Poemas neste tema

Arte

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Verde a Lentidão

Verde        A lentidão
da curva
A anca surge branca
A forma vive na folhagem o seu dia

Nuvem cintilante        ou forma
sobre forma
Surpresa dita ou por dizer
um outro sempre

É preciso cingi-lo
inventar-lhe os limites
à superfície branca
Aqui quando se diz
1 147
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Palavra Transfigurada

Como incendiar a página com uma linguagem nua e frágil? Nada se escreve sem terror perante o inerte e a plenitude de uma linguagem vã. As folhas fatigam-se, envelhecem, e o bolor é o futuro condenado de todos os vocábulos. Como penetrar nos interstícios do invisível e aí buscar a libertação soberana de uma linguagem fulgurante? A criação é uma destruição em que os gritos e os murmúrios de uma insondável agonia são sufocados na garganta das palavras. Como libertar a palavra da passiva escravidão da morte? O que nos liga é o que nos liberta: a sede de um lugar livre sem o peso da servidão e dos discursos. Se cada palavra é o limiar de um deserto, como incendiar os grãos de areia para construir a casa de fogo que é o poema? Serão as palavras sombras sobre um invisível muro? Os vocábulos imitam as pedras e as estrelas e podem tornar-se a vivacidade feliz de uma festa miniatural. Mais do que as palavras, o que resta é o espaço que resta entre os vocábulos no branco da página. A linguagem é uma página de sinais esquecidos. Depois de todas as imagens, depois da última palavra, permanece o amor frágil de uma imagem suspensa, como que interdita sobre a aresta de um obstáculo. É a imagem que se apaga, que se perde, e no entanto caminha para o desconhecido e ganha o sombrio fulgor da palavra transfigurada.
1 194
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Um Volume

Um volume
que adere ao espaço nulo
mais alto do que os ramos
retrai-se dilata-se percorre-se
numa chama solitária breve
quase o fascínio da sombra quase a leve
delicadeza de uma íris.
1 104
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Saborear a Alteridade Na Múltipla

Saborear a alteridade na múltipla
divagação de formas silenciosas.
Textura plural a partir da ruptura
donde nasce o movimento inicial.
621
José Saramago

José Saramago

24

Nenhumas armas a não ser os toscos paus arrancados dificilmente aos ramos mais baixos das árvores e as pedras roladas colhidas nos leitos das ribeiras

Nenhuma protecção a não ser a da noite ou a sombra dos desfiladeiros por onde a tribo se insinuava como uma longa cobra rastejando

Ali não tinham os lobos mecânicos espaço para atacar e foi possível ver entre duas altas e sonoras muralhas de rocha lutar um milhafre verdadeiro contra uma águia mecânica e vencê-la

Porque a águia fora programada apenas para atacar os homens como o haviam sido os elefantes que bramiam de fúria na garganta dos desfiladeiros apertados onde não podiam entrar

E isto foi enquanto ainda o ordenador se manteve em ligação com os animais mecânicos

Tornados inúteis logo que a comunicação cessou destruídos na queda os que voavam paralisados no movimento os que no chão se deslocavam e caídos para o lado

Sete noites durou a marcha pelos labirintos da montanha sete dias dormiu a tribo e outras que se haviam juntado em grutas onde às vezes descobriam pinturas de homens lutando contra animais ou outros homens

Ao amanhecer do oitavo dia surgiram em campo raso e viram um leão imóvel de pé sobre as quatro patas

Batendo as asas secas dois corvos verdadeiros arrancavam-lhe tiras de pele morta pondo à vista o mecanismo do ventre e dos membros e um nó de fios escuros como um coração apodrecido

Então as tribos recolheram-se outra vez ao desfiladeiro à espera da noite e nas paredes duma gruta alguns homens reproduziram o leão e os corvos voando e ao fundo uma cidade armada

Feito o que desenharam o retrato de si próprios segurando uns toscos paus e na transparência do peito limitado por dois riscos laterais marcaram o lugar que deve ocupar um coração vivo
973
Boris Pasternak

Boris Pasternak

Ser famoso não é bonito.

Ser famoso não é bonito.
Não nos torna mais criativos.
São dispensáveis os arquivos.
Um manuscrito é só um escrito.
O fim da arte é doar somente.
Não são os louros nem as loas.
Constrange a nós, pobres pessoas,
Estar na boca de toda a gente.
Cumpre viver sem impostura.
Viver até os últimos passos.
Aprender a amar os espaços
E a ouvir o som da voz futura.
Convém deixar brancos à beira
Não do papel, mas do destino,
E nesses vãos deixar inscritos
Capítulos da vida inteira.
Apagar-se no anonimato,
Ocultando nossa passagem
Pela vida, como à paisagem
Oculta a nuvem com recato.
Alguns seguirão, passo a passo,
As pegadas do teu passar,
Porém não deves separar
Teu sucesso de teu fracasso.
Não deves renunciar a um mín-
Imo pedaço do teu ser,
Só estar vivo e permanecer
Vivo, e viver até o fim.
(tradução de Augusto de Campos)
.
.
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1 023
Josée Lapeyrère

Josée Lapeyrère

Começa

começa quase sempre com um traço
uma palavra.... uma mosca que voa ou
um leopardo que atravessa o avesso
da janela....de um salto.... e entre o arco
de suas patas estiradas....eu vejo o homem
que lava os vidros....ele não viu
a fera assim como os outros sentados
em seus escritórios.... diante das telas azuis
começa com um traço...... um índice
leve uma mosca que voa....ou
uma tatuagem como a de um sol que
surge da dobra do cotovelo do lutador
as linhas negras saindo em leque
em direção a um bíceps para sempre matinal ou
o ruído da cadeira raspando
o ladrilho.....que desperta.... gritando
seus quatro pés...... um peso essa cadeira
a cadeira vermelha por que você já vai
por que não vai..........vem
aqui me dá um beijo....... me deixa uma marca
a marca dos dentes......ou das garras
a marca do chicote.......ou do vôo
da mosca......a marca de um traço no ar
(tradução de Marília Garcia, publicada no número de estréia da Modo de Usar & Co.)
:
cela commence: cela commence souvent par un trait / un mot une mouche qui vole ou / un léopard qui traverse la largeur / de la fenêtre d’un bond entre l’arche / de ses pattes étirées je vois le laveur / de carreaux lui n’a pas vu / la bête tout comme les autres assis / à leur bureau devant les écrans bleus / cela commence par un trait un indice / léger une mouche qui vole ou / un tatouage celui d’un soleil qui / jaillit de la pliure du coude du lutteur / les noirs rayons partent en éventail / vers un biceps à jamais matinal ou // le bruit de la chaise raclant / le carrelage qui réveille en hurlant / ses quatre pieds lourde est la chaise / las chaise est rouge / pourquoi tu bouges / pourquoi tu ne bouges pas viens / vers moi embrasse-moi fais-moi une marque / la marque des dents ou celles des griffes / la marque du fouet celle du vol / de la mouche celle d’un trait dans l’air
903
António Pocinho

António Pocinho

iscas

Quando se comem enguias fritas, a poesia parece a pior forma de recriar a vida. Não há metáforas para quando se pega no garfo para levar à boca sejam iscas, seja mão de vaca, seja chispe, ou até ensopado de borrego.
A fruta já se presta mais a ser cantada, mas não enche tanto.

893
Adão Ventura

Adão Ventura

Paisagens do Jequitinhonha

Quem dança no vento
no ventre das águas
do Jequitinhonha?
Quem percorre o leve
de breves passos
nas margens do Araçuaí?
Quem detém dos pássaros
o ziguezaguear de vôos
recompondo sombras
sobre lixívias e lavras
de Chapada do Norte?
Quem imprime
em argila
a singeleza dos gestos
dos artesãos de Minas Novas?
1 200
Charles Baudelaire

Charles Baudelaire

A BEATRIZ

Num solo hostil, crestado e cheio de aspereza,
Enquanto eu me queixava um dia à natureza,
E de meu pensamento ao acaso vagando
Fosse o punhal no coração sem pressa afiando,
Em pleno dia eu vi, sobre a minha cabeça,
Prenúncio de borrasca, uma nuvem espessa,
Trazendo um bando de demônios maliciosos,
Semelhantes a anões perversos e curiosos.
Entreolham-se a mirar-me, aguda e friamente,
E, como o povo que na rua olha um demente,
Eu ps via rir, entre si cochichando,
Piscando os olhos e também sinais trocando:

Contemplemos em paz essa caricatura
Que do fantasma de Hamlet imita a postura,
Os cabelos ao vento e o ar sempre hesitante.
Não causa pena ver agora esse farsante,
Esse idiota, esse histrião ocioso, esse indigente,
Que seu papel de artista ensaia à nossa frente,
Querer interessar, cantando as suas dores,
Os grilos, os falcões, os córregos e as flores,
E mesmo a nós, que concebemos esses prólogos,
Aos berros recitar na praça os seus monólogos?

Com meu orgulho sem limite, eu poderia
Domar a nuvem dos anões em gritaria,
Deles desviando a fronte esplêndida e serena,
Caso não visse erguer-se, em meio à corja obscura
- Crime que até a própria luz do sol abala! -
A deusa a cujo olhar outro nenhum se iguala,
Que com eles de minha angústia escarnecia,
E às vezes um afago imundo lhes fazia.

(Tradução
de Ivan Junqueira)

5 669
Archibald Mcleish

Archibald Mcleish

ARS POETICA

Um poema deve ser palpável e mudo
como o fruto em globo

Calado
como antigos medalhões nos dedos

Silente como a pedra gasta por mangas
em umbrais onde o musgo cresceu -

Um poema deve ser sem palavras
como o voo das aves

Um poema deve ser imóvel no tempo
como a lua sobe

Largando, como a lua solta
ramo a ramo as árvores presas na noite,

largando, como a luz atrás do inverno larga
memória a memória, o espírito -

Um poema deve ser imóvel no tempo
como a lua sobe

Um poema deve ser igual a -
não verdadeiro

Porque toda a história da dor
uma porta vazia e uma folha de plátano

Porque o amor
as ervas que se curvam e duas luzes acima do mar

Um poema não deve significar
mas ser.

1 183
Roy Campbell

Roy Campbell

LUÍS DE CAMÕES

Camões é quem de toda a raça lírica,
Nascido em negra aurora de desastre,
Pode a um soldado raso olhar de frente;
Encontro um camarada em vez de um mestre.
Pois, dia a dia, enquanto os crocodilos
Deslizam pela margem pantanosa,
Da minha barca ele compartilha o toldo,
E conta-me sorrindo uma igual vida.
Por chamas e naufrágios, pestes, perdas,
Do fogo-fátuo de servir levado
A uma morte de cão, rei de seus males
Ergueu bem alto a voluntária cruz,
E as dores moldou em formas de beleza,
Como à Gorgona fez cantar destinos

1 087
Cruz e Sousa

Cruz e Sousa

A UMA ATRIZ

trechos do
poema O Botão de Rosa

Era um botão feliz,
Cuia roseira, impávida,
Ébria de aromas bons, ébria de orgulhos - ávida
De completa fragrância,
Palpitava com ânsia
Desde a própria raiz.

Tardes formosíssimas,
Ó grande livro aberto aos geniais artistas,
Como tanto alargais as crenças panteístas,
Como tanto esplendeis e como sois riquíssimas.

O cérebro em nevrose,
No pasmo que precede a augusta apoteose
De uma excelsa visão perfeitamente bela,
De uma excelsa visão em límpidos docéis,
Exaltava o acabado artístico da Tela
E o gosto dos pincéis.

A arte especialmente, esse prodígio, atriz,
Como o botão de rosa
Tão meigo e tão feliz,
Pode ser arrojada e brutalmente, ao pego,
Na treva silenciosa,
Onde o espírito vai, atordoado e cego,
Cair, entre soluços,
Como um colosso ideal tombado ao chão de bruços,
Ou pode equilibrar-se em admirável base
Estética e profunda,
Assim, bem como o outro, à mais radiosa altura.

Deves sondá-la bem nesta segunda fase.
Precisas para isso uma alma mais fecunda.
Precisas de sentir a artística loucura...

805
Heinrich Heine

Heinrich Heine

DOCH DIE KASTRATEN

Quando ensaiei minhas árias
Os castrados protestaram.
Que voz, que dicção, ordinárias
- Protestaram e clamaram.

E logo de cada qual
A vozinha delicada
Em trilos como cristal
Pura vibrou e afinada.

De desejos só cantavam,
E do amor e suas partes.
E as damas todas choravam
Comovidas com tais artes.

1 974
Jean de La Fontaine

Jean de La Fontaine

Invocação à volúpia

Sem ti, doce Volúpia, o viver e o morrer
Teriam, desde o berço, idêntico valor:
De toda a criação, universal pendor,
Com que força fatal, tu consegues prender!
Tudo, por ti,
aqui se passa.
Por tua causa e
tua graça,
A duras penas
todos vão:
Não há soldado,
capitão,
Nem fidalgo, plebeu, nem Ministro de Estado,
Que em ti não
tenha o olhar pregado
Das Musas na afeição, se, de serões nascido,
Um agradável som não nos encanta o ouvido,
E se ele não nos traz amena sensação,
Tentamos nós uma
canção?
O que, pomposamente, é chamado de glória
E, nos jogos dOlimpo, exalçava a vitória,
Precisamente, és tu, Volúpia divinal.
E seu preço não tem o prazer sensual?
E então por que
os dons de Flora,
O pôr-do-sol, a
linda Aurora,
Pomona e seus
finos manjares,
Baco, razão dos
bons jantares,
Florestas,
fontes, pradarias,
Mães de
fagueiras fantasias?
Belas artes, por quê? de quem és a nascente,
Por que tanta beldade, amável, atraente,
Se não pra vires, até nós, sempre morar?
Eis o meu parecer, por mais procure alguém
O seu desejo
castigar,
Algum prazer inda
lhe vem.

Ó Volúpia gentil, que, na Grécia de outrora,
De um pensador
foste senhora,
Não me desprezes não: vem à minha morada,
Não ficarás sem
fazer nada:
Amo os livros, o amor, música e diversão,
Cidade, campo, enfim; o mundo nada tem
Que não me seja
enorme bem,
Mesmo o aflito prazer de um triste coração.
Vem, pois, e desse bem, ó Volúpia querida,
Queres então saber a medida acertada?
Pelo menos preciso uns cem anos de vida,
Pois trinta só
é quase nada...

 

1 633
Konstantínos Kaváfis

Konstantínos Kaváfis

NUM LIVRO VELHO

NUM LIVRO VELHO

Num livro velho - mais ou menos de há cem anos -
por entre as suas folhas esquecida,
encontrei uma aguarela sem assinatura.
Devia ser a obra de artista assaz forte.
Levava por título, «Apresentação do Amor».

Mas antes lhe convinha, «- do amor dos ultra estetas».

Pois era evidente quando se via a obra
(com facilidade se sentia a ideia do artista)
que para quantos amam um tanto higienicamente,
mantendo-se dentro do permitido de todas as maneiras,
não era destinado o adolescente
da pintura - com olhos castanhos de cor profunda;
com a beleza selecta do seu rosto,
a beleza das atracções perversas;
com os seus lábios ideais que levam
o prazer a um corpo amado;
com os seus membros ideais moldados para leitos
a que chama depravados a moral corrente.

1 420
Paladas

Paladas

QUATRO POEMAS

QUATRO POEMAS

Digamos pois que a vida é um teatro,
em que cumpre ao actor fingir com arte:
levando-a a rir, como se fora farsa,
ou digno sendo na tragédia parte.

894
Torquato Neto

Torquato Neto

O Poeta é a Mãe das Armas

O Poeta é a mãe das armas
& das Artes em geral —
alô, poetas: poesia
no país do carnaval;
Alô, malucos: poesia
não tem nada a ver com os versos
dessa estação muito fria.

O Poeta é a mãe das Artes
& das armas em geral:
quem não inventa as maneiras
do corte no carnaval
(alô, malucos), é traidor
da poesia: não vale nada, lodal.

A poesia é o pai da ar-
timanha de sempre: quent
ura no forno quente
do lado de cá, no lar
das coisas malditíssimas;
alô poetas: poesia!
poesia poesia poesia poesia!
O poeta não se cuida ao ponto
de não se cuidar: quem for cortar meu cabelo
já sabe: não está cortando nada
além da MINHA bandeira ////////// =
sem aura nem baúra, sem nada mais pra contar.
Isso:ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. a
r: em primeiríssimo, o lugar.

poetemos pois
torquato neto /8/11/71 & sempre.

2 092
Gabriela Mistral

Gabriela Mistral

O PENSADOR DE RODIN

Apoiando na mão rugosa o queixo fino,
O Pensador reflete que é carne sem defesa:
Carne da cova, nua em face do destino,
Carne que odeia a morte e tremeu de beleza.

E tremeu de amor; toda a primavera ardente,
E hoje, no outono, afoga-se em verdade e tristeza.
O havemos de morrer passa-lhe pela mente
Quando no bronze cai a noturna escureza.

E na angústia seus músculos se fendem sofredores.
Sua carne sulcada enche-se de terrores,
Fende-se, como a folha de outono, ao Senhor forte

Que o reclama nos bronzes. Não há árvores torcida
Pelo sol na planície, nem leão de anca ferida,
Crispados como este homem que medita na morte.

2 314
Al Berto

Al Berto

Retrato de Fugitivo

ele caminha pela solidão nocturna dos quartos de hotel
e de fotografia em fotografia chega exausto
ao minucioso poema a preto e branco
mas já não o surpreende a violenta visão do mundo
este lento destroço que um liquido sussurro de prata
revela a partir de iluminada fracção de segundo
e bebe
e ama
e foge de si mesmo
com a leica pronta a ferir como uma bala ecoando
no fundo da memória um néon uma pedra
uma arquitectura de luz e sombra ou um deserto
onde se debruça para retocar os dias com um
lápis
na certeza que sobrevirá a estes perfeitos acidentes
a estes restos de corpos a pouco e pouco turvos
pelo tempo pelo sono ou pela melancolia
mas regressa sempre à transumância das cidades
quando a alba do flash prende o furtivo gesto
sobre o papel fotográfico morre o misterioso fugitivo
depois
vem o medo
que se desprende do olhar imobilizado
e do rosto fotografado
nasce uma vida de infinito caos

6 258
Linhares Filho

Linhares Filho

Reencontro

Fiel ao amor e à arte entre proteus,
encontro a luz aquém do terremoto.
A arte e o amor são em mim síntese, foto
do Ser e a fotossíntese que os meus

respiros pedem. No imo é que devoto
o culto mais leal a encantos seus.
E, na luta, assemelho-me aos Ateus:
contactando o meu chão, de novo broto.

Quanto mais acho, tanto mais procuro
o bem de amar e criar no tempo e espaço
da vigília e do sonho dos Orfeus.

Reencontro-me, autêntico misturo
Poesia e Amada num grandioso abraço,
imagens do infinito amor de Deus!

685
Lourdes Cabral

Lourdes Cabral

Pensamentos

Meus pensamentos se estendem
além do espaço, além do tempo,
em outros caminhos abertos e luminosos.
E nesses caminhos percorrem
ciclos intensos, ilimitados.
Aproximam-se
do cicio da beleza, fascínio
do artista,
No universo colorido, vislumbram
o efeito do amor
e a sutileza da renúncia,
do sacrifício,
do heroísmo.
E, na libertação dos sentimentos,
atingem a complexidade da Vida,
a riqueza dos sonhos,
a potencialidade do Tempo...

789
Luiz Pimenta

Luiz Pimenta

O Jardim de Geralda

O Jardim de Geralda

Para minha querida sogra
Tenho quase certeza que
o van Gogh
conheceu o jardim de Geralda,
antes mesmo
dele ter existido.

O jardim de Geralda
sempre foi uma explosão.

Tem lírio,
tem antúrio...
Tem brinco-de-princesa
plantado
dentro do pneu.
Tem buganvília,
tem até...
amor-perfeito.

Tem tudo,
bem misturado,
assim como
é a vida.

Cadê você Geralda,
para cuidar do nosso jardim?
BH 10/01/97

1 004
Leão Moysés Zagury

Leão Moysés Zagury

Nascimento

O poema debate-se por existir.
Existir!

Inicia-se um sonho, uma luta.
O herói das palavras,
a poetar burila-o.

.................................................

A caneta àvida,
desvirginando o papel,
imprime traços
vigor,
forma,
vida!

804