Poemas neste tema

Arte

Gonçalves Crespo

Gonçalves Crespo

Nera

I

Uma larga piscina, obra de um grego artista,
Atrai da alcova em meio a fascinada vista.

II

De trabalhado bronze um Pã malicioso
Finge na tênue flauta um canto harmonioso.

III

Uma estátua do Amor, de Paros cor-de-rosa,
Entre verdes festões assoma graciosa.

IV

Em jarras do Corinto esmaiam belas flores,
Espalham-se no ar suavíssimos olores.

V

O teto é de mosaico e ornado de figuras;
Riem pela parede eróticas pinturas.

VI

Sobre mesas de jaspe, orladas de embutidos,
Repousam jóias de ouro, esplêndidos vestidos.

VII

Nas púrpuras do leito ebúrneo uma criança
Dormita; a luz do sol lhe beija a loira trança.

VIII

Formosa! vista assim, no leito adormecida,
É náiade gentil em relva umedecida.

IX

Murmuram do clépsidro as águas. Entretanto
Nera seu corpo estira em flácido quebranto.

X

Abre — felino jeito! — os lábios cor-de-rosa,
Como em busca de um beijo, a dama voluptuosa.

XI

Sonha! julga sentir no rosto de açucena
Os beijos de Batilo, o gladiador da arena.

XII

Súbito, em toda a Roma a plebe dissoluta
"Ao Circo!" ruge e grita; a dama acorda e escuta.

XIII

Ergue o corpo de neve a linda Galatéia,
"Ao Circo!" e em seu olhar sorri ignota idéia.

1870


Publicado no livro Miniaturas (1871).

In: CRESPO, Gonçalves. Obras completas. Pref. Afrânio Peixoto. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 194
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Manuel Gusmão

Manuel Gusmão

g: Livre é o dom

Livre é o dom nas mãos do mundo: a alegria.

Nunca saberás dizer como se move sobre as águas a verdade
- a verdade que dança no teu corpo - e no seu teatro
sopra as almas como o vento as telas.

Mas para que uma última vez possas dançar
podemos, sim, pôr aqui o fogo
e a árvore da música: a vibração da sua haste

comunica-se; E o mundo estremece: a vibração
do mundo; quando não estamos a olhar.
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Alberto da Costa e Silva

Alberto da Costa e Silva

Soneto [Cerâmica e tear: as mãos trabalham

Cerâmica e tear: as mãos trabalham
e constroem o amor num fim de tarde,
como jarro de rústico gargalo
ou fino pano arcaico. Sobre o barro

põem desenhos mais jovens de suaves
moças dançando e restos de paisagens
da infância e da montanha: perfis núbios
sobre o vermelho poente desse jarro.

E a substância mais tímida do sonho,
nas mãos do artesão, faz de seu pranto
e cismas, riso e ardor, tecido raro

em que se borda uma novilha, bela
como o beijo em setembro, em que se fez
o amor com outro fio e um outro barro.


Publicado no livro O tecelão (1962).

In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. p.4
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Capinan

Capinan

Ponteio, 1967

Era um, era dois, era cem
era o mundo chegando e ninguém
que soubesse que eu sou violeiro
que me desse amor ou dinheiro
era um, era dois, era cem
e vieram pra me perguntar
ô você de onde vai, de onde vem
diga logo o que tem pra contar
parado no meio do mundo
pensei chegar meu momento
olhei pro mundo e nem via
nem sombra, nem sol, nem vento
quem me dera agora
eu tivesse a viola pra cantar, ponteio

(refrão)

Era um dia, era claro, quase meio
era um canto calado, sem ponteio
violência, viola, violeiro
era noite em redor, mundo inteiro
era um que jurou me quebrar
mas não me lembro de dor ou receio
só sabia das ondas do mar
jogaram a viola no mundo
mas fui lá no fundo buscar
se tomo a viola eu ponteio
meu canto não posso parar, não

(refrão)

Era um, era dois, era cem
era um dia, era claro, quase meio
encerrar meu canto já convém
prometendo um novo ponteio
certo dia que sei por inteiro
eu espero não vai demorar
este dia estou certo que vem
digo logo que vim pra buscar
correndo no meio do mundo
não deixo a viola de lado
vou ver o tempo mudado
e um novo lugar pra cantar

(refrão)


In: AGUIAR, Joaquim Alves de. Panorama da música popular brasileira. In: BRASIL: o trânsito da memória. Organização de Jorge Schwartz e Saúl Sosnowski. São Paulo: Edusp, 1994. p. 170-171

NOTA: Parceria com Edu Lob
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António Manuel Couto Viana

António Manuel Couto Viana

Segredo

Fiz uma estátua de neve
(Mas há sol no meu pais!)
A mentira que se escreve
É a verdade com que a fiz.

Pus-lhe uma flor entre os dedos,
Para ver se os aquecia
— Não sei revelar segredos
Sem que floresças, poesia!

Para seres casto, sê breve
— Aonde a estátua de neve?

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Edimilson de Almeida Pereira

Edimilson de Almeida Pereira

3 [o trompetista engole

o trompetista engole
a contraluz

no cubículo o som
evola como um

papiro

é Dixie a canção
que sabemos

o trompetista ausente
faz suar nossas axilas


In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Ô Lapassi & Outros ritmos de ouvido. Belo Horizonte: Ed. da UFMG, 1990. p.15. (Coleção Prêmio de Literatura UFMG
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Paulo Leminski

Paulo Leminski

parem

parem
eu confesso
sou poeta

cada manhã que nasce
me nasce
uma rosa na face

parem
eu confesso
sou poeta

só meu amor é meu deus

eu sou o seu profeta

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Luís Delfino

Luís Delfino

Sanguínea

A Alberto de Oliveira

Longe... vasto horizonte retalhado
De serras cor de um glauco-azul, distante;
Brumas por cima, como véus flutuantes;
Perto... o fragor das músicas do prado.

O acre, o intenso bálsamo exalado
Da mata, onde andam Faunos, como dantes;
Rochedos ideais, e as espumantes
Águas do rio as cristas pendurado.

Um cheiro bom das coisas, que embriaga;
A luz que sobe, sobe, embebe, alaga
O azul enorme; a gárrula manhã,

Correndo a oiro e pérolas as nuvens...
— Ora!... Deus plagiando um quadro a Rubens?!...
Quando isto vir, o que dirá Rembrandt?!


Publicado no livro Algas e musgos (1927*). Poema integrante da série Gravuras.

In: DELFINO, Luiz. Poemas escolhidos. Sel. e introd. Nereu Corrêa. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 1982. p.51
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Pedro Nava

Pedro Nava

Palíndromo do Amigo

"Amor a Roma"
Afonso Arinos de Melo Franco


Amora, roma:
Amor a Roma.
Amor, aroma:
Amor a Roma.

1964


In: BANDEIRA, Manuel. Antologia de poetas brasileiros bissextos contemporâneos. 2.ed. rev. e aum. Rio de Janeiro: Org. Simões, 1964. p.18
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José de Paula Ramos Jr.

José de Paula Ramos Jr.

A um Poeta

para Frederico Barbosa
Agudo pensamento, coração preclaro,
o poeta
cata um grão esconso
no labirinto nada.
O poeta
a palavra vela
e o signo rala
na linha vasa:
muda geometria.
Eis, súbito, um projétil,
que não falha,
a língua tesa prepara.
O poeta,
zarabatana calada,
no silêncio do rigor,
raro artefato dispara.

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Luís Delfino

Luís Delfino

Primeira Missa no Brasil

A Victor Meirelles


Céu transparente, azul, profundo, luminoso;
Montanhas longe, em cima, à esquerda, empoeiradas
De luz úmida e branca; o oceano majestoso
À direita, em miniatura; as vagas aniladas

Coalham naus de Cabral; mexem-se inda ancoradas;
A praia encurva o colo ardente e gracioso;
Fulge a concha na areia a cintilar; grupadas
As piteiras em flor dão ao quadro um repouso.

Serpeja a liana a rir; a mata se condensa,
Cai no meio da tela: um povo estranho a eriça;
Sobre o altar tosco pau ergue-se em cruz imensa.

Da armada a gente ajoelha; a luz golfa maciça
Sobre a clareira; e um frade, ao ar, que a selva incensa,
Nas terras do Brasil reza a primeira missa.


In: DELFINO, Luiz. Algas e musgos. Rio de Janeiro: Livr. Papelaria, Lytho-Typographia Pimenta de Melo, s.d. Poema integrante da série Gravuras
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Manoel de Barros

Manoel de Barros

7 A Nossa Garça

Penso que têm nostalgia de mar estas garças pantaneiras. São
viúvas de Xaraiés? Alguma coisa em azul e profundidade lhes foi
arrancada. Há uma sombra de dor em seus vôos. Assim, quando vão de
regresso aos seus ninhos, enchem de entardecer os campos e os homens.
Sobre a dor dessa ave há uma outra versão, que eu sei. É a de
não ser ela uma ave canora. Pois que só grasna — como quem rasga uma
palavra.
De cantos portanto não é que se faz a beleza desses pássaros.
Mas de cores e movimentos. Lembram Modigliani. Produzem no céu
iluminuras. E propõem esculturas no ar.
A Elegância e o Branco devem muito às garças.
Chegam de onde a beleza nasceu?
Nos seus olhos nublados eu vejo a flora dos corixos. Insetos
de camalotes florejam de suas rêmiges. E andam pregadas em suas
carnes larvas de sapos.
Aqui seu vôo adquire raízes de brejo. Sua arte de ver caracóis
nos escuros da lama é um dom de brancura.
À força de brancuras a garça se escora em versos com lodo?
(Acho que estou querendo ver coisas demais nestas garças.
Insinuando contrastes (ou conciliações?) entre o puro e o impuro,
etc etc. Não estarei impregnando de peste humana esses passarinhos?
Que Deus os livre!)


Publicado no livro Livro de Pré-Coisas: Roteiro para uma Excursão Poética no Pantanal (1985). Poema integrante da série Pequena História Natural.

In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
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Paula Taitelbaum

Paula Taitelbaum

Meu verso

Meu verso
Não tem estática
Técnica
Ou métrica
Ao contrário
Tem truques
Badulaques
E ataques
é um verso
Caduco
Eunuco
Fanático
Mas tem seu valor
Por ser democrático.

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Luís Filipe Castro Mendes

Luís Filipe Castro Mendes

Ainda a Poesia

A poesia não é feita por um nem por todos,
nem esteve nunca na rua.
A poesia está na aspereza das coisas contra nós,
tão mais nítidas ao nosso olhar isento
quanto mais doem no coração silencioso.
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Artur de Azevedo

Artur de Azevedo

Soneto

Recitado por Dias Braga no espetáculo
comemorativo do 50o. aniversário do
falecimento de Martins Pena.

De Martins Pena foi bem triste a sorte:
Moço, bem moço, quando o seu talento
Desabrochava n'um deslumbramento,
Caiu, ferido pela mão da morte!

Era, entretanto, um lutador, um forte,
E, como não merece o esquecimento,
Que a nossa festa, ao menos um momento,
O seu risonho espírito conforte.

Quem o amou e o leu em vão procura
O seu nome na placa de uma esquina
Ou sobre a pedra de uma sepultura!

Porém, voltando à brasileira cena,
Há de brilhar a estrela peregrina
Que se chamou Luiz Carlos Martins Pena!


In: AZEVEDO, Artur. Sonetos e peças líricas. Pref. Julio de Freitas J. Rio de Janeiro: Garnier, s.d
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Hardi Filho

Hardi Filho

Artista

No atelier da vida, solitário,
somente em comunhão com a fantasia,
eu fui o artista que criou miragens
para conforto de ânsias infinitas.

Eu fui, também, aquele que traçou
formas de vida pelo sentimento;
o gênio louco que ideou amores
para sustento, amparo da esperança.

Insano escafandrista dos mistérios,
fui tradutor das emoções do mundo
e desenhista da volúpia eterna.

De pé, trêmulas mãos, olhos insones,
fui satanás sedento de domínio,
fui deus criando e alimentando sonhos!

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Castro Alves

Castro Alves

Depois da Leitura de Um Poema

(Em sessão literária)

(IMPROMPTU)

Lá vem o pastor subindo aos Alpes
Lança aos abismos a canção tremente.
Responde embaixo - o precipício enorme!
Responde em cima - o firmamento ingente!

Poeta! a voz do pegureiro errante
Em ti vibrando... se alteou!... cresceu!
Tua alma é funda - como é fundo o pego!
Teu gênio é alto - como é alto o céu!

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Giuseppe Ungaretti

Giuseppe Ungaretti

PORTO SEPULTO

Aí chega o poeta
e depois volta à luz com seus cantos
e os dispersa.

Desta poesia
resta-me um
nada
de inexaurível segredo.

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Fernando Fabião

Fernando Fabião

Das Coisas que Ardem

Das coisas
que ardem
Falarei da rebentação da luz
Do vidro desfeito nas mãos
Da conspiração do vento
Na tua face

Falarei da inteligência das casas
Pensadas pelas mãos sonhadoras
Dos oficiantes da pedra
E da melancolia

Das coisas que ardem
Falarei do prodígio dos barcos
Rasgando o azul
Do reduto cintilante das aves

Do que arde e permanece
só os olhos sabem
O que no interior das cores
É cinza celeste.
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Fontoura Xavier

Fontoura Xavier

Orphée aux Enfers

Subia o pano acima. A musa da alegria
Iluminava o rosto à prazenteira claque,
E deuses e vestais da morta teogonia
Vinham dançar em cena aos cantos de Offenbach.

Ao despedir a orquestra as notas delirantes.
Borrados arlequins lascivos como Pã,
Nos braços — espirais dum grupo de bacantes
Saltavam, sem pudor, na febre do can-can.

Era a sátira viva, a sátira pungente,
Levado no delírio aos baixos entremeses.
Expondo ao riso alvar de geração doente
A crença dos fiéis dos fabulosos deuses.

Então esses heróis divinos das florestas.
Outrora adoração e crenças dos pagãos,
Tornavam-se truões que em delambidas festas
Viviam de espancar o tédio dos cristãos.

E as grandes ovações àqueles decaídos
Traziam-me à lembrança o bárbaro selvagem,
Que vinha sapatear na tumba dos vencidos
No campo onde travara o prélio da carruagem.

Podeis dormir em paz, ó legião sagrada!
Ó Júpiter, Plutão, titãs da fé pagã!...
E como tudo marcha às solidões do nada
Inda há de rir de nós o crente de amanhã.


In: XAVIER, Fontoura. Opalas. Apres. Regina Zilberman. 5.ed. Porto Alegre: Centro de Pesquisas Literárias - PUCRS, 1984. p.24-25. Poema integrante da série Musa Livre.

NOTA: Orphée aux enfers - Orfeu nos infernos, título da opereta do compositor Offenbac
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Angela Carneiro

Angela Carneiro

Sem Tempo

Me falta tempo
para ler todos os livros que quero
Me falta tempo para passeios e praias
e as locadoras com seus filmes
Felinis que não vi
e os museus que me esperam
me falta tempo.

Me falta tempo para amar os flertes
e aprofundar as amizades de coquetéis
me falta tempo para arrumar o armário
jogar coisas fora
passar a limpo a caderneta de telefone
redecorar o quarto
Me falta tempo para o orfanato
e ajudar o meu vizinho a pendurar o quadro na parede.

Me falta tempo para aprender japonês
pintar em tecido
tocar piano
tecer meus planos
Me falta tempo para as aquarelas que sonho
preciso anotar meus sonhos
Mas
me falta tempo.

Tempo para os amigos antigos que já me esqueceram
tempo para as músicas e cds
tempo para o estrangeiro, ilhas e cantões a conhecer
Me falta tempo para os poemas que a poesia me exige
e gravar os programas de TV
no entanto,
quantas vezes não tenho nada, absolutamente nada
para fazer.

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Donizete Galvão

Donizete Galvão

Falésias e falácias

De tempos em tempos, nos deparamos com ensaios, artigos ou entrevistas com opiniões de poetas, romancistas ou críticos falando da falésia Joyce, do abismo Mallarmé ou do enigma Valéry. Já virou lugar comum dizer que não há romance possível depois de Joyce ou que Mallarmé levou a poesia a um reino de refinamento que não pode ser alcançado. Um desses colunistas que pululam na imprensa chegou a determinar de forma ditatorial que o romance acabou em Joyce, o teatro em Racine e a pintura em Velázquez. Qualquer tentativa de levar adiante qualquer uma dessas artes resultará, para esses adoradores de ídolos, em fracasso. O romance acabou. Não existe mais pintura. E a poesia está em extinção.
O engraçado é que os mesmos que colocam esses autores no panteão de super-homens continuam escrevendo. Portanto, não fazem exercício de modéstia diante da grandeza desses autores. Na minha infância havia um caderno muito comum, usado pelas crianças pobres, que trazia na capa um moleque carregando uma enorme bandeira onde se lia Avante! A impressão é de que essas pessoas carregam essa bandeira levando sempre na vanguarda as conquistas dos artistas acima citados. Estamos no final do século e ainda insistem que sejam seguidos os evangelhos de Pound ou Mallarmé.
Uma passada rápida pela literatura do século XX mostra que muitos autores não se sentiram intimidados ou obrigados a seguir uma linha programática em suas obras. Yeats, T. S. Eliot, Wallace Stevens, Elizabeth Bishop, Marianne Moore, Seféris, Rilke, Paul Celan, Jorge Luis Borges, Octavio Paz, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Murilo Mendes não teriam criado suas obras fundamentais se acreditassem nesse falso impasse. E nomes como Herrmann Broch, Elias Canetti, Lawrence Durrell, Guimarães Rosa ou Julio Cortázar jamais teriam escrito seus romances se julgassem que nada mais havia para ser criado depois de Ullisses ou Finnegans Wake. Mesmo autores influenciados por Joyce, como Anthony Burgess, não se recusaram a criar, esbirrados pela grandiosidade do irlandês.
Dante Milano num curto e brilhante ensaio chamado Mallarmé e sua influência chama muito bem a atenção para o problema daqueles que querem superar o poeta. Aponta a excessiva idealização da arte como um produto divino, artificial, um bibelô estético. Presos a essa corrente que faz do poema um artefato e do poeta uma máquina de fazer poemas, muitos giram em falso em sua esterilidade. Muitos tentam imitar sua técnica, sem conseguir chegar à sua poética.
Os angustiados pela sua influência buscam sem sucesso atingir seu refinamento. Tiram da poesia tudo que há de humano, de vivacidade, de espírito e, digamos a temida palavra, de pensamento. Tontos pelo slogan de que poesia "não se faz com idéias, mas com palavras," jogam-nas aos quatro cantos da página, imaginando que esse lance de dados vá inaugurar a poesia. Pensar pode ser, sim, um ato poético. Dão prova disso a poesia de Leopardi, W. H. Auden e a do próprio Milano. Jovens poetas bem intencionados tentam seguir os mesmos slogans de make it new, ostinato rigore, miglior fabbro, sem saber que eles passam pelo conhecimento e diálogo com a tradição.
Parte desse emaranhado conceitual resulta numa poesia sem tutano, diluída e livresca. Perde-se, assim, sua ligação com a língua e a identificação com os leitores que não são especialistas. Tentando cortar gorduras, cortam a carne e os ossos do poema. Embora produzam faíscas de beleza, não conseguem ir além do flash, do insight, da charada sutil. Nesses casos, a brevidade deixa de ser concisão como bem observou Waly Salomão no poema em que fala de João Cabral de Melo Neto. De citação em citação, de colagem em colagem, de slogans e trocadilhos surge uma poesia desprovida de qualquer voz própria ou cor, que pode ser chamada conversação entre homens inteligentes e elegantes.
Nós, poetas, herdeiros de uma geração fortíssima estamos com medo do grande salto. Insistimos muitas vezes no apuro técnico, na brevidade, por receio de parecermos líricos, indulgentes, rídiculos. Muito da poesia dos poetas de 30 a 40 anos peca pelo excesso de delicadeza, pela busca exagerada de um tom poético, pela intricada rede de desleituras. Como bem observou Cioran o excesso de poesia também faz mal à poesia. Essa contenção, embora produza poemas de qualidade média, tolhe vôos maiores.
Além disso, parte dos recursos que eram considerados radicais estão completamente banalizados. A fragmentação, as colagens, as elipses tornaram-se lugar comum da publicidade e da dita estética MTV. Poetas que insistem em usar o Corel Draw ou o Page Maker fazem produções muito inferiores em termos de qualidade técnica a qualquer videoclip.
Hoje, o que choca não é a pintora performática que pinta seus quadros com o sangue de sua menstruação ou o artista que corta a língua como ato estético. Causaria mais espanto um jovem que aparecesse desenhando como Picasso ou, no caso do Brasil, tivesse o traço de um Flávio de Carvalho ou Marcelo Grassmann. Deve ser por isso que as pinturas de um Francis Bacon ou de um Lucien Freund ganham uma nova dimensão. Depois de tanta obra conceitual e interativa nada como um quadro bem pintado por quem tem uma visão densa das coisas para nos mostrar que até mesmo auto-retratos não estão fora de moda. Ressalte-se aqui que a arte abstrata atinge sim uma região do sublime. Kandinsky, Paul Klee, Yves Klein e, mais recentemente, Anish Kapoor provocam-nos um mergulho na origem sagrada, há um fio espiritual conduzindo suas obras. Espiritual, reafirmo, não exlusivamente mental ou conceitual. Deve ser por isso que Jackson Pollock só teve imitadores, nunca seguidores que atingissem o seu grau de intensidade.
Vivemos um período em que nos enriquecemos por traduções de nomes importantes. Descobrimos a poesia de outros países. Foi uma abertura de fronteiras. Somos gratos aos tradutores como os irmãos Campos, José Paulo Paes, Ivan Junqueira, Ivo Barroso, Aíla da Silva Gomes, Paulo Vizioli, Dora Ferreira da Silva e tantos outros que nos permitiram o acesso às obras de poetas importantes. Como diz um ditado mineiro, quem nunca comeu melado quando come se lambuza. Bem, nos lambuzamos e nos deliciamos com tantos ares novos. Certamente, o saldo será altamente benéfico para a poesia. A língua portuguesa ganhou muito com essas traduções.
Houve, entretanto, um efeito colateral. Deixamos de lado nomes importantes da poesia brasileira. Esquecemo-nos muito rapidamente deles. E passamos a ter necessidade de dialogar com a poesia norte-americana contemporânea. Estarão esses interessados em dialogar com a poesia brasileira? O que observamos é que mesmo os poetas mais experimentais dos EUA sempre mantiveram um diálogo com sua tradição de Whitmam a Emily Dickinson. Prova disso são os estudos cada vez mais amplos sobre esses poetas. Suas obras hoje são canônicas e ninguém se sente antiquado por lê-las.
No Brasil, até há pouco tempo caçávamos obras de Murilo Mendes nos sebos. Graças ao belo trabalho de Isabel Lacerda, na Nova Aguilar, temos as obras completas dele publicadas. Ele está sendo descoberto com encantamento por um público jovem. Pecisamos, portanto, fazer circular novamente a obra de poetas importantes que foram um tanto sombreados pelos mais famosos. Peço licença para puxar a sardinha para poetas de minha predileção como Emílio Moura, Dante Milano, Mario Faustino e Cassiano Ricardo. Mesmo uma poeta celebrada como Cecília Meireles não é muito estudada em nossas universidades. Precisamos dar valor aos nossos criadores. Sem medo de parecermos provincianos. Caipira é quem está deslumbrado com a globalização e faz questão de ecoar com alarde a última novidade de Manhattan.
Nem todo mundo, entretanto, foi iludido por essas falácias e ficou com medo de cair nas falésias. Entre os poetas do meu conhecimento cito Floriano Martins, Paulo Henriques Britto, Alexei Bueno, Ruy Espinheira Filho, Fábio Weintraub, Paulo Octa
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Stella Leonardos

Stella Leonardos

O Poeta e seus Livros

LÁ VAI Quintana passando,
cantando seus quintanares,
sempre de poemas chegando,
de poesia novos ares.

Na "Rua dos Cataventos"
dá vento numa quintilha.
Ai "Canções", barcos e ventos!
Viram quadra em redondilha.

Num quintal de flor do mato
passa, poeta distraído.
Sem reparar que o sapato
se faz "Sapato florido".

— Quinta há circo. — Que é que eu faço?
(O poeta no picadeiro)
Tristelírico palhaço?
— "Aprendiz de feiticeiro".

Traz azuis, verdes, vermelhos,
tons de alegre, triste, trágico.
— Caleidoscópios e espelhos?
— Poesia de "Espelho mágico".


Poema integrante da série Reamanhecer.

In: LEONARDOS, Stella. Amanhecência. Introd. Gilberto Mendonça Teles. Rio de Janeiro: J. Aguilar; Brasília: INL, 1974. (Biblioteca manancial, 9)
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Haroldo de Campos

Haroldo de Campos

Rochester: High Falls - Genesee River

um festival de laser
fluorescendo
contra as rochas

no fundo
— jorro alvíssimo —
o véu da catarata
ora azul ora
rosa
cambiando ao
arbítrio da luz

riscos verdeazúis
cortam o céu noturno
como finos floretes
diglandiando-
se

gatos e ursos e novamente
gatos
— míticos bonecos de walt disney —
dançam
no telão das rochas
ao ritmo do
rock


In: CAMPOS, Haroldo de. Crisantempo: no espaço curvo nasce um. São Paulo: Perspectiva, 1998. p. 303. (Signos, 24).
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