Poemas neste tema

Árvores, florestas e montanhas

Pablo Neruda

Pablo Neruda

XLI

Quanto dura um rinoceronte
depois de ser enternecido?

Que contam de novo as folhas
da recente primavera?

As folhas vivem no inverno
em segredo, com as raízes?

Que aprendeu a árvore da terra
para conversar com o céu?
1 142
Francisco Handa

Francisco Handa

Outono

Imenso cerrado
pálido milharal ao vento.
Um trator vermelho.

965
Francisco Handa

Francisco Handa

Verão

Trigal amarelo
perdendo-se no cerrado
alcança o céu anil.

908
Pablo Neruda

Pablo Neruda

La Chascona

A pedra e os pregos, a tábua e a telha se uniram: eis aqui levantada
a casa enredada com água que corre escrevendo em seu idioma,
as sarças guardavam o sítio com sua sanguinária ramagem
até que a escada e seus muros souberam teu nome
e a flor encrespada, a vide e seu alado pingente,
as folhas de figueira que como estandartes de raças remotas
erguiam suas asas escuras sobre tua cabeça,
o muro de azul vitorioso, o ônix abstrato do solo,
teus olhos, meus olhos, estão derramados em rocha e madeira
por todas as partes, os dias febris, a paz que constrói
e continua ordenada a casa com tua transparência.

Minha casa, tua casa, teu sonho em meus olhos,
teu sangue continuando o caminho do corpo que dorme
como uma pomba fechada em suas asas imóvel persegue
seu voo
e o tempo recolhe em sua taça teu sonho e o meu
na casa que apenas nasceu das mãos despertas.
A noite encontrada por fim na nave que construímos,
a paz de madeira cheirosa que continua com pássaros,
que segue o sussurro do vento perdido nas folhas
e das raízes que comem a paz suculenta do húmus
enquanto sobrevém sobre mim adormecida a lua da água
como uma pomba do bosque do Sul que dirige o domínio
do céu, do ar, do vento sombrio que te pertence,
adormecida, dormindo na casa que fizeram tuas mãos,
delgada no sonho, no germe do húmus noturno
e multiplicada na sombra como o crescimento do trigo.

Dourada, a terra te deu a armadura do trigo,
a cor que os fornos cozeram com barro e delícia,
a pele que não é branca nem é negra nem vermelha nem verde,
que tem a cor da areia, do pão, da chuva,
do sol, da pura madeira, do vento,
tua carne cor de sino, cor de alimento fragrante,
tua carne que forma a nave e encerra a onda!

De tantas delgadas estrelas que minha alma recolhe na noite
recebo o orvalho que o dia converte em cinza
e bebo a taça de estrelas defuntas chorando as lágrimas
de todos os homens, dos prisioneiros, dos carcereiros,
e todas as mãos me buscam mostrando uma chaga,
mostrando a dor, o suplício ou a brusca esperança,
e assim sem que o céu e a terra me deixem tranquilo,
assim consumido por outras dores que mudam de rosto,
recebo no sol e no dia a estátua de tua claridade
e na sombra, na lua, no sonho, o racimo do reino,
o contato que induz meu sangue a cantar na morte.

O mel, bem-amada, a ilustre doçura da viagem completa
e ainda, entre longos caminhos, fundamos em Valparaíso uma torre,
por mais que em teus pés encontrasse minhas raízes perdidas
tu e eu mantivemos aberta a porta do mar insepulto
e assim destinamos à La Sebastiana o dever de chamar os navios
e ver sob a fumaça do porto a rosa incitante,
o caminho cortado na água pelo homem e suas mercadorias.

Mas azul e rosado, roído e amargo entreaberto entre suas teias de aranha,
eis aqui, sustentando-se em fios, em unhas, em trepadeiras,
eis aqui vitorioso, andrajoso, cor de sino e mel,
eis aqui vermelhão e amarelo, purpúreo, prateado, violeta,
sombrio e alegre, secreto e aberto como uma melancia
o porto e a porta do Chile, o manto radiante de Valparaíso,
o sonoro estupor da chuva nos cerros carregados de
padecimentos
o sol resvalando no escuro olhar, nos olhos mais belos do mundo.

Eu te convidei para a alegria de um porto agarrado à fúria do alto marulho,
metido no frio do último oceano, vivendo em perigo,
formosa é a nave sombria, a luz vesperal dos meses antárticos,
a nave de teto amaranto, o punhado de velas ou casas ou vidas
que aqui se vestiram com trajes de honra e bandeiras
e se sustiveram caindo no terremoto que abria e fechava o inferno,
tomando ao fim pela mão os homens, os muros, as coisas,
unidos e desvencilhados no estertor planetário.

Cada homem contou com suas mãos os bens funestos, o rio
de suas extensões, sua espada, sua rédea, seu gado,
e disse à esposa “Defende teu páramo ardente ou teu campo
de neve”
ou “Cuida da vaca, dos velhos teares, da serra ou do ouro”.

Muito bem, bem-amada, é a lei dos séculos que foram atando-se
dentro do homem, em um fio que atava também suas cabeças:
o príncipe jogava as redes com o sacerdote enlutado,
e enquanto os deuses calavam, caíam no cofre moedas
que ali acumularam a ira e o sangue do homem nu.

Por isso, erigida a base e abençoada por corvos escuros
subiu o interesse e dispôs na peanha seu pé mercenário,
depois à Estátua impuseram medalhas e música,
jornais, rádios e televisores cantaram a loa do Santo Dinheiro,
e assim até o provável, até quem não pode ser homem,
o manumitido, o nu e faminto, o pastor lacerado,
o empregado noturno que rói em trevas seu pão disputado aos ratos,
acreditaram que aquele era deus, defenderam a Arca suprema
e se sepultaram no humilhado indivíduo, cansados de
orgulho emprestado.
1 587
Osório Dutra

Osório Dutra

Haicai

Descampado

Barulho, algazarra.
Periquitos esquisitos
nos ares, em farra.

Impressionismo

Nevoeiros que fogem
O monte, o córrego, a ponte
Ninguém na paisagem.

906
Pablo Neruda

Pablo Neruda

III - A ilha

Antiga Rapa Nui, pátria sem voz,
perdoa a nós, os tagarelas do mundo:
viemos de todas as partes para cuspir em tua lava,
chegamos cheios de conflitos, de divergências, de sangue,
de pranto e digestões, de guerras e de pêssegos,
em pequenas fileiras de inimizade, de sorrisos
hipócritas, reunidos pelos dados do céu
sobre a mesa de teu silêncio.

Mais uma vez chegamos para ofender-te.

Saúdo primeiro a cratera, Ranu Raraku, suas pálpebras
de lodo e seus velhos lábios verdes:
é amplo, e altos muros o circundam, o encerram,
más a água lá em baixo, mesquinha, suja, negra,
vive, se comunica com a morte
como um iguana imóvel, sonolenta, escondido.

Eu, aprendiz de vulcões, conheci,
criança ainda, as línguas do Aconcágua,
o vômito incendiado do vulcão Tronador,
na noite espantosa vi cair
a luz do Villarrica fulminando as vacas,
torrencial, abrasando plantas e acampamentos,
crepitar derrubando penhascos na fogueira.

Mas se aqui minha infância tivesse me deixado,
neste vulcão morto já faz mil anos,
neste Ranu Raraku, umbigo da morte,
teria uivado de terror e teria obedecido:
teria deslizado minha vida em silêncio,
teria caído no medo verde, na boca da cratera desdentada,
transformando-me em lodo, em línguas do iguana.

Silêncio depositado no vale, terror
da boca lunária, há um minuto, uma hora
pesada como si o tempo tivesse parado
para converter-se em imensa pedra:
é um momento, logo
também dissolve o tempo sua nova estátua impossível
e fica o dia imóvel, como um encarcerado
dentro da cratera, dentro do cárcere da cratera,
dentro dos olhos do iguana da cratera.
1 091
Neide Archanjo

Neide Archanjo

Neste mezzo del camin

Neste mezzo del camin
carrego comigo obras e cânticos
alguns alheios outros próprios
coisas que escolhi.
Entre vogais e vocábulos
componho a biografia
construção sonora de rostos
reflexos sentimentos
tão grande tão grandes
uns rindo como gralhas
outros mansos
todos não perdidos
pressentida romã entreaberta
assim esta memória existe.
Vou como o discípulo
de um velho pintor chinês
que curvado sob o peso de pincéis
potes de laca
rolos de seda e de papel arroz
sonhava carregar montanhas rios
falcões reais
e se assim sonhava
certamente assim o fazia.

993
Quintino Cunha

Quintino Cunha

Comunhão da Serra

Ontem, à noite, eu vi a minha Serra,
Como uma virgem, trêmula, contrita,
Recebendo de Deus, daqui da terra,
Uma hóstia do Céu, hóstia bendita.

Como foi, para vê-la assim? De neves
Era o véu transparente, que a cobria,
Vendo-se aqui e ali negros tons leves,
Do negro que do verde aparecia.

Tons negros, talvez restos, que os comparo,
De alguma nuvem torva, esfacelada
Por Deus, que só queria o Céu bem claro,
Porque ia dar a hóstia consagrada!

o cafeeiral, que rebentava em flores,
A grinalda na fronte lhe brotava;
E o frio, rebento dos temores,
No seu intimo, o frio rebentava!

Assim a Natureza era o sacrário,
De onde Deus dava a comunhão radiosa
À Serra! E era o Céu o grande hostiário
E era a lua, a hóstia luminosa.

E digam que eu não vi a minha Serra,
Como uma virgem, de grinalda e véu,
Recebendo de Deus, daqui da terra,
A hóstia luminosa lá do Céu!

1 637
Pablo Neruda

Pablo Neruda

A doce pátria

A terra, minha terra, meu barro, a luz sanguinária do orto vulcânico
a paz claudicante do dia e a noite dos terremotos,
o boldo, o loureiro, a araucária ocupando o perfil do planeta,
o pastel de milho, a corvina saindo do forno silvestre,
o pulsar do condor subindo na ascética pele da neve,
o colar dos rios que ostentam as uvas de lagos sem nome,
os patos selvagens que emigram para o polo magnético riscando o crepúsculo dos litorais,
o homem e sua esposa que leem após a comida novelas heroicas,
as ruas de Rengo, Rancágua, Renaico, Lancoche,
a fumaça do campo no outono perto de Quirihue,
ali onde minha alma parece uma pobre guitarra que chora
cantando e caindo a tarde nas águas escuras do rio.
1 142
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Descrição de Capri

A vinha na rocha, as gretas do musgo, os muros que enredam
as trepadeiras, os plintos de flor e de pedra:
a ilha é a cítara que foi colocada na altura sonora
e corda por corda a luz ensaiou do dia remoto
sua voz, a cor das letras do dia,
e do seu fragrante recinto voava a aurora
derrubando o orvalho e abrindo os olhos da Europa.
1 421
Pablo Neruda

Pablo Neruda

A nostalgia

Daquelas aldeias que cruzam o inverno e as ferrovias
invicto saía apesar dos anos meu escuro relâmpago
que ainda ilumina as ruas adversas onde se uniram o frio
e a lama como as duas asas de uma ave terrível:
agora ao chegar à minha vida teu aroma escarlate
tremeu minha memória na sombra perdida como se no bosque
rompesse um elétrico canto a palpitação da terra.
1 171
Nana Corrêa de Lima

Nana Corrêa de Lima

São Tomé das Letras

São Tomé das Letras

Me calo frente ao teu verde.
Pedra ramada verde-amarela.
Fonte telúrica,
No seio da serra.

1 434
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Os sonhos

Irmã da água empenhada e de suas adversárias
as pedras do rio, a argila evidente, a tosca madeira;
quando levantavas sonhando a fronte na noite de Capri
caíam espigas de tua cabeleira, e em meu pensamento
voava o hipnótico enxame do campo do Chile;
meu sonho desviava seus trens para Antofagasta;
entravam chovendo na alva de Pillanlelbún,
ali onde o rio recolhe o cheiro do velho curtume
e a chuva salpica o recinto dos derrubados.
1 124
Carlos Nóbrega

Carlos Nóbrega

A Fórceps

O que cantar
de tão magra musa
de tão pó a flora
e lira tão penosa ?

Entre mágoa e míngua
a imaginação estia
a se repetir no se-repetir
do lacrau caatinga
e das mãos ao alto
dos mandacarus.

Oh que torrão enxuto
oh mulher inúmida
oh ser tão enxuto
com seu cabelo seco
sua roupa enxuta
seu lábio ressecado
como se estivesse
sob um toldo azul:

essa terra mora
embaixo de um telhado
(mesmo que janeiro
feche o guarda chuva,
traga um copo d’água).

Já que o tempo é feito
de um sol de incêndio
é visível o vento
esse gato súbito.

E a visagem à frente
dá-se em catarata
como se fervesse
o que de fato ferve.

Pois
o que cantar
de avara lira
de musa tão magra
de tão pó as rosas ?

Perguntem ao Feitosa
que retira lírios
dos olhos das cobras.

949
Pablo Neruda

Pablo Neruda

País

Pequeno país que sobre os montes bravios e a água infinita
transcorres levando entre torvas rugas a luz mineral e as uvas do vinho
e de um lugar a outro ao chileno moreno e errante
que fura a pedra de sua sepultura vulcânica
com a calça remendada e os olhos feridos.

Vem visitar-me estrangeiro entre Arica e a Terra do Fogo:
faz frio nas ilhas e o mar hasteia o moinho de seu movimento,
as moradas se encolhem ao passo do céu que como um cavalo irritado
galopa na noite frenética golpeando os tetos do homem.

Abriu o vendaval a janela e entrou na cozinha buscando
o fogo que coze as pobres batatas do povo perdido.

País, torre erguida na altura do agroplaneta,
queimado por uma coroa de cruéis relâmpagos
e depois entregado às locomotivas dos terremotos
e depois à fervente imundície dos arrabaldes
e depois ao deserto que espera e devora o viajante
e depois os mares hirsutos que rompem os olhos dos pescadores
e depois no campo a sede da terra, a sede amarela,
e depois o carvão que em sua cova aniquila os heróis negros
e depois a pobre família atacada pelos buracos
do teto e da roupa, olhando a sapataria,
divisa os pés dos anjos com sapatos novos no Paraíso.
559
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Iii - Mas Deu Fruto

Porém quando
entre os áridos
sistemas dos píncaros
aparece
o homem,
transformado,
quando
da yurta
brota o homem
que lutará com a natureza,
o homem que é não só
de uma tribo,
mas da incendida massa humana,
não o errante
prófugo das altas solidões,
ginete da areia,
mas meu camarada,
associado ao destino de seu povo,
solidário de todo o ar humano,
filho e continuador da esperança,
então,
cumpriu-se a tarefa
entre as cicatrizes dos montes:
ali também o homem é nosso irmão.

Ali a terra dura deu seu fruto.
1 185
Pablo Neruda

Pablo Neruda

O amor

Te amei sem por quê, sem de onde, te amei sem olhar, sem medida,
e eu não sabia que ouvia a voz da férrea distância,
o eco chamando à greda que canta pelas cordilheiras,
eu não supunha, chilena, que tu eras minhas próprias raízes,
eu sem saber como entre idiomas alheios li o alfabeto
que teus pés miúdos deixavam andando na areia
e tu sem tocar-me acudias ao centro do bosque invisível
a marcar a árvore de cuja casca voava o aroma perdido.
595
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Manhã - XXX

Tens do arquipélago as fibras do alerce,
a carne trabalhada pelos séculos do tempo,
veias que conheceram o mar das madeiras,
sangue verde caído do céu à memória.


Ninguém recolherá meu coração perdido
entre tantas raízes, no frescor amargo
do sol multiplicado pela fúria da água,
ali vive a sombra que não viaja comigo.


Por isso tu saíste do Sul como uma ilha
povoada e coroada por plumas e madeira
e eu senti o aroma dos bosques errantes,


achei o mel escuro que conheci na selva,
e toquei em teus quadris as pétalas sombrias
que nasceram comigo e construíram minha alma.
1 433
Gilberto Gil

Gilberto Gil

Flora

Imagino-te já idosa
Frondosa toda a folhagem
Multiplicada a ramagem
De agora

Tendo tudo transcorrido
Flores e frutos da imagem
Com que faço essa viagem
Pelo reino do teu nome
Ó, Flora

Imagino-te jaqueira
Postada à beira da estrada
Velha, forte, farta, bela
Senhora

Pelo chão, muitos caroços
Como que restos dos nossos
Próprios sonhos devorados
Pelo pássaro da aurora
Ó, Flora

Imagino-te futura
Ainda mais linda, madura
Pura no sabor de amor e
De amora

Toda aquela luz acesa
Na doçura e na beleza
Terei sono, com certeza
Debaixo da tua sombra
Ó, Flora

2 681
Goulart de Andrade

Goulart de Andrade

Kosmos

Tens a aurora na boca e a noite escura
Nos olhos; no cabelo em desalinho.
O mar bravo, a floresta, o torvelinho;
E as neves da montanha em tua alvura

Possuis na voz a música e a frescura
Da água corrente; o sussurrar do ninho
Na surdina sutil do teu carinho,
Em que o calor ao travo se mistura...

Cheiras como um vergel! Tens a tristeza
De uma tarde hibernal, em que anda imerso
Teu amor — meu algoz e minha presa —

Em tua alma e teu corpo acha meu verso
Todas as convulsões da natureza
E as harmonias todas do universo.

1 386
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Eu Me Chamava Reyes

Eu me chamava Reyes, Catrileo,
Arellano, Rodriguez, tenho esquecido
meus nomes verdadeiros.
Nasci com sobrenome
de carvalho velho, de árvores recentes,
de madeira que assobia.
Eu fui depositado
nas folhas caídas,
afundou o recém-nascido
na derrota e no nascimento
de bosques que caíam
e casas pobres que recém choravam.
Eu não nasci mas me fundaram,
me puseram todos os nomes
de uma só vez,
me chamei matagal,
depois ameixeira, lariço e depois trigo,
por isso sou tanto e tão pouco,
tão multidão e tão desamparado,
porque venho debaixo,
da terra.
1 124
Sidney Neto

Sidney Neto

O Solar dos Heróis

Cearenses, vocês querem ver
de bem perto um grande poema?
É tão fácil!
Cavalguem, como eu,
num dia de fogo vivo,
meu alazão dourado,
os quatro pés calçados,
estrela branca à testa,
sinal encoberto,
galopando no meio dos turvos redemoinhos rasgando,
verrumando,
o céu azul muito sereno,
sobre um pedregulho em brasas acesas,
de bronze dos heróis!
ladeando árvores incendiadas pelo sol em chama,
de Orós a Jaguaribe!

Arapongas, nos capões dos cerros, ao longe
batem bigornas, aperfeiçoando espadas guerreiras!
Nuvens de pombais em bando
passam tatalando as grandes asas
Cigarras, chiando, chiando, retinindo,
cantando hinos de vitória!
Ao lado esquerdo de quem vai,
bem do lado do coração,
a gente vê, feliz,
por trás de uma saliência de terra abençoada,
como um ninho de condores,
um velho solar encantado!...

Cearenses, eu senti, como nunca, o Brasil,
porque ali nasceu Juarez, ali nasceu Fernando,
ali nasceu Joaquim Távora!

341
Marcelo Gama

Marcelo Gama

Bucólico

Para o Paulino de Azurenha

Zagala, guardadora de esquivanças,
que pascem noutros montes, noutros ares,
guia na direção destes lugares,
o teu rebanho de ovelhinhas mansas.

Brancas ovelhas, minhas esperanças,
— rebanho que a tanger por entre algares,
tenho feito com zelos e pesares,
o mais viçoso destas vizinhanças, —

ao som da agreste avena e dos sincerros,
alcantilados e frolidos serros
galgai, transpondo vales e barrancas,

e à zagala e a seu gado, em sítio estranho,
ajuntai-vos, formando um só rebanho,
ovelhas mansas, ovelhinhas brancas.


Poema integrante da série Sonetos de Amor.

In: GAMA, Marcelo. Via Sacra e outros poemas. Posfácio de Álvaro Moreyra. Rio de Janeiro: Ed. da Sociedade Felippe d'Oliveira, 1944. p.5
1 425
Augusto Frederico Schmidt

Augusto Frederico Schmidt

A Chuva nos Cabelos

A chuva molhava os seus cabelos,
A chuva descia sobre os seus cabelos
Voluptuosamente.
A chuva chorava sobre os seus cabelos,
Macios,
A chuva penetrava nos seus cabelos,
Profundamente,
Até as raízes!

Ela era uma árvore,
Uma árvore molhada
E coberta de flores.


Publicado no livro Fonte invisível (1949).

In: SCHMIDT, Augusto Frederico. Poesias completas, 1928/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
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