Poemas

Avós e Antepassados

Poemas neste tema

Ricardo Aleixo

Ricardo Aleixo

ÁLBUM DE FAMÍLIA

Meu pai viu Casablanca três vezes (duas
no cinema e uma na TV). Meu avô
trabalhou na boca da mina. Meu bisavô
foi, no mínimo, escravo de confiança.
721
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Verrugas

eu me lembro melhor da minha vó
por causa de todas as verrugas dela
ela tinha 80 anos e as verrugas eram
enormes
eu não conseguia tirar os olhos de suas
verrugas
ela vinha para Los Angeles todos os domingos
de ônibus e bonde desde Pasadena
sua conversa era sempre a mesma
“eu vou enterrar todos vocês”
“você não vai me enterrar”,
meu pai dizia
“você não vai me enterrar”,
minha mãe dizia
então sentávamos para um jantar
dominical
depois da despedida minha mãe dizia
“eu acho terrível o jeito como ela fala
que vai enterrar todo mundo.”
mas eu até que gostava
dela sentada ali
coberta de verrugas
e ameaçando enterrar todos
nós
e quando ela comia o jantar
eu observava a comida entrando em sua boca
e olhava suas
verrugas
eu a imaginava indo ao banheiro
e limpando o traseiro
e pensando,
eu vou enterrar todo mundo
o fato de que ela não enterrou
foi até meio triste para
mim
certo domingo ela simplesmente não estava
lá, e foi um
domingo bem mais chato
outra pessoa teria que
nos enterrar
a comida mal tinha gosto
também
1 190
Emílio Burlamaqui

Emílio Burlamaqui

Angico

Fogão de lenha, carvão de angico.
Bastava abanar e logo saía um café quente
Servido em bule de ágata, em chícara de ágata.

O cigarro era forte, o pigarro também.

Minha meninice na casa do meu avô
Durou uma eternidade.

Naquele tempo eu não tomava café,
Não fumava e não tinha pigarro.
Não sabia sequer que mulher
Rimava com sofrer. Rima?
Mulher rima com quê?

Mas já então eu pressentia:
Naquelas menininhas que me compulsavam
Ao Jogo do Anel havia algo diferente.
Eu era muito pequeno mas já sentia
Que aquelas mãozinhas quentes e fugidias
Tinham um toque muito diferente.

E se uma delas, ela, demorava um pouquinho mais
Suas mãos entre as minhas e me passava o anel,
Para mim era o sinal certo de que entre nós havia
Aquilo que um dia chamar-se-ia
Uma grande paixão.

Porém se nada disso sucedia,
Naquela noite eu acho que ia dormir triste,
Como hoje.

Depois, a mulher deixou de ser inatingível
Para ser apenas inalcançável.

E eu vim a conhecer a mulher
E a saber que nesses seres movediços,
Sedosos, sediços,
Havia um sumidouro.

Afinal, há rima para mulher?
Para homem tem. Serve lobisomem?

1 067
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Árvore Genealógica

nada de mais na minha árvore genealógica, bem, houve o meu tio
John, procurado pelo F.B.I., me pegaram primeiro.
Vovô Leonard, no meu lado paterno, ficava muito
amável quando bebia, elogiava todo mundo, distribuía dinheiro,
chorava copiosamente pela condição humana, mas quando ficava
sóbrio se dizia dele que era uma das criaturas mais
ruins jamais vistas, escutadas ou evitadas.
não muito mais exceto Vovô Willy no meu lado
materno (lá na Alemanha): “Ele era um homem amável,
Henry, mas tudo que queria fazer era beber e tocar seu
violino, ele tocava tão bem, ele tinha um ótimo
emprego numa orquestra sinfônica de primeira mas o
perdeu por causa da bebida, ninguém queria contratá-
lo, mas ele era bom com o violino, ele ia para os cafés
e pegava uma mesa e tocava seu violino, botava o chapéu
sobre a mesa de cabeça pra baixo e as pessoas colocavam um
monte de dinheiro dentro mas ele continuava comprando bebida e
tocando o violino e logo passou a não tocar tão bem
assim e pediam que ele saísse mas na noite
seguinte ele encontrava outro café, outra mesa, ele
escrevia sua própria música e ninguém conseguia tocar violino
como ele conseguia.
Ele morreu certa noite na mesa, largou o
violino, tomou a bebida, deitou a cabeça na mesa e
morreu”.
bem, houve o meu tio Ben, ele era tão bonito que
assustava, ele era bonito demais, ele simplesmente fulgurava,
não dava para acreditar e aquilo não passava, tudo que ele
podia fazer a respeito era sorrir e acender outro cigarro
e encontrar outra mulher para sustentá-lo e consolá-lo, e
depois encontrar outra mulher para fazer o mesmo, e depois encontrar
outra.
ele morreu de tuberculose num sanatório nas colinas, o maço de
cigarros embaixo do travesseiro, morto ele sorria, e em seu
enterro 2 dúzias das mais lindas mulheres de Pasadena,
Glendale e Echo Park choraram
desavergonhadamente enquanto meu pai o xingava no caixão: “Seu
filho da puta desgraçado, você nunca trabalhou um único dia na
vida!”.

meu pai, é claro, foi um que eu nunca consegui decifrar –
quero dizer, como é que ele pode ter conseguido entrar na árvore
genealógica.
mas eu estava me sentindo bastante bem até aqui, mal pode haver
algum proveito em fazer disso aqui um poema depressivo.

bem, às vezes você ganha um macaco estranho num galho e tudo que você
pode fazer é perdoar se puder e esquecer, se possível,
e se nem uma nem outra coisa adiantar, então pense nos outros
e saiba que ao menos parte do seu sangue tem alguma
esperança.
1 226
João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

Autobiografia de um só dia

No engenho poço não nasci:
minha mãe, na véspera de mim,

veio de lá para a Jaqueira,
que era onde, queiram ou não queiram,

os netos tinham de nascer,
no quarto-avós, frente à maré.

Ou porque chegássemos tarde
(não porque quisesse apressar-me,

e se soubesse o que teria
de tédio à frente, abortaria)

ou porque o doutor deu-me quandos,
minha mãe no quarto-dos-santos,

misto de santuário  e capela,
lá dormiria, até que para ela,

fizessem cedo no outro dia
o quarto onde os netos nasciam.

Porém em pleno céu de gessos,
naquela madrugada mesmo,

nascemos eu e minha morte,
contra o ritual daquela corte

que nada de uma homem sabia:
que ao nascer esperneia, grita.

Parido no quarto-dos-santos,
sem querer, nasci blasfemando,

pois são blasfêmias sangue e grito
em meio à feririce de lírios,

mesmo se explodem (gritos, sangue),
de chácaras entre marés, mangues.
857
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Grande Homem, Pequeno Soldado

Grande homem, pequeno soldado,
vontade de matar nos olhos mansos,
o coração com sede de palavras.. .
Todos os brinquedos de minha filha:
soldado, capitão, ladrão.

Veste a farda e toca o tambor,
toca desesperadamente o clarim.
Atrás da cova está te espiando
meu avô, veterano do Paraguai.

A guerra terminou ontem
mas ainda há batalhas dentro do peito
que estão reclamando heróis.
Olha o guerreiro atrás do toco,
bravamente esmurrando o peito.

As crianças sobem no bigode
do sargento que sonha em pé,
vê uma medalha em cada estrela
e tem ímpetos de aeroplano.

Major, coronel, general,
que sou eu afinal na terra,
estou sempre me destruindo,
espada na cinta, ginete na mão.

Soldado sem experiência,
que lindo campo de papoulas
e você dançando sem dólman
nas pupilas de Chiquinha Gomes,
sem dólman, sem alma, simples
como um disco.

Ora viva seu comandante
com sua cara de barbante
e seu nariz de pedante
levando surras da amante
e gritando: Viva a República.

Mas sobre exércitos e frotas
a mão que distribui brinquedos
vai colorindo novas formas.
1 372
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Imagem, Terra, Memória

Sobre uma coleção de velhas fotografias de Brás Martins da Costa

I

Vejo sete cavaleiros
em suas selas e silhões.
As diferentes idades não
distinguem uns dos outros.
Os varões, as amazonas,
os meninos, seus corcéis
e suas mulas serenas
estacaram. Dentro em pouco
vai começar a viagem
no país do mato-fundo.
Eles sete nos convidam
a percorrer este mundo
miudinho dentro do mundo
e grande maior que o mundo
em cada lasca de ferro
cada barba
cada reza
cada enterro
mato-dentro.


II

Aqui chegamos pois à velhice do Guarda-Mor
com seus quarenta e seis descendentes em volta,
sua mocidade revolucionária ao lado de Teófilo Ottoni,
marcando o fim da era do Oitocentos
e um silêncio de igreja que a procissão
vai incensando, vai gregoriando pelas ruas principais.
Súbito, a menina crucificada
na postura de Cristo repete o holocausto
que os pecadores insistem em não compreender.
É indispensável, é urgente levantar o cruzeiro,
sinal de culpa e resgate
sobre interesses e podres de família,
sobre fazendolas hipotecadas
de gado, milho, café, carrapato redoleiro,
erguê-lo à altura majestática do Pico do Cauê,
se não mais alto, muito mais ainda.
Braços robustos tiram-no do chão
e o vão alçando com fervor e suor
até que ele paire sobre as consciências arrependidas.
Os padres, o Senhor Bispo, o Santo Padre invisível-presente
velam o sono, vigiam o acordar e o labutar do povo,
entre velocípedes, ornatos florais,
cães fiéis aos pés de seus donos de botas
e uma honrada banda de música, Euterpe morena,
a encher de arte e vibração o território parado.


III

Olha
a ambiguidade melancólica do rosto dessa mulher à janela
que abre para mares impossíveis de liberdade,
enquanto passa em cortejo o alvo corpo do anjinho
no rumo direto do céu,
onde com minha Mãe estarei, estaremos todos
na santa glória um dia.

Moças, ó moças
que emergis da piscina do tempo sem uma ruga
a marcar vossos rostos:
no pesado gorgorão dos vestidos de missa,
ressuscitais a moda abolida, a sempre moda.
Na chapa de vidro descoberta no arcaz
gravada ficou a beleza que a opressão familiar
não empalidece, não destrói.
Belas não obstante as proibições seculares
que vos condenavam ao casamento sem amor, ao sexo abafado,
ao tio-com-sobrinha, ao primo rico ou de futuro,
moças do Rio Doce de perfume silvestre,
hoje pousais no solo abstrato,
esse amplo solo que a memória estende
sobre o vazio de extintas gerações.


IV

Fecho este álbum? Ou nele me fecho
em urna luminosa onde converso e valso,
discuto compra e venda, barganha, distrato,
promessa de santo, construção de cerca,
briga de galo, universais assuntos?
Os sete cavaleiros se despedem.
Só agora reparo:
vai-me guiando Brás Martins da Costa,
sutil latinista, fotógrafo amador,
repórter certeiro,
preservador da vida em movimento.
Vai-me levando ao patamar das casas,
ao varandão das fazendas,
ao ínvio das ladeiras, à presença
patriarcal de Seu Antônio Camilo,
à ronha política de Seu Zé Batista,
ao semblante nobre do Dr. Ciriry,
às invenções de Chico Zuzuna,
aos garotos descalços de chapéu,
a todo o aéreo panorama
de serra e vale e passado e sigilo
que pousa, intato, no retrato.

A fotoviagem continua
ontem-sempre, mato adentro,
imagem, vida última dos seres.
1 358
Ribeiro Couto

Ribeiro Couto

Cantiga do Avô Português

O meu avô foi à caça
Na serra do Cubatão.
Mas, ano vem, ano passa,
Nunca volta do sertão.

Dizem que os índios são bravos.
Nem sempre as índias também!
Meu avô levou escravos
Com redes que embalam bem.

O bafo das noites quentes
Faz pensar noutros Brasis
Em que andam nossos parentes
Com outras índias gentis.

"A caça, que tempo dura?",
A minha mãe perguntei.
"Vai até a sepultura,
Porque é serviço de El-Rei."


Publicado no livro Entre Mar e Rio: poesia (1952). Poema integrante da série Neto de Emigrante.

In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.38
1 129
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

José Cláudio

Da outra vida,
Moreno,
Olha-me de face,
Com o bonito sorriso Pontual
Adoçado pela bondade do nosso avô Costa Ribeiro.
Olha-me de face,
Bem de face,
Com os olhos leais,
Moreno.

Conta-me o que tens visto,
Que músicas ouves agora.
Lembras-te ainda do cheiro dos bangiês de Pernambuco?
Das tuas correrias de menino pelos descampados da Gávea?
Lembras-te ainda da ponte que construíste sobre o Paraguai?
Do pastoril de Cícero?
Lembras-te ainda das pescarias de Cabo Frio?
(Elas te deram não sei que ar salino e veleiro,
Moreno.)

O espanto que nos deixaste!
Como fizeste crescer em nós o mistério augusto da morte!

Todavia,
Não te lamento não:
A vida,
Esta vida,
Carlos já disse,
Não presta.
Mas o vazio de quem
Eras marido e filho?
— Filho único, Moreno.
902
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Infância

Corrida de ciclistas.
Só me recordo de um bambual debruçado no rio.
Três anos?
Foi em Petrópolis.
Procuro mais longe em minhas reminiscências.
Quem me dera me lembrar da teta negra de minh'ama-de-leite...
... Meus olhos não conseguem romper os ruços definitivos do tempo.

Ainda em Petrópolis... um pátio de hotel... brinquedos pelo chão...

Depois a casa de São Paulo.

Miguel Guimarães, alegre, míope e mefistofélico,
Tirando reloginhos de plaquê da concha de minha orelha.
O urubu pousado no muro do quintal.
Fabrico uma trombeta de papel.
Comando...
O urubu obedece.
Fujo, aterrado do meu primeiro gesto de magia.

Depois... a praia de Santos...
Corridas em círculos riscados na areia...
Outra vez Miguel Guimarães, juiz de chegada, com os seus presentinhos.
A ratazana enorme apanhada na ratoeira.
Outro bambual...
O que inspirou a meu irmão o seu único poema:

Eu ia por um caminho,
Encontrei um maracatu.
O qual vinha direitinho
Pelas flechas de um bambu.

As marés de equinócio,
O jardim submerso...
Meu tio Cláudio erguendo do chão uma ponta de mastro destroçado.

Poesia dos naufrágios!

Depois Petrópolis novamente.
Eu, junto do tanque, de linha amarrada no incisivo de leite, sem coragem de puxar.
Véspera de Natal... Os chinelinhos atrás da porta...
E a manhã seguinte, na cama, deslumbrado com os brinquedos trazidos pela fada.
E a chácara da Gávea?
E a casa da Rua Don'Ana?

Boy, o primeiro cachorro.
Não haveria outro nome depois
(Em casa até as cadelas se chamavam Boy).

Medo de gatunos...
Para mim eram homens com cara de pau.

A volta a Pernambuco!
Descoberta dos casarões de telha-va.
Meu avô materno — um santo...
Minha avó batalhadora.

A casa da Rua da União.
O pátio — núcleo de poesia.
O banheiro — núcleo de poesia.
O cambrone — núcleo de poesia (la fraicheur des latrines!).
A alcova de música — núcleo de mistério.
Tapetinhos de peles de animais.
Ninguém nunca ia lá... Silêncio... Obscuridade...
O piano de armário, teclas amarelecidas, cordas desafinadas.

Descoberta da rua!
Os vendedores a domicílio.
Ai mundo dos papagaios de papel, dos piões, da amarelinha!
Uma noite a menina me tirou da roda de coelho-sai, me levou, imperiosa e ofegante, para um desvão da casa de Dona Aninha Viegas, levantou a sainha e disse mete.
Depois meu avô... Descoberta da morte!

Com dez anos vim para o Rio.
Conhecia a vida em suas verdades essenciais.
Estava maduro para o sofrimento
E para a poesia!
2 140
Manuel António Pina

Manuel António Pina

A avó

Tinha ao colo o gato velho
cansadamente passando
a sua branca mão pelo
pêlo dele preto e brando

Sentada ao pé da janela
olhando a rua ou sonhando-a
todo o passado passando
a passos lentos por ela

Dormiam ambos enquanto
a tarde se ia acabando
o gato dormindo por fora
a avó dormindo por dentro


Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 323 | Assírio & Alvim, 2012
1 831
Martha Medeiros

Martha Medeiros

minha bisavó reclamava que minha avó

minha bisavó reclamava que minha avó
era muito tímida
minha avó pressionou minha mãe a ser
menos cética
minha mãe me educou para ser bem lúcida
e eu espero que minhas filhas fujam desse
cárcere
que é passar a vida transferindo dívidas
1 609
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Trazes os sapatos pretos

Trazes os sapatos pretos
Cinzentos de tanto pó.
Feliz é quem tiver netos
De quem tu sejas avó!
1 648
Gilson Nascimento

Gilson Nascimento

Resposta difícil

Avô e neto, amor nos olhos, vi
Pelas ruas alegres da cidade
Os extremos da vida se tocavam
Coração novo e velho ambos pulsavam
O pulsar doce da felicidade.

Defronte a uma vitrine os dois pararam
E os olhos do garoto namoraram
Um namoro gosto e demorado
Com uma bola vestida der listrado
Que derramava cor na exposição.

E olhos buliçosos, o Netuno
Fitando o olhar baço do velhinho
Voz aflita lhe fez esse pedido:
Compre essa bola, meu avô, pra mim
Olhe pra ela, não é bonitinha ?
Procure aí um dinheiro no seu bolso
Pergunte o preço, depressa, àquele moço
Eu me amarro, vovô, em futebol.

E o velho, que era rico de pobreza
Mas do metal que compra muito pobre
Só tinha de abastança o coração
E a alma, sem tamanho, pura e nobre.

Perdeu, então, a fala de repente
Procurou-a. Inútil seu intento
Só encontrou pra responder ao neto
Um orvalhar de olhos bem discreto
E a fala muda de seu pensamento

801
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Los Borges

Nada o muy poco sé de mis mayores
portugueses, los Borges: vaga gente
que prosigue en mi carne, oscuramente,
sus hábitos, rigores y temores.
Tenues como si nunca hubieran sido
y ajenos a los trámites del arte,
indescifrablemente forman parte
del tiempo, de la tierra y del olvido.
Mejor así. Cumplida la faena,
son Portugal, son la famosa gente
que forzó las murallas del Oriente
y se dio al mar y al otro mar de arena.
Son el rey que en el místico desierto
se perdió y el que jura que no ha muerto.



Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 136 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
2 389
Vesna Parun

Vesna Parun

Oliveiras velhas como velhas mulheres

Oliveiras velhas como velhas mulheres
Sempre sempre expostas à seca e ao vento
Desde a era bíblica as velhas oliveiras
Já vêm embalando a paz mítica no ventre
Oliveiras filhas do mar atarracadas
Todo o sofrimento humano nelas está
Deitaram raízes no penhasco grávidas
Oliveiras berço do sol e leito do ar
Oliveiras minhas irmãs no oceano
Passam os seus dias vazios descontentes
Feito nossos avós túmidas de ruína
Escuras e negras com seus mementos tristes
Oliveiras vocês são empedrada gente
Nossas amarguras nossos duros pesares
Dos seus seios jorra um dourado azeite
E a vida transborda como nos velhos livros
(tradução de Aleksandr Jovanovic, in Céu Vazio: 63 poetas eslavos, São Paulo: Hucitec, 1996).
.
.
.
849
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Os Gloriosos

O chão da sacristia é forrado de campas,
domicílio perpétuo dos Antigos,
pois assim deve ser: volta dos filhos
da Santa Madre à Matriz do batismo,
para serem pisados como pó
e lembrados como reis.
1 295
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Miguelzinho e Isabel

I
— Que menino inteligente
Minha gente!
— Saiba você que é o menino
Bisneto de Zeferino.
— Que menina! Que feitiço
Tem no olhar!
— Pudera! O avô é Ademar...
O pai, Miguel... — É por isso!
II
— Quem é a mãe de Miguelzinho?
— De Miguelzinho? Gisah.
— Ah!
Por isso é tão bonitinho.
— As avós desta menina
Quem são?
— Dona Isa, Dona Edina.
— Tem a quem sair então!
III
Miguelito
Pequetito
De olhozito
Redondito
Gaiatito;
Miguelito
Todo em ito:
Cabelito
Narizito;
Miguelito
Queridito,
Miguelito
Tão bonito.
IV
Isabel
Anjozinho aloof
De boca de mel,
De olhar triste e fundo,
Mandado a este mundo
De tristezas, uf!
Para ser mulher:
Enquanto és criança
Conta o que ainda resta,
Em tua lembrança
Da pátria perdida.
E eu possa, ouvindo esta
História, esquecer
A madrasta vida.
684
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Tomy

Este menino, que só
Com me olhar me cativou,
Se tem o nome do avô,
Tenha os encantos da avó.
1 124
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Mônica Maria

Seu avô me disse:
— "Mônica Maria
É loura e graciosa".
Foi como se a visse...
Pois de fato a via.
Mais lírio que rosa,
Melhor — madressilva,
Flor de minha infância
— Tamanha distância!
Como na Bahia
Mônica Maria
Pereira da Silva
Overbeck.
1 060
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Um Relógio de Bolso Dourado

meu avô era um alemão alto
com um cheiro estranho no hálito.
ele permanecia muito ereto
em frente à sua casinha
e sua esposa o odiava
e seus filhos o achavam estranho.
eu tinha seis anos a primeira vez que nos vimos
e ele me deu todas as suas medalhas de guerra.
na segunda vez que nos vimos
ele me deu seu relógio de bolso dourado.
era muito pesado e eu o levei para casa
e dei corda bem forte
e ele parou de funcionar
o que me fez sentir mal.
nunca mais voltei a vê-lo
e meus parentes nunca falavam dele
nem mesmo minha avó
que muito tempo atrás
deixou de viver em sua companhia.
uma vez perguntei por ele
e me disseram
que bebia demais
mas na melhor imagem que guardo dele
ele está muito ereto
em frente a sua casa
e dizendo, “olá, Henry, você
e eu, nós nos
conhecemos”.
1 027
Waldy Sombra

Waldy Sombra

Meu Chão, Minha Canção

Chão dos meus avós e dos meus pais!
Chão do meu nascimento e
da minha infância!
Quis a neurose cearense da peregrinação
que eu me afastasse de ti,
mas, qual árvore arrancada,
levei nas raízes
o massapê das tuas várzeas.

Nasceste, limoeiro, Terra minha,
do abraço molhado de dois rios
num parênteses de amor.
Por isso, decerto, o feitiço
que exerces sobre os teus filhos.

Em mim, operas o milagre da transfiguração,
porque és força,
és vida,
és canção.

Basta-me pensar em ti,
para que me transporte à felicidade.

Vejo-me, então, pelo terreiro da Gangorra,
chispando no meu cavalo-de-talo,
fogoso, olhos faiscantes
de cacos de garrafa...
No cavalete de, mulungu, sinto-me artista,
e desafio espumas, balseiros e funis
do Riacho Seco e do Banabuiú
nos anos de águas grandes.

Enternece-me
a doce cantilena do bê-a-bá e da tabuada
da escola de Maria Sombra,
e chega-me
o vibrante tropel,
o baralhador ritmado do Cavalo Preto do meu pai.

Vêm-me aos ouvidos as vozes da várzea,
com o vento vespertino Aracati,
farfalhando palhas, varrendo tudo
e debulhando cachos de carnaúba madura.

Surgem-me, iluminadas,
as hóstias de zinco dos cata-ventos
da ilha do meu avó Zé Sombra
zunindo, zunindo,
puxando água, puxando água,
para a sede das bananeiras.

Subo à torre da Matriz,
escondido de Deolindo,
puxo a corda do sino e
encho de badaladas
a luz branca e morna da manhã.

Na saudade, a alegria da Noite de Festas!
Mastigo os cavalos-de-broa e as fogosas
de João Jaguaribe,
os tijolinhos e mariolas de Eugeninho,
bebo aluá de milho
do pote suado
debaixo da tamarineira
de Maria Pernambucana
e rezo, enfim, minha gulodice
num rosário-de-catolé
em frente ao portão grande do Mercado.

Apoteoticamente lá vem desfilando
a Banda de Música do Maestro Odílio,
com as zabumbadas dos bombos
de João de Carminha
e Antônio Rapadura
— Tum-dum ... tum-dum.. tum-dum ... —
marcando o festivo compasso
do meu coração.

Que outra terra, que outra gente
me trariam de volta
esses sons,
essas imagens?

Por isso e por muito mais,
Limoeiro, tu és para mim
o chão mais valioso do mundo!

Chão dos meus avós e dos meus pais!
Chão do meu nascimento e da minha infância!
Chão que, um dia, me receberá
para o último sono.

451
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Migração

Crescem
ultimamente
na ponta dos meus dedos
unhas
que a princípio pensei
não fossem minhas.
Estriadas
espessas
comandando um feitio outro que a pele
pequenos cascos quase
embora claros.
A memória
depois
entregou-me
a visão das mesmas unhas
na ponta de uma mão mais delicada,
a mão da minha avó.
Como andorinhas
as unhas
migraram da mão dela
à minha
de um verão apagado
a um resto de verão.
Rijos bicos sem asas
legado
que em nossa descendência
faz seu ninho.
1 188
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Da Passeggiata Archeologica, em Roma

A casa do meu avô
veio pelo correio.
Chegou envolta em tapetes
- passado devolvido entre
arabescos de desenhos persas
e traços de nanquim na folha branca -
a vila
que sempre ouvi chamar
La Madonnella.

Não conheci o avô
mas lembro a casa
o poço medieval
a amendoeira
os fragmentos romanos nas paredes
e o piso de madeiras coloridas
vindas do Paraná
presente do meu tio.

A vila foi vendida há muitos anos
e o que dela restou
acabou de afundar em outra morte.
Foi-se tudo
o que à casa pertenceu
no entanto
aqui está ela intacta novamente
emoldurada acima da lareira.

A vila da Passeggiata Archeologica
recolhe enfim as velas
entre jovens paredes
em Mury,
casa
que em outra casa
faz seu porto.
991