Poemas neste tema

Beleza

Almeida Garrett

Almeida Garrett

Não te amo

Não te amo, quero-te: o amor vem dalma.
E eu nalma --- tenho a calma,
A calma --- do jazigo.
Ai! não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida --- nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai! não te amo, não!

Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.

Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?

E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau, feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.

E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.

1 968
José de Anchieta

José de Anchieta

A Santa Inês

I

Cordeirinha linda,
como folga o povo
porque vossa vinda
lhe dá lume novo!

Cordeirinha santa,
de Iesu querida,
Vossa santa vinda
o diabo espanta

Por isso vos canta,
com prazer, o povo,
porque vossa vinda
lhe dá lume novo.

Nossa culpa escura
fugirá depressa,
pois vossa cabeça
vem com luz tão pura.

Vossa formosura
honra é do povo,
porque vossa vinda
lhe dá lume novo.

Virginal cabeça
pola fé cortada
com vossa chegada,
já ninguém pereça.

Vinde mui depressa
ajudar o povo,
pois com vossa vinda
lhe dais lume novo.

Vós sois, cordeirinha,
de Iesu formoso,
mas o voso esposo
já vos fez rainha,

Também padeirinha
sois de nosso povo,
pois, com vossa vinda,
lhe dais lume novo.

II

Não é d'Alentejo
este vosso trigo,
mas Jesus amigo
é vosso desejo.

Morro porque vejo
que este nosso povo
não anda faminto
deste trigo novo.

Santa padeirinha,
morta com cutelo,
sem nenhum farelo
é vossa farinha.

Ela é mezinha
com que sara o povo,
que, com vossa vinda,
terá trigo novo.

O pão que amassastes
dentro em vosso peito,
é o amor perfeito
com que a Deus amastes.

Deste vos fartastes,
deste dais ao povo,
porque deixe o velho
polo trigo novo.

Não se vende em praça
este pão de vida,
porque é comida
que se dá de graça.

Ó preciosa massa!
Ó que pão tão novo
que, com vossa vinda,
quer Deus dar ao povo!

Ó que doce bolo,
que se chama graça!
Quem sem ele passa
é mui grande tolo.

Homem sem miolo,
qualquer deste povo,
que não é faminto
deste pão tão novo!

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In: ANCHIETA. Poesias: manuscrito do século XVI, em português, castelhano, latim e tupi. Transcrições, trad. e notas M. de L. de Paula Martins. São Paulo: Comissão do IV Centenário da Cidade, 1954
2 500
Tite de Lemos

Tite de Lemos

como algum astro mestre

como algum astro mestre
apontado nos mapas celestes

um rayito de sol
tostando a testa dos homens sós

como um barco à deriva
uma lady, uma dona, uma diva

uma lasca de noz
no agridoce metal da sua voz

um afago nos ramos mais altos das árvores
uma rosa na sala das armas

como um vitral
infiltrado de luz natural

aeroplano em céu noturno
a letra a de aurora, puro ouro

O ouro. Para Antonio Carlos Jobim


In: LEMOS, Tite de. Corcovado Park. Pref. Armando Freitas Filho. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1979. (Poesia brasileira)
1 139
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Mrs. Cawley

Vem a americana com seu fox terrier,
vestido róseo desenvolto,
loura em mata morena, sol de milho,
sorriso aberto em português estropiado,
mas tão linda!
linda de soluçar
de apunhalar
meu assombro caipira colegial.

Vem a americana com o marido,
visita
as famílias importantes dos senhores de terras.
Seu sorriso compra as terras, compra tudo
fácil, no deslumbramento.

O americano, mero aposto circunstancial.
O americano, que me importa?
Daria, se tivesse, um reino inteiro
para ter esta mulher a vida inteira
sorrindo a boca inteira
só para mim na sala de visitas.
1 121
Luís António Cajazeira Ramos

Luís António Cajazeira Ramos

O Jogo das Contas de Vidro

Aos poetas que li.

Qual alvo tisne, a lua tinge a noite
em tons argênteos, grises, plúmbeos, brancos.
A escuridão se esquina e cinge os flancos,
mal traçando o recanto em que se acoite.

O luar, com mãos de seda, audácia e zelo,
retira à noite o véu que a cobre espúrio;
e ilumina, de lilás a purpúreo,
tudo o que ao sol vai do azul ao vermelho.

À lua, o chão rural é mais bucólico
e o mundo urbano é um tanto mais insólito
do que revelam ser à luz do sol?

Talvez... Assim, qual lua, sem luz própria,
do corpo da poesia o poeta é cópia
— sinal especulado do farol.

974
Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

Simples Cerejas

Eram apenas cerejas na cesta

ao sorvê-las senti

algo dentro de mim.

Um sino libertando os olhos

do velho telhado.

1 029
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Condenada

Impossível casar a moça
bela branca rica
na terra onde príncipes não saltam
do armorial para pedir-lhe a mão
jamais.

Passam cometas de olhar astuto,
canastras sortidas.
Irão comprar a moça, mercadoria
sem preço na Terra?
Jamais.

Passam fazendeiros, botas esculpidas
no estrume, riso ruidoso
de dentes de ouro.
Cuidam levar a moça para saldar
suas hipotecas?
Jamais.

Passam mulatos de fina lábia
e mil apólices federais.
Como deixar que o sangue cruze
na alva barriga de alvas origens?
Jamais.

Condena-se a moça ao casamento
consigo mesma
na noite alvíssima
eternalmente.
1 166
José de Paula Ramos Jr.

José de Paula Ramos Jr.

Epifania

Ninfa da manhã, matinal magia,
miragem na bruma plúmbea.
À margem do trêfego tráfego,
que trepida estremunhado,
esvoaças distraída na calçada,
como um langoroso sonho.
..........................................
Solavancos no meu coração.

988
Renata Trocoli

Renata Trocoli

Princesa dos cabelos negros

Princesa dos cabelos negros,

compridos e perfumados.

Venha at0 mim,

me abraTa e

me ama como se fosse teu nico amor,

teu nico anseio.

AbraTa-me com forTa

e me mostra o caminho do amor.

Caminho este de alegria e suavidade ...

Suavidade de tua pele branca,

doce, perfumada de jasmim.

Toca com tuas pequeninas m2os meu rosto,

me faz um carinho e

me beija com teus l5bios macios.

Deseja me amar para sempre

E este sempre durara

enquanto estiver a meu lado

O Linda Princesa

dos cabelos negros.

1 106
Marco Antônio Rosa

Marco Antônio Rosa

Pobre Aristóteles

Nunca conheci,
por mais que
me esforçasse,
quem tivesse
alma tão bela
quanto a própria face.

923
Romero Tavares da Silva

Romero Tavares da Silva

Saudade

Saudade em mim não falta
Por ter conhecido singela dama
Moça de estirpe tão alta
Que por ela todo o meu ser clama.

A princípio notei seu perfume
Me aproximei e percebi seu encanto
Me enredei em situação tão grave
Mas depois, sua lembrança foi um acalanto.

Acalanto do qual eu fugia
Como antigamente em alto mar temia
O marinheiro, da sereia, o canto.

Ao voltar como cometa ou estrela Dalva
Ela me ofuscou com sua tez tão alva
Que seu fulgor ainda me causa espanto.

887
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Jardim Verde E Em Flor, Jardim de Buxo

Jardim verde e em flor, jardim de buxo
Onde o poente interminável arde
Enquanto bailam lentas as horas da tarde.
Os narcisos ondulam e o repuxo,
Voz onde o silêncio se embala,
Canta, murmura e fala
Dos paraísos desejados,
Cuja lembrança enche de bailados
A clara solidão das tuas ruas.
2 130
Maurício Batarce

Maurício Batarce

A Sonata do Amor

Na noite opaca do luar
Tento imaginar você.
Seus sentimentos me vêm
E sua alma cristalina
Exala de seu corpo
Por onde navego delirante.
Minhas palavras ante - românticas
Não são nada para seus gestos romanescos.
Ao som de um piano
Com flauta ao fundo
Imagino-lhe caminhando nas notas.
O dedo que corre ao piano
Toca-lhe sensivelmente
E o romantismo da flauta
Penetra em seu interior.
Música sai de seus lábios em sussurros...
O resplandecer do sol
E a beleza do crepúsculo
Não são mais belos que a música de seus lábios
Você é o sopro de vida do mundo...

1 032
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Dionysos

Entre as árvores escuras e caladas
O céu vermelho arde,
E nascido da secreta cor da tarde
Dionysos passa na poeira das estradas.

A abundância dos frutos de Setembro
Habita a sua face e cada membro
Tem essa perfeição vermelha e plena,
Essa glória ardente e serena
Que distinguia os deuses dos mortais.
2 443
Roberto Pontes

Roberto Pontes

As Nuvens

As nuvens são sempre puras
em qualquer lugar e tempo.
A rosa-dos-ventos flora
e a ampulheta
filtra tênues detritos
de azul contaminação.
Entre as coisas de perene fluxo
as nuvens são sempre puras.

1 115
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

As Grutas

O esplendor poisava solene sobre o mar. E — entre as duas pedras erguidas numa relação tão justa que é talvez ali o lugar da Balança onde o equilíbrio do homem com as coisas é medido — quase me cega a perfeição como um sol olhado de frente. Mas logo as águas verdes em sua transparência me diluem e eu mergulho tocando o silêncio azul e rápido dos peixes. Porém a beleza não é só solene mas também inumerável. De forma em forma vejo o mundo nascer e ser criado. Um grande rascasso vermelho passa em frente de mim que nunca antes o imaginara. Limpa, a luz recorta promontórios e rochedos. É tudo igual a um sonho extremamente lúcido e acordado. Sem dúvida um novo mundo nos pede novas palavras, porém é tão grande o silêncio e tão clara a transparência que eu muda encosto a minha cara na superfície das águas lisas como um chão.
As imagens atravessam os meus olhos e caminham para além de mim. Talvez eu vá ficando igual à almadilha da qual os pescadores dizem ser apenas água.
Estarão as coisas deslumbradas de ser elas? Quem me trouxe finalmente a este lugar? Ressoa a vaga no interior da gruta rouca e a maré retirando deixou redondo e doirado o quarto de areia e pedra. No centro da manhã, no centro do círculo do ar e do mar, no alto do penedo, no alto da coluna está poisada a rola branca do mar. Desertas surgem as pequenas praias.
Um fio invisível de deslumbrado espanto me guia de gruta em gruta. Eis o mar e a luz vistos por dentro. Terror de penetrar na habitação secreta da beleza, terror de ver o que nem em sonhos eu ousara ver, terror de olhar de frente as imagens mais interiores a mim do que o meu próprio pensamento. Deslizam os meus ombros cercados de água e plantas roxas. Atravesso gargantas de pedra e a arquitectura do labirinto paira roída sobre o verde. Colunas de sombra e luz suportam céu e terra. As anémonas rodeiam a grande sala de água onde os meus dedos tocam a areia rosada do fundo. E abro bem os olhos no silêncio líquido e verde onde rápidos, rápidos fogem de mim os peixes. Arcos e rosáceas suportam e desenham a claridade dos espaços matutinos. Os palácios do rei do mar escorrem luz e água. Esta manhã é igual ao princípio do mundo e aqui eu venho ver o que jamais se viu.
O meu olhar tornou-se liso como um vidro. Sirvo para que as coisas se vejam.
E eis que entro na gruta mais interior e mais cavada. Sombrias e azuis são águas e paredes. Eu quereria poisar como uma rosa sobre o mar o meu amor neste silêncio. Quereria que o contivesse para sempre o círculo de espanto e de medusas. Aqui um líquido sol fosforescente e verde irrompe dos abismos e surge em suas portas.
Mas já no mar exterior a luz rodeia a Balança. A linha das águas é lisa e limpa como um vidro. O azul recorta os promontórios aureolados de glória matinal. Tudo está vestido de solenidade e de nudez. Ali eu quereria chorar de gratidão com a cara encostada contra as pedras.
3 916
Maurício Batarce

Maurício Batarce

A Sombra de Meu Viver

Penso em você nesse momento...
Seus olhos iluminam minhas noites,
Seus cabelos esvoaçam ao vento
E sua voz me chama a todo momento.

Meu mundo está a seus pés
E navego em lago dourado...
Seus olhos superam o poder das marés
E carregam meus versos minguados.

Você é tão bela quanto a natureza
E tem sonhos tão leves quanto a bruma.
Foi feita com extrema beleza
E tem a maciez da pluma.

Não existem palavras para você
Que é a essência de meu ser;
Não existem formas para me expressar
Porque você é a sombra de meu viver...

781
Cruz e Sousa

Cruz e Sousa

Humilde Secreta

Fico parado,
em êxtase suspenso,
Às vezes quando vou considerando
Na humildade simpática, no brando
Mistério simples do teu ser imenso.

Tudo o que aspiro, tudo quanto penso
De estrelas que andam dentro em mim cantando,
Ah! Tudo ao teu fenômeno vai dando
Um céu de azul mais carregado e denso.

De onde não sei tanta simplicidade
Tanta secreta e límpida humildade
Vem ao teu ser como os encantos raros.

Nos teus olhos tua alma transparece...
E de tal sorte que o bom Deus parece
Viver sonhando nos teus olhos claros.

1 752
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Kouros do Egeu

Sorriso sem costura
Inocência de caule
Retrato nu do liso

A Niké de alegria poisava seus pés em cada ilha
1 924
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Estátua de Buda

Os belos traços o inchado beiço a narina fina
O torneado corpo e sua
Beleza tão carnal de magnólia e fruto
Em tão longínqua latitude representam
O príncipe da perfeição e da renúncia

Antes do museu
Em sua frente
Oscilavam sombras e luzes enquanto deslizava
O rio das preces
1987
1 862
Cruz e Sousa

Cruz e Sousa

Mundo Inacessível

Tua alma
lembra um mundo inacessível
Onde só astros e águias vão pairando
Onde se escuta, trágica, cantando,
A sinfonia da amplidão terrível

Toda a alma que não seja alta e sensível
Que asas não tenha para as ir vibrando,
Nessa região secreta penetrando,
Falece, morre, dum pavor incrível!

É preciso ter asas e ter garras
Para atingir aos ruídos de fanfarras
Do mundo da tua alma augusta e forte.
É preciso subir ígneas montanhas
E emudecer entre visões estranhas,
Num sentimento mais sutil que a morte!

2 143
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Olímpia

Ele emergiu do poente como se fosse um deus
A luz brilhava de mais no obscuro loiro do seu cabelo

Era o hóspede do acaso
Reunia mal as palavras
Foram juntos a Olímpia lugar de atletas
Terra à qual pertenciam
Os seus largos ombros as ancas estreitas
A sua força esguia espessa e baloiçada
E a sua testa baixa de novilho
Jantaram ao ar livre num rumor de verão e de turistas
Uma leve brisa passava entre diversos rostos

Ela viu-o depois ficar sozinho em plena rua
Subitamente jovem de mais e como expulso e perdido

Porém na manhã seguinte
Entre as espalhadas ruínas da palestra
Ela viu como o corpo dele rimava bem com as colunas
Dóricas

De qualquer forma em Patras poeirenta
No abafado subir da noite
Tomaram barcos diferentes

De muito longe ainda se via
No cais o vulto espesso baloiçado esguio
Que entre luzes com as sombras se fundia

Sob a desprezível indiferença
Não dela mas dos deuses
2 009
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Landgrave Ou Maria Helena Vieira da Silva

Lugar de convocação como um poema muito antigo.
Lugar de aparição. Diálogo do visual e da visão. Onde do visível emerge a aparição. Assim no verso de Pascoaes vemos «O que há de aparição no seio da aparência».
Um rebrilhar de teatro. Multiplicando a luz imaginária da noite.
A luz inventada da noite.
As paredes, o chão, o tecto avançam para o fundo. Mas no fundo outro espaço desponta. E em cada espelho um novo espaço nasce.
É um lugar onde tudo está atento, denso de memória e de veemência. Lugar de revelação, de espanto e cismar e descobrimento.
As cores estão acesas como as luzes de um teatro à hora da representação. O mundo é «re-presentado», tornado mais uma vez presente. O ar está queimado pelas luzes como o ar de um palco. Todas as cores se reflectem umas nas outras. Há um difuso tremular luminoso como o das escamas de um peixe. Os múltiplos espelhos formam uma rede de escamas: amarelas, cor de barro, cinzentas, rosadas, negras, cor de nácar, cor de pedra. Um pouco atrás as musas da penumbra tocam suas finas flautas. É o rigor da música que estrutura a ordem das formas, as variações, o retomar dos temas, o contraponto da repetição.
Reconhecemos o tão atento olhar. Os olhos muito abertos como os olhos que estão pintados à proa dos barcos. O olhar que busca o aparecer do mundo, o surgir do mundo, o emergir do visível e da visão. Reconhecemos a viagem, a longa navegação, a memória acumulada. A atenção da Sibila, da bússola, do sismógrafo, da antena.
Fevereiro de 1988
1 992
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sunion

Na nudez da luz (cujo exterior é o interior)
Na nudez do vento (que a si próprio se rodeia)
Na nudez marinha (duplicada pelo sal)

Uma a uma são ditas as colunas de Sunion
2 413