Poemas neste tema

Beleza

António Lobo Antunes

António Lobo Antunes

Décimas para Gabriela

MOTE
A tua cor de canela
Me traz impressionado,
São os teus lindos cabelos
Em que me trago amarrado.

GLOSA
Tu és uma flor galante
Do reino de Alexandria,
Esta tua simpatia
É um jardim elegante.
Estes teus olhos brilhantes
É uma flor das mais belas.
Minha querida donzela,
Consagro meu coração
À tua linda feição,
À tua cor de canela.

Tu és uma linda rosa,
Um lírio bem cacheado,
Parece um cravo encarnado
A tua boca mimosa.
Tua face cor-de-rosa
Parece um reino encantado.
Há muitos dias passados,
Que sofro tamanha dor,
Porque este tão grande amor
Me traz impressionado.

Tu és um belo jasmin,
Uma açucena doirada,
Uma lapela bordada,
Tu és um verde alecrim,
Cravo branco do jardim,
Tens a cor que mais desejo.
De perder-te tenho medo,
Porque és um amor sem fim
E o que mais te prende a mim
São os teus lindos cabelos.

De ti não posso esquecer,
Em ti penso noite e dia,
Minha maior alegria
É estar contigo ao meu lado,
Em nosso leito, deitado,
Te acariciando com amor,
Cheirando a ti como à flor,
Matando assim meus desejos,
Enroscado em teus cabelos
Em que me trago amarrado.
(Lavras - Ceará, 1959)

1 180
Angela Santos

Angela Santos

Serenidade

Sobre
areias finas
a deusa adormecida
lembra uma esfinge viva
serenamente abandonada
em seu sono

Indiferente
às tempestades de luz
que o seu sonho assaltam
a deusa toda se ilumina
com as odes de sol que
da alma emanam

E deitada
sobre areias brancas
serena, despertará
iluminada

1 317
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Senhora da Saúde

Seu rosto seria a cintilante claridade
De uma praia
E em sua humana carne brilharia
A luz sem mancha do primeiro dia
2 203
Gláucia Lemos

Gláucia Lemos

Poema para um instante

Surpreendente é amor
brincando no olhar
brisa tremulando em canteiro
de miosótis.

Xale de luar de lua cheia
estremecendo nas águas.

Lúdico mesmo é o olhar
brincando de amor
aventura de criança jogando
um jogo de armar.

Mágico tirando da cartola
pombos e flores de papel crepom.

Encantamento é a presença
iluminando a porta
é alguém à espera
com um sol entre os lábios.

05.06.96

1 202
Sosigenes Costa

Sosigenes Costa

Chuva de Ouro

As begônias estão chovendo ouro,
suspendidas dos galhos da oiticica.
O chão, de pólen, vai fincando louro
e o bosque inteiro redourado fica.

Dir-se-á que se dilui todo um tesouro.
Nunca a floresta amanheceu tão rica.
As begônias estão chovendo ouro,
penduradas dos galhos da oiticica.

Bando de abelhas através do pólen
zinindo num brilhante fervedouro,
as curvas asas transparentes bolem.

E, enquanto giram num bailado belo,
as begônias estão chovendo ouro.
Formosa apoteose do amarelo!

(1928)


Publicado no livro Obra Poética (1958).

In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
1 711
Felipe d’Oliveira

Felipe d’Oliveira

História Leal dos Meus Amores

Eu tive a iniciação para a alegria
num tempo primitivo de paisagem,
em que, num fundo aberto de baía,
da argila das montanhas, emergia
a forma azul de um ídolo selvagem.

Entrei na imensidade dessas águas,
de alma feliz, cantando em tons de trova...
E ao batismo de um sol chispando fráguas
eu jurei esquecer antigas mágoas
numa esperança ideal de vida nova...

A vida, então, logo me deu meu fado,
— meus maus desígnios e meus bons misteres —
e, no decurso desse tempo andado,
os homens quase todos tenho odiado
e tenho amado todas as mulheres.

Foste a primeira que amei, perdida...
E desse amor de insânias e segredos,
conservo ainda na boca ressequida
a saciedade farta e umedecida
dos teus beijos acídulos e azedos.

Depois, glorifiquei, como um profano,
a luxúria pagã do meu instinto,
ritmando, num delírio parnasiano,
os meus beijos lascivos de Romano
numa boca de Vênus de Corinto.

...Meu alabastro engrinaldado de ouro,
não peço mais que tu não me abandones...
Foste, no meu destino, um mau-agouro:
endoudeceu-me o teu cabelo louro,
nessa linda cabeça à Burne Jones...

E ao fim de tanto anseio, ao fim de tanto
intenso desvairar, de intensa febre,
tu me mandaste esse teu vulto santo,
que eu não celebro em versos neste canto,
por não haver um ritmo que o celebre.

A curva não modela, a linha, esquiva,
não esboça, e não canta o plectro raro
teu nervoso perfil de sensitiva,
como apanhar não pode uma objetiva
o infinito de um céu lúcido e claro...


Publicado no livro Vida extinta (1911).

In: D'OLIVEIRA, Felippe. Obra completa. Atual. e org. Lígia Militz da Costa, Maria Eunice Moreira e Pedro Brum Santos. Porto Alegre: IEL; Santa Maria: UFSM, 1990. p.39-4
1 206
Geir Campos

Geir Campos

Soneto Fabril

Parques, sim, mas parques industriais:
neles é que passeia o nosso amor
em bairros pouco residenciais
onde ronrona a máquina a vapor.

Das chaminés das fábricas saem mais
nuvens (claras, escuras) de vapor
e de fumaça, com a cor das quais
o azul do céu muda-se noutra cor.

Pairando entre esse céu assim mudado
e a terra onde prossegue a mesma a vida
com seu esquema aceito mas errado

retém-se o nosso olhar em bagatelas
— que de pequenas coisas é tecida
a glória de viver e achá-las belas.


Publicado no livro Canto claro e poemas anteriores (1957).

In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
1 263
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

As Cidades

Estavam no poente luzidias,
Acesas e magnéticas chamando
Sob o infinito céu das tardes frias.
1 963
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Primavera

Primavera que Maio viu passar
Num bosque de bailados e segredos
Embalando no anseio dos teus dedos
Aquela misteriosa maravilha
Que à transparência das paisagens brilha.
5 925
Olga Savary

Olga Savary

Ouro Preto

Para Lilli Correia de Araújo


Ouro Preto no inverno, uma manhã,
é cicatriz
No alto, a praça nítida
e o bairro de Antônio Dias,
embaixo, derruído em bruma.
Por entre a cortina azul
filtra-se o azul no azul
do vidro da janela antiga:
— Bom dia, magia.
(Deitada vejo tudo — intacta —
como uma boneca de corda
sem corda há muito tempo).

Ouro Preto, 08 de julho de 1970


In: SAVARY, Olga. Espelho provisório. Pref. Ferreira Gullar. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1970
1 529
António de Navarro

António de Navarro

Poema XVI

Uma nota solta
De não sei que música
Vagueia flor em flor
Como abelha de som.

Não lhe sei a cor,
Não lhe sei o tom,
— Deve ser esquiva e nívea
E faltar com certeza

Ao compositor e poeta
Que sonhou a perfeição
E a beleza
Sem mácula, que lhe adoece
De a buscar o coração

Ah, se ela quisesse
Aninhar-se na minha alma!...

1 226
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Receita para fazer o azul

Se quiseres fazer azul,
pega num pedaço de céu e mete-o numa panela grande,
que possas levar ao lume do horizonte;
depois mexe o azul com um resto de vermelho
da madrugada, até que ele se desfaça;
despeja tudo num bacio bem limpo,
para que nada reste das impurezas da tarde.
Por fim, peneira um resto de ouro da areia
do meio-dia, até que a cor pegue ao fundo de metal.
Se quiseres, para que as cores se não desprendam
com o tempo, deita no líquido um caroço de pêssego queimado.
Vê-lo-ás desfazer-se, sem deixar sinais de que alguma vez
ali o puseste; e nem o negro da cinza deixará um resto de ocre
na superfície dourada. Podes, então, levantar a cor
até à altura dos olhos, e compare-la com o azul autêntico.
Ambas as cores te parecerão semelhantes, sem que
possas distinguir entre uma e outra.
Assim o fiz - eu, Abraão bem Judá Ibn Haim,
iluminador de Loulé - e deixei a receita a quem quiser,
algum dia, imitar o céu.



Nuno Júdice | "Meditação sobre Ruínas", 1994
1 794
Vladimir Maiakovski

Vladimir Maiakovski

BLUSA FÁTUA

(tradução: Augusto de Campos)

Costurarei calças pretas
com o veludo da minha garganta
e uma blusa amarela com três metros de poente.
pela Niévski do mundo, como criança grande,
andarei, donjuan, com ar de dândi.

Que a terra gema em sua mole indolência:
"Não viole o verde de as minhas primaveras!"
Mostrando os dentes, rirei ao sol com insolência:
"No asfalto liso hei de rolar as rimas veras!"

Não sei se é porque o céu é azul celeste
e a terra, amante, me estende as mãos ardentes
que eu faço versos alegres como marionetes
e afiados e precisos como palitar dentes!

Fêmeas, gamadas em minha carne, e esta
garota que me olha com amor de gêmea,
cubram-me de sorrisos, que eu, poeta,
com flores os bordarei na blusa cor de gema!

3 287
Florbela Espanca

Florbela Espanca

Tarde de Música

Só Schumann, meu Amor! Serenidade...
Não assustes os sonhos... Ah, não varras
As quimeras... Amor, senão esbarras
Na minha vaga imaterialidade...

Liszt, agora, o brilhante; o piano arde...
Beijos alados... ecos de fanfarras...
Pétalas dos teus dedos feitas garras...
Como cai em pó de oiro o ar da tarde!

Eu olhava pra ti... “É lindo! Ideal!”
Gemeram nossas vozes confundidas.
– Havia rosas cor-de-rosa aos molhos –

Falavas de Liszt e eu... da musical
Harmonia das pálpebras descidas,
Do ritmo dos teus cílios sobre os olhos...
2 604
Castro Alves

Castro Alves

Menina e Moça

(Versos para o &bum de D. MAxiA
JOAQUINA DA SILVA Freire.)

MENINA e Moça! Há no volver das horas
Esta idade ideal e feiticeira;
É quando a estrela expira e rompe a aurora
Um prelúdio nos leques da palmeira.

Menina e Moça! Há no viver das flores
Este instante feliz... É quando a rosa,
Ao relento das noites perfumadas,
Abre o cálix, risonha e curiosa.
Menina e Moça! HÁ no passar dos anos
Esta estação de amor... quando nas veigas
Fazem-se em flor as folhas sussurrantes,
Beijam-se as pombas, arrulando meigas.

Menina e Moça! Há no sonhar da música
Som que esta idade festival exprime...
Quando a voz do piano espalha aos ermos
Os suspiros saudosas de Bellini.

Menina e Moça! Se a poesia esquece
Agora o tipo da criança bela,
Quem não te adora a límpida inocência,
O filha de Sorrento! Ó Graziela!

Menina e Moça I Castidade e pejo!
Crença, frescura, divinal anseio!
Por quem tu cismas? — Se pergunta à fronte.
Por quem palpitas? — Se pergunta ao seio.

Menina e Moça! É tão festivo o riso!
Chama dourada sobre os olhos brilha!
Como estalam os beijos das amigas
A donzela tem asas... de escumilha!

Menina e Moça! Como é doudo o baile!
Como são várias da existência as cenas!
Ama-se o canto — Se elas são as aves...
Ama-se a valsa. — Se elas são falenas ...

Menina e Moça! Adormecida garça
Que o ma,- na riba do ideal balouça...
O bardo canta na tormenta ao longe...
Sonha o teu sonho de - menina e moça!...

3 888
Castro Alves

Castro Alves

A Bainha do Punhal

Fragmento

Salve, noites do Oriente,
Noites de beijos e amor!
Onde os astros são abelhas
Do éter na larga flor...
Onde pende a meiga lua,
Como cimitarra nua
Por sobre um dólmã azul!
E a vaga dos Dardanelos
Beija, em lascivos anelos
As saudades de Stambul.

Salve, serralhos severos
Como a barba dum Paxá!
Zimbórios, que fingem crânios
Dos crentes fiéis de Alá! ...
Ciprestes que o vento agita,
Como flechas de Mesquita
Esguios, longos também;
Minaretes, entre bosques!
Palmeiras, entre os quiosques!
Mulheres nuas do Harém!.

Mas embalde a lua inclina
As loiras tranças pra o chão
Desprezada concubina,
Já não te adora o sultão!
Debalde, aos vidros pintados,
Aos balcões arabescados,
Vais bater em doudo afã...
Soam tímbalos na sala...
E a dança ardente resvala
Sobre os tapetes do Irã!...

2 148
Castro Alves

Castro Alves

Aquela Mão

Pálidos versos a um primor divino

ERA UA MÃO de luxo... Era um brinquedo!...
Mas tão bonita que metera medo,
Se não fosse, meu Deus! tão meiga e franca!
Mão pra se encher de gemas e brilhantes,
De suspiros, de anelos palpitantes...
Mas pra estalar as jóias e os amantes...
Aquela mão tão branca!

Era ua mão fidalga... exígua, escassa!
Mão de Duquesa! Era ua mão de raça
De sangue azul, em veios de Carrara!
Alva, tão alva que vencia a idéia
Das neblinas, dos gelos e da garça!...
Amassada no leite de Amaltéia
Aquela mão tão rara!

Tinha um gesto de musa! — Mão que voa,
Que do piano na ideal lagoa,
As asas banha em rapidez não vista!...
Como a andorinha que se arroja à toa,
Cruzando em beijos a extensão das teclas!
Acendendo no seio a luz dos Eclas...
Aquela mão de artista!

Mão de criança! Era ua mão de arminhos,
Tendo essas covas, esses alvos ninhos,
De aves que a terra desconhece ainda!
Lembrando as conchas dos parcéis marinhos,
A polpa branca dos nascentes lírios...
Covas... porque se enterram mil delírios
Naquela mão tão linda!

No teatro, uma noite, casta, esquiva,
Na luva de pelica a mão cativa,
Recordava um eclipse de lua...
Mas um momento após, deixando o guante,
Vi salvar-se da espuma, rutilante,
Como Vênus despida e palpitante,
Aquela mão tão nua!

Era uma régia mão! Que largas vezes
Sonhei torneios, morriões, arneses,
Bravos ginetes de nevada crina,
Justas feridas entre mil reveses,
Da média idade a sanguinosa palma...
Só pra o louro atirar... e a lança e a alma...
Aquela mão tão fina!

Uma noite sonhei que, em minha vida,
Deus acendia a estrela prometida,
Que leva os Reis ao trilho da ventura;
Mus, quando, ao longo da poenta estrada,
O suor me escorria damargura...
Passava em meus cabelos perfumada
Aquela mão tão pura!

Era ua mão que iluminara um cetro...
Mão que ensinava d’harmonia o metro
As esferas de luz que o dia encobres...
Tão santa que uma pérola indiscreta
Talvez toldasse esta nudez tão nobre...
Vazia Era a riqueza do Poeta Aquela mão tão pobre!

Era ua mão que provocava o roubo!
Era ua mio para conter o globo!
Tinha a luz que arrebata, a luz que encanta!
Fôra o gênio de Sócrates o Grego!
Domara em Roma os cônsules e o lobo?
Mão que em trevas buscara Homero cego
Aquela mão tão santa!

2 113
Castro Alves

Castro Alves

EM Que Pensas?

Oh! Pepita, charmante rifle
Mon amour, à quoi penses-tu?
ALF. DE MuswT.

TU PENSAS na flor que nasce
Menos bela do que tu!
Na borboleta vivace
Beijando teu colo nu!

No raio da lua algente
Que bebe no teu olhar ...
Como um cisne alvinitente
No cálix do nenufar.

Nas orvalhadas cantigas
Destas selvagens manhãs...
Nas flores — tuas amigas!
Nas pombas — tuas írmãs!

Tu pensas, é Fiorentina,
No gênio de teu país...
Que uma harpa soberba afina
Em cada seio de atriz.

Na esteira de luz que arrasta
A glória no louco afã!
Nos diademas da Pasta...
Nas palmas de Malibran!

Pensas nos climas distantes
Que um sol vermelho queimou...
Nesses mares ofegantes
Que o teu navio cortou!

Na bruma que lá sescoa...
Na estrela que morre além...
Na Santa que te abençoa,...
Na Santa que te quer bem!...

Tu pensas n’Arte sagrada,
Nesta severa mulher...
Mais que Débora inspirada...
Mais rutilante que Ester.

Tu pensas em mil quimeras,
Nos orientes do amor.
No vacilar das esferas
Pelas noites de languor.

Nalgum sonho peregrino
Que o teu ideal criou.
Na vassalagem, no hino...
Que a multidão te atirou!

Neste condão que teus dedos
Têm de domar os leões...
No pipilar de uns segredos,
No musgo dos corações...

No livro — que tens no colo!
Nos versos — que tens aos pés!
Nos belos gelos do pólo...
Como teus seios cruéis.

Pensas em tudo que é belo,
Puro, brilhante, ideal...
No teu soberbo cabelo!
No teu dorso escultural!

Nos tesouros de ventura
Que a umalma podias dar;
No alento da boca pura...
Na graça do puro olhar...

Pensas em tudo que é nobre,
Que entorna luz e fulgor!
Nas minas, que o mar encobre!
Nas avarezas do amor!

Pensas em tudo que invade
O seio de um Querubim!...
Deus! Amor! Felicidade!
... Só tu não pensas em mim!...

1 994
Castro Alves

Castro Alves

No Camarote

(Sobre motivos de espanhol)

NO CAMAROTE gélida e quieta
Por que imóvel assim cravas a vista?
És o sonho de neve de um poeta?
És a estátua de pedra de um artista?

Debalde cresce de harmonia o canto...
A Moça não o escuta, além perdida!
Que amuleto prendeu-a no quebranto?
Em que céu vai boiando aquela vida?

Onde se engolfa o cisne dessa mente?
Em que vagas azuis desce cantando?
Que bafagem, meu Deus! frouxa, dormente,
Lhe acalenta o cismar no alento brando?

— Arcanjo, deusa ou pálida madona —
Quem é, surpresa, a multidão pergunta...
E ao vê-la mais gentil que Desdemona
Como para rezar as mãos ajunta.

Odalisca talvez de haréns brilhantes,
Ela no lábio as multidões algema.
Talvez destalma nas visões errantes
Voa a pura miragem de um poema.

Nem um riso, entretanto, a flux luzindo
Aos delírios que esfolha a cavatina,
A boca rubra de improviso abrindo,
Esta fronte fatídica ilumina.

Pois naquela alma só se encontra neve?
Nada palpita nessa forma branca?
Pois não freme este mármore de leve?
Pois nem o canto esta friez lhe arranca?

Ai! Ninguém fie dessa calma estranha
— Êxtase santo de harmonias cheio
— Guarda a lava a petrina da montanha,
Guarda Vesúvios o palor de um seio.

Oh! ser a idéia dessa fronte pura,
Ser o desejo desse lábio quente,
Fora o meu sonho de ideal ventura,
Fora o delírio de minhalma ardente.

Feliz quem possa na ansiedade louca
Esta bela mulher prender nos braços...
Beber o mel na rosa desta boca,
Beijar-lhe os pés... quando beijar-lhe os passos!

1 647
Castro Alves

Castro Alves

Hebréia

Flos campi et lilium convallium.
(Cântico dos Cânticos)

Pomba desprança sobre um mar descolhos!
Lírio do vale oriental, brilhante!
Estrela vésper do pastor errante!
Ramo de murta a recender cheirosa! ...

Tu és, ó filha de Israel formosa...
Tu és, ó linda, sedutora Hebréia...
Pálida rosa da infeliz Judéia
Sem ter o orvalho, que do céu deriva!

Por que descoras, quando a tarde esquiva
Mira-se triste sobre o azul das vagas?
Serão saudades das infindas plagas,
Onde a oliveira no Jordão se inclina?

Sonhas acaso, quando o sol declina,
A terra santa do Oriente imenso?
E as caravanas no deserto extenso?
E os pegureiros da palmeira à sombra?!

Sim, fora belo na relvosa alfombra,
Junto da fonte, onde Raquel gemera,
Viver contigo qual Jacó vivera
Guiando escravo teu feliz rebanho ...

Depois nas águas de cheiroso banho
— Como Susana a estremecer de frio —
Fitar-te, ó flor do babilônio rio,
Fitar-te a medo no salgueiro oculto ...

Vem pois!... Contigo no deserto inculto,
Fugindo às iras de Saul embora,
Davi eu fora, — se Micol tu foras,
Vibrando na harpa do profeta o canto ...

Não vês?... Do seio me goteja o pranto
Qual da torrente do Cédron deserto!...
Como lutara o patriarca incerto
Lutei, meu anjo, mas caí vencido.

Eu sou o lótus para o chão pendido.
Vem ser o orvalho oriental, brilhante!...
Ai! guia o passo ao viajor perdido,
Estrela vésper do pastor errante! ...

1 628
Luís de Camões

Luís de Camões

Quem presumir, Senhora, de louvar-vos

Quem presumir, Senhora, de louvar-vos
Com humano saber, e não divino,
Ficará de tamanha culpa dino
Quamanha ficais sendo em contemplar-vos.

Não pretenda ninguém de louvor dar-vos,
Por mais que raro seja, e peregrino:
Que vossa fermosura eu imagino
Que Deus a ele só quis comparar-vos.

Ditosa esta alma vossa, que quisestes
Em posse pôr de prenda tão subida,
Como, Senhora, foi a que me destes.

Melhor a guardarei que a própria vida;
Que, pois mercê tamanha me fizestes,
De mim será jamais nunca esquecida.

5 613
Laura Amélia Damous

Laura Amélia Damous

Cartão-Postal

e havia uma luz dourada
no vento, nos telhados, nas pedras
do casarão em ruínas. E pombos
dourados voavam e se abrigavam
nos santuários escavados pelo tempo
Havia pombos brancos, róseos,
à luz do sol
Navegávamos então impossível Veneza
em busca de improvável porto

1 004
Emiliano Perneta

Emiliano Perneta

Donzelas

Donzelas que passais com esse gesto ameno,
E a doce palidez enfim d'uma cecém,
Em vão esse ar é grave, e esse aspecto é sereno,
Não me olheis, não me olheis, que não vos quero bem.

Sulamitas gracis e de rosto moreno,
E claras como luz, e cheias de desdém,
Tendes perfume, sei, mas não tendes veneno,
Sois muito lindas, sois, não vos quero porém...

Lírios do campo com figura de mulher,
A minha decadência é um fruto caprichoso
Desta época sem luz que não sabe o que quer.

Não sabe nada; mas é candidez ideal,
Eu não posso querer senão o Monstruoso,
E o bem Maravilhoso, e o bem Fenomenal!

Janeiro de 1904


Publicado no livro Ilusão (1911).

In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est. crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
1 790
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Cobrinha

Este salta com uma cobra
na mão.
Que vantagem pegar em cobra morta?
Decerto nem foi ele quem matou.
Achou a cobra inanimada,
exibe-a qual troféu.

É uma cobra verde — reparamos,
admirável cobrinha toda verde,
lustroso verde nítido novinho
como não é qualquer planta que possui.
Estaco, deslumbrado.
Se eu pudesse guardá-la para mim,
enfeitar a carteira com seu corpo…
— Você me vende essa bichinha?
1 251