Poemas neste tema

Beleza

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

II - Nem defini-la, nem achá-la, a ela —

II

Nem defini-la, nem achá-la, a ela —
A Beleza. No mundo não existe.
Ai de quem com a alma inda mais triste
Nos seres transitórios quer colhê-la!

Acanhe-se a alma porque não conquiste
Mais que o banal de cada coisa bela,
Ou saiba que ao ardor de querer havê-la
À Perfeição — só a desgraça assiste.

Só quem da vida bebeu todo o vinho,
Dum trago ou não, mas sendo até o fundo,
Sabe (mas sem remédio) o bom caminho;

Conhece o tédio extremo da desgraça,
Que olha estupidamente o nauseabundo
Cristal inútil da vazia taça.
834
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Even as great Macchiavel, shut fast from all,

Even as great Macchiavel, shut fast from all,
His court dress donned to visit his invention,
So I, when the commanding Muse doth call,
Give to the wide world sleep and inattention.

I close the door to all the man in me,
To friend, relation, countryman and self,
Closeting myself with eternity
And both the good and ill of me do shelf.

I strive to please Athena, not mankind.
No time shall call me out, or place seduce,
Nor ache to please, nor fear to offend me blind
To the great passion for true beauty's use.

Mine own self I displease, if it so fit
The claiming tyranny and press of wit.
1 379
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Thou needst not scorn me. All my praise of thee

Thou needst not scorn me. All my praise of thee
Though't be of that which opens men's desire
(Being of thy beauty), from desire is free.
My flame upon thine altars has no fire.

Beauty should beauty mate, lest by addition
It do subtraction suffer. So I name
Thy true mate beautiful. Thus my perdition
Myself desire and mine own love disclaim.

That this renouncement of the very thought
Of thy possible love, were't such or no,
Gives pain, is sure; yet the pain given does not
From the renouncement, but its reason, flow.

The gods that fated me not beautiful
Fated this just renouncement possible.
1 379
Ruy Belo

Ruy Belo

A beringela

É ela
um fruto esférico na forma e agradável de sabor
e para alimentá-la a água acorre em abundância a todos os jardins
Envolta no xairel do pé que ao ramo a prende faz lembrar
nas garras do abutre o rubro coração de um cordeirinho


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 100 | Editorial Presença Lda., 1984
1 479
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A mantilha de espanhola

A mantilha de espanhola
Que trazias por trazer
Não te dava um ar de tola
Porque o não podias ter.
1 190
Nuno Fernandes Torneol

Nuno Fernandes Torneol

Par Deus, Senhor, Em Gram Coita Serei

Par Deus, senhor, em gram coita serei
agora quando m'eu de vós quitar,
ca me nom hei d'al no mund'a pagar;
e, mia senhor, gram dereito farei,
       pois eu de vós os meus olhos partir
       e os vossos mui fremosos nom vir.

E bem mi o per devedes a creer
que me será mia mort', e m'é mester,
des quando vos eu veer nom poder;
nem Deus, senhor, nom me leixe viver,
       pois eu de vos os meus olhos partir
       e os vossos mui fremosos nom vir.

Pero sei-m'eu que me faço mal sem,
de vos amar, ca, des quando vos vi,
em mui gram coita fui, senhor, des i;
mais que farei, ai meu lum'e meu bem,
       pois eu de vós os meus olhos partir
       e os vossos mui fremosos nom vir?

E pois vos Deus fez parecer melhor
de quantas outras eno mundo som,
por mal de mim e do meu coraçom,
com'haverei já do mundo sabor,
       pois eu de vós os meus olhos partir
       e os vossos mui fremosos nom vir?
666
Dom Francisco Manuel de Melo

Dom Francisco Manuel de Melo

Soneto I

Formosura, e Morte, advertidas por um corpo
belíssimo, junto à sepultura.

Armas do amor, planetas da ventura
Olhos, adonde sempre era alto dia,
Perfeição, que não cabe em fantasia,
Formosura maior que a formosura:

Cova profunda, triste, horrenda, escura,
Funesta alcova de morada fria,
Confusa solidão, só companhia,
Cujo nome melhor é sepultara:

Quem tantas maravilhas diferentes
Pode fazer unir, senão a morte?
A morte foi em sem-razões mais rara.

Tu, que vives triunfante sobre as gentes.
Nota (pois te ameaça uma igual sorte)
Donde pára a beleza, e no que pára.

1 417
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Boca de romã perfeita

Boca de romã perfeita
Quando a abres p’ra comer,
Que feitiço é que me espreita
Quando ris só de me ver?
1 189
Almeida Garrett

Almeida Garrett

Ignoto Deo

D.D.D.

Creio em ti, Deus: a fé viva
De minha alma a ti se eleva
És: - o que és não sei. Deriva
Meu ser do teu: luz... e treva,
Em que - indistintas! - se envolve
Este espírito agitado,
De ti vem, a ti devolve.
O nada, a que foi roubado
Pelo sopro ciador
Tudo o mais, o há-de tragar.
Só vive de eterno ardor
O que está sempre a aspirar
Ao infinito donde veio
Beleza és tu, luz és tu.
Verdade és tu só. Não creio
Senão em ti; o olho nu
Do homem não vê na terra
Mais que a dúvida, a incerteza,
A forma que engana e erra.
Essência! a real beleza,
O puro amor - o prazer
Que não fatiga e não gasta...
Só por ti os pode ver
O que inspirando se afasta,
Ignoto Deo, das ronceiras,
Vulgares turbas: despidos
Das coisas vãs e grosseiras
Sua alma, razão, sentidos,
A ti se dão, em ti vida,
E por ti vida têm. Eu consagrado
A teu altar, me prostro e a combatida
Existência aqui ponho, aqui votado
Fica este livro - confissão sincera
Da alma que a ti voou e em ti só spera.

2 248
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Que te fez assim tão linda

Que te fez assim tão linda
Não o fez para mostrar
Que se é mais linda ainda
Quando se sabe negar.
1 905
João de Deus de Nogueira Ramos

João de Deus de Nogueira Ramos

Omissão

Uma noviça, jovem de talento
Na arte do desenho e da pintura,
Pede à madre abadessa do convento
O favor de lhe ver uma figura.

Era a imitação escrupulosa
De um menino em tamanho natural
Que pertencia a soror Anna Rosa,
Tido em conta de um belo original!

A soro costumava, por decência
Tê-lo com uma tanga pequenina,
Que lhe encobria aquela saliência
Que distingue o menino da menina.

Mas uma tanga tão apropriada
No tecido e na cor, que na verdade
A gente olhava e não lhe via nada
Que desmentisse a naturalidade.

Era, pois, de esperar que a nossa artista,
Assim como no mais, naquela parte
Pintasse apenas o que tinha à vista
Que é o preceito e o primor da arte.

Vê a madre abadessa a maravilha,
E não se cansa de a louvar! Mas lança
A vista atenta àquele ponto: "Ai, filha,
Que falta essencial!... Pobre criança!

Que pena! O colorido, que beleza!
Pernas, braços e tudo, que perfeito!
Mas confesso... Confesso com tristeza...
Que enorme, que enormíssimo defeito!"

1 586
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Morena dos olhos baços

Morena dos olhos baços
Velados de não sei quê,
No mundo há falta de braços
Para o que o teu olhar vê.
1 988
Nuno Fernandes Torneol

Nuno Fernandes Torneol

Ai Mia Senhor! U Nom Jaz Al

Ai mia senhor! U nom jaz al,
haverei mui ced'a morrer,
pois vosso bem nom poss'haver;
mais direi-vos do que m'é mal:
       de que seredes, mia senhor
       fremosa, de mim pecador!

E praz-me, si Deus me perdom,
de morrer, pois ensandeci
por vós, que eu por meu mal vi;
mais pesa-me de coraçom
       de que seredes, mia senhor
       fremosa, de mim pecador!

E de morrer m'é mui gram bem,
ca nom poss'eu mais endurar
o mal que mi amor faz levar;
mais pesa-me mais doutra rem
       de que seredes, mia senhor
       fremosa, de mim pecador!
639
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Teus olhos de quem não fita

Teus olhos de quem não fita
Vagueiam, estão na distância.
Se fosses menos bonita,
Isso não tinha importância.
1 311
Almeida Garrett

Almeida Garrett

Barca bela

Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela.
Que é tão bela,
Oh pescador?

Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Oh pescador!

Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela...
Mas cautela,
Oh pescador!

Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
Só de vê-la,
Oh pescador.

Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela
Foge dela
Oh pescador!

2 473
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Vai-te embora, Sol dos céus!

Vai-te embora, Sol dos céus!
Os olhos da minha irmã
Foram criados por Deus
P'ra substituir a manhã.

E se alguns acham mais bela
A noite, e mais cheia de alma,
O certo é que os olhos d'ela,
São da cor da noite calma.

Assim, manhãs na viveza
E noite na cor que têm,
Se os há iguais em beleza
Inda os não usou ninguém.

ÍBIS.
987
Afonso X

Afonso X

Nom Quer'eu Donzela Fea

Nom quer'eu donzela fea
que ant'a mia porta pea.

Nom quer'eu donzela fea
e negra come carvom
       que ant'a mia porta pea
nem faça come sisom.
       Nom quer'eu donzela fea
       que ant'a mia porta pea.

Nom quer'eu donzela fea
e velosa come cam
       que ant'a mia porta pea
nem faça come alarmã.
       Nom quer'eu donzela fea
       que ant'a mia porta pea.

Nom quer'eu donzela fea
que há brancos os cabelos
       que ant'a mia porta pea
nem faça come camelos.
       Nom quer'eu donzela fea
       que ant'a mia porta pea.

Nom quer'eu donzela fea,
veelha de má[a] coor
       que ant'a mia porta pea
nem [me] faça i peior.
       Nom quer'eu donzela fea
       que ant'a mia porta pea.
766
Deborah Brennand

Deborah Brennand

Declaração de Amor

Ontem disseste
sisudo, como todo saber
— Esta flor é da família das violáceas
o nome correto é — violeta tricolor.

Eu disse — é amor perfeito...

Amarelo e roxo
salpicado de negror
severamente reclamando
gotas de terra nas folhas.

Pensei — será isto perfeito?

1 151
Deborah Brennand

Deborah Brennand

Claridade

Afortunados são os bosques
onde sem bridas
a luz campeia
entre as folhagens

suas crinas douradas

Tão leve se lustra a água
na medida exata
que os rebanhos bebem
junto às raposas

sem temor selvagem.

Por que só a mim discrimina a claridade?

1 376
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Todos te dizem que és linda.

Todos te dizem que és linda.
Todos to dizem a sério.
Como o não sabes ainda
Agradecer é mistério.
1 453
Jaques Mario Brand

Jaques Mario Brand

Soneto à maneira do décimo-sétimo século

Dê-me tua mão, Amiga, e ao meu lado
venha dos campos ver as verdes lindes
- ainda mais lindas se por elas vindes
e mais ainda se vindes ao meu lado.

Ouçamos da floresta que os margeia
a brisa perpassar o chão florido
e num transporte breve o leve Ar ido
nos leve em seu alento ao léu, à Aléia.

Das sendas derivadas, e à deriva,
à Suma alcemos juntos, às alturas
de um Saber bom que eu sei, musa lasciva.

Enquanto achas levo à labareda
e achas leve em teus quadris meu gesto,
as Artes eu direi, de Amor, que enleva.

§ As Artes eu direi, de Amor, que enreda.

992
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Mulher

Se é clara a luz desta vermelha margem
é porque dela se ergue uma figura nua
e o silêncio é recente e todavia antigo
enquanto se penteia na sombra da folhagem.
Que longe é ver tão perto o centro da frescura

e as linhas calmas e as brisas sossegadas!
O que ela pensa é só vagar, um ser só espaço
que no umbigo principia e fulge em transparência.
Numa deriva imóvel, o seu hálito é o tempo
que em espiral circula ao ritmo da origem.

Ela é a amante que concebe o ser no seu ouvido, na corola
do vento. Osmose branca, embriaguez vertiginosa.
O seu sorriso é a distância fluida, a subtileza do ar.
Quase dorme no suave clamor e se dissipa
e nasce do esquecimento como um sopro indivisível.
1 231
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Mulher do Espaço

Tua ardente harmonia, tua felicidade aérea
é o sonho súbito do ser, o seu sangue perfeito.
Estendes-te muito alto, muito baixo: nascente
subterrânea, sopro de asas. Suavidade oval.
Vibras repentina na fluência perfumada.

És um sonho do ar e uma palavra que inicia
com um sabor completo. As coisas aparecem
como dentro de ti, veladas, luminosas.
Como se dissipam lentas as tuas órbitas ligeiras!
Num acto puro rodas à volta do vazio

tão fundo e tão azul e nem sequer estremeces
e és uma ausência branca que acalma e que deslumbra.
Que hálitos, que rumores flexíveis e sedosos!
Em círculos a nudez demora-se em desejos
onde tudo é abolido e tudo principia.
965
Santa Rita Durão

Santa Rita Durão

Canto VII [Das frutas do país a mais louvada

XLIII

Das frutas do país a mais louvada
É o régio ananás, fruta tão boa,
Que a mesma natureza namorada
Quis como a rei cingi-la da coroa.
Tão grato cheiro dá, que uma talhada
Surpreende o olfato de qualquer pessoa;
Que, a não ter do ananás distinto aviso,
Fragrância a cuidará do Paraíso.


In: DURÃO, Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, composto por Fr. José de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural da Cata Preta nas Minas Gerais. São Paulo: Cultura, 1945. p.171. (Série brasileiro-portuguesa, 30)

NOTA: O "Canto VII" é composto de 74 estrofe
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