Poemas neste tema
Arte
Marina Colasanti
POR UMA LUZ
O que foi que te fez
Modigliani
você que sempre preferiu mulher
despida
despida não apenas por sem roupa
despida porque vestida por sua forma
apenas
o que foi que te fez
e em que momento
pintar a cabeça
o retrato
a metafórica lembrança de
Madame Pompadour?
O chapéu emplumado
o enviesado rosto
o busto
e ao alto
grafito
inscrito
o nome da Marquesa.
Logo você
que depurava a linha em busca
da pureza.
Terá sido um deboche?
ou a força irresistivel de uma luz
pousada sobre a pele cor de fruta
sobre a pele maçã
obrigando tua mão a retratar
em toda a sua volúpia
a cortesã?
Modigliani
você que sempre preferiu mulher
despida
despida não apenas por sem roupa
despida porque vestida por sua forma
apenas
o que foi que te fez
e em que momento
pintar a cabeça
o retrato
a metafórica lembrança de
Madame Pompadour?
O chapéu emplumado
o enviesado rosto
o busto
e ao alto
grafito
inscrito
o nome da Marquesa.
Logo você
que depurava a linha em busca
da pureza.
Terá sido um deboche?
ou a força irresistivel de uma luz
pousada sobre a pele cor de fruta
sobre a pele maçã
obrigando tua mão a retratar
em toda a sua volúpia
a cortesã?
1 075
Marilda Vasconcelos de Oliveira
Arte Plástica
Um deus recria o perfil imaginado.
Tintas desfia sobre a tela
compondo a substância
de um rosto pétreo.
Surge amarga boca
desdenhando frutos
olhar de gelo
nuca de soldado alerta.
Entanto
as mãos do mesmo deus
impondo ao pincel
ordem de lã
na tela fazem nascer um outro rosto
e as tintas
traço a traço
configuram
na cruz sacrificado
um justo agonizante.
Tintas desfia sobre a tela
compondo a substância
de um rosto pétreo.
Surge amarga boca
desdenhando frutos
olhar de gelo
nuca de soldado alerta.
Entanto
as mãos do mesmo deus
impondo ao pincel
ordem de lã
na tela fazem nascer um outro rosto
e as tintas
traço a traço
configuram
na cruz sacrificado
um justo agonizante.
544
Marina Colasanti
PISANELLO, AL LOUVRE
La Principessa Estense
che hai ritratta
su un fondo di farfalle
e di fioretti
cosa pensava mentre stava in posa?
Sorride appena appena
lo sguardo basso
il volto quasi chino
l'espressione serena.
Era sposa da poco
Margherita
di nome fiore anch'essa
e in piena fioritura
nessun vento la sfiora
la morte non l'adombra
sebbene sia vicina
Offre il profilo
e attende che il futuro
la prenda
Cicco il futuro alla sua fronte alta
alla gola di stelo passerà oltre
consegnandola al nulla
E a salvarla
sara solo il ritratto.
che hai ritratta
su un fondo di farfalle
e di fioretti
cosa pensava mentre stava in posa?
Sorride appena appena
lo sguardo basso
il volto quasi chino
l'espressione serena.
Era sposa da poco
Margherita
di nome fiore anch'essa
e in piena fioritura
nessun vento la sfiora
la morte non l'adombra
sebbene sia vicina
Offre il profilo
e attende che il futuro
la prenda
Cicco il futuro alla sua fronte alta
alla gola di stelo passerà oltre
consegnandola al nulla
E a salvarla
sara solo il ritratto.
1 038
Marina Colasanti
PARA SEMPRE ATADOS
Há cento e vinte anos
no tapete da sala
o arco retesado ameaça
a gazela
o cavaleiro persa galopa
entre pavões
e as folhas de roseira se entrelaçam.
Há cento e vinte anos
uma pluma se dobra
no turbante
um chorão se debruça
sobre a água
e o leopardo entre lirios arma o salto.
Cento e vinte mil fios
feitos laçada
atam o dorso e o olhar
enfeixam verdes talos
retêm a flecha no arco
a garra no alto
a pluma no vento.
Entre trama e urdidura
as algemas dos nós
jamais afrouxam.
Imóveis estão para sempre
o medo
a fuga
a morte
proibidos de alcançar
o seu destino.
Nesse tempo suspenso
apoio os pés.
no tapete da sala
o arco retesado ameaça
a gazela
o cavaleiro persa galopa
entre pavões
e as folhas de roseira se entrelaçam.
Há cento e vinte anos
uma pluma se dobra
no turbante
um chorão se debruça
sobre a água
e o leopardo entre lirios arma o salto.
Cento e vinte mil fios
feitos laçada
atam o dorso e o olhar
enfeixam verdes talos
retêm a flecha no arco
a garra no alto
a pluma no vento.
Entre trama e urdidura
as algemas dos nós
jamais afrouxam.
Imóveis estão para sempre
o medo
a fuga
a morte
proibidos de alcançar
o seu destino.
Nesse tempo suspenso
apoio os pés.
1 088
Marina Colasanti
COLEÇÃO ALBERTINA OU A FELICIDADE DE PAPEL
Que serena se põe a minha alma
nessa poltrona preta entre colunas.
Do espelho em frente
meu contorno confuso pela falta de óculos
me diz que ainda estou bem
embora encasacada.
Ecos chegam e passam
sem dar por mim
um tilintar de chaves se entrelaça
com a visão que guardo de um desenho
com o bater de saltos sobre a escada
e sons viajantes vêm de sala em sala
bater de portas
vozes
chamados
abafados relatos que o curador não vê
nem inclui no catálogo
legados que se aninham
na moldura de um quadro
na franja espessa da tapeçaria
esperando o esvaziar-se do museu
para calar-se enfim
ou fazer-se poeira.
Viena 1995
nessa poltrona preta entre colunas.
Do espelho em frente
meu contorno confuso pela falta de óculos
me diz que ainda estou bem
embora encasacada.
Ecos chegam e passam
sem dar por mim
um tilintar de chaves se entrelaça
com a visão que guardo de um desenho
com o bater de saltos sobre a escada
e sons viajantes vêm de sala em sala
bater de portas
vozes
chamados
abafados relatos que o curador não vê
nem inclui no catálogo
legados que se aninham
na moldura de um quadro
na franja espessa da tapeçaria
esperando o esvaziar-se do museu
para calar-se enfim
ou fazer-se poeira.
Viena 1995
1 074
Myriam Fraga
Os Retratos
I
Na matemática severa
Das imagens
Em retângulo brilhante
A face,
Preservada.
Aqui o tempo é um esmalte claro
E o traço outrora impreciso
É perfeito e mineral.
Somente extinta aparência
Vislumbrada além do morto
Confinado
Nos retratos.
II
Em luz e sombra agora
O contemplado
Rosto de antigamente
Exato e raro.
Tudo que foi
Aqui está enterrado.
Em branco e preto
A soma revelada
Do que outrora foi vida
E hoje é distância.
Na matemática severa
Das imagens
Em retângulo brilhante
A face,
Preservada.
Aqui o tempo é um esmalte claro
E o traço outrora impreciso
É perfeito e mineral.
Somente extinta aparência
Vislumbrada além do morto
Confinado
Nos retratos.
II
Em luz e sombra agora
O contemplado
Rosto de antigamente
Exato e raro.
Tudo que foi
Aqui está enterrado.
Em branco e preto
A soma revelada
Do que outrora foi vida
E hoje é distância.
1 208
Marina Colasanti
CLARA LUZ DE VERMEER
Sobre a minha mesa
interminavelmente
a mulher lê uma carta.
A mulher lê uma carta
no quadro de Vermeer
a mulher lê uma carta
no cartão que comprei
do quadro de Vermeer.
No museu
naquela sala em Dresden
onde a encontrei
pendente
a mulher lê uma carta
a mulher lê a carta lida
por Vermeer.
Naquela sala que escurece à noite
que o vigia escurece à noite
com um toque no interruptor
naquela sala a que o vigia traz noite
toda noite
na exata hora do fechamento
naquela sala escura como caixa com tampa
a luz transborda
sobre a mulher de Vermeer
a clara luz clara água dos quadros de Vermeer
jorra se lança flui
sobre a mulher que lê frente à janela
molda o fino perfil
os leves cachos
e escreve
sem palavras
a mensagem da carta
entre suas mãos.
interminavelmente
a mulher lê uma carta.
A mulher lê uma carta
no quadro de Vermeer
a mulher lê uma carta
no cartão que comprei
do quadro de Vermeer.
No museu
naquela sala em Dresden
onde a encontrei
pendente
a mulher lê uma carta
a mulher lê a carta lida
por Vermeer.
Naquela sala que escurece à noite
que o vigia escurece à noite
com um toque no interruptor
naquela sala a que o vigia traz noite
toda noite
na exata hora do fechamento
naquela sala escura como caixa com tampa
a luz transborda
sobre a mulher de Vermeer
a clara luz clara água dos quadros de Vermeer
jorra se lança flui
sobre a mulher que lê frente à janela
molda o fino perfil
os leves cachos
e escreve
sem palavras
a mensagem da carta
entre suas mãos.
1 083
Marina Colasanti
Pietá
Foi com os dedos
com a lingua suave e áspera
dos dedos
não com o duro osso
que Michelangelo poliu
o corpo do Cristo
morto
o morto
corpo do Cristo.
Mármore feito mel
favo escorrendo
na doçura da carne
abandonada.
Inútil é teu esforço
Buonarroti
tentando erguer
o Cristo
pelos braços.
Teu rijo rosto envolto
no capuz
teu patético olhar
já traem o que bem sabes,
que a vida
a vida que o deixou
você só lhe dará esculpindo-lhe a morte.
com a lingua suave e áspera
dos dedos
não com o duro osso
que Michelangelo poliu
o corpo do Cristo
morto
o morto
corpo do Cristo.
Mármore feito mel
favo escorrendo
na doçura da carne
abandonada.
Inútil é teu esforço
Buonarroti
tentando erguer
o Cristo
pelos braços.
Teu rijo rosto envolto
no capuz
teu patético olhar
já traem o que bem sabes,
que a vida
a vida que o deixou
você só lhe dará esculpindo-lhe a morte.
1 084
Eduardo Guimaraens
Carnaval
Andaluzíssimas Manolas
que faz mais lindas a peineta,
soai, vibrai as castanholas
e a pandeireta!
E vós, dos bandós empoados,
ó Marquesinhas de Watteau,
que abrís os lábios recortados
em formas de ô!
Napolitanas, de escarlate
lenço à cabeça em cada orelha
um argolão, seios "di latte"
e de groselha!
Lascivas Zíngaras de olheiras,
ó pestanudas e fatais,
esfarrapadas feiticeiras
que adivinhais,
lendo nas mãos, sortes de amores,
fados de morte, ó desgraçadas
que, entre esses trapos de mil cores,
sois como Fadas!
Vinde, gementes Colombinas
que abandonou, sem pena, o amor,
ao triste som de mandolinas
da noite em flor!
E vós, soberbas Odaliscas
que Harum-al-Rachild invejara,
tendo um incêndio de faíscas
na carne clara!
Ó Nubianas d'azeviche
e brancos dentes de marfim,
como a giz, postos num fetiche
feito a nanquim!
Ó Gueixas dos jardins de Yeddo:
Nuvem que passa, Arco de jade,
Sonho de luz, casto Segredo,
Sol de bondade,
na graça alacre e flutuante
de aves e peixes e dragões
dos quimonos, à luz berrante
dos seus balões,
vinde! E vós, de que os grandes laços
à testa voam, gráceis lhanas,
para trazer-vos há cem braços,
Alsacianas!
Agora, ó Girls de saiote,
é vossa vez: eia, ao tan-tan
dumone-step, dum fox-trot...
troa o jazz-band!
Ó Baiadeiras! Eh, floristas!
Vós, Escocesas! Midinettes!
Ó saias-curtas! Sufragistas
e gigolettes!
Dai-vos as mãos: e andai à roda,
que a mascarada às ruas sai,
andai à roda, à roda toda!
E desandai!
E queira o céu que a água não role,
que não desbote o rico traje,
mas o divino emplastro mole
dos "maquillages"...
Dirija a ronda a minha Musa
que apenas usa pó de arroz,
pois quanto ao "rouge" que a lambuza,
foi Deus que o pôs...
Imagem - 00350001
In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org. e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 1944. Poema integrante da série Estâncias de um Peregrino
que faz mais lindas a peineta,
soai, vibrai as castanholas
e a pandeireta!
E vós, dos bandós empoados,
ó Marquesinhas de Watteau,
que abrís os lábios recortados
em formas de ô!
Napolitanas, de escarlate
lenço à cabeça em cada orelha
um argolão, seios "di latte"
e de groselha!
Lascivas Zíngaras de olheiras,
ó pestanudas e fatais,
esfarrapadas feiticeiras
que adivinhais,
lendo nas mãos, sortes de amores,
fados de morte, ó desgraçadas
que, entre esses trapos de mil cores,
sois como Fadas!
Vinde, gementes Colombinas
que abandonou, sem pena, o amor,
ao triste som de mandolinas
da noite em flor!
E vós, soberbas Odaliscas
que Harum-al-Rachild invejara,
tendo um incêndio de faíscas
na carne clara!
Ó Nubianas d'azeviche
e brancos dentes de marfim,
como a giz, postos num fetiche
feito a nanquim!
Ó Gueixas dos jardins de Yeddo:
Nuvem que passa, Arco de jade,
Sonho de luz, casto Segredo,
Sol de bondade,
na graça alacre e flutuante
de aves e peixes e dragões
dos quimonos, à luz berrante
dos seus balões,
vinde! E vós, de que os grandes laços
à testa voam, gráceis lhanas,
para trazer-vos há cem braços,
Alsacianas!
Agora, ó Girls de saiote,
é vossa vez: eia, ao tan-tan
dumone-step, dum fox-trot...
troa o jazz-band!
Ó Baiadeiras! Eh, floristas!
Vós, Escocesas! Midinettes!
Ó saias-curtas! Sufragistas
e gigolettes!
Dai-vos as mãos: e andai à roda,
que a mascarada às ruas sai,
andai à roda, à roda toda!
E desandai!
E queira o céu que a água não role,
que não desbote o rico traje,
mas o divino emplastro mole
dos "maquillages"...
Dirija a ronda a minha Musa
que apenas usa pó de arroz,
pois quanto ao "rouge" que a lambuza,
foi Deus que o pôs...
Imagem - 00350001
In: GUIMARAENS, Eduardo. A divina quimera. Org. e pref. Mansueto Bernardi. Porto Alegre: Globo, 1944. Poema integrante da série Estâncias de um Peregrino
1 104
Manuel Bandeira
Ribeiro Couto
Não é ruim, não é do Couto,
É Rui, mas não é Barbosa:
É, sim, Rui Ribeiro Couto,
Mestre do verso e da prosa.
É Rui, mas não é Barbosa:
É, sim, Rui Ribeiro Couto,
Mestre do verso e da prosa.
1 063
Marina Colasanti
CARNE DE LEITE E LUA
Nenhuma mulher foi mais branca
que Suzana
despida para o banho.
Carne de leite e lua
papel da pele
e o sangue todo oculto
em falsa neve.
Uma perna na água
verde
escuro
um reflexo no espelho
negro
fundo
e um pente de marfim
sobre o gramado.
Não tem corpo
Suzana
luz somente
que em forma de mulher
se banha à fonte.
Nem tem corpo
esse velho que rasteja
vermelha larva
duas mãos e uma calvicie
arrastando a luxúria como
um manto.
As escamas das tranças
coroam Suzana.
Ao longe
entre folhagens
outro velho espia.
Só Tintoretto olha
sem cobiça
a carne
que se banha
em sua palheta.
que Suzana
despida para o banho.
Carne de leite e lua
papel da pele
e o sangue todo oculto
em falsa neve.
Uma perna na água
verde
escuro
um reflexo no espelho
negro
fundo
e um pente de marfim
sobre o gramado.
Não tem corpo
Suzana
luz somente
que em forma de mulher
se banha à fonte.
Nem tem corpo
esse velho que rasteja
vermelha larva
duas mãos e uma calvicie
arrastando a luxúria como
um manto.
As escamas das tranças
coroam Suzana.
Ao longe
entre folhagens
outro velho espia.
Só Tintoretto olha
sem cobiça
a carne
que se banha
em sua palheta.
1 163
Mario Ribeiro Martins
Cosme Velho
Quando contemplo as tuas obras primas,
escritor imortal, de que me ufano,
eu não tenho nas minhas pobres rimas,
um termo que te cante e seja humano.
Do romantismo, sufocaste as cimas,
com coragem tal qual de veterano.
Pregaste o realismo com seus climas,
pelo teu verbo forte e soberano.
Como se fosses ser divino-humano,
passaste humildemente pelo mundo,
vencendo os homens com vigor profundo.
Mas, como não venceste o teu engano,
morreste então, sem fé, sem Evangelho,
no rico casarão do COSME VELHO.
escritor imortal, de que me ufano,
eu não tenho nas minhas pobres rimas,
um termo que te cante e seja humano.
Do romantismo, sufocaste as cimas,
com coragem tal qual de veterano.
Pregaste o realismo com seus climas,
pelo teu verbo forte e soberano.
Como se fosses ser divino-humano,
passaste humildemente pelo mundo,
vencendo os homens com vigor profundo.
Mas, como não venceste o teu engano,
morreste então, sem fé, sem Evangelho,
no rico casarão do COSME VELHO.
972
Matheus Tonello
O Show da Vida
Abrem-se as cortinas, o show vai começar,
Não é só o dia que amanhece, com ele vem as marionetes incansáveis,
Controladas pela força básica da vida;
Todos os gestos, ações, movimentos, nada é nosso
Somos manipulados por um destino, seja ele bom ou ruim...
Nossas lágrimas, nossos risos são puramente encomendados,
Para dar vida ao espetáculo
O show tem momentos de dor, paixão, tristeza e encantamento,
Há momentos em que a emoção é tão forte,
Que nos dá a nítida impressão de estarmos
VIVOS!
O que temos a fazer? E a felicidade?
Talvez não sejamos o mais feliz possível,
Mas diante das circunstâncias inconstantes de vida e
morte,
Acondicionaremos a felicidade a uma palavra muito importante,
FÉ!
Não é só o dia que amanhece, com ele vem as marionetes incansáveis,
Controladas pela força básica da vida;
Todos os gestos, ações, movimentos, nada é nosso
Somos manipulados por um destino, seja ele bom ou ruim...
Nossas lágrimas, nossos risos são puramente encomendados,
Para dar vida ao espetáculo
O show tem momentos de dor, paixão, tristeza e encantamento,
Há momentos em que a emoção é tão forte,
Que nos dá a nítida impressão de estarmos
VIVOS!
O que temos a fazer? E a felicidade?
Talvez não sejamos o mais feliz possível,
Mas diante das circunstâncias inconstantes de vida e
morte,
Acondicionaremos a felicidade a uma palavra muito importante,
FÉ!
926
Torquato Neto
Quando o Santo Guerreiro Entrega as Pontas
letra de música para um plano geral
dedicateded to the one i loved
ou
atenção imbecis: o cinema é novo
e só se vê muita galinha e pouco ovo
ou melhor ainda:
QUANDO O SANTO GUERREIRO ENTREGA AS PONTAS
nada de mais:
o muro pintado de verde
e ninguém que precise dizer-me
que esse verde que não quero verde
lírico
mais planos e mais planos
se desfaz:
nada demais:
aqui de dentro eu pego e furo a fogo
e luz
(é movimento)
vosso sistema protetor de incêndios
e pinto a tela o muro diferente
porque uso como quero minhas lentes
e filmo o verde,
que eu não temo o verde,
de outra cor:
diariamente encaro bem de perto
e escarro sobre o muro:
nada demais
a fruta não está verde nem madura
é dura
e dura
e dura o tempo
contratempo
de escolher
o enquadramento melhor — ver do outro lado
com olhos livres
(nem deus nem diabo), projetar
lado de dentro — a luz mais pura
embora a sala do cinema seja escura:
nada demais:
planos gerais sobre a paisagem
sobre o muro da passagem proibida
enquanto procuramos (encontramos)
infinitas brechas escondidas.
cuidado madame.
nada de mais: cadê o câncer
daquela tarde alucinante?
ai de mim, copacabana, desvairada, mon amour.
nada de mais
na tela do cinema oficial:
já não estamos nos formando com o tal,
o general da banda do cinema que deserta:
a arqueologia é na cinemateca. esquece.
e tudo começou de novo e já acontece
(sentença de deus)
e o resto aconteceu: the end.
fim.
não falem mais dessa mulher perto de mim.
depois da fruta podreverde que apodrece — a tela livre
de quem só tem memória
a aí só conta história,
o muro iluminado de outra cor
e outra glória
pois quem não morre não deserta nem se entrega
desprega o comovido verde lírico
e apronta e inventa e acontece com o perigo
(poesia)
a imagem nova — o arco tenso
os nove fora
(tema: cinema: lema)
a prova.
1972
Imagem - 00360001
In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982
NOTA: Referência aos filmes O DRAGÃO DA MALDADE CONTRA O SANTO GUERREIRO e DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL, de Glauber Roch
dedicateded to the one i loved
ou
atenção imbecis: o cinema é novo
e só se vê muita galinha e pouco ovo
ou melhor ainda:
QUANDO O SANTO GUERREIRO ENTREGA AS PONTAS
nada de mais:
o muro pintado de verde
e ninguém que precise dizer-me
que esse verde que não quero verde
lírico
mais planos e mais planos
se desfaz:
nada demais:
aqui de dentro eu pego e furo a fogo
e luz
(é movimento)
vosso sistema protetor de incêndios
e pinto a tela o muro diferente
porque uso como quero minhas lentes
e filmo o verde,
que eu não temo o verde,
de outra cor:
diariamente encaro bem de perto
e escarro sobre o muro:
nada demais
a fruta não está verde nem madura
é dura
e dura
e dura o tempo
contratempo
de escolher
o enquadramento melhor — ver do outro lado
com olhos livres
(nem deus nem diabo), projetar
lado de dentro — a luz mais pura
embora a sala do cinema seja escura:
nada demais:
planos gerais sobre a paisagem
sobre o muro da passagem proibida
enquanto procuramos (encontramos)
infinitas brechas escondidas.
cuidado madame.
nada de mais: cadê o câncer
daquela tarde alucinante?
ai de mim, copacabana, desvairada, mon amour.
nada de mais
na tela do cinema oficial:
já não estamos nos formando com o tal,
o general da banda do cinema que deserta:
a arqueologia é na cinemateca. esquece.
e tudo começou de novo e já acontece
(sentença de deus)
e o resto aconteceu: the end.
fim.
não falem mais dessa mulher perto de mim.
depois da fruta podreverde que apodrece — a tela livre
de quem só tem memória
a aí só conta história,
o muro iluminado de outra cor
e outra glória
pois quem não morre não deserta nem se entrega
desprega o comovido verde lírico
e apronta e inventa e acontece com o perigo
(poesia)
a imagem nova — o arco tenso
os nove fora
(tema: cinema: lema)
a prova.
1972
Imagem - 00360001
In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982
NOTA: Referência aos filmes O DRAGÃO DA MALDADE CONTRA O SANTO GUERREIRO e DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL, de Glauber Roch
2 296
Marina Colasanti
CIRCO DE SOL
Chovia em Viena
quando te vi ao lado do Opera
e fomos juntas ao
Circo do Sol.
Fazia frio
era noite
mas debaixo da lona
o sol
andou de bicicleta
sobre um fio e despencou
na ponta de um elástico.
Em Viena
quando saímos
debaixo das pequenas lonas
dos guarda-chuvas abertos
trazíamos todos
no peito
um coração saltimbanco.
Viena 1995
quando te vi ao lado do Opera
e fomos juntas ao
Circo do Sol.
Fazia frio
era noite
mas debaixo da lona
o sol
andou de bicicleta
sobre um fio e despencou
na ponta de um elástico.
Em Viena
quando saímos
debaixo das pequenas lonas
dos guarda-chuvas abertos
trazíamos todos
no peito
um coração saltimbanco.
Viena 1995
1 202
Torquato Neto
Hoje Tem Espetáculo
Vá ao cinema: presta?
Vá ao teatro: presta?
Esses filmes servem a quê?
Servem a quem?
Essas peças: servem? Pra quê?
Divirta-se: teu programa é esse,
bicho: vá ao cinema
vá ao teatro, vá ao concerto
disco é cultura, vá para o inferno:
o paraíso na tela no palco na boca
do som
e nas palavras todas
na ferrugem dos gestos e nas trancas
da porta da rua
no movimento das imagens: violência
e frescura: montagem.
Divirta-se. O inferno
é perto é longe, o paraíso
custa muito pouco.
Pra que serve este filme, serve a
quem?
Pra que serve esse tema, serve a
quem?
De churrasco em churrasco encha
o seu caco,
amizade. Cante seresta na churrascaria
e arrote filmes-teatros-marchas-ranchos
alegrias e tal: volte (como sempre)
atrás,
fique na sua
bons tempos são para sempre — jamais
bata no peito, bata no prato, é
assim que se faz
a festa. Reclame isso: esse filme
não presta
o diretor é fraco e essa história eu
conheço
esse papo é pesado demais pras
crianças na sala
é macio, é demais: serve a quem,
amizade?
Teu roteiro hoje é esse, meu bicho: cante
tudo na churrascaria
não saia nunca mais da frente fria
sirva, serve, bicho, criança, bonecão
sirva sirva sirva mais
churrasco churrasquinho churrascão.
Sirva um samba de Noel, uma ciranda
uma toada do Gonzaga (o pai),
aquele samba
aquela exaltação de um iê-iê-iê
romanticosuavespuma
bem macio
um filme de mocinho e de bandidos
uma peça qualquer com muito
drama:
encha o caco, amizade, tudo é
porta
e vá entrando à vontade, a casa
é sua, entre
pelos filmes em cartaz, pelas peças
sobre os palcos
vá entrando pelo papo, entrando
pelo cano
geral; coma churrasco, sirva, vá
entrando
e servindo (a quê a quem?)
encha o seu caco. Divirta-se, bata
no prato
e peça bis, reclame, cante o quanto
queira
afaste o lixo, nem pense:
teu programa é esse mesmo, bicho.
Imagem - 00360001
In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 198
Vá ao teatro: presta?
Esses filmes servem a quê?
Servem a quem?
Essas peças: servem? Pra quê?
Divirta-se: teu programa é esse,
bicho: vá ao cinema
vá ao teatro, vá ao concerto
disco é cultura, vá para o inferno:
o paraíso na tela no palco na boca
do som
e nas palavras todas
na ferrugem dos gestos e nas trancas
da porta da rua
no movimento das imagens: violência
e frescura: montagem.
Divirta-se. O inferno
é perto é longe, o paraíso
custa muito pouco.
Pra que serve este filme, serve a
quem?
Pra que serve esse tema, serve a
quem?
De churrasco em churrasco encha
o seu caco,
amizade. Cante seresta na churrascaria
e arrote filmes-teatros-marchas-ranchos
alegrias e tal: volte (como sempre)
atrás,
fique na sua
bons tempos são para sempre — jamais
bata no peito, bata no prato, é
assim que se faz
a festa. Reclame isso: esse filme
não presta
o diretor é fraco e essa história eu
conheço
esse papo é pesado demais pras
crianças na sala
é macio, é demais: serve a quem,
amizade?
Teu roteiro hoje é esse, meu bicho: cante
tudo na churrascaria
não saia nunca mais da frente fria
sirva, serve, bicho, criança, bonecão
sirva sirva sirva mais
churrasco churrasquinho churrascão.
Sirva um samba de Noel, uma ciranda
uma toada do Gonzaga (o pai),
aquele samba
aquela exaltação de um iê-iê-iê
romanticosuavespuma
bem macio
um filme de mocinho e de bandidos
uma peça qualquer com muito
drama:
encha o caco, amizade, tudo é
porta
e vá entrando à vontade, a casa
é sua, entre
pelos filmes em cartaz, pelas peças
sobre os palcos
vá entrando pelo papo, entrando
pelo cano
geral; coma churrasco, sirva, vá
entrando
e servindo (a quê a quem?)
encha o seu caco. Divirta-se, bata
no prato
e peça bis, reclame, cante o quanto
queira
afaste o lixo, nem pense:
teu programa é esse mesmo, bicho.
Imagem - 00360001
In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 198
2 111
Marina Colasanti
COM A DESTREZA DE QUEM
Quando Artemisia degolou
Holofernes
com que prazer o fez.
Não dorme
o general
está desperto e luta
contra a aia que o crava
sobre a cama
contra as mãos de Judite que
enojada
livres os braços das pesadas mangas
fortes os pulsos
com a destreza de quem mata
um frango
empurra-lhe a cabeça para um lado
e para o outro corta-lhe
o pescoço.
Gentileschi
era o nome de Artemisia
estuprada no estúdio
de seu pai
e frente a seus juízes
torturada.
Doce deve ter sido
para ela
vingar-se em Holofernes
sobre a tela.
Holofernes
com que prazer o fez.
Não dorme
o general
está desperto e luta
contra a aia que o crava
sobre a cama
contra as mãos de Judite que
enojada
livres os braços das pesadas mangas
fortes os pulsos
com a destreza de quem mata
um frango
empurra-lhe a cabeça para um lado
e para o outro corta-lhe
o pescoço.
Gentileschi
era o nome de Artemisia
estuprada no estúdio
de seu pai
e frente a seus juízes
torturada.
Doce deve ter sido
para ela
vingar-se em Holofernes
sobre a tela.
925
Machado de Assis
O Poeta a Rir
Taça d'água parece o lago ameno;
Têm os bambus a forma de cabanas,
Que as árvores em flor, mais altas, cobrem
Com verdejantes tetos.
As pontiagudas rochas entre flores,
Dos pagodes o grave aspecto ostentam...
Faz-me rir ver-te assim, ó natureza,
Cópia servil dos homens.
Publicado no livro Falenas: Vária, Lira Chinesa, Uma Ode a Anacreonte, Pálida Elvira (1870). Poema integrante da série Lira Chinesa.
In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v.3, p.53. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira)
NOTA: Paráfrase de poema de Han-Tiê, poeta chinês, baseada em tradução em prosa feita por Judith Walter em 186
Têm os bambus a forma de cabanas,
Que as árvores em flor, mais altas, cobrem
Com verdejantes tetos.
As pontiagudas rochas entre flores,
Dos pagodes o grave aspecto ostentam...
Faz-me rir ver-te assim, ó natureza,
Cópia servil dos homens.
Publicado no livro Falenas: Vária, Lira Chinesa, Uma Ode a Anacreonte, Pálida Elvira (1870). Poema integrante da série Lira Chinesa.
In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v.3, p.53. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira)
NOTA: Paráfrase de poema de Han-Tiê, poeta chinês, baseada em tradução em prosa feita por Judith Walter em 186
1 882
Emílio de Menezes
O D E
Este é o ranzinza-mor, porém no bom sentido.
Monta guarda à pureza e à precisão do idioma.
É o espectro do imbecil, o horror do presumido;
Contra ele a arraia miúda o ódio que tem não doma.
Geninhos da Garnier, geniões de ar sucumbido,
Poetinhas de salão, poetarrões de redoma
Que deturpam a língua, ai deles! é sabido:
O cacete é aforismo e a cacetada é axioma.
Mas este foge a lei (que aliás é conceituosa)
De que a crítica faz só aquele que, perverso,
De produzir, o orgulho e a delícia não goza.
De pena o bico atroz, no vernáculo, imerso,
Se a sabe esmerilhar, sabe polir a prosa,
Se o sabe criticar, sabe compor o verso.
Publicado no livro Mortalhas: os deuses em ceroulas (1924).
In: MENEZES, Emílio de. Obra reunida: Poemas da Morte, Poesias, Últimas Rimas, Mortalhas, Esparsos e Inéditos. Org. Cassiana Lacerda Carollo. Rio de Janeiro: J. Olympio; Curitiba: Secretaria da Cultura e do Esporte do Estado, 198
Monta guarda à pureza e à precisão do idioma.
É o espectro do imbecil, o horror do presumido;
Contra ele a arraia miúda o ódio que tem não doma.
Geninhos da Garnier, geniões de ar sucumbido,
Poetinhas de salão, poetarrões de redoma
Que deturpam a língua, ai deles! é sabido:
O cacete é aforismo e a cacetada é axioma.
Mas este foge a lei (que aliás é conceituosa)
De que a crítica faz só aquele que, perverso,
De produzir, o orgulho e a delícia não goza.
De pena o bico atroz, no vernáculo, imerso,
Se a sabe esmerilhar, sabe polir a prosa,
Se o sabe criticar, sabe compor o verso.
Publicado no livro Mortalhas: os deuses em ceroulas (1924).
In: MENEZES, Emílio de. Obra reunida: Poemas da Morte, Poesias, Últimas Rimas, Mortalhas, Esparsos e Inéditos. Org. Cassiana Lacerda Carollo. Rio de Janeiro: J. Olympio; Curitiba: Secretaria da Cultura e do Esporte do Estado, 198
1 340
Raimundo Correia
Versos a um Artista
A Olavo Bilac
Tu artista, com zelo,
Esmerilha e investiga!
Níssia, o melhor modelo
Vivo, oferece, da beleza antiga.
Para esculpi-la, em vão, árduos, no meio
De esbraseada arena,
Batem-se, quebram-se em fatal torneio,
Pincel, lápis, buril, cinzel e pena.
A Afrodite pagã, que o pejo afronta,
Exposta nua do universo às vistas,
Dos seios duros na marmórea ponta
Amamentando gerações de artistas,
Não na excede; e, ao contrário, em sua rica
Nudez, por mil espelhos,
Mostra o que ela não mostra, de pudica,
Do colo abaixo e acima dos artelhos.
Analisa-a, sagaz, linha por linha,
E à tão sagaz minúcia apenas poupa
Tudo o que se não vê, mas se adivinha
Por sob a avara roupa...
Deixa que a roupa avara
Do peito o virginal tesoiro esconda,
E o mais, até... onde, perfeita e clara,
A barriga da perna se arredonda...
Basta-te à vista esperta
Revela-se, através do linho grosso,
O alabastro da espádua mal coberta,
E o Paros do pescoço.
Basta que traia, como trai, de leve,
O contorno flexuoso...
Basta esse rosto ideal - púrpura e neve -
E a curva grega do nariz gracioso.
Um quase nada basta, enfim, que traia
Ao teu olhar agudo,
Para que este deduza, tire, extraia
Daquele quase nada, quase tudo...
(...)
In: Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.51-55
NOTA: Poema composto de 35 quadras
MOVIMENTOS LITERÁRIOS
1880/1922 - Parnasianismo
TRAÇOS FORMAIS:
Decassílabo
Hexassílabo
Quadra
TEMAS/ASSUNTOS
ARTE
- Artes Plásticas e Visuais
- Linguagem/Literatura
NOME
- Escritor
. Olavo Bilac
RELIGIÃO/MITOLOGI
Tu artista, com zelo,
Esmerilha e investiga!
Níssia, o melhor modelo
Vivo, oferece, da beleza antiga.
Para esculpi-la, em vão, árduos, no meio
De esbraseada arena,
Batem-se, quebram-se em fatal torneio,
Pincel, lápis, buril, cinzel e pena.
A Afrodite pagã, que o pejo afronta,
Exposta nua do universo às vistas,
Dos seios duros na marmórea ponta
Amamentando gerações de artistas,
Não na excede; e, ao contrário, em sua rica
Nudez, por mil espelhos,
Mostra o que ela não mostra, de pudica,
Do colo abaixo e acima dos artelhos.
Analisa-a, sagaz, linha por linha,
E à tão sagaz minúcia apenas poupa
Tudo o que se não vê, mas se adivinha
Por sob a avara roupa...
Deixa que a roupa avara
Do peito o virginal tesoiro esconda,
E o mais, até... onde, perfeita e clara,
A barriga da perna se arredonda...
Basta-te à vista esperta
Revela-se, através do linho grosso,
O alabastro da espádua mal coberta,
E o Paros do pescoço.
Basta que traia, como trai, de leve,
O contorno flexuoso...
Basta esse rosto ideal - púrpura e neve -
E a curva grega do nariz gracioso.
Um quase nada basta, enfim, que traia
Ao teu olhar agudo,
Para que este deduza, tire, extraia
Daquele quase nada, quase tudo...
(...)
In: Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.51-55
NOTA: Poema composto de 35 quadras
MOVIMENTOS LITERÁRIOS
1880/1922 - Parnasianismo
TRAÇOS FORMAIS:
Decassílabo
Hexassílabo
Quadra
TEMAS/ASSUNTOS
ARTE
- Artes Plásticas e Visuais
- Linguagem/Literatura
NOME
- Escritor
. Olavo Bilac
RELIGIÃO/MITOLOGI
5 450
Manuel Bandeira
Hilda Moscoso
O poeta te deseja, Hilda, o favor divino
Neste metro, como teu pai, alexandrino.
Neste metro, como teu pai, alexandrino.
942
Gerardo Mello Mourão
Cantor de cântaros
Cantor de cântaros
escande
no cântaro a cantárida do canto
cantaria de cântico
cantor cantar cantata cantaria
canteiro de cantares
ora oleiro
oleiro de canções
à ternura do barro torneava falus
e ao moinho do ventre as raparigas
trituravam cantando o doce oleiro
e o pó, Polymnia, pólen
do oleiro cantador
entre
as violasdas fêmeas
entre
a cintura da terra
pênis de barro
Orfeu de barro
no teu ventre pó, Polymnia, pólen
súbito flor
no cântaro se esconde
e escande
pela pele da Musa pela pedra
canta:
canteiro de cantares
cantaria de espuma labirinto
de âmbar
por terra matinal por mar salgado
por inefável seio
de Lisboa por Goa e Madragoa
e Pero Lopes de Souza
e de seus bagos venho
e ali
e aqui
começa o labirinto de Gerardo.
De Lisboa
por Goa e Madragoa peripécia
de Vasco, Pedro e Manuel
Diogo Cão e Antônio Cão
mais a matilha toda dos mastins do mar
farejavam as águas de onde
morder à tona dos sargaços
lamber
a tua verde mão
terra de aurora
pois te cerca e me cerca
a aurora com suas coisas:
e são coisas da aurora
a estrela morredoura
a nascedoura rosa
e sob o azul azul
do céu o boi mijando
fervoroso no curral
o relincho do cavalo erecto
sobre as ancas da égua
estas são — parece — coisas da aurora
e a aurora é coisa minha.
E era uma vez em Sagres um Infante
e Cristóvão Colombo e Vasco e Pedro
e de uns sabeis e de outros
sabem o mar salgado e os sabedores de água
e ventos velas gáveas caravelas
e quartos dalva e solidões e estrelas:
Martim e Pero
Lopes de Souza e de seus bagos venho
de Lisboa por Goa e Madragoa.
E era uma vez
o teu cantor:
quem sabe deste infante?
a coronha do rifle
o percorrido mapa
e um promontório de ouro
— ó musgos de Isabela —
e esses musgos de fêmea
são coisa minha
só tenho as minhas coisas,
e as minhas coisas são
o cavalo a égua o touro
o bode o rifle esta dama de copas
este gibão de couro
e a rosa que te colho:
e essas coisas trabalho
e também a viola e o mapa-mundi.
Dos outros sabe o mar
mas deste infante sabem
tua cintura fina a farejada flor
a noite a aurora
e essas coisas da aurora coisas minhas
peripécia e
labirinto de Gerardo.
escande
no cântaro a cantárida do canto
cantaria de cântico
cantor cantar cantata cantaria
canteiro de cantares
ora oleiro
oleiro de canções
à ternura do barro torneava falus
e ao moinho do ventre as raparigas
trituravam cantando o doce oleiro
e o pó, Polymnia, pólen
do oleiro cantador
entre
as violasdas fêmeas
entre
a cintura da terra
pênis de barro
Orfeu de barro
no teu ventre pó, Polymnia, pólen
súbito flor
no cântaro se esconde
e escande
pela pele da Musa pela pedra
canta:
canteiro de cantares
cantaria de espuma labirinto
de âmbar
por terra matinal por mar salgado
por inefável seio
de Lisboa por Goa e Madragoa
e Pero Lopes de Souza
e de seus bagos venho
e ali
e aqui
começa o labirinto de Gerardo.
De Lisboa
por Goa e Madragoa peripécia
de Vasco, Pedro e Manuel
Diogo Cão e Antônio Cão
mais a matilha toda dos mastins do mar
farejavam as águas de onde
morder à tona dos sargaços
lamber
a tua verde mão
terra de aurora
pois te cerca e me cerca
a aurora com suas coisas:
e são coisas da aurora
a estrela morredoura
a nascedoura rosa
e sob o azul azul
do céu o boi mijando
fervoroso no curral
o relincho do cavalo erecto
sobre as ancas da égua
estas são — parece — coisas da aurora
e a aurora é coisa minha.
E era uma vez em Sagres um Infante
e Cristóvão Colombo e Vasco e Pedro
e de uns sabeis e de outros
sabem o mar salgado e os sabedores de água
e ventos velas gáveas caravelas
e quartos dalva e solidões e estrelas:
Martim e Pero
Lopes de Souza e de seus bagos venho
de Lisboa por Goa e Madragoa.
E era uma vez
o teu cantor:
quem sabe deste infante?
a coronha do rifle
o percorrido mapa
e um promontório de ouro
— ó musgos de Isabela —
e esses musgos de fêmea
são coisa minha
só tenho as minhas coisas,
e as minhas coisas são
o cavalo a égua o touro
o bode o rifle esta dama de copas
este gibão de couro
e a rosa que te colho:
e essas coisas trabalho
e também a viola e o mapa-mundi.
Dos outros sabe o mar
mas deste infante sabem
tua cintura fina a farejada flor
a noite a aurora
e essas coisas da aurora coisas minhas
peripécia e
labirinto de Gerardo.
1 393
Manuel Bandeira
Augusto Frederico Schmidt
O poeta Augusto Frederico
Schmidt, de quem dizem que está rico,
Foi homem pobre, certifico,
Mas o poeta sempre foi rico.
Schmidt, de quem dizem que está rico,
Foi homem pobre, certifico,
Mas o poeta sempre foi rico.
781
Bernardo Guimarães
A Campanha do Paraguai
HERÓIDES BRASILEIRAS
IV
RIACHUELO E BARROSO
(...)
Salve, ó nomes tão dignos de memória!
Vós sós sois um poema!
E entre os troféus da brasileira glória
O mais formoso emblema!
..............................................
Porém que atroz painel!... da luta insana
Vede o cenário horrendo!
Espesso fumo ainda os céus empana
Do turvo rio o seio escurecendo.
Tristes destroços, corpos mutilados,
Troncos, cabeças, braços decepados
Lá vão rolando... mas silêncio, ó musa!...
Cantar não tentes a gentil proeza;
Arcar não deves com tamanha empresa
Que a teus débeis acentos se recusa...
Vem tu, Meirelles; vem, preclaro artista!
Rei do pincel, em meu socorro acode:
Desdobra à nossa vista
A tua radiante, imensa tela,
Mais eloquente, mais vivaz, mais bela
Que a mais formosa ode.
E o que da musa o canto desmaiado
A custo mal exprime,
Vem revelar ao mundo deslumbrado
Com teu pincel sublime.
Publicado no livro Novas Poesias (1876).
In: GUIMARÃES, Bernardo. Poesias completas. Org. introd. cronol. e notas Alphonsus de Guimaraens Filho. Rio de Janeiro: INL, 1959
NOTA: Poema composto de 8 partes: I - Invocação; II - Lopez e Humaitá; III - Osório e a passagem do Passo da Pátria; IV - Riachuelo e Barroso; V - Uruguaiana e Canavarro; VI - Tuiuti e 24 de Maio; VII - Porto Alegre; VIII - Assalto a Curuz
IV
RIACHUELO E BARROSO
(...)
Salve, ó nomes tão dignos de memória!
Vós sós sois um poema!
E entre os troféus da brasileira glória
O mais formoso emblema!
..............................................
Porém que atroz painel!... da luta insana
Vede o cenário horrendo!
Espesso fumo ainda os céus empana
Do turvo rio o seio escurecendo.
Tristes destroços, corpos mutilados,
Troncos, cabeças, braços decepados
Lá vão rolando... mas silêncio, ó musa!...
Cantar não tentes a gentil proeza;
Arcar não deves com tamanha empresa
Que a teus débeis acentos se recusa...
Vem tu, Meirelles; vem, preclaro artista!
Rei do pincel, em meu socorro acode:
Desdobra à nossa vista
A tua radiante, imensa tela,
Mais eloquente, mais vivaz, mais bela
Que a mais formosa ode.
E o que da musa o canto desmaiado
A custo mal exprime,
Vem revelar ao mundo deslumbrado
Com teu pincel sublime.
Publicado no livro Novas Poesias (1876).
In: GUIMARÃES, Bernardo. Poesias completas. Org. introd. cronol. e notas Alphonsus de Guimaraens Filho. Rio de Janeiro: INL, 1959
NOTA: Poema composto de 8 partes: I - Invocação; II - Lopez e Humaitá; III - Osório e a passagem do Passo da Pátria; IV - Riachuelo e Barroso; V - Uruguaiana e Canavarro; VI - Tuiuti e 24 de Maio; VII - Porto Alegre; VIII - Assalto a Curuz
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