naquela inquietude que em si mesma se compraz

Como saber de mim? Eu - que diabo! -
apesar de estrangeiro atrás da face pelo tempo atribuída
e de enxertado em oliveira e zambujeiro
talvez ainda tenha algumas tias
Talvez eu reconquiste ainda a minha tão perdida aldeia
e vá colhendo espargos ao longo do muro
senhor de mim como quem sabe as horas certas e notando ingenuamente
como por ser domingo as coisas que se vêem são diferentes
É talvez esse o dia em que recolho os olhos
e molho de maresia a mais vazia dor da minha ausência
Como encontrar-me? É ver-me nesse ou noutro dia
debaixo do olhar da mais jovem mulher
que como um manto branco pelos dias se desdobra
em Patmos nessa aldeia ou naquela inesquecível cidadela
setenta vezes vista blasfemada e admirada
sempre deserta e sempre povoada
aonde vale a pena o pôr-do-sol
e a palavra é mais que nunca provisória

Não temos o direito à alegria nem talvez
ao próximo rumor do mar ditante
Nas margens do Halis talvez habite ainda
a esperança de que os deuses encham tudo
o cheiro do jornal a tragédia da música na rua
o coração fechado à primeira manhã
as tardes de novembro a dor de folha em folha

Talvez o persistente trigo esconda um pouco da verdade
Talvez seja de Deus o nosso tempo

E a alegria é uma casa demolida




Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 77 a 79 | Editorial Presença Lda., 1984
1 233
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Casa

A casa em si pousa e esquecendo doura
as vertentes da sombra e o seu sono move-se
entre ramagens antigas e o mundo arredonda-se
tão funda em si de ser só paciência obscura
de um astro que singra na solidão azul.

Quanto pensar de suaves arvoredos,
quanto timbre de ser o quanto vemos
e, crescendo a atenção, subir ao cimo
onde não há ninguém na alta e limpa
nudez de tudo ver na madurez violeta.

Estamos perto do fogo e na vigília
em que vem acima o que não é ainda
e imóvel cresce para dentro no silêncio
como um desejo que em si mesmo se completa
na virgindade acesa de uma casa tranquila.
1 079
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Desperta a Nudez

Desperta a nudez espalha-se o silêncio
e a nostalgia acende-se como uma sombra clara.
Tudo o que vemos é longe entre margens de sono.
Arde e repousa a casa numa frescura imensa.
Inclinam-se os campos à memória mais antiga.

É a ausência que sabe em transparência líquida
a ternura mais funda das águas esquecidas.
Que júbilo de lâmpadas, de ervas e de rodas
brancas nos caminhos, que frescura tão limpa!
A solidão levanta os ombros e carrega

os volumes vazios da agonia. Toda a substância
se aligeira e desnuda na espessura.
Ver é quase nascer e ver ondear o vento.
Há uma presença branca de uma nuvem esquecida.
Alto, uma linha de silêncio se ilumina.
1 076