Poemas neste tema

Árvores, florestas e montanhas

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

65. Revelação da Visão Obscurecido o Ser

65
Revelação da visão obscurecido o ser
terra não a verde mas a terra e o nome
que segue a folhagem sem centro e sem as margens,
pura extensão, folhagem, violação das partes

densas onde o olhar se perde. Encontro
do alto muro do ser, de líquida voragem
violência de terra e da linguagem alta
que a linguagem ilumina nas falhas do olhar.

Violência verde; muro: voragem
interpretação ao rés da terra lisa
tempo sem tempo, olhar que vê sem ver.
1 133
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

64. Mão Sem Sombra Sensível Veio

64
Mão sem sombra     sensível veio
de água                     estranha escrita
do animal sem referência        a terra
na ansiosa paciência da sua teia.

Na ferida ardente de uma página
domina a feliz respiração
antes do aparecimento da folhagem.

Soletrar o espaço o quanto de água
sobre a brilhante sede de uma parede ardente
e respirando o espaço no espaço da água

quadriculada de um claro verde.
1 048
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

68. Descontínuas, Desfechadas Linhas

68
Descontínuas, desfechadas linhas
cintilam no lugar no não-lugar
e o indefinido incêndio da folhagem
desfaz as sílabas da visão igual.

Uma cavidade do encontro, o sim,
ou a coluna ou as colunas, umas linhas
solares que dividem o lugar
poderiam multiplicar-se, renovar

o sopro essencial do ser (azul interno)
e a pulsação da terra sobre as linhas livres
libertar o tempo da não-razão de ser.
1 067
Gabriel Archanjo de Mendonça

Gabriel Archanjo de Mendonça

Aclive

A montanha
é um convite obstinado
da consciência.
A antevisão da posse
compensa os sobressaltos
da escalada.
Oh, a vertigem do inusitado.
Os pés se ferem
na ferrugem de agulhas
regeladas.
Avalanchas de pranto
rolando estrepitosamente
entulham gargantas
escancaradas.

847
Yoji Fujiyama

Yoji Fujiyama

Opus Zero

A Élcio Xavier
Transmutas tua face, ó Morte, em grave
silêncio. E a comunhão das árvores
humildes é completa pelo toque solene
da fonte. Efêmera e resignada fonte
onde bebias com a indiferença de um vencedor.

Morte, Morte sem símbolo. Inútil espanto
das aves inocentes. Inútil oferta
de um sacrifício. Que representaria o altar
se nele vivesse o perene e não o ocasional?
Que representaria o perpetuar-se
de um canto se a certeza do eterno
bafejasse os seus passos? Oh incerto,
trivial alimento de uma casta de condenados!

837
Flávio Villa-Lobos

Flávio Villa-Lobos

À Espreita

Inventar uma lua cheia
que ilumine teu caminho
parece ser minha saga,
meu inevitável destino.

Aprisionar a furiosa ventania
que ameaça teus cabelos
parece ser minha magia,
minha força na ponta dos dedos.

Dobrar a copa das árvores
e na tempestade
proteger-te das águas
parece ser minha sina,
meu cuidado extremo.

Impedir o sol forte
de banhar-te
a pele maravilhosa
parece ser minha derradeira
metamorfose:
transmutar-me em espessa
nuvem negra
e filtrar os raios
do ardente mormaço.

Parece ser minha ventura
acompanhar-te,
viver à sombra de teus passos
e quando exausta chegares
ao fim da longa e inútil
jornada,
de braços abertos
esperar-te.

857
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

81. Verde E Tu Verás Por Sobre o Sono

81
Verde e tu verás por sobre o sono
das marés o único céu abrindo o mar
ou senão o campo em que verás o céu das árvores.

E o animal que não dança mas que exalta
o corpo da mulher da lança
ela própria a lança o pulso que a persegue.

A lisa redondez é toda ela face
figura sem imagem e imagem de outra imagem
— verde e tu verás a extrema lança: verde.
1 031
Geir Campos

Geir Campos

Fogueira

Os gnomos do bosque desabotoam
as toscas pelerines de cortiça
forradas com cetim púrpura e ouro:
o mais sanguíneo deles inaugura
um inferno menor, e todos dançam,
enquanto as labaredas tremem como
mãos de noivas sem tálamo, acenando
para o vento cantor que as chora ausentes
— e também chora, nas árvores altas,
a mágoa obscura de não serem flautas.

1 137
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Não É Um Texto:

Não é um texto:

é um movimento da sombra

o pulso dos passos:     pedra     A mão

traça

o caminho     separa as sombras

no desejo de ervas claras     de ervas vivas

e só as pálpebras

pesam

sobre o texto

sem árvores

o braço oscila na montanha
1 038
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Entre Dois Espaços Duas Sombras Altas

Entre dois espaços        duas sombras         altas

o movimento da montanha        o vazio

nos passos

talvez o texto da terra         talvez a terra         e a mão

antes das pálpebras no ar

Caminho não de lábios mas de sombras

sobre a raiz do lápis sobre o pulso

caminho ou não

no círculo

dos passos

e esta é a frase do caminho

ou a lucidez do braço
1 095
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Movo-Me Sobre a Montanha

Movo-me sobre a montanha

entre as pálpebras do caminho

A fragilidade da frase

na marcha

sob a cinza

do sol

o eco detém-se à altura da garganta

aridez da água     aridez     uma parede

que ascende     o papel da sombra
1 038
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Uma Falha Entre

Uma falha entre

duas pedras

a folhagem entre     as pálpebras acesas

a moeda de fogo        música de dedos sóbrios

o caminho     mas

sem caminho:     círculo de lâmpadas

o texto     o texto único        raiz

do pulso

lápis de sombra

raiz do lápis na montanha
975
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Vejo a Montanha

Vejo a montanha

idêntica

à palavra

sem o nome
542
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Tronco a Corda Branca

O tronco     a corda branca

e alta

na boca

ao vento
1 065
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Tronco: o Tronco do Tronco

O tronco:    o tronco do tronco

na boca

sem saliva
1 158
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Casa Entre Árvores

Casa entre árvores

tranquila próxima

na transparência

opaca e azul     opaca

E azul
1 060
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Entre Vestígios Verdes

Entre vestígios verdes

entre pedras

de sono                 as frases

das ervas

verdes     brancas
1 076
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Montanha

A montanha

figura

pousada

na língua do olhar
950
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Montanha Completa

Montanha completa

permanente

presente

sob as pálpebras

lá fora     atrás     presente
532
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Movimento do Repouso

O movimento do repouso
a trama do sol sem figura
o vento ou o sol
ou talvez
o sopro do sol
um sopro quente perdido
tão rápido no silêncio sob as árvores
1 169
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Fogo Sob Os Passos Vibra Verde

O fogo sob os passos vibra verde
sem o caminho exacto
A clareira é um lugar em que se está
O centro verdadeiro ou simulacro
imponderável
A aragem nas vértebras
O fogo dos pulsos
O inacessível tronco ardendo no quadrado
E um outro quadro com as folhas e o espaço
ditos não pela boca mas inscritos
na nulidade do vento e na nudez da escrita
1 140
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Um Corpo Se Retrai E Se Constrói

Um corpo se retrai e se constrói
pelo vazio que gira em torno dele o espaço é limitado
e se algo avança sem colunas
são formas que respiram na brancura

Aqui nesta procura a mão
dilata-se
A história que nos vence não nos vence
O desejo é o objecto da metamorfose

Com o desejo o corpo se levanta
As formas estão nas linhas
e um rosto se imagina
na árvore em ramos abstractos
955
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Não Deusas Habitam Este Átrio

Não deusas habitam este átrio
onde alguém tocaria uma flauta
No meio da rua está uma pedra verde

A tranquilidade é suave mas incita
a uma inquieta procura     Já não vejo
a montanha na altura     escrevo
na rarefacção do texto inexorável

Os nomes? Que dizer se a trave obscura
se não vê ou os passos já se perdem
A terra espera a paciência de algum nome
991
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Terra de Um Sabor Denso

Terra de um sabor denso
e o olhar retido no tronco
para que o inerte se transforme
no triunfo de uma palavra viva

A seiva escorre cor de ferrugem
os insectos desviam-se
circulam sobre as inscrições

A folhagem desperta sobre o muro
Há um caminho pequeno
E alto e forte
o tumulto da aragem aqui afirma
a saída do chão outra palavra viva
1 012