Beleza
André Breton
Pièce fausse
Du vase en cristal de bohème
Du vase en cris
Du vase en cris
Du vase en
En cristal
Du vase en cristal de bohême
Bohême
Bohême
Bohême
Hême hême oui bohême
Du vase en cristal de Bo Bo
Du vase en cristal de bohême
Aux bulles quenfant tu soufflais
Tu soufflais
Tu soufflais
Flais
Flais
Tu soufflais
Quenfant tu soufflais
Du vase en cristal de bohême
Aux bulles quenfant tu soufflais
Tu soufflais
Tu soufflais
oui quenfant tu soufflais
Cest là cest là tout le poème
Aube éphé
Aube éphé
Aube éphémère de reflets
Aube éphé
Aube éphé
Aube éphémère de reflets
José Miguel Silva
Salão de beleza (2ª impressão)
à saída do salão de beleza.
Apesar dos muitos e pesados passos
que deixou na terra, do lastro insuportável
de seus anos movediços,
ainda encontra forças para arrastar a alma
até ao reverso de um espelho e desenhar,
de memória, o sanguíneo traço dos lábios,
armar o cabelo para mais uma ilusão.
Admirável a tenacidade das ervas
que à enxurrada opõem a verdura de um grito
e resistem à lição de Marco Aurélio,
ao prolongado cerco da realidade.
Admiráveis porque vestem de gala
para mais uma dança, já solitária,
num baile de fantasmas, todo mental,
sem dar crédito à melancolia nem ouvidos
ao tirânico juízo da crua, da falsa
da estúpida carreta fúnebre.
Fernando Pessoa
28 - ISIS
That gives white entrance to her moods
Start-lovely stand in a mule row
The statues of her pulchritudes.
Twelve are they and the mind doth gather
Their separate seen lives to one sense;
The thirteenth, which is all together,
Means her soul and its confluence.
Five statues mean the senses five,
Seven are her mysteries of Thought.
The thirteenth seems somehow to live
Beside her life and know it not.
The summer lies outside her shades,
The breezes creep into her halls,
And from her windowed loss the glades
Are something that the soul recalls.
She built her house with heavenly types
Of building in her inner seeing.
The sun makes the long pillars stripes
On the cold hard floors of her being.
Yet she is absent and despairing,
Her statues await her New Hour,
And from the shadows of her hearing
The whisper of the drones doth flower.
This was not anyhow nor when.
All was as cool as dreams are cool
When breezes creep up to our pain
And we are laid beside a pool,
And a far larger pool arises
In our restored imagining,
And all our body's sense despises
Our innate lack of fin and wing.
Still by her portico I stopped.
The shadows there were clear and fast.
Slightly, as with a kiss, I hoped,
And Having, like a swallow passed.
Fernando Pessoa
32 - HER FINGERS TOYED ABSENTLY WITH HER RINGS
Her fingers toyed absently with her rings
There are fallen angels in the way you look
And great bridges over silent streams in your smile.
Your gestures are a lonely princess dreaming over a book
At a windows over a lake, on some distant isle.
If I were to stretch my hand and touch your that would be
Dawn behind the turrets of a city in some East.
The words hidden in my gesture would be moon light on the sea
Of your being something in my soul like gaiety in a feast
Let your silence tell me of the numberless dreams that are you,
Let the drooping of your eyelids veil landscapes that are you,
I ask no more than that you should come into my dreams and be true
To the wider seas within me and my inner eternal day.
Blossoms, blossoms, blossoms along the road of your going to speak.
Eighteenth century gardens, so sad in the middle of our dreaming them now,
Are the way you are conscious of yourself on your eyelids, by your lips, through your cheek.
O the road to Nowhere all for us and we there and a new God this to allow!
Do not scatter the silence that is the palace where our consciousness
Is now living at unity our duplicate lives of one soul.
What are we, in our dream of each other, but a picture which is
The masterpiece of a painter that never painted at all?
1916
Nuno Júdice
Subitamente surge. Tem o teu rosto
O paraíso é uma flor verde.
As árvores abrem-se ao meio.
O que é sucessivo perde-se.
Se o tempo modifica os seres e os objectos
eu sinto a diferença e gasto-me.
O sol é um erro de gramática, a luz da madrugada
uma folha branca à transparência da lâmpada.
Soam então os barulhos. Soam
de dentro das janelas,
de dentro das caixas fechadas há mais tempo,
de dentro das chávenas meias de café.
É tarde e és tu,
acima de tudo,
entre a manhã e as árvores,
à luz dos olhos,
à luz só do límpido olhar.
Nuno Júdice | "Obra poética:1972-1985", pág. 168 | Quetzal Editores, 1999
Fernando Pessoa
ON AN ANKLE
A SONNET BEARING THE IMPRIMATUR
OF THE INQUISITOR-GENERAL
AND OTHER PEOPLE OF DISTINCTION AND DECENCY
I had a revelation not from high,
But from below, when thy skirt awhile lifted
Betrayed such promise that I am not gifted
With words that may that view well signify.
And even if my verse that thing would try,
Hard were it, if that work came to be sifted,
To find a word that rude would not have shifted
There from the cold hand of Morality.
To gaze is nought; mere sight no mind hath wrecked.
But oh! sweet lady, beyond what is seen
What things may guess or hint at Disrespect?!
Sacred is not the beauty of a queen...
I from thine ankle did as much suspect
As you from this may suspect what I mean.
Affonso Romano de Sant'Anna
Momentos de Glória
o tigre ante o antílope abatido,
a formiga com seu pedaço de folha às costas,
a rutilante buganvília na janela.
Todos têm seu momento de glória.
Não só Carlos Magno, Alexandre e César.
Esse grilo humilde na cortina da sala,
essa rosa inclinada sobre a tarde,
a estridente chama na lareira.
Mesmo um queijo, um vinho para ceia,
os objetos mínimos da casa
expostos na prateleira,
todos têm seu momento de glória.
O artesão ou Miguelangelo,
e o que comete o crime perfeito,
o poeta e seu poema,
todos têm seu momento de glória
como aquela empregada da corte
com suas pernas e seios
como nenhuma Rainha Vitória.
Affonso Romano de Sant'Anna
Não Estarei Aqui Em Tardes Como Essas
– mulheres airosas e suas soberbas coxas sobre areia
que outros olharão com devoção intensa.
Falta não farei, a elas
e aos verões que não verei.
Não estarei aqui em tardes como essas:
– o alarido de andorinhas, o zumbido das cigarras
o branco azul colegial voltando para casa,
o barulhinho do chap-chap da água na enseada.
Como antes, o mundo sobreviverá sem mim.
Nunca mais tocarei a cabeleira do entardecer
e as coxas, e os seios e sua boca.
Há muito que algo em mim começa a se despedir.
Às vezes é nos momentos de mais aguda beleza
que uma parte de mim se vai enquanto
outras ficam num desespero luminoso.
É tocante o espetáculo.
Quando terei a humildade necessária
para sair de cena?
José Miguel Silva
Uffizi
no país da arte sacra? Como pode
libertar-se da noção de que estes jogos
de volumes, estes planos vivamente
coloridos, representam tudo aquilo em
que não crê: o fanatismo, a videiterna,
o sacrifício do corpo? Deambula
pelas salas como um cão esfomeado
por um campo de tremoço, sem achar
em tão exótica e senil mitologia
firme carne onde ferrar o pensamento.
Irritado, estuga o passo, cada vez
mais insensível à seráfica beleza
das madonas parideiras, de sorriso
complacente, ao intérmino desfile
de agonias, ascensões e pietás,
procurando avidamente as belas damas
de Bronzino, as doces Vénus ou até
o rosto duro (mas humano, pelo menos)
de burgueses, mercenários e fidalgos:
emissários do real, da violência
do desejo deturpado em senhorio.
À saída é contemplado pelo ébrio
sorriso dum velhaco sem futuro,
p'lo olhar esfomeado duma Maggie
de cem quilos, por dois cacos à procura
duma cola essencial. E promete
a São Vermeer cometer a breve trecho
expiatória romagem ao terreno,
liberal e nivelado mundo novo
da pintura de seiscentos holandesa.
Marcelo Batalha
Naquela Noite
Mais pela alteza que pela altura.
Naquele noite contemplei no teu sorriso
Todo o meu amor arraigado ;
Tentei registrá-lo em vão.
Tu não mereces a foto que tirei...
Me dirigiste poucas palavras, mas
Teus cabelos molhados falaram bastante.
A clara morenice brilhou dentre tantas,
A voz grave fez solo entre os artistas,
O jeito arredio levou a ribalta para o cantinho da sala.
Haja folego ! Juventude madura,
Olhos de diamante, plácida beleza,
Meu mundo está a teus pés !
Barroso Gomes
Paisagem
do espaço azul um pedaço
de estrelas caídas.
Barroso Gomes
Narcisismo
no vago espelho do lago
mirando-se. A lua.
Barroso Gomes
Sol Nascente
descubra aos poucos a rubra
jóia que escondia?
Bastos Portela
Maldita
Passas... E, ao ver-te, a multidão murmura,Numa febril agitação: - "É ela!Como é divina! E que ideal canduraO seu olhar dulcíssimo revela!...
E dizem outros: - "Haverá donzelaQue seja assim tão divinal e pura,Ou que tenha - tão simples e singela! -O mesmo encanto e a mesma formosura?!"
Todos te exalçam, meu amor... Entanto,Ninguém dirá que te maldigo tantoE que no peito, infelizmente, encerro
O desespero atroz de um desvairadoQue luta, em vão, aflito e apaixonado,Para vencer teu coração de ferro!
Bastos Portela
Do Nosso Livro
Quando acaso, divina, se levanta
Para mim, teu olhar meio e profundo,
Eu penso que outro olhar que tenha tanta
Beleza assim, não haja neste mundo!
Outras vezes com as santas te confundo...
E juro que esse olhar que me quebranta,
Foi, por capricho, feito assim segundo
O modelo do olhar de alguma santa!
Ai! nem sei te dizer como é divino
Esse olhar de celeste e doce encanto
Em que vejo luzir o meu destino...
- Esse olhar ideal de ardentes lumes,
Que eu odeio, maldigo, e adoro tanto
Na confusão do amor e dos ciúmes!
II
Vês?... eu não posso te fitar!... Entanto,
Muitas vezes nos teus meus olhos fito;
Pois nunca vi olhar assim maldito
Que me encantasse e me atraísse tanto!
Fujo-te, as vezes, com rancor; e, enquanto
De ti me esquivo e o teu olhar evito,
Blasfemo, e choro, e me lastimo, aflito,
Por te não ver, ó meu divino encanto...
E volto, enfim! Mas, se outra vez consigo
Fugir ao fogo desse olhar malvado,
Torno a chorar por te não ver comigo!
E vivo assim nesse penas eterno,
- Desse modo vencido e dominado
Por esse amor que mais parece um inferno!
Renato Rezende
Odysseus
Surprised, he saw the book was written on his native language. He brought it to the kitchen and
tried to read while working. But he didn't have a chance. At the end of the day he took the book
home. He was excited.
It was the story of Odysseus and during the night, reading it in his room, he felt his heart
being overwhelmed by beauty. He read all night long and the next day he didn't show up for work.
Instead, he went for a walk with no directions. It was the beginning of spring and everything was
beautiful, everyone looked happy. He was surprised he hadn't really noticed the spring before. He
walked to a park in the top of a hill and sat down.
He stayed there for a long time. From there he could see the whole city and the suburbs. He
remembered some passages of the book; the beauty of it had remained with him. He had a strange
feeling; he felt his heart was so big he could fit the whole world in it. Suddenly he stood up and
shouted: I'm Odysseus!
Poderia ser em sueco: En dag under en kaffepaus lade han marke till en bok som någon hade glömt på ett bord. Till
sin förvåning såg han att boken var skriven på hans eget modersmål. Han tog den med sig till köket och försökte läsa
medan han arbetade. Men det gick inte alls. När dagen var slut tog han med sig boken hem. Han var entusiastisk. Det
var berättelsen om Odysseus och under natten medan han läste boken i sitt rum, kände han att hans hjärta var
överväldigat av dess skönhet. Han läste hela natten och nästa dag gick han inte till sitt arbete. Istället tog han en
promenad utan mål. Våren hade just börjat och allt var väckert, alla såg lyckliga ut. Det förvånade honom att han inte
lagt märke till våren tidigare. Han gick till en park på en kulle och satte sig ned. Han stannade där länge. Därifrån
kunde han se hela staden och förstäderna. Han erinrade sig några avsnitt ur boken, dess skönhet hade förblivit hos
honom. Han hade en underlig känsla, han kände att hans hjärta var så stort att det rymde hela världen. Plötsligt reste
han sig upp och skrek: Jag är Odysseus!
Renato Rezende
Encontro
procure o ângulo mais bonito,
mais distante, uma árvore
entre edifícios, nuvens
no infinito, o infinito;
o infinito
Antônio Ribeiro da Costa
Soneto
escuma em verde mar, cristal vistoso,
um copo de diamante precioso,
bandeira que tremola ao vento leve;
estrela reduzida a termo breve,
de alabastro gomil aparatoso,
arminho, ou cisne, em campo deleitoso,
com seu pé a açucena se descreve:
se eu tivera ciência, que alcançara
a dizer como quero seus louvores,
o que a açucena é, eu o mostrara:
só direi que na vista, e nos candores,
se de noite a encontrasse, me assombrara,
parecendo-me ser alma das flores.
Mário de Sá-Carneiro
Partida
Em suas águas certas, eu hesito,
E detenho-me às vezes na torrente
Das coisas geniais em que medito.
Afronta-me um desejo de fugir
Ao mistério que é meu e me seduz.
Mas logo me triunfo. A sua luz
Não há muitos que a saibam refletir.
A minh’alma nostálgica de além,
Cheia de orgulho, ensombra-se entretanto,
Aos meus olhos ungidos sobe um pranto
Que tenho a força de sumir também.
Porque eu reajo. A vida, a natureza,
Que são para o artista? Coisa alguma.
O que devemos é saltar na bruma,
Correr no azul à busca da beleza.
É subir, é subir além dos céus
Que as nossas almas só acumularam,
E prostrados rezar, em sonho, ao Deus,
Que as nossas mãos de auréola lá douraram.
É partir sem temor contra a montanha
Cingidos de quimera e d’irreal;
Brandir a espada fulva e medieval,
A cada hora acastelando em Espanha.
É suscitar cores endoidecidas,
Ser garra imperial enclavinhada,
E numa extrema-unção d’alma ampliada,
Viajar outros sentidos, outras vidas.
Ser coluna de fumo, astro perdido,
Forçar os turbilhões aladamente,
Ser ramo de palmeira, água nascente
E arco de ouro e chama distendido…
Asa longínqua a sacudir loucura,
Nuvem precoce de subtil vapor,
Ânsia revolta de mistério e olor,
Sombra, vertigem, ascensão — Altura!
E eu dou-me todo neste fim de tarde
À espira aérea que me eleva aos cumes.
Doido de esfinges o horizonte arde,
Mas fico ileso entre clarões e gumes!…
Miragem roxa de nimbado encanto —
Sinto os meus olhos a volver-se em espaço!
Alastro, venço, chego e ultrapasso;
Sou labirinto, sou licorne e acanto.
Sei a distância, compreendo o Ar;
Sou chuva de ouro e sou espasmo de luz;
Sou taça de cristal lançada ao mar,
Diadema e timbre, elmo real e cruz…
…………………………………………………………….
…………………………………………………………….
O bando das quimeras longe assoma…
Que apoteose imensa pelos céus!
A cor já não é cor — é som e aroma!
Vêm-me saudades de ter sido Deus…
*
* *
Ao triunfo maior, avante pois!
O meu destino é outro — é alto e raro.
Unicamente custa muito caro:
A tristeza de nunca sermos dois…
Arthur Fortes
Noite de Estio
De um artista genial, de um noturno pintor,
Que o seu painel debuxa assim como se fora
Em pleno mês de maio uma campina em flor!
A sua imensa tela é quase que sem cor!...
Fantástico jardim que rápido se enflora
Ao traço magistral do oculto sonhador
Que alvas rosas de luz espalha espaço em fora!
Para realce talvez uns traços carregados,
São por pontos de luz, vivamente rasgados
Aqui, ali, além, nalgum canto vazio!
E todo esse esplendor, e toda essa magia,
Se repetem constante assim que morre o dia
E cai por sobre a terra uma noite de estio.
Antônio Ribeiro dos Santos
Ode Anacreôntica
Que está roubado;
Que os farpões, Nize,
Lhe tem furtado.
Em ira aceso,
Qual fero Marte
Te busca, ó Nize,
Por toda a parte.
Ah! tem jurado,
Que se te alcança,
Há de tomar
Crua vingança.
Mas tu não fujas,
De Amor não temas
Nem seta, ou dardo,
Ou vis algemas.
Se ele vier
Com fero ardor,
Põe-te risonha,
Ri-te de Amor.
Desses teus olhos
Com um só mover
O bravo Amor
Podes vencer.
Se contra ti
Os céus armar,
Dos deuses todos
Podes zombar.
Cum só volver
Dos olhos teus
Podes vencer
Amor e os céus.
Akiko Yosano
Tanka VI
pelo portão da perfumaria
numa noite de luar na primavera
na Kyoto de baixo
penso: que meigo!
Angela Santos
Hic et Nunc
quero apenas ser daqui…
sem ânsia de outro mundo
ou beleza que se eleve
à que rente ao chão que piso,
sinto e fruo por inteiro…
A fealdade não é
senão um olhar ao invés
e aqui
neste chão que sou
até do lodo se elevam
prodígios da natureza
em busca da luz do sol.
Aqui e agora
Ser,
chão rude e áspero,
anjo sem asas,
brisa que passa,
poeira de estrelas…..
e até lodo ser
se a beleza do Lotus
abrindo-se ao sol
do fundo do pântano
teimosamente
se erguer.
Akiko Yosano
Tanka VII
Na ponte Shijô
a dançarina
de rosto maquilado
golpeada em sua testa estreita
pelo granizo miúdo do entardecer