Poemas neste tema

Beleza

João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

Camarada diamante!

Não sou um diamante nato
nem consegui cristalizá-lo:
se ele te surge no que faço
será um diamante opaco
de quem por incapaz do vago
quer de toda forma evitá-lo,
senão com o melhor, o claro,
do diamante, com o impacto:
com a pedra, a aresta, com o aço
do diamante industrial, barato,
que incapaz de ser cristal raro
vale pelo que tem de cacto.

4 055
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Hortênsia

A professora me ensina
que Hortênsia é saxifragácea.
Mas no moreno de Hortênsia,
na cabeleira de Hortênsia,
no busto e buço de Hortênsia,
o que eu diviso é uma graça
mais estranha que a palavra
saxifragácea.
Hortênsia, jardim trancado,
onde sei que o namorado
percorre umbrosos canteiros,
contando depois pra gente.
Oi namorada dos outros,
oi outros que não se calam,
fazem só para contar!
O namorado de Hortênsia
me ensina coisas diversas
do ensino da escola pública.
Eu sei, eu percebo, eu sinto
que Hortênsia (existe a palavra?)
é sexifragrância.
1 391
Renata Trocoli

Renata Trocoli

Moreno

Moreno

Lá vem meu amor chegando.
Ele veio para me envolver em seus braços,
me pegar no colo, me beijar com carinho,
me enlouquecer os desejos como só ele sabe fazer.

Lá vem ele chegando pertinho,
me olhando e me tocando devagarinho.
Com sua pele morena, seus olhos tão negros
e seus lábios macios.

Sua voz me embala,
e me abraçando me diz com ternura
que me ama e que me quer só pra ele...
Como se eu quisesse ser de mais outro alguém!!!

E quando ele sorri!??
Não há nada mais lindo que seu sorriso!
Um sorriso sincero e delicado,
que ilumina seu rosto...

Esse rosto de um doce menino,
que esconde bem dentro de seu olhar
a malícia de alguém que
não mais um menino é.

Vem então ele a me amar
como nunca alguém foi capaz.
E me envolve com esse carinho diferente
que só ele sabe me dar!

865
Renata Trocoli

Renata Trocoli

Princesa dos Cabelos Negros

Princesa dos Cabelos Negros

Princesa dos cabelos negros,
compridos e perfumados.
Venha até mim,
me abraça e
me ama como se fosse teu único amor,
teu único anseio.
Abraça-me com força
e me mostra o caminho do amor.
Caminho este de alegria e suavidade ...
Suavidade de tua pele branca,
doce, perfumada de jasmim.
Toca com tuas pequeninas mãos meu rosto,
me faz um carinho e
me beija com teus lábios macios.
Deseja me amar para sempre
E este sempre durara
enquanto estiver a meu lado
O Linda Princesa
dos cabelos negros.

1 936
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Partida

I

Como uma flor incerta entre os teus dedos
Há harmonia de um bailar sem fim,
E tens o silêncio indizível dum jardim
Invadido de luar e de segredos.
II

Nas tuas mãos trazias o meu mundo.
Para mim dos teus gestos escorriam
Estrelas infinitas, mar sem fundo
E nos teus olhos os mitos principiam.

Em ti eu conheci jardins distantes
E disseste-me a vida dos rochedos
E juntos penetrámos nos segredos
Das vozes dos silêncios dos instantes.
III

Os teus olhos são lagos e são fontes,
E em todo o teu ser existe
O sonho grave, nítido e triste
De uma paisagem de pinhais e montes.

Na tua voz as palavras são nocturnas
E todas as coisas graves, grandes, taciturnas
A ti são semelhantes.
3 823
Mauricio Segall

Mauricio Segall

Como é triste

Como é
triste
Admirar as garotas de Ipanema
Que pensam que sabem muito
Mas sabem apenas
Que o sol queima
E a praia brozeia
Que cuca é careta
Legal é o gozo
Na liberdade do corpo
Desnudo de tudo
No culto de si
No altar do formoso.

Na passarela as zona sul
O desfile contínuo
Das coxas carnudas
No andar lascivo
Das peles douradas
Das nádegas fofas
Da aerrogância pontuda
Dos bicos dos seios
Dos lábios salientes
Nas tangas colantes
Das pernas abertas
Das pernas fechadas no bar da patota
Das pernas vibrantes
No footing da areia.

A dureza precoce
Nos traços da face
Nos olhares sabidos
De sábia malícia
Mas burras do mundo
Ignorantes de tudo
Prenúncios do nada
Prenúncios doídos.

Quanto desejo frio/quente impregnados de pena
Suscitam as esplendorosas estátuas de Ipanema.

918
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Abril

Vinhas descendo ao longo das estradas,
Mais leve do que a dança
Como seguindo o sonho que balança
Através das ramagens inspiradas.

E o jardim tremeu,
Pálido de esperança.
3 282
Raquel Naveira

Raquel Naveira

Elegância Suprema

Caminho por um tapete violeta
Estendido sobre nuvens.
Como é suntuosa tua morada!
Gotículas de chuva
Cristalizam-se em diamantes
E raios de sol
Pendem das colunas
Como correntes de ouro!

Meu rei, meu Senhor!
Quanto fausto!
Quanto brilho
Na tua túnica,
Na tua coroa,
No escabelo
A teus pés!
Por que ocultaste até o último instante que eras rei?
Por que não trouxeste teu séquito de anjos?
Tuas hordas,
Teus leões,
Tuas trombetas?

Por que te abandonaste a ti mesmo?
Indefeso,
Preso ao madeiro
Como fruto apodrecido?

Meu rei, meu Senhor!
Que suprema elegância!
O manto,
O cetro,
O olhar que me lanças
E que gera e mim a ânsia de combate,
A fé segura,
O equilíbrio.

Como eu poderia adivinhar
Que um homem era Deus?

1 261
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

As meninas

ANA MARIA É BELA
ANASTÁCIA É SERENA;
são frutos da mesma terra

ANA MARIA NÃO PENSA
ANASTÁCIA SONHA SEMPRE.
Serena calma de poeta

Anastácia possui
uma alma bela,
Ana Maria
só é bela.

Ambos são belas
e fruto da mesma terra

1 015
Paulo Augusto Rodrigues

Paulo Augusto Rodrigues

Astral

Energia incandescente
Baixando ao fundo.
Algo cosméticamente simples
Retocado de pureza.

O sentido ingênuo da admiração aguçado
Pela beleza repetidamente nova.
A indecência do vermelho
A força do amarelo.

E a nós, só nos cabe ver e sentir
Enquanto dure este momento mágico.

Baixe sol,
Porque amanhã quero vê-lo nascer.

962
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Morta

Morta,
Como és clara,
Que frescura ficou entre os teus dedos…

És uma fonte,
Com pedras brancas no fundo,
És uma fonte que de noite canta
E silenciosamente
Vêm peixes de prata à tona de água.

Morta como és clara,
E florida…

És a brisa
Que num gesto de adeus passa nas folhas,
És a brisa que leva os perfumes e os entorna,
És os passos leves da brisa
Quando nas ruas não passa mais ninguém!

És um ramo de tília onde o silêncio floresce,
És um lago onde as imagens se inquietam,
És a secreta nostalgia duma festa
Que nos jardins murmura.

Cantando
Com as mãos deslizando pelos muros
Passas colhendo
O sangue vermelho e maduro das amoras
Vais e vens
Solitária e transparente
E a memória das coisas te acompanha.
Morta como és clara,
E perdida!

És a meia-noite da noite,
És a varanda voltada para o vento,
És uma pena solitária e lisa.

As sombras recomeçam a dançar,
O perfume das algas enche o ar
E as ramagens encostam-se às janelas:

Suaves cabelos de pena tem a brisa.
Sozinha passas no fim das avenidas.
Não mostras o teu rosto,
Passas de costas com um vestido branco.

Como tu és leve e doce como um sono!
O sopro da noite enche-se de angústia
E de mim sobem palavras solitárias:

És o perfume de infância que há nas rochas,
És o vestido de infância que há nos campos,
És a pena de infância que há na noite.

Subitamente
Agarro perco a forma do teu rosto:

Como tu és fresca!
Passas e dos teus dedos correm fontes.
Como tu és leve,
Mais leve que uma dança!

Mal chegaste, mal voltaste, mal te vi
Já no fundo dos caminhos te extinguiste:

Areia lisa e branca que nenhum passo pisa
Pena lisa
Angústia fonte fresca e brisa.
3 382
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Na Cidade da Realidade Encontrada E Amada

Na cidade da realidade encontrada e amada
Caminhei com a brisa pelas ruas
Havia muros brancos e janelas pintadas

As madressilvas floriam e brilhavam
Os limoeiros de folhas polidas
Caiu uma folha de nespereira sobre o tanque

E o tempo veio ao meu encontro confundindo
Os meus gestos e os teus nos seus
Eram mil e mil noites uma após outra surgindo
E o meu rosto flutuava entre a manhã e a tarde

E as esquinas ergueram as suas sombras azuis
Ao longo de um silêncio de árabe
E do Abril dos campos veio um perfume inteiro de searas
E quando abri a porta as estrelas surgiram
*

Na cidade da realidade encontrada e amada
O sol dá lentamente a volta às praças e aos quartos
Para varrer o chão e preparar a noite
Que é redonda azul e atenta

E a porta da cidade é feita de dois barcos

Oh quem dirá o verde o azul e o fresco
O hálito da água e o perfume do vento
Vê-se a manhã criar uma por uma cada coisa
Vê-se quebrar a onda da noite transparente.
2 137
Rogério F. P.

Rogério F. P.

Como consegues, em tua mais pura inocência

Como consegues, em tua mais pura inocência
arrancares do meu peito toda a arrogância
e incoerência? Tu que transmutas e reflete
tudo, naquilo que é mais belo.

Todas as tristes vivências em minhalma
contidas lhe dão espaço, amada amiga.
Todo sofrimento e desventuras,
as mortes e amarguras

de nada significam
quando comparadas a ti...
Por seres bela, e mesmo
assim sincera,

por teres a beleza inspiradora
da mais bonita deusa,
a ti minha amada
me entrego agora...

E não me envergonho então
no mais ébrio céu de outono
a fazer-te declarações de amor
e lhe dizer que a amo!

972
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Brasília

a Gelsa e Álvaro Ribeiro da Costa
Brasília
Desenhada por Lúcio Costa Niemeyer e Pitágoras
Lógica e lírica
Grega e brasileira
Ecuménica
Propondo aos homens de todas as raças
A essência universal das formas justas
Brasília despojada e lunar como a alma de um poeta muito jovem
Nítida como Babilónia
Esguia como um fuste de palmeira
Sobre a lisa página do planalto
A arquitectura escreveu a sua própria paisagem
O Brasil emergiu do barroco e encontrou o seu número
No centro do reino de Ártemis
— Deusa da natureza inviolada —
No extremo da caminhada dos Candangos
No extremo da nostalgia dos Candangos
Athena ergueu sua cidade de cimento e vidro
Athena ergueu sua cidade ordenada e clara como um pensamento
E há no arranha-céus uma finura delicada de coqueiro
3 740
Maurício B. Moisés

Maurício B. Moisés

Fotografia

A natureza sendo uma fotografia viva
Torna a fotografia uma natureza morta.
Mesmo assim ambas são belas,
Pois uma é a nossa vida,
E a outra a lembrança dela.

545
Rogério F. P.

Rogério F. P.

Oh, mulher triste!

Oh, mulher triste!
Sua tez fúnebre relembra
a palidez das mais altas montanhas
em seu cume. E ao mais álgido

mármore causas inveja.
Sopesa as tristezas infindas provenientes da alma.
E a angústia resultante aplacas com a calma, que
pela vastidão, se percebe embotados nesses olhos de anil.

Oh, mulher de olhos fulgurantes!
Se a morte tivesse consciência
de sua implícita beleza
jamais a levaria nesta noite calma de amantes.

774
Manuel Botelho de Oliveira

Manuel Botelho de Oliveira

Vendo a Anarda Depõe o Sentimento

A serpe, que adornando várias cores,
com passos mais oblíquos, que serenos,
entre belos jardins, prados amenos,
é maio errante de torcidas flores;

se quer matar da sede os desfavores,
Os cristais bebe com a peçonha menos,
por que não morra com os mortais venenos,
se acaso gosta dos vitais licores.

Assim também meu coração queixoso,
na sede ardente do feliz cuidado
bebe cos olhos teu cristal formoso;

Pois para não morrer no gosto amado,
depõe logo o tormento venenoso,
se acaso gosta o cristalino agrado.

1 967
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

De Pedra E Cal

De pedra e cal é a cidade
Com campanários brancos
De pedra e cal é a cidade
Com algumas figueiras

De pedra e cal são
Os labirintos brancos
E a brancura do sal
Sobe pelas escadas

De pedra e cal a cidade
Toda quadriculada
Como um xadrez jogado
Só com pedras brancas

Um xadrez só de torres
E cavalos-marinhos
Que sacodem as crinas
Sob os olhos das moiras

Caminha devagar
Porque o chão é caiado
3 064
Sérgio Mattos

Sérgio Mattos

A Musa

E eis pela vidraça,
sem nenhum disfarce,
eu a vi cheia de graça.

1 011
Cruz e Sousa

Cruz e Sousa

MADONA DA TRISTEZA

Últimos Sonetos

Quando te escuto e te olho reverente
e sinto a tua graça triste e bela
de ave medrosa, tímida, singela,
fico a cismar enternecidamente.

Tua voz, teu olhar, teu ar dolente
toda a delicadeza ideal revela
e de sonhos e lágrimas estrela
o meu ser comovido e penitente.

Com que mágoa te adoro e te contemplo,
ó da Piedade soberano exemplo,
flor divina e secreta da Beleza!

Os meus soluços enchem os espaços,
quando te aperto nos estreitos braços,
solitária madona da Tristeza!

3 085
Regina Souza Vieira

Regina Souza Vieira

NJINGA

Com três palavras granito
Componho o teu poema

Força de penedo
Vontade do silex
Diplomacia rochosa

Do teu reinado
Entre o sólido magma
Defendias sem sabê-lo

Um quadrado imenso
De águas diamantinas
Areias vivas dispersas
Abismos de petróleo ensolarado
E povos
Povos verdes de futuro

Um só azul o berço
Em teu robusto colo
Veludo negro
Mulher de pedra eterna.
817
Charles Baudelaire

Charles Baudelaire

AS JÓIAS

A amada estava nua e, por ser eu seu amante,
Das jóias só guardara as que o bulício inquieta,
Cujo rico esplendor lhe dava esse ar triunfante
Que em seus dias de glória a escrava moura afeta.

Quando ela dança e entorna um timbre acre e sonoro,
Este universo mineral que à luz figura
Ao êxtase me leva, e é com furor que adoro
As coisas em que o som ao fogo se mistura.

Ela estava deitada e se deixava amar,
E do alto do divã, imersa em paz, sorria
A meu amor profundo e doce como o mar,
Que ao corpo, como à escarpa, em ondas lhe subia.

O olhar cravado em mim, como um tigre abatido,
Com ar vago e distante ela ensaiava poses,
E o lúbrico fervor à candidez unido
Punha-lhe um novo encanto às cruéis metamorfoses.

E sua perna e o braço, a coxa e os rins, untados
Como de óleo, imitar de um cisne a fluida linha,
Passavam diante de meus olhos sossegados;
E o ventre e os seios, como cachos de uma vinha,

Se aproximavam, mais sutis que Anjos do Mal,
Para agitar minha alma enfim posta em repouso,
Ou arrancá-la então a rocha de cristal
Onde, calma e sozinha, ela encontra pouso.

Como se a luz de um novo esboço, unidade eu via
De Antíope a cintura a um busto adolescente,
De tal modo que os quadris moldavam-lhe a bacia.
E a maquilagem lhe era esplêndida e luzente!

- E estando a lamparina agora agonizante,
Como na alcova houvesse a luz só da lareira
Toda vez que emitia um suspiro faiscante,
Inundava de sangue essa pele trigueira.

3 866
Almandrade

Almandrade

IV

O umbigo transborda
o éter
alva, lisa
sem marca
de cansaço
epiderme de mulher
o mar do nome
doce, leve
peixe
a dança refresca
o belo namora
a boca e as pernas.

954
Castro Alves

Castro Alves

Resposta de Machado de Assis

Rio de Janeiro, 29 de fevereiro de 1868.

Exmo. Sr. — É boa e grande fortuna conhecer um poeta; melhor e maior fortuna é recebê-lo das mãos de V. Exa, com uma carta que vale um diploma, com uma recomendação que é uma sagração. A musa do Sr. Castro Alves não podia ter mais feliz intróito na vida literária. Abre os olhos em pleno Capitólio. Os seus primeiros cantos obtêm o aplauso de um mestre. — Mas se isto me entusiasma, outra coisa há que me comove e confunde, é a extrema confiança, que é ao mesmo tempo um motivo de orgulho para mim. De orgulho, repito, e tão inútil fera dissimular esta impressão, quão arrojado seria ver nas palavras de V. Exa. mais do que uma animação generosa. — A tarefa da crítica precisa destes parabéns; é tão árdua de praticar, já pelos estudos que exige, já pelas lutas que impõe, que a palavra eloqüente de um chefe é muitas vezes necessária para reavivar as forças exaustas e reerguer o ânimo abatido. — Confesso francamente, que, encetando os meus ensaios de crítica, fui movido pela idéia de contribuir com alguma coisa para a reforma do gosto que se ia perdendo, e efetivamente se perde. Meus limitadíssimos esforços não podiam impedir o tremendo desastre. Como impedi-lo, se, por influência irresistível, o mal vinha de fora, e se impunha ao espírito literário do país, ainda mal formado e quase sem consciência de si? Era difícil plantar as leis do gosto, onde se havia estabelecido uma sombra de literatura, sem alento nem ideal, falseada e frívola, mal imitada e mal copiada. Nem os esforços dos que, como V. Exa, sabem exprimir sentimentos e idéias na língua que nos legaram os mestres clássicos, nem esses puderam opor um dique à torrente invasora. Se a sabedoria popular não mente, a universalidade da doença podia dar-nos alguma consolação quando não se antolha remédio ao mal. — Se a magnitude da tarefa era de assombrar espíritos mais robustos, outro risco havia: e a este já não era a inteligência que se expunha, era o caráter. Compreende V. Ex.a que, onde a crítica não é instituição formada e assentada, a análise literária tem de lutar contra esse entranhado amor paternal que faz dos nossos filhos as mais belas crianças do mundo. Não raro se originam ódios onde era natural travarem-se afetos. Desfiguram-se os intentos da crítica, atribui-se à inveja o que vem da imparcialidade: chama-se antipatia o que é consciência. Fosse esse, porém, o único obstáculo, estou convencido que ele não pesaria no ânimo de quem põe acima do interesse pessoal o interesse perpétuo da sociedade, porque a boa fama das musas o é também. — Cansados de ouvir chamar bela à poesia, os novos atenienses resolveram bani-la da república. — O elemento poético é hoje um tropeço ao sucesso de uma obra. Aposentaram a imaginação. As musas, que já estavam apeadas dos templos, foram também apeadas dos livros. A poesia dos sentidos veio sentar-se no santuário e assim generalizou-se uma crise funesta às letras. Que enorme Alfeu não seria preciso desviar do seu curso para limpar este presepe de Augias? — Eu bem sei que no Brasil, como fora dele, severos espíritos protestam com o trabalho e a lição contra esse estado de coisas: tal é, porém, a feição geral da situação, ao começar a tarde do século. Mas sempre há de triunfar a vida inteligente. Basta que se trabalhe sem trégua. Pela minha parte, estava e está acima das minhas posses semelhante papel, contudo. entendia e entendo — adotando a bela definição do poeta que V. Exa dá em sua carta — que há para o cidadão da arte e do belo deveres imprescritíveis, e que, quando uma tendência do espírito o impele para certa ordem de atividade, é sua obrigação prestar esse serviço às letras. — Em todo o caso não tive imitadores. Tive um antecessor ilustre, apto para este árduo mister, erudito e profundo, que teria prosseguido no caminho das suas estréias, se a imaginação possante e vivaz não lhe estivesse exigindo as criações que depois nos deu. Será preciso acrescentar que aludo a V. Ex.a? — Escolhendo-me para Virgílio do jovem Dante que nos vem da pátria de Moema, impõe-me um dever, cuja responsabilidade seria grande se a própria carta de V. Exa não houvesse aberto ao neófito as portas da mais vasta publicidade. A análise pode agora esmerilhar nos escritos do poeta belezas e descuidos. O principal trabalho está feito. — Procurei o poeta cujo nome havia sido ligado ao meu, e, com a natural ansiedade que nos produz a notícia de um talento robusto, pedi-lhe que me lesse o seu drama e os seus versos. — Não tive, como V. Exa, a fortuna de os ouvir diante de um magnífico panorama. Não se rasgavam horizontes diante de mim: não tinha os pés nessa formosa Tijuca, que V. Exa chama um escabelo entre a nuvem e o pântano. Eu estava no pântano, em torno de nós agitava-se a vida tumultuosa da cidade. Não era o ruído das paixões nem dos interesses; os interesses e as paixões tinham passado a vara à loucura: estávamos no carnaval. — No meio desse tumulto abrimos um oásis de solidão. — Ouvi o Gonzaga e algumas poesias. — V. Exa já sabe o que é o drama e o que são os versos, já os apreciou consigo, já resumiu a sua opinião. Esta carta, destinada a ser lida pelo público, conterá as impressões que recebi com a leitura dos escritos do poeta. — Não podiam ser melhores as impressões. Achei uma vocação literária, cheia de vida e robustez, deixando antever nas magnificências do presente as promessas do futuro. Achei um poeta original. O mal da nossa poesia contemporânea é ser copista — no dizer, nas idéias e nas imagens. Copiá-las é anular-se. A musa do Sr. Castro Alves tem feição própria. Se se adivinha que a sua escola é a de Vítor Hugo, não é porque o copie servilmente, mas porque uma índole irmã levou-o a preferir o poeta das Orientais ao poeta das Meditações. Não lhe aprazem certamente as tintas brancas e desmaiadas da elegia; quer antes as cores vivas e os traços vigorosos da ode. — Como o poeta que tomou por mestre, o Sr. Castro Alves canta simultaneamente o que é grande e o que é delicado, mas com igual inspiração e método idêntico a pompa das figuras, a sonoridade do vocábulo, uma forma esculpida com arte, sentindo-se por baixo desses lavores o estro, a espontaneidade, o ímpeto. Não é raro andarem separadas estas duas qualidades da poesia: a forma e o estro. Os verdadeiros poetas são os que as têm ambas. Vê-se que o Sr. Castro Alves as possui; veste as suas idéias com roupas finas e trabalhadas. O receio de cair em um defeito, não o levará a cair no defeito contrário? Não me parece que lhe haja acontecido isso; mas indico-lhe o mal, para que fuja dele. É possível que uma segunda leitura dos seus versos me mostrasse alguns senões fáceis de remediar; confesso que os não percebi no meio de tantas belezas. — O drama, esse li-o atentamente; depois de ouvi-lo, li-o, e reli-o, e não sei bem se era a necessidade de o apreciar, se o encanto da obra, que me demorava os olhos em cada página do volume. — O poeta explica o dramaturgo. Reaparecem no drama as qualidades do verso; as metáforas enchem o período; sente-se de quando em quando o arrojo da ode. Sófocles pede as asas a Píndaro. Parece ao poeta que o tablado é pequeno; rompe o céu de lona e arroja-se ao espaço livre e azul. — Esta exuberância que V. Exa com justa razão atribui à idade, concordo que o poeta há de reprimi-la com os anos. Então conseguirá separar completamente a língua lírica da língua dramática; e do muito que devemos esperar temos prova e fiança no que nos dá hoje. — Estreando no teatro com um assunto histórico, e assunto de uma revolução infeliz, o Sr. Castro Alves consultou a índole do seu gênio poético. Precisava de figuras que o tempo houvesse consagrado; as da Inconfidência tinham além disso a auréola do martírio. Que melhor assunto para excitar a piedade? A tentativa abortada de uma revolução, que tinha por fim consagrar a nossa independência, merece do Brasil de hoje aquela veneração que as raças livres devem aos seus Espártacos. O insucesso fê
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