Poemas neste tema
Arte
André Ricardo Aguiar
Revisão
uma mão sempre escreve
o ofício das letras:
a Eternidade
urge reformas
o ofício das letras:
a Eternidade
urge reformas
863
Aleilton Fonseca
nota sobre
teoria particular (mas nem tanto) do poema
a disposição dos versos em estrofes numeradas indica uma seqüência de leitura entre
outras, por exemplo:
a disposição dos versos em estrofes numeradas indica uma seqüência de leitura entre
outras, por exemplo:
1 167
Amador Ribeiro Neto
Na Poesia de Frederico Barbosa
Ou: Nada Dessa Cica de Palavra Feito Flor
Frederico Barbosa publicou, até o momento, dois livros de poesia: Rarefato, em 1990, e Nada Feito Nada, em 1993. Uma média de um livro a cada 3 anos. Estatística essa que nos autoriza a supor que alguma coisa pode acontecer, ainda este ano, na esquina da dura poesia.
Rarefato foi publicado pela Iluminuras e Nada Feito Nada, pela Perspectiva, este integrando a prestigiosa Coleção Signos, dirigida por Haroldo de Campos.
Logo após o lançamento de Rarefato, publiquei no JORNAL DA TARDE uma resenha em que chamava a atenção dos leitores para a poesia do estreante Frederico Barbosa. Como uma das funções do crítico literário é apresentar ao leitor o talento de novos autores, a resenha terminava assim: "FB em Rarefato, não se satisfazendo com a busca empenhada pelos grandes poetas, inventa um modo particularíssimo de dizer o não-dito, o quase impossível. Com isso, corre o risco de transformar-se num dos mais importantes poetas de nossa década. Do ano, já o é, de longe". E finalizava: "É hora de o leitor verificar por si mesmo".
De fato, as matérias relativas aos melhores lançamentos do ano, feitas pelos jornais, no final do ano de 1990, destacaram o livro de Frederico Barbosa. Em 94 ele recebe o Prêmio Jabuti por Nada Feito Nada. Em 95 e 96 sua poesia aparece em livros didáticos do 2o. grau.
No entanto, não nos iludamos: sua poesia é "grão imastigável, de quebrar dente". Vale para ela estas palavras de Paul Valéry: "A literatura não tem para mim outro interesse que o exemplo ou a tentativa de dizer o que é difícil dizer". Ou estas: "Prefiro ser lido muitas vezes por um só do que uma só vez por muitos". Ou estas: "Minha ambição literária foi a escrita de precisão". Ou, finalizando: "O verdadeiro pecado é escrever para o público".
Como se deduz, a poesia de FB está anos-luz distante daquela missão catequética, de uma certa música popular, que propala que "o artista tem ir onde o povo está". Isto é: deve correr atrás do público, oferecendo-lhe seu produto a preços módicos (de linguagem). Nada disso. Tanto em Rarefato, com em Nada Feito Nada, o rigor para com a poesia começa na capa dos livros e se estende à diagramação e até à cor de suas páginas. Texto poético e projeto gráfico complementam-se admiravelmente.
O trabalho gráfico (capa, projeto e execução), dos dois livros, é de Carlos Fernando. Este exímio intérprete da música popular transfere, para a diagramação dos dois livros, toda a precisão e a beleza que impõe ao seu trabalho musical.
A capa de Rarefato exibe a reprodução em desenho da lápide do filho de Demétrios (séc IV a.C.), sob fundo compacto, margeado pelo reticulado de pontos. Na laje tumular uma personagem, misto de alguém que chora com o prenúncio do pensador de Rodin. Na dureza do mármore, a expressão de dor/pensamento da personagem da lápide, choca-se com a leveza do fundo reticulado. Os dois elementos plásticos (lápide sob fundo compacto e margem reticulada) sintetizam as linhas básicas deste livro: pensamento e sentimento, densidade e rarefação, fato e forma. Linhas estas que constituem, dialeticamente, a unidade da poesia de FB. Unidade que, por sua vez, reflete e refrata, a crise. Crise individual. Crise social. Crise da linguagem. Crise de representação. Em outras palavras, a própria modernidade. Afinal, FB é um autor antenado (a la Ezra Pound) com o nosso tempo. Faz do desafio da modernidade o ofício dos seus versos.
Daí o parentesco inevitável com poetas e pensadores do pouco, do magro, do miúdo, do minimal, do seco, do denso, do duro, do pó. Do nada. Do raro. Do fato. Do fato feito nada.
O mesmo nada que ressurgirá no título do segundo livro, ao lado do feito. Nada Feito Nada. A poesia que se faz do nada, da negação do feito fácil.
Os títulos dos dois livros apontam para o modo de fazer poesia e não para o que se dizer em poesia. A palavra rarefato, que é apenas um sinônimo, para o usual rarefeito, introduz a ambigüidade: Rarefato: fato raro ou fato rarefeito. Como nada. Ao modo de ser nada. É o nada trazendo a linguagem, em crise, feito nada. Nada Feito Nada. O poeta aceita, e faz, do poema, objeto da impossibilidade.
Impossibilidade que se corporifica na capa do segundo livro: um círculo vazando um quadrado, ou um quadrado vazando um círculo. O quadrado divide-se por 4 linhas diagonais que formam 4 ângulos retos. Em cada uma das quatro extremidades do quadrado, as linhas diagonais, associadas às do círculo, terminam formando setas, qual uma rosa-dos-ventos.
Rosa-dos-rumos poética, que aponta para nada. Sempre nada. Afinal, os pontos cardeais formam a palavra NADA.
O papel da capa, em sépia, com o desenho em tons de marrom, remete-nos à célebre representação das medidas do corpo humano, feita por da Vinci. Ali, as pernas do homem se abrem dentro dos limites do círculo e os braços, se abrem dentro dos limites do quadrado. Como estão, braços e pernas, em duas posições diferentes, sempre temos o número quatro como variante dos gestos. Quatro pernas, quatro braços. Quatro setas no desenho da capa de Nada Feito Nada. Nada: N-A-D-A: 4 letras. O mesmo princípio davinciano, com uma diferença radical: aqui a figura do homem é substituída pela língua: o título do livro repetido enésimas vezes. E o centro, um grande ZERO; quer seja, um grande nada.
A linguagem é tomada como a medida do mundo: somente ela fornece as verdadeiras referências do valor estético. O fato (o homem) se torna presente pela via da memória da linguagem. Memória histórica e cultural.
Porém, não exageremos. Não se trata do nada absoluto, pois, então, nem a poesia sobreviveria a tanto niilismo, levando a linguagem à aporia. Ou seja, às afirmações decididamente contrárias e categóricas.
Vejamos o que é este fato rarefeito, este fato raro, este nada feito nada, este cabralino "fazer o que seja é inútil".
A imagem do círculo, tal como a do mitológico uroboru, constrói e formata o primeiro livro. Ali a forma circular não é viciosa. Nem poderia ser. Para esta estirpe de poetas, à qual Frederico Barbosa pertence, não há espaço para redundâncias, adiposidades e rabeiras. A poesia pó, é rarefação, grão e nada. Nada enquanto inutensílio leminskiano.
A linguagem percorre uma via que vai de "nenhuma voz humana", "do amplo nada", "tudo que escoa em silêncio em tempo ecoa" (do poema que dá título e abre o primeiro livro), até a busca da co-autoria com o leitor, em versos tais como: "Virar a chave, / como quem lê uma página / (.....) / Como quem se envolve na personagem, / lento" ("Como quem lê"). Ou: "sua leitura minha / do seu meu poema /Meus olhos buscando / nos seus / um outro poema" ("Ao leitor")
Poesia interativa? Se o leitor for "aquele de Baudelaire", por que não?
O segundo livro inicia-se com um poema malcriadamente visual - herança concreta do Barroco. O título: "Labyrintho Difficultoso". A grafia imperial do título, com y, th e f duplicado firma, uma vez mais, o sentido da poesia para este poeta: labirinto. Labirinto, diz o Aurélio, é coisa complicada, confusa, obscura. Não se satisfazendo com esta acepção da palavra, o poeta insiste em adjetivá-la, tornando-a ainda mais borgeana: labirinto dificultoso. Último verso deste primeiro poema: "é nada é nada é nada".
O livro fecha-se com um poema intitulado "All or nothing at all". (Tudo ou nada para todos), título de uma das canções clássicas do Jazz. Mesmo na música popular, como se vê, o poeta só consome "o magro dos pratos". Últimos versos deste poema: "Nada feito nada, / no poema / não há termo meio, / meio-amor, meia-palavra.// Do sem / sentido intenso / se faz / um tudo atento./ feito a palavra / em / cantada, // nada / feito / nada".
Neste segundo livro, FB incorpora o humor, pela via da tradição sterniana: biscoito fino. Nos caminhos da História ele vasculha os jornais de Recife, publicados no Império. Agindo como um antropóf
Frederico Barbosa publicou, até o momento, dois livros de poesia: Rarefato, em 1990, e Nada Feito Nada, em 1993. Uma média de um livro a cada 3 anos. Estatística essa que nos autoriza a supor que alguma coisa pode acontecer, ainda este ano, na esquina da dura poesia.
Rarefato foi publicado pela Iluminuras e Nada Feito Nada, pela Perspectiva, este integrando a prestigiosa Coleção Signos, dirigida por Haroldo de Campos.
Logo após o lançamento de Rarefato, publiquei no JORNAL DA TARDE uma resenha em que chamava a atenção dos leitores para a poesia do estreante Frederico Barbosa. Como uma das funções do crítico literário é apresentar ao leitor o talento de novos autores, a resenha terminava assim: "FB em Rarefato, não se satisfazendo com a busca empenhada pelos grandes poetas, inventa um modo particularíssimo de dizer o não-dito, o quase impossível. Com isso, corre o risco de transformar-se num dos mais importantes poetas de nossa década. Do ano, já o é, de longe". E finalizava: "É hora de o leitor verificar por si mesmo".
De fato, as matérias relativas aos melhores lançamentos do ano, feitas pelos jornais, no final do ano de 1990, destacaram o livro de Frederico Barbosa. Em 94 ele recebe o Prêmio Jabuti por Nada Feito Nada. Em 95 e 96 sua poesia aparece em livros didáticos do 2o. grau.
No entanto, não nos iludamos: sua poesia é "grão imastigável, de quebrar dente". Vale para ela estas palavras de Paul Valéry: "A literatura não tem para mim outro interesse que o exemplo ou a tentativa de dizer o que é difícil dizer". Ou estas: "Prefiro ser lido muitas vezes por um só do que uma só vez por muitos". Ou estas: "Minha ambição literária foi a escrita de precisão". Ou, finalizando: "O verdadeiro pecado é escrever para o público".
Como se deduz, a poesia de FB está anos-luz distante daquela missão catequética, de uma certa música popular, que propala que "o artista tem ir onde o povo está". Isto é: deve correr atrás do público, oferecendo-lhe seu produto a preços módicos (de linguagem). Nada disso. Tanto em Rarefato, com em Nada Feito Nada, o rigor para com a poesia começa na capa dos livros e se estende à diagramação e até à cor de suas páginas. Texto poético e projeto gráfico complementam-se admiravelmente.
O trabalho gráfico (capa, projeto e execução), dos dois livros, é de Carlos Fernando. Este exímio intérprete da música popular transfere, para a diagramação dos dois livros, toda a precisão e a beleza que impõe ao seu trabalho musical.
A capa de Rarefato exibe a reprodução em desenho da lápide do filho de Demétrios (séc IV a.C.), sob fundo compacto, margeado pelo reticulado de pontos. Na laje tumular uma personagem, misto de alguém que chora com o prenúncio do pensador de Rodin. Na dureza do mármore, a expressão de dor/pensamento da personagem da lápide, choca-se com a leveza do fundo reticulado. Os dois elementos plásticos (lápide sob fundo compacto e margem reticulada) sintetizam as linhas básicas deste livro: pensamento e sentimento, densidade e rarefação, fato e forma. Linhas estas que constituem, dialeticamente, a unidade da poesia de FB. Unidade que, por sua vez, reflete e refrata, a crise. Crise individual. Crise social. Crise da linguagem. Crise de representação. Em outras palavras, a própria modernidade. Afinal, FB é um autor antenado (a la Ezra Pound) com o nosso tempo. Faz do desafio da modernidade o ofício dos seus versos.
Daí o parentesco inevitável com poetas e pensadores do pouco, do magro, do miúdo, do minimal, do seco, do denso, do duro, do pó. Do nada. Do raro. Do fato. Do fato feito nada.
O mesmo nada que ressurgirá no título do segundo livro, ao lado do feito. Nada Feito Nada. A poesia que se faz do nada, da negação do feito fácil.
Os títulos dos dois livros apontam para o modo de fazer poesia e não para o que se dizer em poesia. A palavra rarefato, que é apenas um sinônimo, para o usual rarefeito, introduz a ambigüidade: Rarefato: fato raro ou fato rarefeito. Como nada. Ao modo de ser nada. É o nada trazendo a linguagem, em crise, feito nada. Nada Feito Nada. O poeta aceita, e faz, do poema, objeto da impossibilidade.
Impossibilidade que se corporifica na capa do segundo livro: um círculo vazando um quadrado, ou um quadrado vazando um círculo. O quadrado divide-se por 4 linhas diagonais que formam 4 ângulos retos. Em cada uma das quatro extremidades do quadrado, as linhas diagonais, associadas às do círculo, terminam formando setas, qual uma rosa-dos-ventos.
Rosa-dos-rumos poética, que aponta para nada. Sempre nada. Afinal, os pontos cardeais formam a palavra NADA.
O papel da capa, em sépia, com o desenho em tons de marrom, remete-nos à célebre representação das medidas do corpo humano, feita por da Vinci. Ali, as pernas do homem se abrem dentro dos limites do círculo e os braços, se abrem dentro dos limites do quadrado. Como estão, braços e pernas, em duas posições diferentes, sempre temos o número quatro como variante dos gestos. Quatro pernas, quatro braços. Quatro setas no desenho da capa de Nada Feito Nada. Nada: N-A-D-A: 4 letras. O mesmo princípio davinciano, com uma diferença radical: aqui a figura do homem é substituída pela língua: o título do livro repetido enésimas vezes. E o centro, um grande ZERO; quer seja, um grande nada.
A linguagem é tomada como a medida do mundo: somente ela fornece as verdadeiras referências do valor estético. O fato (o homem) se torna presente pela via da memória da linguagem. Memória histórica e cultural.
Porém, não exageremos. Não se trata do nada absoluto, pois, então, nem a poesia sobreviveria a tanto niilismo, levando a linguagem à aporia. Ou seja, às afirmações decididamente contrárias e categóricas.
Vejamos o que é este fato rarefeito, este fato raro, este nada feito nada, este cabralino "fazer o que seja é inútil".
A imagem do círculo, tal como a do mitológico uroboru, constrói e formata o primeiro livro. Ali a forma circular não é viciosa. Nem poderia ser. Para esta estirpe de poetas, à qual Frederico Barbosa pertence, não há espaço para redundâncias, adiposidades e rabeiras. A poesia pó, é rarefação, grão e nada. Nada enquanto inutensílio leminskiano.
A linguagem percorre uma via que vai de "nenhuma voz humana", "do amplo nada", "tudo que escoa em silêncio em tempo ecoa" (do poema que dá título e abre o primeiro livro), até a busca da co-autoria com o leitor, em versos tais como: "Virar a chave, / como quem lê uma página / (.....) / Como quem se envolve na personagem, / lento" ("Como quem lê"). Ou: "sua leitura minha / do seu meu poema /Meus olhos buscando / nos seus / um outro poema" ("Ao leitor")
Poesia interativa? Se o leitor for "aquele de Baudelaire", por que não?
O segundo livro inicia-se com um poema malcriadamente visual - herança concreta do Barroco. O título: "Labyrintho Difficultoso". A grafia imperial do título, com y, th e f duplicado firma, uma vez mais, o sentido da poesia para este poeta: labirinto. Labirinto, diz o Aurélio, é coisa complicada, confusa, obscura. Não se satisfazendo com esta acepção da palavra, o poeta insiste em adjetivá-la, tornando-a ainda mais borgeana: labirinto dificultoso. Último verso deste primeiro poema: "é nada é nada é nada".
O livro fecha-se com um poema intitulado "All or nothing at all". (Tudo ou nada para todos), título de uma das canções clássicas do Jazz. Mesmo na música popular, como se vê, o poeta só consome "o magro dos pratos". Últimos versos deste poema: "Nada feito nada, / no poema / não há termo meio, / meio-amor, meia-palavra.// Do sem / sentido intenso / se faz / um tudo atento./ feito a palavra / em / cantada, // nada / feito / nada".
Neste segundo livro, FB incorpora o humor, pela via da tradição sterniana: biscoito fino. Nos caminhos da História ele vasculha os jornais de Recife, publicados no Império. Agindo como um antropóf
1 215
Susana Thénon
O Dançarino
O dançarino disse, danço,
meu vestido é ar e sombra,
meu cabelo é fumaça.
O passado e o futuro dançam em mim.
Cada minuto deixa uma âncora em meu rosto.
Sou o tempo a cada passo,
a morte em minha quietude.
Bailo todos os bailes, me desafogo
e me uno.
Sou mar, o homem do mar:
meu corpo é onda, minha mão é peixe,
minha dor é pedra e sal.
meu vestido é ar e sombra,
meu cabelo é fumaça.
O passado e o futuro dançam em mim.
Cada minuto deixa uma âncora em meu rosto.
Sou o tempo a cada passo,
a morte em minha quietude.
Bailo todos os bailes, me desafogo
e me uno.
Sou mar, o homem do mar:
meu corpo é onda, minha mão é peixe,
minha dor é pedra e sal.
910
Nuno Júdice
A prova do humano
Quem terá notado o gesto subtil do velho quando,
ao enrolar o tabaco, limpou o indicador cheio de cuspo
no tampo da mesa? Ali, há exactamente dois dias,
sentara-me eu a escrever reflexões religiosas e um canto
filosófico; depois, cansado do trabalho mental,
desenhei a lápis duas ou três figuras na madeira gasta.
Agora, os restos de café e a saliva dos velhos transformam
esses desenhos banais em peças
de uma autêntica mitologia.
O fumo do tabaco envolve-os como se fosse uma névoa antiga,
e as palavras trocadas, a meia voz,
pelos ocasionais frequentadores daquele canto
lembram-me esconjuros, maldições, ou apenas
a invocação de algum espírito transitório.
Assim, não posso passar sem ir, uma ou duas vezes por dia,
àquele sítio: observar um vulto que, inconscientemente,
iniciei; e também ouvi o velho Baco
cujas histórias me dão sede e sono.
Mas que fazer nesta cidade de província,
no inverno, à parte ouvir os velhos
ou inventar histórias, enquanto se bebe café
e aguardente?
Nuno Júdice | "Obra Poética 1972 - 1985", pág. 77 | Quetzal Editores, 1991
ao enrolar o tabaco, limpou o indicador cheio de cuspo
no tampo da mesa? Ali, há exactamente dois dias,
sentara-me eu a escrever reflexões religiosas e um canto
filosófico; depois, cansado do trabalho mental,
desenhei a lápis duas ou três figuras na madeira gasta.
Agora, os restos de café e a saliva dos velhos transformam
esses desenhos banais em peças
de uma autêntica mitologia.
O fumo do tabaco envolve-os como se fosse uma névoa antiga,
e as palavras trocadas, a meia voz,
pelos ocasionais frequentadores daquele canto
lembram-me esconjuros, maldições, ou apenas
a invocação de algum espírito transitório.
Assim, não posso passar sem ir, uma ou duas vezes por dia,
àquele sítio: observar um vulto que, inconscientemente,
iniciei; e também ouvi o velho Baco
cujas histórias me dão sede e sono.
Mas que fazer nesta cidade de província,
no inverno, à parte ouvir os velhos
ou inventar histórias, enquanto se bebe café
e aguardente?
Nuno Júdice | "Obra Poética 1972 - 1985", pág. 77 | Quetzal Editores, 1991
511
Nuno Júdice
A arte do poema
Eu pensava que escrever era uma escolha rigorosa de temas
[determinados,
e mais - que a progressão no poema, sem confundir um tema
[e outro,
pelo contrário iria estabelecer uma rigorosa separação. Entre,
por um lado, o interior dos sons, e por outro o rebordo exterior
do sentido, evoluindo este último segundo os efeitos próprios
[dos sons
em cada diversa sensibilidade.
Assim, estabelecidas as múltiplas zonas "poéticas",
[eu poderia designar
o que está escrito,
e assim mesmo irá ficar,
como um estudo de poética - ou "arte do poema".
Nuno Júdice | "Obra Poética 1972 - 1985", pág. 61 | Quetzal Editores, 1991
[determinados,
e mais - que a progressão no poema, sem confundir um tema
[e outro,
pelo contrário iria estabelecer uma rigorosa separação. Entre,
por um lado, o interior dos sons, e por outro o rebordo exterior
do sentido, evoluindo este último segundo os efeitos próprios
[dos sons
em cada diversa sensibilidade.
Assim, estabelecidas as múltiplas zonas "poéticas",
[eu poderia designar
o que está escrito,
e assim mesmo irá ficar,
como um estudo de poética - ou "arte do poema".
Nuno Júdice | "Obra Poética 1972 - 1985", pág. 61 | Quetzal Editores, 1991
1 056
Felipe d’Oliveira
I - O Clown
Sem apoio.
Solto na expectativa impaciente do irresistível.
Bloqueado pela ameaça circular dos cobradores
de jocoso, dos famintos de angústia grotesca.
Sem trapézio, como o trapezista.
Sem alteres, como o hércules.
Sem o aparato dos músculos, como o acrobata.
Sem refúgio e sem armas, desafia o risco manejando apenas
a desarticulação do jeito humano,
a deformação da máscara idiota onde a
graça estoura como um pontapé nas nádegas.
Sua ginástica tem de ser no vazio
sobre os fios frágeis do fracasso e do ridículo.
Dentro da roupa larga,
o corpo desengonçado
chacoalha cores, tropeça, achata-se sobre a
serragem do picadeiro.
A bofetada do partner
faz desabafar o delírio
sobre o tombo de costas (perfeito)
com estalos fingidos de espinha partida e
occipital rachado.
O aplauso voraz, em volta, o constringe
como uma goela de carnívoro.
Publicado no livro Lanterna Verde (1926). Poema integrante da série Circo.
In: D'OLIVEIRA, Felippe. Obra completa. Atual. e org. Lígia Militz da Costa, Maria Eunice Moreira e Pedro Brum Santos. Porto Alegre: IEL, Santa Maria: UFSM, 1990. p.7
Solto na expectativa impaciente do irresistível.
Bloqueado pela ameaça circular dos cobradores
de jocoso, dos famintos de angústia grotesca.
Sem trapézio, como o trapezista.
Sem alteres, como o hércules.
Sem o aparato dos músculos, como o acrobata.
Sem refúgio e sem armas, desafia o risco manejando apenas
a desarticulação do jeito humano,
a deformação da máscara idiota onde a
graça estoura como um pontapé nas nádegas.
Sua ginástica tem de ser no vazio
sobre os fios frágeis do fracasso e do ridículo.
Dentro da roupa larga,
o corpo desengonçado
chacoalha cores, tropeça, achata-se sobre a
serragem do picadeiro.
A bofetada do partner
faz desabafar o delírio
sobre o tombo de costas (perfeito)
com estalos fingidos de espinha partida e
occipital rachado.
O aplauso voraz, em volta, o constringe
como uma goela de carnívoro.
Publicado no livro Lanterna Verde (1926). Poema integrante da série Circo.
In: D'OLIVEIRA, Felippe. Obra completa. Atual. e org. Lígia Militz da Costa, Maria Eunice Moreira e Pedro Brum Santos. Porto Alegre: IEL, Santa Maria: UFSM, 1990. p.7
1 160
Juscelino Vieira Mendes
Paris
"As an artist, a man has no home in europe save in Paris"
Vi-a de relance
de soslaio, como um triz
Visão de um romance,
em sonho, era Paris
Aprazível é ver exposição no Petit Palais
É caminhar por montparnasse
Sentir Les Fleurs Du Mal, Baudelaire
Bom seria se não passasse!
Como definir? Se quimeras
Se real
Se teus bulevares, deveras
te engalanam de modo abissal?
És o próprio sonho, Paris
cuja fragrância lembra a do anis.
Vi-a de relance
de soslaio, como um triz
Visão de um romance,
em sonho, era Paris
Aprazível é ver exposição no Petit Palais
É caminhar por montparnasse
Sentir Les Fleurs Du Mal, Baudelaire
Bom seria se não passasse!
Como definir? Se quimeras
Se real
Se teus bulevares, deveras
te engalanam de modo abissal?
És o próprio sonho, Paris
cuja fragrância lembra a do anis.
1 062
Domingos Carvalho da Silva
Com a Poesia no Cais
De macacão operário
e chave inglesa na mão,
convocarei a poesia
para um passeio ao crepúsculo
A Esfinge me escutará
no seu palácio de nuvens.
E sentirá a minha voz
acelerar o compasso
do seu coração de sol.
E descerá pela escada
dos raios rubros do poente.
E o seu hálito, como a brisa,
agitará meus cabelos.
Eu a olharei face a face
em sua alvura de morte.
E beijarei, como um tísico,
sua boca de esperança.
Depois tomarei seu braço
e a levarei — fria sombra! —
ver as pupilas sem luz
dos que naufragam na dor.
De macacão operário
trespassarei os portais
de velhos bairros obscuros.
E mostrarei à poesia
cortiços e lupanares.
Eu quero ver a Arte-Pura
estender sua mão à fome!
Que chegue às suas narinas
o aroma das privações!
Que sinta e aspire o hálito
da negra boca da noite,
dormindo nas casas tristes
onde a miséria desmaia.
Ó! a suprema poesia
que mora na flor de lótus!
A ninfa geraldiana,
a pura, a perfumadíssima!
Deixai-a ver esses negros
que puxam café no cais!
Deixai-a ver os tropeiros,
aradores e ferroviários!
Deixai-a entrar numa usina,
andar num trem de subúrbio
e ver saltar do andaime
para a morte, um operário!
Então a poesia pura,
de pés banhados em sangue,
sentirá que a luz da aurora
lhe circunda a fronte loura.
A brisa lhe afaga os seios
num sopro de humanidade.
E ela abrirá seus braços
de olhos fixos em Gomorra,
com o seu corpo de sal
suspenso acima da terra
e esta parindo à distância
o dia novo que nasce.
Publicado no livro Rosa extinta: poemas (1945).
In: SILVA, Domingos Carvalho da. Múltipla escolha. Introd. Diana Bernardes. Rio de Janeiro: J. Olympio; Brasília: INL, 1980
e chave inglesa na mão,
convocarei a poesia
para um passeio ao crepúsculo
A Esfinge me escutará
no seu palácio de nuvens.
E sentirá a minha voz
acelerar o compasso
do seu coração de sol.
E descerá pela escada
dos raios rubros do poente.
E o seu hálito, como a brisa,
agitará meus cabelos.
Eu a olharei face a face
em sua alvura de morte.
E beijarei, como um tísico,
sua boca de esperança.
Depois tomarei seu braço
e a levarei — fria sombra! —
ver as pupilas sem luz
dos que naufragam na dor.
De macacão operário
trespassarei os portais
de velhos bairros obscuros.
E mostrarei à poesia
cortiços e lupanares.
Eu quero ver a Arte-Pura
estender sua mão à fome!
Que chegue às suas narinas
o aroma das privações!
Que sinta e aspire o hálito
da negra boca da noite,
dormindo nas casas tristes
onde a miséria desmaia.
Ó! a suprema poesia
que mora na flor de lótus!
A ninfa geraldiana,
a pura, a perfumadíssima!
Deixai-a ver esses negros
que puxam café no cais!
Deixai-a ver os tropeiros,
aradores e ferroviários!
Deixai-a entrar numa usina,
andar num trem de subúrbio
e ver saltar do andaime
para a morte, um operário!
Então a poesia pura,
de pés banhados em sangue,
sentirá que a luz da aurora
lhe circunda a fronte loura.
A brisa lhe afaga os seios
num sopro de humanidade.
E ela abrirá seus braços
de olhos fixos em Gomorra,
com o seu corpo de sal
suspenso acima da terra
e esta parindo à distância
o dia novo que nasce.
Publicado no livro Rosa extinta: poemas (1945).
In: SILVA, Domingos Carvalho da. Múltipla escolha. Introd. Diana Bernardes. Rio de Janeiro: J. Olympio; Brasília: INL, 1980
2 136
Cirstina Areias
A Palavra
Para Carlos Drummond de Andrade
Os meus olhos devoram a palavra que tua boca pronunciou,
O meu pensamento absorve o teu
Emoção flui do teu corpo ao meu,
Do meu tempo ao teu.
Ler teu poema é realizar um ato de amor mágico, cósmico...
Vens dos confins do Tempo
Espírito reencarnado e errante
E escarneces da minha agonia quando exibes, assim, à minha revelia, à exaustão,
A expressão lapidar de minha particular tragédia...
É teu espírito dentro de mim
Usurpando e definindo-me com precisão de ourives,
Travestindo o sentimento comum em fina literatura...
Tu, eu a bruxa e essa dança gêmea, incestuosa e louca.
Vens dos confins do Tempo
Espírito reencarnado e errante
E acusas, com genialidade o sentimento que eu entalo na garganta.
Pasmo, vexada, ouvindo que gargalhas do Além,
Quando vês, dentro do meu cristalino choro,
O desespero de que nos teríamos amado...
Os meus olhos devoram a palavra que tua boca pronunciou,
O meu pensamento absorve o teu
Emoção flui do teu corpo ao meu,
Do meu tempo ao teu.
Ler teu poema é realizar um ato de amor mágico, cósmico...
Vens dos confins do Tempo
Espírito reencarnado e errante
E escarneces da minha agonia quando exibes, assim, à minha revelia, à exaustão,
A expressão lapidar de minha particular tragédia...
É teu espírito dentro de mim
Usurpando e definindo-me com precisão de ourives,
Travestindo o sentimento comum em fina literatura...
Tu, eu a bruxa e essa dança gêmea, incestuosa e louca.
Vens dos confins do Tempo
Espírito reencarnado e errante
E acusas, com genialidade o sentimento que eu entalo na garganta.
Pasmo, vexada, ouvindo que gargalhas do Além,
Quando vês, dentro do meu cristalino choro,
O desespero de que nos teríamos amado...
870
António de Navarro
Poema XVI
Uma nota solta
De não sei que música
Vagueia flor em flor
Como abelha de som.
Não lhe sei a cor,
Não lhe sei o tom,
— Deve ser esquiva e nívea
E faltar com certeza
Ao compositor e poeta
Que sonhou a perfeição
E a beleza
Sem mácula, que lhe adoece
De a buscar o coração
Ah, se ela quisesse
Aninhar-se na minha alma!...
De não sei que música
Vagueia flor em flor
Como abelha de som.
Não lhe sei a cor,
Não lhe sei o tom,
— Deve ser esquiva e nívea
E faltar com certeza
Ao compositor e poeta
Que sonhou a perfeição
E a beleza
Sem mácula, que lhe adoece
De a buscar o coração
Ah, se ela quisesse
Aninhar-se na minha alma!...
1 225
Nuno Júdice
Pedra
A pedra escreve-se em torno
do nome. Um banco de pedra serve
de assento a quem escreve,
com esse nome, a pedra. Os lábios
não a atiram quando dizem:
pedra. Nem a pedra rola
na boca, como a palavra.
Nuno Júdice | "Meditação sobre Ruínas", 1994
do nome. Um banco de pedra serve
de assento a quem escreve,
com esse nome, a pedra. Os lábios
não a atiram quando dizem:
pedra. Nem a pedra rola
na boca, como a palavra.
Nuno Júdice | "Meditação sobre Ruínas", 1994
1 210
Nuno Júdice
Receita para fazer o azul
Se quiseres fazer azul,
pega num pedaço de céu e mete-o numa panela grande,
que possas levar ao lume do horizonte;
depois mexe o azul com um resto de vermelho
da madrugada, até que ele se desfaça;
despeja tudo num bacio bem limpo,
para que nada reste das impurezas da tarde.
Por fim, peneira um resto de ouro da areia
do meio-dia, até que a cor pegue ao fundo de metal.
Se quiseres, para que as cores se não desprendam
com o tempo, deita no líquido um caroço de pêssego queimado.
Vê-lo-ás desfazer-se, sem deixar sinais de que alguma vez
ali o puseste; e nem o negro da cinza deixará um resto de ocre
na superfície dourada. Podes, então, levantar a cor
até à altura dos olhos, e compare-la com o azul autêntico.
Ambas as cores te parecerão semelhantes, sem que
possas distinguir entre uma e outra.
Assim o fiz - eu, Abraão bem Judá Ibn Haim,
iluminador de Loulé - e deixei a receita a quem quiser,
algum dia, imitar o céu.
Nuno Júdice | "Meditação sobre Ruínas", 1994
pega num pedaço de céu e mete-o numa panela grande,
que possas levar ao lume do horizonte;
depois mexe o azul com um resto de vermelho
da madrugada, até que ele se desfaça;
despeja tudo num bacio bem limpo,
para que nada reste das impurezas da tarde.
Por fim, peneira um resto de ouro da areia
do meio-dia, até que a cor pegue ao fundo de metal.
Se quiseres, para que as cores se não desprendam
com o tempo, deita no líquido um caroço de pêssego queimado.
Vê-lo-ás desfazer-se, sem deixar sinais de que alguma vez
ali o puseste; e nem o negro da cinza deixará um resto de ocre
na superfície dourada. Podes, então, levantar a cor
até à altura dos olhos, e compare-la com o azul autêntico.
Ambas as cores te parecerão semelhantes, sem que
possas distinguir entre uma e outra.
Assim o fiz - eu, Abraão bem Judá Ibn Haim,
iluminador de Loulé - e deixei a receita a quem quiser,
algum dia, imitar o céu.
Nuno Júdice | "Meditação sobre Ruínas", 1994
1 794
Vladimir Maiakovski
DE V INTERNACIONAL
(tradução: Augusto de Campos)
Eu
à poesia
só permito uma forma:
concisão,
precisão das fórmulas
matemáticas.
Às parlengas poéticas estou acostumado,
eu ainda falo versos e não fatos.
Porém
se eu falo
"A"
este "a"
é uma trombeta-alarma para a Humanidade.
Se eu falo
"B"
é uma nova bomba na batalha do homem.
Eu
à poesia
só permito uma forma:
concisão,
precisão das fórmulas
matemáticas.
Às parlengas poéticas estou acostumado,
eu ainda falo versos e não fatos.
Porém
se eu falo
"A"
este "a"
é uma trombeta-alarma para a Humanidade.
Se eu falo
"B"
é uma nova bomba na batalha do homem.
3 971
Vladimir Maiakovski
ESCÁRNIOS
(tradução: Augusto de Campos e Boris Schnaiderman)
Desatarei a fantasia em cauda de pavão num ciclo de matizes, entregarei a alma ao poder do enxame das rimas imprevistas.
Ânsia de ouvir de novo como me calarão das colunas das revistas esses que sob a árvore nutriz es-
cavam com seus focinhos as raízes.
Desatarei a fantasia em cauda de pavão num ciclo de matizes, entregarei a alma ao poder do enxame das rimas imprevistas.
Ânsia de ouvir de novo como me calarão das colunas das revistas esses que sob a árvore nutriz es-
cavam com seus focinhos as raízes.
2 057
Nuno Júdice
Luta de classes
Nem todos os que construíram as catedrais viram
o mesmo. Uns, ergueram torres e pináculos, à luz do sol,
e chegaram ao céu; outros, metidos nas criptas,
pintaram infernos à luz de velas, deixando no chão
o lugar para os mais anónimos dos mortos. Os
que chegaram ao cimo, receberam o olhar divino e
viram o júbilo das madrugadas primaveris; os
que ficaram no fundo, arrancando à humidade das paredes
o gesto alucinado dos demónios, trocaram
obscenidades e doenças. No entanto, a catedral
é única; e quem a visita, apreciando a totalidade que, dizem,
nasceu de uma visão do absoluto, não pensa
em pormenores. Que importa os que trabalharam
na sombra, perdendo a luz dos olhos com o minucioso
desenho arrancando à treva, se o que hoje se vê
é esse contorno em que a pedra trabalha o céu? Assim,
conclui-se, é da desigualdade que nasce
a harmonia; e é a desordem humana que faz brotar,
do nada, tudo o que admiramos.
Nuno Júdice | "Cartografia de Emoções" | Publicações Dom Quixote, 2002
o mesmo. Uns, ergueram torres e pináculos, à luz do sol,
e chegaram ao céu; outros, metidos nas criptas,
pintaram infernos à luz de velas, deixando no chão
o lugar para os mais anónimos dos mortos. Os
que chegaram ao cimo, receberam o olhar divino e
viram o júbilo das madrugadas primaveris; os
que ficaram no fundo, arrancando à humidade das paredes
o gesto alucinado dos demónios, trocaram
obscenidades e doenças. No entanto, a catedral
é única; e quem a visita, apreciando a totalidade que, dizem,
nasceu de uma visão do absoluto, não pensa
em pormenores. Que importa os que trabalharam
na sombra, perdendo a luz dos olhos com o minucioso
desenho arrancando à treva, se o que hoje se vê
é esse contorno em que a pedra trabalha o céu? Assim,
conclui-se, é da desigualdade que nasce
a harmonia; e é a desordem humana que faz brotar,
do nada, tudo o que admiramos.
Nuno Júdice | "Cartografia de Emoções" | Publicações Dom Quixote, 2002
1 179
João Ribeiro
Simples Balada
"Tu vais partir, Dom Gil! Sus! Cavaleiro!
"Essa tristeza de tua alma espanca.
"Deixa o penhor de um beijo derradeiro
"No retrato gentil de Dona Branca".,
Mas tanto fel no longo beijo havia,
E tanta incomparável amargura,
Que o solitário beijo aos poucos ia
Roubando à tela a pálida figura.
Cresce, recresce, as linhas devastando,
Nódoa voraz pela figura entorna.
Dom Gil, onde se vai, demorando
Não aparece, aos lares não retorna?!
E o beijo avulta devorando a trama
Do quadro, haurindo a pálida figura...
Tarde chega Dom Gil. De longe exclama:
— "Vou ver-te agora, ó santa criatura!"
Funda tristeza o rosto lhe anuvia;
Quem de Dom Gil esta tristeza espanca?
Havia um beijo — eis tudo quanto havia!
A tela estava inteiramente branca.
"Essa tristeza de tua alma espanca.
"Deixa o penhor de um beijo derradeiro
"No retrato gentil de Dona Branca".,
Mas tanto fel no longo beijo havia,
E tanta incomparável amargura,
Que o solitário beijo aos poucos ia
Roubando à tela a pálida figura.
Cresce, recresce, as linhas devastando,
Nódoa voraz pela figura entorna.
Dom Gil, onde se vai, demorando
Não aparece, aos lares não retorna?!
E o beijo avulta devorando a trama
Do quadro, haurindo a pálida figura...
Tarde chega Dom Gil. De longe exclama:
— "Vou ver-te agora, ó santa criatura!"
Funda tristeza o rosto lhe anuvia;
Quem de Dom Gil esta tristeza espanca?
Havia um beijo — eis tudo quanto havia!
A tela estava inteiramente branca.
1 302
Régis Bonvicino
Uma Idéia
palavras não matam
nem provocam inverno atômico
e na voz do poeta
(abelhas na colméia)
podem até conter uma idéia
nem provocam inverno atômico
e na voz do poeta
(abelhas na colméia)
podem até conter uma idéia
1 672
Castro Alves
Aquela Mão
Pálidos versos a um primor divino
ERA UA MÃO de luxo... Era um brinquedo!...
Mas tão bonita que metera medo,
Se não fosse, meu Deus! tão meiga e franca!
Mão pra se encher de gemas e brilhantes,
De suspiros, de anelos palpitantes...
Mas pra estalar as jóias e os amantes...
Aquela mão tão branca!
Era ua mão fidalga... exígua, escassa!
Mão de Duquesa! Era ua mão de raça
De sangue azul, em veios de Carrara!
Alva, tão alva que vencia a idéia
Das neblinas, dos gelos e da garça!...
Amassada no leite de Amaltéia
Aquela mão tão rara!
Tinha um gesto de musa! — Mão que voa,
Que do piano na ideal lagoa,
As asas banha em rapidez não vista!...
Como a andorinha que se arroja à toa,
Cruzando em beijos a extensão das teclas!
Acendendo no seio a luz dos Eclas...
Aquela mão de artista!
Mão de criança! Era ua mão de arminhos,
Tendo essas covas, esses alvos ninhos,
De aves que a terra desconhece ainda!
Lembrando as conchas dos parcéis marinhos,
A polpa branca dos nascentes lírios...
Covas... porque se enterram mil delírios
Naquela mão tão linda!
No teatro, uma noite, casta, esquiva,
Na luva de pelica a mão cativa,
Recordava um eclipse de lua...
Mas um momento após, deixando o guante,
Vi salvar-se da espuma, rutilante,
Como Vênus despida e palpitante,
Aquela mão tão nua!
Era uma régia mão! Que largas vezes
Sonhei torneios, morriões, arneses,
Bravos ginetes de nevada crina,
Justas feridas entre mil reveses,
Da média idade a sanguinosa palma...
Só pra o louro atirar... e a lança e a alma...
Aquela mão tão fina!
Uma noite sonhei que, em minha vida,
Deus acendia a estrela prometida,
Que leva os Reis ao trilho da ventura;
Mus, quando, ao longo da poenta estrada,
O suor me escorria damargura...
Passava em meus cabelos perfumada
Aquela mão tão pura!
Era ua mão que iluminara um cetro...
Mão que ensinava d’harmonia o metro
As esferas de luz que o dia encobres...
Tão santa que uma pérola indiscreta
Talvez toldasse esta nudez tão nobre...
Vazia Era a riqueza do Poeta Aquela mão tão pobre!
Era ua mão que provocava o roubo!
Era ua mio para conter o globo!
Tinha a luz que arrebata, a luz que encanta!
Fôra o gênio de Sócrates o Grego!
Domara em Roma os cônsules e o lobo?
Mão que em trevas buscara Homero cego
Aquela mão tão santa!
ERA UA MÃO de luxo... Era um brinquedo!...
Mas tão bonita que metera medo,
Se não fosse, meu Deus! tão meiga e franca!
Mão pra se encher de gemas e brilhantes,
De suspiros, de anelos palpitantes...
Mas pra estalar as jóias e os amantes...
Aquela mão tão branca!
Era ua mão fidalga... exígua, escassa!
Mão de Duquesa! Era ua mão de raça
De sangue azul, em veios de Carrara!
Alva, tão alva que vencia a idéia
Das neblinas, dos gelos e da garça!...
Amassada no leite de Amaltéia
Aquela mão tão rara!
Tinha um gesto de musa! — Mão que voa,
Que do piano na ideal lagoa,
As asas banha em rapidez não vista!...
Como a andorinha que se arroja à toa,
Cruzando em beijos a extensão das teclas!
Acendendo no seio a luz dos Eclas...
Aquela mão de artista!
Mão de criança! Era ua mão de arminhos,
Tendo essas covas, esses alvos ninhos,
De aves que a terra desconhece ainda!
Lembrando as conchas dos parcéis marinhos,
A polpa branca dos nascentes lírios...
Covas... porque se enterram mil delírios
Naquela mão tão linda!
No teatro, uma noite, casta, esquiva,
Na luva de pelica a mão cativa,
Recordava um eclipse de lua...
Mas um momento após, deixando o guante,
Vi salvar-se da espuma, rutilante,
Como Vênus despida e palpitante,
Aquela mão tão nua!
Era uma régia mão! Que largas vezes
Sonhei torneios, morriões, arneses,
Bravos ginetes de nevada crina,
Justas feridas entre mil reveses,
Da média idade a sanguinosa palma...
Só pra o louro atirar... e a lança e a alma...
Aquela mão tão fina!
Uma noite sonhei que, em minha vida,
Deus acendia a estrela prometida,
Que leva os Reis ao trilho da ventura;
Mus, quando, ao longo da poenta estrada,
O suor me escorria damargura...
Passava em meus cabelos perfumada
Aquela mão tão pura!
Era ua mão que iluminara um cetro...
Mão que ensinava d’harmonia o metro
As esferas de luz que o dia encobres...
Tão santa que uma pérola indiscreta
Talvez toldasse esta nudez tão nobre...
Vazia Era a riqueza do Poeta Aquela mão tão pobre!
Era ua mão que provocava o roubo!
Era ua mio para conter o globo!
Tinha a luz que arrebata, a luz que encanta!
Fôra o gênio de Sócrates o Grego!
Domara em Roma os cônsules e o lobo?
Mão que em trevas buscara Homero cego
Aquela mão tão santa!
2 112
Castro Alves
EM Que Pensas?
Oh! Pepita, charmante rifle
Mon amour, à quoi penses-tu?
ALF. DE MuswT.
TU PENSAS na flor que nasce
Menos bela do que tu!
Na borboleta vivace
Beijando teu colo nu!
No raio da lua algente
Que bebe no teu olhar ...
Como um cisne alvinitente
No cálix do nenufar.
Nas orvalhadas cantigas
Destas selvagens manhãs...
Nas flores — tuas amigas!
Nas pombas — tuas írmãs!
Tu pensas, é Fiorentina,
No gênio de teu país...
Que uma harpa soberba afina
Em cada seio de atriz.
Na esteira de luz que arrasta
A glória no louco afã!
Nos diademas da Pasta...
Nas palmas de Malibran!
Pensas nos climas distantes
Que um sol vermelho queimou...
Nesses mares ofegantes
Que o teu navio cortou!
Na bruma que lá sescoa...
Na estrela que morre além...
Na Santa que te abençoa,...
Na Santa que te quer bem!...
Tu pensas n’Arte sagrada,
Nesta severa mulher...
Mais que Débora inspirada...
Mais rutilante que Ester.
Tu pensas em mil quimeras,
Nos orientes do amor.
No vacilar das esferas
Pelas noites de languor.
Nalgum sonho peregrino
Que o teu ideal criou.
Na vassalagem, no hino...
Que a multidão te atirou!
Neste condão que teus dedos
Têm de domar os leões...
No pipilar de uns segredos,
No musgo dos corações...
No livro — que tens no colo!
Nos versos — que tens aos pés!
Nos belos gelos do pólo...
Como teus seios cruéis.
Pensas em tudo que é belo,
Puro, brilhante, ideal...
No teu soberbo cabelo!
No teu dorso escultural!
Nos tesouros de ventura
Que a umalma podias dar;
No alento da boca pura...
Na graça do puro olhar...
Pensas em tudo que é nobre,
Que entorna luz e fulgor!
Nas minas, que o mar encobre!
Nas avarezas do amor!
Pensas em tudo que invade
O seio de um Querubim!...
Deus! Amor! Felicidade!
... Só tu não pensas em mim!...
Mon amour, à quoi penses-tu?
ALF. DE MuswT.
TU PENSAS na flor que nasce
Menos bela do que tu!
Na borboleta vivace
Beijando teu colo nu!
No raio da lua algente
Que bebe no teu olhar ...
Como um cisne alvinitente
No cálix do nenufar.
Nas orvalhadas cantigas
Destas selvagens manhãs...
Nas flores — tuas amigas!
Nas pombas — tuas írmãs!
Tu pensas, é Fiorentina,
No gênio de teu país...
Que uma harpa soberba afina
Em cada seio de atriz.
Na esteira de luz que arrasta
A glória no louco afã!
Nos diademas da Pasta...
Nas palmas de Malibran!
Pensas nos climas distantes
Que um sol vermelho queimou...
Nesses mares ofegantes
Que o teu navio cortou!
Na bruma que lá sescoa...
Na estrela que morre além...
Na Santa que te abençoa,...
Na Santa que te quer bem!...
Tu pensas n’Arte sagrada,
Nesta severa mulher...
Mais que Débora inspirada...
Mais rutilante que Ester.
Tu pensas em mil quimeras,
Nos orientes do amor.
No vacilar das esferas
Pelas noites de languor.
Nalgum sonho peregrino
Que o teu ideal criou.
Na vassalagem, no hino...
Que a multidão te atirou!
Neste condão que teus dedos
Têm de domar os leões...
No pipilar de uns segredos,
No musgo dos corações...
No livro — que tens no colo!
Nos versos — que tens aos pés!
Nos belos gelos do pólo...
Como teus seios cruéis.
Pensas em tudo que é belo,
Puro, brilhante, ideal...
No teu soberbo cabelo!
No teu dorso escultural!
Nos tesouros de ventura
Que a umalma podias dar;
No alento da boca pura...
Na graça do puro olhar...
Pensas em tudo que é nobre,
Que entorna luz e fulgor!
Nas minas, que o mar encobre!
Nas avarezas do amor!
Pensas em tudo que invade
O seio de um Querubim!...
Deus! Amor! Felicidade!
... Só tu não pensas em mim!...
1 993
Castro Alves
No Camarote
(Sobre motivos de espanhol)
NO CAMAROTE gélida e quieta
Por que imóvel assim cravas a vista?
És o sonho de neve de um poeta?
És a estátua de pedra de um artista?
Debalde cresce de harmonia o canto...
A Moça não o escuta, além perdida!
Que amuleto prendeu-a no quebranto?
Em que céu vai boiando aquela vida?
Onde se engolfa o cisne dessa mente?
Em que vagas azuis desce cantando?
Que bafagem, meu Deus! frouxa, dormente,
Lhe acalenta o cismar no alento brando?
— Arcanjo, deusa ou pálida madona —
Quem é, surpresa, a multidão pergunta...
E ao vê-la mais gentil que Desdemona
Como para rezar as mãos ajunta.
Odalisca talvez de haréns brilhantes,
Ela no lábio as multidões algema.
Talvez destalma nas visões errantes
Voa a pura miragem de um poema.
Nem um riso, entretanto, a flux luzindo
Aos delírios que esfolha a cavatina,
A boca rubra de improviso abrindo,
Esta fronte fatídica ilumina.
Pois naquela alma só se encontra neve?
Nada palpita nessa forma branca?
Pois não freme este mármore de leve?
Pois nem o canto esta friez lhe arranca?
Ai! Ninguém fie dessa calma estranha
— Êxtase santo de harmonias cheio
— Guarda a lava a petrina da montanha,
Guarda Vesúvios o palor de um seio.
Oh! ser a idéia dessa fronte pura,
Ser o desejo desse lábio quente,
Fora o meu sonho de ideal ventura,
Fora o delírio de minhalma ardente.
Feliz quem possa na ansiedade louca
Esta bela mulher prender nos braços...
Beber o mel na rosa desta boca,
Beijar-lhe os pés... quando beijar-lhe os passos!
NO CAMAROTE gélida e quieta
Por que imóvel assim cravas a vista?
És o sonho de neve de um poeta?
És a estátua de pedra de um artista?
Debalde cresce de harmonia o canto...
A Moça não o escuta, além perdida!
Que amuleto prendeu-a no quebranto?
Em que céu vai boiando aquela vida?
Onde se engolfa o cisne dessa mente?
Em que vagas azuis desce cantando?
Que bafagem, meu Deus! frouxa, dormente,
Lhe acalenta o cismar no alento brando?
— Arcanjo, deusa ou pálida madona —
Quem é, surpresa, a multidão pergunta...
E ao vê-la mais gentil que Desdemona
Como para rezar as mãos ajunta.
Odalisca talvez de haréns brilhantes,
Ela no lábio as multidões algema.
Talvez destalma nas visões errantes
Voa a pura miragem de um poema.
Nem um riso, entretanto, a flux luzindo
Aos delírios que esfolha a cavatina,
A boca rubra de improviso abrindo,
Esta fronte fatídica ilumina.
Pois naquela alma só se encontra neve?
Nada palpita nessa forma branca?
Pois não freme este mármore de leve?
Pois nem o canto esta friez lhe arranca?
Ai! Ninguém fie dessa calma estranha
— Êxtase santo de harmonias cheio
— Guarda a lava a petrina da montanha,
Guarda Vesúvios o palor de um seio.
Oh! ser a idéia dessa fronte pura,
Ser o desejo desse lábio quente,
Fora o meu sonho de ideal ventura,
Fora o delírio de minhalma ardente.
Feliz quem possa na ansiedade louca
Esta bela mulher prender nos braços...
Beber o mel na rosa desta boca,
Beijar-lhe os pés... quando beijar-lhe os passos!
1 647
Laura Amélia Damous
Circo
Avanço e recuo
ao estalido da dor
Me curvo
para os aplausos da platéia
Alguém pede bis
Sangro até morrer
ao estalido da dor
Me curvo
para os aplausos da platéia
Alguém pede bis
Sangro até morrer
849
Gilka Machado
Impressões do Gesto
(A uma bailadeira)
A tua dança indefinida,
que me retém extática, surpresa,
guarda em si resumida
a harmonia orquestral da natureza,
a euritmia da Vida.
(...)
Danças, os membros novamente agitas,
todo teu ser parece-me tomado
por convulsões de dores infinitas...
E desse trágico crescendo
de gestos que enchem o silêncio de ais,
vais
smorzando, descendo,
como que por encanto,
presa de um místico quebranto...
Danças e cuido estar em ti me vendo.
Os teus meneios
são
cheios
de meus anseios;
a tua dança é a exteriorização
de tudo quanto sinto:
minha imaginação
e meu instinto
movem-se nela alternadamente;
minha volúpia, vejo-a torça, no ar,
quando teu corpo lânguido, indolente,
sensibiliza a quietação do ambiente,
ora a crescer, ora a minguar
numa flexuosidade de serpente
a se enroscar
e a se desenroscar.
Em tua dança agitada ou calma,
de adejos cheia e cheia de elastérios,
materializa-se minha alma,
pois nos teus membros leves, quase etéreos,
eu contemplo os meus gestos interiores,
meus prazeres, meus tédios, minhas dores!
(...)
Publicado no livro Mulher nua: poesia (1922).
In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 1991, p.227-230
A tua dança indefinida,
que me retém extática, surpresa,
guarda em si resumida
a harmonia orquestral da natureza,
a euritmia da Vida.
(...)
Danças, os membros novamente agitas,
todo teu ser parece-me tomado
por convulsões de dores infinitas...
E desse trágico crescendo
de gestos que enchem o silêncio de ais,
vais
smorzando, descendo,
como que por encanto,
presa de um místico quebranto...
Danças e cuido estar em ti me vendo.
Os teus meneios
são
cheios
de meus anseios;
a tua dança é a exteriorização
de tudo quanto sinto:
minha imaginação
e meu instinto
movem-se nela alternadamente;
minha volúpia, vejo-a torça, no ar,
quando teu corpo lânguido, indolente,
sensibiliza a quietação do ambiente,
ora a crescer, ora a minguar
numa flexuosidade de serpente
a se enroscar
e a se desenroscar.
Em tua dança agitada ou calma,
de adejos cheia e cheia de elastérios,
materializa-se minha alma,
pois nos teus membros leves, quase etéreos,
eu contemplo os meus gestos interiores,
meus prazeres, meus tédios, minhas dores!
(...)
Publicado no livro Mulher nua: poesia (1922).
In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 1991, p.227-230
1 905
Laura Amélia Damous
Quiromancia
A mão do poema
é a que me cabe
inteira
A outra,
eu a carrego,
pesada e alheia.
é a que me cabe
inteira
A outra,
eu a carrego,
pesada e alheia.
1 141