Poemas neste tema

Beleza

Herberto Helder

Herberto Helder

Fonte - V

Apenas te digo o ouro de uma palavra no meio da névoa,
formosura inclinada sobre a cinza descerrada
e o frio dos retratos.
Espero que a seiva ascenda a um puro gosto
de reaver tua grave cabeça de mãe
cora platina entre a aragem. Que se inspire na seiva
o vermelho de uma face
adormecendo no vinho, acordando
para o início das primaveras.
Peço que os dedos não esqueçam o pão e a tristeza
e a boca vibre como um pensamento
na substância de um instante
carnal, irremovível.

E se morrer é a alta vocação das manhãs marcadas pelas uvas
- peço, mãe um dia
composta sobre a veemente confusão das forças
e dos números, que resguardes
entre as descuidadas dobras de pedra
o fulgor de onde plátanos e aves recebiam
a doce e dolorosa vida
da beleza.

Rente ao tempo que nos cobria
de previsão e silêncio,
arrefecem os sentidos sobre o teu rosto selado.
Pequena e imensa coisa no alto das águas,
no fundo de sementes desmemoriadas — mãe
engolfada no leite renascente,
para ti se elevam os lábios tocados pelo sumo
incompleto, o sono da próxima
incontida primavera.

Tudo o que se diga está vivo na frescura de um coração
novo. Por isso o ouro, o inseguro passo
de um dia que traz a morte em sua intensa
juventude, roça a forma do espírito
em que tu mesma te buscavas — quente e rápida
em nós, no equilibrado idioma
de fomes e sorrisos que nunca
se decifram.

Num lugar onde a sombra é gémea
do fogo irrevelado, não há
morte que se não destine a um escarlate
de rosa. Nunca se adormece
que não seja para ler um estuante anúncio
nas pálpebras que se apagam.

Nasces da melancolia, e arrebatas-te.
Como os bichos nascem da matéria dos seus dias,
como os frutos vacilam no bojo das auroras
e se embebem até que o tempo os faz
violentos,
cerrados,
palpáveis.
1 115
Herberto Helder

Herberto Helder

Ii C

Ferro em brasa no flanco de um só dia, um buraco
de perfume: a rosa florescendo
o seu lugar interior.
1 053
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Gesso

Esta minha estatuazinha de gesso, quando nova
— O gesso muito branco, as linhas muito puras —
Mal sugeria imagem de vida
(Embora a figura chorasse).
Há muitos anos tenho-a comigo.
O tempo envelheceu-a, carcomeu-a, manchou-a de pátina amarelo-suja.
Os meus olhos, de tanto a olharem,
Impregnaram-na da minha humanidade irônica de tísico.
Um dia mão estúpida
Inadvertidamente a derrubou e partiu.
Então ajoelhei com raiva, recolhi aqueles tristes fragmentos, recompus a figurinha que chorava.
E o tempo sobre as feridas escureceu ainda mais o sujo mordente da pátina...
Hoje este gessozinho comercial
É tocante e vive, e me fez agora refletir
Que só é verdadeiramente vivo o que já sofreu.
4 663
Herberto Helder

Herberto Helder

Fonte - Ii

No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos estão como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudeza de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.
1 391
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

INACTION

A thousand hearts are labouring for the good
Of poor mankind ill-civilized and chill;
A thousand minds are making war to ill
With thought or feeling ponderate or rude.

And I alone, as if not understood
By me the suffering that the sense doth fill,
Am sunk in an abeyance deep of will
In a wild, crazy somnolence of mood.

Thus show I mute and cold to misery
Yet not suspected thoughts like dim clouds float,
The presages of horrors, in my mind.

Thus am I miserable and my soul in me,
A skilful helmsman in a helmless boat,
Is like one loving beauty yet born blind.
1 355
Herberto Helder

Herberto Helder

As Palavras 5

As flores que devoram mel ficam negras em frente dos espelhos.
Os animais que devoram estrelas em frente dos espelhos ficam brancos por detrás dos pêlos ou das plumas da idade.
As pedras por onde circula a água ficam vivas de tanto cantar e, quando se voltam, atingem a sua maior velocidade interior.
Se vêm às portas ver quem bate, os lençóis cobrem-se de imagens respiradoras — quando regressam ao sono, deixam as mãos abertas.
Se é uma estátua que bate, corre-lhe o sangue pela boca, e sobre os ombros torcem-se os cabelos, e as asas tremem em frente da porta.
Se é um retrato, sorri sufocado pela noite adiante.
Os espelhos são negros como os jacintos da loucura.
Os crimes que olham para o espelho têm uma vibração silenciosa.
Se é uma criança, diz: eu cá sou cor-de-laranja.
Porém às vezes é bom ser branco, é bom estar deitado.
O mel faz bem às pedras, atrai os olhos dos anjos.
Quem aplaina tábuas acumula uma obscura sabedoria.
Olha para os espelhos, tens um talento assimétrico de assassino.
Vê-se nos teus ramos frutos negros contra a paisagem móvel.
Se fosses um peixe, a porta estaria nas águas mais íntimas, frias, límpidas e caladas.
E não batias — cantavas a tua síncope terrível.
Nada se veria na vertente do espelho.
Serias como uma máquina cor de cal respirando.
Por isso te ofereço este ramo de lâminas e um fato de perfil — e andas nos labirintos.
Por isso te sento numa cadeira de ar.
Por isso somos os dois um quadrúpede de seda de uma beleza truculenta.
Temos toda a vigília para encher de silêncios.
Pensamos os dois o mesmo corpo inaugurado.
As flores que devoram mel tornam negros os espelhos.
As colinas vão olhando, e tremem na nossa carne as estampas de ouro extenuante.
Por isso, por isso, por isso — somos assim obscuros.
1 029
Herberto Helder

Herberto Helder

Ii D

Esta coluna de água, bastam-lhe o peso próprio,
o ar à roda,
ter sido olhada não como imagem de uma garrafa
mas como concreta e contínua forma;
ou subir na memória
de alguém que,
vendo-a,
sabe que vai desaparecer e arrebata,
num afluxo molecular,
não o nome dela: coluna ou garrafa ou centro do planeta, mas
ter sido olhada completamente
uma vez,
ela,
e na voltagem da luz transferir-se para outra
zona: ser uma garrafa luzindo
de ar e água
e quietude; ou que se não transfira, e seja então
como se a roçasse Deus por cima
de tudo:
linguagem, biografia, pensamento, eternidade —
prumo de água com raios,
vidro com raios,
coisa
— e salvando-se da ordem dos elementos gerais:
Deus também, e as linhas direitas por onde escreve
torto: moléculas,
mais nada, perenes,
com raios,
no caos de tantos objectos complexos: toalha às riscas,
uma faca, livros, duas
esferográficas, uma pedra próxima, o braço que atravessa
a terra até à pedra —
e o exemplo da água firme
(e como não serve o exemplo) de
Deus de
quem não há rasto, nem no caos, nem
no verbo,
nem no corpo da água, engenharia inabalável
na ausência ou,
quem sabe?, na muita lembrança da luz,
se houvesse desde o princípio, dedo no dedo,
a faúlha,
ou se quiserem: no toque dedo no dedo,
o abalo oculto —
garrafa diurna gerada como absoluto, a fogo.
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Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Carla

Carla, és bonita. Pudera!
Sendo filhinha de Allinges,
O fato era de prever.
Mas o que ver eu quisera
É se a beleza materna
Tu, quando mulher, atinges,
Doce e pequenino ser
Feito da essência mais terna.
641
Herberto Helder

Herberto Helder

Todos Os Dedos da Mão 1

As cabeças de mármore: um raio
as fenda, E fiquem
queimadas de dentro até à boca,
Ou uma faca lhes corte
as carótidas:
que as deslumbre
o sangue deslumbrante — A garganta: se a faca
as encharca, Anéis de mármore
rude o pêlo
a auréola,
Tudo alagado desde os recessos,
Brilhando tudo,
Que a ferida elementar assome
como ao espelho: como à maneira de
cicatriz de imagem,
A força das janelas, O odor do leite
opulento
na lembrança,
E a úlcera da boca no centro da máquina
circulatória: os braços — tudo
crispado como um sistema de astros,
A estátua é um pulmão dos pés à cara,
Devora
o ar levantado, A beleza é operatória,
Uma coroa da carne da cabeça como
se a juba lhe ardesse, De mármore,
Brecha anatómica para o soluço dessa
massa salgada — o medo: o temerário movimento
da dança:
a riqueza: o sono:
as voragens,
Estás cheio de esperma,
Transpiras na raiz da cabeleira,
A língua treme dentro de ti que és
uma fala,
Respiradouro assombrado,
A mulher a cada dedo que apontavas:
a cada poro dela:
a cada choque lunar na levedura: ao teu
bafo: a leveza que
te
contemplava: o fôlego
dela:
estremecendo fincada no chão como uma estaca
de fruta, Tu és o raio dela: a rapidez: ela
é o teu sopro,
Estala,
O suspiro da lenha suada gota a gota,
Que lhe apura o corpo e o aprova,
Que o apavora,
Potência múltipla desordenando os nomes: mantendo
o mundo
pela desordem
1 058
Herberto Helder

Herberto Helder

(É Uma Dedicatória)

Se alargas os braços desencadeia-se uma estrela de mão
a mão transparente, e atrás,
nas embocaduras da noite,
o mundo completo treme como uma árvore
luzindo
com a respiração. E ofereces,
das unhas à garganta
talhada, a deslumbrante queimadura do sono.
— Em teu próprio torvelinho se afundam
as coisas. Porque és um vergão raiando entre
esses braços
que irrompem da minha morte se durmo, da loucura
se a veia
violenta que me atravessa a cabeça se torna
ignea como
um rio abrupto num mapa. Quando as salas
negras fotográficas
imprimem a sensivel trama das estações
com as paisagens por cima. E
jorras
desde as costas dos espelhos, seu coração
arrancado pelos dedos todos de que se escreve
o movimento inteiro.
Nunca digas o meu nome se esse nome
não for o do medo. Ou se rapidamente o lume se não repartir
nas formas
lavradas como chamas à tua volta. Os animais
que essa labareda ilumina
na boca. Desde a obscuridade
de tudo que tudo
é inocente. Nunca se pode ver a noite toda de súbito.
E da fronte aos quadris em tuas linhas, és
cega, fechada.
A minha força é a desordem. Reluzes
na têmpera enxuta — queima-te.
O ouro desloca a tua cara. Um nervo
atravessa as frementes, delicadas massas
das imagens:
como uma ferida límpida desde a nascença pela carne
fora. Es alta em mim por essa
cicatriz que se abre ao dormir e quando
se acorda fica aberta.

— Esta
espécie de crime que é escrever uma frase que seja
uma pessoa magnificada.
Uma frase cosida ao fôlego, ou um relâmpago
estancado
nos espelhos. E às vezes é uma raiz engolfada, e quando toca
a fundura das paisagens, as constelações mudam
no chão. A truculência
que se traça como uma frase na pessoa, uma queimadura
branca. Porque ela mostra as devastações
magnéticas
da matéria. Na frase vejo os fulcros da pessoa.
Por furos acerbos as estações que se escoam
e a inquebrantável
paisagem que as persegue por dentro. A frase
que é uma pálpebra
viva
como roupa fechada sobre a radiação das veias.
Que é uma cara, uma cratera.
Ou um hausto animal das unhas à testa
onde
fulguram os cornos em coroa.
E esta massa ofegante é queimada por um
suspiro, um alimento brutal.
O teu rosto cerca-me, a minha
morte cerca o teu rosto como uma clareira
pulsando
na luz cortada. A pessoa
que é uma frase: astro
rude cruamente encordoado entre as omoplatas.
Como se um nervo cosesse todas as partes pungentes e selvagens
da carne. Como
se a tua frase fosse um buraco brilhando até aos pulmões,
com o sangue e a língua
na minha garganta. A beleza que te trabalha
deixa-te
árdua e intacta
no mundo, entre o sangue estrangulado na minha memória.
1 267
Herberto Helder

Herberto Helder

Elegia Múltipla - Ii

Sobre o meu coração ainda vibram seus pés: a alta
formosura do ouro. E se acordo e me agito,
minha mão entreabre o subtil arbusto
de fogo — e eu estou imensamente vivo.
Se com a neve e o mosto dei ao tempo
a medida secreta, na minha vida tumultuam
os rostos mais antigos. Não sei
o que é a morte. Enchia com meu desejo
o vestíbulo da primavera, eu próprio me tornava uma árvore
abismada e cantante. E a beleza é uma chama
solitária, um dardo que atravessa
o sono doloroso. Nada sei dos mortos.
Deixaram em mim os pés sombrios, um súbito
fulgor de ausência. — De mim, vivo e ofegante,
sei uma flor de coral: delicada, vermelha.

Porque morrem assim no interior do vinho quando
se extasiam e cantam? Porque escurecem os ombros onde
as videiras se derramavam e subiam as escadas?
Uma um vão nascendo meus pensamentos
nocturnos, e eu digo: porque morrem
os que tinham a carne com seu peso e milagre e sorriam
sobre a mesa
como seres imortais?

E agora é a minha vida que assombrada se fecha.
A vida funda e selvagem. Porque um dia,
como se apaga a labareda de um cacho,
o brilho se apagará onde estava a minha letra.
Dançarei uma só vez em redor da taça,
festejando a última estação. Hoje
nada sei. Correm em mim os mortos, como água —
com o murmúrio gelado da sua incalculável ausência.

E digo: não refulgia a carne quando
a primavera inclinava a cabeça sobre a sua confusão?
Não dormiam junto ao mosto com lírios no pensamento?
Ei-los em mim, os mortos longos, e digo: se havia
tanto ouro dentro e fora deles, porque
se extinguiram?
Nada sei dos mortos.
Um dia hei-de ser como espuma absorta em volta
de um coração, e dele se erguerá uma onda de púrpura,
um amor terrível.

— Porque era de ouro firme, e ressoava.
627
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Loja Feminina

Cinco estátuas recamadas de verde
na loja, pela manhã, aguardam o acontecimento.
É próprio de estátuas aguardar sem prazo e cansaço
que os fados se cumpram ou deixem de cumprir-se.
Nenhuma ruga no imobilismo
de figurinos talhados para o eterno,
que é, afinal, novelo de circunstâncias.

Iguais as cinco, em postura vertical,
um pé à frente do outro quase suspenso
na hipótese de voo, que não se consumará,
em direção da porta sonora
a ser aberta para alguém desconhecido
— Vênus certamente, face múltipla —
assomar em tom de pesquisa,
apontando o estofo, o brinco, o imponderável
que as estátuas ocultam em sigilo de espelhos.

Passaram a noite em vigília,
nasceram ali, habitantes de aquário,
programadas em uniformes verde-musgo
para o serviço de bagatelas imprescindíveis.

Sabem que Vênus, cedo ou tarde,
provavelmente tarde e sem pintura,
chegará.
Chega, e o simples vulto
aciona as esculturas.

Ao cintilar de vitrinas e escaninhos,
objetos deixam de ser inanimados.
Antes de chegar à pele rósea,
a pulseira cinge no ar o braço imaginário.
O enfeite ocioso ganha majestade
própria de divinos atributos.
Tudo que a nudez torna mais bela
acende faíscas no desejo.
As estátuas sabem disto e propiciam
a cada centímetro de carne
uma satisfação de luxo erótico.

O ritmo dos passos e das curvas
das cinco estátuas vendedoras
gera no salão aveludado
a sensação de arte natural
que o corpo sabe impor à contingência.
Já não se tem certeza se é comércio
ou desfile de ninfas na campina
que o spot vai matizando em signos verdes
como tapeçaria desdobrante
do verde coletivo das estátuas.

Hora de almoço.
Dissolve-se o balé sem música no recinto.
Não há mais compradoras. Hora de sol
batendo nos desenhos caprichosos
de manso aquário já marmorizado.
As estátuas regressam à postura
imóvel de cegonhas ou de guardas.
São talvez manequins, de moças que eram.
O viço humano perde-se no artifício
de coisas integrantes de uma loja.
Se estão vivas, não sei. Se acaso dormem
o dormir egípcio de séculos,
se morreram (quem sabe), se jamais
existiram, pulsaram, se moveram,
não consigo saber, pois também eu
invisível na loja me dissolvo
nesse enigma de formas permutantes.
1 051
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Cantiga de Amor

Mulheres neste mundo de meu Deus
Tenho visto muitas — grandes, pequenas,
Ruivas, castanhas, brancas e morenas.
E amei-as, por mal dos pecados meus!
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!

Andei por São Paulo e pelo Ceará
(Não falo em Pernambuco, onde nasci),
Bahia, Minas, Belém do Pará...
De muito olhar de mulher já sofri!
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!

Atravessei o mar e, no estrangeiro,
Em Paris, Basiléia e nos Grisões,
Lugano, Gênova por derradeiro,
Vi mulheres de todas as nações.
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!

Mulher bonita não falta, ai de mim!
Nenhuma porém, tão bonita assim!
1 204
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Aquelas Garotas Que Seguimos No Caminho de Casa

na escola intermediária as duas garotas mais bonitas eram
Irene e Louise,
elas eram irmãs;
Irene era um ano mais velha, um pouco mais alta
mas era difícil escolher entre
as duas;
elas não eram apenas bonitas, eram
espantosamente lindas
tão lindas
que os garotos mantinham distância delas;
ficavam aterrorizados diante de Irene e
Louise
que não eram nem um pouco reservadas,
eram inclusive mais amigáveis do que a maioria
mas
pareciam se vestir com certa
diferença em relação às outras
garotas:
elas sempre usavam salto alto,
meias de seda,
blusas,
saias,
trajes novos
todos os dias;
e
certa tarde
meu amigo Carequinha e eu as seguimos
na volta da escola para casa;
é que nós éramos meio que
os malvadões do pedaço
então isso era
mais ou menos
de se esperar,
e
foi uma coisa de louco:
íamos caminhando três ou quatro metros atrás delas;
não dizíamos nada
apenas seguíamos
observando
o bamboleio voluptuoso,
o balançar das
ancas.

gostamos tanto que as
seguimos da escola para casa
todos os
dias.

quando elas entravam em casa
nós ficávamos parados na calçada
fumando cigarros e conversando.

“um dia”, eu disse ao Carequinha,
“elas vão nos convidar pra entrar em
casa e elas vão
dar pra nós.”

“você acha mesmo?”

“claro.”

agora
50 anos depois
eu posso lhes dizer
que elas nunca deram
– esqueçam todas as histórias que
contamos aos caras;
sim, é o sonho que
nos faz ir em frente
naquele tempo e
agora.
1 175
Herberto Helder

Herberto Helder

(A Morte Própria)

E estás algures, em ilhas, selada pelo teu próprio brilho,
enquanto a terra me queima os dedos e os dedos
entram no coração como uma queimadura e o coração
propagado
é o incêndio na cabeça — às vezes
a cabeça não sabe que os pulmões arrastam
as labaredas do mundo como um grande buraco
de vozes: um rumor
de crepitações: uma força: uma rapidez
entre as formas — espelhos luzindo
atrás dos rostos: e tu levantas um braço:
trazes do fundo de tudo a raiz ainda viva de cada coisa:
uma constelação magnética entre os pés afastados
— eu vejo a tua morte no meu próprio movimento:
na chama correndo pela paisagem
fora, a paisagem
que ergues, que depois abandonas ao seu próprio espaço
de paisagem no tempo,
externa: atravessada por noites,
por luzes, transformações, ideias de quem vê,
pelos seus desenvolvimentos ocultos — vejo
que ressuscito no teu modo, essa espécie de estilo
ou energia,
quando casa e paisagem circulam como ilhas
numa torrente à volta —
e então o que tocas é esse teu mesmo coração cruzado
por imagens luxuosas: o filme aceso:
membranas do corpo rutilando à passagem dos astros de mármore —
e o teu rosto arranca-se à sombria gravidade
do fundo
da beleza, dos poderes terrestres e o peso
de tanta profundidade: e um instante explode
essa estrela embrenhada na minha cabeça, como
o coração se aprofunda, os dedos
puxam
as linhas de lume com que se cose a terra,
a fenda do seu sangue abismado — às vezes
o espelho é o meu próprio corpo,
a sua ferida: mas entre ilhas, sob
o que circula: espuma do ar, os cometas,
no sono sumptuoso
de animais
quase fixos, os rostos abertos aos raios dos nossos rostos,
aos nossos dedos que lhes chegam ao meio do coração —
porque tudo anda dentro de mim, e o mundo
esgota-se
no teu movimento entre laços
de sangue, cabelos luzindo, as pedras
inclinadas para os teus lugares respiradores: a árvore
crescendo a cada paragem, com toda a tua inspiração
na minha morte, aqui, uma árvore
combustível
onde a fruta faísca: paraíso de espaços múltiplos
e velozes,
entranhado em mim como se eu fosse a árvore
e tu fosses um espelho que a árvore despedaçasse pela sua força
e no espelho eu, como uma imagem, fosse despedaçado,
brilhando.


1978.
1 510
Herberto Helder

Herberto Helder

2

sobressalto,
ressalto de luz no bolso,
entre orvalho e fogo colhido de fresco na sua árvore,
escondido rápido enquanto se foge,
sem a mancha ainda da moda e do modo,
queimava o bolso contra a carne,
queimava pela carne algo menos fácil que ela,
que do seu pouco diamantífero cada qual faz o que pode
1 101
Herberto Helder

Herberto Helder

1C

Criança à beira do ar. Caminha pelas cores prodigiosas, iluminações
da água, esmeraldas
exasperadas, as púrpuras. E entra na clareira. Passa,
toda. Está coberta de pólen.
A convulsão de uma jóia quando roda
abruptamente acesa. A cicatriz no tórax é uma
arborescência
a sangue e ouro. Nela se embebedam os enxames das imagens
estelares, vermelhas,
extremas.
Os favos no escuro enlouquecem a infância.
Nas suas casas profundas Deus aguarda que se demonstre
o teorema perfeito
e terrível.
1 005
Herberto Helder

Herberto Helder

1

Não se pode cortar o fogo com uma faca.
— provérbio grego.


até que Deus é destruído pelo extremo exercício da beleza
1 033
Baltazar Dias

Baltazar Dias

Conselho para bem casar

Escolha, quem quer casar;
contente-se com sua sorte,
pois a não pode enjeitar
e esta lhe há-de durar
até que os aparte a morte.
Não queira só fermosura
mas busque dote também;
porque se esta o não tem,
terá muito má ventura
e não no verá ninguém.
Porque é muito arriscada
fermosura com pobreza,
em uma mulher casada;
e se lhe falta, desespera;
virá ser mulher errada.
Porque o não ter que gastar
e sustentar vaidades,
dá ao mundo em que falar
e, às vezes, o murmurar
vem a parar em verdades.
Pois se acaso não tiver
um pouco de fermosura,
que há-de o pobre fazer?
E quem tal vida atura
melhor lhe fôra morrer.
Busca logo outra fermosa,
com quem gasta quanto tem,
e disto, tanto mal vem,
que sua mulher, de irosa,
se faz má mulher, também.
E ao fim desta jornada,
depois da bolsa estar raza
de não deitar de si nada,
logo a fazenda é gastada,
e tem a mulher em casa.
683
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Arte Em Exposição

CASAMENTO DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS COM A POBREZA (Sasseta)
O amor te escolheu
por seres a mais casta
entre virgens ideais.
A união é do ar
e da água e do pão
em migalhas.

AUTORRETRATO (Soutine)
Sou eu ou não sou eu?
Sou eu ou sou você?
Sou eu ou sou ninguém,
e ninguém me retrata?

MÚSICOS CEGOS (Velázquez)
Violino e guitarra são videntes,
olham pelos olhos dos cantantes.

RETRATO DE MADAME HÉBUTERNE (Modigliani)
Plantada na torre do pescoço,
a cabeça, na altura,
mal percebe nossas inquietações de planície.

O GRITO (Munch)
A natureza grita, apavorante.
Doem os ouvidos, dói o quadro.

LEDA (Da Vinci)
Já gozaste demais, diz Leda ao cisne.
Que venha logo Jove cataclismo.

GENTIL HOMEM BÊBADO (Carrà)
De Baudelaire o conselho:
É preciso estar sempre bêbado.
Além do imaginário e do real
é preciso estar sempre sóbrio
para pintar a bebedeira.

ODALISCA VERMELHA (Matisse)
A indolência da odalisca em rosa rubra
respira paz de lânguido fervor.
A sensualidade se dilui:
pura cor.

A CADEIRA (Van Gogh)
Ninguém está sentado,
mas adivinha-se o homem angustiado.

A CIGANA ADORMECIDA (Henri Rousseau)
Para te acordar
do sono profundo
disfarço-me: leão
que ao te roçar
esquece a missão.

A PONTE DE MANTES (Corot)
Assim quisera eu ser:
ponte árvore canoa água serena
ignorante de tudo mais bem longe.

A ANUNCIAÇÃO (Fra Angelico)
O anjo desprende-se da arquitetura
para dar a notícia
precisamente conforme a traça
de sublime arquiteto.

ALMOÇO SOBRE A RELVA (Manet)
Conversamos placidamente
junto da nudez
que pela primeira vez
não nos alucina.

VÊNUS E O ORGANISTA (Ticiano)
O som envolve a nudez
e chega ao cachorrinho.
O músico esquece a partitura.
As pulseiras de Vênus não escutam.

TIRADENTES (Portinari)
Fez-se a burocrática justiça.
O trono dorme invencível vingado.
Postas de carne do sonhador
referem o caminho das minas.

CAFÉ NOTURNO (Van Gogh)
Alucinação de mesas
que se comportam como fantasmas
reunidos
solitários
glaciais.

TRANSVERBERAÇÃO DE SANTA TERESA (Bernini)
Visão celestial, doce delírio.
Da cabeça aos pés nus
êxtase (orgasmo?) relampeia.

RETRATO DO CASAL ARNOLFINI (Jan van Eyck)
A imagem reproduz-se até o sem-fim.
O casal sem filhos
gera continuamente nos espelhos
a imagem de perpétuo casamento.

SALOMÉ (Giorgione)
Que instinto maternal, que suavidade
embala esta cabeça decepada?

VÊNUS ADORMECIDA (Giorgione)
Acalenta no sono
o púbis acordado.

JARDIM DO MANICÔMIO (Van Gogh)
O jardim onde passeia a ausência de razão
é todo ele ordem natural.
A terra acolhe o desvario
que assimila a verdura e a leveza do ar.

VOLTAIRE (Houdon)
O mundo não merece gargalhada. Basta-lhe
sorriso de descrença e zombaria.

SAPATOS (Van Gogh)
Cansaram-se de caminhar
ou o caminho se cansou?

AUTORRETRATO COM COPO DE VINHO (Chagall)
Seja celebrada a alegria nas alturas
por cima dócil das mulheres.
A cavalo melhor se chega ao céu.

QUADRO I (Mondrian)
Universo passado a limpo.
Linhas tortas ou sensuais desaparecem.
A cor, fruto de álgebra, perdura.

CARNAVAL DE ARLEQUIM (Miró)
Descobri que a vida é bailarina
e que nenhum ponto inerte
anula o viravoltear das coisas.

FUZILAMENTO NA MONCLOA (Goya)
Balé de tiros gritos corpos derrubados.
A lanterna tranquila
acena para a esperança da Ressurreição.

AS TRÊS GRAÇAS (Rubens)
Curvilíneos volumes se consultam
e concluem:
Beleza é redundância.

PIETÀ (Miguel Ângelo)
Dor é incomunicável.
O mármore comunica-se,
acusa-nos a todos.

A DUQUESA DE ALBA (Goya)
Ser o cachorrinho da Duquesa
é de certo modo
ser uma partícula da Duquesa.

GIOCONDA (Da Vinci)
O ardiloso sorriso
alonga-se em silêncio
para contemporâneos e pósteros,
ansiosos, em vão, por decifrá-lo.
Não há decifração. Há o sorriso.

RETRATO DE ERASMO DE ROTTERDAM
(Quentin Metsys)
Santidade de escrever,
insanidade de escrever
equivalem-se. O sábio
equilibra-se no caos.
2 016
Herberto Helder

Herberto Helder

Ii K

Atravessa a água até ao fundo da estrela.
O buraco sopra:
de trás de quê, como, de que coisa entreaberta?
A sombra dessa estrela — como se chama:
inominável?, ou correndo em bica:
banha-o. Ou a vibrar dos quadris às espáduas
desdobra
uma peça de luz. Ou com os braços ritmicamente
dentro dela, estrela esbracejada, nada
até ao fundo da sua luz, da sua água.
Que cega, afoga.
1 233
Herberto Helder

Herberto Helder

9

que fosses escrita com todas as linhas de todas as coisas numa frase de ensino
supremacia, pela
quantidade de brancura fêmea,
pelo enredo luminoso,
com as linhas dos dias concêntricos
rectos e curvos numa só linha
respirada,
unida
1 101
D. Dinis

D. Dinis

Ai Senhor Fremosa! Por Deus

Ai senhor fremosa! por Deus
e por quam boa vos El fez,
doede-vos algũa vez
de mim e destes olhos meus
       que vos virom por mal de si,
       quando vos virom, e por mi.

E porque vos fez Deus melhor
de quantas fez e mais valer,
querede-vos de mim doer
e destes meus olhos, senhor,
       que vos virom por mal de si,
        quando vos virom, e por mi.

E porque o al nom é rem,
senom o bem que vos Deus deu,
querede-vos doer do meu
mal e dos meus olhos, meu bem,
       que vos virom por mal de si,
       quando vos virom, e por mi.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

DEATH IN LIFE

Another day is past, and while it past,
What have I pondered or conceived or read?
Nothing! Another day has gone to waste.
Nothing! Each hour as it is born is dead.

I have done nothing. Time from me has fled,
And unto Beauty not a statue raised!
By thought's firm power no creed nor lie debased
By this young useless and wearied.

Is it my lot then ever to remain
Like a grain of sand upon the beach,
A thing at will of wind, at will of sea?

Alas, that aught that wishes and has pain,
Because e'er fall'n from what its power should reach
Less than a thing inanimate should be!
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