Poemas neste tema
Beleza
Ricardo Gonçalves
Aquarela
A casa onde mora aquela
Menina cor de açucena,
É uma casinha pequena,
Casa de porta e janela.
Tão pequenina e singela!
Ao vê-la, a idéia me acena
De quebrar o bico à pena
E fazer uma aquarela.
Pintar a casa, a colina
Mas sobretudo a menina,
O ar sossegado e feliz,
Dando relevo à pintura,
Numa ridente moldura
De cravos e bogaris.
In: GONÇALVES, Ricardo. Ipês: versos. Pref. Monteiro Lobato. São Paulo: Monteiro Lobato, 1922
Menina cor de açucena,
É uma casinha pequena,
Casa de porta e janela.
Tão pequenina e singela!
Ao vê-la, a idéia me acena
De quebrar o bico à pena
E fazer uma aquarela.
Pintar a casa, a colina
Mas sobretudo a menina,
O ar sossegado e feliz,
Dando relevo à pintura,
Numa ridente moldura
De cravos e bogaris.
In: GONÇALVES, Ricardo. Ipês: versos. Pref. Monteiro Lobato. São Paulo: Monteiro Lobato, 1922
1 961
Emiliano Perneta
A Uma Desconhecida
Tua beleza é como essa tentação que passa,
Cujo encanto fugaz inda brilha e palpita,
Cheio de frutos bons, leve de aroma e graça,
De um aroma ideal, de uma graça esquisita.
Ainda ao tronco gentil o desejo estrelaça
As rosas do prazer e a doçura infinita;
Quanto, porém, a luz vai se tornando escassa...
Quanta folha caiu dessa árvore bendita!
Em te vendo passar, ó doce fim de outono,
Fechada na estamenha escura do abandono,
Como zéfiro fala ao ouvido da rosa!
Ah, pudesse eu falar-te, um dia, voluptuosa,
Sem palavras, assim como uma sombra estranha,
Como zéfiro fala ao ouvido da rosa!
Publicado no livro Setembro (1934).
In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est. crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
Cujo encanto fugaz inda brilha e palpita,
Cheio de frutos bons, leve de aroma e graça,
De um aroma ideal, de uma graça esquisita.
Ainda ao tronco gentil o desejo estrelaça
As rosas do prazer e a doçura infinita;
Quanto, porém, a luz vai se tornando escassa...
Quanta folha caiu dessa árvore bendita!
Em te vendo passar, ó doce fim de outono,
Fechada na estamenha escura do abandono,
Como zéfiro fala ao ouvido da rosa!
Ah, pudesse eu falar-te, um dia, voluptuosa,
Sem palavras, assim como uma sombra estranha,
Como zéfiro fala ao ouvido da rosa!
Publicado no livro Setembro (1934).
In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est. crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
2 301
Guilherme de Almeida
Cubismo
Um Arlequim feito de cubos
equilibrados:
trinta losangos arranjados
sobre dois tubos.
— Ele talvez
jogue xadrez...
No halo, que a lâmpada tranquila
rasga, de cima,
esse Arlequim de pantomima
oscila, oscila,
e vem... e vai...
e quase cai...
Mas entra alguém: é uma silhueta
que espia e passa.
Seu riso é um fruto sob a graça
da mosca preta
— É uma mulher
como qualquer...
Um gesto só lânguido e doce:
e, num instante,
Dom Arlequim, o petulante,
esfarelou-se...
— Todo Arlequim
é mesmo assim...
Publicado no livro Encantamento (1925). Poema integrante da série I - O Reino Encantado: Sugerir.
In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Livr. Martins, 1955. v.
equilibrados:
trinta losangos arranjados
sobre dois tubos.
— Ele talvez
jogue xadrez...
No halo, que a lâmpada tranquila
rasga, de cima,
esse Arlequim de pantomima
oscila, oscila,
e vem... e vai...
e quase cai...
Mas entra alguém: é uma silhueta
que espia e passa.
Seu riso é um fruto sob a graça
da mosca preta
— É uma mulher
como qualquer...
Um gesto só lânguido e doce:
e, num instante,
Dom Arlequim, o petulante,
esfarelou-se...
— Todo Arlequim
é mesmo assim...
Publicado no livro Encantamento (1925). Poema integrante da série I - O Reino Encantado: Sugerir.
In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Livr. Martins, 1955. v.
10 318
Amadeu Amaral
A um Adolescente
A Júlio Mesquita Filho
III
Basta crer na Beleza. Ama-a no Cosmos, fora
de ti, e ama-a em ti mesmo. É a suprema pesquisa!
Busca-a. E esculpe teu ser, juntando, hora por hora,
à mente que concebe o escopro que realiza.
Perguntas: — Onde o metro, a norma, a arte precisa
para rasgar no bloco a forma que se ignora?
— Quem ao leão deu o ardor com que os desertos pisa?
E quem à águia ensinou a ser do azul senhora?
Tens o instinto voador de quem nasceu com asa.
Ama o que é forte e puro, odeia o que é perverso,
o que é baixo, o que é vil, tudo que anda de rastros.
E põe-te em comunhão, no entusiasmo que abrasa,
com a Beleza, esplendor da Vida e do Universo,
com a poesia, os heróis, os abismos e os astros.
IV
Falta o preceito firme a que a ação se conforme?
Falta uma diretriz certa e definitiva?
— Quem a teve jamais? O bom ideal é informe,
e a Certeza, ai de nós! de todo o encanto o priva.
A torrente que corre e espadana, áurea e viva,
sem parar nem recuar no itinerário enorme,
busca um sonho que além, sob a névoa, se esquiva...
e ai! dela, se desvenda o sonho azul que dorme!
Sê tu como a caudal: foge ao remanso e ao charco.
A água pura é a que ferve e cintila entre abrolhos.
O miasma e o lodaçal moram nas águas mansas.
Avança, seja o sol resplandecente ou parco;
— e se a meta surgir, algum dia a teus olhos,
impele-a para além à proporção que avanças!
Publicado no livro Espumas: versos (1917).
In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.152-153. (Obras de Amadeu Amaral
III
Basta crer na Beleza. Ama-a no Cosmos, fora
de ti, e ama-a em ti mesmo. É a suprema pesquisa!
Busca-a. E esculpe teu ser, juntando, hora por hora,
à mente que concebe o escopro que realiza.
Perguntas: — Onde o metro, a norma, a arte precisa
para rasgar no bloco a forma que se ignora?
— Quem ao leão deu o ardor com que os desertos pisa?
E quem à águia ensinou a ser do azul senhora?
Tens o instinto voador de quem nasceu com asa.
Ama o que é forte e puro, odeia o que é perverso,
o que é baixo, o que é vil, tudo que anda de rastros.
E põe-te em comunhão, no entusiasmo que abrasa,
com a Beleza, esplendor da Vida e do Universo,
com a poesia, os heróis, os abismos e os astros.
IV
Falta o preceito firme a que a ação se conforme?
Falta uma diretriz certa e definitiva?
— Quem a teve jamais? O bom ideal é informe,
e a Certeza, ai de nós! de todo o encanto o priva.
A torrente que corre e espadana, áurea e viva,
sem parar nem recuar no itinerário enorme,
busca um sonho que além, sob a névoa, se esquiva...
e ai! dela, se desvenda o sonho azul que dorme!
Sê tu como a caudal: foge ao remanso e ao charco.
A água pura é a que ferve e cintila entre abrolhos.
O miasma e o lodaçal moram nas águas mansas.
Avança, seja o sol resplandecente ou parco;
— e se a meta surgir, algum dia a teus olhos,
impele-a para além à proporção que avanças!
Publicado no livro Espumas: versos (1917).
In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.152-153. (Obras de Amadeu Amaral
1 509
Regina Souza Vieira
NJINGA
Com três palavras granito
Componho o teu poema
Força de penedo
Vontade do silex
Diplomacia rochosa
Do teu reinado
Entre o sólido magma
Defendias sem sabê-lo
Um quadrado imenso
De águas diamantinas
Areias vivas dispersas
Abismos de petróleo ensolarado
E povos
Povos verdes de futuro
Um só azul o berço
Em teu robusto colo
Veludo negro
Mulher de pedra eterna.
Componho o teu poema
Força de penedo
Vontade do silex
Diplomacia rochosa
Do teu reinado
Entre o sólido magma
Defendias sem sabê-lo
Um quadrado imenso
De águas diamantinas
Areias vivas dispersas
Abismos de petróleo ensolarado
E povos
Povos verdes de futuro
Um só azul o berço
Em teu robusto colo
Veludo negro
Mulher de pedra eterna.
817
Almandrade
IV
O umbigo transborda
o éter
alva, lisa
sem marca
de cansaço
epiderme de mulher
o mar do nome
doce, leve
peixe
a dança refresca
o belo namora
a boca e as pernas.
o éter
alva, lisa
sem marca
de cansaço
epiderme de mulher
o mar do nome
doce, leve
peixe
a dança refresca
o belo namora
a boca e as pernas.
955
José Eduardo Mendes Camargo
No Mar
As gaivotas planam
Ao sabor do vácuo de um barco aventureiro.
O sol no horizonte
Penetra as entranhas das águas
E o céu, numa explosão de alegria,
Festeja em cores
Esta cópula divina da natureza.
Ao sabor do vácuo de um barco aventureiro.
O sol no horizonte
Penetra as entranhas das águas
E o céu, numa explosão de alegria,
Festeja em cores
Esta cópula divina da natureza.
925
José Eduardo Mendes Camargo
Você Chegou
Você chegou com esse seu jeito de menina moça,
corpo bonito, andar elegante
e gestos cheios de encanto.
Você chegou com um olhar de tristeza,
momentos de ausência e intensa presença
Você chegou com esse seu modo
franco, suave, espalhando e despertando
afeto e carinho.
Você chegou com esse seu cheiro gostoso,
pele macia e lábios carnosos de tanta volúpia.
Você chegou como que retomando de uma longa ausência
povoada das melhores lembranças.
corpo bonito, andar elegante
e gestos cheios de encanto.
Você chegou com um olhar de tristeza,
momentos de ausência e intensa presença
Você chegou com esse seu modo
franco, suave, espalhando e despertando
afeto e carinho.
Você chegou com esse seu cheiro gostoso,
pele macia e lábios carnosos de tanta volúpia.
Você chegou como que retomando de uma longa ausência
povoada das melhores lembranças.
767
Charles Bukowski
Rabos Quentes
na sexta à noite
as garotas mexicanas na quermesse católica
ficam especialmente atraentes
seus maridos estão nos bares
e as garotas mexicanas parecem jovens
os narizes aquilinos e os olhos fortes e cruéis
rabos quentes em jeans apertados
de algum modo tinham sido apanhadas,
seus maridos estão cansados de seus rabos quentes
e as jovens garotas mexicanas caminham com seus filhos,
há sofrimento verdadeiro em seus olhos fortes e cruéis,
enquanto elas se lembram das noites em que seus belos homens –
agora já há muito nada belos –
diziam-lhes coisas tão bonitas
coisas tão bonitas que elas jamais voltarão a ouvir,
e sob a lua e sob os lampejos das
luzes da quermesse
vejo tudo e me mantenho calado em luto por elas.
elas me veem olhar –
o bode velho está olhando para a gente
ele nos olha nos olhos;
elas riem umas para as outras, falam, se afastam juntas,
gargalham, me olham por sobre os ombros.
caminho até uma tenda
coloco uma moeda no número onze e ganho um bolo de chocolate
com 13 chupetas coloridas enfiadas na
cobertura.
isto é justo o bastante para um ex-católico
e um admirador dos quentes rabos mexicanos
e jovens e dignos de luto
e há tanto tempo abandonados.
as garotas mexicanas na quermesse católica
ficam especialmente atraentes
seus maridos estão nos bares
e as garotas mexicanas parecem jovens
os narizes aquilinos e os olhos fortes e cruéis
rabos quentes em jeans apertados
de algum modo tinham sido apanhadas,
seus maridos estão cansados de seus rabos quentes
e as jovens garotas mexicanas caminham com seus filhos,
há sofrimento verdadeiro em seus olhos fortes e cruéis,
enquanto elas se lembram das noites em que seus belos homens –
agora já há muito nada belos –
diziam-lhes coisas tão bonitas
coisas tão bonitas que elas jamais voltarão a ouvir,
e sob a lua e sob os lampejos das
luzes da quermesse
vejo tudo e me mantenho calado em luto por elas.
elas me veem olhar –
o bode velho está olhando para a gente
ele nos olha nos olhos;
elas riem umas para as outras, falam, se afastam juntas,
gargalham, me olham por sobre os ombros.
caminho até uma tenda
coloco uma moeda no número onze e ganho um bolo de chocolate
com 13 chupetas coloridas enfiadas na
cobertura.
isto é justo o bastante para um ex-católico
e um admirador dos quentes rabos mexicanos
e jovens e dignos de luto
e há tanto tempo abandonados.
1 009
Charles Bukowski
Qual a Função de Um Título?
eles não conseguem levar as coisas adiante
os belos morrem em chamas –
pílulas suicidas, veneno de rato, corda, o que quer
que seja...
eles cortam seus braços,
jogam-se das janelas,
arrancam seus olhos das órbitas,
rejeitam o amor
rejeitam o ódio
rejeitam, rejeitam.
eles não conseguem levar as coisas adiante
os belos não são capazes de resistir,
eles são as borboletas
eles são as pombas
eles são os pardais,
eles não conseguem levar as coisas adiante
uma rajada alta de chama
enquanto o velho joga damas no parque
uma chama, uma boa chama
enquanto o velho joga damas no parque
ao sol.
os belos são encontrados no canto de um quarto
encolhidos entre aranhas e agulhas e silêncio
e nós nunca poderemos entender por que se
foram, eles eram tão
belos.
eles não conseguem levar as coisas adiante
os belos morrem jovens
e deixam os feios entregues às suas feias vidas.
adoráveis e brilhantes: vida e suicídio e morte
enquanto o velho joga damas ao sol
no parque.
os belos morrem em chamas –
pílulas suicidas, veneno de rato, corda, o que quer
que seja...
eles cortam seus braços,
jogam-se das janelas,
arrancam seus olhos das órbitas,
rejeitam o amor
rejeitam o ódio
rejeitam, rejeitam.
eles não conseguem levar as coisas adiante
os belos não são capazes de resistir,
eles são as borboletas
eles são as pombas
eles são os pardais,
eles não conseguem levar as coisas adiante
uma rajada alta de chama
enquanto o velho joga damas no parque
uma chama, uma boa chama
enquanto o velho joga damas no parque
ao sol.
os belos são encontrados no canto de um quarto
encolhidos entre aranhas e agulhas e silêncio
e nós nunca poderemos entender por que se
foram, eles eram tão
belos.
eles não conseguem levar as coisas adiante
os belos morrem jovens
e deixam os feios entregues às suas feias vidas.
adoráveis e brilhantes: vida e suicídio e morte
enquanto o velho joga damas ao sol
no parque.
1 026
José Eduardo Mendes Camargo
Fada
Foste a fada que me fez
representar a plenitude de meu ser.
no charme de teu sorriso,
Me iluminaste o corpo.
Na transparência de teus olhos,
me despiste a alma.
Na suavidade de tua voz,
me hipnotizaste o espírito.
Na leveza de teus gestos,
me fascinaste os olhos.
Na beleza e sensualidade da mulher-fêmea,
me seduziste.
representar a plenitude de meu ser.
no charme de teu sorriso,
Me iluminaste o corpo.
Na transparência de teus olhos,
me despiste a alma.
Na suavidade de tua voz,
me hipnotizaste o espírito.
Na leveza de teus gestos,
me fascinaste os olhos.
Na beleza e sensualidade da mulher-fêmea,
me seduziste.
888
João Cardoso de Meneses e Silva
A Serra de Paranapiacaba
Dorme; repousa em teu sono,
Da força pujante emblema,
Que tens o oceano por trono
E as nuvens por diadema!
Imóvel, muda, imponente,
Entestas com a excelsa frente
Das águias o azul império;
E em vastíssimo cenário
Da tormenta o quadro vário
Contemplas do espaço etéreo.
Salve, soberbo gigante,
Altivo Titã do mar,
Que aos pés contínuo descante
Ouves a vaga entoar!
Em teu manto de esmeraldas
Envolves as vastas faldas
E as empinadas cimeiras;
E a brisa te agita os cachos
E os verdejantes penachos
Da coroa de palmeiras.
Teus troncos, gravados do selo do tempo,
Meneiam aos ventos as soltas madeixas;
Quais harpas eólias, sussurram nos ares
Canções jubilosas, ou ternas endeixas.
És berço do raio; troantes estrofes
Entoa em teus bosques a voz dos trovões
E os ecos das grotas fiéis, repercutem
O tom fragoroso de roucos tufões.
Do raio ao fuzil horrendo,
E ao crebro trovão, que estruge,
De pavor estremecendo,
A feroz pantera ruge
A sinfonia assombrosa
Une-se nota estrondosa,
Que do fundo abismo sai:
É o som da catarata,
Que em alvos flocos de prata
Num leito de pedras cai.
Que majestade sublime,
Que poesia inefável
O belo ideal se imprime
Nesse quadro incomparável.
Essa cascata da serra
Parece um hino, que a terra,
Espontânea, aos céus eleva!
Então, nossa alma se humilha,
E, ante tanta maravilha,
Em santo arroubo se enleva.
Metais preciosos e gemas em cópia
Ocultas, ó serra, nas lúgubres furnas;
Retalham teu solo torrentes sem conto,
Que o velho granito despeja das urnas.
Povoam-te as selvas e negras gargantas
Inúmeras feras e enormes reptis;
Aí cantam aves, que as cores do íris
Desdobram nas asas de vário matiz.
Escuros despenhadeiros,
Se escuta o surdo ribombo,
Que vai ressoando, a espaços;
É despegado rochedo,
Pelo eriçado fraguedo
A fazer-se em mil pedaços.
Ali, que azul dilatado
Se vai prender ao dos céus?
É o mar que, encapelado,
Ergue os móveis escarcéus.
Então a vista desmaia,
Na amplidão, que além se espraia,
A perder-se no infinito.
E esse imenso panorama
De Deus o nome proclama,
Da face da terra escrito.
Desenham-se, às vezes, arfando nas ondas,
As velas de um barco, do vento enfunadas,
Quais alvas gaivotas, que à flor do oceano,
Brincando, resvalam com as asas nevadas.
Dos topes aéreos, estreitos e golfos
Semelham regatos, talhando as campinas;
Quais pontos esparsos, desdobram-se aos olhos
As casas e torres, ilhéus e colinas.
De teu cimo, a luz vibrando,
O sol na esfera flutua,
E o clarão pálido e brando
Merencória, verte a lua.
Outro céu de anil cintila
Na superfície tranqüila
Do mar, ardendo em fulgor;
E a onda, que não vanzeia,
Vem morrer na branca areia,
Orlando-a de espuma em flor.
Quem sabe se o cataclismo,
Que puniu a humanidade,
Não te fez surgir do abismo
Das ondas na imensidade?
Quem sabe, altaneira serra,
Se és coetânea da terra,
E do berço oriental?
Quem sabe de quanta vida
Foste a suprema guarida
No dilúvio universal?
Plantou-te nos mares o braço divino,
Ingente montanha — barreira das ondas! —
Quem dera perder-me contigo nas nuvens,
Também devassando mistérios, que sondas!
Prodígios, que encerras, são cordas sonoras
De uma harpa celeste de excelsa harmonia,
Que os hinos, que exala, perene descansam
A glória do Eterno, de noite e de dia.
Da força pujante emblema,
Que tens o oceano por trono
E as nuvens por diadema!
Imóvel, muda, imponente,
Entestas com a excelsa frente
Das águias o azul império;
E em vastíssimo cenário
Da tormenta o quadro vário
Contemplas do espaço etéreo.
Salve, soberbo gigante,
Altivo Titã do mar,
Que aos pés contínuo descante
Ouves a vaga entoar!
Em teu manto de esmeraldas
Envolves as vastas faldas
E as empinadas cimeiras;
E a brisa te agita os cachos
E os verdejantes penachos
Da coroa de palmeiras.
Teus troncos, gravados do selo do tempo,
Meneiam aos ventos as soltas madeixas;
Quais harpas eólias, sussurram nos ares
Canções jubilosas, ou ternas endeixas.
És berço do raio; troantes estrofes
Entoa em teus bosques a voz dos trovões
E os ecos das grotas fiéis, repercutem
O tom fragoroso de roucos tufões.
Do raio ao fuzil horrendo,
E ao crebro trovão, que estruge,
De pavor estremecendo,
A feroz pantera ruge
A sinfonia assombrosa
Une-se nota estrondosa,
Que do fundo abismo sai:
É o som da catarata,
Que em alvos flocos de prata
Num leito de pedras cai.
Que majestade sublime,
Que poesia inefável
O belo ideal se imprime
Nesse quadro incomparável.
Essa cascata da serra
Parece um hino, que a terra,
Espontânea, aos céus eleva!
Então, nossa alma se humilha,
E, ante tanta maravilha,
Em santo arroubo se enleva.
Metais preciosos e gemas em cópia
Ocultas, ó serra, nas lúgubres furnas;
Retalham teu solo torrentes sem conto,
Que o velho granito despeja das urnas.
Povoam-te as selvas e negras gargantas
Inúmeras feras e enormes reptis;
Aí cantam aves, que as cores do íris
Desdobram nas asas de vário matiz.
Escuros despenhadeiros,
Se escuta o surdo ribombo,
Que vai ressoando, a espaços;
É despegado rochedo,
Pelo eriçado fraguedo
A fazer-se em mil pedaços.
Ali, que azul dilatado
Se vai prender ao dos céus?
É o mar que, encapelado,
Ergue os móveis escarcéus.
Então a vista desmaia,
Na amplidão, que além se espraia,
A perder-se no infinito.
E esse imenso panorama
De Deus o nome proclama,
Da face da terra escrito.
Desenham-se, às vezes, arfando nas ondas,
As velas de um barco, do vento enfunadas,
Quais alvas gaivotas, que à flor do oceano,
Brincando, resvalam com as asas nevadas.
Dos topes aéreos, estreitos e golfos
Semelham regatos, talhando as campinas;
Quais pontos esparsos, desdobram-se aos olhos
As casas e torres, ilhéus e colinas.
De teu cimo, a luz vibrando,
O sol na esfera flutua,
E o clarão pálido e brando
Merencória, verte a lua.
Outro céu de anil cintila
Na superfície tranqüila
Do mar, ardendo em fulgor;
E a onda, que não vanzeia,
Vem morrer na branca areia,
Orlando-a de espuma em flor.
Quem sabe se o cataclismo,
Que puniu a humanidade,
Não te fez surgir do abismo
Das ondas na imensidade?
Quem sabe, altaneira serra,
Se és coetânea da terra,
E do berço oriental?
Quem sabe de quanta vida
Foste a suprema guarida
No dilúvio universal?
Plantou-te nos mares o braço divino,
Ingente montanha — barreira das ondas! —
Quem dera perder-me contigo nas nuvens,
Também devassando mistérios, que sondas!
Prodígios, que encerras, são cordas sonoras
De uma harpa celeste de excelsa harmonia,
Que os hinos, que exala, perene descansam
A glória do Eterno, de noite e de dia.
1 583
José Eduardo Mendes Camargo
Encantamento
Fechei os olhos para me proteger
de tua presença sedutora,
Mas qual o quê, foi aí que me danei.
Surgiste evanescente, flutuando no horizonte, qual
estrela ascendente trazendo novas luzes ao firmamento.
O teu corpo tinha mais forma e graça
que a nuvem esculpida pelo vento.
Os teus olhos, mais ternura que as noites de lua cheia.
Então, vencido por este encantamento,
abri os olhos e me entreguei.
de tua presença sedutora,
Mas qual o quê, foi aí que me danei.
Surgiste evanescente, flutuando no horizonte, qual
estrela ascendente trazendo novas luzes ao firmamento.
O teu corpo tinha mais forma e graça
que a nuvem esculpida pelo vento.
Os teus olhos, mais ternura que as noites de lua cheia.
Então, vencido por este encantamento,
abri os olhos e me entreguei.
884
Cruz e Sousa
Mundo Inacessível
Tua alma
lembra um mundo inacessível
Onde só astros e águias vão pairando
Onde se escuta, trágica, cantando,
A sinfonia da amplidão terrível
Toda a alma que não seja alta e sensível
Que asas não tenha para as ir vibrando,
Nessa região secreta penetrando,
Falece, morre, dum pavor incrível!
É preciso ter asas e ter garras
Para atingir aos ruídos de fanfarras
Do mundo da tua alma augusta e forte.
É preciso subir ígneas montanhas
E emudecer entre visões estranhas,
Num sentimento mais sutil que a morte!
lembra um mundo inacessível
Onde só astros e águias vão pairando
Onde se escuta, trágica, cantando,
A sinfonia da amplidão terrível
Toda a alma que não seja alta e sensível
Que asas não tenha para as ir vibrando,
Nessa região secreta penetrando,
Falece, morre, dum pavor incrível!
É preciso ter asas e ter garras
Para atingir aos ruídos de fanfarras
Do mundo da tua alma augusta e forte.
É preciso subir ígneas montanhas
E emudecer entre visões estranhas,
Num sentimento mais sutil que a morte!
2 143
Charles Bukowski
Simples Assim
uma das mais lindas loiras do cinema
inacreditáveis seios quadris pernas cintura
tudo,
naquele acidente de carro
a cabeça dela instantaneamente arrancada do
corpo –
simples assim –
lá se foi a cabeça rolando pelo acostamento da
estrada,
batom nos lábios, sobrancelhas delineadas, pó bronzeador aplicado,
bandana nos cabelos, ela foi rolando
como uma bola de vôlei
e o corpo ficou sentado no carro
com aqueles seios quadris pernas cintura,
tudo,
e no necrotério eles juntaram a cabeça de novo,
costuraram a cabeça
de volta,
deus do céu, disse o cara com a linha,
que desperdício.
aí ele saiu e foi pedir um hambúrguer, batata frita
e 2 xícaras de café,
preto.
inacreditáveis seios quadris pernas cintura
tudo,
naquele acidente de carro
a cabeça dela instantaneamente arrancada do
corpo –
simples assim –
lá se foi a cabeça rolando pelo acostamento da
estrada,
batom nos lábios, sobrancelhas delineadas, pó bronzeador aplicado,
bandana nos cabelos, ela foi rolando
como uma bola de vôlei
e o corpo ficou sentado no carro
com aqueles seios quadris pernas cintura,
tudo,
e no necrotério eles juntaram a cabeça de novo,
costuraram a cabeça
de volta,
deus do céu, disse o cara com a linha,
que desperdício.
aí ele saiu e foi pedir um hambúrguer, batata frita
e 2 xícaras de café,
preto.
1 159
Cruz e Sousa
Humilde Secreta
Fico parado,
em êxtase suspenso,
Às vezes quando vou considerando
Na humildade simpática, no brando
Mistério simples do teu ser imenso.
Tudo o que aspiro, tudo quanto penso
De estrelas que andam dentro em mim cantando,
Ah! Tudo ao teu fenômeno vai dando
Um céu de azul mais carregado e denso.
De onde não sei tanta simplicidade
Tanta secreta e límpida humildade
Vem ao teu ser como os encantos raros.
Nos teus olhos tua alma transparece...
E de tal sorte que o bom Deus parece
Viver sonhando nos teus olhos claros.
em êxtase suspenso,
Às vezes quando vou considerando
Na humildade simpática, no brando
Mistério simples do teu ser imenso.
Tudo o que aspiro, tudo quanto penso
De estrelas que andam dentro em mim cantando,
Ah! Tudo ao teu fenômeno vai dando
Um céu de azul mais carregado e denso.
De onde não sei tanta simplicidade
Tanta secreta e límpida humildade
Vem ao teu ser como os encantos raros.
Nos teus olhos tua alma transparece...
E de tal sorte que o bom Deus parece
Viver sonhando nos teus olhos claros.
1 752
João Cabral de Melo Neto
Camarada diamante!
Não sou um diamante nato
nem consegui cristalizá-lo:
se ele te surge no que faço
será um diamante opaco
de quem por incapaz do vago
quer de toda forma evitá-lo,
senão com o melhor, o claro,
do diamante, com o impacto:
com a pedra, a aresta, com o aço
do diamante industrial, barato,
que incapaz de ser cristal raro
vale pelo que tem de cacto.
nem consegui cristalizá-lo:
se ele te surge no que faço
será um diamante opaco
de quem por incapaz do vago
quer de toda forma evitá-lo,
senão com o melhor, o claro,
do diamante, com o impacto:
com a pedra, a aresta, com o aço
do diamante industrial, barato,
que incapaz de ser cristal raro
vale pelo que tem de cacto.
4 055
Hemetério Cabrinha
Geminidade
Numa gôta de orvalho escassa, cintilante,
Há um mundo a rolar latente, palpitante
Em sua pequenez etérea, cristalina,
Que à luz do sol parece estrêla, diamantina;
Há um beijo de Deus para exaltar a vida...
E essa gôta do céu, na pétala caída,
Vivificando a planta e colorindo a flor,
Tem para a Natureza uma expansão de amor.
Assim também o pranto -- a lágrima tremente --
Como a gôta de orvalho, a derramar-se quente
De uns olhos cujo encanto a sobra da tristeza
Apagou, para dar emocional beleza
Que só a dor profunda esboça, plasma, imprime;
Traz em seu cintilar o que há de mais sublime
Nos refolhos sutís da alma desolada;
E num rosto ou num colo ebúrneo derramada,
Como o orvalho do céu, esplende em seu fulgor,
Um ósculo de Deus na exaltação da dor.
Há um mundo a rolar latente, palpitante
Em sua pequenez etérea, cristalina,
Que à luz do sol parece estrêla, diamantina;
Há um beijo de Deus para exaltar a vida...
E essa gôta do céu, na pétala caída,
Vivificando a planta e colorindo a flor,
Tem para a Natureza uma expansão de amor.
Assim também o pranto -- a lágrima tremente --
Como a gôta de orvalho, a derramar-se quente
De uns olhos cujo encanto a sobra da tristeza
Apagou, para dar emocional beleza
Que só a dor profunda esboça, plasma, imprime;
Traz em seu cintilar o que há de mais sublime
Nos refolhos sutís da alma desolada;
E num rosto ou num colo ebúrneo derramada,
Como o orvalho do céu, esplende em seu fulgor,
Um ósculo de Deus na exaltação da dor.
1 464
Charles Bukowski
Texsun
ela é do Texas e pesa
46 quilos
e fica parada diante do
espelho penteando fios e
mais fios de um cabelo avermelhado
que cai pelas
costas até a bunda.
o cabelo é mágico e dispara
faíscas e eu fico atirado na cama
e a observo penteando seu
cabelo. ela é como uma ninfa
de cinema mas ela está
realmente ali. fazemos amor
ao menos uma vez por dia e
ela consegue me fazer rir
com qualquer frase que decida
dizer. as mulheres do Texas sempre
foram absurdamente belas e
saudáveis, e além disso ela
limpou minha geladeira, minha pia,
o banheiro, e ela cozinha e me
serve comidas saudáveis
e lava os pratos ainda por
cima.
“Hank”, ela me disse,
segurando uma lata de suco de
toranja, “este é o melhor de
todos.”
a lata diz “Texsun – suco de toranja
rosa sem açúcar.”
ela tem o rosto que Katharine Hepburn
deve ter tido quando estava
na escola secundária, e eu olho aqueles
46 quilos
penteando quase um metro
de cintilante cabelo avermelhado
diante do espelho
e posso senti-la dentro dos meus
pulsos e atrás dos meus olhos,
e meus dedos dos pés e as pernas e a barriga
podem senti-la e
a outra parte também,
e Los Angeles toda desaba
e chora de alegria,
tremem as paredes dos salões do amor,
o mar vem com tudo e ela se vira
para mim e diz “que droga esse cabelo!”
e eu digo
“sim.”
46 quilos
e fica parada diante do
espelho penteando fios e
mais fios de um cabelo avermelhado
que cai pelas
costas até a bunda.
o cabelo é mágico e dispara
faíscas e eu fico atirado na cama
e a observo penteando seu
cabelo. ela é como uma ninfa
de cinema mas ela está
realmente ali. fazemos amor
ao menos uma vez por dia e
ela consegue me fazer rir
com qualquer frase que decida
dizer. as mulheres do Texas sempre
foram absurdamente belas e
saudáveis, e além disso ela
limpou minha geladeira, minha pia,
o banheiro, e ela cozinha e me
serve comidas saudáveis
e lava os pratos ainda por
cima.
“Hank”, ela me disse,
segurando uma lata de suco de
toranja, “este é o melhor de
todos.”
a lata diz “Texsun – suco de toranja
rosa sem açúcar.”
ela tem o rosto que Katharine Hepburn
deve ter tido quando estava
na escola secundária, e eu olho aqueles
46 quilos
penteando quase um metro
de cintilante cabelo avermelhado
diante do espelho
e posso senti-la dentro dos meus
pulsos e atrás dos meus olhos,
e meus dedos dos pés e as pernas e a barriga
podem senti-la e
a outra parte também,
e Los Angeles toda desaba
e chora de alegria,
tremem as paredes dos salões do amor,
o mar vem com tudo e ela se vira
para mim e diz “que droga esse cabelo!”
e eu digo
“sim.”
1 159
Humberto Silveira Fernandes
Protesto
Nas tardes do Alentejo que eu adoro,
nas campinas de pasto sem amanho,
o pastor ergue o seu cantar sonoro,
e vai seguindo atrás de seu rebanho.
Alguém chamou a um poeta estranho
(a fama não lhe invejo mas deploro)
rei das imagens — no sabor de antanho,
pastor de rimas — no vibrar sonoro.
Pois lendo embora as tuas obras-primas,
rei das imagens e pastor de rimas,
eu tenho sempre a firme convicção
de quanto vale mais esse pastor,
rei das campinas de silêncio e cor,
que tu, pobre pastor duma ilusão!
(Coimbra, 1927)
nas campinas de pasto sem amanho,
o pastor ergue o seu cantar sonoro,
e vai seguindo atrás de seu rebanho.
Alguém chamou a um poeta estranho
(a fama não lhe invejo mas deploro)
rei das imagens — no sabor de antanho,
pastor de rimas — no vibrar sonoro.
Pois lendo embora as tuas obras-primas,
rei das imagens e pastor de rimas,
eu tenho sempre a firme convicção
de quanto vale mais esse pastor,
rei das campinas de silêncio e cor,
que tu, pobre pastor duma ilusão!
(Coimbra, 1927)
939
Homero Prates
O Diamante
Ó divinos Heróis! que uma eterna auriflama
Atrai para o esplendor da noite merencória!
Este é o Inferno de luz que a vossa febre aclama
Em gritos de loucura e em gritos de vitória.
Nele, como num mar de luz fiava e ilusória,
Encheis a Taça de ouro... E o vosso olhar se inflama!
Bebei! que é o vosso sangue e esta é a divina chama
Da ara branca e imortal da Beleza e da Glória.
Ó agonia sublime! Ó jardim dos tormentos
Divinos! onde, ó Luz, nos meus olhos deliras,
Como uma águia ferida entre dois firmamentos!
Olha-os! Morrem cantando, ó Beleza, que passas!
E os Heróis, para os céus soerguendo as grandes liras,
Tombam num resplendor de flamas e de taças.
Atrai para o esplendor da noite merencória!
Este é o Inferno de luz que a vossa febre aclama
Em gritos de loucura e em gritos de vitória.
Nele, como num mar de luz fiava e ilusória,
Encheis a Taça de ouro... E o vosso olhar se inflama!
Bebei! que é o vosso sangue e esta é a divina chama
Da ara branca e imortal da Beleza e da Glória.
Ó agonia sublime! Ó jardim dos tormentos
Divinos! onde, ó Luz, nos meus olhos deliras,
Como uma águia ferida entre dois firmamentos!
Olha-os! Morrem cantando, ó Beleza, que passas!
E os Heróis, para os céus soerguendo as grandes liras,
Tombam num resplendor de flamas e de taças.
1 114
Jorge Carvalho
O Fogo
ascendem chamas... bailam labaredas!
Fato volúbil, estigma de glória!
Entre caminhos... trêmulas veredas!
Castiçais: candelabro destória.
Aflora centelha... lúcia chama!
Cíntilo brilho... ígneo fulgor!
Cálida se eleva... etérea flama!
Aquece, irradia ardente calor.
Enigmas! Fascinantes misticismos!
Aonde o segredo de tuas cinzas?
Só no espectro volátil que eterizas?
Sofismas! E múltiplos simbolismos!
Onde o mistério de tuas asas?
Sob as tépidas escarlates brasas?
Fato volúbil, estigma de glória!
Entre caminhos... trêmulas veredas!
Castiçais: candelabro destória.
Aflora centelha... lúcia chama!
Cíntilo brilho... ígneo fulgor!
Cálida se eleva... etérea flama!
Aquece, irradia ardente calor.
Enigmas! Fascinantes misticismos!
Aonde o segredo de tuas cinzas?
Só no espectro volátil que eterizas?
Sofismas! E múltiplos simbolismos!
Onde o mistério de tuas asas?
Sob as tépidas escarlates brasas?
651
João Garcia de Guilhade
Quer'eu, Amigas, o Mundo Loar
Quer'eu, amigas, o mundo loar
por quanto bem m'i Nostro Senhor fez;
fez-me fremosa e de mui bom prez,
ar faz-mi meu amigo muit'amar;
aqueste mundo x'est a melhor rem
das que Deus fez, a quem El i faz bem.
O paraíso bõo x'é, de pram,
ca o fez Deus, e nom dig'eu de nom,
mailos amigos que no mundo som
amigos muit[o] ambos lezer ham;
aqueste mundo x'est a melhor rem
das que Deus fez, a quem El i faz bem.
Querria-m'eu o paraís'haver
des que morresse, bem come quem quer,
mais, poila dona seu amig'hoer
e com el pode no mundo viver,
aqueste mundo x'est a melhor rem
das que Deus fez, a quem El i faz bem.
[E] quem aquesto nom tever por bem
[já] nunca lhi Deus dê en'ele rem.
por quanto bem m'i Nostro Senhor fez;
fez-me fremosa e de mui bom prez,
ar faz-mi meu amigo muit'amar;
aqueste mundo x'est a melhor rem
das que Deus fez, a quem El i faz bem.
O paraíso bõo x'é, de pram,
ca o fez Deus, e nom dig'eu de nom,
mailos amigos que no mundo som
amigos muit[o] ambos lezer ham;
aqueste mundo x'est a melhor rem
das que Deus fez, a quem El i faz bem.
Querria-m'eu o paraís'haver
des que morresse, bem come quem quer,
mais, poila dona seu amig'hoer
e com el pode no mundo viver,
aqueste mundo x'est a melhor rem
das que Deus fez, a quem El i faz bem.
[E] quem aquesto nom tever por bem
[já] nunca lhi Deus dê en'ele rem.
581
João Garcia de Guilhade
Vi Hoj'eu Donas Mui Bem Parecer
Vi hoj'eu donas mui bem parecer
e de mui bom prez e de mui bom sem,
e muit'amigas som de todo bem;
mais d'ũa moça vos quero dizer:
de parecer venceu quantas achou
ũa moça que x'agora chegou.
Cuidava-m'eu que nom haviam par
de parecer as donas que eu vi,
atam bem me pareciam ali;
mais, po[i]la moça filhou seu logar,
de parecer venceu quantas achou
ũa moça que x'agora chegou.
Que feramente as todas venceu
a mocelinha em pouca sazom!
De parecer todas vençudas som;
mais, poila moça ali pareceu,
de parecer venceu quantas achou
ũa moça que x'agora chegou.
e de mui bom prez e de mui bom sem,
e muit'amigas som de todo bem;
mais d'ũa moça vos quero dizer:
de parecer venceu quantas achou
ũa moça que x'agora chegou.
Cuidava-m'eu que nom haviam par
de parecer as donas que eu vi,
atam bem me pareciam ali;
mais, po[i]la moça filhou seu logar,
de parecer venceu quantas achou
ũa moça que x'agora chegou.
Que feramente as todas venceu
a mocelinha em pouca sazom!
De parecer todas vençudas som;
mais, poila moça ali pareceu,
de parecer venceu quantas achou
ũa moça que x'agora chegou.
541