Poemas neste tema
Beleza
Nuno Júdice
Definição
O amor: as têmporas de uma nuvem
roçando a cabeça do oceano.
1 446
Mário Donizete Massari
As meninas
ANA MARIA É BELA
ANASTÁCIA É SERENA;
são frutos da mesma terra
ANA MARIA NÃO PENSA
ANASTÁCIA SONHA SEMPRE.
Serena calma de poeta
Anastácia possui
uma alma bela,
Ana Maria
só é bela.
Ambos são belas
e fruto da mesma terra
ANASTÁCIA É SERENA;
são frutos da mesma terra
ANA MARIA NÃO PENSA
ANASTÁCIA SONHA SEMPRE.
Serena calma de poeta
Anastácia possui
uma alma bela,
Ana Maria
só é bela.
Ambos são belas
e fruto da mesma terra
1 015
Luciano Matheus Tamiozzo
Deixo-me Perder
Deixo-me perder
No azul de teus olhos,
Na tua pele rosada,
Nos teus cabelos aloirados.
Deixo-me perder
Nos teus lábios rubros,
Nas tuas mãos macias,
No calor de teu abraço.
Deixo-me perder
Em pensamentos
E palavras.
Deixo-me perder
Num olhar
Até ti.
No azul de teus olhos,
Na tua pele rosada,
Nos teus cabelos aloirados.
Deixo-me perder
Nos teus lábios rubros,
Nas tuas mãos macias,
No calor de teu abraço.
Deixo-me perder
Em pensamentos
E palavras.
Deixo-me perder
Num olhar
Até ti.
989
Manuel Bandeira
Carla
Carla, és bonita. Pudera!
Sendo filhinha de Allinges,
O fato era de prever.
Mas o que ver eu quisera
É se a beleza materna
Tu, quando mulher, atinges,
Doce e pequenino ser
Feito da essência mais terna.
Sendo filhinha de Allinges,
O fato era de prever.
Mas o que ver eu quisera
É se a beleza materna
Tu, quando mulher, atinges,
Doce e pequenino ser
Feito da essência mais terna.
642
Manuel Bandeira
Cantiga de Amor
Mulheres neste mundo de meu Deus
Tenho visto muitas — grandes, pequenas,
Ruivas, castanhas, brancas e morenas.
E amei-as, por mal dos pecados meus!
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!
Andei por São Paulo e pelo Ceará
(Não falo em Pernambuco, onde nasci),
Bahia, Minas, Belém do Pará...
De muito olhar de mulher já sofri!
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!
Atravessei o mar e, no estrangeiro,
Em Paris, Basiléia e nos Grisões,
Lugano, Gênova por derradeiro,
Vi mulheres de todas as nações.
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!
Mulher bonita não falta, ai de mim!
Nenhuma porém, tão bonita assim!
Tenho visto muitas — grandes, pequenas,
Ruivas, castanhas, brancas e morenas.
E amei-as, por mal dos pecados meus!
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!
Andei por São Paulo e pelo Ceará
(Não falo em Pernambuco, onde nasci),
Bahia, Minas, Belém do Pará...
De muito olhar de mulher já sofri!
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!
Atravessei o mar e, no estrangeiro,
Em Paris, Basiléia e nos Grisões,
Lugano, Gênova por derradeiro,
Vi mulheres de todas as nações.
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!
Mulher bonita não falta, ai de mim!
Nenhuma porém, tão bonita assim!
1 205
Jorge Luis Borges
Jardín
Zanjones,
sierras ásperas,
médanos,
sitiados por jadeantes singladuras
y por las leguas de temporal y de arena
que desde el fondo del desierto se agolpan.
En un declive está el jardín.
Cada arbolito es una selva de hojas.
Lo asedian vanamente
los estériles cerros silenciosos
que apresuran la noche con su sombra
y el triste mar de inútiles verdores.
Todo el jardín es una luz apacible
que ilumina la tarde.
El jardincito es como un día de fiesta
en la pobreza de la tierra.
Yacimientos del Chubut, 1922
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 36 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
sierras ásperas,
médanos,
sitiados por jadeantes singladuras
y por las leguas de temporal y de arena
que desde el fondo del desierto se agolpan.
En un declive está el jardín.
Cada arbolito es una selva de hojas.
Lo asedian vanamente
los estériles cerros silenciosos
que apresuran la noche con su sombra
y el triste mar de inútiles verdores.
Todo el jardín es una luz apacible
que ilumina la tarde.
El jardincito es como un día de fiesta
en la pobreza de la tierra.
Yacimientos del Chubut, 1922
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 36 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 843
Jorge Luis Borges
Trofeo
Como quien recorre una costa
maravillado de la muchedumbre del mar,
albriciado de luz y pródigo espacio,
yo fui el espectador de tu hermosura
durante un largo día.
Nos despedimos al anochecer
y en gradual soledad
al volver por la calle cuyos rostros aún te conocen,
se oscureció mi dicha, pensando
que de tan noble acopio de memorias
perdurarían escasamente una o dos
para ser decoro del alma
en la inmortalidad de su andanza.
"Fervor de Buenos Aires"(1923)
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 52 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
maravillado de la muchedumbre del mar,
albriciado de luz y pródigo espacio,
yo fui el espectador de tu hermosura
durante un largo día.
Nos despedimos al anochecer
y en gradual soledad
al volver por la calle cuyos rostros aún te conocen,
se oscureció mi dicha, pensando
que de tan noble acopio de memorias
perdurarían escasamente una o dos
para ser decoro del alma
en la inmortalidad de su andanza.
"Fervor de Buenos Aires"(1923)
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 52 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
2 919
Manuel Bandeira
Dois Anúncios
I- RONDÓ DE EFEITO
Olhei pra ela com toda a força.
Disse que ela era boa.
Que ela era gostosa,
Que ela era bonita pra burro:
Não fez efeito.
Virei pirata:
Dei em cima dela de todas as maneiras,
Utilizei o bonde, o automóvel, o passeio a pé,
Falei de macumba, ofereci pó...
À toa: não fez efeito.
Então banquei o sentimental:
Fiquei com olheiras,
Ajoelhei,
Chorei,
Me rasguei todo,
Fiz versinhos,
Cantei as modinhas mais tristes do repertório do Nôzinho.
Escrevi cartinhas e pra acertar a mão, li Elvira a Morta Virgem, romance primoroso e por tal forma comovente que ninguém pode lê-lo sem derramar copiosas lágrimas...
Perdi meu tempo: não fez efeito.
Meu Deus que mulher durinha!
Foi um buraco na minha vida.
Mas eu mato ela na cabeça:
Vou lhe mandar uma caixinha de Minorativas,
Pastilhas purgativas:
É impossível que não faça efeito!
II - COLÓQUIO SENTIMENTAL
— Não faça assim bichinho. O Segredo da Beleza diz: "Certo, um lindo seio apontando orgulhosamente o céu, é coisa rara. Mas a culpa cabe muitas vezes às próprias mulheres. Não cuidam deles. Deixam-nos magoar pelos dedos estouvados, esses belos frutos tão frágeis."
— Não tenha receio, meu coração. Farei massagens, como manda o livro. Com muita leveza, em sentido circular... começando pela implantação e acabando nas pontas...
— Com creme de pétalas de rosas?
— Com creme de pétalas de rosas...
— E ficarão firmes?
— Ora se!
— Como o Pão de Açúcar?...
— Como a Sul América!
Olhei pra ela com toda a força.
Disse que ela era boa.
Que ela era gostosa,
Que ela era bonita pra burro:
Não fez efeito.
Virei pirata:
Dei em cima dela de todas as maneiras,
Utilizei o bonde, o automóvel, o passeio a pé,
Falei de macumba, ofereci pó...
À toa: não fez efeito.
Então banquei o sentimental:
Fiquei com olheiras,
Ajoelhei,
Chorei,
Me rasguei todo,
Fiz versinhos,
Cantei as modinhas mais tristes do repertório do Nôzinho.
Escrevi cartinhas e pra acertar a mão, li Elvira a Morta Virgem, romance primoroso e por tal forma comovente que ninguém pode lê-lo sem derramar copiosas lágrimas...
Perdi meu tempo: não fez efeito.
Meu Deus que mulher durinha!
Foi um buraco na minha vida.
Mas eu mato ela na cabeça:
Vou lhe mandar uma caixinha de Minorativas,
Pastilhas purgativas:
É impossível que não faça efeito!
II - COLÓQUIO SENTIMENTAL
— Não faça assim bichinho. O Segredo da Beleza diz: "Certo, um lindo seio apontando orgulhosamente o céu, é coisa rara. Mas a culpa cabe muitas vezes às próprias mulheres. Não cuidam deles. Deixam-nos magoar pelos dedos estouvados, esses belos frutos tão frágeis."
— Não tenha receio, meu coração. Farei massagens, como manda o livro. Com muita leveza, em sentido circular... começando pela implantação e acabando nas pontas...
— Com creme de pétalas de rosas?
— Com creme de pétalas de rosas...
— E ficarão firmes?
— Ora se!
— Como o Pão de Açúcar?...
— Como a Sul América!
1 076
Manuel Botelho de Oliveira
Vendo a Anarda Depõe o Sentimento
A serpe, que adornando várias cores,
com passos mais oblíquos, que serenos,
entre belos jardins, prados amenos,
é maio errante de torcidas flores;
se quer matar da sede os desfavores,
Os cristais bebe com a peçonha menos,
por que não morra com os mortais venenos,
se acaso gosta dos vitais licores.
Assim também meu coração queixoso,
na sede ardente do feliz cuidado
bebe cos olhos teu cristal formoso;
Pois para não morrer no gosto amado,
depõe logo o tormento venenoso,
se acaso gosta o cristalino agrado.
com passos mais oblíquos, que serenos,
entre belos jardins, prados amenos,
é maio errante de torcidas flores;
se quer matar da sede os desfavores,
Os cristais bebe com a peçonha menos,
por que não morra com os mortais venenos,
se acaso gosta dos vitais licores.
Assim também meu coração queixoso,
na sede ardente do feliz cuidado
bebe cos olhos teu cristal formoso;
Pois para não morrer no gosto amado,
depõe logo o tormento venenoso,
se acaso gosta o cristalino agrado.
1 967
Leão Moysés Zagury
Ver-te
Tua face serena
lembra um suave
fluir da primavera.
As flores,
os colibris
vem contigo
cantar.
A primavera desperta
o mundo.
Pássaros, flores, árvores,
purificam o ambiente.
O otimismo espalha-se.
Emfim, tua presença
harmoniza a vida.
lembra um suave
fluir da primavera.
As flores,
os colibris
vem contigo
cantar.
A primavera desperta
o mundo.
Pássaros, flores, árvores,
purificam o ambiente.
O otimismo espalha-se.
Emfim, tua presença
harmoniza a vida.
997
Marta Gonçalves
Simples Cerejas
Eram apenas cerejas na cesta
ao sorvê-las senti
algo dentro de mim.
Um sino libertando os olhos
do velho telhado.
ao sorvê-las senti
algo dentro de mim.
Um sino libertando os olhos
do velho telhado.
1 029
Luís de Camões
Quem presumir, Senhora, de louvar-vos
Quem presumir, Senhora, de louvar-vos
Com humano saber, e não divino,
Ficará de tamanha culpa dino
Quamanha ficais sendo em contemplar-vos.
Não pretenda ninguém de louvor dar-vos,
Por mais que raro seja, e peregrino:
Que vossa fermosura eu imagino
Que Deus a ele só quis comparar-vos.
Ditosa esta alma vossa, que quisestes
Em posse pôr de prenda tão subida,
Como, Senhora, foi a que me destes.
Melhor a guardarei que a própria vida;
Que, pois mercê tamanha me fizestes,
De mim será jamais nunca esquecida.
Com humano saber, e não divino,
Ficará de tamanha culpa dino
Quamanha ficais sendo em contemplar-vos.
Não pretenda ninguém de louvor dar-vos,
Por mais que raro seja, e peregrino:
Que vossa fermosura eu imagino
Que Deus a ele só quis comparar-vos.
Ditosa esta alma vossa, que quisestes
Em posse pôr de prenda tão subida,
Como, Senhora, foi a que me destes.
Melhor a guardarei que a própria vida;
Que, pois mercê tamanha me fizestes,
De mim será jamais nunca esquecida.
5 613
Sosigenes Costa
O pavão vermelho
Ora, a alegria, este pavão vermelho,
está morando em meu quintal agora.
Vem pousar como um sol em meu joelho
quando é estridente em meu quintal a aurora.
Clarim de lacre, este pavão vermelho
sobrepuja os pavões que estão lá fora.
É uma festa de púrpura. E o assemelho
a uma chama do lábaro da aurora.
É o próprio doge a se mirar no espelho.
E a cor vermelha chega a ser sonora
neste pavão pomposo e de chavelho.
Pavões lilases possuí outrora.
Depois que amei este pavão vermelho,
os meus outros pavões foram-se embora.
2 983
Almeida Garrett
Não te amo
Não te amo, quero-te: o amor vem dalma.
E eu nalma --- tenho a calma,
A calma --- do jazigo.
Ai! não te amo, não.
Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida --- nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai! não te amo, não!
Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.
Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?
E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau, feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.
E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.
E eu nalma --- tenho a calma,
A calma --- do jazigo.
Ai! não te amo, não.
Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida --- nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai! não te amo, não!
Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.
Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?
E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau, feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.
E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.
1 968
Pablo Neruda
Primavera no Chile
Belo é Setembro em minha pátria coberto com uma coroa de vime e violetas
e com um canastro pendurado nos braços repleto de dons terrestres:
Setembro adianta seus olhos mapuches matando o inverno
e volta o chileno à ressurreição da carne e do vinho.
Amável é o Sábado e apenas se abriram as mãos da
Sexta-Feira
voou transportando ameixas e caldos de lua e peixe.
Oh amor na terra que tu percorresses e que atravessamos
não tive em minha boca um fulgor de melancia como em Talagante
e em vão busquei entre os dedos da geografia
no mar clamoroso, a veste que o vento e a pedra outorgaram ao Chile,
e não achei pêssegos de Janeiro redondos de luz e delícia
como o veludo que guarda e debulha o mel de minha pátria.
E nos matagais do Sul sigiloso conheço o orvalho
por seus penetrantes diamantes de menta, e me embriaga o aroma
do vinho central que estalou de teu cinturão de cachos
e o cheiro de tuas águas pesqueiras que te enche o olfato
porque se abrem as valvas do mar em teu peito de prata abundante,
e encimado arrastando os pés quando marcho nos montes mais duros
eu diviso na neve invencível a razão de tua soberania.
e com um canastro pendurado nos braços repleto de dons terrestres:
Setembro adianta seus olhos mapuches matando o inverno
e volta o chileno à ressurreição da carne e do vinho.
Amável é o Sábado e apenas se abriram as mãos da
Sexta-Feira
voou transportando ameixas e caldos de lua e peixe.
Oh amor na terra que tu percorresses e que atravessamos
não tive em minha boca um fulgor de melancia como em Talagante
e em vão busquei entre os dedos da geografia
no mar clamoroso, a veste que o vento e a pedra outorgaram ao Chile,
e não achei pêssegos de Janeiro redondos de luz e delícia
como o veludo que guarda e debulha o mel de minha pátria.
E nos matagais do Sul sigiloso conheço o orvalho
por seus penetrantes diamantes de menta, e me embriaga o aroma
do vinho central que estalou de teu cinturão de cachos
e o cheiro de tuas águas pesqueiras que te enche o olfato
porque se abrem as valvas do mar em teu peito de prata abundante,
e encimado arrastando os pés quando marcho nos montes mais duros
eu diviso na neve invencível a razão de tua soberania.
1 264
António Ramos Rosa
Instante
Som velado. Beijo
calmo. E a chama
de uma árvore. O verde
imóvel. Lâmina
irradiante. Sol, o som,
obscura luz de sílaba
interiormente.
Tréguas com o espaço. Interrupção
contínua.
Não sei porquê a luz
se lê
na folha verde calma.
calmo. E a chama
de uma árvore. O verde
imóvel. Lâmina
irradiante. Sol, o som,
obscura luz de sílaba
interiormente.
Tréguas com o espaço. Interrupção
contínua.
Não sei porquê a luz
se lê
na folha verde calma.
1 029
Maurício Batarce
A Sonata do Amor
Na noite opaca do luar
Tento imaginar você.
Seus sentimentos me vêm
E sua alma cristalina
Exala de seu corpo
Por onde navego delirante.
Minhas palavras ante - românticas
Não são nada para seus gestos romanescos.
Ao som de um piano
Com flauta ao fundo
Imagino-lhe caminhando nas notas.
O dedo que corre ao piano
Toca-lhe sensivelmente
E o romantismo da flauta
Penetra em seu interior.
Música sai de seus lábios em sussurros...
O resplandecer do sol
E a beleza do crepúsculo
Não são mais belos que a música de seus lábios
Você é o sopro de vida do mundo...
Tento imaginar você.
Seus sentimentos me vêm
E sua alma cristalina
Exala de seu corpo
Por onde navego delirante.
Minhas palavras ante - românticas
Não são nada para seus gestos romanescos.
Ao som de um piano
Com flauta ao fundo
Imagino-lhe caminhando nas notas.
O dedo que corre ao piano
Toca-lhe sensivelmente
E o romantismo da flauta
Penetra em seu interior.
Música sai de seus lábios em sussurros...
O resplandecer do sol
E a beleza do crepúsculo
Não são mais belos que a música de seus lábios
Você é o sopro de vida do mundo...
1 032
Pablo Neruda
Sonata
Oh clara de lua, oh estátua pequena e escura,
oh sal, oh colher que tira o aroma do mundo e o entorna em minhas veias,
oh cântara negra que canta à luz do orvalho,
oh pedra do rio enterrado de onde voava e volvia a noite,
oh pâmpano de água, peral de cintura fragrante,
oh tesoureira do bosque, oh pomba da primavera,
oh mensagem que deixa o sereno nos dedos da madressilva,
oh metálica noite de Agosto com argolas de prata no céu,
oh meu amor, pareces com o trem que atravessa o outono em Temuco,
oh minha amada perdida em minhas mãos como um anel na neve,
oh entendida nas cordas do vento cor de guitarra
que desce das cordilheiras, junto a Nahuelbuta chorando,
oh função matinal da abelha buscando um segredo,
oh edifício que o âmbar e a água construíram para que habitasse
eu exigente inquilino que esquece a chave e adormece à porta,
oh corneta levada na garupa celestial do tritão submarino,
oh guitarra de greda soando na paz poeirenta do Chile,
oh frigideira de azeite e cebola, vaporosa, cheirosa, saborosa,
oh expulsada da geometria por arte de nuvem e quadril,
oh máquina de água, oh relógio de passarada,
oh minha amorosa, minha negra, minha branca, minha pena, minha vassoura,
oh minha espada, meu pão e meu mel, minha canção, meu silêncio, minha vida.
oh sal, oh colher que tira o aroma do mundo e o entorna em minhas veias,
oh cântara negra que canta à luz do orvalho,
oh pedra do rio enterrado de onde voava e volvia a noite,
oh pâmpano de água, peral de cintura fragrante,
oh tesoureira do bosque, oh pomba da primavera,
oh mensagem que deixa o sereno nos dedos da madressilva,
oh metálica noite de Agosto com argolas de prata no céu,
oh meu amor, pareces com o trem que atravessa o outono em Temuco,
oh minha amada perdida em minhas mãos como um anel na neve,
oh entendida nas cordas do vento cor de guitarra
que desce das cordilheiras, junto a Nahuelbuta chorando,
oh função matinal da abelha buscando um segredo,
oh edifício que o âmbar e a água construíram para que habitasse
eu exigente inquilino que esquece a chave e adormece à porta,
oh corneta levada na garupa celestial do tritão submarino,
oh guitarra de greda soando na paz poeirenta do Chile,
oh frigideira de azeite e cebola, vaporosa, cheirosa, saborosa,
oh expulsada da geometria por arte de nuvem e quadril,
oh máquina de água, oh relógio de passarada,
oh minha amorosa, minha negra, minha branca, minha pena, minha vassoura,
oh minha espada, meu pão e meu mel, minha canção, meu silêncio, minha vida.
612
António Ramos Rosa
O Seio Jovem
O seio jovem,
móvel repouso de onda
e de universo
que tudo diz em sua redondez
e no côncavo escuro o olhar elide.
Diferença pura
em que o olhar não sustém
o seio a apagar-se
em branco esplendor.
Por isso se olha de novo
e de o ver não se vê.
Quem o vê quer vê-lo.
Vê-lo é só desejo
de vê-lo?
Ou de anular tudo o mais?
Ser só o olhar de um seio?
Ser só o branco círculo
túmido, girando
até à louca perfeição
da felicidade?
Mas quem o vê não o vê.
móvel repouso de onda
e de universo
que tudo diz em sua redondez
e no côncavo escuro o olhar elide.
Diferença pura
em que o olhar não sustém
o seio a apagar-se
em branco esplendor.
Por isso se olha de novo
e de o ver não se vê.
Quem o vê quer vê-lo.
Vê-lo é só desejo
de vê-lo?
Ou de anular tudo o mais?
Ser só o olhar de um seio?
Ser só o branco círculo
túmido, girando
até à louca perfeição
da felicidade?
Mas quem o vê não o vê.
1 107
Maurício Batarce
A Sombra de Meu Viver
Penso em você nesse momento...
Seus olhos iluminam minhas noites,
Seus cabelos esvoaçam ao vento
E sua voz me chama a todo momento.
Meu mundo está a seus pés
E navego em lago dourado...
Seus olhos superam o poder das marés
E carregam meus versos minguados.
Você é tão bela quanto a natureza
E tem sonhos tão leves quanto a bruma.
Foi feita com extrema beleza
E tem a maciez da pluma.
Não existem palavras para você
Que é a essência de meu ser;
Não existem formas para me expressar
Porque você é a sombra de meu viver...
Seus olhos iluminam minhas noites,
Seus cabelos esvoaçam ao vento
E sua voz me chama a todo momento.
Meu mundo está a seus pés
E navego em lago dourado...
Seus olhos superam o poder das marés
E carregam meus versos minguados.
Você é tão bela quanto a natureza
E tem sonhos tão leves quanto a bruma.
Foi feita com extrema beleza
E tem a maciez da pluma.
Não existem palavras para você
Que é a essência de meu ser;
Não existem formas para me expressar
Porque você é a sombra de meu viver...
781
Sérgio Mattos
A Musa
E eis pela vidraça,
sem nenhum disfarce,
eu a vi cheia de graça.
sem nenhum disfarce,
eu a vi cheia de graça.
1 011
Maurício B. Moisés
Fotografia
A natureza sendo uma fotografia viva
Torna a fotografia uma natureza morta.
Mesmo assim ambas são belas,
Pois uma é a nossa vida,
E a outra a lembrança dela.
Torna a fotografia uma natureza morta.
Mesmo assim ambas são belas,
Pois uma é a nossa vida,
E a outra a lembrança dela.
545
Sophia de Mello Breyner Andresen
Iv. o Encontro
Redonda era a tarde
Sossegada e lisa
Na margem do rio
Alguém se despia.
Sozinho o cigano
Sozinho na tarde
Na margem do rio
Seu corpo surgia
Brilhante da água
Semelhante à lua
Que se vê de dia
Semelhante à lua
E semelhante ao brilho
De uma faca nua.
Redonda era a tarde.
Sossegada e lisa
Na margem do rio
Alguém se despia.
Sozinho o cigano
Sozinho na tarde
Na margem do rio
Seu corpo surgia
Brilhante da água
Semelhante à lua
Que se vê de dia
Semelhante à lua
E semelhante ao brilho
De uma faca nua.
Redonda era a tarde.
1 737
Carlos Drummond de Andrade
Mrs. Cawley
Vem a americana com seu fox terrier,
vestido róseo desenvolto,
loura em mata morena, sol de milho,
sorriso aberto em português estropiado,
mas tão linda!
linda de soluçar
de apunhalar
meu assombro caipira colegial.
Vem a americana com o marido,
visita
as famílias importantes dos senhores de terras.
Seu sorriso compra as terras, compra tudo
fácil, no deslumbramento.
O americano, mero aposto circunstancial.
O americano, que me importa?
Daria, se tivesse, um reino inteiro
para ter esta mulher a vida inteira
sorrindo a boca inteira
só para mim na sala de visitas.
vestido róseo desenvolto,
loura em mata morena, sol de milho,
sorriso aberto em português estropiado,
mas tão linda!
linda de soluçar
de apunhalar
meu assombro caipira colegial.
Vem a americana com o marido,
visita
as famílias importantes dos senhores de terras.
Seu sorriso compra as terras, compra tudo
fácil, no deslumbramento.
O americano, mero aposto circunstancial.
O americano, que me importa?
Daria, se tivesse, um reino inteiro
para ter esta mulher a vida inteira
sorrindo a boca inteira
só para mim na sala de visitas.
1 121