Poemas neste tema
Arte
Charles Bukowski
Chopin Bukowski
este é meu piano.
o telefone toca e as pessoas perguntam,
o que você está fazendo? que tal
encher a cara com a gente?
e eu digo,
estou ao piano.
o quê?
desligo.
as pessoas precisam de mim. eu as
completo. se não podem me ver
por um tempo ficam desesperadas, ficam
doentes.
mas se as vejo muito seguido
eu fico doente. é difícil alimentar
sem ser alimentado.
meu piano me diz coisas em
troca.
às vezes as coisas estão
confusas e nada boas.
outras vezes
consigo ser tão bom e sortudo como
Chopin.
às vezes me sinto enferrujado
desafinado. isso
faz parte.
posso me sentar e vomitar sobre as
teclas
mas é meu
vômito.
é melhor do que sentar em uma sala
com 3 ou 4 pessoas e
seus pianos.
este é meu piano
e é melhor que os deles.
e eles gostam e desgostam
dele.
o telefone toca e as pessoas perguntam,
o que você está fazendo? que tal
encher a cara com a gente?
e eu digo,
estou ao piano.
o quê?
desligo.
as pessoas precisam de mim. eu as
completo. se não podem me ver
por um tempo ficam desesperadas, ficam
doentes.
mas se as vejo muito seguido
eu fico doente. é difícil alimentar
sem ser alimentado.
meu piano me diz coisas em
troca.
às vezes as coisas estão
confusas e nada boas.
outras vezes
consigo ser tão bom e sortudo como
Chopin.
às vezes me sinto enferrujado
desafinado. isso
faz parte.
posso me sentar e vomitar sobre as
teclas
mas é meu
vômito.
é melhor do que sentar em uma sala
com 3 ou 4 pessoas e
seus pianos.
este é meu piano
e é melhor que os deles.
e eles gostam e desgostam
dele.
1 257
Martha Medeiros
o que uma guitarra faz
o que uma guitarra faz
nenhum rapaz comigo já fez
nenhum rapaz comigo já fez
1 134
Ruy Belo
Os fingimentos da poesia
Lendo há dias algumas passagens de uns discursos sobre a maneira de compor o romance e a tragédia, publicados por j. garibaldi no ano de 1554, chamou-me a atenção o longo processo que leonardo da vinci seguiu até pintar a cabeça de judas no seu quadro de a ceia. Depois de, mediante um aturado estudo dos evangelhos, ter reconstituído o ambiente e cada uma das personagens que tencionava representar, depois de ter pintado todo o quadro, só lhe faltava a cabeça. Todos os dias ia à procura dela ao borghetto, o bairro de milão onde naquele tempo se reunia a ralé. Até que finalmente a descobriu. Pegou nela, levou-a consigo e meteu-a no quadro.
Semelhante descrição parece-me ilustrar um dos caminhos do poeta. Arranca esse senhor à linguagem quotidiana aquelas palavras que lhe faltavam para fechar um poema. Como é que lá chega? Pegando naquilo que vê, pensa ou sente e sacrificando-o ao fio da sua meditação. Despreza aquele conjunto de circunstâncias que rodeavam a palavra e dá nova arrumação à palavra liberta. Tanto faz que se fale de desumanização, como de falsidade, como de fingimento.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 183 e 184 | Editorial Presença Lda., 1984
Semelhante descrição parece-me ilustrar um dos caminhos do poeta. Arranca esse senhor à linguagem quotidiana aquelas palavras que lhe faltavam para fechar um poema. Como é que lá chega? Pegando naquilo que vê, pensa ou sente e sacrificando-o ao fio da sua meditação. Despreza aquele conjunto de circunstâncias que rodeavam a palavra e dá nova arrumação à palavra liberta. Tanto faz que se fale de desumanização, como de falsidade, como de fingimento.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 183 e 184 | Editorial Presença Lda., 1984
722
Charles Bukowski
99 Para Um
o tubarão resplandecente
quer meus bagos
enquanto atravesso a seção de carnes
em busca de salame e queijo
donas de casa púrpuras
apalpando abacates de 75 centavos
sabem que meu carrinho é um
pau monstruoso
sou um homem com um relógio antigo
parado em uma cabine telefônica numa espelunca
chupando um bico vermelho como morango
de cabeça para baixo em meio à multidão na Filadélfia.
de repente tudo ao meu redor são gritos de
ESTUPRO ESTUPRO ESTUPRO ESTUPRO ESTUPRO
e eu estou metendo em alguma coisa debaixo de mim
cabelos de um ruivo opaco, mau hálito, dentes azuis
costumava gostar de Monet
costumava gostar muito de Monet
era divertido, eu pensava, o que ele fazia
com as cores
mulheres são caras demais
coleiras para cachorro são caras
vou começar a vender ar em sacos alaranjados
com os dizeres: florescências da lua
costumava gostar de garrafas cheias de sangue
jovens garotas em casacos de pelo de camelo
Príncipe Valente
o toque mágico do Popeye
o esforço está no esforço
como um saca-rolhas
um homem de verdade não deixa farelos de cortiça no vinho
este pensamento já ocorreu a milhões de homens
ao se barbearem
a remoção da vida talvez fosse preferível à
remoção dos pelos
cuspa algodão e limpe seu espelho
retrovisor, corra como se tivesse vontade, ex-atleta,
as putas vencerão, os tolos vencerão,
mas dispare como um cavalo ao sinal da largada.
quer meus bagos
enquanto atravesso a seção de carnes
em busca de salame e queijo
donas de casa púrpuras
apalpando abacates de 75 centavos
sabem que meu carrinho é um
pau monstruoso
sou um homem com um relógio antigo
parado em uma cabine telefônica numa espelunca
chupando um bico vermelho como morango
de cabeça para baixo em meio à multidão na Filadélfia.
de repente tudo ao meu redor são gritos de
ESTUPRO ESTUPRO ESTUPRO ESTUPRO ESTUPRO
e eu estou metendo em alguma coisa debaixo de mim
cabelos de um ruivo opaco, mau hálito, dentes azuis
costumava gostar de Monet
costumava gostar muito de Monet
era divertido, eu pensava, o que ele fazia
com as cores
mulheres são caras demais
coleiras para cachorro são caras
vou começar a vender ar em sacos alaranjados
com os dizeres: florescências da lua
costumava gostar de garrafas cheias de sangue
jovens garotas em casacos de pelo de camelo
Príncipe Valente
o toque mágico do Popeye
o esforço está no esforço
como um saca-rolhas
um homem de verdade não deixa farelos de cortiça no vinho
este pensamento já ocorreu a milhões de homens
ao se barbearem
a remoção da vida talvez fosse preferível à
remoção dos pelos
cuspa algodão e limpe seu espelho
retrovisor, corra como se tivesse vontade, ex-atleta,
as putas vencerão, os tolos vencerão,
mas dispare como um cavalo ao sinal da largada.
1 189
André Pieyre de Mandiargues
O incêndio
O que vais então buscar no incêndio
Atrás dos vapores de esplendor barroco
Pelo segredo de um escadario roto
Estrangulado de heras escarlates?
Que voto fez-te empurrar porta ardente
Face santa de fogo e cinzas
Ao limite de mundo triste
Silêncio deterioração fingimento?
Diante de ti agora só há
Diamantes e rubis que brincam na poeira
Só gesso recaído sobre o chão de mármore
Com estátuas brancas as armas
As mãos de vidro os vasos cheios de lágrimas
O preto de velório e as rosas passadas
Embaixo de muros caducos
Vem uma dama deslumbrante e fúnebre
Logo aparecida logo desaparecida logo reaparecida
Logo mais nua ainda
Que é como a sombra de um desolar.
Nua em sangue e negra
Uma faísca em seu cabelo desfeito
Rubra como um craveiro que encravava a fuligem.
Calcando aos pés as pedras
O ouro e a prata o fragor do cristal
Indiferente à opulência ou à ruína
Na beleza de uma hora catastrófica.
E vais achá-la talvez boa atriz
A gigante que se estende com tranquilidade
Sobre a calçada como sobre navalha
Enquanto em volta explode e se dispersa
O louco luxo de seu teatro de sempre
Que mil línguas engolem.
(tradução de William Zeytounlian)
:
L'incendie
Qu'allais-tu donc chercher à travers l'incendie
Derrière des vapeurs à la splendeur baroque
Par le secret d'un escalier en loques
Etranglé de lierres écarlates ?
Quel voeu te fit pousser une porte brûlante
Sainte face de feu et de cendre
A la limite d'un monde morne
Sournoieserie silence délabrement ?
Devant toi ce n'est plus maintenant
Que diamants et rubis qui jouent dans la poussière
Que plâtres retombés sur de carreaux de marbre
Avec des statues blanches des armes
Des mains de verre des vases pleins de larmes
Des nègres de velours et des roses passées
Au bas de murs caducs.
Il vient une dame éclatante et funèbre
Tôt apparue tôt disparue tôt reparue
Plus tôt encore nue
Qui est comme l'ombre d'une désolation.
Nue saignante et noire
Une flammèche en ses cheveux défaits
Rouge comme un oeillet qui crèverait la suie.
Foulant aux pieds les pierres
L'or et l'argent le fracas du cristal
Indifférente à l'opulance ou à la ruine
Dans la beauté d'une heure catastrophique.
Et tu la trouveras peut-être bonne actrice
La géante qui s'étend avec tranquillité
Sur le pavement comme sous un couteau
Tandis qu'alentour explose et se disperse
Le luxe fou de son théâtre de toujours
Que mille langues engloutissent.
Atrás dos vapores de esplendor barroco
Pelo segredo de um escadario roto
Estrangulado de heras escarlates?
Que voto fez-te empurrar porta ardente
Face santa de fogo e cinzas
Ao limite de mundo triste
Silêncio deterioração fingimento?
Diante de ti agora só há
Diamantes e rubis que brincam na poeira
Só gesso recaído sobre o chão de mármore
Com estátuas brancas as armas
As mãos de vidro os vasos cheios de lágrimas
O preto de velório e as rosas passadas
Embaixo de muros caducos
Vem uma dama deslumbrante e fúnebre
Logo aparecida logo desaparecida logo reaparecida
Logo mais nua ainda
Que é como a sombra de um desolar.
Nua em sangue e negra
Uma faísca em seu cabelo desfeito
Rubra como um craveiro que encravava a fuligem.
Calcando aos pés as pedras
O ouro e a prata o fragor do cristal
Indiferente à opulência ou à ruína
Na beleza de uma hora catastrófica.
E vais achá-la talvez boa atriz
A gigante que se estende com tranquilidade
Sobre a calçada como sobre navalha
Enquanto em volta explode e se dispersa
O louco luxo de seu teatro de sempre
Que mil línguas engolem.
(tradução de William Zeytounlian)
:
L'incendie
Qu'allais-tu donc chercher à travers l'incendie
Derrière des vapeurs à la splendeur baroque
Par le secret d'un escalier en loques
Etranglé de lierres écarlates ?
Quel voeu te fit pousser une porte brûlante
Sainte face de feu et de cendre
A la limite d'un monde morne
Sournoieserie silence délabrement ?
Devant toi ce n'est plus maintenant
Que diamants et rubis qui jouent dans la poussière
Que plâtres retombés sur de carreaux de marbre
Avec des statues blanches des armes
Des mains de verre des vases pleins de larmes
Des nègres de velours et des roses passées
Au bas de murs caducs.
Il vient une dame éclatante et funèbre
Tôt apparue tôt disparue tôt reparue
Plus tôt encore nue
Qui est comme l'ombre d'une désolation.
Nue saignante et noire
Une flammèche en ses cheveux défaits
Rouge comme un oeillet qui crèverait la suie.
Foulant aux pieds les pierres
L'or et l'argent le fracas du cristal
Indifférente à l'opulance ou à la ruine
Dans la beauté d'une heure catastrophique.
Et tu la trouveras peut-être bonne actrice
La géante qui s'étend avec tranquillité
Sur le pavement comme sous un couteau
Tandis qu'alentour explose et se disperse
Le luxe fou de son théâtre de toujours
Que mille langues engloutissent.
981
Carlos Drummond de Andrade
O Combate da Luz
A Alphonsus de Guimaraens Filho
O combate da luz
contra os monstros da sombra:
assim tua poesia
é alvorada e angústia.
Pousa a morte nos ramos
do tronco apendoado.
Mas da seiva rebentam
novos, florentes cânticos.
Não pode o céu noturno
desfazer os berilos,
os íntimos diamantes
do verso teu ao mundo,
inefável presente
não de matéria vã:
do que melhor define
o fluido sentimento,
o lancinante anseio,
a sublimada essência
do amor, cativo e livre
— teu lírico segredo.
Pois pelo amor resgatas
o pensamento lúgubre,
a dor de antigas fontes,
as perdidas paragens,
e na era absurda crias
a ligação perene
da saudade dos anjos
na chama da poesia.
O combate da luz
contra os monstros da sombra:
assim tua poesia
é alvorada e angústia.
Pousa a morte nos ramos
do tronco apendoado.
Mas da seiva rebentam
novos, florentes cânticos.
Não pode o céu noturno
desfazer os berilos,
os íntimos diamantes
do verso teu ao mundo,
inefável presente
não de matéria vã:
do que melhor define
o fluido sentimento,
o lancinante anseio,
a sublimada essência
do amor, cativo e livre
— teu lírico segredo.
Pois pelo amor resgatas
o pensamento lúgubre,
a dor de antigas fontes,
as perdidas paragens,
e na era absurda crias
a ligação perene
da saudade dos anjos
na chama da poesia.
1 187
Carlos Drummond de Andrade
Eu Quisera Ver o Mundo
Eu quisera ver o mundo
como o vê Sérgio Bernardo:
ver, no mundo, os muitos signos
que vigiam sob as coisas.
Sentir, sob a forma, as formas,
os segredos da matéria,
mais a textura dos sonhos
de que se forma o real.
Ver a vida em plenitude
e em seu mistério mais alto;
decifrar a linha, a sombra,
a mensagem não ouvida,
mas que palpita na Terra.
Eu quisera ter os olhos
que assim penetram o arcano
e o tornam (poder da imagem)
um conhecimento humano.
como o vê Sérgio Bernardo:
ver, no mundo, os muitos signos
que vigiam sob as coisas.
Sentir, sob a forma, as formas,
os segredos da matéria,
mais a textura dos sonhos
de que se forma o real.
Ver a vida em plenitude
e em seu mistério mais alto;
decifrar a linha, a sombra,
a mensagem não ouvida,
mas que palpita na Terra.
Eu quisera ter os olhos
que assim penetram o arcano
e o tornam (poder da imagem)
um conhecimento humano.
1 208
Carlos Drummond de Andrade
A Festa de Ziraldo
Vou à festa de Ziraldo,
vou levando Jeremias.
Ziraldo vai me mostrando
o tom de Flicts da Lua.
Jeremias, meu compadre,
meu anjo da guarda de óculos,
dá uma de milagreiro
fazendo que a supermãe
largue o súper, se tornando
mãe comum, ao natural.
A festa vai esquentando
dentro e fora da piscina.
Jeremias e Ziraldo
ao soar a concertina
já se tornam Jerizaldo
e Ziralmias, no caos?
Entra a Rainha, entra o Príncipe
da Grã-Britânia ou Caxias,
entra toda a macacada
com sentido na cerveja,
no hot-dog e no restante
que se pega ou se fareja,
mas Ziraldo, ziraldando,
e Jeremias, quebrando
o galho de toda gente,
me mostram que a melhor festa,
de todas a mais bacana,
inserida no contexto,
está nos livros-mandinga,
nos cartoons, bonecos, bolas
incomparáveis de um certo
mineiro de Caratinga.
vou levando Jeremias.
Ziraldo vai me mostrando
o tom de Flicts da Lua.
Jeremias, meu compadre,
meu anjo da guarda de óculos,
dá uma de milagreiro
fazendo que a supermãe
largue o súper, se tornando
mãe comum, ao natural.
A festa vai esquentando
dentro e fora da piscina.
Jeremias e Ziraldo
ao soar a concertina
já se tornam Jerizaldo
e Ziralmias, no caos?
Entra a Rainha, entra o Príncipe
da Grã-Britânia ou Caxias,
entra toda a macacada
com sentido na cerveja,
no hot-dog e no restante
que se pega ou se fareja,
mas Ziraldo, ziraldando,
e Jeremias, quebrando
o galho de toda gente,
me mostram que a melhor festa,
de todas a mais bacana,
inserida no contexto,
está nos livros-mandinga,
nos cartoons, bonecos, bolas
incomparáveis de um certo
mineiro de Caratinga.
1 165
Carlos Drummond de Andrade
Centenário
Francisco Biquiba La Fuente Guarany
conjurou os seres malévolos das águas.
Com o poder de suas mãos meio espanholas,
meio índias, meio africanas,
totalmente brasileiras.
Das mãos de Guarany surdiram monstros
que colocados na proa dos barcos
protegiam os viajantes contra os terrores do rio.
Eram monstros benignos, conjunção de forças milenares
enlaçadas na mente de Guarany.
As águas purificaram-se, as viagens
tornaram-se festivas e violeiras.
E ninguém temia a morte, e o louvor da vida
era uma canção implícita no cedro das carrancas.
Os tempos são outros. Onde as carrancas?
Onde os barcos, as travessias melodiosas de antigamente?
O rio São Francisco está sem mistério e poesia?
A poesia e o mistério pousaram
no rosto centenário de Francisco, irmão moreno
do santo de Assis, também ele miraculoso,
pelo poder das mãos calejadas e criadeiras.
conjurou os seres malévolos das águas.
Com o poder de suas mãos meio espanholas,
meio índias, meio africanas,
totalmente brasileiras.
Das mãos de Guarany surdiram monstros
que colocados na proa dos barcos
protegiam os viajantes contra os terrores do rio.
Eram monstros benignos, conjunção de forças milenares
enlaçadas na mente de Guarany.
As águas purificaram-se, as viagens
tornaram-se festivas e violeiras.
E ninguém temia a morte, e o louvor da vida
era uma canção implícita no cedro das carrancas.
Os tempos são outros. Onde as carrancas?
Onde os barcos, as travessias melodiosas de antigamente?
O rio São Francisco está sem mistério e poesia?
A poesia e o mistério pousaram
no rosto centenário de Francisco, irmão moreno
do santo de Assis, também ele miraculoso,
pelo poder das mãos calejadas e criadeiras.
1 329
Carlos Drummond de Andrade
Companheiro
No 80o aniversário de Pedro Nava
Esse mocinho Nava, tão levado,
que nos cafés-sentados deixa a marca
de desenhista baudelairiano
entre cruel e místico, requinte
à Whistler, à Beardsley, a ele mesmo,
em apagadiço mármore de instante,
e na minha aloucada companhia
noturna, entre magnólias de silêncio,
emudece douradas campainhas
de casas transplantadas de Ouro Preto,
onde castos jardins cercam as virgens
de religiosas essências nupciais,
ou vai trocando as coisas de lugar,
a placa do causídico eminente
levando para a porta do dentista,
e a do médico ilustre despejando
no barrento fluir do ribeirão
Arrudas! e mais feitos, não me lembra
(mentira: oh se me lembro e quanto
ao tilintar avaro de memórias
como se moedas fossem, por que não?);
esse Pedro abancado à triste banca
de emprego burocrático vigiado
por severo doutor nada poético:
fugindo à mornidão do expediente
para a aula de anatomia — grande aluno —
ou para o Rio de Janeiro a ver — rever —
imagens que ninguém como ele viu
de velhas ruas, morros e pessoas,
descobrindo, em estético relance,
o nariz grego, a máscara romana,
os retratos de Proust ou Van Leyden
implantados em medíocres semblantes;
esse Pedro que é dois, que é três, é cinco,
aplicado estudante, insano jovem,
esse Pedro quem é? Quem o descobre
completo
lúdico
sério
imprevisível?
senão ele mesmo um dia vai mostrar-se
no desdobrado amor da medicina,
Pedro enrustido no primeiro Pedro
que belo-horizontinamente se aprestava
para o serviço do sofrimento humano
pela manhã — e à noite se entregava
aos anárquicos, doidos exercícios
de nossa boemia antimineira
e tão mineira, sim! em seu desgarre
de sufocadas, montanhosas forças
em luta desigual com o inamovível
senso grave dos queijos e da ordem?
Esse Pedro,
penso às vezes que fui seu lado esquerdo
em tão saudosos, hoje, magros tempos
de busca, de revolta, de amarugem,
de desvairado humor sem rumo certo,
a desviá-lo do seu bom caminho…
Alguns meses mais velho, e má presença
de subversivo incompetente e aéreo,
sem rabo de diabo mas diabólico,
era eu, talvez, seu anjo de desguarda?
Ele se ri de minha culpa, assume-a,
e seguimos os dois, jogando pedras
(oitent’anos vividos, revividos,
transvividos no açúcar da saudade),
e seguimos e estacamos e fugimos
incendiando (ou quase) residências,
no estrelado silêncio de magnólias
ou de damas-da-noite (tanto faz),
pavor de velhos, beijo de meninas,
assunto de censória indignação,
arremetendo
contra o inimigo burguês que nos despreza…
Esse Nava, querido companheiro.
Esse mocinho Nava, tão levado,
que nos cafés-sentados deixa a marca
de desenhista baudelairiano
entre cruel e místico, requinte
à Whistler, à Beardsley, a ele mesmo,
em apagadiço mármore de instante,
e na minha aloucada companhia
noturna, entre magnólias de silêncio,
emudece douradas campainhas
de casas transplantadas de Ouro Preto,
onde castos jardins cercam as virgens
de religiosas essências nupciais,
ou vai trocando as coisas de lugar,
a placa do causídico eminente
levando para a porta do dentista,
e a do médico ilustre despejando
no barrento fluir do ribeirão
Arrudas! e mais feitos, não me lembra
(mentira: oh se me lembro e quanto
ao tilintar avaro de memórias
como se moedas fossem, por que não?);
esse Pedro abancado à triste banca
de emprego burocrático vigiado
por severo doutor nada poético:
fugindo à mornidão do expediente
para a aula de anatomia — grande aluno —
ou para o Rio de Janeiro a ver — rever —
imagens que ninguém como ele viu
de velhas ruas, morros e pessoas,
descobrindo, em estético relance,
o nariz grego, a máscara romana,
os retratos de Proust ou Van Leyden
implantados em medíocres semblantes;
esse Pedro que é dois, que é três, é cinco,
aplicado estudante, insano jovem,
esse Pedro quem é? Quem o descobre
completo
lúdico
sério
imprevisível?
senão ele mesmo um dia vai mostrar-se
no desdobrado amor da medicina,
Pedro enrustido no primeiro Pedro
que belo-horizontinamente se aprestava
para o serviço do sofrimento humano
pela manhã — e à noite se entregava
aos anárquicos, doidos exercícios
de nossa boemia antimineira
e tão mineira, sim! em seu desgarre
de sufocadas, montanhosas forças
em luta desigual com o inamovível
senso grave dos queijos e da ordem?
Esse Pedro,
penso às vezes que fui seu lado esquerdo
em tão saudosos, hoje, magros tempos
de busca, de revolta, de amarugem,
de desvairado humor sem rumo certo,
a desviá-lo do seu bom caminho…
Alguns meses mais velho, e má presença
de subversivo incompetente e aéreo,
sem rabo de diabo mas diabólico,
era eu, talvez, seu anjo de desguarda?
Ele se ri de minha culpa, assume-a,
e seguimos os dois, jogando pedras
(oitent’anos vividos, revividos,
transvividos no açúcar da saudade),
e seguimos e estacamos e fugimos
incendiando (ou quase) residências,
no estrelado silêncio de magnólias
ou de damas-da-noite (tanto faz),
pavor de velhos, beijo de meninas,
assunto de censória indignação,
arremetendo
contra o inimigo burguês que nos despreza…
Esse Nava, querido companheiro.
657
Fernando Pessoa
Já não vivi em vão
Já não vivi em vão
Já escrevi bem
Uma canção.
A vida o que tem?
Estender a mão
A alguém?
Nem isso, não.
Só o escrever bem
Uma canção.
07/05/1927
Já escrevi bem
Uma canção.
A vida o que tem?
Estender a mão
A alguém?
Nem isso, não.
Só o escrever bem
Uma canção.
07/05/1927
4 980
António Ramos Rosa
A Construção do Poema
A construção do poema é a construção do mundo.
Não símbolos, não imagens, simples criaturas
do ar, evidências obscuras, enigmas luminosos,
as formas do vento, os silêncios do sono.
As palavras são impulsos de um corpo soterrado.
Uma condição de alegria no vazio sensual
que se desenha concreto na bruma vagarosa.
Letra a letra, desfibramos o coração do sol.
Vemos numa torre do vento uma árvore balouçando.
Vivemos no ócio da sombra mais materna.
Talvez o poema seja uma pequena lâmpada
solitária ou um branco sortilégio, o prodígio
que restabelece a verde transparência
de um mundo imóvel, ou só uns fragmentos
obscuros, uma pedra clara, um hálito solar.
Não símbolos, não imagens, simples criaturas
do ar, evidências obscuras, enigmas luminosos,
as formas do vento, os silêncios do sono.
As palavras são impulsos de um corpo soterrado.
Uma condição de alegria no vazio sensual
que se desenha concreto na bruma vagarosa.
Letra a letra, desfibramos o coração do sol.
Vemos numa torre do vento uma árvore balouçando.
Vivemos no ócio da sombra mais materna.
Talvez o poema seja uma pequena lâmpada
solitária ou um branco sortilégio, o prodígio
que restabelece a verde transparência
de um mundo imóvel, ou só uns fragmentos
obscuros, uma pedra clara, um hálito solar.
1 093
Carlos Drummond de Andrade
Em Memória de Alphonsus de Guimaraens
I
Na violeta do entardecer,
flutua, evanescente, o poema
daquele poeta cujo ser
era só poesia — e suprema.
II
Um poeta, entre muitos, me fascina
por ser mineiro e do País do Sonho.
O luar pousa em seu verso alto e tristonho
e a alma de quem o lê já se ilumina.
Na violeta do entardecer,
flutua, evanescente, o poema
daquele poeta cujo ser
era só poesia — e suprema.
II
Um poeta, entre muitos, me fascina
por ser mineiro e do País do Sonho.
O luar pousa em seu verso alto e tristonho
e a alma de quem o lê já se ilumina.
1 263
António Ramos Rosa
O Corpo Desenhado
Talvez a linha se acenda e continue
ondeando a página e sendo nós só margem
de um domínio onde fulge a inocência,
talvez se revele a transparência inicial
em que a luz de estar a ver seja a palavra mesma.
Vêm figuras que se espraiam e crescem
até serem apenas ondulada memória.
Adensam-se outros corpos e enterram-se no fogo.
As linhas enovelam-se num delírio exacto.
A alegria ilumina penumbras de volumes.
Em tensos membros lúcidos e redondos
move-se o desenhado corpo ligeiro
e lento. Aumenta a densidade até ao centro
de um deus que diz o esplendor silencioso.
Ou só o ar ondeia num planalto de vento.
ondeando a página e sendo nós só margem
de um domínio onde fulge a inocência,
talvez se revele a transparência inicial
em que a luz de estar a ver seja a palavra mesma.
Vêm figuras que se espraiam e crescem
até serem apenas ondulada memória.
Adensam-se outros corpos e enterram-se no fogo.
As linhas enovelam-se num delírio exacto.
A alegria ilumina penumbras de volumes.
Em tensos membros lúcidos e redondos
move-se o desenhado corpo ligeiro
e lento. Aumenta a densidade até ao centro
de um deus que diz o esplendor silencioso.
Ou só o ar ondeia num planalto de vento.
942
Ruy Belo
Declaração de amor a uma romana do século segundo
Um dia passarão pelos meus versos
Como eu agora passo por diante destas esculturas
que não merecem mais que um apressado olhar
Mas na tua presença eu tenho de parar
dama desconhecida com certeza viva mais aqui
que no segundo século em Roma onde viveste
Moldaram-te esse rosto abriram-te esse olhar
decerto impressionante para que uns dezoito séculos mais tarde
te pudesse encontrar quem mais que tu morreu
mas te ama ó mulher perdidamente
Não mais te esquecerei hei-de sonhar contigo
sei que te conquistei e libertei
de qualquer compromisso que tivesses
Ninguém sabe quem eras nem eu próprio
não tens sequer um nome uns apelidos
nada se sabe acerca do teu estado civil
Sei mais que tudo isso porque sei
que atravessaste séculos na forma de escultura
só para um dia nós nos encontrarmos
Tenho mulher e filhos sou de longe
a lei é rígida e severa a sociedade
Não te importes mulher deixa-te estar
não penses não te mexas podes estar certa
de que me deste mais do que tudo o demais que me pudesses dar
pois para ser diferente de quem era
bastou-me ver teu rosto e mais que ver olhar
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, págs. 34 e 35 | Editorial Presença Lda., 1981
Como eu agora passo por diante destas esculturas
que não merecem mais que um apressado olhar
Mas na tua presença eu tenho de parar
dama desconhecida com certeza viva mais aqui
que no segundo século em Roma onde viveste
Moldaram-te esse rosto abriram-te esse olhar
decerto impressionante para que uns dezoito séculos mais tarde
te pudesse encontrar quem mais que tu morreu
mas te ama ó mulher perdidamente
Não mais te esquecerei hei-de sonhar contigo
sei que te conquistei e libertei
de qualquer compromisso que tivesses
Ninguém sabe quem eras nem eu próprio
não tens sequer um nome uns apelidos
nada se sabe acerca do teu estado civil
Sei mais que tudo isso porque sei
que atravessaste séculos na forma de escultura
só para um dia nós nos encontrarmos
Tenho mulher e filhos sou de longe
a lei é rígida e severa a sociedade
Não te importes mulher deixa-te estar
não penses não te mexas podes estar certa
de que me deste mais do que tudo o demais que me pudesses dar
pois para ser diferente de quem era
bastou-me ver teu rosto e mais que ver olhar
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, págs. 34 e 35 | Editorial Presença Lda., 1981
2 563
Martha Medeiros
silêncio, estou escrevendo
silêncio, estou escrevendo
e não sei se destas palavras
sairá como mágica um poema
uma reportagem ou um recado
não sei em que se transformará
este grupo de sujeitos e advérbios
que buscam aqui reunidos
decifrar todos os meus medos
silêncio, estou me escutando
e quem fala são meus dedos
e não sei se destas palavras
sairá como mágica um poema
uma reportagem ou um recado
não sei em que se transformará
este grupo de sujeitos e advérbios
que buscam aqui reunidos
decifrar todos os meus medos
silêncio, estou me escutando
e quem fala são meus dedos
1 178
Carlos Drummond de Andrade
Miniversos
1
Tudo tem limite
exceto
o amor de Brigitte.
2
Tevê colorida
fará azul-rósea
a cor da vida?
3
Última atração na areia
do Leme:
a tiro, mata-se a baleia.
4
Acabar com assalto
a trens pagadores
num momento:
suprimindo trens
e pagamento.
5
7 anos de idade.
Muro de Berlim
é eternidade.
6
Biafra: a guerra come
a safra
de sua própria fome.
7
Separatismo espanhol:
lado do escuro,
lado do sol.
8
Quem papa a pílula
poupa parto, papinhas,
porém perde parúsia.
9
Se o Papa ganha a Parada
você me garante
que a Amazônia será
povoada?
10
Às doenças mortais
junta-se outra mais:
transparente.
11
Estruturas: afinal
serão reformadas
com soldo integral?
12
Solução 100%
(disse Deus) só
se for Presidente
o Arigó.
13
Bruxuleia o ciro votivo
a Nossa Senhora
do Facultativo.
14
O pintor a meu lado
reclama:
Quando serei falsificado?
15
A moda cigana
é passada a limpo
na Limpeza Urbana?
16
O inocente afiança
a culpa que não tem
na esperança
do mal chegar ao bem.
17
Cautela: em agosto
não vire o rosto
ao rei da vela.
18
No festival da canção
fica abafadinho
o ai da inflação.
19
A reforma universitária
prevê o curso
de reforma universitária.
20
O censor olhou-se
no espelho e censurou-o:
Que horror!
16/08/1968
Tudo tem limite
exceto
o amor de Brigitte.
2
Tevê colorida
fará azul-rósea
a cor da vida?
3
Última atração na areia
do Leme:
a tiro, mata-se a baleia.
4
Acabar com assalto
a trens pagadores
num momento:
suprimindo trens
e pagamento.
5
7 anos de idade.
Muro de Berlim
é eternidade.
6
Biafra: a guerra come
a safra
de sua própria fome.
7
Separatismo espanhol:
lado do escuro,
lado do sol.
8
Quem papa a pílula
poupa parto, papinhas,
porém perde parúsia.
9
Se o Papa ganha a Parada
você me garante
que a Amazônia será
povoada?
10
Às doenças mortais
junta-se outra mais:
transparente.
11
Estruturas: afinal
serão reformadas
com soldo integral?
12
Solução 100%
(disse Deus) só
se for Presidente
o Arigó.
13
Bruxuleia o ciro votivo
a Nossa Senhora
do Facultativo.
14
O pintor a meu lado
reclama:
Quando serei falsificado?
15
A moda cigana
é passada a limpo
na Limpeza Urbana?
16
O inocente afiança
a culpa que não tem
na esperança
do mal chegar ao bem.
17
Cautela: em agosto
não vire o rosto
ao rei da vela.
18
No festival da canção
fica abafadinho
o ai da inflação.
19
A reforma universitária
prevê o curso
de reforma universitária.
20
O censor olhou-se
no espelho e censurou-o:
Que horror!
16/08/1968
1 151
Carlos Drummond de Andrade
A Semana Foi Assim
A semana? Passou que nem corisco,
somente aqui e ali deixando um risco
além do velho céu, hoje quadrado,
pelas naves do cosmo ultrapassado.
Que pretendem os homens: descobrir
um novo mundo, onde se possa rir?
brincar de amor? jogar de ser feliz?
tirar diploma de deus-aprendiz?
(Daqui a pouco o trânsito no espaço
estará de fundir cuca e espinhaço.)
Minha tia mineira não se espanta.
Há sempre uma cantiga na garganta
para saudar o sonho, embora a ruga
da experiência prefira a tartaruga
em seu calmo ficar aqui por perto,
tartarugando no roteiro certo…
É isso a espécie: um revoar aos trancos,
aos gemidos, aos cálculos e arrancos,
entre miséria e ciência, na poesia
da eternidade posta num só dia.
Ninguém entende bem o tal contexto
de que tanto se fala; e Paulo VI,
dos bispos a escutar o iroso brado,
chora, talvez, ou se mantém calado?
Eu contesto o contexto, diz a voz
em torno, em cima, até dentro de nós,
e a humanidade, enquanto assim contesta,
do próprio contestar faz uma festa.
Ainda bem que aí salta o Jô Soares,
a provar que cirandam pelos ares
mil amores sobrando para o Gordo,
que por isso não sente mais a dor do
regime, derramando pleno açúcar
no café, no pospasto, até no púcar(o)
da laranjada… Ai, vida, que doçura
quando magros e gordos, de mistura,
se sentirem amados por igual
em todo o território nacional,
e as nações forem todas um só povo,
na veludosa paz do homem novo!
Deliras, minha lira? Por enquanto
não devo reclamar prodígio tanto.
Olha o Dia do Mestre: o professor
(que do dinheiro ainda não viu a cor
em Minas) recebendo na bandeja
confetes de ternura e de ora-veja…
Em São Paulo calou-se o sax-barítono
de Booker Pittman: procuro um terno átono
para exprimir a falta, a grande pena
do som perdido, em meio à dor de Eliana.
E o sax-soprano, o clarinete? Música
de jazz, que jaz, silente, em flauta mágica.
Mas voltemos à rima, com Bandeira
pintor, Antônio, e sua vida inteira
convertida em pintura da mais fina,
que veremos no MAM: pintura é sina
e prêmio de viver após a vida
tão longe e tão depressa fenecida.
E viva, viva o Vasco: o sofrimento
há de fugir, se o ataque lavra um tento.
Time, torcida, em coro, neste instante,
vamos gritar: Casaca! ao Almirante.
E deixemos de briga, minha gente.
O pé tome a palavra: bola em frente.
18/10/1969
somente aqui e ali deixando um risco
além do velho céu, hoje quadrado,
pelas naves do cosmo ultrapassado.
Que pretendem os homens: descobrir
um novo mundo, onde se possa rir?
brincar de amor? jogar de ser feliz?
tirar diploma de deus-aprendiz?
(Daqui a pouco o trânsito no espaço
estará de fundir cuca e espinhaço.)
Minha tia mineira não se espanta.
Há sempre uma cantiga na garganta
para saudar o sonho, embora a ruga
da experiência prefira a tartaruga
em seu calmo ficar aqui por perto,
tartarugando no roteiro certo…
É isso a espécie: um revoar aos trancos,
aos gemidos, aos cálculos e arrancos,
entre miséria e ciência, na poesia
da eternidade posta num só dia.
Ninguém entende bem o tal contexto
de que tanto se fala; e Paulo VI,
dos bispos a escutar o iroso brado,
chora, talvez, ou se mantém calado?
Eu contesto o contexto, diz a voz
em torno, em cima, até dentro de nós,
e a humanidade, enquanto assim contesta,
do próprio contestar faz uma festa.
Ainda bem que aí salta o Jô Soares,
a provar que cirandam pelos ares
mil amores sobrando para o Gordo,
que por isso não sente mais a dor do
regime, derramando pleno açúcar
no café, no pospasto, até no púcar(o)
da laranjada… Ai, vida, que doçura
quando magros e gordos, de mistura,
se sentirem amados por igual
em todo o território nacional,
e as nações forem todas um só povo,
na veludosa paz do homem novo!
Deliras, minha lira? Por enquanto
não devo reclamar prodígio tanto.
Olha o Dia do Mestre: o professor
(que do dinheiro ainda não viu a cor
em Minas) recebendo na bandeja
confetes de ternura e de ora-veja…
Em São Paulo calou-se o sax-barítono
de Booker Pittman: procuro um terno átono
para exprimir a falta, a grande pena
do som perdido, em meio à dor de Eliana.
E o sax-soprano, o clarinete? Música
de jazz, que jaz, silente, em flauta mágica.
Mas voltemos à rima, com Bandeira
pintor, Antônio, e sua vida inteira
convertida em pintura da mais fina,
que veremos no MAM: pintura é sina
e prêmio de viver após a vida
tão longe e tão depressa fenecida.
E viva, viva o Vasco: o sofrimento
há de fugir, se o ataque lavra um tento.
Time, torcida, em coro, neste instante,
vamos gritar: Casaca! ao Almirante.
E deixemos de briga, minha gente.
O pé tome a palavra: bola em frente.
18/10/1969
1 131
Fernando Pessoa
TO MY DEAREST FRIEND
When I am dead you'll write - I know you will -
A thoughtful sonnet on my early death,
In which, stating that life but wearieth,
You'll notice how I lie pale, cold, and still.
This in the quatrains, which likewise you'll fill
With some reflections on how soon goes breath
And how the cold and heavy earth beneath
There is an end to living, good or ill.
After this, in the tercets, you will say
That death's a mystery, that nought doth stay,
Perhaps that immortality is true.
Then you will sign and put the date to it.
And, having read again the sonnet, you
Will be content, seeing it is well writ.
A thoughtful sonnet on my early death,
In which, stating that life but wearieth,
You'll notice how I lie pale, cold, and still.
This in the quatrains, which likewise you'll fill
With some reflections on how soon goes breath
And how the cold and heavy earth beneath
There is an end to living, good or ill.
After this, in the tercets, you will say
That death's a mystery, that nought doth stay,
Perhaps that immortality is true.
Then you will sign and put the date to it.
And, having read again the sonnet, you
Will be content, seeing it is well writ.
1 504
Carlos Drummond de Andrade
Festival Em Verso
Geneviève Waïte
Pálida Joaninha
pálida e loura muito loura e —
nem tão fria quanto no soneto
esvoaça entre leitos.
A borboleta presa no pulso
quer voar, mas falta céu em Londres
enevoada.
Arnevic
O broto de 15
estrelando filmes
proibidos para
os brotos de 15.
Brasileira
Florinda Bulcão, florido
balcão: com esse nome lindo
no frontispício do poema,
para que fazer cinema?
O nome
Trintignant
trinta trinchantes
trinca nos troncos
tranca no trinco
tranco sonoro
— Adoro!
diz num trinado
trêfega trintona.
Liquidação
E Robbe-Grillet, de um lance,
mostra, encantado, seu lema:
— Já liquidei com o romance,
vou liquidar com o cinema.
Tráfego
O diretor de Uma aventura no espaço
a poucos metros da Lua
veio ver pessoalmente
nossa terrível aventura no limitado
espaço de uma rua
de sinal enguiçado.
Velha guarda
Josef von Sternberg
Fritz Lang
Cavalcanti
3 ∑ 70:
210 anos de cinema
o poder é sempre jovem
quando é alguma coisa mais do que o poder.
Mercado de filmes
Compra-se um
que tenha menos de 10 espiões
assassinos/assassinatos;
que, tendo cama,
tenha também outros móveis agradáveis
à vida comum do corpo,
como a espreguiçadeira, a mesa, a cadeira;
que tenha princípio
meio e fim;
que não tenha charada nem blá-blá-blá,
enfim,
um filme que não existe mais.
Paga-se tudo.
Genealogia
Na piscina do Copa
tela líquida panorâmica
do festival de corpos
o repórter erudito
pergunta a Mireille Darc:
— Mademoiselle,
est-ce que vous êtes
la toute petite-fille de Jeanne d’Arc?
Desafio
Matemática de cine
a estudar em Ipanema
pelo jovem não quadrado
(Pasolini é quem previne):
Superbacana é o teorema
nunca jamais demonstrado.
25/o3/1969
Pálida Joaninha
pálida e loura muito loura e —
nem tão fria quanto no soneto
esvoaça entre leitos.
A borboleta presa no pulso
quer voar, mas falta céu em Londres
enevoada.
Arnevic
O broto de 15
estrelando filmes
proibidos para
os brotos de 15.
Brasileira
Florinda Bulcão, florido
balcão: com esse nome lindo
no frontispício do poema,
para que fazer cinema?
O nome
Trintignant
trinta trinchantes
trinca nos troncos
tranca no trinco
tranco sonoro
— Adoro!
diz num trinado
trêfega trintona.
Liquidação
E Robbe-Grillet, de um lance,
mostra, encantado, seu lema:
— Já liquidei com o romance,
vou liquidar com o cinema.
Tráfego
O diretor de Uma aventura no espaço
a poucos metros da Lua
veio ver pessoalmente
nossa terrível aventura no limitado
espaço de uma rua
de sinal enguiçado.
Velha guarda
Josef von Sternberg
Fritz Lang
Cavalcanti
3 ∑ 70:
210 anos de cinema
o poder é sempre jovem
quando é alguma coisa mais do que o poder.
Mercado de filmes
Compra-se um
que tenha menos de 10 espiões
assassinos/assassinatos;
que, tendo cama,
tenha também outros móveis agradáveis
à vida comum do corpo,
como a espreguiçadeira, a mesa, a cadeira;
que tenha princípio
meio e fim;
que não tenha charada nem blá-blá-blá,
enfim,
um filme que não existe mais.
Paga-se tudo.
Genealogia
Na piscina do Copa
tela líquida panorâmica
do festival de corpos
o repórter erudito
pergunta a Mireille Darc:
— Mademoiselle,
est-ce que vous êtes
la toute petite-fille de Jeanne d’Arc?
Desafio
Matemática de cine
a estudar em Ipanema
pelo jovem não quadrado
(Pasolini é quem previne):
Superbacana é o teorema
nunca jamais demonstrado.
25/o3/1969
844
Vasco Graça Moura
Nova meditação sobre a palavra
assim a palavra se prestasse
ao jade ao jogo ao jugo de uma toda
arte poética e nunca ripostasse
em golpes repentinos de judoka
assim nunca o poema se traísse
na trama aleatória de uma aposta
perdida no seu hábil mecanismo
traria o juro ao artesão que o monta
ao jade ao jogo ao jugo de uma toda
arte poética e nunca ripostasse
em golpes repentinos de judoka
assim nunca o poema se traísse
na trama aleatória de uma aposta
perdida no seu hábil mecanismo
traria o juro ao artesão que o monta
2 256
Vasco Graça Moura
Poema
silenciosamente aproximo-me do poema
circundo-o duma palavra faço nela
uma incisão deliberada
e exponho a ferida ao ar sem protegê-la
para que infecte e frutifique
de resina ainda com gosto a papel húmido
o poema cresce ramifica-se
comovidamente do cerne para a casca
inteiro liso adstringente sinuoso
mas
todo o poema é perfeitamente impuro
circundo-o duma palavra faço nela
uma incisão deliberada
e exponho a ferida ao ar sem protegê-la
para que infecte e frutifique
de resina ainda com gosto a papel húmido
o poema cresce ramifica-se
comovidamente do cerne para a casca
inteiro liso adstringente sinuoso
mas
todo o poema é perfeitamente impuro
2 949
Carlos Drummond de Andrade
Microlira
Festival da Canção
Esta dúvida mordente
eu peço que se esclareça.
Quando a música é mais quente:
com cabeça ou sem cabeça?
Arte
No Salão Moderno
obras se desfazem
antes de exibidas.
Resumo:
são consumidas
em autoconsumo.
Solução
O papagaio atleticano
não vai calar o gol do Galo,
e não é justo nenhum plano
que tenha em mira silenciá-lo.
Evitem, pois, brigas forenses.
Outro projeto, mais certeiro,
aqui proponho aos cruzeirenses:
É ensinar: “Gol do Cruzeiro”
a um papagaio de igual força.
Haja, entre os dois, uma peleja
em que cada mineiro torça,
e, entre foguetes e cerveja,
o papagaio vitorioso
proclamado seja campeão
desse grato esporte verboso
de que sente falta a Nação.
Trato e distrato
Em Paris, um tratado
gravemente firmado
renova outro tratado
longamente ajustado,
pesado, blablablado,
que tinha estruturado
o muito fofocado
acordo estipulado,
agora validado
e bem atualizado
para ser destratado
por um outro lado
conforme for do agrado
ou não, e emaranhado
o risco do bordado
da guerra do passado,
amanhã retramado.
Tudo bem combinado,
medido e conformado,
eis fica evidenciado:
Todo e qualquer tratado
deve ser observado
como papo-furado.
A renda cortada
Ante o decisório
voto do Supremo,
ai — geme o notário,
no amargor extremo.
Público e notório
o ganho planetário
deste meu cartório?
Sim, mas que precário!
Falta uma cartilha
Problema na pista:
Educar pedestre
mais o motorista.
Mas cadê o mestre
que eduque automóvel?
Força do hábito
Em grupo ou sozinho,
em casa ou em viagem,
de avião ou balsa,
Nixon, precavido,
no bolso da calça
leva o aparelhinho
de autoespionagem.
Dúvida
A paz entre os maçons
pede acurado exame.
Será mais complicada
que a paz no Vietname?
Superstição
Por mera precaução
ou velada crendice,
para evitar desgosto
resolve João Brandão:
— Chegando a um alto posto,
serei meu próprio vice.
Enigma
Faço e ninguém me responde
esta perguntinha à toa:
Como pode o peixe vivo
morrer dentro da Lagoa?
16/06/1973
Esta dúvida mordente
eu peço que se esclareça.
Quando a música é mais quente:
com cabeça ou sem cabeça?
Arte
No Salão Moderno
obras se desfazem
antes de exibidas.
Resumo:
são consumidas
em autoconsumo.
Solução
O papagaio atleticano
não vai calar o gol do Galo,
e não é justo nenhum plano
que tenha em mira silenciá-lo.
Evitem, pois, brigas forenses.
Outro projeto, mais certeiro,
aqui proponho aos cruzeirenses:
É ensinar: “Gol do Cruzeiro”
a um papagaio de igual força.
Haja, entre os dois, uma peleja
em que cada mineiro torça,
e, entre foguetes e cerveja,
o papagaio vitorioso
proclamado seja campeão
desse grato esporte verboso
de que sente falta a Nação.
Trato e distrato
Em Paris, um tratado
gravemente firmado
renova outro tratado
longamente ajustado,
pesado, blablablado,
que tinha estruturado
o muito fofocado
acordo estipulado,
agora validado
e bem atualizado
para ser destratado
por um outro lado
conforme for do agrado
ou não, e emaranhado
o risco do bordado
da guerra do passado,
amanhã retramado.
Tudo bem combinado,
medido e conformado,
eis fica evidenciado:
Todo e qualquer tratado
deve ser observado
como papo-furado.
A renda cortada
Ante o decisório
voto do Supremo,
ai — geme o notário,
no amargor extremo.
Público e notório
o ganho planetário
deste meu cartório?
Sim, mas que precário!
Falta uma cartilha
Problema na pista:
Educar pedestre
mais o motorista.
Mas cadê o mestre
que eduque automóvel?
Força do hábito
Em grupo ou sozinho,
em casa ou em viagem,
de avião ou balsa,
Nixon, precavido,
no bolso da calça
leva o aparelhinho
de autoespionagem.
Dúvida
A paz entre os maçons
pede acurado exame.
Será mais complicada
que a paz no Vietname?
Superstição
Por mera precaução
ou velada crendice,
para evitar desgosto
resolve João Brandão:
— Chegando a um alto posto,
serei meu próprio vice.
Enigma
Faço e ninguém me responde
esta perguntinha à toa:
Como pode o peixe vivo
morrer dentro da Lagoa?
16/06/1973
1 572
Carlos Drummond de Andrade
Textos Mínimos
Cariocas:
do alto do Pão de Açúcar
40 casais de turistas
vos contemplam sem História.
De repente fica na moda
não estar na moda.
Torna-se impossível
estar, estando.
Arrependido
o ladrão devolveu
aquele quadro falso do Museu.
O sino da igreja desabada
caído no chão
repica em silêncio.
Cada badalada
cria a procissão.
Gosto tanto de ir ao teatro
que por amor ao teatro
vê lá se vou ao teatro.
Solto na jaula
o tigre observa
o Jardim Zoológico
do mundo.
Chovia tanto tanto
naquele reino da Ásia
que a chuva dissolveu
o rei com seu palácio e suas leis.
Arte dos 70:
sacramento
do excremento.
Declara o cientista
que floresta não presta
e no seu lugar
plante-se capim.
Teremos, a perder de vista,
no capinzal da Amazônia,
o pasto da ciência?
Assim termina
o autopoema:
A poesia é necessária,
mas o poeta, será?
— O senhor cultiva
epigramas?
— Não, só a grama
do meu jardim.
Última palavra
em computador:
o anticomputador.
A bomba francesa
detonada longe
da douce France
é uma garantia
para quem escapa
e sendo turista
respira e deduz:
Paris intacta
continua sendo
a Cidade-Luz.
Quando acabarem de consertar
este atrapalhado Rio de Janeiro
haverá morador
para o prazer de morar nele?
E haverá morada
para o morador?
Cartão de identidade
(informa o broto cintilante)
não levo comigo.
Acho bastante
o umbigo.
A casa, na avenida,
postou-se no rumo
do automóvel.
Quem mandou ser distraída?
Se as nações alinhadas
perdem a linha,
fazem cada papel,
prefiro Tia Miquinha
alegre desalinhada,
revel.
O dono do Sítio Paraíso
derrubou a mata,
mas ecologicamente
comprou uma gravata
verde.
O garoto curioso
pergunta:
No Colégio Eleitoral
haverá prova pública
pelo audiovisual,
ou simples aprovação
por antecipação?
08/09/1973
do alto do Pão de Açúcar
40 casais de turistas
vos contemplam sem História.
De repente fica na moda
não estar na moda.
Torna-se impossível
estar, estando.
Arrependido
o ladrão devolveu
aquele quadro falso do Museu.
O sino da igreja desabada
caído no chão
repica em silêncio.
Cada badalada
cria a procissão.
Gosto tanto de ir ao teatro
que por amor ao teatro
vê lá se vou ao teatro.
Solto na jaula
o tigre observa
o Jardim Zoológico
do mundo.
Chovia tanto tanto
naquele reino da Ásia
que a chuva dissolveu
o rei com seu palácio e suas leis.
Arte dos 70:
sacramento
do excremento.
Declara o cientista
que floresta não presta
e no seu lugar
plante-se capim.
Teremos, a perder de vista,
no capinzal da Amazônia,
o pasto da ciência?
Assim termina
o autopoema:
A poesia é necessária,
mas o poeta, será?
— O senhor cultiva
epigramas?
— Não, só a grama
do meu jardim.
Última palavra
em computador:
o anticomputador.
A bomba francesa
detonada longe
da douce France
é uma garantia
para quem escapa
e sendo turista
respira e deduz:
Paris intacta
continua sendo
a Cidade-Luz.
Quando acabarem de consertar
este atrapalhado Rio de Janeiro
haverá morador
para o prazer de morar nele?
E haverá morada
para o morador?
Cartão de identidade
(informa o broto cintilante)
não levo comigo.
Acho bastante
o umbigo.
A casa, na avenida,
postou-se no rumo
do automóvel.
Quem mandou ser distraída?
Se as nações alinhadas
perdem a linha,
fazem cada papel,
prefiro Tia Miquinha
alegre desalinhada,
revel.
O dono do Sítio Paraíso
derrubou a mata,
mas ecologicamente
comprou uma gravata
verde.
O garoto curioso
pergunta:
No Colégio Eleitoral
haverá prova pública
pelo audiovisual,
ou simples aprovação
por antecipação?
08/09/1973
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