Poemas neste tema
Árvores, florestas e montanhas
Costa Andrade
Mãe-Terra
Terra vermelha do Lépi és minha mãe
Mãe-Terra que aos filhos dá
mais do que a vida uma razão
Razão de águia
águia transformada
no soba dos espaços
e das espinheiras cruas.
Terra vermelha do Lépi
calma sombra das mangueiras
sobre o chão vermelho
rocha negra do saber de ferro
a água sabe à voz materna
Águia de pedra
embala onde sentaram
régios Mussindas de vento
em gerações de luar
gritando ao vale profundo
aos muxitos
e ás mulembas velhas
a superfície larga do barro
do corpo negro dos filhos
A terra é sempre a mesma
o resto dirão os homens!
Mãe-Terra que aos filhos dá
mais do que a vida uma razão
Razão de águia
águia transformada
no soba dos espaços
e das espinheiras cruas.
Terra vermelha do Lépi
calma sombra das mangueiras
sobre o chão vermelho
rocha negra do saber de ferro
a água sabe à voz materna
Águia de pedra
embala onde sentaram
régios Mussindas de vento
em gerações de luar
gritando ao vale profundo
aos muxitos
e ás mulembas velhas
a superfície larga do barro
do corpo negro dos filhos
A terra é sempre a mesma
o resto dirão os homens!
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Ossip Mandelstam
Caminheiro
Caminheiro
Sinto é um medo, um medo insuperável
Defronte das alturas misteriosas.
E dizer que me agradam andorinhas
No céu e do campanário o alto voo!
Caminheiro de outrora, cá me iludo
Pensando ouvir à borda do abismo
A pedra a ceder, a bola de neve,
O relógio batendo eternidade.
Se assim fosse! Mas não sou o peregrino
Que vem dos fólios antigos desbotados,
E o que em mim real canta é esta angústia:
Certo – desce uma avalancha das montanhas!
E toda a minha alma está nos sinos,
Só que a música não salva dos abismos!
Sinto é um medo, um medo insuperável
Defronte das alturas misteriosas.
E dizer que me agradam andorinhas
No céu e do campanário o alto voo!
Caminheiro de outrora, cá me iludo
Pensando ouvir à borda do abismo
A pedra a ceder, a bola de neve,
O relógio batendo eternidade.
Se assim fosse! Mas não sou o peregrino
Que vem dos fólios antigos desbotados,
E o que em mim real canta é esta angústia:
Certo – desce uma avalancha das montanhas!
E toda a minha alma está nos sinos,
Só que a música não salva dos abismos!
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1
Castro Alves
A Cachoeira
MAS SÚBITO da noite no arrepio
Um mugido soturno rompe as trevas...
Titubantes — no álveo do rio —
Tremem as lapas dos titães coevas!...
Que grito é este sepulcral, bravio,
Que espanta as sombras ululantes, sevas?
É o brado atroador da catadupa
Do penhasco batendo na garupa!...
Quando no lodo fértil das paragens
Onde o Paraguaçu rola profundo,
O vermelho novilho nas pastagens
Come os caniços do torrão fecundo;
Inquieto ele aspira nas bafagens
Da negra sucruiúba o cheiro imundo...
Mas já tarde silvando o monstro voa...
E o novilho preado os ares troa!
Então doido de dor, sânie babando,
Coa serpente no dorso parte o touro...
Aos bramidos os vales vão clamando,
Fogem as aves em sentido choro...
Mas súbito ela às águas o arrastando
Contrai-se para o negro sorvedouro...
E enrolando-lhe o corpo quente, exangue,
Quebra-o nas roscas, donde jorra o sangue.
Assim dir-se-ia que a caudal gigante
— Larga sucuruiúba do infinito —
Coas escamas das ondas coruscante
Ferrara o negro touro de granito!...
Hórrido, insano, triste, lacerante
Sobe do abismo um pavoroso grito...
E medonha a suar a rocha brava
As pontas negras na serpente crava!...
Dilacerado o rio espadanando
Chama as águas da extrema do deserto...
Atropela-se, empina, espuma o bando...
E em massa rui no precipício aberto...
Das grutas nas cavernas estourando
O coro dos trovões travam concerto...
E ao vê-lo as águias tontas, eriçadas
Caem de horror no abismo estateladas...
A cachoeira! Paulo Afonso! O abismo!
A briga colossal dos elementos!
As garras do Centauro em paroxismo
Raspando os flancos dos parcéis sangrentos.
Relutantes na dor do cataclismo
Os braços do gigante suarentos
Agüentando a ranger (espanto! assombro!)
O rio inteiro, que lhe cai do ombro.
Grupo enorme do fero Laocoonte
Viva a Grécia acolá e a luta estranha!...
Do sacerdote o punho e a roxa fronte...
E as serpentes de Tênedos em sanha!...
Por hidra — um rio! Por áugure — um monte!
Por aras de Minerva — uma montanha!
E em torno ao pedestal laçados, tredos,
Como filhos — chorando-lhe — os penedos!!!...
Um mugido soturno rompe as trevas...
Titubantes — no álveo do rio —
Tremem as lapas dos titães coevas!...
Que grito é este sepulcral, bravio,
Que espanta as sombras ululantes, sevas?
É o brado atroador da catadupa
Do penhasco batendo na garupa!...
Quando no lodo fértil das paragens
Onde o Paraguaçu rola profundo,
O vermelho novilho nas pastagens
Come os caniços do torrão fecundo;
Inquieto ele aspira nas bafagens
Da negra sucruiúba o cheiro imundo...
Mas já tarde silvando o monstro voa...
E o novilho preado os ares troa!
Então doido de dor, sânie babando,
Coa serpente no dorso parte o touro...
Aos bramidos os vales vão clamando,
Fogem as aves em sentido choro...
Mas súbito ela às águas o arrastando
Contrai-se para o negro sorvedouro...
E enrolando-lhe o corpo quente, exangue,
Quebra-o nas roscas, donde jorra o sangue.
Assim dir-se-ia que a caudal gigante
— Larga sucuruiúba do infinito —
Coas escamas das ondas coruscante
Ferrara o negro touro de granito!...
Hórrido, insano, triste, lacerante
Sobe do abismo um pavoroso grito...
E medonha a suar a rocha brava
As pontas negras na serpente crava!...
Dilacerado o rio espadanando
Chama as águas da extrema do deserto...
Atropela-se, empina, espuma o bando...
E em massa rui no precipício aberto...
Das grutas nas cavernas estourando
O coro dos trovões travam concerto...
E ao vê-lo as águias tontas, eriçadas
Caem de horror no abismo estateladas...
A cachoeira! Paulo Afonso! O abismo!
A briga colossal dos elementos!
As garras do Centauro em paroxismo
Raspando os flancos dos parcéis sangrentos.
Relutantes na dor do cataclismo
Os braços do gigante suarentos
Agüentando a ranger (espanto! assombro!)
O rio inteiro, que lhe cai do ombro.
Grupo enorme do fero Laocoonte
Viva a Grécia acolá e a luta estranha!...
Do sacerdote o punho e a roxa fronte...
E as serpentes de Tênedos em sanha!...
Por hidra — um rio! Por áugure — um monte!
Por aras de Minerva — uma montanha!
E em torno ao pedestal laçados, tredos,
Como filhos — chorando-lhe — os penedos!!!...
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João Augusto Sampaio
Gaia
Três seios tem Gaia no Morro de São Paulo
Seno/cosseno: Primeira Praia
Seno/cosseno: Segunda Praia
Seno/cosseno: Terceira Praia
Seno/cosseno: Primeira Praia
Seno/cosseno: Segunda Praia
Seno/cosseno: Terceira Praia
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1
Esmeralda Santos
Paisagem do Alentejo
Deserta a estrada. O sol, a pino, abrasa.
Luz, um deslumbramento!
Cortou a solidão um bater de asa
E um velho em seu jumento...
Vamos andando. Na extensão imensa
Perde-se em nosso olhar...
Nenhuma variante. À luz intensa,
Longe... um monte a alvejar...
E sempre, em fatigante simetria,
Oliveiras curvadas,
Rugosas, semelhando à luz do dia
Velhas encarquilhadas.
Só planície monótona e igual
O nosso olhar avista;
E o sol, num monte, a dardejar na cal,
Deslumbra... fere a vista.
Surgem agora, em curva harmoniosa,
Os cerros, as colinas.
Há na paz doce, triste e religiosa,
Unções quase divinas!
Retrocedemos. Sempre a sensação
Do só e da tristeza...
Mas deu a imensidade ao coração
Mais calma e mais grandeza!
À luz poente os cerros oferecem
Mil reverberações:
Tons fortes de violeta, que esmorecem
Em róseas gradações.
Deus! a que veio a minha nostalgia
A esta imensidade?
É grande, eu sei, mas dá-me uma agonia
O horror da eternidade!
(Lisboa, 1934)
Luz, um deslumbramento!
Cortou a solidão um bater de asa
E um velho em seu jumento...
Vamos andando. Na extensão imensa
Perde-se em nosso olhar...
Nenhuma variante. À luz intensa,
Longe... um monte a alvejar...
E sempre, em fatigante simetria,
Oliveiras curvadas,
Rugosas, semelhando à luz do dia
Velhas encarquilhadas.
Só planície monótona e igual
O nosso olhar avista;
E o sol, num monte, a dardejar na cal,
Deslumbra... fere a vista.
Surgem agora, em curva harmoniosa,
Os cerros, as colinas.
Há na paz doce, triste e religiosa,
Unções quase divinas!
Retrocedemos. Sempre a sensação
Do só e da tristeza...
Mas deu a imensidade ao coração
Mais calma e mais grandeza!
À luz poente os cerros oferecem
Mil reverberações:
Tons fortes de violeta, que esmorecem
Em róseas gradações.
Deus! a que veio a minha nostalgia
A esta imensidade?
É grande, eu sei, mas dá-me uma agonia
O horror da eternidade!
(Lisboa, 1934)
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José Tolentino Mendonça
Sobre um improviso de John Coltrane
Ainda espero o amor
como no ringue o lutador caído
espera a sala vazia
primeiro vive-se e não se pensa em nada
não me digam a mim
com o tempo apenas se consegue
chegar aos degraus da frente:
é didícil
é cada vez mais difícil entrar em casa
não discuto o que fizeram de nós estes anos
a verdade é de outra importância
mas hoje anuncio que me despeço
à procura de um país de árvores
e ainda se me deixo ficar
um pouco além do razoável
não ouvem? O amor é um cordeiro
que grita abraçado à minha canção
como no ringue o lutador caído
espera a sala vazia
primeiro vive-se e não se pensa em nada
não me digam a mim
com o tempo apenas se consegue
chegar aos degraus da frente:
é didícil
é cada vez mais difícil entrar em casa
não discuto o que fizeram de nós estes anos
a verdade é de outra importância
mas hoje anuncio que me despeço
à procura de um país de árvores
e ainda se me deixo ficar
um pouco além do razoável
não ouvem? O amor é um cordeiro
que grita abraçado à minha canção
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Luís Miguel Nava
Virgínia
Embora o sol fosse alto ainda, àquela
hora já dali desertara, as sombras iam
saindo aos poucos de debaixo dos armários.
De vez em quando as mãos, completamente absortas,
detinham-se no ferro, sobre a tábua, ao lado
do gigo agora esvaziado e dos pesados
tabuleiros de verga, onde se erguia a roupa.
Tornavam-se mais nítidos, assim, os seus
contornos recortados contra a luz.
Dali podia-se avistar o mundo inteiro.
Ao longo dos telhados, por onde um ou outro gato
corria atrás das pombas, oscilava
ligeiramente a corda, onde a cidade, o céu
e os montes pareciam pendurados.
hora já dali desertara, as sombras iam
saindo aos poucos de debaixo dos armários.
De vez em quando as mãos, completamente absortas,
detinham-se no ferro, sobre a tábua, ao lado
do gigo agora esvaziado e dos pesados
tabuleiros de verga, onde se erguia a roupa.
Tornavam-se mais nítidos, assim, os seus
contornos recortados contra a luz.
Dali podia-se avistar o mundo inteiro.
Ao longo dos telhados, por onde um ou outro gato
corria atrás das pombas, oscilava
ligeiramente a corda, onde a cidade, o céu
e os montes pareciam pendurados.
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1
Antônio Baticã Ferreira
Infância
Eu corria através dos bosques e das florestas
Eu corno o ruído vibrante de um bosque desvendado,
Eu via belos pássaros voando pelos campos
E parecia ser levado por seus cantos.
Subitamente, desviei os meus olhos
Para o alto mar e para os grandes celeiros
Cheios da colheita dos bravos camponeses
Que, terminando o dia, regressavam à noite entoando
Canções tradicionais das selvas africanas
Que lhes lembravam os ódios ardentes
Dos velhos. Subitamente, uma corça gritou
Fugindo na frente dos leões esfomeados.
Aos saltos, os leões perseguiram a corça
Derrubando as lianas e afugentando os pássaros.
A desgraçada atingiu a planície
E os dois reis breve a alcançaram.
Eu corno o ruído vibrante de um bosque desvendado,
Eu via belos pássaros voando pelos campos
E parecia ser levado por seus cantos.
Subitamente, desviei os meus olhos
Para o alto mar e para os grandes celeiros
Cheios da colheita dos bravos camponeses
Que, terminando o dia, regressavam à noite entoando
Canções tradicionais das selvas africanas
Que lhes lembravam os ódios ardentes
Dos velhos. Subitamente, uma corça gritou
Fugindo na frente dos leões esfomeados.
Aos saltos, os leões perseguiram a corça
Derrubando as lianas e afugentando os pássaros.
A desgraçada atingiu a planície
E os dois reis breve a alcançaram.
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1
Angelo Augusto Ferreira
Alento de Vida
Olha moço ...
Não tenho sua vida, não!
Vivo no campo
Embrenhado
No cheiro do mato agreste
Em meio dos mosquitos
Pássaros
Bois e vacas
Sem ser ofendido!
Todos os dias
No cheiro da terra
Batendo palmas para o trovão
Bendizendo a chuva,
O bem maior da plantação.
Orando. Ajoelhado.
Agradecendo à Criação.
Do rio, tiro o sustento
O peixe, o alimento
Dádiva, milagre da procriação.
E vou respirando
A vida bonita
Caminhante tempos afora
Envolto no ar puro
Protegido
No alento do Criador!
Moço...
A vida é como cipó
Se enrosca com muito amor
Na cintura da árvore
Não muito diferente
Sou cipó de gente
Grudado na vida.
Nasci puro, forte
Menino
Homem
Na ginga da dança
Invisível aos olhos
Contida na melodia da vida
Que a floresta pura cheia de energia
Toda hora dá prazer, ensina
O viver isolado
Sem castigo
Abençoado.
Vida Minha!
Igual cipó da árvore gigante
Agarrado
No mato, campo, floresta
Com fala
Sem grito
Na paz
Feliz com teto azul
Do céu onde os anjos habitam
Todos os dias me cobre
Com perfeição.
Olha moço...
Não tenho sua vida, não
Vivo no campo
No mato
Não tenho sua vibração
Tenho a energia
Pura divina
Do índio
Nosso Irmão! ! !
Não tenho sua vida, não!
Vivo no campo
Embrenhado
No cheiro do mato agreste
Em meio dos mosquitos
Pássaros
Bois e vacas
Sem ser ofendido!
Todos os dias
No cheiro da terra
Batendo palmas para o trovão
Bendizendo a chuva,
O bem maior da plantação.
Orando. Ajoelhado.
Agradecendo à Criação.
Do rio, tiro o sustento
O peixe, o alimento
Dádiva, milagre da procriação.
E vou respirando
A vida bonita
Caminhante tempos afora
Envolto no ar puro
Protegido
No alento do Criador!
Moço...
A vida é como cipó
Se enrosca com muito amor
Na cintura da árvore
Não muito diferente
Sou cipó de gente
Grudado na vida.
Nasci puro, forte
Menino
Homem
Na ginga da dança
Invisível aos olhos
Contida na melodia da vida
Que a floresta pura cheia de energia
Toda hora dá prazer, ensina
O viver isolado
Sem castigo
Abençoado.
Vida Minha!
Igual cipó da árvore gigante
Agarrado
No mato, campo, floresta
Com fala
Sem grito
Na paz
Feliz com teto azul
Do céu onde os anjos habitam
Todos os dias me cobre
Com perfeição.
Olha moço...
Não tenho sua vida, não
Vivo no campo
No mato
Não tenho sua vibração
Tenho a energia
Pura divina
Do índio
Nosso Irmão! ! !
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Affonso Romano de Sant'Anna
Meu Cão
Meu cão ouve comigo
o adágio da 6ª. Sinfonia de Beethoven.
Gosta de música meu cão.
Deitado no tapete
ele respira no ritmo sonoro da orquestra
apascenta-se e chega a dormir ao som dos violinos.
O adágio continua.
Agora
foi uma borboleta que veio ouvir Beethoven
pousando na vidraça.
O cão, a borboleta e eu,
enquanto ao longe, na montanha, uma nuvem
se desfaz
com a imponderável melodia.
o adágio da 6ª. Sinfonia de Beethoven.
Gosta de música meu cão.
Deitado no tapete
ele respira no ritmo sonoro da orquestra
apascenta-se e chega a dormir ao som dos violinos.
O adágio continua.
Agora
foi uma borboleta que veio ouvir Beethoven
pousando na vidraça.
O cão, a borboleta e eu,
enquanto ao longe, na montanha, uma nuvem
se desfaz
com a imponderável melodia.
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Ruy Belo
A primeira palavra
Acompanhando a recente curvatura da terra
o primeiro olhar descreveu a sua órbita
sobre as oliveiras. Só mais tarde
a pomba roubaria o ramo
e iria de árvore em árvore propagar a primavera.
Foi então que os olhos se cruzaram
e estava dita a primeira palavra
a superfície do tempo.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 22 | Editorial Presença Lda., 1984
o primeiro olhar descreveu a sua órbita
sobre as oliveiras. Só mais tarde
a pomba roubaria o ramo
e iria de árvore em árvore propagar a primavera.
Foi então que os olhos se cruzaram
e estava dita a primeira palavra
a superfície do tempo.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 22 | Editorial Presença Lda., 1984
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1
Fernando Pessoa
Quero dormir. Não sei se quero a morte,
Quero dormir. Não sei se quero a morte,
Nem sei o que ela é.
O que quero é não ser submisso à sorte,
Seja ela lei ou fé.
Quero poder nos campos prolongados
Meu ser abandonar
Aos seus verdes silêncios afastados,
Que amo só de os olhar.
Quero poder imaginar a vida
Como ela nunca foi,
E assim vivê-la, vívida e perdida,
Num sonho que nem dói.
Quero poder mudar o universo
De um para outro lado,
Como quem junta o seu viver disperso
E o ata com o fado.
Quero, por fim, ser coroado rei
Do nada a que enfim vou.
Será minha coroa o que serei,
E o ceptro o que sou.
26/08/1934
Nem sei o que ela é.
O que quero é não ser submisso à sorte,
Seja ela lei ou fé.
Quero poder nos campos prolongados
Meu ser abandonar
Aos seus verdes silêncios afastados,
Que amo só de os olhar.
Quero poder imaginar a vida
Como ela nunca foi,
E assim vivê-la, vívida e perdida,
Num sonho que nem dói.
Quero poder mudar o universo
De um para outro lado,
Como quem junta o seu viver disperso
E o ata com o fado.
Quero, por fim, ser coroado rei
Do nada a que enfim vou.
Será minha coroa o que serei,
E o ceptro o que sou.
26/08/1934
4 537
1
Fernando Pessoa
Gradual, desde que o calor
Gradual, desde que o calor
Teve medo,
A brisa ganhou alma, à flor
Do arvoredo.
Primeiro, os ramos ajeitaram
As folhas que há,
Depois, cinzentas, oscilaram,
E depois já
Toda a árvore era um movimento
E o fresco viera.
Medita sem ter pensamento!
Ignora e spera!
31/08/1930
Teve medo,
A brisa ganhou alma, à flor
Do arvoredo.
Primeiro, os ramos ajeitaram
As folhas que há,
Depois, cinzentas, oscilaram,
E depois já
Toda a árvore era um movimento
E o fresco viera.
Medita sem ter pensamento!
Ignora e spera!
31/08/1930
4 481
1
Ise no miyasudokoro
Pende dos galhos
Pende dos galhos
de um verde salgueiro
chuva primeva
tal como se fora um
meandro de pérolas.
827
1
Fernando Pessoa
Se eu me sentir sono,
Se eu sentir sono,
E quiser dormir,
Naquele abandono
Que é o não sentir,
Quero que aconteça
Quando eu estiver
Pousando a cabeça,
Não num chão qualquer,
Mas onde sob ramos
Uma árvore faz
A sombra em que bebamos,
A sombra da paz.
20/04/1934
E quiser dormir,
Naquele abandono
Que é o não sentir,
Quero que aconteça
Quando eu estiver
Pousando a cabeça,
Não num chão qualquer,
Mas onde sob ramos
Uma árvore faz
A sombra em que bebamos,
A sombra da paz.
20/04/1934
4 127
1
Carlos Drummond de Andrade
Tempo de Ipê
Não quero saber de IPM, quero saber de IP.
O M que se acrescentar não será militar,
será de Maravilha.
Estou abençoando a terra pela alegria do ipê.
Mesmo roxo, o ipê me transporta ao círculo da alegria,
onde encontro, dadivoso, o ipê-amarelo.
Este me dá as boas-vindas e apresenta:
— Aqui é o ipê-rosa.
Mais adiante, seu irmão, o ipê-branco.
Entre os ipês de agosto que deveriam ser de outubro,
mas tiveram pena de nós e se anteciparam
para que o Rio não sofresse de desamor, tumulto, inflação,
mortes.
Sou um homem dissolvido na natureza.
Estou florescendo em todos os ipês.
Estou bêbado de cores de ipê, estou alcançando
a mais alta copa do mais alto ipê do Corcovado.
Não me façam voltar ao chão,
não me chamem, não me telefonem, não me deem
dinheiro,
quero viver em bráctea, racemo, panícula, umbela.
Este é tempo de ipê. Tempo de glória.
11/08/1981
O M que se acrescentar não será militar,
será de Maravilha.
Estou abençoando a terra pela alegria do ipê.
Mesmo roxo, o ipê me transporta ao círculo da alegria,
onde encontro, dadivoso, o ipê-amarelo.
Este me dá as boas-vindas e apresenta:
— Aqui é o ipê-rosa.
Mais adiante, seu irmão, o ipê-branco.
Entre os ipês de agosto que deveriam ser de outubro,
mas tiveram pena de nós e se anteciparam
para que o Rio não sofresse de desamor, tumulto, inflação,
mortes.
Sou um homem dissolvido na natureza.
Estou florescendo em todos os ipês.
Estou bêbado de cores de ipê, estou alcançando
a mais alta copa do mais alto ipê do Corcovado.
Não me façam voltar ao chão,
não me chamem, não me telefonem, não me deem
dinheiro,
quero viver em bráctea, racemo, panícula, umbela.
Este é tempo de ipê. Tempo de glória.
11/08/1981
3 802
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Ruy Belo
Aos homens do cais
Plantados como árvores no chão
ao alto ergueis os vossos troncos nus
e o fruto que produz a vossa mão
vem do trabalho e transparece à luz
Nenhum passado vale o dia-a-dia
Sonho só o que vós me consentis
Verdade a que de vós só irradia
- Portugal não é pátria mas país
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 146 | Editorial Presença Lda., 1984
ao alto ergueis os vossos troncos nus
e o fruto que produz a vossa mão
vem do trabalho e transparece à luz
Nenhum passado vale o dia-a-dia
Sonho só o que vós me consentis
Verdade a que de vós só irradia
- Portugal não é pátria mas país
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 146 | Editorial Presença Lda., 1984
1 167
1
Ruy Belo
Segunda infância
À tua palavra me acolho lá onde
o dia começa e o corpo nos renasce
Regresso recém-nascido ao teu regaço
minha mais funda infância meu paul
Voltam de novo as folhas para as árvores
e nunca as lágrimas deixaram os olhos
Nem houve céus forrados sobre as horas
nem míseras ideias de cotim
despovoaram alegres tardes de pássaros
O sol continua a ser o único
acontecimento importante da rua
Eu passo mas não peço às árvores
coração para além dos frutos
Tu és ainda o maior dos mares
e embrulho-me na voz com que desdobras
o inumerável número dos dias
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 29 | Editorial Presença Lda., 1984
o dia começa e o corpo nos renasce
Regresso recém-nascido ao teu regaço
minha mais funda infância meu paul
Voltam de novo as folhas para as árvores
e nunca as lágrimas deixaram os olhos
Nem houve céus forrados sobre as horas
nem míseras ideias de cotim
despovoaram alegres tardes de pássaros
O sol continua a ser o único
acontecimento importante da rua
Eu passo mas não peço às árvores
coração para além dos frutos
Tu és ainda o maior dos mares
e embrulho-me na voz com que desdobras
o inumerável número dos dias
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 29 | Editorial Presença Lda., 1984
1 698
1
Fernando Pessoa
Passa entre as sombras de arvoredo
Passa entre as sombras de arvoredo
Um vago vento que parece
Que não passou, que passa a medo,
Ou que há porque desaparece.
O ouvido escuta o não-ouvir,
A alma, no ouvido debruçada,
Sente uma angústia a não sentir
E quer melhor ou pior que nada.
É como quando a alma não tem
Quem ame, quem spere ou quem sinta,
Quando considera um bem
O próprio mal, desde que não minta.
E entre onde as sombras do arvoredo
Sequestram sons e brisas prendem,
Este não passar passa a medo
E certas folhas se desprendem.
Então porque há folhas que caem,
Volta a ilusão de haver o vento,
Mas elas, caindo hirtas, traem,
Que não há brisa no momento.
Oh, som sozinho dessa queda
Das folhas secas no ermo chão,
Oh, som de nunca usada seda
Apertada na inútil mão,
Com que terrível semelhança
A qualquer voz feita em bruxedo,
Lembrais a morte e a desesp'rança,
E o que não passa passa a medo.
18/10/1930
Um vago vento que parece
Que não passou, que passa a medo,
Ou que há porque desaparece.
O ouvido escuta o não-ouvir,
A alma, no ouvido debruçada,
Sente uma angústia a não sentir
E quer melhor ou pior que nada.
É como quando a alma não tem
Quem ame, quem spere ou quem sinta,
Quando considera um bem
O próprio mal, desde que não minta.
E entre onde as sombras do arvoredo
Sequestram sons e brisas prendem,
Este não passar passa a medo
E certas folhas se desprendem.
Então porque há folhas que caem,
Volta a ilusão de haver o vento,
Mas elas, caindo hirtas, traem,
Que não há brisa no momento.
Oh, som sozinho dessa queda
Das folhas secas no ermo chão,
Oh, som de nunca usada seda
Apertada na inútil mão,
Com que terrível semelhança
A qualquer voz feita em bruxedo,
Lembrais a morte e a desesp'rança,
E o que não passa passa a medo.
18/10/1930
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1
Fernando Pessoa
De além das montanhas,
De além das montanhas,
De além do luar
Vêm formas estranhas.
São gémeas do vento,
São só pensamento.
Mudam as entranhas
De as ouvir passar.
Cavalgada rindo
Seu curso do além,
Vem vindo, vem vindo,
E tremem janelas,
Velam-se as estrelas,
Os ramos, rugindo,
Falam como alguém.
Mas, súbito, aragem
Que perdeu o som,
Cessou a passagem
Do que tirou calma
Aos ramos e à alma.
Só se ouve a folhagem
Num sussurro bom.
E, abrindo a janela,
Contemplo, a mal ver,
Ao luar uma estrela
Tão vaga, tão vaga,
Que quase se apaga.
Quem sabe se ela
Vai também levada,
Qual tanta faltada,
Nessa cavalgada
Que passou sem ser?
05/09/1933
De além do luar
Vêm formas estranhas.
São gémeas do vento,
São só pensamento.
Mudam as entranhas
De as ouvir passar.
Cavalgada rindo
Seu curso do além,
Vem vindo, vem vindo,
E tremem janelas,
Velam-se as estrelas,
Os ramos, rugindo,
Falam como alguém.
Mas, súbito, aragem
Que perdeu o som,
Cessou a passagem
Do que tirou calma
Aos ramos e à alma.
Só se ouve a folhagem
Num sussurro bom.
E, abrindo a janela,
Contemplo, a mal ver,
Ao luar uma estrela
Tão vaga, tão vaga,
Que quase se apaga.
Quem sabe se ela
Vai também levada,
Qual tanta faltada,
Nessa cavalgada
Que passou sem ser?
05/09/1933
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1
Charles Bukowski
Concreto
ele tinha organizado a
leitura
ele era um dos principais praticantes
da poesia concreta
e depois da minha leitura eu
subi até o local onde ele
morava
sua casa ficava no alto das
montanhas e
nós bebemos e contemplamos pela grande
janela os enormes
pássaros
voando
planando na maioria
ele disse que eram águias
(talvez ele estivesse me
logrando)
e sua esposa tocou o
piano
um pouco de
Brahms
ele não falou
muito
ele era um homem
concreto
sua esposa era
belíssima
e o modo como as águias
planavam
isso era belíssimo
também
então chegou o crepúsculo
então chegou a noite
e não dava mais para ver as
águias
tinha sido uma leitura
vespertina
nós bebemos até uma
da manhã
então entrei no meu carro e
d
e
s
c
i
a estrada estreita e
sinuosa
eu estava bêbado demais para temer o
perigo
quando cheguei à minha casa eu
bebi duas garrafas de
cerveja e fui me
deitar.
então o telefone
tocou
era a minha
namorada
ela tinha ficado ligando a noite
toda
ela estava furiosa
ela me acusou de fornicar com
outra
eu falei das belíssimas
águias
de como elas planavam
e que eu estivera com um homem
concreto
conta outra
ela disse
e
desligou
eu me estirei ali
contemplei o teto e
me perguntei o que é que as águias
comiam
então o telefone tocou
de novo
e ela perguntou
por acaso o homem concreto tinha uma
esposa concreta e por acaso você enfiou seu
pau nela?
não
eu respondi
eu trepei com uma
águia
ela desligou
de novo
poesia concreta
eu pensei
que diabos é
isso?
então fui dormir e
dormi e
dormi.
leitura
ele era um dos principais praticantes
da poesia concreta
e depois da minha leitura eu
subi até o local onde ele
morava
sua casa ficava no alto das
montanhas e
nós bebemos e contemplamos pela grande
janela os enormes
pássaros
voando
planando na maioria
ele disse que eram águias
(talvez ele estivesse me
logrando)
e sua esposa tocou o
piano
um pouco de
Brahms
ele não falou
muito
ele era um homem
concreto
sua esposa era
belíssima
e o modo como as águias
planavam
isso era belíssimo
também
então chegou o crepúsculo
então chegou a noite
e não dava mais para ver as
águias
tinha sido uma leitura
vespertina
nós bebemos até uma
da manhã
então entrei no meu carro e
d
e
s
c
i
a estrada estreita e
sinuosa
eu estava bêbado demais para temer o
perigo
quando cheguei à minha casa eu
bebi duas garrafas de
cerveja e fui me
deitar.
então o telefone
tocou
era a minha
namorada
ela tinha ficado ligando a noite
toda
ela estava furiosa
ela me acusou de fornicar com
outra
eu falei das belíssimas
águias
de como elas planavam
e que eu estivera com um homem
concreto
conta outra
ela disse
e
desligou
eu me estirei ali
contemplei o teto e
me perguntei o que é que as águias
comiam
então o telefone tocou
de novo
e ela perguntou
por acaso o homem concreto tinha uma
esposa concreta e por acaso você enfiou seu
pau nela?
não
eu respondi
eu trepei com uma
águia
ela desligou
de novo
poesia concreta
eu pensei
que diabos é
isso?
então fui dormir e
dormi e
dormi.
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Ruy Belo
Mercado dos Santos em Nisa
O tempo é outro nas terras pequenas
e quem de si mesmo afinal foge encontra aqui o coração
em festa
As árvores são novas e no adro em rodas contra a cal e
contra o frio há gente
o sol preenche tudo e é quase tão redondo como Deus
Cada coisa tem nome e reconheço o aroma das estevas
na missa o claro coro das mulheres leva os campos à igreja
e há crianças bibes saco escola sino guizos gado
o frio fecha, o sol semeis, a luz alastra e o silêncio é
/fundamental
- cartaz quase municipal que me recruta e traz
do fundo de umas páginas de pó ao cúmulo das folhas
amarelas
reais e rituais, folhas finas das mãos de Columbano
como tudo o que gira envolto no rodar do ano
E a terra a pedra o ar opõem sempre ao céu a mesma
superfície
sobre os corpos extensos sob a erva, imersos no cansaço
E eu dia após dia dado ao esforço de alongar
a morte prometida a toda a minha cara ou dissipar
a queda num lugar desde o mais alto de mim próprio
Ah! não ter eu uma só solução para tudo, tantos gestos
[transbordantes
em vez de dividir os dedos pelas coisas múltiplas diversas
Uma só cara uma só rua em vez de tantos traços e
[travessas
uma mulher, alguém capaz de partilhar
o peso que nos ombros cada dia nos puser
Mas um homem aqui renasce e repudia a morte
que lhe amarrava os braços ao quadrante do relógio
Amigos para quê? E longe de famílias e tensões,
alheio a elementos de curriculum, esquecido
até de prazos horas carreira promissora ou simples biografia
o homem vai buscar às árvores de pé pedidas pelo sol
a única possível genealogia
Pátria paraíso pétala -- que nome
existe para isto que nem mesmo é alegria
nem nascer outra vez apenas, nem matar aquela fome
que o mais certinho dia sem remédio adia?!
Aqui há coisas homens pedras oliveiras animais
reunidos na vida, recortados nítidos diversos
E apesar da indispensável confusão dos versos
aqui não é possível nunca mais
trocar coisa por coisa. Aqui o dia cai
sobre o a noite que sobe. Uma voz canta,
alguém além mais longe chora
O adro a árvore a casa onde se está, onde se entra e mora
Aqui o homem é... ou era mesmo agora
e quem de si mesmo afinal foge encontra aqui o coração
em festa
As árvores são novas e no adro em rodas contra a cal e
contra o frio há gente
o sol preenche tudo e é quase tão redondo como Deus
Cada coisa tem nome e reconheço o aroma das estevas
na missa o claro coro das mulheres leva os campos à igreja
e há crianças bibes saco escola sino guizos gado
o frio fecha, o sol semeis, a luz alastra e o silêncio é
/fundamental
- cartaz quase municipal que me recruta e traz
do fundo de umas páginas de pó ao cúmulo das folhas
amarelas
reais e rituais, folhas finas das mãos de Columbano
como tudo o que gira envolto no rodar do ano
E a terra a pedra o ar opõem sempre ao céu a mesma
superfície
sobre os corpos extensos sob a erva, imersos no cansaço
E eu dia após dia dado ao esforço de alongar
a morte prometida a toda a minha cara ou dissipar
a queda num lugar desde o mais alto de mim próprio
Ah! não ter eu uma só solução para tudo, tantos gestos
[transbordantes
em vez de dividir os dedos pelas coisas múltiplas diversas
Uma só cara uma só rua em vez de tantos traços e
[travessas
uma mulher, alguém capaz de partilhar
o peso que nos ombros cada dia nos puser
Mas um homem aqui renasce e repudia a morte
que lhe amarrava os braços ao quadrante do relógio
Amigos para quê? E longe de famílias e tensões,
alheio a elementos de curriculum, esquecido
até de prazos horas carreira promissora ou simples biografia
o homem vai buscar às árvores de pé pedidas pelo sol
a única possível genealogia
Pátria paraíso pétala -- que nome
existe para isto que nem mesmo é alegria
nem nascer outra vez apenas, nem matar aquela fome
que o mais certinho dia sem remédio adia?!
Aqui há coisas homens pedras oliveiras animais
reunidos na vida, recortados nítidos diversos
E apesar da indispensável confusão dos versos
aqui não é possível nunca mais
trocar coisa por coisa. Aqui o dia cai
sobre o a noite que sobe. Uma voz canta,
alguém além mais longe chora
O adro a árvore a casa onde se está, onde se entra e mora
Aqui o homem é... ou era mesmo agora
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Ruy Belo
A laranjeira
De novo a laranjeira - olhai! - traz ante nós os frutos,
quais lágrimas vertidas
nos atormenta do amor
e de vermelho coloridas
Nos ramos de topázio
vede como as rútilas esferas
em ágata moldadas ficam expostas às suaves mãos do zéfiro
que têm martelinhos para uma a uma as percutir
E nós
ora as beijamos
ora nelas os aromas aspiramos
e assim elas parecem faces de donzela ou perfumados pomos
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 100 | Editorial Presença Lda., 1984
quais lágrimas vertidas
nos atormenta do amor
e de vermelho coloridas
Nos ramos de topázio
vede como as rútilas esferas
em ágata moldadas ficam expostas às suaves mãos do zéfiro
que têm martelinhos para uma a uma as percutir
E nós
ora as beijamos
ora nelas os aromas aspiramos
e assim elas parecem faces de donzela ou perfumados pomos
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 100 | Editorial Presença Lda., 1984
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1
Herberto Helder
Presumir Não Das Grandes Partes da Noite
presumir não das grandes partes da noite mas entre elas apenas de uma risca de luz
alguém lhe chamaria
plausível?
por um lado vem a noite das águas,
pelo outro vem o dia das colinas e das matas bravas:
e na luz suposta ao meio, alta, sumptuosa,
morro da sua risca exacta,
ou morro da minha vida nenhuma
ah quem tem o tempo todo para vivê-lo e morrê-lo
assim:
turvo no rosto e nas mãos através
do mais limpo do mundo?
alguém lhe chamaria
plausível?
por um lado vem a noite das águas,
pelo outro vem o dia das colinas e das matas bravas:
e na luz suposta ao meio, alta, sumptuosa,
morro da sua risca exacta,
ou morro da minha vida nenhuma
ah quem tem o tempo todo para vivê-lo e morrê-lo
assim:
turvo no rosto e nas mãos através
do mais limpo do mundo?
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