Poemas neste tema
Arte
Sophia de Mello Breyner Andresen
Dedicatória da Terceira Edição do «Coral» Ao Ruy Cinatti
Para o Ruy Cinatti porque neste livro
De folha em folha passam gestos seus
Assim como de folha em folha em arvoredo
A brisa perde ao sussurrar seus dedos
De folha em folha passam gestos seus
Assim como de folha em folha em arvoredo
A brisa perde ao sussurrar seus dedos
1 910
Sophia de Mello Breyner Andresen
I. (Friso Arcaico)
«Eu vos saúdo, ó filhas dos corcéis de pés de tempestade.»
Simónides de Keos
Patas dos corcéis da tempestade
Tão concisas tão duras e tão finas
Puro rigor de espigas — arquitrave
Medida amor e fúria se combinam
Delphos, Maio de 1970
Simónides de Keos
Patas dos corcéis da tempestade
Tão concisas tão duras e tão finas
Puro rigor de espigas — arquitrave
Medida amor e fúria se combinam
Delphos, Maio de 1970
1 955
Sophia de Mello Breyner Andresen
Para Arpad Szenes
Assim a luz ao madrugar liberta
E una se multiplica
Para inventar o espanto o alvoroço a festa
Do reino revelado
Oásis e palmar — distância justa
Atenta invenção do que foi dado
O pintor pinta no tempo respirado
Reconhece o mundo como um rosto amado
Pinta as longas extensões as longas lisas linhas
O caminhar comprido da terra e suas crinas
Pinta o quadro dentro do qual o quadro
Se tece malha a malha como em tear a teia
O outro quadro do quadro convocador convocado
Pinta o bicho egípcio os dedos da palmeira
Assim a luz ao madrugar liberta
A ternura funda nossa aliança com as coisas
Eis o mito solar a fina mão do trigo o bicho grego
O amor que move o sol e os outros astros
— Como o Dante Alighieri disse
Move e situa o quarto o dia o quadro
E una se multiplica
Para inventar o espanto o alvoroço a festa
Do reino revelado
Oásis e palmar — distância justa
Atenta invenção do que foi dado
O pintor pinta no tempo respirado
Reconhece o mundo como um rosto amado
Pinta as longas extensões as longas lisas linhas
O caminhar comprido da terra e suas crinas
Pinta o quadro dentro do qual o quadro
Se tece malha a malha como em tear a teia
O outro quadro do quadro convocador convocado
Pinta o bicho egípcio os dedos da palmeira
Assim a luz ao madrugar liberta
A ternura funda nossa aliança com as coisas
Eis o mito solar a fina mão do trigo o bicho grego
O amor que move o sol e os outros astros
— Como o Dante Alighieri disse
Move e situa o quarto o dia o quadro
1 297
Bernardo Guimarães
A Origem do Mênstruo
De uma fábula inédita de Ovídio, achada nas escavações de
Pompéia e vertida em latim vulgar por Simão de Nuntua.
Stava Vênus gentil junto da fonte
fazendo o seu pentelho,
com todo o jeito, pra que não ferisse
das cricas o aparelho.
(...)
Nesse entretanto, a ninfa Galatéia,
acaso ali passava,
e vendo a deusa assim tão agachada,
julgou que ela cagava...
Essa ninfeta travessa e petulante
era de gênio mau,
e por pregar um susto à mãe do Amor,
atira-lhe um calhau...
Vênus se assusta. A branca mão mimosa
se agita alvoroçada,
e no cono lhe prega (oh! caso horrendo!)
tremenda navalhada.
Da nacarada cona, em sutil fio,
corre pupúrea veia,
e nobre sangue do divino cono
as águas purpureia...
(...)
A travessa menina mal pensava
que, com tal brincadeira,
ia ferir a mais mimosa parte
da deusa regateira...
— "Estou perdida!" — trêmula murmura
a pobre Galatéia,
vendo o sangue correr do róseo cono
da poderosa déia...
(...)
Coube a Apolo lavar dos roxos lírios
o sangue que escorria,
e de tesão terrível assaltado,
conter-se mal podia!
Mas, enquanto se faz o curativo,
em seus divinos braços,
Jove sustém a filha, acalentando-a
com beijos e com abraços.
Depois, subindo ao trono luminoso,
com carrancudo aspeto,
e erguendo a voz troante, fundamenta
e lavra este DECRETO:
— "Suspende, ó filha, os lamentos justos
por tão atroz delito,
que no tremendo Livro do Destino
de há muito estava escrito.
Desse ultraje feroz será vingado
o teu divino cono,
e as imprecações que fulminaste
agora sanciono.
Mas, inda é pouco: — a todas as mulheres
estenda-se o castigo
para expiar o crime que esta infame
ousou para contigo...
Para punir tão bárbaro atentado,
toda humana crica,
de hoje em diante, lá de tempo em tempo,
escorra sangue em bica...
E por memória eterna chore sempre
o cono da mulher,
com lágrimas de sangue, o caso infando,
enquanto mundo houver..."
Amém! Amém! com voz atroadora
os deuses todos urram!
E os ecos das olímpicas abóbadas,
Amém! Amém! sussurram...
In: GUIMARÃES, Bernardo. Elixir do Pajé. A Origem do Mênstruo. A Orgia dos Duendes. Introd. Romério Rômulo. Il. Fausto Prats. Sabará: Ed. Dubolso, 1988
Pompéia e vertida em latim vulgar por Simão de Nuntua.
Stava Vênus gentil junto da fonte
fazendo o seu pentelho,
com todo o jeito, pra que não ferisse
das cricas o aparelho.
(...)
Nesse entretanto, a ninfa Galatéia,
acaso ali passava,
e vendo a deusa assim tão agachada,
julgou que ela cagava...
Essa ninfeta travessa e petulante
era de gênio mau,
e por pregar um susto à mãe do Amor,
atira-lhe um calhau...
Vênus se assusta. A branca mão mimosa
se agita alvoroçada,
e no cono lhe prega (oh! caso horrendo!)
tremenda navalhada.
Da nacarada cona, em sutil fio,
corre pupúrea veia,
e nobre sangue do divino cono
as águas purpureia...
(...)
A travessa menina mal pensava
que, com tal brincadeira,
ia ferir a mais mimosa parte
da deusa regateira...
— "Estou perdida!" — trêmula murmura
a pobre Galatéia,
vendo o sangue correr do róseo cono
da poderosa déia...
(...)
Coube a Apolo lavar dos roxos lírios
o sangue que escorria,
e de tesão terrível assaltado,
conter-se mal podia!
Mas, enquanto se faz o curativo,
em seus divinos braços,
Jove sustém a filha, acalentando-a
com beijos e com abraços.
Depois, subindo ao trono luminoso,
com carrancudo aspeto,
e erguendo a voz troante, fundamenta
e lavra este DECRETO:
— "Suspende, ó filha, os lamentos justos
por tão atroz delito,
que no tremendo Livro do Destino
de há muito estava escrito.
Desse ultraje feroz será vingado
o teu divino cono,
e as imprecações que fulminaste
agora sanciono.
Mas, inda é pouco: — a todas as mulheres
estenda-se o castigo
para expiar o crime que esta infame
ousou para contigo...
Para punir tão bárbaro atentado,
toda humana crica,
de hoje em diante, lá de tempo em tempo,
escorra sangue em bica...
E por memória eterna chore sempre
o cono da mulher,
com lágrimas de sangue, o caso infando,
enquanto mundo houver..."
Amém! Amém! com voz atroadora
os deuses todos urram!
E os ecos das olímpicas abóbadas,
Amém! Amém! sussurram...
In: GUIMARÃES, Bernardo. Elixir do Pajé. A Origem do Mênstruo. A Orgia dos Duendes. Introd. Romério Rômulo. Il. Fausto Prats. Sabará: Ed. Dubolso, 1988
2 382
Sophia de Mello Breyner Andresen
Na morte de Cecília Meireles
Seu canto permanece
Alinhando nas páginas dos livros
Verso por verso letra por letra
Canto de poeta
Canto Interior a tudo
Canto de Cecília
A profunda a secreta
Construtora de um dia
Amargo e ledo
Construtora de um espaço clássico
Num arquipélago nebuloso e medido
Cecília - cinza
As palavras no meio do mar permanecem enxutas.
Sophia de Mello Breyner Andresen | "Antologia", pág. 219 | Círculo de Poesia Moraes Editores, 3ª. edição, 1975
Alinhando nas páginas dos livros
Verso por verso letra por letra
Canto de poeta
Canto Interior a tudo
Canto de Cecília
A profunda a secreta
Construtora de um dia
Amargo e ledo
Construtora de um espaço clássico
Num arquipélago nebuloso e medido
Cecília - cinza
As palavras no meio do mar permanecem enxutas.
Sophia de Mello Breyner Andresen | "Antologia", pág. 219 | Círculo de Poesia Moraes Editores, 3ª. edição, 1975
2 053
Sophia de Mello Breyner Andresen
L’Âge D’Airain
(Rodin)
Devagar, devagar, em frente à luz,
Carregado de sombras e de peso,
Arrancando o seu corpo da raiz.
No extremo dos seus dedos nasce um voo
No vértice do vento e da manhã
Uma asa vai — perdida dos seus dedos.
Devagar, devagar, em frente à luz,
Carregado de sombras e de peso,
Arrancando o seu corpo da raiz.
No extremo dos seus dedos nasce um voo
No vértice do vento e da manhã
Uma asa vai — perdida dos seus dedos.
1 864
Homero Prates
O Diamante
Ó divinos Heróis! que uma eterna auriflama
Atrai para o esplendor da noite merencória!
Este é o Inferno de luz que a vossa febre aclama
Em gritos de loucura e em gritos de vitória.
Nele, como num mar de luz fiava e ilusória,
Encheis a Taça de ouro... E o vosso olhar se inflama!
Bebei! que é o vosso sangue e esta é a divina chama
Da ara branca e imortal da Beleza e da Glória.
Ó agonia sublime! Ó jardim dos tormentos
Divinos! onde, ó Luz, nos meus olhos deliras,
Como uma águia ferida entre dois firmamentos!
Olha-os! Morrem cantando, ó Beleza, que passas!
E os Heróis, para os céus soerguendo as grandes liras,
Tombam num resplendor de flamas e de taças.
Atrai para o esplendor da noite merencória!
Este é o Inferno de luz que a vossa febre aclama
Em gritos de loucura e em gritos de vitória.
Nele, como num mar de luz fiava e ilusória,
Encheis a Taça de ouro... E o vosso olhar se inflama!
Bebei! que é o vosso sangue e esta é a divina chama
Da ara branca e imortal da Beleza e da Glória.
Ó agonia sublime! Ó jardim dos tormentos
Divinos! onde, ó Luz, nos meus olhos deliras,
Como uma águia ferida entre dois firmamentos!
Olha-os! Morrem cantando, ó Beleza, que passas!
E os Heróis, para os céus soerguendo as grandes liras,
Tombam num resplendor de flamas e de taças.
1 113
Pedro Paulo de Sena Madureira
Affonso Romano de Sant’ana
Entre escolhos e rombos
sem temer os tombos
narras a exata fúria de teus versos.
Professas um carvão implacável
que me queima e não hesita, aceso,
ante a cinza provável
que o anula.
No fundo e fim de teus poemas
devassas o tempo, seus casulos e traves.
Rezas, e não sabes.
sem temer os tombos
narras a exata fúria de teus versos.
Professas um carvão implacável
que me queima e não hesita, aceso,
ante a cinza provável
que o anula.
No fundo e fim de teus poemas
devassas o tempo, seus casulos e traves.
Rezas, e não sabes.
757
J. B. Sayeg
Olhos de Um Melro
Os olhos mecânicos do melro
eram as únicas coisas que se moviam
na sala. O quadro de Paul Klee desenhava
movimentos de um anjo,
eram movimentos eternos, insatisfatórios
porque não eram efêmeros resolúveis
numa fração de segundo. Os olhos porém
eram ágeis, falavam, escutavam, eram olhos
indagadores. Eu mesmo me imobilizei apavorado
perante aqueles movimentos rápidos e impacientes.
Sentei-me na cadeira de grande espaldar
defronte à escrivaninha. Dobrei a página,
deixando o marcador indicando-me a leitura
interrompida. Os olhos se detiveram,
por um instante. A seguir, desesperadamente
recomeçaram seus inteligentes movimentos.
(de Pantomimas e Animação, 1989)
eram as únicas coisas que se moviam
na sala. O quadro de Paul Klee desenhava
movimentos de um anjo,
eram movimentos eternos, insatisfatórios
porque não eram efêmeros resolúveis
numa fração de segundo. Os olhos porém
eram ágeis, falavam, escutavam, eram olhos
indagadores. Eu mesmo me imobilizei apavorado
perante aqueles movimentos rápidos e impacientes.
Sentei-me na cadeira de grande espaldar
defronte à escrivaninha. Dobrei a página,
deixando o marcador indicando-me a leitura
interrompida. Os olhos se detiveram,
por um instante. A seguir, desesperadamente
recomeçaram seus inteligentes movimentos.
(de Pantomimas e Animação, 1989)
874
Heitor C. Gonçalves
Menestréis
Quão enfadonho
Seria
Todo o trabalho
Da formiga
Não fosse
O canto
da cigarra
Seria
Todo o trabalho
Da formiga
Não fosse
O canto
da cigarra
860
J.Cardia
Bailarinos
Bailarinos
rodopiam
nus,
à brisa do lago
Nenúfares
rodopiam
nus,
à brisa do lago
Nenúfares
962
Jorge Luis Borges
Susana Soca
Com lento amor fitava os dispersos
Coloridos da tarde. E se perdia
Com gosto na complexa melodia
Ou na curiosa existência dos versos.
Não o elementar vermelho mas
Os grises Fiaram seu destino delicado,
Apto a discernir e exercitado
Tanto na oscilação como em matizes.
Sem atrever-se a pisar este perplexo
Labirinto, observava, sorrateira,
As formas, o tumulto e a carreira,
Como aquela outra dama do espelho.
Deuses que moram para além do rogo
A abandonaram a esse tigre, o Fogo.
"El hacedor", 1960
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 120 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
Coloridos da tarde. E se perdia
Com gosto na complexa melodia
Ou na curiosa existência dos versos.
Não o elementar vermelho mas
Os grises Fiaram seu destino delicado,
Apto a discernir e exercitado
Tanto na oscilação como em matizes.
Sem atrever-se a pisar este perplexo
Labirinto, observava, sorrateira,
As formas, o tumulto e a carreira,
Como aquela outra dama do espelho.
Deuses que moram para além do rogo
A abandonaram a esse tigre, o Fogo.
"El hacedor", 1960
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 120 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
975
João Bosco da Encarnação
O poema!
O poema!
O poema!
O que aconteceu
que ninguém leu,
nem mesmo eu?
O poema!
O que aconteceu
que ninguém leu,
nem mesmo eu?
958
Jorge Luis Borges
El otro tigre
Pienso en un tigre. La penumbra exalta
La vasta Biblioteca laboriosa
Y parece alejar los anaqueles;
Fuerte, inocente, ensangrentado y nuevo,
él irá por su selva y su mañana
Y marcará su rastro en la limosa
Margen de un río cuyo nombre ignora
(En su mundo no hay nombres ni pasado
Ni porvenir, sólo un instante cierto.)
Y salvará las bárbaras distancias
Y husmeará en el trenzado laberinto
De los olores el olor del alba
Y el olor deleitable del venado;
Entre las rayas del bambú descifro,
Sus rayas y presiento la osatura
Baja la piel espléndida que vibra.
En vano se interponen los convexos
Mares y los desiertos del planeta;
Desde esta casa de un remoto puerto
De América del Sur, te sigo y sueño,
Oh tigre de las márgenes del Ganges.
Cunde la tarde en mi alma y reflexiono
Que el tigre vocativo de mi verso
Es un tigre de símbolos y sombras,
Una serie de tropos literarios
Y de memorias de la enciclopedia
Y no el tigre fatal, la aciaga joya
Que, bajo el sol o la diversa luna,
Va cumpliendo en Sumatra o en Bengala
Su rutina de amor, de ocio y de muerte.
Al tigre de los simbolos he opuesto
El verdadero, el de caliente sangre,
El que diezma la tribu de los búfalos
Y hoy, 3 de agosto del 59,
Alarga en la pradera una pausada
Sombra, pero ya el hecho de nombrarlo
Y de conjeturar su circunstancia
Lo hace ficción del arte y no criatura
Viviente de las que andan por la tierra.
Un tercer tigre buscaremos. Éste
Será como los otros una forma
De mi sueño, un sistema de palabras
Humanas y no el tigre vertebrado
Que, más allá de las mitologías,
Pisa la tierra. Bien lo sé, pero algo
Me impone esta aventura indefinida,
Insensata y antigua, y persevero
En buscar por el tiempo de la tarde
El otro tigre, el que no está en el verso.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 128 e 129| Debolsillo, 3ª. edição, 2016
La vasta Biblioteca laboriosa
Y parece alejar los anaqueles;
Fuerte, inocente, ensangrentado y nuevo,
él irá por su selva y su mañana
Y marcará su rastro en la limosa
Margen de un río cuyo nombre ignora
(En su mundo no hay nombres ni pasado
Ni porvenir, sólo un instante cierto.)
Y salvará las bárbaras distancias
Y husmeará en el trenzado laberinto
De los olores el olor del alba
Y el olor deleitable del venado;
Entre las rayas del bambú descifro,
Sus rayas y presiento la osatura
Baja la piel espléndida que vibra.
En vano se interponen los convexos
Mares y los desiertos del planeta;
Desde esta casa de un remoto puerto
De América del Sur, te sigo y sueño,
Oh tigre de las márgenes del Ganges.
Cunde la tarde en mi alma y reflexiono
Que el tigre vocativo de mi verso
Es un tigre de símbolos y sombras,
Una serie de tropos literarios
Y de memorias de la enciclopedia
Y no el tigre fatal, la aciaga joya
Que, bajo el sol o la diversa luna,
Va cumpliendo en Sumatra o en Bengala
Su rutina de amor, de ocio y de muerte.
Al tigre de los simbolos he opuesto
El verdadero, el de caliente sangre,
El que diezma la tribu de los búfalos
Y hoy, 3 de agosto del 59,
Alarga en la pradera una pausada
Sombra, pero ya el hecho de nombrarlo
Y de conjeturar su circunstancia
Lo hace ficción del arte y no criatura
Viviente de las que andan por la tierra.
Un tercer tigre buscaremos. Éste
Será como los otros una forma
De mi sueño, un sistema de palabras
Humanas y no el tigre vertebrado
Que, más allá de las mitologías,
Pisa la tierra. Bien lo sé, pero algo
Me impone esta aventura indefinida,
Insensata y antigua, y persevero
En buscar por el tiempo de la tarde
El otro tigre, el que no está en el verso.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 128 e 129| Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 643
Edgar Allan Poe
The Coliseum
Lone ampitheatre ! Grey Coliseum !
Type of the antique Rome ! Rich reliquary
Of lofty contemplation left to Time
By buried centuries of pomp and power !
At length, at length — after so many days
Of weary pilgrimage, and burning thirst,
(Thirst for the springs of love [lore] that in thee lie,)
I kneel, an altered, and an humble man,
Amid thy shadows, and so drink within
My very soul thy grandeur, gloom, and glory.
Vastness ! and Age ! and Memories of Eld !
Silence and Desolation! and dim Night!
Gaunt vestibules! and phantom-peopled aisles !
I feel ye now: I feel ye in your strength!
O spells more sure then [than] e'er Judæan king
Taught in the gardens of Gethsemane !
O charms more potent than the rapt Chaldee
Ever drew down from out the quiet stars !
Here, where a hero fell, a column falls :
Here, where the mimic eagle glared in gold,
A midnight vigil holds the swarthy bat:
Here, where the dames of Rome their yellow hair
Wav'd to the wind, now wave the reed and thistle :
Here, where on ivory couch the Cæsar sate,
On bed of moss lies gloating the foul adder :
Here, where on golden throne the monarch loll'd,
Glides spectre-like unto his marble home,
Lit by the wan light of the horned moon,
The swift and silent lizard of the stones.
These crumbling walls; these tottering arcades ;
These mouldering plinths; these sad, and blacken'd shafts ;
These vague entablatures; this broken frieze ;
These shattered cornices; this wreck; this ruin ;
These stones, alas! — these grey stones — are they all ;
All of the great and the colossal left
By the corrosive hours to Fate and me ?
"Not all," — the echoes answer me; "not all :
Prophetic sounds, and loud, arise forever
From us, and from all ruin, unto the wise,
As in old days from Memnon to the sun.
We rule the hearts of mightiest men: — we rule
With a despotic sway all giant minds.
We are not desolate — we pallid stones ;
Not all our power is gone; not all our Fame ;
Not all the magic of our high renown ;
Not all the wonder that encircles us ;
Not all the mysteries that in us lie;
Not all the memories that hang upon,
And cling around about us now and ever,
And clothe us in a robe of more than glory."
1833
Type of the antique Rome ! Rich reliquary
Of lofty contemplation left to Time
By buried centuries of pomp and power !
At length, at length — after so many days
Of weary pilgrimage, and burning thirst,
(Thirst for the springs of love [lore] that in thee lie,)
I kneel, an altered, and an humble man,
Amid thy shadows, and so drink within
My very soul thy grandeur, gloom, and glory.
Vastness ! and Age ! and Memories of Eld !
Silence and Desolation! and dim Night!
Gaunt vestibules! and phantom-peopled aisles !
I feel ye now: I feel ye in your strength!
O spells more sure then [than] e'er Judæan king
Taught in the gardens of Gethsemane !
O charms more potent than the rapt Chaldee
Ever drew down from out the quiet stars !
Here, where a hero fell, a column falls :
Here, where the mimic eagle glared in gold,
A midnight vigil holds the swarthy bat:
Here, where the dames of Rome their yellow hair
Wav'd to the wind, now wave the reed and thistle :
Here, where on ivory couch the Cæsar sate,
On bed of moss lies gloating the foul adder :
Here, where on golden throne the monarch loll'd,
Glides spectre-like unto his marble home,
Lit by the wan light of the horned moon,
The swift and silent lizard of the stones.
These crumbling walls; these tottering arcades ;
These mouldering plinths; these sad, and blacken'd shafts ;
These vague entablatures; this broken frieze ;
These shattered cornices; this wreck; this ruin ;
These stones, alas! — these grey stones — are they all ;
All of the great and the colossal left
By the corrosive hours to Fate and me ?
"Not all," — the echoes answer me; "not all :
Prophetic sounds, and loud, arise forever
From us, and from all ruin, unto the wise,
As in old days from Memnon to the sun.
We rule the hearts of mightiest men: — we rule
With a despotic sway all giant minds.
We are not desolate — we pallid stones ;
Not all our power is gone; not all our Fame ;
Not all the magic of our high renown ;
Not all the wonder that encircles us ;
Not all the mysteries that in us lie;
Not all the memories that hang upon,
And cling around about us now and ever,
And clothe us in a robe of more than glory."
1833
1 525
Jorge Luis Borges
Un poeta del siglo XIII
Vuelve a mirar los arduos borradores
de aquel primer soneto innominado,
la página arbitraria en que ha mezclado
tercetos y cuartetos pecadores.
Lima con lenta pluma sus rigores
y se detiene. Acaso le ha llegado
del porvenir y de su horror sagrado
un rumor de remotos ruiseñores.
¿Habrá sentido que no estaba solo
y que el arcano, el increíble Apolo
le había revelado un arquetipo,
un ávido cristal que apresaría
cuanto la noche cierra o abre el día:
dédalo, laberinto, enigma, Edipo?
"EL otro, el mismo"
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 185 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
de aquel primer soneto innominado,
la página arbitraria en que ha mezclado
tercetos y cuartetos pecadores.
Lima con lenta pluma sus rigores
y se detiene. Acaso le ha llegado
del porvenir y de su horror sagrado
un rumor de remotos ruiseñores.
¿Habrá sentido que no estaba solo
y que el arcano, el increíble Apolo
le había revelado un arquetipo,
un ávido cristal que apresaría
cuanto la noche cierra o abre el día:
dédalo, laberinto, enigma, Edipo?
"EL otro, el mismo"
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 185 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 060
Edgar Allan Poe
Enigma
The noblest name in Allegory's page,
The hand that traced inexorable rage;
A pleasing moralist whose page refined,
Displays the deepest knowledge of the mind;
A tender poet of a foreign tongue,
(Indited in the language that he sung.)
A bard of brilliant but unlicensed page
At once the shame and glory of our age,
The prince of harmony and stirling sense,
The ancient dramatist of eminence,
The bard that paints imagination's powers,
And him whose song revives departed hours,
Once more an ancient tragic bard recall,
In boldness of design surpassing all.
These names when rightly read, a name [make] known
Which gathers all their glories in its own.
1833
The hand that traced inexorable rage;
A pleasing moralist whose page refined,
Displays the deepest knowledge of the mind;
A tender poet of a foreign tongue,
(Indited in the language that he sung.)
A bard of brilliant but unlicensed page
At once the shame and glory of our age,
The prince of harmony and stirling sense,
The ancient dramatist of eminence,
The bard that paints imagination's powers,
And him whose song revives departed hours,
Once more an ancient tragic bard recall,
In boldness of design surpassing all.
These names when rightly read, a name [make] known
Which gathers all their glories in its own.
1833
1 992
J.Cardia
Busco musgos
Busco musgos
nos bosques noturnos.
Olvidei o Carnaval. Não sei.
Louca fantasia
esta de poeta
no mero confete
da palavra.
Bailam serpentinas.
Desatino.
nos bosques noturnos.
Olvidei o Carnaval. Não sei.
Louca fantasia
esta de poeta
no mero confete
da palavra.
Bailam serpentinas.
Desatino.
857
José Eduardo Mendes Camargo
Coisas Minhas
As minhas palavras, por
vezes, quando amealhadas,
os amigos chamam de poesia.
As minhas emoções, quando
se refletem em expressão, alguns
dizem: é poeta ou é homem de paixão.
Mas, na realidade, é com palavras
e emoção que, de inspiração em
inspiração, faço da vida uma canção.
vezes, quando amealhadas,
os amigos chamam de poesia.
As minhas emoções, quando
se refletem em expressão, alguns
dizem: é poeta ou é homem de paixão.
Mas, na realidade, é com palavras
e emoção que, de inspiração em
inspiração, faço da vida uma canção.
642
João Dummar
Travessia
A poesia é generosa
e deve ser proclamada
sem medos
quebrando o silêncio
ecoando na solidão
deve ser vela enfunada
na embarcação da existência
nos conduzindo pelos mares
pelos riscos e perigos
na direção do porto
ponto distante
que a vista começa a desvendar.
e deve ser proclamada
sem medos
quebrando o silêncio
ecoando na solidão
deve ser vela enfunada
na embarcação da existência
nos conduzindo pelos mares
pelos riscos e perigos
na direção do porto
ponto distante
que a vista começa a desvendar.
1 031
J.Cardia
Comendo pedras
Comendo pedras
mascando ervas
danou-se cão.
Ladrou e mordeu.
Poetas
vivem assim ação.
mascando ervas
danou-se cão.
Ladrou e mordeu.
Poetas
vivem assim ação.
912
Edgar Allan Poe
The Conqueror Worm
Lo! 'tis a gala night
Within the lonesome latter years!
An angel throng, bewinged, bedight
In veils, and drowned in tears,
Sit in a theatre, to see
A play of hopes and fears,
While the orchestra breathes fitfully
The music of the spheres.
Mimes, in the form of God on high,
Mutter and mumble low,
And hither and thither fly --
Mere puppets they, who come and go
At bidding of vast formless things
That shift the scenery to and fro,
Flapping from out their Condor wings
Invisible Wo!
That motley drama! --oh, be sure
It shall not be forgot!
With its Phantom chased forever more,
By a crowd that seize it not,
Through a circle that ever returneth in
To the self-same spot,
And much of Madness and more of Sin
And Horror the soul of the plot.
But see, amid the mimic rout,
A crawling shape intrude!
A blood-red thing that writhes from out
The scenic solitude!
It writhes! --it writhes! --with mortal pangs
The mimes become its food,
And the seraphs sob at vermin fangs
In human gore imbued.
Out --out are the lights --out all!
And over each quivering form,
The curtain, a funeral pall,
Comes down with the rush of a storm,
And the angels, all pallid and wan,
Uprising, unveiling, affirm
That the play is the tragedy, "Man,"
And its hero the Conqueror Worm.
1843
Within the lonesome latter years!
An angel throng, bewinged, bedight
In veils, and drowned in tears,
Sit in a theatre, to see
A play of hopes and fears,
While the orchestra breathes fitfully
The music of the spheres.
Mimes, in the form of God on high,
Mutter and mumble low,
And hither and thither fly --
Mere puppets they, who come and go
At bidding of vast formless things
That shift the scenery to and fro,
Flapping from out their Condor wings
Invisible Wo!
That motley drama! --oh, be sure
It shall not be forgot!
With its Phantom chased forever more,
By a crowd that seize it not,
Through a circle that ever returneth in
To the self-same spot,
And much of Madness and more of Sin
And Horror the soul of the plot.
But see, amid the mimic rout,
A crawling shape intrude!
A blood-red thing that writhes from out
The scenic solitude!
It writhes! --it writhes! --with mortal pangs
The mimes become its food,
And the seraphs sob at vermin fangs
In human gore imbued.
Out --out are the lights --out all!
And over each quivering form,
The curtain, a funeral pall,
Comes down with the rush of a storm,
And the angels, all pallid and wan,
Uprising, unveiling, affirm
That the play is the tragedy, "Man,"
And its hero the Conqueror Worm.
1843
1 296
Ana Martins Marques
Em branco
Dizem que Cézanne
quando certa vez pintou um quadro
deixando inacabada parte de uma maçã
pintou apenas a parte da maçã
que compreendia.
É por isso
meu amor
que eu dedico a você
este poema
em branco.
quando certa vez pintou um quadro
deixando inacabada parte de uma maçã
pintou apenas a parte da maçã
que compreendia.
É por isso
meu amor
que eu dedico a você
este poema
em branco.
1 525
Edgar Allan Poe
To The River
Fair river! in thy bright, clear flow
Of crystal, wandering water,
Thou art an emblem of the glow
Of beauty- the unhidden heart-
The playful maziness of art
In old Alberto's daughter;
But when within thy wave she looks-
Which glistens then, and trembles—
Why, then, the prettiest of brooks
Her worshipper resembles;
For in his heart, as in thy stream,
Her image deeply lies—
His heart which trembles at the beam
Of her soul-searching eyes.
1829
Of crystal, wandering water,
Thou art an emblem of the glow
Of beauty- the unhidden heart-
The playful maziness of art
In old Alberto's daughter;
But when within thy wave she looks-
Which glistens then, and trembles—
Why, then, the prettiest of brooks
Her worshipper resembles;
For in his heart, as in thy stream,
Her image deeply lies—
His heart which trembles at the beam
Of her soul-searching eyes.
1829
1 322