Poemas neste tema

Árvores, florestas e montanhas

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Escrever a Um Outro Nível de Crescimentos Simples De

Escrever a um outro nível de crescimentos simples de
movimentos simples todos principiando no centro nulo
no princípio nulo Nem os ramos nem as folhas dirão
outra coisa simbolicamente mas serão
ramos
folhas
frutos
conduzindo a seiva
e o ar vivo

Caminho imprevisível o poema invenção das formas
e do espaço
que as transforma
e as esquece

Uma ampla textura de energia e movimento
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

As Coisas Que Olhamos São Às Vezes Olhares

As coisas que olhamos são às vezes olhares
rostos     Figuras da matéria
Como as estátuas nos antigos templos
Elas abrem os olhos as portas do olhar

O olhar é uma chave é esta chave
Avanço até à beira ainda visível
As pedras existem Existe esta montanha
São olhares também mas que se apagam já

Eu sei que assim me perco e tudo perco
se não souber arquitectar o fogo
desta matéria nova do rectângulo
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Ei-La Despida Ou

Ei-la despida ou
dir-se-ia a altura de uma nuvem
a árvore seria densa espada

A expressão é forte
é ela própria o que diz
e mais forte ainda quando
se implanta no músculo
por onde

O vento é a inteligência libertada

E agora a árvore se adensa
no músculo
para que o acto da forma seja intenso
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Húmido Como a Névoa

Húmido como a névoa
assim ainda se diz

Húmido pode ser um bosque
na sua densa massa

Um bosque? Uma luxúria
de verdes
semeado de clareiras
na espessura

Espessura esquiva onde se esconde a caça
onde ela se acende
e onde o esconder é grácil
como um jogo de analogia
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Na Sequência Viva

O que tu lês é/será uma música da folhagem, não do lábio sôfrego, não do fôlego exausto. O que procuramos está no vento que se vai levantar, na seiva e no sangue dos dois lábios amantes, o teu e o meu, na sequência viva da substância escrita, homogénea, heterogénea. O que arde é a chama do silêncio do não-lugar que é clareira e cimo, vértice e prumo de uma linguagem enamorada do rosto de cada palavra, das veias da árvore que nos ergue à transparência oculta de cada folha. O instante, na sua aérea fugacidade, o espaço na sua disseminação amante, requer a confiança sem delírio nem vertigem, um silêncio que não é o silêncio mas a sombra da claridade que cada palavra cria no seu descoberto caminho.
1 185
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Rosto Sob As Águas

as intempéries talharam este rosto.
de chama. calcinada.
o seu silêncio é um latido do tempo.

por vezes é uma forma que cintila.
um talismã. e um desejo de
um fundo inesgotável.

por vezes vemo-lo branco. a vertigem
faz-nos desfolhar as páginas.
e ele irrompe como uma água surda.

é uma cabeça de terra. de árvore e pedra.
a sua ironia tem o sabor das estações.
por ele passaram já todas as águas.

pela água límpida a nitidez aviva-se
e é a matriz de todos os nomes que cintila.
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Não Dissemos As Palavras Mais Simples

Não dissemos as palavras mais simples
a caligrafia das águas sobre a pedra     uma pedra vacila verde
as árvores despertam dormem apertadas na concavidade do rumor
não dissemos ainda as pálpebras longínquas do horizonte
o trémulo deslumbramento da água jorrando lisa da terra
não dissemos a progressão das formigas em torno da árvore
de claras malhas como um leopardo
não dissemos as vagas sombras imóveis as folhas verdes
as altas e negras flores nas varandas suspensas
não dissemos sequer o nascimento da terra e do cavalo
as manhãs a meia-noite o turbilhão
do ventre o arranque para a primeira explosão no mar e o muro
onde o tempo se condensa como um navio suspenso sobre o mar vertical
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Lugar

a Lídia Jorge
Algo está por dizer Ao longe o diamante
da distância a promessa fulgurante
Aqui onde tudo será como uma festa
ao fundo das áleas de ciprestes e pinheiros
as amorosas arcadas transparentes
a praia que se estende um lábio fulvo
algo adormece no sossego de nenhuma vaga
nenhuma espuma Um navio silencioso
As palavras iniciam a delicada translucidez
*
Branco domínio do ser aéreo movimento
imóvel Um caminho redondo
em torno de uma torre O sabor de viver
em claridade e calma Espiral
a partir do solo até ao sol Transparência
compacta com as grandes pedras claras
os insectos a seiva a hera sobre os troncos
os anéis do dia
*
Eis o esplendor no seu repouso de praia
Todas as tensões e intensidades se tornaram um arco
Aqui a nascente ressoa no lugar central
as formas puras resplandecem com as suas sombras lúcidas
a construção é clara
*
Amplitude imensa da água serena
o júbilo tranquilo na circulação amiga
esplendor vivacidade clamor branco
o lugar da presença e da evidência
das escadas de pedra
das portas esculpidas
o que se respira é o tempo o espaço o oiro leve
1 060
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

No Limiar

Uma qualidade nocturna e quase amante
talvez violenta e no entanto branca
desperta uma abóbada de arvoredo
um rumor lento uma nudez de sono
e grandes tufos de contornos negros

É um domínio aqui uma convergência de fluxos
Nenhuma imagem se abre na clareira igual
Uma palavra ou o silêncio a ligeireza do ar.
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Terra Aérea

Aqui o livro abriu-se
à claridade da água
*
Para o cimo plano lâmpadas incertas navegam
folhas e lábios reúnem-se
*
Livres onde a respiração é o movimento
a tranquila exaltação
*
As palavras onduladas indivisíveis múltiplas
*
Antes de começar e só quando começa
a circulação da luz
de um sol azul claro
*
Terra mais viva aérea terra amiga
sem segredos e obscura e viva
*
Sem movimento a boca exalta
o suspiro que alimenta e dilata
*
Com os lábios do fogo
com os lábios da água
subimos à torre da lucidez do silêncio
*
O cimo é azul como o sol do princípio
*
Nenhum apelo no silêncio das árvores
Quietude plena quase um frémito uma asa
A terra é uma frase completa e contínua
*
Subimos descemos pela escada esculpida
Em cada janela a terra tem um rosto igual
*
Nenhum segredo nenhuma voz O cimo é a delícia
de uma pura igualdade e permanência suave
*
Habitar a terra é ser o olhar e a luz
Não se diz o sim nem sequer se segreda
*
Um mais aéreo e íntimo movimento
Amplitude calma liberdade
*
Todo o olhar é uma confirmação do lugar e do ser
Força permanência suavidade
*
A quase totalidade do esplendor do ser
*
Uma festa mais extrema luz mais luminosa
Domínio do ar do espaço e do lugar
1 111
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Num Repouso de Fundura Agreste

Num repouso de fundura agreste
na ressonância suave da folhagem
encontrar as mais simples palavras
entreabrir as portas mais serenas.
1 138
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Sentindo o Liso da Madeira, o Bosque

Sentindo o liso da madeira, o bosque
submerso, tranquilamente acesos,
continuando na corrente verde e côncava
outra forma do silêncio na morada
com o silêncio denso sobre as pálpebras.
1 139
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Folhagem Abre-Se Entre As Mãos

A folhagem abre-se entre as mãos
como um centro solto onde se afunda
o que nunca surge
e surge então numa segunda origem.
1 064
José Saramago

José Saramago

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Não admira que fosse preciso reaprender a linguagem simplificada da fome e do frio

E também as palavras da manhã e da noite e aquelas que determinam no céu o caminho das estrelas ou apenas o perfil da montanha

Porque se sabiam as sensações e não as palavras que as tornavam úteis no comércio ou simplesmente suportáveis

Se durante o descanso nocturno uma mulher puxava para si um homem e ambos por minutos calados cuidavam do seu próprio prazer sem mais

Nenhum dos dois ou dos outros homens e mulheres que distraidamente olhavam

Diria amor ou desejo ou vontade de suicídio ou somente acto mecânico sobrante do espelho multiplicado do lento erguer dos membros viris para as vulvas húmidas

E se alguma coisa fizessem precisamente seria erguer e humedecer sem que a vontade o decidisse mas o instinto o gosto de imitar mesmo sabendo de antemão como tudo se acabaria

Só por isso às vezes a caverna se enchia de gemidos e os vultos se sacudiam no chão deitados enquanto as crianças olhavam já atentas e imitavam os gestos cada vez mais pobres

Ninguém o saberia dizer mas o tempo era de tristeza a pior por ser a aresta agudíssima e cruel que junta as faces da vida e da morte que em algum lugar haviam de encontrar-se

Talvez porém o diferente olhar que trocaram agora mesmo um homem e uma mulher no caminho estreito

E tendo-se olhado e visto prosseguiram enquanto o sangue rolava nos apertados túneis das artérias

Como quem tranquilamente sabe que outra vez virão a encontrar-se para enfim

Talvez este silêncio seja o esforço abrindo os foles do pulmão prosaicamente abrindo ó sem poesia abrindo

Para começar o outra vez doloroso nascimento duma primeira palavra
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José Saramago

José Saramago

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E porque os antigos deuses haviam morrido por inúteis os homens descobriram outros que sempre tinham existido encobertos pela sua não necessidade

O primeiro de todos foi a montanha porque era ela que no seu mais alto pico sustentava o peso do céu

Aquele mesmo céu que os velhos deuses em tempos idos habitaram e donde de pais para filhos desprezaram os homens porque desprezo fora impor-lhes salvações contra a sua própria humanidade

O segundo deus foi o sol porque ensinara a redescobrir a roda embora houvesse tribos que veneravam a lua pela mesma razão

Essas porém em noites de quarto minguante ou crescente traziam os olhos baixos

Provando assim que sempre cada tribo tem o deus que prefere e não outros

Mas a nova mitologia a isto se resumiu porque um dia houve um homem que subiu ao pico da montanha e por essa maneira se viu que sozinho levantara o céu

E outro pegou nas rodas que haviam sido o sol e a lua e lançou-as para longe onde não brilharam

Definitivamente deus só ficou o rio porque os homens vão mergulhar nele as mãos e o rosto e têm estrelas nos olhos quando se levantam

Enquanto as águas por sua vez transportam ao céu e ao sol se o há a turvidão salgada das lágrimas e do suor

E as plantas verdes que dentro de água vivem estremecem sob o vento que traz aquele cheiro de homem a que a terra ainda não se habituou
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José Saramago

José Saramago

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Todas as calamidades haviam caído já sobre a tribo ao ponto de se falar da morte com esperança

Um pouco mais e o suicídio colectivo seria votado e decidido

Assim pela infinita planície as vozes inseguras se iam aos poucos calando como se a próxima paragem fosse a última e o soubessem

Pelo meio da tarde as nuvens cobriram o céu e uma vagarosa chuva o chão de lama e os homens de maior desespero

Espetaram na terra as estacas que eram os pilares das suas habitações transportadas e sobre elas os panos que restavam dos tempos em que poucos aceitariam semelhante abrigo

Este era o miserável rebanho a vara a manada entregue aos pastos naturais às lombas pedregosas e hoje à frialdade esponjosa de uma chuva que raspava os ossos do crânio

Quase noite o homem e a mulher que se tinham escolhido para sempre afastaram-se na direcção de uma floresta que fechava o céu

Porque a miséria era extrema e a morte talvez viesse mais depressa se as vítimas se mostrassem a descoberto

Porém assim não aconteceu e debaixo das árvores a grande escuridão redobrou o medo mas não mais

Então abraçados o homem e a mulher sem uma palavra suplicaram

E a árvore a que se apoiavam transidos abriu-se por uma qualquer razão que não veio a saber-se nunca e recebeu-os dentro de si juntando a seiva e o sangue

Todas as aflições se acabaram naquele instante e a chuva escorria pelas folhas e pelos troncos como alimento até ao chão que as raízes lentamente trabalhavam

Assim a noite passou sobre esta paz que não conhecia pesadelos

Mas quando o sol nasceu ouviu-se do lugar onde a tribo ficara um enorme tumulto um estridor de gritos e asas e uivos de metal

E a mulher e o homem abraçados dentro da árvore souberam que os seus irmãos uma vez mais sofriam o assalto dos ocupantes e das feras

No ano de 2093 ainda se contará que cem anos antes foi vista uma árvore sair da floresta andando sobre as raízes e fazer dos seus ramos laços e lanças e dardos das folhas agudas

E também se dirá que depois para onde fosse a tribo ia a árvore caminhando sobre as raízes

E que debaixo dela se abrigavam à noite ou quando o sol queimava os outros homens e as outras mulheres que nos primeiros dias ainda recordaram os companheiros para sempre desaparecidos naquela noite em que a morte quase fora o destino certo da tribo

E tudo isto se dirá nos mais felizes tempos de 2093
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José Saramago

José Saramago

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Levantou-se então um grande vento que varreu de estrema a estrema entre o mar e a fronteira a terra dos homens

Durante três dias soprou constante arrastando as nuvens dos incêndios e o cheiro da carne morta dos invasores

Durante três dias as árvores foram sacudidas mas nenhuma arrancada porque este vento era igual a uma mão apenas firme

As carcaças dos animais mecânicos rolavam pelas planícies como arbustos desenraizados e tudo era arrastado para longe para os países onde os pesadelos nascem e o terror

Depois choveu e a terra ficou subitamente verde com um enorme arco-íris que não se desvaneceu nem quando o sol se pôs

Nessa primeira noite ninguém dormiu e toda a gente saiu das cidades para ver melhor as sete cores contra o fundo negríssimo do céu

E houve quem chorasse de joelhos na terra branda nas ervas que rescendiam do vertiginoso cheiro do húmus

E houve quem ininterruptamente cantasse uma extática melodia não ouvida antes que era o longo suspiro soluço da vida que nascendo se sufoca plena na garganta

E pelos campos fora arderam fogueiras altas que fizeram da terra vista do espaço um outro céu estrelado

E um homem e uma mulher caminharam entre a noite e as ervas naturais e foram deitar-se no lugar precioso onde nascia o arco-íris

Ali se despiram e nus debaixo das sete cores foram toda a noite um novelo de vida murmurante sobre a erva calcada e cheirosa das seivas derramadas

Enquanto longe no mar o outro ramo do arco-íris mergulhava até ao fundo das águas e os peixes deslumbrados giravam em redor da luminosa coluna

O dia amanheceu numa terra livre por onde corriam soltos e claros os rios e onde as montanhas azuis mal repousavam sobre as planícies

A mulher e o homem voltaram à cidade deixando pelo chão um rasto de sete cores lentamente diluídas até se fundirem no verde absoluto dos prados

Aqui os animais verdadeiros pastavam erguendo os focinhos húmidos de orvalho e as árvores carregavam-se de frutos pesados e ácidos enquanto no interior delas se preparavam as doces combinações químicas do outono

Entretanto o arco-íris tem voltado todas as noites e isso é um bom sinal
1 120
Pedro Oom

Pedro Oom

As virtudes dialogais

Dentro
de mim
há uma planta
que cresce
alegremente
que diz
bom dia
quando nos amamos
ao entardecer
e boa noite
quando florimos
à alvorada
uma árvore
que não está com o tempo
este tempo
a que chamamos
nosso.
1 502
Hilda Machado

Hilda Machado

Cabo Frio

Nuvens passageiras
miragens peregrinas enfunadas pelo Nordeste
queda de folhagem
muda retórica
O Sudoeste dá rédeas à repulsa
nuvens erráticas devoram rivais
Orfeu despedaçado por bacantes drapejadas de vapor
Em dia sem vento
a falta de engenho permite
purezas de sabão e macieiras em flor
talco no chão do banheiro
sorvete marca Aristófanes
Mas quase sempre ele pisa seus véus
Duas mãos de cinza desmaiado
sobre fundo esmaltado é perícia
renda
luxo magnífico e corrupto
realização elegante de algum mandarim
leque de plumas de avestruz tintas de rosa
levemente agitado diante da luz
(poemas publicados originalmente na revistaInimigo Rumor)
1 710
Luiza Neto Jorge

Luiza Neto Jorge

O Sítio em Vista

Trazem as árvores insignificantes
o maior distúrbio aos ventos; arredam-nos,
alçam outros armazéns sonoros
casas de relâmpagos e de cataclismos.

Chega-se. Parte-se. Segreda-se
de seres indeterminados que movem
resistência. Pelejam mais.

E quando a sua pele se usa vence
a moda, mudança de uma árvore para a mundanal
outra árvore carregada.


Podem aliás irromper quentes florestas.
Abate-se sobre o lenhador a opulência, o triunfo
do fruto desenvolvido no seu trono
iluminado por quatro archotes de seiva.


Há no mundo inteiro uma, quando muito, rua
difícil de encontrar.

São os campos, gente humílima, absorta em grãos
de areia, praia inequívoca onde,
na estação tardia, os do mar se deitam.
Algumas folhas, de livros, assinalam o ponto.
Algumas cartas, de marear,
não chegam.


Criaturas que se reproduziam em interstícios
que se deitavam em divâs
cada vez mais estreitos

a luminosa vocação, a luminosidade
de uma terra sábia e rotunda
suplantava aqueles gritos portadores
de uma defunta órfica voz

Eram as criaturas presas ,
do seu século
retraídas nos olhos mal afeiçoados

Filhos mais velhos a atentarem
em como o corpo incha e se perfaz a polpa
como o limite se delimita corpo a corpo
e engorda

Cobriam-se as folhas de uma letra hirsuta
e os mais novos sorriam como lábios.

1 382
Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo

Panteísmo

MEDITAÇÃO

O dia descobre a terra: a noite descobre os céus.
MARQUÊS DE MARICÁ.


Eu creio, amigo, que a existência inteira
É um mistério talvez; — mas n'alma sinto
De noite e dia respirando flores,
Sentindo as brisas, recordando aromas
E esses ais que ao silêncio a sombra exala
E enchem o coração de ignota pena
Como a íntima voz de um ser amigo,
Que essas tardes e brisas, esse mundo
Que na fronte do moço entorna flores,
Que harmonias embebem-lhe no seio —
Têm uma alma também que vive e sente...

A natureza bela e sempre virgem
Com suas galas gentis na fresca aurora,
Com suas mágoas na tarde escura e fria,
E essa melancolia e morbideza
Que nos eflúvios do luar ressumbra —
Não é apenas uma lira muda
Onde as mãos do poeta acordam hinos
E a alma do sonhador lembranças vibra...

Por essas fibras da natura viva,
Nessas folhas e vagas, nesses astros,
Nessa mágica luz que me deslumbra
E enche de fantasia até meus sonhos —
Palpita porventura um almo sopro,
Espírito do céu que as reanima,
E talvez lhes murmura em horas mortas
Estes sons de mistério e de saudade,
Que lá no coração repercutidos
O gênio acordam que enlanguesce e canta!

(...)

São idéias talvez... Embora riam
Homens sem alma, estéreis criaturas:
Não posso desamar as utopias,
Ouvir e amar à noite entre as palmeiras
Na varanda ao luar o som das vagas,
Beijar nos lábios uma flor que murcha,
E crer em Deus como alma animadora
Que não criou somente a natureza,
Mas que ainda a relenta em seu bafejo,
Ainda influi-lhe no sequioso seio
De amor e vida a eternal centelha !

Por isso, ó meu amigo, à meia-noite
Eu deito-me na relva umedecida,
Contemplo o azul do céu, amo as estrelas,
Respiro aromas, e o arquejante peito
Parece remoçar em tanta vida,
Parece-me alentar-se em tanta mágoa,
Tanta melancolia, e nos meus sonhos,
Filho de amor e Deus, eu amo e creio!

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Publicado no livro Obras de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1862). Poema integrante da série Lira dos Vinte Anos: Continuação.

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
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Pedro Kilkerry

Pedro Kilkerry

Ritmo Eterno

Abro as asas da Vida à Vida que há lá fora.
Olha... Um sorriso da alma! — Um sorriso da aurora!
E Deus — ou Bem! ou Mal — é Deus cantando em mim,
Que Deus és tu, sou eu — a Natureza assim.

Árvore! boa ou má, os frutos que darás
Sinto-os sabendo em nós, em mim, árvore, estás.
E o Sol, de cujo olhar meu pensamento inundo,
Casa multiplicando as asas deste mundo...

Oh, braços para a Vida! Oh, vida para amar!
Sendo uma onda do mar, dou-me ilusões de um mar...
Alvor, turquesa, ondula a matéria... É veludo,

É minh'alma, é teu seio, e um firmamento mudo.
Mas, aos ritmos da Terra, és um ritmo do Amor?
Homem! ouve a teus pés a Natureza em flor!


In: CAMPOS, Augusto de. ReVisâo de Kilkerry. São Paulo: Fundação Estadual de Cultura, 1970
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Angela Santos

Angela Santos

Eterno Retorno

Os pés fincados
na terra
de terra os pés
os pés da terra são...
As mãos suspensas
dos braços
as mãos dos braços são
dos braços suspensos
do tronco
O tronco onde
o pescoço assenta
e nele a cabeça
onde se senta
o pensamento
Cabeça
Tronco
membros
pensamento
e terra também
o Homem......
Um dia,
terra da terra
inteiro no ventre
da mãe.

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Angela Santos

Angela Santos

Ser ou Não

Ser

Das
pedras assoma um dizer.
Que não são mudas as pedras

E a arvore erecta, espraiando seus ramos
Exala o calor vivo de um ser

Há um canto que se eleva
No rumorejar das águas
Deste rio cujas margens me detém

E no silencioso bater de asa
Da ave rasgando o espaço
Eu leio a traço desenhado
O teu nome, liberdade

Não há silencio
Em tudo o que é
o inexpresso sentido
nos afronta
até no que julgamos não ser.

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