Poemas neste tema

Avós e Antepassados

Lila Ripoll

Lila Ripoll

Retrato

Clara manhã de inverno.
Na rua longa e fria
procuro ansiosamente
um número, uma casa.

(...)

Aguardo a professora,
aguardo e penso,
no agasalho do ambiente de silêncio.
E detenho meus olhos surpreendidos
no retrato maior que a sala guarda.

Reconheço a figura, a fronte ampla,
o olhar audaz e manso ao mesmo tempo.
É ele sim, é o grande Cavaleiro,
Cavaleiro de muitas esperanças.

Que faz ali? Que faz ali? pergunto.
Por que naquela casa silenciosa
tranquilamente antiga e acolhedora,
o retrato de Prestes na parede
sobressai e ilumina a sala inteira?

(...)

"É meu neto, menina. Gosta dele?
É o Luís Carlos, meu neto, não sabia?"

E vejo à minha frente, nobre e simples,
a vovó Ermelinda, de Luís Carlos,
para mim Cavaleiro da Esperança

E a voz continuou serena e mansa:
"Um menino tão terno, tão sensível,
quem diria pudesse ser um dia
um revolucionário?"

(...)

Anda longe o Luís Carlos, de seus dias.
Anda longe e está próximo e presente:

nas palavras apenas murmuradas
— afetivos suspiros e lembranças —
e nas outras que brotam impetuosas
dominando planícies e cidades.

(...)

Seu passo um dia cantará nas pedras
e humildes casas se iluminarão.
E à sua voz, de chama e tempestade,
as vozes triunfais responderão.


Publicado no livro Novos Poemas (1951).

In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1987. p.106-10
1 370
Lila Ripoll

Lila Ripoll

Cantiga de Roda

"Bota terra no meu lenço,
pra plantá manjericão."
— Ai! versos da minha infância,
meus anos não volverão.

"Atirei um limão verde
por cima da sacristia."
— Ai! vozes que me prenderam
a um passado de alegria!

"Menina, minha menina,
cinturinha de retrós."
— Ai! balcão de nossa loja,
onde andarão meus avós?

"O cravo brigou com a rosa
defronte de uma sacada."
— Ai! cantigas esquecidas,
crianças de mãos trançadas.

"Roda, roda cirandinha,
vamos todos cirandar."
— Ai! prendas da minha infância,
deixem meus olhos chorar!

"Lá vem o sol, vem chegando
redondo como um botão."
— Ai! joguem terra em meu corpo
mas deixem meu coração.

Ai! joguem terra em meu corpo
mas poupem meu coração.

Botem terra no meu corpo
mas plantem manjericão!


Publicado no livro O Coração Descoberto (1961).

In: RIPOLL, Lila. Antologia poética. Rio de Janeiro: Leitura; Brasília: INL, 1968. p.78-7
2 587
Cora Coralina

Cora Coralina

Aquela Gente Antiga - II

Aquela gente antiga explorava a minha bobice.
Diziam assim, virando a cara como se eu estivesse distante:
"Senhora Jacinta tem quatro fulores mal falando.
Três acham logo casamento, uma, não sei não, moça feia num casa
[fácil."

Eu me abria em lágrimas. Choro manso e soluçado...
"Essa boba... Chorona... Ninguém nem falou o nome dela..."
Minha bisavó ralhava, me consolava com palavras de ilusão:
Sim, que eu casava. Que certo mesmo era menina feia, moça bonita.
E me dava a metade de uma bolacha.
Eu me consolava e me apegava à minha bisavó.
Cresci com os meus medos e com o chá de raiz de fedegoso,
prescrito pelo saber de minha bisavó.
Certo que perdi a aparência bisonha. Fiquei corada
e achei quem me quisesse.
Sim, que esse não estava contaminado dos princípios goianos,
de que moça que lia romance e declamava Almeida Garrett
não dava boa dona de casa.


In: CORALINA, Cora. Vintém de cobre: meias confissões de Aninha. 4. ed. Goiânia: Ed. da Universidade Federal de Goiás, 198
3 959
Quirino dos Santos

Quirino dos Santos

O Saci

(Lenda)

"Que tens tu, oh, Mariquinhas,
Por que é essa palidez?
Tristeza que nunca tinhas
Te pousa na linda tez.

Ainda há pouco no terreiro
Saltavas a traquinar;
Nesse teu rosto trigueiro
Não se via um só pesar;

Sorrias sempre contente,
já hoje não sorris;
Cozias tão diligente
Cantando sempre feliz.

Já hoje tua cantiga
É toda cheia de dor,
E Aninhas, tua amiga
Não buscas mais com amor.

No quintal as tuas flores
Todas pendem a morrer;
Do sol os quentes ardores
Não lhes vais arrefecer.

Que tens tu, oh, Mariquinhas,
Por que é essa palidez?
Tristeza que nunca tinhas
Te pousa na linda tez!

Mariquinhas, minha neta,
A causa toda já sei,
De andares tão inquieta;
Agora já adivinhei!

Aquela vasta silveira
Além dos campos ali,
É assombrada a noite inteira
Por um medonho Saci.

É ele que vem horrendo
Montar nos bons animais;
A noite toda correndo
Ai! quanto susto nos faz!

Foi ali ele que tu o viste,
Que a tua face beijou...
Depois disso é que assim triste
A minha neta ficou.

Mariquinhas, minha neta,
Neta do meu coração,
Não quero te ver inquieta,
Inquieta mais assim, não!

Vai contrita e humilhada
Te prostrar aos pés de Deus;
Expiar, jura, emendada
Os graves pecados teus.

Que hás de ter infinito
Prazer imenso a fruir,
E o Sererê maldito
Para longe há de fugir.

Eia pois, oh Mariquinhas,
Finda a tua palidez;
Tristeza que nunca tinhas
Não tenhas mais desta vez!"

Assim falou a velhinha
No seu sisudo falar;
Aconselhou a netinha
E logo pôs-se a rezar!

Mariquinhas magoada
Não responde à velha, não!
Ai! pobre, de envergonhada
Ficou a olhar para o chão.

Mas de noite a janelinha
Do seu quarto se entreabriu,
E houve quem visse asinha
Que um vulto a ela assumiu!

Como ela deixa a desoras
Um vulto junto de si?!
Venham cá dizer-me agora
Que não seria o Saci!...

1 049
Alexandre Marino

Alexandre Marino

Avoagem

o velho guerreiro avoava sobre a vida
porque era grande nosso medo de tudo
e revolvia com as mãos a terra brava
plantando um sabor de coisa nova
sobre as coisas velhas que ele velho guerreava

ele se perdia sobre o chão cheirando a chuva
e nos arrastava pelas mãos pelos quintais
apontando com os dedos amarelos de cigarro
cada pedaço de mundo que por ali passava
e que nós despercebíamos no vento ou no barro

ele coçava a cabeça branca apoiado na bengala
e tamborilava as unhas grossas na madeira
e distribuía a cada um ao se sentar à mesa
os pedaços de história que catava na memória
e soltava pelos poros em forte correnteza

e quando começava a lhe fugir a lucidez
o velho guerreiro cavalgava de verdade
a égua fiel que antes de morrer no pasto
conduzia pelas ruas da cidade
esse seu olhar profundo do álbum de retratos.

949
Manoel de Barros

Manoel de Barros

Cabeludinho

1.

Sob o canto do bate-num-quara nasceu Cabeludinho
bem diferente de Iracema
desandando pouquíssima poesia
o que desculpa a insuficiência do canto
mas explica a sua vida
que juro ser o essencial

— Vai desremelar esse olho, menino!
— Vai cortar esse cabelão, menino!
Eram os gritos de Nhanhá.

(...)

5.

No recreio havia um menino que não brincava
com outros meninos
O padre teve um brilho de descobrimento nos olhos
— Poeta!
O padre foi até ele:
— Pequeno, por que não brinca com os seus colegas?
— É que estou com uma baita dor de barriga
desse feijão bichado.

6.

Carta acróstica:
"Vovó aqui é tristão
Ou fujo do colégio
Viro poeta
Ou mando os padres..."

Nota: Se resolver pela segunda, mande dinheiro
para comprar um dicionário de rimas e um tratado
de versificação de Olavo Bilac e Guima, o do lenço.

7.

Êta mundão
moça bonita
cavalo bão
este quarto de pensão
a dona da pensão
e a filha da dona da pensão
sem contar a paisagem da janela que é de se entrar de soneto
e o problema sexual que, me disseram, sem roupa
alinhada não se resolve.

(...)

10.

Pela rua deserta atravessa um bêbado comprido
e oscilante
como bambu
assobiando...

Ao longo das calçadas algumas famílias
ainda conversam
velhas passam fumo nos dentes mexericando...
Nhanhá está aborrecida com o neto que foi estudar
no Rio
e voltou de ateu
— Se é pra disaprender, não precisa mais estudar

Pasta um cavalo solto no fim escuro da rua
O rio calmo lá embaixo pisca luzes de lanchas
acordadas
Nhanhá choraminga:
— Tá perdido, diz que negro é igual com branco!

(...)

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Publicado no livro Poemas Concebidos sem Pecado (1937).

In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
7 449
Juscelino Vieira Mendes

Juscelino Vieira Mendes

Vida Ordeira

Vida ordeira, muito só
Arrefece a incitação
de escrever composição
em casa de minha avó

Parece-me estranho
a vida caótica; de ator
É o melhor desafiador
da minha imaginação...

madrugada de julho/73.

1 086
Ana Paula Ribeiro Tavares

Ana Paula Ribeiro Tavares

Rapariga

Cresce comigo o boi com que me vão trocar
Amarraram-me já às costas, a tábua Eylekessa

Filha de Tembo
organizo o milho

Trago nas pernas as pulseiras pesadas
Dos dias que passaram...
Sou do clã do boi -

Dos meus ancestrais ficou-me a paciência
O sono profundo de deserto.
A falta de limite...

Da mistura do boi e da árvore
a efervescencia
o desejo
a intranquilidade
a proximidade
do mar

Filha de Huco
Com a sua primeira esposa
Uma vaca sagrada,
concedeu-me
o favor das suas tetas úberes.

Luanda, 84

3 687
Cândido da Velha

Cândido da Velha

As idades da pedra - II

As pálidas luas das tuas ma~os negras,
os olhos da paisagem insular,
teu corpo conspirando com a noite,
(beijo africano de hu'midas presso~es),
toda a claridade da hora aprofundada
no ventre generoso e farto.

A viagem regressiva aos ancestrais:
O reencontro para la' da linha quebrada,
oculta no tempo; justificac,a~o
de sermos outra vez humanos, simples,
tudo nas pa'lidas palmas das ma~os
quando, materna, apresentaste o peito
à concha do ouvido para que ouvisse
o rumor da noite longinqua
e permitiste ao sono que viesse, ama'vel,
na grande verdade a nosso respeito.
e em toda aquela aurora sem mentira
arborizando o corpo quebrantado
ansia'vamos o dia para celebrarmos
o cacimbo matinal em nosso olhar
no fresco odor da casa de madeira.
1 076
Raimundo Bento Sotero

Raimundo Bento Sotero

Tapera

Tornei à casa onde morei um dia
E, no espanto mortal de quem se corta,
Eu observava aquela casa torta,
Sem um traço que fosse da alegria.

Ua ventura, meu Deus, não existia.
Só os fantasmas no vão de cada porta,
Em cada canto uma lembrança morta.
Naquela casa nada mais havia!

Cada buraco aberto na parede
Pelo tempo feroz, cruel, adrede,
Semelhava-se a um meu antepassado.

Todos eles me olhavam gravemente,
Pois sabiam que o tempo, indiferente,
Esculpia também o meu passado.

1 006
Charles Olson

Charles Olson

Maximus para Gloucester, Carta 27 [retida]

Eu retorno a tal geografia,
a terra descendo à esquerda
onde meu pai atirava seu golfe ronhoso
e o resto de nós jogava beisebol
noite de verão adentro até haver mosca
nenhuma à vista e voltávamos para casa
em nossas várias piazzas onde mulheres
sibilavam

À esquerda a terra descia até a cidade,
à direita descia até o mar

Eu era tão jovem minha primeira memória
é de uma tenda armada para alimentar com lagostas
membros de uma convenção da Rexall, e meu pai,
piadista, saía da tenda rugindo
com uma faca de pão entre os dentes para cuidar
do farmacêutico que lhe disseram havia cantado
minha mãe, ela gargalhando, tão segura, redonda
como seu rosto, Hines rosácea e maçã,
sob um chapéu armado das mulheres de então

Isto não é adição nua
de novidade em forma abstrata, isto

não é tumulto ou as formas
de tais eventos, isto,

Gregos, é o término
da batalha

....................É a imposição
de todas aquelas ascendências passadas, os antepassados

meus, a geração daqueles fatos
que são minhas palavras, provêm

de tudo o que não sou mais, contudo sou,
o movimento lento de leste a oeste

de mais do que eu sou

Não há ordem estritamente pessoal
para a minha herança.

....................Grego nenhum será capaz
de discriminar meu corpo.

....................Um americano
é um complexo de ocasiões,
elas mesmas uma geometria
de natureza espacial.

....................Eu tenho esta noção
de que sou um
com minha pele

Mais isto - mais isto:
que eternamente a geografia
que sobre mim se debruça
eu ponho-me a coagir
retroativo a coagir Gloucester
a render-se, a
mudar

....................Pólis
é isto



tradução de Ricardo Domeneck



Maximus to Gloucester, Letter 27 [withheld]


I come back to the geography of it,
the land falling off to the left
where my father shot his scabby golf
and the rest of us played baseball
into the summer darkness until no flies
could be seen and we came home
to our various piazzas where the women
buzzed

To the left the land fell to the city,
to the right, it fell to the sea

I was so young my first memory
is of a tent spread to feed lobsters
to Rexall conventioneers, and my father,
a man for kicks, came out of the tent roaring
with a bread-knife in his teeth to take care of
the druggist they"d told him had made a pass at
my mother, she laughing, so sure, as round
as her face, Hines pink and apple,
under one of those frame hats women then


This, is no bare incoming
of novel abstract form, this

is no welter or the forms
of those events, this,

Greeks, is the stopping
of the battle

....................It is the imposing
of all those antecedent predecessions, the precessions

of me, the generation of those facts
which are my words, it is coming

from all that I no longer am, yet am,
the slow westward motion of

more than I am


There is no strict personal order
for my inheritance.


........................No Greek will be able
to discriminate my body.

....................An American
is a complex of occasions,
themselves a geometry
of spatial nature.


....................I have this sense,
that I am one
with my skin

....................Plus this-plus this:
that forever the geography
which leans in
on me I compell
backwards I compell Gloucester
to yield, to
change

....................Polis
is this


1 079
Orlando Mendes

Orlando Mendes

História

Diz a História que descendo
De celtas, mouros e visigodos.
Descendo e deles herdei todos
Os caracteres fundamentais
E talvez herdasse alguns mais
Da mestiçagem de outras raças
Que fizeram guerras, combatendo
Conquistaram e perderam praças.
Diz a História e não tenho
Do contrario uma prova séria
Em testamento que a revele.
E admito pois que o tamanho,
O rosto, o sangue, a cor da pele,
A fria razão e o instinto,
Adquiri em séculos de Ibéria
Para ser o que penso e sinto
O que mostro e o que oculto,
Excitável carne e uma voz
Memória de um país adulto
Que se não cala por não trair-me
No idioma de meus avós,
Para ser a mão direita firme
Que enche de palavras o papel,
Perpétuo aprendiz que sou eu
De velho oficio sem licença.
Admito. E as datas festejo
E retomo lutas que não venço
E amo nas horas do desejo
Com o mesmo requinte que deu
Origem de mim à Criação
E bebo o vinho e como o pão
Da minha sede e da minha fome.
Admito. E por isso, deponho.
Contudo, nada herdei que dome
A grandeza nova que transmito,
Não apenas sede, fome e sonho
De vinho, de pão ou de infinito,
Desejo, posse e fecundidade
Coragem forjada no segredo
Medo que se chore ou se brade
Guerra de amigo ou de inimigo,
Não própriamente o enredo
Mas esta seiva elementar
De África nos versos que digo
E os homens a saibam cantar.
1 280
Péricles Eugênio da Silva Ramos

Péricles Eugênio da Silva Ramos

Joana Madalena

1

Cega, chuleava roupa.
Não via, mas chuleava.
E tinha noventa
anos. E era
cega.

Hoje talvez enxergue;
mas as cinzas não trabalham.

2

És a lua de ontem,
minha avó.
Ausente à vista, certa na memória;
tranquila na lembrança
como o pão e a roupa,
os livros que me deste.

E és um presente ao homem,
àquele que hoje sou,
feito de velhos dias:

com teus lençóis sem mancha
nas tardes de Lorena —
onde há lençóis, nuvens lavadas
em céus também lavados.

3

Tarde adentro a voz se ouvia
na varanda,
tarde adentro
(a tarde era profunda):
"O fim é que é triste.
Um belo romance, A Filha do Diretor do Circo.
Como a Dejanira lia bonito!
Leia um pouco, meu neto."
E o menino lia.

Colibris revoavam no alpendre,
das canangas e dos manacás e dos bambus do Japão
subia um meigo aroma,
e havia em tudo um sabor de fonte e de jambo,
e tudo era idílico e doce,
mesmo a voz das corruíras pelas calhas,
mesmo o coaxar das rãs na terra úmida.
Crescia o musgo nas paredes
e havia papoulas e jasmins-do-cabo e rosas-chá
e flores de araruta como borboletas brancas:
tudo tão distante...

Ó minha avó, ó lua de ontem,
ensinarei teu nome aos pássaros em fuga.


Publicado no livro Lua de Ontem (1960). Poema integrante da série Um Homem e seus Fantasmas.

In: RAMOS, Péricles Eugênio da Silva. Poesia quase completa. Rio de Janeiro: J. Olympio, 197
1 121
Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

A Voz de Meus Cata-ventos

"A Voz de Meus Cata-ventos", de Marco Antonio Souza, traz o vento de um bom texto. O interesse pela leitura, a liberdade ornamental das palavras formam poemas sínteses onde o ordinário da vida cresce a árvore da criatividade. Os elementos usados na composição são de uma solidez unânime. O fluir da filosofia veste de linho as palavras. Marco Antonio se põe a pintar o avô no poema "Morto": "Avô Alírio e as nódoas roxas/ no cavo rosto e flácido corpo,/ deitado e sem siso,/ mais agônico, mais morto." Daí decorre o domínio da pintura abrindo os olhos para o "eu" do poeta. Este "eu" transfigura o irreal no real das coisas perenes.
Marco Antonio faz um seletivo de temáticas abrindo um leque transcendental de conhecimentos exigidos na arte poética. Se de todo os poemas não se mostram na primeira leitura, o leitor descobre a evolução de imagens, a paisagem, a captação mineral silábica dos versos. Do poema "Hora Absurda": "Certos anzóis/ fisgam almas como a servidas hóstias: / Satã." A expressão absurda é uma constante na poesia de Marco Antonio Souza. Uma alquimia descobre o avesso da alma, do corpo, das mãos do poeta. Os vegetais estão presentes e germinam nos lábios. Símbolos, o arbitrário, o inovado, cromatizam a fala. O livro é invadido pelo estado de consciência. O breve poema "O Doente" é de uma realidade tocante: "Cosme cruel, o náusea,/ vestia-se de sujo e já era morto/ com assombradas luas revisitadas pela loucura.
Abandono da pessoa humana ganha amplitude e dualização visual na estrutura poética. Anjos, quintais, horas, avô, flores, figuras, alma, náuseas, sonhos criam uma anatomia. O retrato do poeta já marca o artista dentro do texto. "A Voz de Meus Cata-ventos" indaga o tempo no relógio da sala. Banha o mar interior do leitor, caracterizando um discurso a que não podemos ficar indiferentes. A solidão que encontramos na leitura dos poemas é um exemplo de forma aberta a muitas releituras. A palavra deve ser recebida no silêncio. Almejamos, de certo modo, um andamento ao livro em toda sua conclusão.

1 069
Hilda Hilst

Hilda Hilst

Venho de Tempos Antigos

Deus
pode ser a grande noite escura
E de sobremesa

O flambante
sorvete de cereja.
Deus? Uma superfície de gelo ancorada no riso.
Venho de tempos antigos. Nomes extensos:
Vaz Cardoso, Almeida Prado
Dubayelle Hilst… eventos.
Venho de tuas raízes, sopros de ti.
E amo-te lassa agora, sangue, vinho
Taças irreais corroídas de tempo.
Amo-te como se houvesse o mais e o descaminho.
Como se pisássemos em avencas
E elas gritassem, vítimas de nós dois:
Intemporais, veementes.
Amo-te mínima como quem quer MAIS
Como quem tudo adivinha:
Lobo, lua, raposa e ancestrais.
Dize de mim: És minha.
1 456
Antonio Risério

Antonio Risério

Invenção do Brasil

Um aspecto da obra de Gregório, relacionado com a aldeia curotupinambá que se reuniu na Bahia quinhentista em torno das figuras hoje lendárias de Caramuru e Paraguaçu, tem-me voltado à mente, puxado pela proximidade do aniversário em que vamos completar meio milênio do encontro entre portugueses e índios, nos arredores de Porto Seguro.
É claro que, no ano 2000, assistiremos a uma espécie de repeteco do que aconteceu anos atrás, com a passagem do 5º Centenário da arribada de Colombo. Num extremo, os radicais que vão celebrar o grande feito lusitano, a "descoberta" etc. No outro, os radicais, que vão discursar em nome dos índios, quem sabe exigindo a devolução do litoral carioca aos tupinambás. Nos dois extremos _a mistificação. E a crítica gregoriana me ocorre no momento em que, na soleira do ano 2000, concentro-me nas primeiras luzes do processo histórico-cultural brasileiro.
Simples. No século 17, quando a consolidação da empresa colonizadora lusitana deixara já para trás o período de colonização assistemática e extra-estatal promovida pelos diversos "caramurus" do Brasil, a elite dirigente quis definir a sua fisionomia de nobreza tropical. Para isso, maquiou-se branca e européia. Gregório foi em cima, recorrendo ao signo "caramuru" (que usa pejorativamente) para apontar o enraizamento daquela gente na aldeia mestiça, espaço de hibridizações genéticas e simbólicas entre ameríndios e desgarrados de além-mar.
Gregório aviva a ascendência ameríndia que aquela fidalguia pretendia abolir ou, ao menos, sublimar. Mas não só. Ao dado genético, acrescenta um traço fundamental do mundo indígena.
Além do sangue "impuro", a nobreza traz a alma maculada, manchada por um pecado pavoroso, do ponto de vista europeu: é filha, em linha direta, de canibais. "Que é fidalgo nos ossos, cremos nós,/ Que nisso consistia o mor brasão/ Daqueles que comiam seus avós". E a sua visão da figura matriz desse "fidalgo caramuru" é politicamente esplêndida: "Um calção de pindoba a meia porra,/ camisa de urucu, mantéu de arara,/ em lugar de cotó, arco e taquara,/ penacho de guarás em vez de gorra". Este é o "Adão de Marapé" (região onde começavam as terras de Mem de Sá, por sinal), do qual, segundo o poeta, "procedem os fidalgos dessa terra".
Como se vê, Gregório usa o vocabulário tupi e a referência ao Caramuru para _trazendo à cena o processo de miscigenação, iniciado desde o momento em que o primeiro europeu pisou aquela que seria a futura Terra do Brasil_ ridicularizar pretensões da nobreza baiana. O que o poeta desanca (de uma perspectiva racista e etnocentrista), num texto linguisticamente miscigenado, é a mistura racial e o fato de a genealogia da aristocracia local recuar em direção a um povo não-cristão _aqui retratando numa moldura de irracionalidade, fereza, feiúra, irreligiosidade e canibalismo. Sim, o Boca do Inferno dispara contra todos, numa época em que netos de Diogo Caramuru ocupavam "posições-de-relevo" na sociedade colonial. Mas o que é mesmo que isso tem a ver com os "500 Anos"?
Tudo. O que chamo "período caramuru" da história do Brasil vai voltar à baila, na esquina entressecular que nos espera. Numa conjuntura curiosa, aliás. Até recentemente, os estudiosos do processo brasileiro afirmavam que a colonização do Brasil só começou, de fato, com a vinda da armada de Martim Afonso de Souza, estabelecendo em São Vicente as bases daquela "vida conversável" de que fala o diário perolopino. Ali teria iniciado a história do Brasil. Veio então a guinada brusca. A afirmação categórica de que a nossa história começa com os índios, tendo seu ponto de partida, presumo, em remotas migrações paleoasiáticas. São dois equívocos.
O que começa _com Martim, as capitanias, Thomé de Souza_ é a colonização estatal do Brasil. O avanço do Estado lusitano nos trópicos. Mas, antes disso, tivemos a colonização marginal, não-oficial, de caramurus, como Diogo Álvares e João Ramalho. De outro lado, a história ameríndia _assim como as histórias portuguesa e africana_ faz parte de nossa pré-história. É lá, em nossa pré-história, que ficam antigas movimentações indígenas, lutas de Viriato ou do Mestre de Avis. O processo brasileiro propriamente dito é outra coisa. Tem início na encruzilhada em que se mesclam e se atritam vertentes histórico-culturais dessemelhantes. No encontro entre a onda extra-estatal dos caramurus e as sociedades não-estatais de nossos antepassados indígenas. É aí que principia a nossa trama biossemiótica.
É claro que emprego a expressão "caramuru" de modo amplo _e sem preconceitos. "Caramuru" é, por assim dizer, toda coisa, signo ou pessoa que se imiscuiu na antemanhã da vida brasílica, por conta de uma vicissitude qualquer, mas sempre fora da órbita das determinações do Estado. Daí que, como disse, a faceta caramurua da obra gregoriana tenha chamado de novo a minha atenção.
Relendo-a, em função dos 500 anos, podemos constatar resumidamente que: Gregório nos previne e nos prepara contra mistificações de elite; nos previne e nos prepara, igualmente, contra idealizações do índio; e, ainda mais, pela sua própria unilateralidade e por seus preconceitos, pelo caráter tantas vezes caricatural e agressivo de seus textos, nos previne e nos prepara, também, contra ele mesmo.
Os "500 Anos" convidam _incitam_ a uma releitura do Brasil. E aqui, entre outras coisas, iremos recorrer a nossa madrugada histórica, sociocultural. Eclipsado tanto pelos defensores da tese de que a vida brasileira começa com o desembarque do capitão Martim quanto pelos defensores de que o lance se inicia no estreito de Bering, o "período caramuru" deve vir à luz. A visada gregoriana é um índice poético de sua natureza fundante. E o que penso é que, antes que celebrar ou atacar a "descoberta", teremos que repensar a invenção do Brasil.

Antonio Risério é poeta e ensaísta, autor, entre outros, de "Oriki Orixá" (Perspectiva).

(in Folha de São Paulo)

1 620
Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

O Casaco de Murilo Mendes

São dez horas e este relógio eterno,
vindo de meus avós, bate o mofo do tempo.
O cristal enfeita a mesa e quadros vestem
de linho as paredes. São dez horas de continuidade
de vida. Respiro a alfazema das magnólias. É julho.

Nada importa se dormes em porto distante.
Quero revelar a rotação da alma. Esta alma
aguarda o perfume, a visitação azul da poesia.

Será o relógio que desfaz o silêncio na noite?
Um vulto longo, com brancura nas mãos, veste um casaco
europeu. Me olha como um rebanho de carneiros.

As camélias estão amarelas. Foram meus dedos.
A libertação está na palavra. Elas apartam
a forma que fui. Liberto as tâmaras do tempo.

O vulto me olha e põe poesia solferina em meus dedos.
A sala fica iluminada. O vulto de casaco europeu coloca
o Cometa de Halley em cima da cristaleira. Sorri:

- Escuta, no fim da tarde, o piano de Mariinha.
A poesia chega no vento.
Ela é como o Cometa de Halley.

1 037
Rolf de Souza

Rolf de Souza

Seu cabelo é raíz exposta

Seu cabelo é raíz exposta
que deixa a amostra
uma História que não se pode calar!

Uma História plantada na cabeça.
Para que não se esqueça
a áfrica de seus ancestrais.

Quem não conhece esta História
com a pele se conforma,
mas com o cabelo, não há perdão, o deforma.

De repente: uma história! Não: A História!
Uma História que, como não se fosse pouco,
vira dona de todo o corpo.

Nela se aprende que cabeça
não é só cabeça: é orí.
É nela que está a força que te faz existir.

Seu cabelo de fora será um escândalo!
Mas lembra da Rainha Nefertiti,
cuja coroa é a própria carapinha!

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Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Talismanes

Un ejemplar de la primera edición de la Edda Islandorum
de Snorri, impresa en Dinamarca.
Los cinco tomos de la obra de Schopenhauer.
Los dos tomos de las Odiseas de Chapman.
Una espada que guerreó en el desierto.
Un mate con un pie de serpientes que mi bisabuelo trajo de Lima.
Un prisma de cristal.
Una piedra y un abanico.
Unos daguerrotipos borrosos.
Un globo terráqueo de madera que me dio Cecilia Ingenieros
y que fue de su padre.
Un bastón de puño encorvado que anduvo por las llanuras de
América, por Colombia y por Texas.
Varios cilindros de metal con diplomas.
La toga y el birrete de un doctorado.
Las Empresas de Saavedra Fajardo, en olorosa pasta española.
La memoria de una mañana.
Líneas de Virgilio y de Frost.
La voz de Macedonio Fernández.
El amor o el diálogo de unos pocos.
Ciertamente son talismanes, pero de nada sirven contra la
sombra que no puedo nombrar, contra la sombra que no
debo nombrar.



Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 422 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Há Um Sol de Cavalo Nas Ruas E Nos Olhos.

Há um sol de cavalo nas ruas e nos olhos.
Há um cavalo de sol nos campos e nas cores.
E a tua língua embriaga-se de sabores tão verdes
como as maçãs da infância das tias e avós.

Há um sul e há um norte na cabeça do cavalo,
uma agulha se crava no centro do meu cérebro,
as minhas vértebras dilatam-se pelo vigor do novo,
por cada pedra ferida e pelo verbo intenso.

O minério do cavalo, a parede, o incêndio
tudo devora a palavra, tudo tomba e se centra
no vigor de um alento de primavera verde.
1 098
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Al primer poeta de Hungría

En esta fecha para ti futuraque no alcanza el augur que la prohibida
forma de porvenir ve en los planetas
ardientes o en las vísceras del toro,
nada me costaría, hermano y sombra,
buscar tu nombre en las enciclopedias
y descubrir qué ríos reflejaron
tu rostro, que hoy es perdición y polvo,
y qué reyes, qué ídolos, qué espadas,
qué resplandor de tu infinita Hungría,
elevaron tu voz al primer canto.
Las noches y los mares nos apartan,
las modificaciones seculares,
los climas, los imperios y las sangres,
pero nos une indescifrablemente
el misterioso amor de las palabras,
este hábito de sones y de símbolos.
Análogo al arquero del eleata
un hombre solo en una tarde hueca
deja correr sin fin esta imposible
nostalgia, cuya meta es una sombra.
No nos veremos nunca cara a cara,
oh antepasado que mi voz no alcanza
Para ti ni siquiera soy un eco;
para mí soy un ansia y un arcano,
una isla de magia y de temores,
como lo son tal vez todos los hombres,
como lo fuiste tú, bajo otros astros.


Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 365 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 799
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

1972

Temí que el porvenir (que ya declina)
sería un profundo corredor de espejos
indistintos, ociosos y menguantes,
una repetición de vanidades,
y en la penumbra que precede al sueño
rogué a mis dioses, cuyo nombre ignoro,
que enviaran algo o alguien a mis días.
Lo hicieron. Es la Patria. Mis mayores
la sirvieron con largas proscripciones,
con penurias, con hambre, con batallas,
aquí de nuevo está el hermoso riesgo.
No soy aquellas sombras tutelares
que honré con versos que no olvida el tiempo.
Estoy ciego. He cumplido los setenta;
no soy el oriental Francisco Borges
que murió con dos balas en el pecho,
entre las agonías de los hombres,
en el hedor de un hospital de sangre,
pero la Patria, hoy profanada quiere
que con mi oscura pluma de gramático,
docta en las nimiedades académicas
y ajena a los trabajos de la espada,
congregue el gran rumor de la epopeya
y exija mi lugar. Lo estoy haciendo.


"La rosa profunda" (1975)



Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 415 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 179
Rui Costa

Rui Costa

breve ensaio sobre a potência 26

Ser adulto é quase impossível no mundo
só imberbe. Acreditas mais num ficheiro
Microsoft do que nas salmodias da tua avó.
O novo deus do mundo será um adolescente
com jeito para a música e o cabelo a imitar
os heróis da manga. A luz desloca-se com
pressa para chegar antes de envelhecer.

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Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Junín

Soy, pero soy también el otro, el muerto,
el otro de mi sangre y de mi nombre;
soy un vago señor y soy el hombre
que detuvo las lanzas del desierto.
Vuelvo a Junín, donde no estuve nunca,
a tu Junín, abuelo Borges. ¿Me oyes,
sombra o ceniza última, o desoyes
en tu sueño de bronce esta voz trunca?
Acaso buscas por mis vanos ojos
el épico Junín de tus soldados,
el árbol que plantaste, los cercados
y en el confín la tribu y los despojos.
Te imagino severo, un poco triste.
Quién me dirá cómo eras y quién fuiste.

Junín, 1966


Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 255 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
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