Poemas neste tema

Beleza

Charles Bukowski

Charles Bukowski

A Falta de Quase Tudo

a essência da pança
como um balão branco ensacado
é perturbadora
como passos correndo
pela escada
quando você não sabe
de quem se trata.
claro, se você liga o rádio
é capaz de esquecer
a gordura debaixo da camisa
ou os ratos alinhados ordeiramente
como as velhotas no Hollywood Blvd
esperando pelo show
de humor.
penso nos homens velhos
em quartos de quatro dólares
procurando por meias nas gavetas do armário
enquanto ficam de pé com cuecas marrons
o tempo todo o relógio soando
quente como uma
cobra.
ah, existem algumas coisas decentes, talvez:
o céu, o circo
as pernas das mulheres saindo dos carros,
a beleza entrando pela porta
como uma sinfonia de Mozart.
a balança diz 90 kg. é este o
meu peso. são 2:10 da manhã
dedicação é para jogadores de xadrez.
a causa singular e gloriosa continua
em discussão
enquanto se fuma, se mija, se lê Genet
ou alguns jornais engraçados;
mas talvez ainda seja muito cedo
para escrever àquela sua tia em
Palm Springs e revelar a ela
o que está errado.
1 114
Carlos Seabra

Carlos Seabra

O amar do mar

boca do mar
beijo de sal
lábios da praia
pele de areia

língua de rio
decote de dunas
seios de ilhas
abraço do sol

correntes de desejo
cheiro de algas
ondas de prazer
espuma que rebenta

gemidos das gaivotas
gozo das nuvens
céu que se funde
no azul do mar
1 245
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Razão tem Ghirlandaio

Giovanna Tornabuoni não tem frente
o seu perfil lhe basta.
Lado esquerdo do rosto que
aniquila o direito
medalha sem reverso
face exposta da lua sem
outra face.

Que aia penteia Giovanna?
As mechas caídas em ondas
caídas em mar
as mechas medusas
e ao alto o cabelo partido
retido por fitas
cabelo esculpido que pousa na nuca
seu ninho.

Damasco brocado batista
com que rigor de esquadro
e de compasso
o traje se constrói arquitetura
suporte para a longa coluna
do pescoço.
Geométrico jardim brota
na manga
obedecem veludos e pistilos
à exata simetria
que ordena as flores
e corta
pelo meio
as mãos cruzadas.

Ao fundo
entre um colar e um livro
há um bilhete pintado:
mais bela seja a natureza
que se pode imitar
do que a palavra escrita.

Razão tem Ghirlandaio
mas defendendo a minha ferramenta
observo ao mestre:
para que seu recado fosse claro
foi necessário
escrevê-lo.
1 010
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

O Súcubo

Quando em silêncio a casa adormecia e vinha
Ao meu quarto a aromada emanação dos matos,
Deslizáveis astuta, amorosa e daninha,
Propinando na treva o absinto dos contatos.

Como se enlaça ao tronco a ondulação da vinha,
Um por um despojando os fictícios recatos,
Estreitáveis-me cauta e essa pupila tinha
Fosforescências como a pupila dos gatos.

Tudo em vós flamejava em instintiva fúria.
A garganta cruel arfava com luxúria.
O ventre era um covil de serpentes em cio...

Sem paixão, sem pudor, sem escrúpulos — éreis
Tão bela! e as vossas mãos, fontes de calefrio,
Abrasavam no ardor das volúpias estéreis...

Teresópolis, 1912
1 390
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Baladilha Arcaica

Na velha torre quadrangular
Vivia a Virgem dos Devaneios...
Tão alvos braços... Tão lindos seios...
Tão alvos seios por afagar...

A sua vista não ia além
Dos quatro muros que a enclausuravam
E ninguém via — ninguém, ninguém —
Os meigos olhos que suspiravam.

Entanto fora, se algum zagal,
Por noites brancas de lua cheia,
Ali passava, vindo do val,
Em si dizia: — Que torre feia!

Um dia a Virgem desconhecida
Da velha torre quadrangular
Morreu inane, desfalecida,
Desfalecida de suspirar...
1 158
Marina Colasanti

Marina Colasanti

UMA CAMÉLIA

Uma camélia só
no vaso esguio
rijo traço do talo
apunhalando
a dupla transparência
de água e vidro.
As folhas não concedem
nervuras
frisos
ou recortadas bordas.
Exata
a curvatura do dorso
reparte
em vírgulas
a luz.

Ao alto
a flor.

Uma flor de camélia
não é rosa
uma flor de camélia
é rigorosa obediência
das pétalas
espaço dividido
a compasso
cêntricos círculos e o miolo
o miolo fechado
pedra branca
que na superficie da tarde
se lança.

Uma camélia
ideograma vivo
se escreve em minha sala.

1 164
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

THE GIANTESS

I saw a comic giantess
At a tremendous feast alone,
Striving to eat some gorgeous mess
That formed a hard whole, as a stone.
But for her mouth it was too much
That, her avidity being such,
It doubled her void wish's hell;
And her mouth's wide, impotent clutch
Would have made laugh, did it not quell
Laughter with being horrible.
At her impossible, void feast
I saw her and, seeing her despair,
«What's that too large thing that to eat
You idly strive?» I asked of her ;
And I laughed out serene and rude.

She wept wild tears and said, «This meat
That by its greatness doth elude
My constant gaping, wild and sore,
        Is Beauty whole and complete.»
I looked at her and laughed no more,
But I wept, for I understood.
1 385
Luís Vianna

Luís Vianna

CÉU

Sentado nesta pedra
Sobre um penhasco sem fim
Olho as estrelas
E elas olham p´ra mim.

Que tapete vivo
Costurado com linha brilhante
Dum bordado fantástico
De constelações e outros mil.

E a lua,
Hoje totalmente nua,
Parece sentir e gozar
Os prazeres de neste tapete deitar.

Ah! Que inveja,
Quem dera ser eu lá,
Deitado por entre as estrelas
A descansar.

26/05/2001

754
Luís Vianna

Luís Vianna

À MULHER FEIA

Mulher exótica
É aquela
Que em sua fealdade
É bela.

Tão Magricela
Que encanta,
Quase quebra
Enquanto anda.

Não tem barriga,
Nem seios.
Dou-lhe uma chance,
Belos cabelos.

Nariz pontudo,
Rosto quadrado;
E o quadril?
Maracujá chupado.

10/10/2000

1 344
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Hiato

Ês na minha vida como um luminoso
Poema que se lê comovidamente
Entre sorrisos e lágrimas de gozo...

A cada imagem, outra alma, outro ente
Parece entrar em nós e manso enlaçar
A velha alma arruinada e doente...

— Um poema luminoso como o mar,
Aberto em sorrisos de espuma, onde as velas
Fogem como garças longínquas no ar...
1 168
Luís Vianna

Luís Vianna

Existem vários tipos de pés.
Pés bonitos,
Pés fedidos,
Muitos chulés.

O pé tipo esparramado
É aquele folgado
Que já nasce dono
Do chão todo.

O pé comprido
Que de tão longínquo
Com o calcanhar em Blumenau
Põe o dedão em Natal;
(Talvez por isto
O ABC seja tão poluído.)

E o pé pequeno,
Um pé de moça,
De um fedor pouco ameno
Espanta até mosca.

O pé bonito
E cheiroso
É fetiche sexual
De vários moços.

Pé, coitado,
Só porque está
Lá embaixo isolado
É por muitos desprezado.

20/06/2001

1 019
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Alumbramento

Eu vi os céus! Eu vi os céus!
Oh, essa angélica brancura
Sem tristes pejos e sem véus!

Nem uma nuvem de amargura
Vem a alma desassossegar.
E sinto-a bela... e sinto-a pura...

Eu vi nevar! Eu vi nevar!
Oh, cristalizações da bruma
A amortalhar, a cintilar!

Eu vio mar! Lírios de espuma
Vinham desabrochar à flor
Da água que o vento desapruma...

Eu via estrela do pastor...
Via licorne alvinitente!...
Vi... vio rastro do Senhor...

E vi a Via-Láctea ardente...
Vi comunhões... capelas... véus...
Súbito... alucinadamente...

Vi carros triunfais... troféus...
Pérolas grandes como a lua...
Eu vi os céus! Eu vi os céus!

— Eu vi-a nua... toda nua!

Clavadel, 1913
2 280
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Balada das Três Mulheres do Sabonete Araxá

As três mulheres do sabonete Araxá me invocam, me bouleversam, me hipfnotizam.
Oh, as três mulheres do sabonete Araxá às 4 horas da tarde!
O meu reino pelas três mulheres do sabonete Araxá!

Que outros, não eu, a pedra cortem
Para brutais vos adorarem,
Ó brancaranas azedas,
Mulatas cor da lua vêm saindo cor de prata
Ou celestes africanas:
Que eu vivo, padeço e morro só pelas três mulheres do sabonete Araxá! São amigas, são irmãs, são amantes as três mulheres do sabonete Araxá?
São prostitutas, são declamadoras, são acrobatas?
São as três Marias?

Meu Deus, serão as três Marias?

A mais nua é doirada borboleta.
Se a segunda casasse, eu ficava safado da vida, dava pra beber e nunca mais telefonava.
Mas se a terceira morresse... Oh, então, nunca mais a minha vida outrora teria sido um festim!
Se me perguntassem: Queres ser estrela? queres ser rei? queres uma ilha no Pacífico? um bangalô em Copacabana?
Eu responderia: Não quero nada disso, tetrarca. Eu só quero as três mulheres do sabonete Araxá:
O meu reino pelas três mulheres do sabonete Araxá!

Teresópolis, 1931
1 452
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Conheci Um Gênio

conheci um gênio hoje no
trem
tinha uns 6 anos,
sentou-se a meu lado
e enquanto o trem
seguia ao longo da costa
nos deparamos com o oceano
e então ele me olhou
e disse,
não é bonito.
foi a primeira vez em que me dei
conta
disso.
1 648
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

THE UNNATURAL AND THE STRANGE

The unnatural and the strange
Have a perfume of their own
Full of the constancy in chance,
Of the smile at heart a groan:
The unnatural and the strange
Have a perfume of their own.

Flowers are they in a vase
Of no human workmanship,
 The unnatural that dismays
And the strange strong as a whip:
Flowers are they in a vase
Of no human workmanship.

They have the scent of troubled peace,
Of disturbed halls of joy,
This the scent they have, which is
A thing half to sting and cloy:
They have the scent of troubled peace,
Of disturbed halls of joy.

The unnatural and the strange
Have a perfume of their own
That of human flesh, of change
Made corruption without moan:
The unnatural and the strange
Have a perfume of their own.
1 298
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

A Filha do Rei

Aquela cor de cabelos
Que eu vi na filha do rei
— Mas vi tão subitamente —
Será a mesma cor da axila,
Do maravilhoso pente?
Como agora o saberei?
Vi-a tão subitamente!
Ela passou como um raio:
Só vi a cor dos cabelos.
Mas o corpo, a luz do corpo?...
Como seria o seu corpo?...
Jamais o conhecerei!
1 265
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Amante da Flor

nas Montanhas Valquíria
entre os pavões garbosos
encontrei uma flor
tão grande quanto minha
cabeça
e quando a apanhei para cheirá-la
perdi um lóbulo
parte do meu nariz
um olho
e meio maço de
cigarros.
retornei no
dia seguinte
para arrancar a maldita
mas
achei-a tão bonita
que resolvi
matar um
pavão
em seu lugar.
1 054
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

SONNET - Lady, believe me ever at your feet,

Lady, believe me ever at your feet,
When all the Venus in you you condense
Unto a gesture natural and sweet,
Full-filled with purity's white eloquence.

Your sentient arm so softly did incense
The love of beauty in my soul complete,
That I had given the dearest things of sense
For that your gesture natural and sweet.

Genius and beauty, and the things that mar
The love of life with Love's own purest glow,
Out of all thinking, all unconscious are;

And even you, sweet lady, may not know
How much that gesture was to me a star
Leading my bark upon a sea of woe.
1 527
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Sobre um bosque de bétulas

A janela fechada
- mas o que são vidros diante
de um bosque de bétulas
mesmo que uma cortina se interponha
com toque branco semelhante
aos troncos?
a janela fechada e tão aberta
que o verde chega à beira dessa mesa
contorna as duas maçãs
recorta o prato
e se intromete em musgo
sombra adentro.

Janela aberta e ainda tão fechada
que o escuro abriga dois perfis
de amantes
dois rostos superpostos
prisioneiros
que olham para a luz.

Janela de Chagall
fechada ainda
fronteira
entre a natureza-viva
e a natureza morta
limite
a derrubar em outras telas
além do qual os casais voam
a cabra pasta
e um violinista toca
no telhado.
1 046
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Pitigrilli proibido

O maiô da dolicocéfala loura
é branco
cavado nas coxas
o barco
da dolicocéfala loura
tem velas abertas
no esmalte cobalto
o barco está preso no azul
como um broche
 a loura desliza uma perna
por cima da borda
cintila mais branca
a virilha exposta no gesto.


Alguém chega à porta do quarto
imóvel o barco navega
no livro fechado.
1 082
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Versos Escritos N'água

Os poucos versos que aí vão,
Em lugar de outros é que os ponho.
Tu que me lês, deixo ao teu sonho
Imaginar como serão.

Neles porás tua tristeza
Ou bem teu júbilo, e, talvez,
Lhes acharás, tu que me lês,
Alguma sombra de beleza...

Quem os ouviu não os amou.
Meus pobres versos comovidos!
Por isso fiquem esquecidos
Onde o mau vento os atirou.
1 219 1
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Confissão

Se não a vejo e o espírito a afigura,
Cresce este meu desejo de hora em hora...
Cuido dizer-lhe o amor que me tortura,
O amor que a exalta e a pede e a chama e a implora.

Cuido contar-lhe o mal, pedir-lhe a cura...
Abrir-lhe o incerto coração que chora,
Mostrar-lhe o fundo intacto de ternura,
Agora embravecida e mansa agora...

E é num arroubo em que a alma desfalece
De sonhá-la prendada e casta e clara,
Que eu, em minha miséria, absorto a aguardo...

Mas ela chega, e toda me parece
Tão acima de mim... tão linda e rara...
Que hesito, balbucio e me acobardo.
1 125
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Inscrição

Aqui, sob esta pedra, onde o orvalho roreja,
Repousa, embalsamado em óleos vegetais,
O alvo corpo de quem, como uma ave que adeja,
Dançava descuidosa, e hoje não dança mais...

Quem não a viu é bem provável que não veja
Outro conjunto igual de partes naturais.
Os véus tinham-lhe ciúme. Outras, tinham-lhe inveja.
E ao fitá-la os varões tinham pasmos sensuais.

A morte a surpreendeu um dia que sonhava.
Ao pôr do sol, desceu entre sombras fiéis
À terra, sobre a qual tão de leve pesava...

Eram as suas mãos mais lindas sem anéis...
Tinha os olhos azuis... Era loura e dançava...
Seu destino foi curto e bom...
— Não a choreis.
1 023
Rafael Alberti

Rafael Alberti

Pregão

Vendo nuvens de cores!
as redondas, vermelhas,
para suavizar os calores!

Vendo os cirros arroxeados
e rosas, as alvoradas,
os crepúsculos dourados!

O amarelo astro,
colhido o verde ramo
do celeste pessegueiro!

Vendo a neve, a chama
e o canto do pregoeiro!

1 341