Poemas neste tema
Beleza
Francisco Moura Campos
Haicai
Pousou na cal.
É o negro do anu
— tão puro! — no branco.
Na noite de névoa
— branca, sobrenatural —
a lua redonda.
É o negro do anu
— tão puro! — no branco.
Na noite de névoa
— branca, sobrenatural —
a lua redonda.
915
Carlos Drummond de Andrade
Cobrinha
Este salta com uma cobra
na mão.
Que vantagem pegar em cobra morta?
Decerto nem foi ele quem matou.
Achou a cobra inanimada,
exibe-a qual troféu.
É uma cobra verde — reparamos,
admirável cobrinha toda verde,
lustroso verde nítido novinho
como não é qualquer planta que possui.
Estaco, deslumbrado.
Se eu pudesse guardá-la para mim,
enfeitar a carteira com seu corpo…
— Você me vende essa bichinha?
na mão.
Que vantagem pegar em cobra morta?
Decerto nem foi ele quem matou.
Achou a cobra inanimada,
exibe-a qual troféu.
É uma cobra verde — reparamos,
admirável cobrinha toda verde,
lustroso verde nítido novinho
como não é qualquer planta que possui.
Estaco, deslumbrado.
Se eu pudesse guardá-la para mim,
enfeitar a carteira com seu corpo…
— Você me vende essa bichinha?
1 251
Anjo Hazel
Soneto à Musa Materializada
Ah, menina
de sorriso meigo...
Ah, mulher de mil véus !
De beijos infinitos como os céus
e luxúria ao me recostar em teu seio...
Ah, teus olhos castanhos...
Ah, teus castanhos cabelos...
Suaves abraços, enlevos,
amor rebelde e estranho.
Toco tua silhueta diáfana
reconfortante como edredon
e percorro cauteloso tuas curvas...
Imagem nada sagrada,
tua íris como néon
ardendo nas noites de chuva.
de sorriso meigo...
Ah, mulher de mil véus !
De beijos infinitos como os céus
e luxúria ao me recostar em teu seio...
Ah, teus olhos castanhos...
Ah, teus castanhos cabelos...
Suaves abraços, enlevos,
amor rebelde e estranho.
Toco tua silhueta diáfana
reconfortante como edredon
e percorro cauteloso tuas curvas...
Imagem nada sagrada,
tua íris como néon
ardendo nas noites de chuva.
1 068
Eduardo Valente da Fonseca
As mulheres admiráveis da cidade
Colho as nêsperas de outono e dou-vos as nêsperas de outono
mulheres admiráveis da cidade.
As avenidas são primaveris
e vós sabeis que a vida é apenas isto,
este tempo de viver entre as flores,
os pássaros, as horas e as palavras dos companheiros, lábios amorosos
descendo amaciantes sobre a pele dos vossos corpos frescos.
Colho por isso as nêsperas de outono açucaradas
entre guindastes, transito e cimento
e as disponho em vossas férteis mãos
de gestos admiráveis sobre os homens.
mulheres admiráveis da cidade.
As avenidas são primaveris
e vós sabeis que a vida é apenas isto,
este tempo de viver entre as flores,
os pássaros, as horas e as palavras dos companheiros, lábios amorosos
descendo amaciantes sobre a pele dos vossos corpos frescos.
Colho por isso as nêsperas de outono açucaradas
entre guindastes, transito e cimento
e as disponho em vossas férteis mãos
de gestos admiráveis sobre os homens.
1 040
Francisco Carvalho
Escada do Paraíso
Corpo feito de vagas
agitadas e búzios
sonolentos. Oh corpo
de mulher, entre medusas
e portulanos de areia.
Corpo seduzido pela
luminosidade dos cardumes
pelo movimento sinuoso
das marés. Oh corpo
de terracota e cristal.
Corpo aderido ao sexo
de Deus. Corpo nu
de gaivota em tarde azul
escada do paraíso.
Oh corpo varando a noite
E o dia em diagonal.
Corpo, oh corpo de lava
e lêvedo, fendido
pela cintura de um deus:
eu te celebro nesta
canção. Vertente e foz
dos pecados capitais.
agitadas e búzios
sonolentos. Oh corpo
de mulher, entre medusas
e portulanos de areia.
Corpo seduzido pela
luminosidade dos cardumes
pelo movimento sinuoso
das marés. Oh corpo
de terracota e cristal.
Corpo aderido ao sexo
de Deus. Corpo nu
de gaivota em tarde azul
escada do paraíso.
Oh corpo varando a noite
E o dia em diagonal.
Corpo, oh corpo de lava
e lêvedo, fendido
pela cintura de um deus:
eu te celebro nesta
canção. Vertente e foz
dos pecados capitais.
1 231
Carlos Drummond de Andrade
Graça Feminina
Que bom ouvir João Luso nesta sala
discorrer sobre a graça feminina!
Será que escuto? Alguém presta atenção?
A graça feminina está presente,
sorri, olha discreta, abana o leque,
imune à conferência.
A graça tem consciência de ser graça
e a si mesma dedica-se, enlevada.
discorrer sobre a graça feminina!
Será que escuto? Alguém presta atenção?
A graça feminina está presente,
sorri, olha discreta, abana o leque,
imune à conferência.
A graça tem consciência de ser graça
e a si mesma dedica-se, enlevada.
941
Carlos Drummond de Andrade
Pintor de Mulher
A Augusto Rodrigues
Este pintor
sabe o corpo feminino e seus possíveis
de linha e de volume reinventados.
Sabe a melodia do corpo em variações entrecruzadas.
Lê o código do corpo, de A ao infinito
dos signos e das curvas que dão vontade de morrer
de santo orgasmo e de beleza.
Este pintor
sabe o corpo feminino e seus possíveis
de linha e de volume reinventados.
Sabe a melodia do corpo em variações entrecruzadas.
Lê o código do corpo, de A ao infinito
dos signos e das curvas que dão vontade de morrer
de santo orgasmo e de beleza.
1 324
Carlos Drummond de Andrade
A Metafísica do Corpo
A Sonia von Brusky
A metafísica do corpo se entremostra
nas imagens. A alma do corpo
modula em cada fragmento sua música
de esferas e de essências
além da simples carne e simples unhas.
Em cada silêncio do corpo identifica-se
a linha do sentido universal
que à forma breve e transitiva imprime
a solene marca dos deuses
e do sonho.
Entre folhas, surpreende-se
na última ninfa
o que na mulher ainda é ramo e orvalho
e, mais que natureza, pensamento
da unidade inicial do mundo:
mulher planta brisa mar,
o ser telúrico, espontâneo,
como se um galho fosse da infinita
árvore que condensa
o mel, o sol, o sal, o sopro acre da vida.
De êxtase e tremor banha-se a vista
ante a luminosa nádega opalescente,
a coxa, o sacro ventre, prometido
ao ofício de existir, e tudo mais que o corpo
resume de outra vida, mais florente,
em que todos fomos terra, seiva e amor.
Eis que se revela o ser, na transparência
do invólucro perfeito.
A metafísica do corpo se entremostra
nas imagens. A alma do corpo
modula em cada fragmento sua música
de esferas e de essências
além da simples carne e simples unhas.
Em cada silêncio do corpo identifica-se
a linha do sentido universal
que à forma breve e transitiva imprime
a solene marca dos deuses
e do sonho.
Entre folhas, surpreende-se
na última ninfa
o que na mulher ainda é ramo e orvalho
e, mais que natureza, pensamento
da unidade inicial do mundo:
mulher planta brisa mar,
o ser telúrico, espontâneo,
como se um galho fosse da infinita
árvore que condensa
o mel, o sol, o sal, o sopro acre da vida.
De êxtase e tremor banha-se a vista
ante a luminosa nádega opalescente,
a coxa, o sacro ventre, prometido
ao ofício de existir, e tudo mais que o corpo
resume de outra vida, mais florente,
em que todos fomos terra, seiva e amor.
Eis que se revela o ser, na transparência
do invólucro perfeito.
1 245
Carlos Drummond de Andrade
Confeitaria Suíça
A baleira da Rua da Bahia
é bela como as balas são divinas.
Ou divina é a baleira, e suas balas
imitam o caramelo de seus olhos?
Compro balas na Rua da Bahia
para ver a baleira, simplesmente.
Não me olha nem liga, apenas tira
de cada vidro a cor e o mel das balas.
No pacote de balas vem um pouco
de beleza da pele da baleira,
sua pele de linho e porcelana,
sua calma beleza funcional.
É suíça a baleira e inatingível.
É coberta de neve, é neve pura,
derrete meu desejo adolescente…
Resta o gosto nevado de hortelã.
é bela como as balas são divinas.
Ou divina é a baleira, e suas balas
imitam o caramelo de seus olhos?
Compro balas na Rua da Bahia
para ver a baleira, simplesmente.
Não me olha nem liga, apenas tira
de cada vidro a cor e o mel das balas.
No pacote de balas vem um pouco
de beleza da pele da baleira,
sua pele de linho e porcelana,
sua calma beleza funcional.
É suíça a baleira e inatingível.
É coberta de neve, é neve pura,
derrete meu desejo adolescente…
Resta o gosto nevado de hortelã.
1 405
Giuseppe Ungaretti
Campo
Villa di Garda, abril de 1918
A terra
se cobriu
de tenra
leveza
Como uma esposa
nova
oferece
atônita
ao filho
o pudor
sorridente
de mãe
(tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti)
:
Prato
Villa di Garda aprile 1918
La terra
s'è velata
di tenera
leggerezza
Come una sposa
novella
offre
allibita
alla sua creatura
il pudore
sorridente
di madre
A terra
se cobriu
de tenra
leveza
Como uma esposa
nova
oferece
atônita
ao filho
o pudor
sorridente
de mãe
(tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti)
:
Prato
Villa di Garda aprile 1918
La terra
s'è velata
di tenera
leggerezza
Come una sposa
novella
offre
allibita
alla sua creatura
il pudore
sorridente
di madre
1 130
Carlos Drummond de Andrade
As Moças da Escola de Aperfeiçoamento
São cinquenta, são duzentas,
são trezentas
as professorinhas que invadem
a desprevenida Belô?
São cento e cinquenta, ou mil
as boinas azuis e verdes
e róseas, alaranjadas
e negras também e roxas,
os lábios coracionais
e os tom pouce petulantes
que elas ostentam, radiosas?
De onde vêm essas garotas?
eu que sei?
Vêm de Poços, de São João
del Rei, Juiz de Fora, Lavras,
Leopoldina, Itajubá,
Montes Claros, Minas Novas,
cidades novas de Minas
ainda não cadastradas
no Dicionário Corográfico
de Pelicano Frade?
E são assim tão modernas,
tão chegadas de Paris
par le dernier bateau
ancorado na Avenida
Afonso Pena ou Bahia,
que a gente não as distingue
das melindrosas cariocas
em férias mineiras?
Que vêm fazer essas jovens?
Vêm descobrir, saber coisas
de Decroly, Claparède,
novidades pedagógicas,
segredos de arte e de técnica
revelados por Helena
Antipoff, Madame Artus,
Mademoiselle Milde, mais quem?
Ou vêm para perturbar
se possível mais ainda
a precária paz de espírito
dos estudantes vadios
(eu, um deles)
que só querem declinar
os tempos irregulares
de namorar e de amar?
Ai, o mal que faz a Minas,
a nós, pelo menos, frágeis,
irresponsáveis, dementes
cultivadores da aérea
flor feminina fechada
em pétalas de reticência,
a Escola novidadeira,
dita de Aperfeiçoamento!
A gente não dava conta
de tanto impulso maluco
doridamente frustrado
ante a pétrea rigidez
dos domésticos presídios
onde vivem clausuradas
as meninas de Belô,
e irrompe essa multitude
de boinas, bocas, batons
escarlates, desafiando
a nossa corda sensível.
Que faz Mário Casassanta,
autoridade do ensino,
que não devolve essas moças
a seus lugares de origem?
Chamo Seu Edgarzinho,
responsável pela Escola.
Que ponha reparo — peço-lhe —
nas crianças do interior
que ficaram sem suas mestras.
Convém restituí-las logo
à tarefa habitual.
Ele responde: “São ordens
do Doutor Francisco Campos,
nosso ilustre Secretário
de Educação e Cultura.
Carece elevar o nível
do ensino por toda parte.
Vá-se embora, não insista
em perturbar nossos planos
racionais”.
Vou-me embora. Já na esquina
a boina azul me aparece
sob o azul universal
que faz de Belô um céu
pousado em pelúcia verde.
Sua dona, deslizante
entre formas costumeiras,
é diferente de tudo
e não olha para mim
deslumbrado, derrotado,
que vou bobeando assim.
Não há professora feia?
Pode ser que haja. A vista,
até onde o sonho alcança,
cinge a todas de beleza,
e a beleza, disse alguém,
é mortal como punhal.
são trezentas
as professorinhas que invadem
a desprevenida Belô?
São cento e cinquenta, ou mil
as boinas azuis e verdes
e róseas, alaranjadas
e negras também e roxas,
os lábios coracionais
e os tom pouce petulantes
que elas ostentam, radiosas?
De onde vêm essas garotas?
eu que sei?
Vêm de Poços, de São João
del Rei, Juiz de Fora, Lavras,
Leopoldina, Itajubá,
Montes Claros, Minas Novas,
cidades novas de Minas
ainda não cadastradas
no Dicionário Corográfico
de Pelicano Frade?
E são assim tão modernas,
tão chegadas de Paris
par le dernier bateau
ancorado na Avenida
Afonso Pena ou Bahia,
que a gente não as distingue
das melindrosas cariocas
em férias mineiras?
Que vêm fazer essas jovens?
Vêm descobrir, saber coisas
de Decroly, Claparède,
novidades pedagógicas,
segredos de arte e de técnica
revelados por Helena
Antipoff, Madame Artus,
Mademoiselle Milde, mais quem?
Ou vêm para perturbar
se possível mais ainda
a precária paz de espírito
dos estudantes vadios
(eu, um deles)
que só querem declinar
os tempos irregulares
de namorar e de amar?
Ai, o mal que faz a Minas,
a nós, pelo menos, frágeis,
irresponsáveis, dementes
cultivadores da aérea
flor feminina fechada
em pétalas de reticência,
a Escola novidadeira,
dita de Aperfeiçoamento!
A gente não dava conta
de tanto impulso maluco
doridamente frustrado
ante a pétrea rigidez
dos domésticos presídios
onde vivem clausuradas
as meninas de Belô,
e irrompe essa multitude
de boinas, bocas, batons
escarlates, desafiando
a nossa corda sensível.
Que faz Mário Casassanta,
autoridade do ensino,
que não devolve essas moças
a seus lugares de origem?
Chamo Seu Edgarzinho,
responsável pela Escola.
Que ponha reparo — peço-lhe —
nas crianças do interior
que ficaram sem suas mestras.
Convém restituí-las logo
à tarefa habitual.
Ele responde: “São ordens
do Doutor Francisco Campos,
nosso ilustre Secretário
de Educação e Cultura.
Carece elevar o nível
do ensino por toda parte.
Vá-se embora, não insista
em perturbar nossos planos
racionais”.
Vou-me embora. Já na esquina
a boina azul me aparece
sob o azul universal
que faz de Belô um céu
pousado em pelúcia verde.
Sua dona, deslizante
entre formas costumeiras,
é diferente de tudo
e não olha para mim
deslumbrado, derrotado,
que vou bobeando assim.
Não há professora feia?
Pode ser que haja. A vista,
até onde o sonho alcança,
cinge a todas de beleza,
e a beleza, disse alguém,
é mortal como punhal.
1 214
Francisco Carvalho
Canção da Oferta
Te ofereço um búzio
do Mar Morto
o molde de cristal
da placenta de Cleópatra.
Te ofereço a lágrima
de areia do espantalho
a alba seduzida
pelas retinas da águia.
Te ofereço a prata dos arroios
a conjuração da pedra
o mar acorrentado
à quilha da nau de Ulisses.
Te ofereço um ramo de fogo
do pomar da lascívia
um ramalhete de todas
as pulsações da vida.
Te ofereço a sobra de lã
da túnica de Laertes
tecida por Penélope.
do Mar Morto
o molde de cristal
da placenta de Cleópatra.
Te ofereço a lágrima
de areia do espantalho
a alba seduzida
pelas retinas da águia.
Te ofereço a prata dos arroios
a conjuração da pedra
o mar acorrentado
à quilha da nau de Ulisses.
Te ofereço um ramo de fogo
do pomar da lascívia
um ramalhete de todas
as pulsações da vida.
Te ofereço a sobra de lã
da túnica de Laertes
tecida por Penélope.
1 075
Jean Follain
Pensamentos de outubro
Como amamos
esse ótimo vinho
que bebemos sozinhos
quando a noite ilumina as colinas com cobre
nenhum caçador mira
as aves de caça na planície
as irmãs de nossos amigos
parecem mais bonitas
há no entanto ameaça de guerra
um inseto pausa
depois segue
:
Pensées d´Octubre
Jean Follain
On aime bien
ce grand vin
que l’on boit solitaire
quand le soir illumine les collines cuivrées
plus un chasseur n’ajuste
les gibiers de la plaine
les soeurs de nos amis
apparaissent les plus belles
il y a pourtant menace de guerre
un insecte s’arrête
puis repart.
esse ótimo vinho
que bebemos sozinhos
quando a noite ilumina as colinas com cobre
nenhum caçador mira
as aves de caça na planície
as irmãs de nossos amigos
parecem mais bonitas
há no entanto ameaça de guerra
um inseto pausa
depois segue
:
Pensées d´Octubre
Jean Follain
On aime bien
ce grand vin
que l’on boit solitaire
quand le soir illumine les collines cuivrées
plus un chasseur n’ajuste
les gibiers de la plaine
les soeurs de nos amis
apparaissent les plus belles
il y a pourtant menace de guerre
un insecte s’arrête
puis repart.
720
Carlos Drummond de Andrade
Ninfas
Agora sei que existem ninfas
fora das estampas e dos contos.
São três.
Bebem água publicamente
servida por uma sereia,
pois que também existem as sereias
na composição de verde e mármore
e é tudo fantástico no jardim
em frente do Palácio do Governo.
fora das estampas e dos contos.
São três.
Bebem água publicamente
servida por uma sereia,
pois que também existem as sereias
na composição de verde e mármore
e é tudo fantástico no jardim
em frente do Palácio do Governo.
1 227
Frei Avertano de Santa Maria
Soneto
Este extático Apolo que está tísico
De aturar o noturno, e diurno cântico
Por que não vai banhar-se ao mar Atlântico
Sendo como Esculápio tão bom físico?
Tanto sobe que passa a metafísico
Donde posto também a nigromântico
Só reforça o corpólico farfântico
Com o ofusco licor do lago estígico.
Mas se contra Tonante que é belígero
Deste raio não fica todo pálido
Acolhendo-se a Marte que é armígero:
Ficará quando ignífero tão válido
Que transformado em Pã porque é cornígero
Sairá por Europa touro cálido.
De aturar o noturno, e diurno cântico
Por que não vai banhar-se ao mar Atlântico
Sendo como Esculápio tão bom físico?
Tanto sobe que passa a metafísico
Donde posto também a nigromântico
Só reforça o corpólico farfântico
Com o ofusco licor do lago estígico.
Mas se contra Tonante que é belígero
Deste raio não fica todo pálido
Acolhendo-se a Marte que é armígero:
Ficará quando ignífero tão válido
Que transformado em Pã porque é cornígero
Sairá por Europa touro cálido.
391
Jorge Luis Borges
Una rosa y Milton
De las generaciones de las rosas
que en el fondo del tiempo se han perdido
quiero que una se salve del olvido,
una sin marca o signo entre las cosas
que fueron. El destino me depara
este don de nombrar por vez primera
esa flor silenciosa, la postrera
rosa que Milton acercó a su cara,
sin verla. Oh tú bermeja o amarilla
o blanca rosa de un jardín borrado,
deja mágicamente tu pasado
inmemorial y en este verso brilla,
oro, sangre o marfil o tenebrosa
como en sus manos, invisible rosa.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 200 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
que en el fondo del tiempo se han perdido
quiero que una se salve del olvido,
una sin marca o signo entre las cosas
que fueron. El destino me depara
este don de nombrar por vez primera
esa flor silenciosa, la postrera
rosa que Milton acercó a su cara,
sin verla. Oh tú bermeja o amarilla
o blanca rosa de un jardín borrado,
deja mágicamente tu pasado
inmemorial y en este verso brilla,
oro, sangre o marfil o tenebrosa
como en sus manos, invisible rosa.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 200 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 341
Carlos Drummond de Andrade
A Condenada
Impossível casar a moça
bela branca rica
na terra onde príncipes não saltam
do armorial para pedir-lhe a mão
jamais.
Passam cometas de olhar astuto,
canastras sortidas.
Irão comprar a moça, mercadoria
sem preço na Terra?
Jamais.
Passam fazendeiros, botas esculpidas
no estrume, riso ruidoso
de dentes de ouro.
Cuidam levar a moça para saldar
suas hipotecas?
Jamais.
Passam mulatos de fina lábia
e mil apólices federais.
Como deixar que o sangue cruze
na alva barriga de alvas origens?
Jamais.
Condena-se a moça ao casamento
consigo mesma
na noite alvíssima
eternalmente.
bela branca rica
na terra onde príncipes não saltam
do armorial para pedir-lhe a mão
jamais.
Passam cometas de olhar astuto,
canastras sortidas.
Irão comprar a moça, mercadoria
sem preço na Terra?
Jamais.
Passam fazendeiros, botas esculpidas
no estrume, riso ruidoso
de dentes de ouro.
Cuidam levar a moça para saldar
suas hipotecas?
Jamais.
Passam mulatos de fina lábia
e mil apólices federais.
Como deixar que o sangue cruze
na alva barriga de alvas origens?
Jamais.
Condena-se a moça ao casamento
consigo mesma
na noite alvíssima
eternalmente.
1 166
Fernanda dos Santos
Bruços
Caminha o olhar sobre
as curvas da tua planície ,
pleno morro a
murmurar solução .
Tua pele
meu caminho sem conclusão ;
Umedece e esvairece
face muda : falante .
Teu olhar
o meu infinito .
Passo a viajar
nesse seu beijo .
E fico à admirar
suas carnuudas doces
sutilezas ,
seus passos e suas presas .
Beleza minha
te envolvo em meu amor e
o teu calor : a sua essência
transborda o sopro ;
Pulsação e coração
tudo numa só inundação;
Como tu és belo ,
em seu brilho a irradiar ;
E a suspirar ,
o meu destino é te desejar ...
as curvas da tua planície ,
pleno morro a
murmurar solução .
Tua pele
meu caminho sem conclusão ;
Umedece e esvairece
face muda : falante .
Teu olhar
o meu infinito .
Passo a viajar
nesse seu beijo .
E fico à admirar
suas carnuudas doces
sutilezas ,
seus passos e suas presas .
Beleza minha
te envolvo em meu amor e
o teu calor : a sua essência
transborda o sopro ;
Pulsação e coração
tudo numa só inundação;
Como tu és belo ,
em seu brilho a irradiar ;
E a suspirar ,
o meu destino é te desejar ...
803
Carlos Drummond de Andrade
Hortênsia
A professora me ensina
que Hortênsia é saxifragácea.
Mas no moreno de Hortênsia,
na cabeleira de Hortênsia,
no busto e buço de Hortênsia,
o que eu diviso é uma graça
mais estranha que a palavra
saxifragácea.
Hortênsia, jardim trancado,
onde sei que o namorado
percorre umbrosos canteiros,
contando depois pra gente.
Oi namorada dos outros,
oi outros que não se calam,
fazem só para contar!
O namorado de Hortênsia
me ensina coisas diversas
do ensino da escola pública.
Eu sei, eu percebo, eu sinto
que Hortênsia (existe a palavra?)
é sexifragrância.
que Hortênsia é saxifragácea.
Mas no moreno de Hortênsia,
na cabeleira de Hortênsia,
no busto e buço de Hortênsia,
o que eu diviso é uma graça
mais estranha que a palavra
saxifragácea.
Hortênsia, jardim trancado,
onde sei que o namorado
percorre umbrosos canteiros,
contando depois pra gente.
Oi namorada dos outros,
oi outros que não se calam,
fazem só para contar!
O namorado de Hortênsia
me ensina coisas diversas
do ensino da escola pública.
Eu sei, eu percebo, eu sinto
que Hortênsia (existe a palavra?)
é sexifragrância.
1 391
Flávio Villa-Lobos
Relume
Pedra, sólida rocha
escondida sob
a terra
rodeada
pelo silêncio dos séculos
sozinha, quieta,
imóvel.
Formação natural
lava vulcânica
cristal de rocha
sedimentada,
preciosa
pedra,
mineral.
Tempo que tece a textura das cores
forja o reluzente reflexo
- diamante bruto,
instantâneo.
Sonho que salta
ofuscante, belo
- lavra de garimpeiro.
Mundo - negra mina
exaurida,
põe à nú vasta
desolação.
.............................
Uma réstia
de tua grande luz
permanece comigo
e vence
toda a escuridão.
escondida sob
a terra
rodeada
pelo silêncio dos séculos
sozinha, quieta,
imóvel.
Formação natural
lava vulcânica
cristal de rocha
sedimentada,
preciosa
pedra,
mineral.
Tempo que tece a textura das cores
forja o reluzente reflexo
- diamante bruto,
instantâneo.
Sonho que salta
ofuscante, belo
- lavra de garimpeiro.
Mundo - negra mina
exaurida,
põe à nú vasta
desolação.
.............................
Uma réstia
de tua grande luz
permanece comigo
e vence
toda a escuridão.
863
Francis Ponge
A forma do mundo
É preciso, antes de tudo, que eu confesse uma tentação absolutamente encantadora, longa, característica, irresistível para meu espírito.
É a de dar ao mundo, ao conjunto das coisas que vejo ou que concebo através da visão, não, como faz a maioria dos filósofos, e como é certamente razoável, a forma de uma grande esfera, de uma grande pérola, mole e nebulosa, como que brumosa, ou, ao contrário, cristalina e límpida, da qual, como disse um deles, o centro estaria em toda parte e a circunferência em nenhuma, nem tampouco a de uma "geometria no espaço", a de um incomensurável tabuleiro, ou a de uma colmeia com inumeráveis alvéolos ao mesmo tempo vivos e habitados, ou mortos e abandonados, como certas igrejas que se tornaram celeiros ou cocheiras, como certas conchas, outrora adjacentes a um corpo em movimento e voluntário de molusco, as quais flutuam vazias pela morte, e não hospedam nada além da água e um pouco de pedregulho, até o momento em que um bernardo-eremita as escolherá para habitáculo e nelas se pregará pela cauda, e nem mesmo a de um imenso corpo da mesma natureza que o corpo humano, do mesmo modo que o poderíamos imaginar, considerando-se os sistemas planetários como equivalentes aos sistemas moleculares, e aproximando-se o telescópico do microscópico.
Mas, antes, de um modo bem arbitrário ao mesmo tempo, a forma das coisas mais particulares, as mais assimétricas e de reputação contingente (e não apenas a forma, mas todas as características, as particularidades de cores, de perfumes), como, por exemplo, um ramo de lilases, um camarão no aquário natural de rochas no molhe de Grau-du-Roi, uma esponja na minha banheira, um buraco de fechadura com uma chave dentro.
E com razão poderão zombar de mim, ou me pedirão que preste contas a um asilo, mas nisso encontro toda a minha alegria.
(Proêmes. Gallimard, 1948; Tradução: Adalberto Müller - Inédita)
:
La forme du monde
Francis Ponge
Il faut d’abord que j’avoue une tentation absolument charmante, longue, caractéristique, irrésistible pour mon esprit.
C’est de donner au monde, à l’ensemble des choses que je vois ou que je conçois pour la vue, non pas comme le font la plupart des philosophes et comme il est sans doute raisonnable, la forme d’une grande sphère, d’une grande perle, molle et nébuleuse, comme brumeuse, ou au contraire cristalline et limpide, dont comme l’a dit l’un d’eux le centre serait partout et la circonférence nulle part, ni non plus d’une "géométrie dans l’espace", d’un incommensurable damier, ou d’une ruche aux innombrables alvéoles tour à tour vivantes et habitées, ou mortes et désaffectées, comme certaines églises sont devenues des granges ou des remises, comme certaines coquilles autrefois attenues à un corps mouvant et volontaire de mollusque, flottent vidées par la mort, et n’hébergent plus que de l’eau et un peu de fin gravier jusqu’au moment où un bernard-l’hermite les choisira pour habitacle et s’y collera par la queue, ni même d’un immense corps de la même nature que le corps humain, ainsi qu’on pourrait encore l’imaginer en considérant dans les systèmes planétaires l’équivalent des systèmes moléculaires et en rapprochant le télescopique du microscopique.
Mais plutôt, d’une façon tout arbitraire et tour à tour, la forme de choses les plus particulières, les plus asymétriques et de réputation contingentes (et non pas seulement la forme mais toutes les caractéristiques, les particularités de couleurs, de parfums), comme par exemple une branche de lilas, une crevette dans l’aquarium naturel des roches au bout du môle du Grau-du-Roi, une serviette-éponge dans ma salle de bain, un trou de serrure avec une clef dedans.
Et à bon droit sans doute peut-on s’en moquer ou m’en demander compte aux asiles, mais j’y trouve tout mon bonheur.
(1928)
1 405
Flávio Sátiro Fernandes
Geografia do corpo
Seu corpo tinha culminâncias imprevistas.
Dois montes de areia movediça
mas que sustinham no cume
minúsculas ocorrências rochosas.
Ao pé dos montes situava-se a depressão,
com pequeno lago ao meio,
de formação plistocênica.
Além, entre paredes em erosão,
jorrava a fonte, ora límpida ora turva,
a correr, em seguida, por entre sombria floresta.
Do outro lado da floresta
alteava-se íngreme desfiladeiro
e, após, estendia-se a costa
Da costa, por leste ou por oeste,
era fácil chegar de novo
aos montes de areia movediça
mas que sustinham no cume
minúsculas ocorrências rochosas.
Seu corpo tinha culminâncias imprevistas.
Dois montes de areia movediça
mas que sustinham no cume
minúsculas ocorrências rochosas.
Ao pé dos montes situava-se a depressão,
com pequeno lago ao meio,
de formação plistocênica.
Além, entre paredes em erosão,
jorrava a fonte, ora límpida ora turva,
a correr, em seguida, por entre sombria floresta.
Do outro lado da floresta
alteava-se íngreme desfiladeiro
e, após, estendia-se a costa
Da costa, por leste ou por oeste,
era fácil chegar de novo
aos montes de areia movediça
mas que sustinham no cume
minúsculas ocorrências rochosas.
Seu corpo tinha culminâncias imprevistas.
1 126
Joaquim Manuel de Macedo
Cântico: A Incógnita
(...)
"Quem és tu, dize, formosa,
"Que trazes figura humana?
"És de espécie mais soberana,
"Mais perfeita, mais mimosa?
"Ou já foste acaso rosa,
"Que pela brilhante cor,
"Pelo aroma encantador,
"Quis o gênio da ternura
"De mulher dar-te a figura
"Para triunfo de amor?
"Quem és tu para ser tão bela,
"E ter tão ardente olhar?
"Devo-te acaso julgar
"Do éter lúcida estrela?
"Teus arcanos menos zela,
"Dize, pra sossego meu,
"Serás tu anjo do céu,
"A quem o vôo faltou,
"E que na terra tombou
"Lá do alto empíreo?"
Disse; e suspiros saltam-me dos lábios...
Vejo encovar-se galantinho riso
Da bela em rubra face...
Juro amá-la... ela treme... corre... foge!...
Céus! e seu nome?... — Mas qu'importa um nome?...
Eu sei que adoro um anjo.
In: GUANABARA: revista mensal, artística, científica e literária. Rio de Janeiro, v.2, n.1, p.40. 185
"Quem és tu, dize, formosa,
"Que trazes figura humana?
"És de espécie mais soberana,
"Mais perfeita, mais mimosa?
"Ou já foste acaso rosa,
"Que pela brilhante cor,
"Pelo aroma encantador,
"Quis o gênio da ternura
"De mulher dar-te a figura
"Para triunfo de amor?
"Quem és tu para ser tão bela,
"E ter tão ardente olhar?
"Devo-te acaso julgar
"Do éter lúcida estrela?
"Teus arcanos menos zela,
"Dize, pra sossego meu,
"Serás tu anjo do céu,
"A quem o vôo faltou,
"E que na terra tombou
"Lá do alto empíreo?"
Disse; e suspiros saltam-me dos lábios...
Vejo encovar-se galantinho riso
Da bela em rubra face...
Juro amá-la... ela treme... corre... foge!...
Céus! e seu nome?... — Mas qu'importa um nome?...
Eu sei que adoro um anjo.
In: GUANABARA: revista mensal, artística, científica e literária. Rio de Janeiro, v.2, n.1, p.40. 185
2 357
Akiko Yosano
Tanka VII
Na ponte Shijô
a dançarina
de rosto maquilado
golpeada em sua testa estreita
pelo granizo miúdo do entardecer
961