Poemas neste tema
Árvores, florestas e montanhas
António Ramos Rosa
Oscilando Na Ligeireza
Urdindo talvez a água e as lâmpadas de madeira.
Abandonando ao ócio o tempo e as suas rodas cinzentas.
Oscilando na ligeireza, aliado ao vigor da sombra.
Linhas, linhas em radiações vagarosas, lúcidas.
A orfandade encontrou a clareira harmoniosa.
Em uníssono com a folhagem numa suavidade de seda
penetro num prisma onde tudo é reverência.
Carícias e carícias lavam o corpo ferido.
O ouro mais vibrante sai de incessantes ilhas.
Já não luto. Dilato-me. Pertenço.
Outros nomes, outros frémitos, noutros campos
que uma inteligência de dança transformou.
Escuto milhares de folhas e não palavras surdas.
Um declive me aspira num espaço adolescente.
Tenho a facilidade verde e a volúpia das vogais.
Abandonando ao ócio o tempo e as suas rodas cinzentas.
Oscilando na ligeireza, aliado ao vigor da sombra.
Linhas, linhas em radiações vagarosas, lúcidas.
A orfandade encontrou a clareira harmoniosa.
Em uníssono com a folhagem numa suavidade de seda
penetro num prisma onde tudo é reverência.
Carícias e carícias lavam o corpo ferido.
O ouro mais vibrante sai de incessantes ilhas.
Já não luto. Dilato-me. Pertenço.
Outros nomes, outros frémitos, noutros campos
que uma inteligência de dança transformou.
Escuto milhares de folhas e não palavras surdas.
Um declive me aspira num espaço adolescente.
Tenho a facilidade verde e a volúpia das vogais.
1 035
António Ramos Rosa
O Efémero Paraíso
Um mundo onde a ignorância é primavera
onde a alegria estremece deslumbrada
por um país que é um efémero paraíso
que se demora até ao fundo de uma esfera
por onde tudo se liberta com o vento e aclara.
O inalterável resplandece numa concha cristalina.
O próprio sopro é o movimento e as torrentes vibram.
Tudo se completa na unidade do silêncio.
Respira-se a folhagem com uma inteligência nova.
As linhas íntimas brilham na sombra do ar.
Um campo intenso recebe a grande luz. As sombras
cintilam na lucidez do repouso. A página abre-se.
Por graciosos canais circula o sentido iminente.
Uma única sílaba se respira ágil e leve.
Uma árvore marinha dá a resposta branca.
onde a alegria estremece deslumbrada
por um país que é um efémero paraíso
que se demora até ao fundo de uma esfera
por onde tudo se liberta com o vento e aclara.
O inalterável resplandece numa concha cristalina.
O próprio sopro é o movimento e as torrentes vibram.
Tudo se completa na unidade do silêncio.
Respira-se a folhagem com uma inteligência nova.
As linhas íntimas brilham na sombra do ar.
Um campo intenso recebe a grande luz. As sombras
cintilam na lucidez do repouso. A página abre-se.
Por graciosos canais circula o sentido iminente.
Uma única sílaba se respira ágil e leve.
Uma árvore marinha dá a resposta branca.
1 119
António Ramos Rosa
O Corpo Na Folhagem
O corpo está na folhagem, na difusa
madurez. Conhece a alegria da argila
e os violinos verdes da terra. Entre a luz antiga
e a sombra, está na paz que ilumina os nomes.
Ouve os rumores confusos que tornam a solidão feliz.
Com o vento oscilam os vestígios ilegíveis.
Uma porta sempre fresca abre-se continuamente.
Como é suave a cinza do seu olhar na brisa!
Toca a pedra e ela responde com um sortilégio limpo.
Escreve com a brancura das pálpebras dos pássaros.
Não, tu não existes e existes, ó vivo ser!
Giras como os amantes em luminosos anéis.
Nas mãos o impalpável, as minúsculas estrelas de pólen.
A realidade é um bosque onde estremece a tua ausência.
Tu és o pássaro que atravessa a pedra opaca.
madurez. Conhece a alegria da argila
e os violinos verdes da terra. Entre a luz antiga
e a sombra, está na paz que ilumina os nomes.
Ouve os rumores confusos que tornam a solidão feliz.
Com o vento oscilam os vestígios ilegíveis.
Uma porta sempre fresca abre-se continuamente.
Como é suave a cinza do seu olhar na brisa!
Toca a pedra e ela responde com um sortilégio limpo.
Escreve com a brancura das pálpebras dos pássaros.
Não, tu não existes e existes, ó vivo ser!
Giras como os amantes em luminosos anéis.
Nas mãos o impalpável, as minúsculas estrelas de pólen.
A realidade é um bosque onde estremece a tua ausência.
Tu és o pássaro que atravessa a pedra opaca.
975
Airas Nunes
Bailemos Nós Já Todas Três, Ai Amigas
Bailemos nós já todas três, ai amigas,
sô aquestas avelaneiras frolidas,
e quem for velida, como nós, velidas,
se amigo amar,
sô aquestas avelaneiras frolidas
verrá bailar.
Bailemos nós já todas três, ai irmanas,
sô aqueste ramo destas avelanas,
e quem for louçana, como nós, louçanas,
se amigo amar,
sô aqueste ramo destas avelanas
verrá bailar.
Por Deus, ai amigas, mentr'al nom fazemos
sô aqueste ramo frolido bailemos,
e quem bem parecer, como nós parecemos,
se amigo amar,
sô aqueste ramo, sol que nós bailemos,
verrá bailar.
sô aquestas avelaneiras frolidas,
e quem for velida, como nós, velidas,
se amigo amar,
sô aquestas avelaneiras frolidas
verrá bailar.
Bailemos nós já todas três, ai irmanas,
sô aqueste ramo destas avelanas,
e quem for louçana, como nós, louçanas,
se amigo amar,
sô aqueste ramo destas avelanas
verrá bailar.
Por Deus, ai amigas, mentr'al nom fazemos
sô aqueste ramo frolido bailemos,
e quem bem parecer, como nós parecemos,
se amigo amar,
sô aqueste ramo, sol que nós bailemos,
verrá bailar.
2 784
Charles Bukowski
Cavalo-marinho
tenho a indicação de um cavalo
tenho a barriga dele e seus colhões
o modo como vira os olhos
tenho isso
como come feno
e como caga e
como dorme em pé
ele é meu
esta máquina
como um trem azul com que eu brincava
quando minhas mãos eram menores
e minha cabeça melhor
possuo este cavalo,
algum dia vou cavalgar
por todas as ruas
pelas árvores passaremos
subindo a montanha
e vale abaixo
o assinalamento e os olhos e colhões
nós dois
vamos aos lugares onde os reis se alimentam
de margaridas*
no mar gigante
onde pensar não é nenhum erro
onde os olhos não vão para a rua
como crianças de sábado à noite
o cavalo que possuo e o eu que possuo
ficaremos azuis maravilhosos e limpos
de novo
e eu sairei e
esperarei por você.
* No original dandelion, "dente-de-leão". (NT)
tenho a barriga dele e seus colhões
o modo como vira os olhos
tenho isso
como come feno
e como caga e
como dorme em pé
ele é meu
esta máquina
como um trem azul com que eu brincava
quando minhas mãos eram menores
e minha cabeça melhor
possuo este cavalo,
algum dia vou cavalgar
por todas as ruas
pelas árvores passaremos
subindo a montanha
e vale abaixo
o assinalamento e os olhos e colhões
nós dois
vamos aos lugares onde os reis se alimentam
de margaridas*
no mar gigante
onde pensar não é nenhum erro
onde os olhos não vão para a rua
como crianças de sábado à noite
o cavalo que possuo e o eu que possuo
ficaremos azuis maravilhosos e limpos
de novo
e eu sairei e
esperarei por você.
* No original dandelion, "dente-de-leão". (NT)
1 098
Nuno Júdice
Ninfas de água
Alguém as espreita de trás do canavial, sem
que o pressintam; e não sei se é de espanto, ou medo,
a sua expressão, ao entrarem no rio, como
despreocupadas ofélias. Na tarde em que
falei com elas, porém, explicaram-me tudo:
a mais nova, interessa-se pelo Messias,
e estuda a sua relação com a água; a
da frente, prefere a linguística, e
ocupa-se da etimologia das plantas.
No café, não pediram nada: pousavam
os cotovelos sobre a mesa, e eu ouvia-as
falar com o ritmo musical das suas
frases bem articuladas. A noite caíu sem
darmos por isso; e a cortina da porta
transformou-se num arbusto em que
elas se meteram, antes de passarem
por cima de mim para entrar no rio.
que o pressintam; e não sei se é de espanto, ou medo,
a sua expressão, ao entrarem no rio, como
despreocupadas ofélias. Na tarde em que
falei com elas, porém, explicaram-me tudo:
a mais nova, interessa-se pelo Messias,
e estuda a sua relação com a água; a
da frente, prefere a linguística, e
ocupa-se da etimologia das plantas.
No café, não pediram nada: pousavam
os cotovelos sobre a mesa, e eu ouvia-as
falar com o ritmo musical das suas
frases bem articuladas. A noite caíu sem
darmos por isso; e a cortina da porta
transformou-se num arbusto em que
elas se meteram, antes de passarem
por cima de mim para entrar no rio.
1 077
António Ramos Rosa
No Círculo Total
Onde estou respiro e ardo. Nada sei. Sou a seiva incandescente do compacto. Mas a densidade coincide com a mais viva ligeireza. A grande massa móvel da folhagem insufla-me um sangue verde que me dá uma sensação aérea de imponderável vigor. Estou completo como uma onda do mar, como uma árvore, como um muro branco. A tranquilidade é absoluta. Ninguém responde, nada responde, é aqui o círculo total. Movimentos leves, movimentos fundos, movimentos obscuros e sempre aéreos, movimentos claros. O que outrora eram os deuses estende-se no esplendor das coisas e dos seres. Que magnífica dilatação de todo o espaço interno! Estou talvez no centro liberto. Sinto a realidade numa profusão harmoniosa que me inclui, que me abraça, que a mim vem e de mim rompe em tranquilos e ardentes jorros. Tudo o que vejo toco. O vento que perpassa nas folhas corre-me pelas veias e pelas fibras. Fibras de um corpo, fibras do universo, vibrando no universo. Suspenderam-se as interrogações, nada pode ser proclamado nem aclamado aqui. Estou no templo natural. Totalmente ébrio de uma totalidade em que repouso e vibro. Sou tudo aquilo em que estou. Folhagem e água, ar, pedras, o sono verde da terra, as cores, os muros, as árvores e as casas adormecidas, rugosas, tudo, o todo inteiro, aqui, na coincidência feliz de ser, de mais ser, ebriamente límpido, misteriosamente idêntico.
1 090
António Ramos Rosa
O Encontro
Por vezes, sem qualquer esforço, sou uma atmosfera ou identifico-me com um arvoredo, com a sua cor sombria, cor de veludo e silêncio, cor de estar ou ser, intemporal e densa. Eis onde vivo por momentos. Onde sou uma respiração do silêncio. Ou então uma encosta. Umas quantas janelas onde já ninguém vem assomar-se. Uma faixa oblíqua de cor ensimesmada no abandono de uma tristeza que é um gesto da imobilidade. Alongado, profundo, externo gosto de ser e nada mais. Estar ou ser no encontro tornou-se a exactidão pura de uma densidade tranquila e suficiente, internamente imensa. Contemplação intensa e calma, como liberta do desejo, e todavia a forma e o fundo do desejo como substância única, salva numa completa tranquilidade. Neste muro inabitável, por abandonado e solitário, está a mais viva e a mais sossegada habitabilidade do mundo. Sinto a vibração aérea do imperecível e todavia efémero. Sou agora, abandonando-me, o próprio encontro com o que não responde e que responde no silêncio do inanimado. Horizontal, vertical, estou reunido como uma pedra e não me afundo, não soçobro entre a sombra e a água.
1 065
Affonso Romano de Sant'Anna
Domingo Nos Campos da Toscana
Domingo nos campos da Toscana:
vinhas enfileiradas,
oliveiras ondeando morros,
ciprestes pontuando torres e castelos
como se os sons de Frescobaldi
se condensassem em paisagem.
No entanto
aqui e ali
ouço estampidos que rasgam o azul:
um caçador de domingo com seu cão
desce solerte a encosta
com sua arma na mão.
Caem pássaros que não vejo
vitimados
sobre as folhas do chão.
Domingo nos campos da Toscana:
– a morte também envia seus ruídos
nos momentos de perfeição.
vinhas enfileiradas,
oliveiras ondeando morros,
ciprestes pontuando torres e castelos
como se os sons de Frescobaldi
se condensassem em paisagem.
No entanto
aqui e ali
ouço estampidos que rasgam o azul:
um caçador de domingo com seu cão
desce solerte a encosta
com sua arma na mão.
Caem pássaros que não vejo
vitimados
sobre as folhas do chão.
Domingo nos campos da Toscana:
– a morte também envia seus ruídos
nos momentos de perfeição.
1 094
António Ramos Rosa
No Vaivém Imóvel
Nada mais que um pouco de luz e um pouco de vento. E umas quantas árvores cuja folhagem tremula e fulge, no delírio do ar. É real o que vejo, o que respiro: sou o próprio espaço em que estou. Trânsito fresco de minúsculas sombras e de folhas cintilantes. Circulam palavras leves de silêncio, de água, de ar. Ninguém é o sopro ligeiro que estimula e tranquiliza o vinho do sangue. Límpido o corpo, aberto e completo, límpida a sua ferida vertical. No vaivém imóvel há uma fulguração de um voo branco de sossegada iridiscência. Livre e certo, numa embriagada incerteza, o coração repousa e arde de luz e de alegria.
1 068
António Ramos Rosa
A Palavra Viva
Muro em vez de boca, cal em vez de língua. Boca em vez de muro, língua em vez de cal. Um ímpeto, uma cor, uma mancha, uma marca escrita, um círculo de terra, uma coisa viva. Tantos astros de areia, tantos rostos de pedra! E o céu vasto, redondo, completo, os vultos vivos, ligeiros, matinais. Ritmo, crescimento, inundação. Por toda a parte o silencioso calor de um animal aéreo. O mundo acendeu-se com as suas árvores transparentes. Tudo é fácil, tudo é fluido. Suavemente vazio, na nudez intacta, o corpo escreve com a espuma do ar.
1 148
António Ramos Rosa
Nas Evidências do Calor
Nas evidências do calor, reconheço a primazia do solo e os músculos pacientes dos caminhos. Cada acaso do meu campo vital, cada pulsação e cada sopro afirmam a força da terra e a resina das palavras. As evidências respiram em uníssono com o corpo harmonioso. Pelo fogo, pela cinza, pela seiva. Algo se nos oferece e nos interroga, algo nos aceita. Simples, soberana é a voz silenciosa do espaço. À claridade das pedras e das árvores, eleva-se, num silencioso gesto de presença, a figura germinal de uma alegria terrestre.
648
António Ramos Rosa
Osmose
A pausa concêntrica dilata-se ao céu vazio e ao círculo branco do horizonte. Na árvore, o ouvido ouve o rumor distante de uma memória que acaba de nascer da sóbria luz que se levanta. Tudo o que aparece no ar novo e fresco abre-se no oval de uma presença que se faz vagarosa aceitação e serena certeza. De toda a parte aflui uma brisa voluptuosamente suave. A osmose é incessante. O enigma apresenta-se luminoso como uma morada marinha. Todos os meandros circulam perante o olhar intacto e todas as energias redondas vibram nos seus volumes sólidos, completos.
1 066
Nuno Júdice
Ouvindo o violino
Com o pé na cadeira, prepara-se para se
vestir; e o homem do violino nem repara que
ela está em cima da mesa, onde ainda ficou
a garrafa que ele quase esvaziou, até
ela lhe pedir que tocasse, enquanto
se veste para a noite de S. João. Aí,
nas aldeias junto aos lagos, as raparigas
fogem para as florestas, à espera do escuro
que não há-de chegar; mas não é para isso
que ela se veste. A sua juventude esvazia-se,
como o vinho na garrafa; e ao olhar para
o músico, o que ela pensa é se ele não
será uma pura abstracção, inventando a melodia
que ela gostaria de ouvir. E também poderia
sair atrás dele, para o meio da floresta onde
iria acender uma fogueira, antes que as amigas
chegassem. Mas a roupa que tem não serve
para uma festa; e o cabelo curto descobre-lhe
o pescoço, que a luz envolve, embora o
homem do violino não se preocupe com
a sua presença. Assim, ela sairá de cima da
mesa, deixando-o acabar a sua peça; e
meter-se-á na cama, enterrando os olhos
na almofada para não ver o sol que ainda
entra pela janela, depois do dia acabar, e
de todas as amigas se perderem na floresta.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 88 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
vestir; e o homem do violino nem repara que
ela está em cima da mesa, onde ainda ficou
a garrafa que ele quase esvaziou, até
ela lhe pedir que tocasse, enquanto
se veste para a noite de S. João. Aí,
nas aldeias junto aos lagos, as raparigas
fogem para as florestas, à espera do escuro
que não há-de chegar; mas não é para isso
que ela se veste. A sua juventude esvazia-se,
como o vinho na garrafa; e ao olhar para
o músico, o que ela pensa é se ele não
será uma pura abstracção, inventando a melodia
que ela gostaria de ouvir. E também poderia
sair atrás dele, para o meio da floresta onde
iria acender uma fogueira, antes que as amigas
chegassem. Mas a roupa que tem não serve
para uma festa; e o cabelo curto descobre-lhe
o pescoço, que a luz envolve, embora o
homem do violino não se preocupe com
a sua presença. Assim, ela sairá de cima da
mesa, deixando-o acabar a sua peça; e
meter-se-á na cama, enterrando os olhos
na almofada para não ver o sol que ainda
entra pela janela, depois do dia acabar, e
de todas as amigas se perderem na floresta.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 88 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 070
António Ramos Rosa
Entre o Papel E As Árvores
Entre o papel e as árvores, no apoio frontal do ar visível, vazio, vento, vocábulos, breves incoerências, ar no ar. Nadador intermitente, sou, uma e outra vez, reconduzido ao centro das folhas e palavras.
O texto circula, a golpes de ar, em obscuras feridas, em claros movimentos.
Corpo que se enrola no corpo, outro ar cintilante e desenhado, outra água escrita pelos mesmos braços da água que, ondulando, escrevem a longa incoerência unânime. Frases em que o papel respira, frases que logo esquecem no espaço que se abre e que se perde, energia visível em volume, em espaço, em nítido contorno, em fluxo de folhas, em espiral rasa e branca ao nível da terra. Sem reservas, compactamente, banal e inexpugnável, o instante apaga o que o precede, inicia a vigia sonhada dos sulcos brancos do dia.
O texto circula, a golpes de ar, em obscuras feridas, em claros movimentos.
Corpo que se enrola no corpo, outro ar cintilante e desenhado, outra água escrita pelos mesmos braços da água que, ondulando, escrevem a longa incoerência unânime. Frases em que o papel respira, frases que logo esquecem no espaço que se abre e que se perde, energia visível em volume, em espaço, em nítido contorno, em fluxo de folhas, em espiral rasa e branca ao nível da terra. Sem reservas, compactamente, banal e inexpugnável, o instante apaga o que o precede, inicia a vigia sonhada dos sulcos brancos do dia.
1 226
Edmir Domingues
Lição de abismo
A árvore. Onde estará?
Em que lote, em que terreno,
em que bosque, em que floresta,
terá crescido, e sugado
a vida do pó da terra?
Será que ainda existe a árvore?
a copa de passarinhos
verde e viva, verdejando,
uma sombra ao pé da estrada?
Ou será que está cortada,
desfeita em pranchas polidas,
empilhadas, empoeiradas,
madeira de serraria?
0 ferro. Em que mina o ferro
simples minério repousa
a sua paz mineral?
Será que já foi colhido
por negros braços mineiros
e trazido à luz do sol?
Será que já soube a forja
o fogo, o malho, a bigorna,
onde depois de batido
será composto em martelo?
Estará pronto o martelo?
O cabo talvez tirado
dos rijos galhos cortados
da planta desfeita em pranchas?
Os pregos. Já serão pregos
já maquinofaturados
talvez desse mesmo ferro
de que foi feito o martelo?
A mão. Que estará fazendo
a mão, neste exato instante?
Será jovem, será velha
a mão, será negra ou branca?
E assim, já composto o quadro,
quando estarão todos juntos,
a mão, o martelo, os pregos,
a madeira (e o seu destino),
para que, juntos, componham
meu caixão, meu ataúde?
Talvez a mão distraída,
pregando os pregos não sinta
que a boca do mesmo corpo
trauteia a canção da vida,
um canto simples de amor.
Talvez tudo esteja pronto,
o trabalho esteja feito,
e já se veja o ataúde
brilhando no mostruário.
E só não tenha chegado,
para o final da comédia,
o momento que não tarda
que vem por certo em caminho.
Em que lote, em que terreno,
em que bosque, em que floresta,
terá crescido, e sugado
a vida do pó da terra?
Será que ainda existe a árvore?
a copa de passarinhos
verde e viva, verdejando,
uma sombra ao pé da estrada?
Ou será que está cortada,
desfeita em pranchas polidas,
empilhadas, empoeiradas,
madeira de serraria?
0 ferro. Em que mina o ferro
simples minério repousa
a sua paz mineral?
Será que já foi colhido
por negros braços mineiros
e trazido à luz do sol?
Será que já soube a forja
o fogo, o malho, a bigorna,
onde depois de batido
será composto em martelo?
Estará pronto o martelo?
O cabo talvez tirado
dos rijos galhos cortados
da planta desfeita em pranchas?
Os pregos. Já serão pregos
já maquinofaturados
talvez desse mesmo ferro
de que foi feito o martelo?
A mão. Que estará fazendo
a mão, neste exato instante?
Será jovem, será velha
a mão, será negra ou branca?
E assim, já composto o quadro,
quando estarão todos juntos,
a mão, o martelo, os pregos,
a madeira (e o seu destino),
para que, juntos, componham
meu caixão, meu ataúde?
Talvez a mão distraída,
pregando os pregos não sinta
que a boca do mesmo corpo
trauteia a canção da vida,
um canto simples de amor.
Talvez tudo esteja pronto,
o trabalho esteja feito,
e já se veja o ataúde
brilhando no mostruário.
E só não tenha chegado,
para o final da comédia,
o momento que não tarda
que vem por certo em caminho.
632
Yu Xuanji
Compartilhando um luto
Lembro a elegância como um jade, a pele em pêssego
salgueiros tímidos ao vento, as sobrancelhas
Encerra a gruta do dragão aquela pérola
À base em fênix, só, na alcova resta o espelho
a repetir o sonho à noite, em chuva e névoa
não mais que a dor insuportável, sem parelho
A leste e oeste, agudas, fecham-se montanhas
ao sol, à lua: nunca mais uma esperança
salgueiros tímidos ao vento, as sobrancelhas
Encerra a gruta do dragão aquela pérola
À base em fênix, só, na alcova resta o espelho
a repetir o sonho à noite, em chuva e névoa
não mais que a dor insuportável, sem parelho
A leste e oeste, agudas, fecham-se montanhas
ao sol, à lua: nunca mais uma esperança
1 017
António Ramos Rosa
O Instante
Quem posso eu chamar, que palavras lúcidas
e sóbrias, veementes
poderão despertar as ondas felizes,
que outro apelo, que outro alento
aproximará as árvores, o hálito das suas frases?
Quem me oferecerá no seu corpo o estuário das mãos,
que prodígios da terra deslizarão no repouso,
que declives, que jardins, que palácios diminutos,
que intangíveis enlaces, que adoráveis volumes?
Quem me dará o sossego da fábula mais pura
com o exacto relevo imediata e vagarosa?
Real e perfeita
num deslizar de gozo, em lábios que emudecem deslumbrados,
real e completo, secreto, imediato, maravilhoso
é o instante que descobre o animal mais ardente,
a mais ardente exactidão
a mais oferecida à claridade,
a mais contínua, a mais profunda suavidade.
Estamos dentro de um seio donde nascemos
como de uma montanha latente, somos a nascente confusão
de murmúrios silvestres e a magia natural
de um silêncio límpido, abraçamos a maravilha
aqui e agora, reconcentração na felicidade,
na evidência de delícias, múltiplas, fatais.
e sóbrias, veementes
poderão despertar as ondas felizes,
que outro apelo, que outro alento
aproximará as árvores, o hálito das suas frases?
Quem me oferecerá no seu corpo o estuário das mãos,
que prodígios da terra deslizarão no repouso,
que declives, que jardins, que palácios diminutos,
que intangíveis enlaces, que adoráveis volumes?
Quem me dará o sossego da fábula mais pura
com o exacto relevo imediata e vagarosa?
Real e perfeita
num deslizar de gozo, em lábios que emudecem deslumbrados,
real e completo, secreto, imediato, maravilhoso
é o instante que descobre o animal mais ardente,
a mais ardente exactidão
a mais oferecida à claridade,
a mais contínua, a mais profunda suavidade.
Estamos dentro de um seio donde nascemos
como de uma montanha latente, somos a nascente confusão
de murmúrios silvestres e a magia natural
de um silêncio límpido, abraçamos a maravilha
aqui e agora, reconcentração na felicidade,
na evidência de delícias, múltiplas, fatais.
1 070
António Ramos Rosa
Terra Abandonada
A incoerente no entanto suave
inundação
uma construção de sombras
em que se encontram caminhos mais aéreos
desconhecidos
com o sabor marítimo do silêncio.
Palavras livres que fluem nas veias
palavras por dizer obscuras leves
palavras ilegíveis e todavia transparentes.
Sinais cintilações
do ilegível que é um deus que ignora
e se esconde entre as pedras no silêncio e no sono.
Terra abandonada
terra onde não regressámos
onde o Incompreendido nos espera
onde já não se repousa na sua paz aérea.
Talvez uma pobreza nos liberte
talvez a simplicidade do ilegível
nos leve ao coração das coisas.
Quem sabe até onde se pode arder
no obscuro sol verde entre as coxas da terra?
Sinais sinais que nada dizem
senão o rumor confuso
das vozes da terra.
Sinais para o fundo e para o cimo
para construir a consonância com a amplitude.
Sinais de vento e árvore sinais de gérmen.
Sinais de ubiquidade inteligente e ignorante.
Sinais inexauríveis que abrem horizontes.
Sinais para a nudez sinais para o aberto.
………………………………………...
De novo a voz confusa do vento
a grande figura fugidia e esparsa
o visceral arbusto das palavras.
De novo o sopro selvagem sobre as folhas
de novo a iluminação obscura e rápida.
inundação
uma construção de sombras
em que se encontram caminhos mais aéreos
desconhecidos
com o sabor marítimo do silêncio.
Palavras livres que fluem nas veias
palavras por dizer obscuras leves
palavras ilegíveis e todavia transparentes.
Sinais cintilações
do ilegível que é um deus que ignora
e se esconde entre as pedras no silêncio e no sono.
Terra abandonada
terra onde não regressámos
onde o Incompreendido nos espera
onde já não se repousa na sua paz aérea.
Talvez uma pobreza nos liberte
talvez a simplicidade do ilegível
nos leve ao coração das coisas.
Quem sabe até onde se pode arder
no obscuro sol verde entre as coxas da terra?
Sinais sinais que nada dizem
senão o rumor confuso
das vozes da terra.
Sinais para o fundo e para o cimo
para construir a consonância com a amplitude.
Sinais de vento e árvore sinais de gérmen.
Sinais de ubiquidade inteligente e ignorante.
Sinais inexauríveis que abrem horizontes.
Sinais para a nudez sinais para o aberto.
………………………………………...
De novo a voz confusa do vento
a grande figura fugidia e esparsa
o visceral arbusto das palavras.
De novo o sopro selvagem sobre as folhas
de novo a iluminação obscura e rápida.
1 058
António Ramos Rosa
Moradia
Talvez serenamente a moradia contínua
de uma limpidez e de uma leveza extremas.
Vejo as dunas da casa as vivas águas
a madeira que é uma nascente lisa
as largas folhas os papéis da sombra.
Sinto um odor novo a ramos e a pólen no silêncio.
A casa sabe a terra, a um inexplorado campo.
Ninguém me estendeu a mão mas o silêncio é cordial.
O corpo que vejo é de uma essencial delicadeza.
A ordem clara da mesa corresponde à transparência do jardim.
O meu pensamento vagueia nulo num vazio habitável.
Compreendo as árvores na sua obscura e leve densidade.
Mais do que nunca estou imerso no ser na sua luz intacta.
Perdi os atributos estou reduzido à essência.
Além é ainda aqui o horizonte brilha no interior da casa.
Amo na tranquilidade do átrio em consonância com as árvores e o mar.
de uma limpidez e de uma leveza extremas.
Vejo as dunas da casa as vivas águas
a madeira que é uma nascente lisa
as largas folhas os papéis da sombra.
Sinto um odor novo a ramos e a pólen no silêncio.
A casa sabe a terra, a um inexplorado campo.
Ninguém me estendeu a mão mas o silêncio é cordial.
O corpo que vejo é de uma essencial delicadeza.
A ordem clara da mesa corresponde à transparência do jardim.
O meu pensamento vagueia nulo num vazio habitável.
Compreendo as árvores na sua obscura e leve densidade.
Mais do que nunca estou imerso no ser na sua luz intacta.
Perdi os atributos estou reduzido à essência.
Além é ainda aqui o horizonte brilha no interior da casa.
Amo na tranquilidade do átrio em consonância com as árvores e o mar.
1 105
António Ramos Rosa
A Filha do Sono
Tu és a filha do sono e cintilas na folhagem.
Vieste do fundo do rio ainda envolta na noite.
O meu apelo recebeste-o e é a claridade que vibra.
A confiança nasceu numa onda mais verde
e inclinei-me sobre os teus joelhos num ardor tranquilo
para que a verdadeira chama fosse reconhecida na árvore do desejo.
De caminhos, de árvores, de nascentes,
de signos impenetráveis que se tornaram vibrantes
eras o corpo que se reunia na alegria partilhada
e consentias a palavra como um redemoinho
que culminava numa tranquila abóbada.
Que serenidade nas claras árvores
e nas folhas profusas onde repousam novos frutos!
Os desejos adormecem no silêncio e entre as pedras.
A infinita sede acalma-se e a ausência desce até à terra nua.
Vieste do fundo do rio ainda envolta na noite.
O meu apelo recebeste-o e é a claridade que vibra.
A confiança nasceu numa onda mais verde
e inclinei-me sobre os teus joelhos num ardor tranquilo
para que a verdadeira chama fosse reconhecida na árvore do desejo.
De caminhos, de árvores, de nascentes,
de signos impenetráveis que se tornaram vibrantes
eras o corpo que se reunia na alegria partilhada
e consentias a palavra como um redemoinho
que culminava numa tranquila abóbada.
Que serenidade nas claras árvores
e nas folhas profusas onde repousam novos frutos!
Os desejos adormecem no silêncio e entre as pedras.
A infinita sede acalma-se e a ausência desce até à terra nua.
610
Edmir Domingues
Pela paz de maio e junho
Posto que estava maio, e resolvido
que nos idos, em grupo, tornaríamos
às fáculas antigas, quando estavam
quanto mais velhas tanto mais acesas,
assim fomos e vimos. Era o tempo
doutra luz, essa que se tem mais forte,
presa na carne e no osso e resguardada
pelas fronteiras rígidas da sombra.
Nas citadas planícies nos perdemos
e era mais que do tato um só caminho
para este externo mundo que nos guarda.
Por elas compreendemos do sentido.
E soubemos que apenas tênues rosas
têm fundações mais fortes do que pedra,
que mais que pedras vale, compreendemos,
a força enclausurada nas raízes
Então fomos ficados neste campo
de teto e espaço e fumo que nos cobre,
porquanto que o soubemos mais seguro
e que os mundos alheios valem menos
visto que em muito grandes são fundados
em brancos alicerces de fumaça.
Considerado o mar, nós nos despimos
do marítimo traje com que estavam
corpos ao sol e à chuva resguardados.
Se era o mar fabricado em movimento
que lhe dá toda a essência e qualidade,
para restarmos todos sobre o verde
e o vermelho do chão que nos ampara.
Que a nossa inconsistência será sempre
o mais caro de nós, ficamos crendo.
Repousa um tédio imenso na certeza.
E então faz-se de bem que a não tenhamos
senão essa de pouca com que temos
que o vermelho do piso, mais o verde,
nos serão toda a paz ambicionada
Que as fáculas não faltem, de resina,
e os limites da sombra estejam longe,
para que seja a paz feita possível
longe das rosas flácidas de estanho,
que essas não têm raízes, e repousa
nas raízes a força do que vive,
ou se têm, ai, são brancas, ai, são tênues,
visto serem construídas de fumaça.
- Seremos vegetais em verde e rubro
nas calendas de junho que vem vindo.
que nos idos, em grupo, tornaríamos
às fáculas antigas, quando estavam
quanto mais velhas tanto mais acesas,
assim fomos e vimos. Era o tempo
doutra luz, essa que se tem mais forte,
presa na carne e no osso e resguardada
pelas fronteiras rígidas da sombra.
Nas citadas planícies nos perdemos
e era mais que do tato um só caminho
para este externo mundo que nos guarda.
Por elas compreendemos do sentido.
E soubemos que apenas tênues rosas
têm fundações mais fortes do que pedra,
que mais que pedras vale, compreendemos,
a força enclausurada nas raízes
Então fomos ficados neste campo
de teto e espaço e fumo que nos cobre,
porquanto que o soubemos mais seguro
e que os mundos alheios valem menos
visto que em muito grandes são fundados
em brancos alicerces de fumaça.
Considerado o mar, nós nos despimos
do marítimo traje com que estavam
corpos ao sol e à chuva resguardados.
Se era o mar fabricado em movimento
que lhe dá toda a essência e qualidade,
para restarmos todos sobre o verde
e o vermelho do chão que nos ampara.
Que a nossa inconsistência será sempre
o mais caro de nós, ficamos crendo.
Repousa um tédio imenso na certeza.
E então faz-se de bem que a não tenhamos
senão essa de pouca com que temos
que o vermelho do piso, mais o verde,
nos serão toda a paz ambicionada
Que as fáculas não faltem, de resina,
e os limites da sombra estejam longe,
para que seja a paz feita possível
longe das rosas flácidas de estanho,
que essas não têm raízes, e repousa
nas raízes a força do que vive,
ou se têm, ai, são brancas, ai, são tênues,
visto serem construídas de fumaça.
- Seremos vegetais em verde e rubro
nas calendas de junho que vem vindo.
574
Edmir Domingues
Outubro vegetal
Por fim, descido às águias repousadas
nas planícies de vidro, redescubro,
após vermelhos dias, quando outubro,
os dias verde-claros das calçadas.
Para voltar à luz tornada em rubro
e esquecer-me das rosas desfolhadas
nascidas sobre as mesas enceradas,
imprecisas demais à luz de outubro.
Profundamente paz me faço em planos
olhos mais vegetais que mesmo humanos
feitos hoje por folha em vez de saia.
Se ao vermelho por fim sucede o verde
e antigo afã de mar se turva e perde
nos gestos de alamanda e samambaia
nas planícies de vidro, redescubro,
após vermelhos dias, quando outubro,
os dias verde-claros das calçadas.
Para voltar à luz tornada em rubro
e esquecer-me das rosas desfolhadas
nascidas sobre as mesas enceradas,
imprecisas demais à luz de outubro.
Profundamente paz me faço em planos
olhos mais vegetais que mesmo humanos
feitos hoje por folha em vez de saia.
Se ao vermelho por fim sucede o verde
e antigo afã de mar se turva e perde
nos gestos de alamanda e samambaia
769
António Ramos Rosa
Num Poço de Folhas
Espero escrever neste poço de folhas com as mãos entre as árvores,
tudo vem devagar em labirintos negros
ou em sequências de uma confusa caligrafia branca.
Amo este esconderijo suave e as paisagens fatigadas.
Eis que o texto principia com lábios, dentes, língua
e o rumor das vespas no seu sono esguio.
O que oscila na obscuridade é o meu árido alimento.
As minhas frases têm o aroma da água
e o calor de uma chama silenciosa.
Dentro da face incerta apreendo as pétalas solares
e entre sombras claras sou o chão amarelo, sou o vinho e a pedra,
sou a língua da árvore.
tudo vem devagar em labirintos negros
ou em sequências de uma confusa caligrafia branca.
Amo este esconderijo suave e as paisagens fatigadas.
Eis que o texto principia com lábios, dentes, língua
e o rumor das vespas no seu sono esguio.
O que oscila na obscuridade é o meu árido alimento.
As minhas frases têm o aroma da água
e o calor de uma chama silenciosa.
Dentro da face incerta apreendo as pétalas solares
e entre sombras claras sou o chão amarelo, sou o vinho e a pedra,
sou a língua da árvore.
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