Poemas neste tema
Beleza
Ruy Belo
Homeoptoto
Soubesse eu que me aceitas
Sentisse eu nos meus passos a firmeza que tem
nos seus a criança que vai para a escola
levada pelos olhos imensos da mãe
tivesse todo o meu ser a configuração
bastante pra caber na tua longa mão
e lá morrer essa mão onde todas as loucuras são
possíveis fosse a tua presença mais do que eu não ter
mais ninguém a meu lado
Não estivesse eu sujeito ao inverno que vem
mais carregado de memórias do que ninguém
E eu não procuraria este meu nome em vão
na folha que descreve o vento
nesta fronte onde vêm repousar as moscas
fronteira do meu pensamento
nas crianças de gestos decisivos
ou noutros pobres seres transitórios
(Nem tanta servidão precisaria para libertar
umas simples palavras do tempo)
Viesses tu beleza sempre antiga e sempre nova
encher aquela mão que abre
dentro de mim a inquietação
e a minha humilde prece tomaria a forma
do mais agudo ângulo das tuas duas mãos
onde toda a paisagem triangular termina
O teu silêncio ondularia menos que qualquer planície
tão pouco ambíguo como não sei que nuvem
Colhesses um por um os meus passos dispersos
achasses-me nos meus perdidos versos
e eu não repousaria nas ideias que estendo como mantas
nalgum pinhal à hora da sesta perto do mar
O teu lugar
seria sempre no côncavo do sonho
eu não me esqueceria
de agora ou logo ir-te lá buscar
E nestas tardes que sobre nós desdobras
passariam as dobras dos cuidados
Em nós quaisquer outonos morreriam
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 35 e 36 | Editorial Presença Lda., 1984
Sentisse eu nos meus passos a firmeza que tem
nos seus a criança que vai para a escola
levada pelos olhos imensos da mãe
tivesse todo o meu ser a configuração
bastante pra caber na tua longa mão
e lá morrer essa mão onde todas as loucuras são
possíveis fosse a tua presença mais do que eu não ter
mais ninguém a meu lado
Não estivesse eu sujeito ao inverno que vem
mais carregado de memórias do que ninguém
E eu não procuraria este meu nome em vão
na folha que descreve o vento
nesta fronte onde vêm repousar as moscas
fronteira do meu pensamento
nas crianças de gestos decisivos
ou noutros pobres seres transitórios
(Nem tanta servidão precisaria para libertar
umas simples palavras do tempo)
Viesses tu beleza sempre antiga e sempre nova
encher aquela mão que abre
dentro de mim a inquietação
e a minha humilde prece tomaria a forma
do mais agudo ângulo das tuas duas mãos
onde toda a paisagem triangular termina
O teu silêncio ondularia menos que qualquer planície
tão pouco ambíguo como não sei que nuvem
Colhesses um por um os meus passos dispersos
achasses-me nos meus perdidos versos
e eu não repousaria nas ideias que estendo como mantas
nalgum pinhal à hora da sesta perto do mar
O teu lugar
seria sempre no côncavo do sonho
eu não me esqueceria
de agora ou logo ir-te lá buscar
E nestas tardes que sobre nós desdobras
passariam as dobras dos cuidados
Em nós quaisquer outonos morreriam
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 35 e 36 | Editorial Presença Lda., 1984
1 218
Sandro Penna
Se passa uma beleza que se apressa
Se passa uma beleza que se apressa
não te ensombra a alma não tê-la estreitado.
Voltas o rosto para o verde ocaso.
Numa bicicleta passou a Beleza.
:
Se passa una bellezza che va in fretta
non hai l'anima nera, per non averla stretta.
Tu guardi al cielo verde nella prima
sera. Passata è la Bellezza in bicicletta.
de Croce e delizia (1958)
não te ensombra a alma não tê-la estreitado.
Voltas o rosto para o verde ocaso.
Numa bicicleta passou a Beleza.
:
Se passa una bellezza che va in fretta
non hai l'anima nera, per non averla stretta.
Tu guardi al cielo verde nella prima
sera. Passata è la Bellezza in bicicletta.
de Croce e delizia (1958)
854
Fernando Pessoa
Esse xaile que arranjaste,
Esse xaile que arranjaste,
Com que pareces mais alta
Dá ao teu corpo esse brio
Que à minha coragem falta.
Com que pareces mais alta
Dá ao teu corpo esse brio
Que à minha coragem falta.
1 412
Sandro Penna
Como é belo seguir-te
Como é belo seguir-te
ó jovem que ondeias
tranqüilo pelas ruas noturnas.
Se paras numa esquina, longe
eu pararei, longe
de tua paz, -- ó ardente
solidão a minha.
:
Come è bello seguirti
o giovine che ondeggi
calmo nella città notturna.
Si ti fermi in un angolo, lontano
io resterò, lontano
dalla tua pace, -- o ardente
solitudine mia
de Una strana gioia di vivere (1956)
ó jovem que ondeias
tranqüilo pelas ruas noturnas.
Se paras numa esquina, longe
eu pararei, longe
de tua paz, -- ó ardente
solidão a minha.
:
Come è bello seguirti
o giovine che ondeggi
calmo nella città notturna.
Si ti fermi in un angolo, lontano
io resterò, lontano
dalla tua pace, -- o ardente
solitudine mia
de Una strana gioia di vivere (1956)
801
Eduardo Guimaraens
Tudo que faz da carne um mistério inquietante
D'une beauté effrayante, presque
spectrale
THÉOPHILE GAUTIER
Tudo que faz da carne um mistério inquietante,
languescências, brancor de túmulos ao luar,
marfins de rosa murcha, inerte e singular,
tudo o seu corpo tem, de abandonada amante.
Nimba-lhe a fronte o horror. Quando emudece, o olhar
mostra a antiga tortura eterna e alucinante,
porque os seus olhos são dois tercetos de Dante
que Gustavo Doré deixou por ilustrar!
Do gesto vão, jamais de arremesso ou de assomo,
fez o esforço brutal que dá glória ao perigo;
atrai assim, contudo, a alma do sonhador,
magnífica, fatal e funerária como
hirta e nua, ao entrar de um cenotáfio antigo,
uma estátua da morte, um mármore de dor!
Publicado no livro A divina quimera (1916).
In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org. e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 1944
spectrale
THÉOPHILE GAUTIER
Tudo que faz da carne um mistério inquietante,
languescências, brancor de túmulos ao luar,
marfins de rosa murcha, inerte e singular,
tudo o seu corpo tem, de abandonada amante.
Nimba-lhe a fronte o horror. Quando emudece, o olhar
mostra a antiga tortura eterna e alucinante,
porque os seus olhos são dois tercetos de Dante
que Gustavo Doré deixou por ilustrar!
Do gesto vão, jamais de arremesso ou de assomo,
fez o esforço brutal que dá glória ao perigo;
atrai assim, contudo, a alma do sonhador,
magnífica, fatal e funerária como
hirta e nua, ao entrar de um cenotáfio antigo,
uma estátua da morte, um mármore de dor!
Publicado no livro A divina quimera (1916).
In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org. e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 1944
983
Adélia Prado
À Soleira
O que farei com este meu corpo inóspito
já que não respondes nem me abres a porta?
Tem pena de mim.
Não compreendo nada. Só Vos desejo
e meu desejo é como se eu miasse por Vós.
A florinha do mentrasto é tão sem galas
que minha carne se eriça, erotizada.
Existis, ó Deus, porque a beleza existe,
esta que vi primeiro com meus olhos mortais.
Parecerá blasfemo. Mas não chamam sagrado
o livro em que Jó fez imprimir suas dores,
amaldiçoando o dia do seu nascimento?
Por que não o meu, que o abençoo
e acho o degredo bom,
os penedos belos,
as poucas flores, dádivas?
já que não respondes nem me abres a porta?
Tem pena de mim.
Não compreendo nada. Só Vos desejo
e meu desejo é como se eu miasse por Vós.
A florinha do mentrasto é tão sem galas
que minha carne se eriça, erotizada.
Existis, ó Deus, porque a beleza existe,
esta que vi primeiro com meus olhos mortais.
Parecerá blasfemo. Mas não chamam sagrado
o livro em que Jó fez imprimir suas dores,
amaldiçoando o dia do seu nascimento?
Por que não o meu, que o abençoo
e acho o degredo bom,
os penedos belos,
as poucas flores, dádivas?
1 310
Eduardo Guimaraens
Aos Lustres
Suspensos, nos salões, dos tetos decorados,
que de arabescos orna o gesso alvinitente,
ó lustres de cristal, enganadoramente
ao mesmo tempo sois sonoros e calados.
Pesados, dais no entanto às pompas do ambiente,
onde há ricos painéis entre florões dourados,
a mais aérea graça; e o os olhos deslumbrados
sentem que os cega o vosso encanto reluzente.
Que o silêncio ao redor guarde a fragilidade
translúcida que sois: e ouçam-se quase a medo
os rumores quaisquer que em torno a voz se formem!
Toquem-vos docemente a sombra, a claridade...
Nem se turbe jamais, ó lustres, o segredo
das vibrações que em vós musicalmente dormem!
Publicado no Jornal da Manhã (Porto Alegre, 1908).
In: MURICY, Andrade. Panorama do movimento simbolista brasileiro. 3.ed. rev. e ampl. São Paulo: Perspectiva, 1987. v.2, p.1058
que de arabescos orna o gesso alvinitente,
ó lustres de cristal, enganadoramente
ao mesmo tempo sois sonoros e calados.
Pesados, dais no entanto às pompas do ambiente,
onde há ricos painéis entre florões dourados,
a mais aérea graça; e o os olhos deslumbrados
sentem que os cega o vosso encanto reluzente.
Que o silêncio ao redor guarde a fragilidade
translúcida que sois: e ouçam-se quase a medo
os rumores quaisquer que em torno a voz se formem!
Toquem-vos docemente a sombra, a claridade...
Nem se turbe jamais, ó lustres, o segredo
das vibrações que em vós musicalmente dormem!
Publicado no Jornal da Manhã (Porto Alegre, 1908).
In: MURICY, Andrade. Panorama do movimento simbolista brasileiro. 3.ed. rev. e ampl. São Paulo: Perspectiva, 1987. v.2, p.1058
2 116
Alphonsus de Guimaraens
O Lago de Tai-Hu
(Poesia chinesa de Yang-Pi)
Uma após outra (os ares são tranqüilos)
As gôndolas deslizam suavemente.
O espaço cortam sons de flauta... e a gente
Tem o ouvido encantado só de ouvi-los.
Oh Lago de Tai-Hu! Poente vermelho...
O vento morre em calmaria e o undoso
Céu, repleto de azul, vem luminoso
Refletir-se no movediço espelho.
Publicado no livro Poesias (1938). Segundo João Alphonsus, tradução de poema que se encontra como parte inicial da terceira novela, Mariage Forcé, em Trois Nouvelles Chinoises traduites pour la première fois par le Marquis D’Hervev-Saint-Denis (1885).
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 199. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
Uma após outra (os ares são tranqüilos)
As gôndolas deslizam suavemente.
O espaço cortam sons de flauta... e a gente
Tem o ouvido encantado só de ouvi-los.
Oh Lago de Tai-Hu! Poente vermelho...
O vento morre em calmaria e o undoso
Céu, repleto de azul, vem luminoso
Refletir-se no movediço espelho.
Publicado no livro Poesias (1938). Segundo João Alphonsus, tradução de poema que se encontra como parte inicial da terceira novela, Mariage Forcé, em Trois Nouvelles Chinoises traduites pour la première fois par le Marquis D’Hervev-Saint-Denis (1885).
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 199. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
2 490
Sandro Penna
Existe ainda no mundo a beleza?
Existe ainda no mundo a beleza?
Não estou falando de feições divinas.
Mas do ébrio jovem que esperando o trem
com os olhos no infinito devaneia
:
Esiste ancora al mondo la bellezza?
Oh non intendo i lineamenti fini.
Ma alla stazione carico di ebbrezza
il giovane con gli occhi ai suoi lontani lidi.
de Il viaggiatore insonne (1977)
Não estou falando de feições divinas.
Mas do ébrio jovem que esperando o trem
com os olhos no infinito devaneia
:
Esiste ancora al mondo la bellezza?
Oh non intendo i lineamenti fini.
Ma alla stazione carico di ebbrezza
il giovane con gli occhi ai suoi lontani lidi.
de Il viaggiatore insonne (1977)
974
Adélia Prado
Viação São Cristóvão
Não quero morrer nunca,
porque temo perder o que desta janela
se desdobra em tesouros.
É Bar Barranco? Bar Barroso? Bar Barroco?
Em frente à estação do trem
a agropecuária explica-se:
é de Carmo da Mata.
Fica meio inventado
pegar com um nome a medula das coisas,
porque o ônibus para,
mas a vida não,
porque a vida sois Vós, Inominável!
Meu marido gosta muito de sexo,
mas é também um esposo
capaz de abstinências prolongadas.
O morador se esmera em seu jardim,
com um ódio tão profundo
que parece inocente,
guilhotina o vizinho da reluzente janela.
Estais comovido?
Uma hora e meia de viagem
e a vida é boa que dói.
Os pastos estão bem secos,
mas continuam imbatíveis
no seu poder de me remeterem...
A Vós? À infância?
À Pátria, ao Reino do Céu.
Que posso fazer? Isto é um poema.
Sinto muita fome, quero uma missa aqui.
Os trabalhadores acenam com o polegar para cima,
fica tudo ainda mais tranquilo.
Terei adormecido?
Cochilar é tão feio.
Me fez muito feliz o cientista:
“beleza é energia”.
Sabia sem o saber,
vai me ajudar bastante.
O ônibus parou de novo.
Os tratores escavam,
a terra cada vez mais pura.
Derrubam algumas árvores,
mas ecologia tem hora.
Que força tem um trator!
Engraçado ele arremessando a árvore,
todo mundo parado, olhando.
É bom ver homem no pesado
e mulher vigiando menino,
a instrução reservada ao padre.
Estou como quando jovem,
a inteligência muito ignorante.
Pode ser que o ônibus demore,
não ligo, não tem importância,
já fui, já voltei e, além do mais,
não quero sair daqui.
porque temo perder o que desta janela
se desdobra em tesouros.
É Bar Barranco? Bar Barroso? Bar Barroco?
Em frente à estação do trem
a agropecuária explica-se:
é de Carmo da Mata.
Fica meio inventado
pegar com um nome a medula das coisas,
porque o ônibus para,
mas a vida não,
porque a vida sois Vós, Inominável!
Meu marido gosta muito de sexo,
mas é também um esposo
capaz de abstinências prolongadas.
O morador se esmera em seu jardim,
com um ódio tão profundo
que parece inocente,
guilhotina o vizinho da reluzente janela.
Estais comovido?
Uma hora e meia de viagem
e a vida é boa que dói.
Os pastos estão bem secos,
mas continuam imbatíveis
no seu poder de me remeterem...
A Vós? À infância?
À Pátria, ao Reino do Céu.
Que posso fazer? Isto é um poema.
Sinto muita fome, quero uma missa aqui.
Os trabalhadores acenam com o polegar para cima,
fica tudo ainda mais tranquilo.
Terei adormecido?
Cochilar é tão feio.
Me fez muito feliz o cientista:
“beleza é energia”.
Sabia sem o saber,
vai me ajudar bastante.
O ônibus parou de novo.
Os tratores escavam,
a terra cada vez mais pura.
Derrubam algumas árvores,
mas ecologia tem hora.
Que força tem um trator!
Engraçado ele arremessando a árvore,
todo mundo parado, olhando.
É bom ver homem no pesado
e mulher vigiando menino,
a instrução reservada ao padre.
Estou como quando jovem,
a inteligência muito ignorante.
Pode ser que o ônibus demore,
não ligo, não tem importância,
já fui, já voltei e, além do mais,
não quero sair daqui.
1 452
Bertran de Born
30
1
Eu quero a primavera, o ardor
que folhas traz e faz florir;
e quero escutar o estentor
das aves, quando retinir
seu canto na ramagem;
e quero ver ainda mais
no prado as tendas colossais;
e acho uma bela imagem,
se vejo armados entre iguais
os cavaleiros e os metais.
2
Adoro quando o explorador
atiça o povo p"ra fugir,
e adoro ver em tal clamor
os homens d"arma a perseguir,
e adoro ter miragem
do forte em cercos marciais,
ou das muralhas terminais,
e as hostes noutra margem
que passam a fossa voraz
e uma paliçada por trás.
3
Também adoro se o senhor
for o primeiro a invadir
montado, armado, sem temor,
que assim nos outros faz surgir
valente vassalagem.
Se a batalha se refaz,
prepare-se cada rapaz
para a longa viagem:
ninguém é louvado jamais -
somente entre golpes mortais.
4
Maças, gládios, elmos de cor
e escudos logo a se partir
veremos, e até o sol se por
vassalos iremos ferir,
fugirão sem fardagem,
co"odono morto, os animais.
Ena batalha, o homem vivaz
só pense na carnagem
e em degolar todos os mais,
pois antes morto que incapaz.
5
Ah, para mim não há sabor
em comer, beber, ou dormir,
igual ao de ouvir o clamor
de duas linhas e o zunir
dos corcéis na pilhagem
e homens gritando "Atrás! Atrás!"
e vê-los na fossa voraz,
junto ao rés da relvagem,
e ver as flâmulas fatais
varando o arnês que se desfaz.
6
O Amor quer bom cavalgador
que ame as armas e o servir,
gentil na fala, grão doador,
que saiba o que dizer e agir,
em qualquer estalagem,
pelo poder de que é capaz.
Um companheiro como apraz,
cortês em sua linguagem.
A dama que acaso o compraz
não tem pecados cardeais.
7
Ó grã condessa, és a melhor
(todos estão a repetir),
e tua nobreza é a maior
do mundo, pelo que eu ouvi.
Beatriz de alta linhagem,
senhora no que diz e faz
ó fonte do bem mais primaz,
belíssima ancoragem:
o teu valor é tão veraz,
que sobre todas sobressais.
8
Virgem de alta linhagem
e da beleza mais tenaz,
amado eu amo forte e audaz:
ela me dá coragem -
não temo a perda que me traz
nem mesmo o pulha mais mendaz.
9
Barões, é mais vantagem
hipotecar vossos currais
do que se a guerra renegais.
10
Papiol, eis a viagem,
ao Senhor Sim-e-Não irás
dizer que muito estão em paz
294
Sosigenes Costa
A Cabeleira da Musa
No teu cabelo há tardes outonais
amarelando o rio e os arvoredos.
Há cidades de mármores e rochedos
de açúcar-candi, bronzes e cristais.
No teu cabelo rútilo há milhões
de abelhas roxas fabricando favos
para o mel que roubam dos craveiros bravos
dos jardins levantinos de anões.
No teu cabelo há trêmulos trigais
de espigas fulvas e há gentis vinhedos
que molhas de perfume com teus dedos
com trinta anéis de pérola ovais.
No teu cabelo se abrem dos pavões
as estreladas caudas, dentre as rosas.
E brilham nela as pedras preciosas:
rubis, safiras, sárdios, cabuchões.
Nele há brondões, revérberos, fanais.
Pois isso atrai cornígeros besouros.
Por isso pombas e canários louros,
sempre de noite, feiticeira atrai.
No teu cabelo há reinos de sultões.
Teu cabelo relumbra como uns matos
cheio de olhos fosfóricos de gatos
e de escamas de fogo dos dragões.
Na tua cabeleira há catedrais.
No teu cabelo rola e ferve estranha
cascata de falerno e de champanha
por entre alabastrinos jasminais.
No teu cabelo vive uma serpente
que descasca por hora uma imponente
pele conteúdo bíblica signais.
No teu divino e esplêndido cabelo
rugem tigres de azul-celeste pêlo
e de unhas de ouro, lúcidas, fatais.
No teu cabelo. Musa Helena e saiba,
queimam-se incenso e nardo azul da Arábia
e outras sortes e espécies aromais.
No teu cabelo há um céu com muitas luas
iluminando cem mulheres nuas
que se banham num lago entre juncais.
No teu cabelo há sílfides e bruxos
dançando dentro dos jorros de repuxos
e há templos de âmbar louro e há muito mais:
Há globos de ouro e estames de açucenas
e cem faisões de prateadas penas,
- Filha do sol, princesa dos corais!
985
Felipe d’Oliveira
Cenário de Louça e de Cristal
A onda e a algazarra espocam girândolas sonoras.
As serpentinas dos risos sem compasso
se arremessam de lado a lado,
estendem no azul redes aéreas de rumores eufóricos.
A onda bate a cadência no seu gongo líquido,
— fermata sem fim, pasta melódica em que
se fundem e se amaciam
todas as notas do alarido.
A manhã ressoa,
o mar redondo é todo um copo de cristal
vibrado pelo atrito de dedos luminosos.
A manhã põe brunidos de faiança
no mosaico desmanchado sobre a areia.
As tintas se interpenetram, móveis,
— puzzle vivo que a vaga empurra e espalha —
e as cores correm, chocam-se, repelem-se,
como uma grande bola de mercúrio
desagregada em gotas coloridas.
O arlequim da manhã, caindo do alto,
desarticulou os pedaços da roupa policrômica
e foi esmaltar os "tóraces" e os ventres
com o arco-íris decomposto dos losangos.
Os corpos úmidos deslocam-se,
brilham no fundo de porcelana que o azul
espesso enxuga.
Elásticos, libertos,
os corpos úmidos desenham ritmos instintivos
e mergulhados no sol,
que os alivia de um peso igual a seu
volume em luz compacta,
ainda guardam a leveza dos movimentos na água.
A manhã progride em tons,
transborda de roxos, verdes, escarlates.
Abrem-se umbelíferas gigantéias de novos guarda-sóis.
Outros ombros irrompem de novas capas
pintalgadas, — vitrais de pano,
corrediços, baixados sobre a areia.
E o homem dos balões de borracha cai da altura
pendurado a um pára-quedas de esferas multicores
que, agitadas às pontas dos barbantes,
sacolejam no ar a flor desmanchada de
um fogo de artifício em pleno dia.
Os corpos úmidos desenrolam
a ronda dos troncos harmoniosos,
dos seios em ponta,
das espáduas queimadas,
das coxas lisas,
buscam-se, penetram-se à distância,
atropelam-se nas fugas ágeis,
sem perceber o rapaz corcunda de maiô preto,
amargo e imóvel,
recurvo, arqueado em G maiúsculo,
que pensa, triste, a olhar de longe o atleta
de camisa verde:
— Se o mundo fosse de corcundas
eu de certo teria nascido como ele...
E a manhã continua,
sacudindo cores
como uma arara que se espluma.
Publicado no livro Lanterna Verde (1926). Poema integrante da série Cenários.
In: D'OLIVEIRA, Felippe. Obra completa. Atual. e org. Lígia Militz da Costa, Maria Eunice Moreira e Pedro Brum Santos. Porto Alegre: IEL; Santa Maria: UFSM, 1990. p.69-70
As serpentinas dos risos sem compasso
se arremessam de lado a lado,
estendem no azul redes aéreas de rumores eufóricos.
A onda bate a cadência no seu gongo líquido,
— fermata sem fim, pasta melódica em que
se fundem e se amaciam
todas as notas do alarido.
A manhã ressoa,
o mar redondo é todo um copo de cristal
vibrado pelo atrito de dedos luminosos.
A manhã põe brunidos de faiança
no mosaico desmanchado sobre a areia.
As tintas se interpenetram, móveis,
— puzzle vivo que a vaga empurra e espalha —
e as cores correm, chocam-se, repelem-se,
como uma grande bola de mercúrio
desagregada em gotas coloridas.
O arlequim da manhã, caindo do alto,
desarticulou os pedaços da roupa policrômica
e foi esmaltar os "tóraces" e os ventres
com o arco-íris decomposto dos losangos.
Os corpos úmidos deslocam-se,
brilham no fundo de porcelana que o azul
espesso enxuga.
Elásticos, libertos,
os corpos úmidos desenham ritmos instintivos
e mergulhados no sol,
que os alivia de um peso igual a seu
volume em luz compacta,
ainda guardam a leveza dos movimentos na água.
A manhã progride em tons,
transborda de roxos, verdes, escarlates.
Abrem-se umbelíferas gigantéias de novos guarda-sóis.
Outros ombros irrompem de novas capas
pintalgadas, — vitrais de pano,
corrediços, baixados sobre a areia.
E o homem dos balões de borracha cai da altura
pendurado a um pára-quedas de esferas multicores
que, agitadas às pontas dos barbantes,
sacolejam no ar a flor desmanchada de
um fogo de artifício em pleno dia.
Os corpos úmidos desenrolam
a ronda dos troncos harmoniosos,
dos seios em ponta,
das espáduas queimadas,
das coxas lisas,
buscam-se, penetram-se à distância,
atropelam-se nas fugas ágeis,
sem perceber o rapaz corcunda de maiô preto,
amargo e imóvel,
recurvo, arqueado em G maiúsculo,
que pensa, triste, a olhar de longe o atleta
de camisa verde:
— Se o mundo fosse de corcundas
eu de certo teria nascido como ele...
E a manhã continua,
sacudindo cores
como uma arara que se espluma.
Publicado no livro Lanterna Verde (1926). Poema integrante da série Cenários.
In: D'OLIVEIRA, Felippe. Obra completa. Atual. e org. Lígia Militz da Costa, Maria Eunice Moreira e Pedro Brum Santos. Porto Alegre: IEL; Santa Maria: UFSM, 1990. p.69-70
1 339
Jaroslav Seifert
Retrato molhado
Aqueles dias lindos
quando a cidade parece um dado, um hino, um ventilador
ou uma concha de vieira à beira-mar
– tchau, tchau, belas garotas,
nos conhecemos hoje
e não nos veremos nunca mais.
Os domingos lindos
quando a cidade parece um futebol, um cartão e uma ocarina
ou um sino indo e vindo
– na rua ensolarada
as sombras dos passantes se beijavam
e eles seguiam, completos desconhecidos.
Aquelas noites lindas
quando a cidade parece uma rosa, um tabuleiro de xadrez, um violino
ou uma garota chorando
– no bar jogávamos dominó, dominó de bolas pretas, com as garotas magrelas,
olhando para seus joelhos
que eram esquálidos
feito dois crânios com as coroas de seda das cinta-ligas
no reino desesperado do amor.
(tradução de Marília Garcia).
1 157
Adélia Prado
Presença
Malefício nenhum resiste
ao encantamento da hora
em que percebo as cúpulas,
até um zimbório
eu vejo na mesquita,
até cruz no santuário
— e são árvores na bruma
à luz reflexa da tarde.
O olho de Deus me vê,
o olho amoroso dele.
ao encantamento da hora
em que percebo as cúpulas,
até um zimbório
eu vejo na mesquita,
até cruz no santuário
— e são árvores na bruma
à luz reflexa da tarde.
O olho de Deus me vê,
o olho amoroso dele.
1 312
Antonio Fernando De Franceschi
Garça
1.
de relance
mero
surpresa
é te colher
em vôo:
o já fugaz
— ponto:
em riste
no horizonte
2.
a penas
te desenho
em derrisão:
asas taorminas
securas
branco arco sob o céu
3.
pelo estuo das águas
astúcia:
flaminga?
flamínia?
no claro em pluma
alvejo sem rasura
a branca garça
em sua alvura
In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Sal. São Paulo: companhia das Letras, (1989). p. 55-57. Poema integrante da série Poemas ao Natural.
de relance
mero
surpresa
é te colher
em vôo:
o já fugaz
— ponto:
em riste
no horizonte
2.
a penas
te desenho
em derrisão:
asas taorminas
securas
branco arco sob o céu
3.
pelo estuo das águas
astúcia:
flaminga?
flamínia?
no claro em pluma
alvejo sem rasura
a branca garça
em sua alvura
In: DE FRANCESCHI, Antonio Fernando. Sal. São Paulo: companhia das Letras, (1989). p. 55-57. Poema integrante da série Poemas ao Natural.
1 384
Adélia Prado
Mitigação da Pena
O céu estrelado
vale a dor do mundo.
vale a dor do mundo.
1 176
Adélia Prado
Não-Blasfemo
Deus não tem vontade. Eu, sim,
porque sou impressionável e pequena
e nunca mais tive paz desde que há muitos anos
pus meus olhos em Jonathan.
Meus olhos e em seguida minha alma.
Nada mais quis até hoje.
Como serei julgada,
se meu medo se esvai, o meu medo do inferno,
da face do Deus raivoso?
O princípio da sabedoria é agora minha coragem
de viajar pressurosa para onde ele estiver.
Meu coração não pensa
e meu coração sou eu e seu desejo incansável.
A menina falou espantosamente:
‘É impossível pensar em Deus.’
E foi este o meu erro todo o tempo,
Deus não existe assim pensável.
Não sei vos reproduzir como é a testa de Jonathan,
mas quando ele me toca é no seio de Deus que eu fico,
um seio que não me repele.
Assim,
cumpro o desígnio da divina vontade:
seu queixo agora, Jonathan,
seu riso quase escarninho,
seu modo de não me ver.
Entalho a beleza de Deus.
porque sou impressionável e pequena
e nunca mais tive paz desde que há muitos anos
pus meus olhos em Jonathan.
Meus olhos e em seguida minha alma.
Nada mais quis até hoje.
Como serei julgada,
se meu medo se esvai, o meu medo do inferno,
da face do Deus raivoso?
O princípio da sabedoria é agora minha coragem
de viajar pressurosa para onde ele estiver.
Meu coração não pensa
e meu coração sou eu e seu desejo incansável.
A menina falou espantosamente:
‘É impossível pensar em Deus.’
E foi este o meu erro todo o tempo,
Deus não existe assim pensável.
Não sei vos reproduzir como é a testa de Jonathan,
mas quando ele me toca é no seio de Deus que eu fico,
um seio que não me repele.
Assim,
cumpro o desígnio da divina vontade:
seu queixo agora, Jonathan,
seu riso quase escarninho,
seu modo de não me ver.
Entalho a beleza de Deus.
1 255
Fontoura Xavier
VI - Dogaressa
Veneza; um grande sol, numa púrpura acesa,
Vermelha, semelhante ao rico colorido
De Ticiano, agoniza entre o Canal e o Lido:
A agonia do sol da glória de Veneza.
A sua dor de luz vibra como um gemido;
As balsas do Canal são negras de tristeza...
E é tudo o que recorda a colossal grandeza
De um mundo vencedor sobre um mundo vencido.
A quadriga de bronze, os jarretes em arcos,
Numa ânsia de aclamar a jornada de Arcole,
Escarva, piaffé, o frontão de São Marcos.
Dogaressa é um pombal; por Mocenigo, aos tombos,
Palácio que abrigou Byron e Guiccioli,
Beijam-se febrilmente, arruflados, dois pombos.
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. 4.ed. Rio de Janeiro: Gráf. Sauer, 1928
Vermelha, semelhante ao rico colorido
De Ticiano, agoniza entre o Canal e o Lido:
A agonia do sol da glória de Veneza.
A sua dor de luz vibra como um gemido;
As balsas do Canal são negras de tristeza...
E é tudo o que recorda a colossal grandeza
De um mundo vencedor sobre um mundo vencido.
A quadriga de bronze, os jarretes em arcos,
Numa ânsia de aclamar a jornada de Arcole,
Escarva, piaffé, o frontão de São Marcos.
Dogaressa é um pombal; por Mocenigo, aos tombos,
Palácio que abrigou Byron e Guiccioli,
Beijam-se febrilmente, arruflados, dois pombos.
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. 4.ed. Rio de Janeiro: Gráf. Sauer, 1928
1 094
Fontoura Xavier
CXV - Faróis
Rubens, jardim do ócio e rio do esquecimento,
Estranho ser carnal que ninguém sabe amar,
Mas onde a vida ferve e flui n'um firmamento
Como o ar pelo céu, como o mar sobre o mar;
Leonardo da Vinci, espelho posto ao muro,
Onde arcanjos e gnomos riem de passagem
E cheios de mistério, abrem num claro-escuro
Geleiras e pinhais que encantam a paisagem;
Rembrandt, triste hospital de dor e de gemidos
Que um crucifixo de marfim orna pendente,
Onde o pranto e a oração se exalam dos feridos,
E um branco céu de inverno abre-se bruscamente;
Miguel Ângelo, aonde os Hércules os músculos
Misturam aos de Cristo, e assombra-nos de medo
Quando os fantasmas vêm por volta dos crepúsculos
Esgarçando o sudário apontar-nos o dedo;
Puget, imperador do box e das prisões,
Corpo farto de orgulho, alma de almas inquietas,
Que sabe reviver nas grandes criações
Impudências de fauno e toraxes de atletas;
Watteau, Carnaval de corações desconexos
Que voam como ao sol borboletas errantes
Numa orgia de luz, de lâmpadas, reflexos
De cristais, ao furor de danças delirantes;
Goya, sempre a sonhar de coisas desumanas,
De ceias de sabbat, onde, armadas de figas,
As bruxas de mantons à moda das gitanas
Para tentar o Diabo afivelavam as ligas;
(...)
Todos esses heróis cheios de maldições,
Hinos, êxtases, fés, de vulcões não extintos,
São o ópio ideal dos nossos corações,
Eco que enche de vez todos os labirintos.
(...)
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. 4.ed. Rio de Janeiro: Gráf. Sauer, 1928.
NOTA: Tradução do poema "Les Phares", do livro LES FLEURS DU MAL (AS FLORES DO MAL), de Baudelair
Estranho ser carnal que ninguém sabe amar,
Mas onde a vida ferve e flui n'um firmamento
Como o ar pelo céu, como o mar sobre o mar;
Leonardo da Vinci, espelho posto ao muro,
Onde arcanjos e gnomos riem de passagem
E cheios de mistério, abrem num claro-escuro
Geleiras e pinhais que encantam a paisagem;
Rembrandt, triste hospital de dor e de gemidos
Que um crucifixo de marfim orna pendente,
Onde o pranto e a oração se exalam dos feridos,
E um branco céu de inverno abre-se bruscamente;
Miguel Ângelo, aonde os Hércules os músculos
Misturam aos de Cristo, e assombra-nos de medo
Quando os fantasmas vêm por volta dos crepúsculos
Esgarçando o sudário apontar-nos o dedo;
Puget, imperador do box e das prisões,
Corpo farto de orgulho, alma de almas inquietas,
Que sabe reviver nas grandes criações
Impudências de fauno e toraxes de atletas;
Watteau, Carnaval de corações desconexos
Que voam como ao sol borboletas errantes
Numa orgia de luz, de lâmpadas, reflexos
De cristais, ao furor de danças delirantes;
Goya, sempre a sonhar de coisas desumanas,
De ceias de sabbat, onde, armadas de figas,
As bruxas de mantons à moda das gitanas
Para tentar o Diabo afivelavam as ligas;
(...)
Todos esses heróis cheios de maldições,
Hinos, êxtases, fés, de vulcões não extintos,
São o ópio ideal dos nossos corações,
Eco que enche de vez todos os labirintos.
(...)
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. 4.ed. Rio de Janeiro: Gráf. Sauer, 1928.
NOTA: Tradução do poema "Les Phares", do livro LES FLEURS DU MAL (AS FLORES DO MAL), de Baudelair
1 229
Angela Santos
Hic et Nunc
Agora
quero apenas ser daqui…
sem ânsia de outro mundo
ou beleza que se eleve
à que rente ao chão que piso,
sinto e fruo por inteiro…
A fealdade não é
senão um olhar ao invés
e aqui
neste chão que sou
até do lodo se elevam
prodígios da natureza
em busca da luz do sol.
Aqui e agora
Ser,
chão rude e áspero,
anjo sem asas,
brisa que passa,
poeira de estrelas…..
e até lodo ser
se a beleza do Lotus
abrindo-se ao sol
do fundo do pântano
teimosamente
se erguer.
quero apenas ser daqui…
sem ânsia de outro mundo
ou beleza que se eleve
à que rente ao chão que piso,
sinto e fruo por inteiro…
A fealdade não é
senão um olhar ao invés
e aqui
neste chão que sou
até do lodo se elevam
prodígios da natureza
em busca da luz do sol.
Aqui e agora
Ser,
chão rude e áspero,
anjo sem asas,
brisa que passa,
poeira de estrelas…..
e até lodo ser
se a beleza do Lotus
abrindo-se ao sol
do fundo do pântano
teimosamente
se erguer.
1 125
Martins Fontes
Na Medida Velha da Ensinança
Menina Briolanja
das vestes tafuis,
parecem-me a hidranja
teus olhos azuis.
És moça e formosa,
tra, li, la, la, ra...
Que linda esta rosa!
Colhamo-la já.
À tarde, querida,
a flor vai murchar...
Não percas, na vida,
o tempo de amar.
Meu Deus, que desgosto
seria essa dor
de ver o teu rosto
murchar como a flor.
É o tempo da hidranja.
És moça e gentil:
a hidranja, Briolanja,
se colhe em abril.
Publicado no livro Rosicler (1928).
In: FONTES, Martins. Poesia. Org. Cassiano Ricardo. Rio de Janeiro: Agir, 1959. p.82-83. (Nossos clássicos, 40
das vestes tafuis,
parecem-me a hidranja
teus olhos azuis.
És moça e formosa,
tra, li, la, la, ra...
Que linda esta rosa!
Colhamo-la já.
À tarde, querida,
a flor vai murchar...
Não percas, na vida,
o tempo de amar.
Meu Deus, que desgosto
seria essa dor
de ver o teu rosto
murchar como a flor.
É o tempo da hidranja.
És moça e gentil:
a hidranja, Briolanja,
se colhe em abril.
Publicado no livro Rosicler (1928).
In: FONTES, Martins. Poesia. Org. Cassiano Ricardo. Rio de Janeiro: Agir, 1959. p.82-83. (Nossos clássicos, 40
1 455
Antônio de Godói
Do Mês de Maria
O sagrado esplendor de curvas cinzeladas
No relevo imortal do corpo alabastrino!
(Maio é todo um cendal de violetas dobradas...
Roçam asas no azul adelgaçado e fino...)
Rosto feito a buril de espumas congeladas
Na redoma de luz de um luar opalino!
(Reflorescem rosais... nas noites consteladas
Erra um doce rumor de citara e violino...)
Ó Senhora, de olhar claro e puro de Santa,
Virgem pura do Céu que minha alma quebranta
(A brisa corre, o ambiente é fresco, o sol não arde.)
Dá-me o fulgor que bóia em teu olhar tristonho,
Para assim clarear a noite do meu Sonho...
(Vão cantando no azul as citaras da tarde... )
No relevo imortal do corpo alabastrino!
(Maio é todo um cendal de violetas dobradas...
Roçam asas no azul adelgaçado e fino...)
Rosto feito a buril de espumas congeladas
Na redoma de luz de um luar opalino!
(Reflorescem rosais... nas noites consteladas
Erra um doce rumor de citara e violino...)
Ó Senhora, de olhar claro e puro de Santa,
Virgem pura do Céu que minha alma quebranta
(A brisa corre, o ambiente é fresco, o sol não arde.)
Dá-me o fulgor que bóia em teu olhar tristonho,
Para assim clarear a noite do meu Sonho...
(Vão cantando no azul as citaras da tarde... )
793
Adélia Prado
Ex-Voto
Na tarde clara de um domingo quente
surpreendi-me,
intestinos urgentes, ânsia de vômito, choro,
desejo de raspar a cabeça e me pôr nua
no centro da minha vida e uivar
até me secarem os ossos:
que queres que eu faça, Deus?
Quando parei de chorar
o homem que me aguardava disse-me:
você é muito sensível, por isso tem falta de ar.
Chorei de novo porque era verdade
e era também mentira,
sendo só meio consolo.
Respira fundo, insistiu, joga água fria no rosto,
vamos dar uma volta, é psicológico.
Que ex-voto levo à Aparecida,
se não tenho doença e só lhe peço a cura?
Minha amiga devota se tornou budista,
torço para que se desiluda
e volte a rezar comigo as orações católicas.
Eu nunca ia ser budista,
por medo de não sofrer, por medo de ficar zen.
Existe santo alegre ou são os biógrafos
que os põem assim felizes como bobos?
Minas tem coisas terríveis,
a Serra da Piedade me transtorna.
Em meio a tanta rocha
de tão imediata beleza,
edificações geridas pelo inferno,
pelo descriador do mundo.
O menino não consegue mais,
vai morrer, sem forças para sugar
a corda de carne preta do que seria um seio,
agora às moscas.
Meu coração é bom
mas não aceita que o seja.
O homem me presenteia,
por que tanto recebo,
quando seria justo mandarem-me à solitária?
Palavras não, eu disse, só aceito chorar.
Por que então limpei os olhos
quando avistei roseiras
e mais o que não queria,
de jeito nenhum queria àquela hora,
o poema,
meu ex-voto,
não a forma do que é doente,
mas do que é são em mim
e rejeito e rejeito,
premida pela mesma força
do que trabalha contra a beleza das rochas?
Me imploram amor Deus e o mundo,
sou pois mais rica que os dois,
só eu posso dizer à pedra:
és bela até à aflição;
o mesmo que dizer a Ele:
sois belo, belo, sois belo!
Quase entendo a razão da minha falta de ar.
Ao escolher palavras com que narrar minha angústia,
eu já respiro melhor.
A uns Deus os quer doentes,
a outros quer escrevendo.
surpreendi-me,
intestinos urgentes, ânsia de vômito, choro,
desejo de raspar a cabeça e me pôr nua
no centro da minha vida e uivar
até me secarem os ossos:
que queres que eu faça, Deus?
Quando parei de chorar
o homem que me aguardava disse-me:
você é muito sensível, por isso tem falta de ar.
Chorei de novo porque era verdade
e era também mentira,
sendo só meio consolo.
Respira fundo, insistiu, joga água fria no rosto,
vamos dar uma volta, é psicológico.
Que ex-voto levo à Aparecida,
se não tenho doença e só lhe peço a cura?
Minha amiga devota se tornou budista,
torço para que se desiluda
e volte a rezar comigo as orações católicas.
Eu nunca ia ser budista,
por medo de não sofrer, por medo de ficar zen.
Existe santo alegre ou são os biógrafos
que os põem assim felizes como bobos?
Minas tem coisas terríveis,
a Serra da Piedade me transtorna.
Em meio a tanta rocha
de tão imediata beleza,
edificações geridas pelo inferno,
pelo descriador do mundo.
O menino não consegue mais,
vai morrer, sem forças para sugar
a corda de carne preta do que seria um seio,
agora às moscas.
Meu coração é bom
mas não aceita que o seja.
O homem me presenteia,
por que tanto recebo,
quando seria justo mandarem-me à solitária?
Palavras não, eu disse, só aceito chorar.
Por que então limpei os olhos
quando avistei roseiras
e mais o que não queria,
de jeito nenhum queria àquela hora,
o poema,
meu ex-voto,
não a forma do que é doente,
mas do que é são em mim
e rejeito e rejeito,
premida pela mesma força
do que trabalha contra a beleza das rochas?
Me imploram amor Deus e o mundo,
sou pois mais rica que os dois,
só eu posso dizer à pedra:
és bela até à aflição;
o mesmo que dizer a Ele:
sois belo, belo, sois belo!
Quase entendo a razão da minha falta de ar.
Ao escolher palavras com que narrar minha angústia,
eu já respiro melhor.
A uns Deus os quer doentes,
a outros quer escrevendo.
2 514