Poemas neste tema
Árvores, florestas e montanhas
João José Menescal de O. Saldanha
Vento de Guaramiranga
Um vento leve,
A bramir as moléculas
Sobe a serra
E encerra.
Vento que a vida trará,
Do alto e do distante,
Pelo espaço,
Rompendo o aço,
Derrubando artes...
Pelo teu corpo sedento
O vento passa.
Alisa teus cabelos,
Acaricia as dobras
De tua orelha.
Onde está o vento ?!
Eis o vento,
Vento...
Vento...
Vento...
Invade em turbilhões
As mangas de tua camisa
Arrefecendo o calor
De teu busto,
Beijando teu rosto,
Desempoeirando tua
Alma...
...E de vento em vento,
Em vento,
Invento o vento
Que te recupera
Do esforço da subida.
Sois de vento,
Iremos todos no vento,
Pois somos o próprio invento
Dos ventos que fazem
O frio...
...Quem dera fosse
Eu o vento.
Na descida embalar
Teu corpo refeito,
Dar-te velocidade,
Carreira,
Rompendo limites,
Para que tu possas,
Como um vento,
Correr com os
Ventos de Guaramiranga.
A bramir as moléculas
Sobe a serra
E encerra.
Vento que a vida trará,
Do alto e do distante,
Pelo espaço,
Rompendo o aço,
Derrubando artes...
Pelo teu corpo sedento
O vento passa.
Alisa teus cabelos,
Acaricia as dobras
De tua orelha.
Onde está o vento ?!
Eis o vento,
Vento...
Vento...
Vento...
Invade em turbilhões
As mangas de tua camisa
Arrefecendo o calor
De teu busto,
Beijando teu rosto,
Desempoeirando tua
Alma...
...E de vento em vento,
Em vento,
Invento o vento
Que te recupera
Do esforço da subida.
Sois de vento,
Iremos todos no vento,
Pois somos o próprio invento
Dos ventos que fazem
O frio...
...Quem dera fosse
Eu o vento.
Na descida embalar
Teu corpo refeito,
Dar-te velocidade,
Carreira,
Rompendo limites,
Para que tu possas,
Como um vento,
Correr com os
Ventos de Guaramiranga.
1 354
Cleonice Rainho
Dúvida
Pelo alegre bosque,
como Chapeuzinho Vermelho,
vou seguindo...
embora meus cabelos soltos
esvoacem à brisa da manhã.
Estou feliz:
passarinhos cantam,
zumbem insetos,
florezinhas exalam
doces perfumes.
Não sei como o lobo mau
pôde aparecer num lugar assim.
como Chapeuzinho Vermelho,
vou seguindo...
embora meus cabelos soltos
esvoacem à brisa da manhã.
Estou feliz:
passarinhos cantam,
zumbem insetos,
florezinhas exalam
doces perfumes.
Não sei como o lobo mau
pôde aparecer num lugar assim.
1 074
Cleonice Rainho
Lembrança
Neste cesto oval,
umas graúdas,
outras miúdas
as mangas... um visual
muito especial.
A casca verde, rosada,
amarela ou pintada
envolve a fruta saborosa
e tão carnosa
que põe linha nos dentes
e esconde as sementes
— cada caroção!
Espada, espadinha,
rosa, a de ubá
e a carlotinha...
Tanta fartura
da fruta madura
traz ao apartamento
nossa casa de quintal
— a linda mangueira
onde papai certa vez
alegre gangorra fez:
meu brinquedo de criança
que ainda agora me balança
neste belo cesto oval.
umas graúdas,
outras miúdas
as mangas... um visual
muito especial.
A casca verde, rosada,
amarela ou pintada
envolve a fruta saborosa
e tão carnosa
que põe linha nos dentes
e esconde as sementes
— cada caroção!
Espada, espadinha,
rosa, a de ubá
e a carlotinha...
Tanta fartura
da fruta madura
traz ao apartamento
nossa casa de quintal
— a linda mangueira
onde papai certa vez
alegre gangorra fez:
meu brinquedo de criança
que ainda agora me balança
neste belo cesto oval.
1 017
Cleonice Rainho
O Vento
Eu gosto do vento
e neste momento
vejo-o passar.
Ele faz coisas boas
que fazem pensar.
Da minha janela
fico horas
ouvindo-o falar.
Histórias bonitas,
de terras distantes,
ele sabe contar.
E palavras e idéias
colhe no mundo
para ensinar.
E canções e cantos
o vento traz tantos!
Trá-lá-li... Trá-lá-lá...
Traz o ar da montanha,
os marulhos do mar
e perfumes tão puros
que o mando parar:
Ô vento, volta, volta,
vem cá!
e neste momento
vejo-o passar.
Ele faz coisas boas
que fazem pensar.
Da minha janela
fico horas
ouvindo-o falar.
Histórias bonitas,
de terras distantes,
ele sabe contar.
E palavras e idéias
colhe no mundo
para ensinar.
E canções e cantos
o vento traz tantos!
Trá-lá-li... Trá-lá-lá...
Traz o ar da montanha,
os marulhos do mar
e perfumes tão puros
que o mando parar:
Ô vento, volta, volta,
vem cá!
1 008
Cleonice Rainho
A Floresta
A floresta é fortaleza
de verdes castelos.
Unem-se as copas
em tetos curvos
verde variado, veludo
— abóbada de beleza —
que lenhosas colunas
sustentam.
Farfalha o vento em volta
da folhagem fechada,
onde nem o sol pode penetrar.
Sobem heras,
descem lianas
que se alastram às raízes,
entre musgos e nascentes,
brotando nas sombras.
Mora o silêncio
nas grutas de mistério.
Mas a vida vem,
vem de pios, cicios,
estalos, rumores,
alaridos, zumbidos,
entre mil aromas
de resinas e flores.
A vida vem
dos pássaros que cantam
e dos ninhos pendurados
nos ramos.
de verdes castelos.
Unem-se as copas
em tetos curvos
verde variado, veludo
— abóbada de beleza —
que lenhosas colunas
sustentam.
Farfalha o vento em volta
da folhagem fechada,
onde nem o sol pode penetrar.
Sobem heras,
descem lianas
que se alastram às raízes,
entre musgos e nascentes,
brotando nas sombras.
Mora o silêncio
nas grutas de mistério.
Mas a vida vem,
vem de pios, cicios,
estalos, rumores,
alaridos, zumbidos,
entre mil aromas
de resinas e flores.
A vida vem
dos pássaros que cantam
e dos ninhos pendurados
nos ramos.
1 161
Renato Rezende
Fin Du Siècle
Estamos na Europa, em la campagne.
E somos dois homens num bosque.
Caminhamos.
Na clareira perto de um riacho
encontramos
as flores mais lindas
(minúsculas, amarelinhas!)
O quê fazer?
a) colhê-las para um bouquet
b) fotografá-las como um japonês
c) deixá-las em paz (o meio ambiente!)
None of the above:
Passamos por cima, normal
silenciosamente.
França, verão 1988 -- Nova York, 7 de março 1996
E somos dois homens num bosque.
Caminhamos.
Na clareira perto de um riacho
encontramos
as flores mais lindas
(minúsculas, amarelinhas!)
O quê fazer?
a) colhê-las para um bouquet
b) fotografá-las como um japonês
c) deixá-las em paz (o meio ambiente!)
None of the above:
Passamos por cima, normal
silenciosamente.
França, verão 1988 -- Nova York, 7 de março 1996
724
Nuno Júdice
Eva
Quando Eva andava nua pelo paraíso,
disfarçava o tédio à sombra das árvores,
colhendo as flores, cheirando o seu perfume,
e pensando como seria bom ter um céu
para espreitar.
Um dia, uma dessas flores transformou-se
em fruto; e Eva levou-o à boca,
trincou-o, provou a sua polpa.
Por um estranho efeito
de causa e consequência, o sabor da maçã
obrigou Eva a cobrir a sua nudez
com folhas e flores, que passaram
a ser uma metáfora do corpo
que escondem.
Então, o pecado tornou-se uma simples
figura de retórica, e o sexo um exercício
de interpretação.
1 644
Fernando Pessoa
03 - Ao entardecer, debruçado pela janela,
Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.
Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas coisas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos...
Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarras...
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.
Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas coisas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos...
Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarras...
2 777
Fernando Pessoa
06 - Pensar em Deus é desobedecer a Deus,
Pensar em Deus é desobedecer a Deus,
Porque Deus quis que o não conhecêssemos,
Por isso se nos não mostrou...
Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Belos como as árvores e os regatos,
E dar-nos-á verdor na sua Primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos!...
Porque Deus quis que o não conhecêssemos,
Por isso se nos não mostrou...
Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Belos como as árvores e os regatos,
E dar-nos-á verdor na sua Primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos!...
2 600
Fernando Pessoa
11 - Aquela senhora tem um piano
Aquela senhora tem um piano
Que é agradável mas não é o correr dos rios
Nem o murmúrio que as árvores fazem...
Para que é preciso ter um piano?
O melhor é ter ouvidos
E ouvir bem os sons que nascem.
Que é agradável mas não é o correr dos rios
Nem o murmúrio que as árvores fazem...
Para que é preciso ter um piano?
O melhor é ter ouvidos
E ouvir bem os sons que nascem.
4 053
Fernando Pessoa
47 - Num dia excessivamente nítido,
Num dia excessivamente nítido,
Dia em que dava a vontade de ter trabalhado muito
Para nele não trabalhar nada,
Entrevi, como uma estrada por entre as árvores,
O que talvez seja o Grande Segredo,
Aquele Grande Mistério de que os poetas falsos falam.
Vi que não há Natureza,
Que Natureza não existe,
Que há montes, vales, planícies,
Que há árvores, flores, ervas,
Que há rios e pedras,
Mas que não há um todo a que isso pertença,
Que um conjunto real e verdadeiro
É uma doença das nossas ideias.
A Natureza é partes sem um todo.
Isto é talvez o tal mistério de que falam.
Foi isto o que sem pensar nem parar,
Acertei que devia ser a verdade
Que todos andam a achar e que não acham,
E que só eu, porque a não fui achar, achei.
(Athena, nº 4, Janeiro de 1925)
Dia em que dava a vontade de ter trabalhado muito
Para nele não trabalhar nada,
Entrevi, como uma estrada por entre as árvores,
O que talvez seja o Grande Segredo,
Aquele Grande Mistério de que os poetas falsos falam.
Vi que não há Natureza,
Que Natureza não existe,
Que há montes, vales, planícies,
Que há árvores, flores, ervas,
Que há rios e pedras,
Mas que não há um todo a que isso pertença,
Que um conjunto real e verdadeiro
É uma doença das nossas ideias.
A Natureza é partes sem um todo.
Isto é talvez o tal mistério de que falam.
Foi isto o que sem pensar nem parar,
Acertei que devia ser a verdade
Que todos andam a achar e que não acham,
E que só eu, porque a não fui achar, achei.
(Athena, nº 4, Janeiro de 1925)
1 848
Fernando Pessoa
O pastor amoroso perdeu o cajado,
O pastor amoroso perdeu o cajado,
E as ovelhas tresmalharam-se pela encosta,
E, de tanto pensar, nem tocou a flauta que trouxe para tocar.
Ninguém lhe apareceu ou desapareceu. Nunca mais encontrou o cajado.
Outros, praguejando contra ele, recolheram-lhe as ovelhas.
Ninguém o tinha amado, afinal.
Quando se ergueu da encosta e da verdade falsa, viu tudo;
Os grandes vales cheios dos mesmos verdes de sempre,
As grandes montanhas longe, mais reais que qualquer sentimento,
A realidade toda, com o céu e o ar e os campos que existem, estão presentes,
(E de novo o ar, que lhe faltara tanto tempo, lhe entrou fresco nos pulmões)
E sentiu que de novo o ar lhe abria, mas com dor, uma liberdade no peito.
10/07/1930
E as ovelhas tresmalharam-se pela encosta,
E, de tanto pensar, nem tocou a flauta que trouxe para tocar.
Ninguém lhe apareceu ou desapareceu. Nunca mais encontrou o cajado.
Outros, praguejando contra ele, recolheram-lhe as ovelhas.
Ninguém o tinha amado, afinal.
Quando se ergueu da encosta e da verdade falsa, viu tudo;
Os grandes vales cheios dos mesmos verdes de sempre,
As grandes montanhas longe, mais reais que qualquer sentimento,
A realidade toda, com o céu e o ar e os campos que existem, estão presentes,
(E de novo o ar, que lhe faltara tanto tempo, lhe entrou fresco nos pulmões)
E sentiu que de novo o ar lhe abria, mas com dor, uma liberdade no peito.
10/07/1930
2 456
Wallace Stevens
Anecdote of the Jar
Anecdote of the Jar
I placed a jar in Tennessee,
And round it was, upon a hill.
It made the slovenly wilderness
Surround that hill.
The wilderness rose up to it,
And sprawled around, no longer wild.
The jar was round upon the ground
And tall and of a port in air.
It took dominion everywhere.
The jar was gray and bare.
It did not give of bird or bush,
Like nothing else in Tennessee.
I placed a jar in Tennessee,
And round it was, upon a hill.
It made the slovenly wilderness
Surround that hill.
The wilderness rose up to it,
And sprawled around, no longer wild.
The jar was round upon the ground
And tall and of a port in air.
It took dominion everywhere.
The jar was gray and bare.
It did not give of bird or bush,
Like nothing else in Tennessee.
1 091
Fernando Pessoa
Quando a erva crescer em cima da minha sepultura,
Quando a erva crescer em cima da minha sepultura,
Seja esse o sinal para me esquecerem de todo.
A Natureza nunca se recorda, e por isso é bela.
E se tiverem a necessidade doentia de «interpretar» a erva verde sobre a minha sepultura,
Digam que eu continuo a verdecer e a ser natural.
08/11/1915
Seja esse o sinal para me esquecerem de todo.
A Natureza nunca se recorda, e por isso é bela.
E se tiverem a necessidade doentia de «interpretar» a erva verde sobre a minha sepultura,
Digam que eu continuo a verdecer e a ser natural.
08/11/1915
2 709
Paulo Teixeira
Paisagem de inverno com igreja
«Nem braçada de lenha ou polvorinho de chifre
assinalam à maneira de cascos o caminho.
Nem berro de animal ou som de corneta acústica
se ouvem no deserto que vai de mim ao vulto
das montanhas como velas enfunadas na bruma.
A terra mudamente foi lavada pela neve
que a noite ilumina com a luz de branca cambraia
ou linho. Descarnadas foram as peles
e passada a carne pelo fumeiro.
Todos beberam esse licor de pétalas maceradas
sentados na távola redonda do entardecer.
Mas nem a luz das candeias nas janelas
ou o vapor doce da comida me dizem,
enquanto um rosário fremente passa
nas mãos frias, “Vem”, “É aqui a tua casa”.»
assinalam à maneira de cascos o caminho.
Nem berro de animal ou som de corneta acústica
se ouvem no deserto que vai de mim ao vulto
das montanhas como velas enfunadas na bruma.
A terra mudamente foi lavada pela neve
que a noite ilumina com a luz de branca cambraia
ou linho. Descarnadas foram as peles
e passada a carne pelo fumeiro.
Todos beberam esse licor de pétalas maceradas
sentados na távola redonda do entardecer.
Mas nem a luz das candeias nas janelas
ou o vapor doce da comida me dizem,
enquanto um rosário fremente passa
nas mãos frias, “Vem”, “É aqui a tua casa”.»
525
Paulo Teixeira
Árvore dos corvos
I
São uma coroa fúnebre
nos ramos da árvore posta.
II
O bater das suas asas é agora
o rumor das folhas que lhe faltam.
III
Nublada pelo círculo das suas vozes
e cativa como moldura para o sono.
IV
O vento estuda-lhe os gestos,
não se sabe se numa dança ébria
V
ou em acenos que ficaram gravados
como serpente enleada até às raízes em pleno ar.
VI
Sabe como demora deixar de ser,
sumir-se a partir de dentro,
VII
cadáver decompondo-se ainda em vida
num outeiro com vista sobre o mar.
São uma coroa fúnebre
nos ramos da árvore posta.
II
O bater das suas asas é agora
o rumor das folhas que lhe faltam.
III
Nublada pelo círculo das suas vozes
e cativa como moldura para o sono.
IV
O vento estuda-lhe os gestos,
não se sabe se numa dança ébria
V
ou em acenos que ficaram gravados
como serpente enleada até às raízes em pleno ar.
VI
Sabe como demora deixar de ser,
sumir-se a partir de dentro,
VII
cadáver decompondo-se ainda em vida
num outeiro com vista sobre o mar.
661
Renato Rezende
Impressões do Parque Lage
Na floresta do Parque Lage
celebro
a minha enorme liberdade.
Sou o primeiro
homem a penetrar este reino
ainda selvagem.
Tudo é meu.
E eu também sou o alheio,
o esquecido, o estrangeiro.
Me sinto completo,
me sinto inteiro.
A mata está fechada.
O cheiro forte da jaca
faz total silêncio.
Caminho na picada.
Nesse mundo vegetal
comungam indigentes
adúlteros, solitários
soldados armados
olhando as mulheres que passam
drogados, aleijados, malucos
delinqüentes, prostitutas
crianças sem inocência.
Um jogo de passeios, de veredas
de miradas e mirantes
de olhos que se baixam
de movimentos obscuros
atrás dos arbustos
de corpos que se cruzam
de águas
que escutam
silenciosos anseios.
Tudo isso sou eu, tudo isso corre
nas minhas veias.
Macacos pulam
de galho em galho.
Surgem borboletas
que foram caçadas
mas de alguma forma sobreviveram.
Estamos no reino
da memória e da sombra
ou luz trespassada
do alto das árvores
fantasmas, almas penadas
coisas perdidas
primitiva vida sem idade.
Aqui é o ponto zero
da cidade.
Aqui é a cidade
antes de ser cidade.
Aqui eu bebo
a cidade
em tudo que ela tem de luz
e de intimidade,
em tudo o que nela é voraz
e eternidade,
aqui eu devoro a cidade pública
e impudica.
(Isso debaixo
detrás
do Cristo
envolvido em nuvens).
Rio de Janeiro, 10 de março 1997
celebro
a minha enorme liberdade.
Sou o primeiro
homem a penetrar este reino
ainda selvagem.
Tudo é meu.
E eu também sou o alheio,
o esquecido, o estrangeiro.
Me sinto completo,
me sinto inteiro.
A mata está fechada.
O cheiro forte da jaca
faz total silêncio.
Caminho na picada.
Nesse mundo vegetal
comungam indigentes
adúlteros, solitários
soldados armados
olhando as mulheres que passam
drogados, aleijados, malucos
delinqüentes, prostitutas
crianças sem inocência.
Um jogo de passeios, de veredas
de miradas e mirantes
de olhos que se baixam
de movimentos obscuros
atrás dos arbustos
de corpos que se cruzam
de águas
que escutam
silenciosos anseios.
Tudo isso sou eu, tudo isso corre
nas minhas veias.
Macacos pulam
de galho em galho.
Surgem borboletas
que foram caçadas
mas de alguma forma sobreviveram.
Estamos no reino
da memória e da sombra
ou luz trespassada
do alto das árvores
fantasmas, almas penadas
coisas perdidas
primitiva vida sem idade.
Aqui é o ponto zero
da cidade.
Aqui é a cidade
antes de ser cidade.
Aqui eu bebo
a cidade
em tudo que ela tem de luz
e de intimidade,
em tudo o que nela é voraz
e eternidade,
aqui eu devoro a cidade pública
e impudica.
(Isso debaixo
detrás
do Cristo
envolvido em nuvens).
Rio de Janeiro, 10 de março 1997
809
Renato Rezende
A Idade de Cristo
I.
Sim, sim, sim, é o homem
que pertence à terra,
e não o contrário.
Esta casa de fazenda, por exemplo.
Seu sólido casarão de barro
pintado de branco e azul;
o terreiro de café;
a antiga senzala caindo;
é apenas nosso destino comum,
o nosso cenário.
Aqui há gerações jogamos o baralho
intricado de nossas vidas.
Aqui o teatro
aparente entre senhores e vassalos.
Junqueiras, Arrudas, Rezendes,
Prados, Azevedos.
Somos proprietários,
caseiros e camponeses.
Aqui onde hoje estão estas sombras
os jogos inocentes da infância,
as horas honestas do trabalho,
as noites de intriga,
os roubos, os atos ambíguos
jamais explicados ou compreendidos,
as palavras ditas e as não ditas,
os desejos da carne,
os encontros secretos de madrugada
sob o céu aberto
debaixo
das estrelas que caíam,
ou dentro das alcovas frias.
O casarão apreende o passado
em suas paredes, a fazenda em sua terra
e nos serve de volta no sabor do café diário.
II.
Caminho até o curral.
Dou bom-dia às vacas.
Volto para casa, o casarão
está vazio,
está vazia a colônia.
São 7 hrs. da manhã
o vento varre o terreirão
o sol nasce
atrás da serra
sento-me na sala e escrevo.
Hoje, domingo de Páscoa
bem cedo
sento-me no sofá, no centro
da sala,
no centro da casa,
e escrevo.
Volto ao curral
converso com as vacas,
desejo-lhes
feliz Páscoa.
Atravesso o terreiro
estou no pomar
varrido pelo vento
("Noite de vento
noite dos mortos")
pelo tempo e seus fantasmas.
Memória. Aqui é o caminho
do caçador de esmeraldas.
Velhas mangueiras, jabuticabas
cheias de barba de bode
abacates como corações verdes
de pedra pendurados nas árvores.
Pulo a cerca, estou no pasto.
Ossos
de outras gerações de vacas.
Garças, siriemas, possíveis cobras.
O campo aberto, o espaço
a distância
o vale seco
mais parece a India
mais parece a Africa
de um tempo remoto
que é meu e eu desconheço.
Contrariando a mim mesmo
de pijamas
cabelo ao vento
caminho até o café:
esta manhã eu me experimento.
Aqui estão eles: 30 mil pés
exigidos da terra
entre frestas de pedra.
Este é o nosso sustento,
este nosso exíguo alimento.
Destas alturas tudo vejo.
Sobem a estrada dois negros descalços
munidos de espingardas.
São lentos, mas sobem rápido.
Vão caçar na mata.
Penso em esconder-me,
mas já é tarde.
Passam por mim e desejo-lhes bom-dia,
e foi mais fácil desejá-lo às vacas.
Me sinto distante e isolado
destes outros seres, iguais a mim
e meus irmãos chamados.
Hoje, domingo de Páscoa, o Cristo
renascerá entre nós, ou melhor, em cada um de nós
como um sol solitário.
Volto para casa.
Fecho a porta, o vento
varre o terreiro
nesta manhã iluminada.
Estou só, mas me sinto preso
doce, tenuamente preso
(como um inseto
numa teia de aranha)
ao meu nome, meus fantasmas, meu feudo.
III.
Muitos lares cresceram
durante estes anos todos
na orla da fazenda.
A terra abafada
onde antes era mata
e depois pasto para vacas.
Casas simples, muita gente
onde numa tarde de outrora
eu e uma filha da colônia
nos deitamos em segredo.
É natural que tudo se transforme.
O amor se renova
em novos cénarios.
Nem um pouco desejo
o corpo da menina agora.
Nem sei se está viva ou morta.
No entanto, havia naqueles dias
na luz daqueles dias, ou no ar
a própria essência
da minha infância, da adolescência
que tinha uma vida inteira pela frente
mas não sabia.
Hoje se desenrola sem sentido
uma vida que não parece minha.
Em nada me reconheço
e em vão me busco na fazenda.
Sinto-me fora
de mim mesmo, fora de centro
ou escondido dentro:
vivendo um exílio às avessas.
Tenho 33 anos.
A idade de Cristo.
Sei apenas
que não ressucito, e já é tarde
para morrer jovem e bonito.
Atibaia, Semana Santa 1997
Sim, sim, sim, é o homem
que pertence à terra,
e não o contrário.
Esta casa de fazenda, por exemplo.
Seu sólido casarão de barro
pintado de branco e azul;
o terreiro de café;
a antiga senzala caindo;
é apenas nosso destino comum,
o nosso cenário.
Aqui há gerações jogamos o baralho
intricado de nossas vidas.
Aqui o teatro
aparente entre senhores e vassalos.
Junqueiras, Arrudas, Rezendes,
Prados, Azevedos.
Somos proprietários,
caseiros e camponeses.
Aqui onde hoje estão estas sombras
os jogos inocentes da infância,
as horas honestas do trabalho,
as noites de intriga,
os roubos, os atos ambíguos
jamais explicados ou compreendidos,
as palavras ditas e as não ditas,
os desejos da carne,
os encontros secretos de madrugada
sob o céu aberto
debaixo
das estrelas que caíam,
ou dentro das alcovas frias.
O casarão apreende o passado
em suas paredes, a fazenda em sua terra
e nos serve de volta no sabor do café diário.
II.
Caminho até o curral.
Dou bom-dia às vacas.
Volto para casa, o casarão
está vazio,
está vazia a colônia.
São 7 hrs. da manhã
o vento varre o terreirão
o sol nasce
atrás da serra
sento-me na sala e escrevo.
Hoje, domingo de Páscoa
bem cedo
sento-me no sofá, no centro
da sala,
no centro da casa,
e escrevo.
Volto ao curral
converso com as vacas,
desejo-lhes
feliz Páscoa.
Atravesso o terreiro
estou no pomar
varrido pelo vento
("Noite de vento
noite dos mortos")
pelo tempo e seus fantasmas.
Memória. Aqui é o caminho
do caçador de esmeraldas.
Velhas mangueiras, jabuticabas
cheias de barba de bode
abacates como corações verdes
de pedra pendurados nas árvores.
Pulo a cerca, estou no pasto.
Ossos
de outras gerações de vacas.
Garças, siriemas, possíveis cobras.
O campo aberto, o espaço
a distância
o vale seco
mais parece a India
mais parece a Africa
de um tempo remoto
que é meu e eu desconheço.
Contrariando a mim mesmo
de pijamas
cabelo ao vento
caminho até o café:
esta manhã eu me experimento.
Aqui estão eles: 30 mil pés
exigidos da terra
entre frestas de pedra.
Este é o nosso sustento,
este nosso exíguo alimento.
Destas alturas tudo vejo.
Sobem a estrada dois negros descalços
munidos de espingardas.
São lentos, mas sobem rápido.
Vão caçar na mata.
Penso em esconder-me,
mas já é tarde.
Passam por mim e desejo-lhes bom-dia,
e foi mais fácil desejá-lo às vacas.
Me sinto distante e isolado
destes outros seres, iguais a mim
e meus irmãos chamados.
Hoje, domingo de Páscoa, o Cristo
renascerá entre nós, ou melhor, em cada um de nós
como um sol solitário.
Volto para casa.
Fecho a porta, o vento
varre o terreiro
nesta manhã iluminada.
Estou só, mas me sinto preso
doce, tenuamente preso
(como um inseto
numa teia de aranha)
ao meu nome, meus fantasmas, meu feudo.
III.
Muitos lares cresceram
durante estes anos todos
na orla da fazenda.
A terra abafada
onde antes era mata
e depois pasto para vacas.
Casas simples, muita gente
onde numa tarde de outrora
eu e uma filha da colônia
nos deitamos em segredo.
É natural que tudo se transforme.
O amor se renova
em novos cénarios.
Nem um pouco desejo
o corpo da menina agora.
Nem sei se está viva ou morta.
No entanto, havia naqueles dias
na luz daqueles dias, ou no ar
a própria essência
da minha infância, da adolescência
que tinha uma vida inteira pela frente
mas não sabia.
Hoje se desenrola sem sentido
uma vida que não parece minha.
Em nada me reconheço
e em vão me busco na fazenda.
Sinto-me fora
de mim mesmo, fora de centro
ou escondido dentro:
vivendo um exílio às avessas.
Tenho 33 anos.
A idade de Cristo.
Sei apenas
que não ressucito, e já é tarde
para morrer jovem e bonito.
Atibaia, Semana Santa 1997
1 212
José Augusto Seabra
Sangria
"Como grandes lágrimas de sangue escorrem folhas dos ramos" (George Bacovia)
A árvore dessangra, assim, lágrima a lágrima, crucificando os ramos entre as folhas,
tão magra como a neve pingando seus últimos coágulos
A árvore dessangra, assim, lágrima a lágrima, crucificando os ramos entre as folhas,
tão magra como a neve pingando seus últimos coágulos
1 062
Paulo Teixeira
Carta do Pacífico
Rot ist der Abend auf der Insel von Palau
und die Schatten sinken —
Gottfried Benn
Querem-me de volta
deste posto avançado do Império
e eu quero ser só massa de gelo do Norte
à deriva em águas quentes.
Vaguear de ilha em ilha
seguindo a pista que os seus nomes
gravaram num mapa mudo,
tendo por religião esta imoralidade
amável de quem mostra as partes sem pudor,
e meditar sob um telhado em forma de cone
a um deus sem nome ainda.
Apanhar o que o mar traz à praia,
as mercadorias lançadas pelos vapores de passagem,
folhas de palma, mangas e papaias,
no bolso escondido um punhal malaio.
Podia morrer aqui — esplendidamente.
Proscrito, exilado,
banido eu mesmo da Fama,
só, mas valente e leal ao meu nome,
sem armas nem mea culpa,
com um grande vazio na memória —
sob outra constelação zodiacal.
Querem-me salvo e praticável
e eu desejo é estar à margem,
ser orla, limítrofe,
lá onde no molhe rebenta a onda
que vem de longe e chega aos pés da casa.
Nada me redime
e sei que nada mereço —
honras e comendas,
rendas e reparações de guerra.
A minha réplica preferida é a brisa.
Este o meu cavalete —
curvas, meandros,
uma enseada na hora
em que se atenuam os contornos
e se resolve, num misto de fumo e de névoa,
a última disposição atmosférica.
A floresta das chuvas
abriu clareiras de verde
no Pacífico azul.
O mundo é uma elegia distante
e a Europa: esta ficção retrospectiva.
und die Schatten sinken —
Gottfried Benn
Querem-me de volta
deste posto avançado do Império
e eu quero ser só massa de gelo do Norte
à deriva em águas quentes.
Vaguear de ilha em ilha
seguindo a pista que os seus nomes
gravaram num mapa mudo,
tendo por religião esta imoralidade
amável de quem mostra as partes sem pudor,
e meditar sob um telhado em forma de cone
a um deus sem nome ainda.
Apanhar o que o mar traz à praia,
as mercadorias lançadas pelos vapores de passagem,
folhas de palma, mangas e papaias,
no bolso escondido um punhal malaio.
Podia morrer aqui — esplendidamente.
Proscrito, exilado,
banido eu mesmo da Fama,
só, mas valente e leal ao meu nome,
sem armas nem mea culpa,
com um grande vazio na memória —
sob outra constelação zodiacal.
Querem-me salvo e praticável
e eu desejo é estar à margem,
ser orla, limítrofe,
lá onde no molhe rebenta a onda
que vem de longe e chega aos pés da casa.
Nada me redime
e sei que nada mereço —
honras e comendas,
rendas e reparações de guerra.
A minha réplica preferida é a brisa.
Este o meu cavalete —
curvas, meandros,
uma enseada na hora
em que se atenuam os contornos
e se resolve, num misto de fumo e de névoa,
a última disposição atmosférica.
A floresta das chuvas
abriu clareiras de verde
no Pacífico azul.
O mundo é uma elegia distante
e a Europa: esta ficção retrospectiva.
681
Fernando Pessoa
The master said you must not heed
The Master said you must not heed
What others talk of at their need.
Under the happy trees they sit
That talk of nothing and of wit.
Under the silent trees they stand
That talk of mist and no man's land.
Under the sulky trees they lie
That wonder of the earth and sky.
This was the matter of the song
No one could sing or well or long.
This was the substance of the tale
No one could tell unless it fail.
This was the subject of the verse
The last one made, lest earth be worse.
So that the collateral nightingale
Forgot its music and its tale.
So the lark rose and found but air
And false dominion everywhere.
So the dropt eagle, loosing prey,
Swept by and owned but the void day.
Yet what the secret of all this
May be or was none now can guess.
Perhaps beyond what thought defines,
Like wine some chance that some one may
Make shade and sleep of yesterday.
But wether this be sense or nought,
Surely it was a careful thought
To have the lawn so nicely laid
Out and the critics all gainsaid,
It was the reason and the home.
The rest is why tis right to roam.
02/02/1917
What others talk of at their need.
Under the happy trees they sit
That talk of nothing and of wit.
Under the silent trees they stand
That talk of mist and no man's land.
Under the sulky trees they lie
That wonder of the earth and sky.
This was the matter of the song
No one could sing or well or long.
This was the substance of the tale
No one could tell unless it fail.
This was the subject of the verse
The last one made, lest earth be worse.
So that the collateral nightingale
Forgot its music and its tale.
So the lark rose and found but air
And false dominion everywhere.
So the dropt eagle, loosing prey,
Swept by and owned but the void day.
Yet what the secret of all this
May be or was none now can guess.
Perhaps beyond what thought defines,
Like wine some chance that some one may
Make shade and sleep of yesterday.
But wether this be sense or nought,
Surely it was a careful thought
To have the lawn so nicely laid
Out and the critics all gainsaid,
It was the reason and the home.
The rest is why tis right to roam.
02/02/1917
4 251
Renato Rezende
Asas
Como uma borboleta às vezes voa baixo
e acaba
atropelada
nas ruas desta cidade;
luz e azul
estagnados
estampados
no negro do asfalto;
anjo crucificado
entre carros que passam,
minha vida
morna e delicada
beijou a parede e o asfalto, trêmula
nas encostas do precipício.
Sento-me rente
à calçada
na raíz de uma enorme árvore, só
entre a sarjeta e o asfalto,
entre o tempo e a morte.
Ó alta e sábia árvore.
Ó árvore,
eu beijo tua casca--
tua grossa, antiga casca.
Imagino que esta árvore mágica
poderia destruir a cidade
e transformá-la novamente em mata.
Imagino e sou salvo.
No meio da mata Atlântica
no tempo vegetal
como uma larva
eu subo a alta árvore
até o céu.
O céu anil
das asas de uma borboleta livre
sobre o mar terrestre.
Subo e sou
luz e crisálida,
um pouco já raio e êxtase.
Quero vertigens transparentes,
quero o grande salto d'alma.
Deus, será que dava, de onde eu caio
fazer-me santo rápido,
algum tipo de pássaro,
dar-me asas?
Rio de Janeiro, 4 de maio 1997
e acaba
atropelada
nas ruas desta cidade;
luz e azul
estagnados
estampados
no negro do asfalto;
anjo crucificado
entre carros que passam,
minha vida
morna e delicada
beijou a parede e o asfalto, trêmula
nas encostas do precipício.
Sento-me rente
à calçada
na raíz de uma enorme árvore, só
entre a sarjeta e o asfalto,
entre o tempo e a morte.
Ó alta e sábia árvore.
Ó árvore,
eu beijo tua casca--
tua grossa, antiga casca.
Imagino que esta árvore mágica
poderia destruir a cidade
e transformá-la novamente em mata.
Imagino e sou salvo.
No meio da mata Atlântica
no tempo vegetal
como uma larva
eu subo a alta árvore
até o céu.
O céu anil
das asas de uma borboleta livre
sobre o mar terrestre.
Subo e sou
luz e crisálida,
um pouco já raio e êxtase.
Quero vertigens transparentes,
quero o grande salto d'alma.
Deus, será que dava, de onde eu caio
fazer-me santo rápido,
algum tipo de pássaro,
dar-me asas?
Rio de Janeiro, 4 de maio 1997
1 023
Fernando Pessoa
DESOLATION
DESOLATION
Here where the rugged hills
Their gnarled loose bases grip into the earth,
And nothing save the sorrow of our birth
From seeing the seeing spirit fills,
Here where, among the grim, deserted stones,
Na hope of green for desertness atones,
Or water's sound
Make sweet the solitude around,
Here may I lay
This day
My head
Upon the ground and say
No better bed
Can he who has but himself for life have,
Nor better grave.
The sterile part
Of love, feeling, was given me.
Fom the humanness even of a broken heart
God set me free.
Out of my destiny no flower was made
To grow.
All in me fated was not even to fade
Or e'en a vain and transient glory show.
The very need
For love or joy or the human part of thought,
Pride, and the abstract greed
For truth, that lifts the heart and doth allot
A value of self and world to consciousness –
Even this bliss
My empty heart has not.
O weary born,
Faded begun.
Gone from unseen shores to seen shores forlorn,
Sent out of sun-gone unto unborn sun!
The singer of his wish
To sing no song,
The poor spendthrift rich
With knowing not fo, what to long.
The Hyperion dispossessed
Ere birth
Of that sun-mansion set out beyond rest
Above the wide-lit stretches of the earth.
The uncrowned king
That never saw the land
Of which he oft doth sing,
And whose lost path he cannot understand
Nor know to dream steps him there to bring.
The priest deferred
From the inner shrine.
The thought but never uttered word,
The fore spilt wine,
The anxiousness for hope, the cold divine
Of anguish that no anguish human is,
The solitary pine
On the cold hill of consciousness.
The hour
The lord
Returns
Back to the polluted bower,
Home to the intransitable ford,
Again to the ice-padlocked burns:
The shadow
Fixedly thrown
On the green meadow
By a tree overgrown
With leaves, but fruitless, flowerless and lone.
The last
Sight of a shore
Which the unhalting ship doth pass
And where it never shall pass more;
But where the heart-dim sailor knows
Homes are happy because not his,
Lips warm because never his lips to kiss,
Gardens fair because therein grows
The unfound rose,
Hours soft, fate fresh, life a real fair elf
Because somewhere outside himself.
16/10/1916
Here where the rugged hills
Their gnarled loose bases grip into the earth,
And nothing save the sorrow of our birth
From seeing the seeing spirit fills,
Here where, among the grim, deserted stones,
Na hope of green for desertness atones,
Or water's sound
Make sweet the solitude around,
Here may I lay
This day
My head
Upon the ground and say
No better bed
Can he who has but himself for life have,
Nor better grave.
The sterile part
Of love, feeling, was given me.
Fom the humanness even of a broken heart
God set me free.
Out of my destiny no flower was made
To grow.
All in me fated was not even to fade
Or e'en a vain and transient glory show.
The very need
For love or joy or the human part of thought,
Pride, and the abstract greed
For truth, that lifts the heart and doth allot
A value of self and world to consciousness –
Even this bliss
My empty heart has not.
O weary born,
Faded begun.
Gone from unseen shores to seen shores forlorn,
Sent out of sun-gone unto unborn sun!
The singer of his wish
To sing no song,
The poor spendthrift rich
With knowing not fo, what to long.
The Hyperion dispossessed
Ere birth
Of that sun-mansion set out beyond rest
Above the wide-lit stretches of the earth.
The uncrowned king
That never saw the land
Of which he oft doth sing,
And whose lost path he cannot understand
Nor know to dream steps him there to bring.
The priest deferred
From the inner shrine.
The thought but never uttered word,
The fore spilt wine,
The anxiousness for hope, the cold divine
Of anguish that no anguish human is,
The solitary pine
On the cold hill of consciousness.
The hour
The lord
Returns
Back to the polluted bower,
Home to the intransitable ford,
Again to the ice-padlocked burns:
The shadow
Fixedly thrown
On the green meadow
By a tree overgrown
With leaves, but fruitless, flowerless and lone.
The last
Sight of a shore
Which the unhalting ship doth pass
And where it never shall pass more;
But where the heart-dim sailor knows
Homes are happy because not his,
Lips warm because never his lips to kiss,
Gardens fair because therein grows
The unfound rose,
Hours soft, fate fresh, life a real fair elf
Because somewhere outside himself.
16/10/1916
4 442
Daniel Jonas
OPACIDADE
Estúpido outono
a tudo impondo sua ferrugem
como num velho armazém de ferragens
a artrose ganhando dobradiças
e as espirais
a parafusos zonzos.
E estas árvores são também
impossíveis: árvores
como furgonetas com seus toldos
esvoaçantes, rangendo
a grande dor da
mudança.
Estúpidas árvores: cada copa
um enleio de fios,
uma instalação eléctrica pública
de Calcutá, fundindo
o céu, seu
capote puindo.
Ou este outono é só
uma betoneira
regurgitando o seu betão zonzo.
Estúpido outono. E que erro
tomar os meus olhos
por um aterro!
a tudo impondo sua ferrugem
como num velho armazém de ferragens
a artrose ganhando dobradiças
e as espirais
a parafusos zonzos.
E estas árvores são também
impossíveis: árvores
como furgonetas com seus toldos
esvoaçantes, rangendo
a grande dor da
mudança.
Estúpidas árvores: cada copa
um enleio de fios,
uma instalação eléctrica pública
de Calcutá, fundindo
o céu, seu
capote puindo.
Ou este outono é só
uma betoneira
regurgitando o seu betão zonzo.
Estúpido outono. E que erro
tomar os meus olhos
por um aterro!
714
1