Poemas neste tema
Arte
Herberto Helder
13
e eu sensível apenas ao papel e à esferográfica:
à mão que me administra a alma
à mão que me administra a alma
1 011
Marco Lucchesi
Orquídeas
Orquídeas
resplandecem
no quintal
a geometria
de fogo
de suas pétalas
e a forma
do silêncio
em que se apóiam
trago
o coração perdido
e os olhos tersos
da breve epifania
toda flor
desponta
no seio do silêncio
e ao seio
do silêncio
acorre e se dissolve
lembro
de Hardy
indo ao
fundo
silêncio
dos gregos
teoremas
cheios
do frescor e da beleza
de quando foram descobertos
dois mil anos
e sequer
uma ruga
em seu puro semblante
(Euclides
e a infinidade
dos números primos
Pitágoras
e a raiz quadrada
irracional de dois)
os desenhos
do matemático
e do poeta devem
ser belos
flores
teoremas
desmaiam
em súbitos
jardins
orquídeas
e bromélias
florescem
em crepúsculos
fugazes
- a beleza é a primeira prova
da matemática
resplandecem
no quintal
a geometria
de fogo
de suas pétalas
e a forma
do silêncio
em que se apóiam
trago
o coração perdido
e os olhos tersos
da breve epifania
toda flor
desponta
no seio do silêncio
e ao seio
do silêncio
acorre e se dissolve
lembro
de Hardy
indo ao
fundo
silêncio
dos gregos
teoremas
cheios
do frescor e da beleza
de quando foram descobertos
dois mil anos
e sequer
uma ruga
em seu puro semblante
(Euclides
e a infinidade
dos números primos
Pitágoras
e a raiz quadrada
irracional de dois)
os desenhos
do matemático
e do poeta devem
ser belos
flores
teoremas
desmaiam
em súbitos
jardins
orquídeas
e bromélias
florescem
em crepúsculos
fugazes
- a beleza é a primeira prova
da matemática
751
Carlos Drummond de Andrade
Soneto do Pássaro
Batem as asas? Rosa aberta, a saia
esculpe, no seu giro, o corpo leve.
Entre músculos suaves, uma alfaia,
selada, tremeluz à vista breve.
O que, mal percebido, se descreve
em termos de pelúcia ou de cambraia,
o que é fogo sutil, soprado em neve,
curva de coxa atlântica na praia,
vira mulher ou pássaro? No rosto,
essa mesma expressão aérea ou grave,
esse indeciso traço de sol-posto,
de fuga, que há no bico de uma ave.
O mais é jeito humano ou desumano,
conforme a inclinação de meu engano.
esculpe, no seu giro, o corpo leve.
Entre músculos suaves, uma alfaia,
selada, tremeluz à vista breve.
O que, mal percebido, se descreve
em termos de pelúcia ou de cambraia,
o que é fogo sutil, soprado em neve,
curva de coxa atlântica na praia,
vira mulher ou pássaro? No rosto,
essa mesma expressão aérea ou grave,
esse indeciso traço de sol-posto,
de fuga, que há no bico de uma ave.
O mais é jeito humano ou desumano,
conforme a inclinação de meu engano.
1 522
António Ramos Rosa
Linhas E Cores
Klee
Por umas escadas toscas, infantis, leves, subo à janela do velho que espreita para a rua. Uma aranha tece a claridade do vento. A janela solta evapora-se. Leves, leves, as escadas apoiam-se numa parede de ar.
Klee
No silêncio da caixa de vidro, o silêncio do ar e da luz, o ponto que se desvanece, a imobilidade do pássaro. A linha caminha, macia, firme. O homem caminha na linha, no meio da luz e do silêncio. Ao fim da linha há o espaço da página branca. Não há ponte e o sorriso do homem tremula ao vento como um fio.
Bissière
Dos quadradinhos coloridos, de breves trémulos riscos — exalava-se o cheiro do pão de outrora, uma parede de moinho, uma roda imóvel, um beijo no sol, a terra e a mão do menino.
Por umas escadas toscas, infantis, leves, subo à janela do velho que espreita para a rua. Uma aranha tece a claridade do vento. A janela solta evapora-se. Leves, leves, as escadas apoiam-se numa parede de ar.
Klee
No silêncio da caixa de vidro, o silêncio do ar e da luz, o ponto que se desvanece, a imobilidade do pássaro. A linha caminha, macia, firme. O homem caminha na linha, no meio da luz e do silêncio. Ao fim da linha há o espaço da página branca. Não há ponte e o sorriso do homem tremula ao vento como um fio.
Bissière
Dos quadradinhos coloridos, de breves trémulos riscos — exalava-se o cheiro do pão de outrora, uma parede de moinho, uma roda imóvel, um beijo no sol, a terra e a mão do menino.
1 073
Herberto Helder
16
queria fechar-se inteiro num poema
lavrado em língua ao mesmo tempo plana e plena
poema enfim onde coubessem os dez dedos
desde a roca ao fuso
para lá dentro ficar escrito direito e esquerdo
quero eu dizer: todo
vivo moribundo morto
a sombra dos elementos por cima
lavrado em língua ao mesmo tempo plana e plena
poema enfim onde coubessem os dez dedos
desde a roca ao fuso
para lá dentro ficar escrito direito e esquerdo
quero eu dizer: todo
vivo moribundo morto
a sombra dos elementos por cima
1 181
Herberto Helder
15
se um dia destes parar não sei se não morro logo,
disse Emília David, padeira,
não sei se fazer um poema não é fazer um pão
um pão que se tire do forno e se coma quente ainda por entre
as linhas,
um dia destes vejo que não vou parar nunca,
as mãos súbito cheias:
o mundo é só fogo e pão cozido,
e o fogo é que dá ao mundo os fundamentos da forma,
pão comprido nas terras de França,
pão curto agora nestes reinos salgados,
se parar não sei se não caio logo ali redonda no chão frio
como se caísse fundo em mim mesma,
a mão dentro do pão para comê-lo
— disse ela
disse Emília David, padeira,
não sei se fazer um poema não é fazer um pão
um pão que se tire do forno e se coma quente ainda por entre
as linhas,
um dia destes vejo que não vou parar nunca,
as mãos súbito cheias:
o mundo é só fogo e pão cozido,
e o fogo é que dá ao mundo os fundamentos da forma,
pão comprido nas terras de França,
pão curto agora nestes reinos salgados,
se parar não sei se não caio logo ali redonda no chão frio
como se caísse fundo em mim mesma,
a mão dentro do pão para comê-lo
— disse ela
1 144
António Ramos Rosa
O Esquiador
homenagem a Vespeira
Facilidade e neve.
E uns traços leves, duros:
a precisão de quem desliza e marca,
a claridade do acto solar e frio.
Rasgos no solo de lâmina,
a vertigem exacta
quase minuciosa:
o desenho branco:
a perspectiva infinita.
A força leve.
*
A felicidade é o sinal da vertigem.
Concêntrica.
Mesmo no salto mortal e vivo.
Braços abertos, silenciosamente, no ar.
E amando a terra
cai
e continua.
*
Deslizando sobre precipícios,
uma só linha o conduz
e o envolve,
uma superfície isenta para todos os traços.
Afável e mortal,
dura e fria,
renascente,
extremamente visível.
Um só entusiasmo.
*
Sem palavras, uma palavra o anima
ao fim da primeira silenciosa descida.
Depois a brancura rodeia-o como uma capa
de uma bailarina.
Mas ele percorre um corpo
e de todos os sulcos
(branco no branco)
outro corpo nupcial descreve.
*
A cegueira branca não o vence.
Mesmo quando se abre a bandeira das cores.
A rede em que se enreda e se liberta
reafirma a soberania polar
da inalterável página que desvenda.
*
Uma força imóvel, aguda e vertiginosa e ténue
e a claridade das arestas percutidas,
uma habitação modelada aereamente
e, no entanto, sem sair da terra,
uma terra branca, uma terra de ar.
Terrear.
*
Corpo desnudo, aparentemente oferto.
Proposta indemne, mas acabada e hostil.
Propícia à tentativa abrupta,
ao salto que inicia
o espaço temperado: a animação do ar.
A pulsação vasta, lenta, infindável.
Um abraço volante no inviolável.
*
Não é a terra que dança nem o homem
mas a força clara lavrando
o nome branco, sulco a sulco,
livre afirmação exacta
de um corpo que descobre
e se propaga.
*
Assim a fonte cria-se da sede
e do salto.
A fonte nasce sob os pés: é um corpo sedoso.
A fonte nasce continuamente
do próprio pulso.
A terra não roda.
Descendo, subindo: não contorna um rosto.
Um rosto forma
de neve e sol.
*
Tudo é sonoro porque o silêncio se deslumbra
e todas as diferenças se ligam
individualmente puras.
Só ele afirma a luz que não lhe pertence.
A luz que lemos.
Facilidade e neve.
E uns traços leves, duros:
a precisão de quem desliza e marca,
a claridade do acto solar e frio.
Rasgos no solo de lâmina,
a vertigem exacta
quase minuciosa:
o desenho branco:
a perspectiva infinita.
A força leve.
*
A felicidade é o sinal da vertigem.
Concêntrica.
Mesmo no salto mortal e vivo.
Braços abertos, silenciosamente, no ar.
E amando a terra
cai
e continua.
*
Deslizando sobre precipícios,
uma só linha o conduz
e o envolve,
uma superfície isenta para todos os traços.
Afável e mortal,
dura e fria,
renascente,
extremamente visível.
Um só entusiasmo.
*
Sem palavras, uma palavra o anima
ao fim da primeira silenciosa descida.
Depois a brancura rodeia-o como uma capa
de uma bailarina.
Mas ele percorre um corpo
e de todos os sulcos
(branco no branco)
outro corpo nupcial descreve.
*
A cegueira branca não o vence.
Mesmo quando se abre a bandeira das cores.
A rede em que se enreda e se liberta
reafirma a soberania polar
da inalterável página que desvenda.
*
Uma força imóvel, aguda e vertiginosa e ténue
e a claridade das arestas percutidas,
uma habitação modelada aereamente
e, no entanto, sem sair da terra,
uma terra branca, uma terra de ar.
Terrear.
*
Corpo desnudo, aparentemente oferto.
Proposta indemne, mas acabada e hostil.
Propícia à tentativa abrupta,
ao salto que inicia
o espaço temperado: a animação do ar.
A pulsação vasta, lenta, infindável.
Um abraço volante no inviolável.
*
Não é a terra que dança nem o homem
mas a força clara lavrando
o nome branco, sulco a sulco,
livre afirmação exacta
de um corpo que descobre
e se propaga.
*
Assim a fonte cria-se da sede
e do salto.
A fonte nasce sob os pés: é um corpo sedoso.
A fonte nasce continuamente
do próprio pulso.
A terra não roda.
Descendo, subindo: não contorna um rosto.
Um rosto forma
de neve e sol.
*
Tudo é sonoro porque o silêncio se deslumbra
e todas as diferenças se ligam
individualmente puras.
Só ele afirma a luz que não lhe pertence.
A luz que lemos.
663
António Ramos Rosa
Ver
ao Luís Pignatelli
De um olhar livre
se vive
Olhando a folha
abria-se
Da superfície ao fundo
exactamente assim
É um muro onde se vence
a inércia cega
O pó que pisas
é de um astro
A terra gira
em ti
devagar
É bom por vezes estar
Os olhos vêem dentro da tela
É uma tempestade
(mas não te abrigues)
O olho faz uma pausa
na espiral que te conduz ao silêncio
Lembras-te de um jantar antigo
É a língua da pedra
O olho faz-se víbora
e lambe o fogo
A terra é um planeta
são os teus pés que vêem
A tua mão tem olhos
Abriu-se o muro de dentro
Caminhas com teus olhos
De um olhar livre
se vive
Olhando a folha
abria-se
Da superfície ao fundo
exactamente assim
É um muro onde se vence
a inércia cega
O pó que pisas
é de um astro
A terra gira
em ti
devagar
É bom por vezes estar
Os olhos vêem dentro da tela
É uma tempestade
(mas não te abrigues)
O olho faz uma pausa
na espiral que te conduz ao silêncio
Lembras-te de um jantar antigo
É a língua da pedra
O olho faz-se víbora
e lambe o fogo
A terra é um planeta
são os teus pés que vêem
A tua mão tem olhos
Abriu-se o muro de dentro
Caminhas com teus olhos
776
Herberto Helder
25
e encerrar-me todo num poema,
não em língua plana mas em língua plena
não em língua plana mas em língua plena
1 264
Carlos Drummond de Andrade
Lição
Tarde, a vida me ensina
esta lição discreta:
a ode cristalina
é a que se faz sem poeta.
esta lição discreta:
a ode cristalina
é a que se faz sem poeta.
1 357
Herberto Helder
Texto 4
Eu podia abrir um mapa: “o corpo” com relevos crepitantes
e depressões e veias hidrográficas e tudo o mais
morosas linhas e gravações um pouco obscuras
quando “ler” se fendia nalguma parte um buraco
que chegava repentinamente de dentro
a clareira arremessada pelo sono acima
insónia vulcânica sala contendo toda a febre táctil
furibunda maneira
esse era então uma espécie de “lugar interno”
áspera geologia alcalina e varrida e crua
exposta assim à leitura que se esqueceu do seu “medo
O corpo com todas as “incursões” caligráficas
“referências” florais “desvios” ortográficos da família dos carnívoros
“antropofagias” gramaticais e “pègadas”
ainda ferventes
ou minas com o frio bater e o barulho escorrendo
“um mapa” onde se lia completamente o sangue e suas franjas
de ouro o irado desregramento da “traça
primeira” e o apuramento do mel com a labareda
inclusa o corpo na prancheta
para a lisura sentada onde se risca a posição mortal
“um papel” apenas a branca tensão do néon
no tecto o jorro de cima “declarando” qualquer rispidez
a suavidade toda uma bastarda
graça
de infiltração na sonolência ou explosiva
“vigilância” combustão das massas ao comprido
do “desenho” irregular
e só então assim desterrado do ruído nos subúrbios
ele apenas agora “composição” forte e atada de elementos
escarpas rapidamente
decorrendo
corpo que se faltava em tempo “fotografia”
de um “estudo” para sempre
como lhe bastava ser possível tão-só uma certa
temperatura
grutas aberturas minerais palpitações no subsolo
tremores
anfractuosidades esponjas onde pulsavam canais dolorosos
e a arfante matéria irrompendo nos écrans
com o susto leve das “manchas” que se uniam
essa energia sem espaço súbita “geometria” a costurar de fora
mordeduras velozes delicadezas
nervuras vivas
para seguir até ao fim “com os olhos”
como uma paisagem de espinhos faiscantes
“o contorno” que queima de uma lâmpada acesa
toda a noite no gabinete do cartógrafo
e depressões e veias hidrográficas e tudo o mais
morosas linhas e gravações um pouco obscuras
quando “ler” se fendia nalguma parte um buraco
que chegava repentinamente de dentro
a clareira arremessada pelo sono acima
insónia vulcânica sala contendo toda a febre táctil
furibunda maneira
esse era então uma espécie de “lugar interno”
áspera geologia alcalina e varrida e crua
exposta assim à leitura que se esqueceu do seu “medo
O corpo com todas as “incursões” caligráficas
“referências” florais “desvios” ortográficos da família dos carnívoros
“antropofagias” gramaticais e “pègadas”
ainda ferventes
ou minas com o frio bater e o barulho escorrendo
“um mapa” onde se lia completamente o sangue e suas franjas
de ouro o irado desregramento da “traça
primeira” e o apuramento do mel com a labareda
inclusa o corpo na prancheta
para a lisura sentada onde se risca a posição mortal
“um papel” apenas a branca tensão do néon
no tecto o jorro de cima “declarando” qualquer rispidez
a suavidade toda uma bastarda
graça
de infiltração na sonolência ou explosiva
“vigilância” combustão das massas ao comprido
do “desenho” irregular
e só então assim desterrado do ruído nos subúrbios
ele apenas agora “composição” forte e atada de elementos
escarpas rapidamente
decorrendo
corpo que se faltava em tempo “fotografia”
de um “estudo” para sempre
como lhe bastava ser possível tão-só uma certa
temperatura
grutas aberturas minerais palpitações no subsolo
tremores
anfractuosidades esponjas onde pulsavam canais dolorosos
e a arfante matéria irrompendo nos écrans
com o susto leve das “manchas” que se uniam
essa energia sem espaço súbita “geometria” a costurar de fora
mordeduras velozes delicadezas
nervuras vivas
para seguir até ao fim “com os olhos”
como uma paisagem de espinhos faiscantes
“o contorno” que queima de uma lâmpada acesa
toda a noite no gabinete do cartógrafo
630
Herberto Helder
Texto 2
Não se vai entregar aos vários “motores” a fabricação do estio
o sussurro da noite apresentada pormenores
para um “estilo de silêncio” ou inclinações graves
expectando “instantes iluminatórios” é certo que o cenário
ganharia uma qualidade empolgante
mas desiste-se porque “a mão” vem depressa
indagam: que mão? que direcção? que posição?
indagam que “acção de surpresa e sacralidade” (se há)
o que houver “e vê-se pela pressa” é uma
espécie de vivacidade ou uma turbulência íntima
e ao mesmo tempo cautela poder serena destreza
de “chamar” de dentro do pavor e “unir” por cima
do pavor
agora estamos a fazer força para afastar o excesso
de planos multiplicidades antropofagias para os lados todos
que andam
“procuram um centro?” sim “uma razão de razões”
uma zona suficiente leve fixa uma como que
“interminabilidade”
serve o cabelo serve uma pedra redonda — a submissão
de um animal colocado sobre o seu próprio sangue ingénuo
temas de dias consumidos ou consumados teatros para saídas
altas entradas altas saídas baixas entradas baixas “movimentos”
aí mesmo é que se desmata o sítio excepcional
o acaso da ocasião fértil por si
mão para “escrever” um propósito inerente a natureza compacta
de um “peso movimentado” até se encontrar como
“peso próprio”
esta doçura que é o escândalo dos “mortos usando
cabeças de ouro o terror da riqueza”
mão apenas em dedicatória a lavouras desconhecidas
da “festa”
ela mesma a sua festa inferida de aí estar
sobre o rosto que se imprime de dentro a “rotação”
irresistível enquanto desce enquanto os lábios
fervem da sua “lepra” e trevas e luzes se combinam
numa tensão interna
“escrita e escritura” desenvolvidas pelo silêncio
que as não ameaça mas de si as libera como uma
borboleta ávida uma dona do espaço
visível proprietária da luz e sua extensão
“sinal” daquilo que se abriu por sua energia mesma
e nenhum arrepio de horror sequer um “transe”
fere o flanco oferecido ao mundo
apenas um “nascimento” o ritmo trabalhado noutro e trabalhando
outro ritmo como a malha das artérias
um mapa uma flor quentíssima em fundo de atmosfera
o sussurro da noite apresentada pormenores
para um “estilo de silêncio” ou inclinações graves
expectando “instantes iluminatórios” é certo que o cenário
ganharia uma qualidade empolgante
mas desiste-se porque “a mão” vem depressa
indagam: que mão? que direcção? que posição?
indagam que “acção de surpresa e sacralidade” (se há)
o que houver “e vê-se pela pressa” é uma
espécie de vivacidade ou uma turbulência íntima
e ao mesmo tempo cautela poder serena destreza
de “chamar” de dentro do pavor e “unir” por cima
do pavor
agora estamos a fazer força para afastar o excesso
de planos multiplicidades antropofagias para os lados todos
que andam
“procuram um centro?” sim “uma razão de razões”
uma zona suficiente leve fixa uma como que
“interminabilidade”
serve o cabelo serve uma pedra redonda — a submissão
de um animal colocado sobre o seu próprio sangue ingénuo
temas de dias consumidos ou consumados teatros para saídas
altas entradas altas saídas baixas entradas baixas “movimentos”
aí mesmo é que se desmata o sítio excepcional
o acaso da ocasião fértil por si
mão para “escrever” um propósito inerente a natureza compacta
de um “peso movimentado” até se encontrar como
“peso próprio”
esta doçura que é o escândalo dos “mortos usando
cabeças de ouro o terror da riqueza”
mão apenas em dedicatória a lavouras desconhecidas
da “festa”
ela mesma a sua festa inferida de aí estar
sobre o rosto que se imprime de dentro a “rotação”
irresistível enquanto desce enquanto os lábios
fervem da sua “lepra” e trevas e luzes se combinam
numa tensão interna
“escrita e escritura” desenvolvidas pelo silêncio
que as não ameaça mas de si as libera como uma
borboleta ávida uma dona do espaço
visível proprietária da luz e sua extensão
“sinal” daquilo que se abriu por sua energia mesma
e nenhum arrepio de horror sequer um “transe”
fere o flanco oferecido ao mundo
apenas um “nascimento” o ritmo trabalhado noutro e trabalhando
outro ritmo como a malha das artérias
um mapa uma flor quentíssima em fundo de atmosfera
580
Herberto Helder
Texto 3
Afinal a ideia é sempre a mesma o bailarino a pôr o pé
no sítio uma coisa muito forte
na cabeça no coração nos intestinos no nosso próprio pé
pode imaginar-se a ventania quer dizer
"o que acontece ao ar” é a dança
pois vejam o que está a fazer o bailarino que desata por aí fora
(por “aí dentro” seria melhor) ele varre o espaço
se me permitem varre-o com muita evidência
somos obrigados a “ver isso”
que faz o pé forte no sítio forte o pé leve no sítio leve
o sítio rítmico no pé rítmico?
e digo assim porque se trata do princípio “de cima para baixo
de baixo para cima”
que faz? que fazem? oh apenas um pouco de geometria
em termos de tempo um pouco de velocidade
dm termos de espaço dentro de tempo
"vamos lá encher o tempo com rapidez de espaço”
pensam os pés dele quando o ar está pronto
o “problema” do bailarino é coisa que não interessa por aí além
mas são chegados os tempos da agonia
estamos “exaltados” com este pensamento de morte
é preciso pensar no “ritmo” é uma das nossas congeminações exaltadas
na realidade algo se transformou desde que ele começou a dançar
sem qualquer auxílio excepto
não haver ainda nomes para “isso” e haver os ingredientes
do espectáculo i. e. a qualidade “forte” do sítio
esperem pela abertura de negociações entre “não” e “sim”
hão-de ver como coisas dessas se passam
não vai ser fácil os recursos de designação as acomodações várias
já se não encontram às ordens de vossências
comecem a aperceber-se da “energia” como “instrumento”
de criar “situações cheias de novidade”
vai haver muito nevoeiro nessas cabeças
e ainda ‘o coração caiu-lhe aos pés” o banal
a contas com o inesperado talvez então se tenha a ideia de murmurar
os pés subiram-lhe ao coração”
pois vão dizendo que exagero logo se verá
também Jorge Luis Borges escreveu esta coisa um nadinha espantosa
a lua da qual tinha caído um leão” nunca se pode saber
maçãs caem Newton cai na armadilha
quedas não faltam umas por causa das outras
os impérios caem etc. o assunto do bailarino cai
mas sempre em cima da cabeça e estamos para ver
Cristo a andar sobre as águas é ainda o caso do bailarino
“o estilo”
claro que “isto” apavora
a dança faz parte do medo se assim me posso exprimir
no sítio uma coisa muito forte
na cabeça no coração nos intestinos no nosso próprio pé
pode imaginar-se a ventania quer dizer
"o que acontece ao ar” é a dança
pois vejam o que está a fazer o bailarino que desata por aí fora
(por “aí dentro” seria melhor) ele varre o espaço
se me permitem varre-o com muita evidência
somos obrigados a “ver isso”
que faz o pé forte no sítio forte o pé leve no sítio leve
o sítio rítmico no pé rítmico?
e digo assim porque se trata do princípio “de cima para baixo
de baixo para cima”
que faz? que fazem? oh apenas um pouco de geometria
em termos de tempo um pouco de velocidade
dm termos de espaço dentro de tempo
"vamos lá encher o tempo com rapidez de espaço”
pensam os pés dele quando o ar está pronto
o “problema” do bailarino é coisa que não interessa por aí além
mas são chegados os tempos da agonia
estamos “exaltados” com este pensamento de morte
é preciso pensar no “ritmo” é uma das nossas congeminações exaltadas
na realidade algo se transformou desde que ele começou a dançar
sem qualquer auxílio excepto
não haver ainda nomes para “isso” e haver os ingredientes
do espectáculo i. e. a qualidade “forte” do sítio
esperem pela abertura de negociações entre “não” e “sim”
hão-de ver como coisas dessas se passam
não vai ser fácil os recursos de designação as acomodações várias
já se não encontram às ordens de vossências
comecem a aperceber-se da “energia” como “instrumento”
de criar “situações cheias de novidade”
vai haver muito nevoeiro nessas cabeças
e ainda ‘o coração caiu-lhe aos pés” o banal
a contas com o inesperado talvez então se tenha a ideia de murmurar
os pés subiram-lhe ao coração”
pois vão dizendo que exagero logo se verá
também Jorge Luis Borges escreveu esta coisa um nadinha espantosa
a lua da qual tinha caído um leão” nunca se pode saber
maçãs caem Newton cai na armadilha
quedas não faltam umas por causa das outras
os impérios caem etc. o assunto do bailarino cai
mas sempre em cima da cabeça e estamos para ver
Cristo a andar sobre as águas é ainda o caso do bailarino
“o estilo”
claro que “isto” apavora
a dança faz parte do medo se assim me posso exprimir
782
Herberto Helder
Texto 5
“Uma devassidão aracnídea” se se quiser
põe aqui uma descontente atenção e é quanto basta “aqui”
o único problema é encontrar essa se possível dizer
como que “clareira obscura” aqui onde existem “áscuas de ouro”
o silêncio ex.: “não se precisa sair do silêncio”
por favor eu quero dizer que “é preciso entrar nele”
no silêncio das clareiras obscuras das áscuas de ouro
ficar como um cavalo no campo
e não decerto por acaso falo de um cavalo no campo
uma coisa completamente viva e completamente distante
“que está”
notável que se estabeleça um cerco de cabeças com apenas
“um toque de lume” veja-se uma expressão
tudo a fazer força de dentro no escuro um só “lampejo”
tudo para fora uma víscera brilhando “para ver”
uma tensão
“como se comessem bananas”
os intestinos a arderem pelo poder dos alimentos
coisa sibilina essa afinal sempre a mesma
o toque áspero na raiz dos cabelos “eles eriçam-se”
o medo de saber alguma coisa quando se vê o campo
o cavalo tudo vivo e longínquo
“trouxeram fotografias onde estava o silêncio
ainda todo molhado e atravessaram-no
parando aqui escrutando”
o gosto era já algo tão puro como uma vocação
há “aí” uma bruta elegância uma coisa fugitivamente louca
“uma devassidão” que é como uma referência às “palavras”
mas tinham medo de dormir o sono traz
uma gentileza perigosa e também porque “no sono se revela o rosto"
bem sei forçoso é colocar os dedos lá no fundo
“queima” dizem e “pois é verdade que queima”
ora não havia de queimar “que pensam eles?”
é o silêncio
ainda têm uma certa leviandade porque examinam tudo
como se se destinasse a “uma paisagem interrompida pelo frio”
em termos despropositados “uma pontuação coerente”
precisava-se de “um pintor de cavalos”
um homem que abandonasse a família apenas
para ser um obscuríssimo “pintor de cavalos”
uma criatura viva de dedos vivos longínqua de coração longínquo
nada menos que um selvagem que viu “monstros dourados”
e a si mesmo dissesse “entrega-te ao que melhor te pode esquecer”
ou “dez dedos ainda assim é extenso para quem tem uma vida”
animais blocos de ouro uma energia inexplicável
toda a luz sugeria nele uma pulsação nocturna
uma leveza indomável uma leveza
ele entrava na posse de uma “visão” uma herança de ritmos
então poderia destruir tudo numa “devassidão aracnídea”
o perto e o longe “o cavalo no campo” ele “o bárbaro”
apenas um pintor de cavalos “o impossível”
põe aqui uma descontente atenção e é quanto basta “aqui”
o único problema é encontrar essa se possível dizer
como que “clareira obscura” aqui onde existem “áscuas de ouro”
o silêncio ex.: “não se precisa sair do silêncio”
por favor eu quero dizer que “é preciso entrar nele”
no silêncio das clareiras obscuras das áscuas de ouro
ficar como um cavalo no campo
e não decerto por acaso falo de um cavalo no campo
uma coisa completamente viva e completamente distante
“que está”
notável que se estabeleça um cerco de cabeças com apenas
“um toque de lume” veja-se uma expressão
tudo a fazer força de dentro no escuro um só “lampejo”
tudo para fora uma víscera brilhando “para ver”
uma tensão
“como se comessem bananas”
os intestinos a arderem pelo poder dos alimentos
coisa sibilina essa afinal sempre a mesma
o toque áspero na raiz dos cabelos “eles eriçam-se”
o medo de saber alguma coisa quando se vê o campo
o cavalo tudo vivo e longínquo
“trouxeram fotografias onde estava o silêncio
ainda todo molhado e atravessaram-no
parando aqui escrutando”
o gosto era já algo tão puro como uma vocação
há “aí” uma bruta elegância uma coisa fugitivamente louca
“uma devassidão” que é como uma referência às “palavras”
mas tinham medo de dormir o sono traz
uma gentileza perigosa e também porque “no sono se revela o rosto"
bem sei forçoso é colocar os dedos lá no fundo
“queima” dizem e “pois é verdade que queima”
ora não havia de queimar “que pensam eles?”
é o silêncio
ainda têm uma certa leviandade porque examinam tudo
como se se destinasse a “uma paisagem interrompida pelo frio”
em termos despropositados “uma pontuação coerente”
precisava-se de “um pintor de cavalos”
um homem que abandonasse a família apenas
para ser um obscuríssimo “pintor de cavalos”
uma criatura viva de dedos vivos longínqua de coração longínquo
nada menos que um selvagem que viu “monstros dourados”
e a si mesmo dissesse “entrega-te ao que melhor te pode esquecer”
ou “dez dedos ainda assim é extenso para quem tem uma vida”
animais blocos de ouro uma energia inexplicável
toda a luz sugeria nele uma pulsação nocturna
uma leveza indomável uma leveza
ele entrava na posse de uma “visão” uma herança de ritmos
então poderia destruir tudo numa “devassidão aracnídea”
o perto e o longe “o cavalo no campo” ele “o bárbaro”
apenas um pintor de cavalos “o impossível”
548
Nuno Júdice
A bela irlandesa
A construção da beleza não é difícil,
quando o objecto se apresenta aos olhos de quem
o vê com a exactidão dos seus traços,
as linhas certas da memória, e um desfiar
de impressões por cada poro da sua pele. Por
exemplo, os dedos em que os cabelos
passam numa displicência de gesto,
enquanto a outra mão segura o cabo do espelho,
trazem consigo o oceano em que os sentidos
se perderam, numa procura de enseadas
e corais; e, noutro exemplo,
o olhar que segue a direcção da imagem, e
nos arrasta com a indicação segura
de que o caminho é este, sem desvios
nem demoras.
O que me distrai deste sonho, porém,
é a exigência do próprio poema. Vou somando
as palavras às palavras, como se através
do verso que elas formam o corpo da beleza
me surgisse, à transparência da música,
saído do espelho em que o rosto
se contempla. E este exercício ocupa-me,
enquanto ouço o tempo passar, trazendo
até mim o tempo deste instante, preso
aos dedos que agora separo, um a um,
para ver o que escondem.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 103 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
quando o objecto se apresenta aos olhos de quem
o vê com a exactidão dos seus traços,
as linhas certas da memória, e um desfiar
de impressões por cada poro da sua pele. Por
exemplo, os dedos em que os cabelos
passam numa displicência de gesto,
enquanto a outra mão segura o cabo do espelho,
trazem consigo o oceano em que os sentidos
se perderam, numa procura de enseadas
e corais; e, noutro exemplo,
o olhar que segue a direcção da imagem, e
nos arrasta com a indicação segura
de que o caminho é este, sem desvios
nem demoras.
O que me distrai deste sonho, porém,
é a exigência do próprio poema. Vou somando
as palavras às palavras, como se através
do verso que elas formam o corpo da beleza
me surgisse, à transparência da música,
saído do espelho em que o rosto
se contempla. E este exercício ocupa-me,
enquanto ouço o tempo passar, trazendo
até mim o tempo deste instante, preso
aos dedos que agora separo, um a um,
para ver o que escondem.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 103 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
997
Eolo Yberê Líbera
Barroco de Minas
O espírito de Bach sobre Ouro Preto
Vivaldi pairando sobre o portal do Carmo
(os três anjos do Aleijadinho saem correndo
chamando o mestre)
Vivaldi pairando sobre o portal do Carmo
(os três anjos do Aleijadinho saem correndo
chamando o mestre)
937
Herberto Helder
Texto 9
Porque também “isso” acontece dizer-se que se lavra
a cantaria ou o ar ou mesmo
“espaços de luminosidade” a negra dança lavra-se
sobre
a ficção unitária do mundo é um modo demorado
de ver “uma porta que se abre” afinal subitamente
de uma certa ordem para uma ordem certa
pela “revelação” fulgura aqui a sabedoria do “tacto”
dedos a ler por linhas quentes
e pensa-se que se há-de encontrar “um nó”
o fulcro dessa palpitação a correria dos “sinais”
para uma “pauta” através de “temperaturas”
surgem ideias como “atmosferas” ou “climas”
regista-se entretanto que é uma “transformação do ritmo”
“rosto”
alguma coisa que procura equilibrar-se acima das águas
que requer “a sua zona” além das neblinas e vapores
uma “escrita” com a glória própria cometida contra
ameaças climáticas distorções de leitura ligas suspeitas
de matéria “levezas e pesos” precipitados irreferenciáveis volúveis
quem é? que é? que limite estabelece ao concreto?
que desencadeamento solicita ao meio das forças?
o rosto dirigido não já para o seu próprio “reflexo
irradiante” mas a “absorção” do poder difundido
para um novo impulso centrífugo
“diálogo daqui para lá” cerrada conversa
entre forma e formas troca sem fendas comunicação
ininterrupta
o eco da pancada é a outra pancada e uma pancada única
sustém a tensão do som uma “permanência”
dos sentidos voltados “entre si” para o que são
em si mesmos “sentidos de algo irrefutável”
a forma enfim criada pelo “gosto de ser” e para
o “gosto de que seja”
que a vergastem luzes e serão as “suas” luzes
gravita dentro e fora do que é o seu
“movimento interior” e “exterior movimento” ao longo
da “resposta” quando tudo pergunta “onde?”
decerto se tece o que sobre ela fervilha
de “temporal”
fios partidos ondas quebradas a chama que se desliga
da obra quando a mão se levanta da prata
mas ficará “gravação” do tumulto na geometria ou severo
“número” em tudo o que atravessa a desordem
das coisas geralmente “todas elas”
a cantaria ou o ar ou mesmo
“espaços de luminosidade” a negra dança lavra-se
sobre
a ficção unitária do mundo é um modo demorado
de ver “uma porta que se abre” afinal subitamente
de uma certa ordem para uma ordem certa
pela “revelação” fulgura aqui a sabedoria do “tacto”
dedos a ler por linhas quentes
e pensa-se que se há-de encontrar “um nó”
o fulcro dessa palpitação a correria dos “sinais”
para uma “pauta” através de “temperaturas”
surgem ideias como “atmosferas” ou “climas”
regista-se entretanto que é uma “transformação do ritmo”
“rosto”
alguma coisa que procura equilibrar-se acima das águas
que requer “a sua zona” além das neblinas e vapores
uma “escrita” com a glória própria cometida contra
ameaças climáticas distorções de leitura ligas suspeitas
de matéria “levezas e pesos” precipitados irreferenciáveis volúveis
quem é? que é? que limite estabelece ao concreto?
que desencadeamento solicita ao meio das forças?
o rosto dirigido não já para o seu próprio “reflexo
irradiante” mas a “absorção” do poder difundido
para um novo impulso centrífugo
“diálogo daqui para lá” cerrada conversa
entre forma e formas troca sem fendas comunicação
ininterrupta
o eco da pancada é a outra pancada e uma pancada única
sustém a tensão do som uma “permanência”
dos sentidos voltados “entre si” para o que são
em si mesmos “sentidos de algo irrefutável”
a forma enfim criada pelo “gosto de ser” e para
o “gosto de que seja”
que a vergastem luzes e serão as “suas” luzes
gravita dentro e fora do que é o seu
“movimento interior” e “exterior movimento” ao longo
da “resposta” quando tudo pergunta “onde?”
decerto se tece o que sobre ela fervilha
de “temporal”
fios partidos ondas quebradas a chama que se desliga
da obra quando a mão se levanta da prata
mas ficará “gravação” do tumulto na geometria ou severo
“número” em tudo o que atravessa a desordem
das coisas geralmente “todas elas”
555
Charles Bukowski
Risada Literária
escute, cara, não fale sobre os poemas que você
mandou, a gente não recebeu nada,
somos muito cuidadosos com manuscritos
nós os assamos
queimamos
rimos deles
vomitamos neles
derrubamos cerveja sobre eles
mas geralmente os
devolvemos
eles são
tão
inanes.
ah, nós acreditamos na Arte,
precisamos dela
com certeza,
mas, você sabe, há muita gente
(a maioria das pessoas)
brincando e fornicando com as
Artes
que apenas superlotam o palco
com sua generosa e implacável
e vigorosa
mediocridade.
nossa assinatura é de $4 ao ano.
por favor, leia nossa revista antes de enviar qualquer
material.
mandou, a gente não recebeu nada,
somos muito cuidadosos com manuscritos
nós os assamos
queimamos
rimos deles
vomitamos neles
derrubamos cerveja sobre eles
mas geralmente os
devolvemos
eles são
tão
inanes.
ah, nós acreditamos na Arte,
precisamos dela
com certeza,
mas, você sabe, há muita gente
(a maioria das pessoas)
brincando e fornicando com as
Artes
que apenas superlotam o palco
com sua generosa e implacável
e vigorosa
mediocridade.
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1 048
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Templo de Athena Aphaia
O templo de Athena Aphaia é claro doirado e terrestre:
Espiga de trigo
Erguida para o céu nos píncaros de Egina
O templo de Athena Aphaia é claro doirado e terrestre:
Raparigas
Erguidas como espigas nos píncaros de Egina
O templo de Athena Aphaia em sua áspera doçura cereal
É claro doirado e terrestre como raparigas de trigo
Que os deuses transformaram em colunas
Junto do mar nos píncaros de Egina
Egina, Julho de 1970
Espiga de trigo
Erguida para o céu nos píncaros de Egina
O templo de Athena Aphaia é claro doirado e terrestre:
Raparigas
Erguidas como espigas nos píncaros de Egina
O templo de Athena Aphaia em sua áspera doçura cereal
É claro doirado e terrestre como raparigas de trigo
Que os deuses transformaram em colunas
Junto do mar nos píncaros de Egina
Egina, Julho de 1970
1 163
Charles Bukowski
Nós, Os Artistas –
em São Francisco a senhoria, 80, me ajudou a arrastar a Vitrola
verde escada acima e eu toquei a 5ª do Beethoven
até que batessem nas paredes.
havia um balde enorme no meio do quarto
cheio de garrafas de cerveja e de vinho;
então, pode ter sido o delirium tremens, certa tarde
ouvi o som de algo como um sino
só que o sino estava zunindo ao invés de bater,
e logo uma luz dourada apareceu no canto do quarto
bem perto do teto
e através do som e da luz
brilhou a face de uma mulher, envelhecida mas bonita,
e ela me olhou voltando os olhos para baixo
e então uma face masculina apareceu ao seu lado,
a luz se tornou mais forte e o homem disse:
nós, os artistas, estamos orgulhosos de você!
então a mulher disse: o pobrezinho está assustado,
e eu estava, e então eles desapareceram.
levantei, me vesti, e fui até o bar
me perguntando quem eram os artistas e por que razão estariam
orgulhosos de mim. havia umas vivas almas no bar
e consegui algumas bebidas de graça, coloquei fogo nas calças graças
às brasas do meu cachimbo de sabugo, quebrei um copo deliberadamente,
não me sentia incomodado, conheci um homem que dizia ser William
Saroyan, e bebemos até que uma mulher entrou e
puxou-o para fora pela orelha e pensei, não, esse não pode ser o
William, e um outro cara apareceu e disse: velho, você fala
grosso, bem, escute, há pouco saí por assalto e
agressão, então não se meta comigo! fomos para fora do
bar, ele era um bom garoto, sabia como usar os punhos, e aquilo seguiu
bastante parelho, até que eles nos separaram e voltamos
a entrar e bebemos por mais um par de horas. voltei
para o meu quarto, coloquei a 5a de Beethoven e
quando bateram nas paredes eu bati de
volta.
continuo pensando em mim mesmo jovem, lá, o jeito que eu era,
e mal posso acreditar nisso mas não importa.
espero que os artistas sigam orgulhosos de mim
mas eles nunca mais
retornaram.
a guerra atropelou tudo e quando me dei conta
estava em Nova Orleans
caminhando bêbado até um bar
depois de cair no meio da lama numa noite chuvosa.
vi um homem esfaquear outro e fui até uma juke box
colocar uma moeda.
aquilo era um começo. São
Francisco e Nova Orleans eram duas das minhas
cidades favoritas.
verde escada acima e eu toquei a 5ª do Beethoven
até que batessem nas paredes.
havia um balde enorme no meio do quarto
cheio de garrafas de cerveja e de vinho;
então, pode ter sido o delirium tremens, certa tarde
ouvi o som de algo como um sino
só que o sino estava zunindo ao invés de bater,
e logo uma luz dourada apareceu no canto do quarto
bem perto do teto
e através do som e da luz
brilhou a face de uma mulher, envelhecida mas bonita,
e ela me olhou voltando os olhos para baixo
e então uma face masculina apareceu ao seu lado,
a luz se tornou mais forte e o homem disse:
nós, os artistas, estamos orgulhosos de você!
então a mulher disse: o pobrezinho está assustado,
e eu estava, e então eles desapareceram.
levantei, me vesti, e fui até o bar
me perguntando quem eram os artistas e por que razão estariam
orgulhosos de mim. havia umas vivas almas no bar
e consegui algumas bebidas de graça, coloquei fogo nas calças graças
às brasas do meu cachimbo de sabugo, quebrei um copo deliberadamente,
não me sentia incomodado, conheci um homem que dizia ser William
Saroyan, e bebemos até que uma mulher entrou e
puxou-o para fora pela orelha e pensei, não, esse não pode ser o
William, e um outro cara apareceu e disse: velho, você fala
grosso, bem, escute, há pouco saí por assalto e
agressão, então não se meta comigo! fomos para fora do
bar, ele era um bom garoto, sabia como usar os punhos, e aquilo seguiu
bastante parelho, até que eles nos separaram e voltamos
a entrar e bebemos por mais um par de horas. voltei
para o meu quarto, coloquei a 5a de Beethoven e
quando bateram nas paredes eu bati de
volta.
continuo pensando em mim mesmo jovem, lá, o jeito que eu era,
e mal posso acreditar nisso mas não importa.
espero que os artistas sigam orgulhosos de mim
mas eles nunca mais
retornaram.
a guerra atropelou tudo e quando me dei conta
estava em Nova Orleans
caminhando bêbado até um bar
depois de cair no meio da lama numa noite chuvosa.
vi um homem esfaquear outro e fui até uma juke box
colocar uma moeda.
aquilo era um começo. São
Francisco e Nova Orleans eram duas das minhas
cidades favoritas.
1 153
Charles Bukowski
Problema Com Espanha
entrei no chuveiro
e queimei meus bagos
na última quarta-feira.
conheci este pintor chamado Espanha,
não, ele era um cartunista,
bem, conheci-o numa festa
e todos ficaram putos comigo
por eu não saber quem ele era
ou o que ele fazia.
ele era um cara bem bonito
e suponho que ele tenha ficado com ciúmes
por eu ser tão feio.
eles me disseram seu nome
e ele estava encostado contra a parede
parecendo bonito, e eu disse:
ei, Espanha, gosto desse nome: Espanha.
mas não gosto de você. por que não vamos
até o jardim para eu dar uma bica nesse seu
rabo?
isto deixou a anfitriã irritada
e ela foi em sua direção e lhe esfregou o pau
enquanto eu ia até o banheiro
e me aliviava.
mas todos estão brabos comigo
Bukowski, ele já não sabe escrever, está acabado.
vazio. vejam como ele bebe.
nunca teve o hábito de ir a festas.
agora vem às festas e bebe todas
e insulta aqueles que têm talento de verdade.
eu costumava ter admiração por ele quando cortou os pulsos
ou quando tentou se matar com
gás. olhem para ele agora secando aquela garota de 19
anos, e vocês sabem que ele
já não levanta.
eu não apenas queimei meus bagos naquele chuveiro
na última quarta-feira, eu me virei para escapar daquela água
fervente e queimei também o olho do
cu.
e queimei meus bagos
na última quarta-feira.
conheci este pintor chamado Espanha,
não, ele era um cartunista,
bem, conheci-o numa festa
e todos ficaram putos comigo
por eu não saber quem ele era
ou o que ele fazia.
ele era um cara bem bonito
e suponho que ele tenha ficado com ciúmes
por eu ser tão feio.
eles me disseram seu nome
e ele estava encostado contra a parede
parecendo bonito, e eu disse:
ei, Espanha, gosto desse nome: Espanha.
mas não gosto de você. por que não vamos
até o jardim para eu dar uma bica nesse seu
rabo?
isto deixou a anfitriã irritada
e ela foi em sua direção e lhe esfregou o pau
enquanto eu ia até o banheiro
e me aliviava.
mas todos estão brabos comigo
Bukowski, ele já não sabe escrever, está acabado.
vazio. vejam como ele bebe.
nunca teve o hábito de ir a festas.
agora vem às festas e bebe todas
e insulta aqueles que têm talento de verdade.
eu costumava ter admiração por ele quando cortou os pulsos
ou quando tentou se matar com
gás. olhem para ele agora secando aquela garota de 19
anos, e vocês sabem que ele
já não levanta.
eu não apenas queimei meus bagos naquele chuveiro
na última quarta-feira, eu me virei para escapar daquela água
fervente e queimei também o olho do
cu.
1 025
Herberto Helder
Teoria Sentada - Vi
É a colina na colina, colina
das colinas frias.
Colina devagar por ela acima, brotando
sobre a raiz da colina. Oh fria raiz deitada
na pedra sinistra fria da raiz
da colina. Na húmida
treva pedra vazia, na alegria
abstracta dos fogos, das águas oh sombrias.
Colina profunda, colina de
colina muda. Mexendo nos fogos,
nas águas extremas vazias, nas massas
nocturnas unas — respirando.
Batendo os leves pêlos nas gotas frias
das águas,
e as pesadas estrelas nas veias sombrias.
Colina acocorada na raiz ríspida
da colina, feroz por ela abaixo, ladeada
pelas paredes direitas da melancolia. É
a colina na colina. Depois para cima, colina
das colinas amargas estremes.
De alegria para cima, na audácia das brutas
assimetrias. Colina de pé
sobre as visões, as culpas,
os crimes — batendo os pés unidos na boca
aberta das mães sinistras e vazias. Colina
na colina nas colinas das ilusões
quentes, duras, puras, sombrias. Colina
em baixo e para cima.
É a colina em cima com árvores redondas,
vivas, rápidas e oh frias.
Arvorezinhas da colina, vazias.
##RETRATÍSSIMO OU NARRAÇÃO DE UM HOMEM DEPOIS DE MAIO
Retratoblíquo sentado.
Retratimensamente de/lado, no/acto
conceptual de/ver quantos vivos quantos
dando folhas sobre os mortos de topázio.
Mãosagora, veloz rosto, visão pura.
Esquerdo ao/lado, fogo
junto à cabeça. E mais fogo à/direita por/detrás
da mão estreita pegando no ar
como num livro. Julgo ser eu.
Eu às/portas do sono, e não
se sabe se venho do sono, oh nem se
me empolgo numa ilusão
sombria. Eu oh nem se
me entro para um sonho extenuante.
Sono empurrado de inspiração
terrena.
Retratobliquamente livre e martelado
em sua leveza.
Com algum espinho meio/visível perto
da cabeça. Como se a cabeça
fosse uma rosa venenosa, ou coisa
inclinada e dolorosa. Para ser defendida
ou ferida no/acto
da exaltação. Retrato frio. Num grau
de ausência, num degrau de alucinação.
Frio nas fronteiras do concreto, e ardente
perto perto.
Por/cima, nuvens de cinza revoltada.
Em/baixo, fruta aberta.
Fundos de paisagem veemente e incompleta.
Imaginativa, a roupa; e as pregas, precipitadas.
Que cheiraria a suor um/pouco,
e a tabaco. Por/cima
do colarinho vago o caloroso
sorriso de ironia é quasexacto. Boquimpura contínua — mente/regenerada
pelo amor e, pelo amor, tornada
soturna e abrupta.
Morte ao/meio como alta
alta desarmonia. Que os poderes oh confundia.
Ou talvez toda a força se movimente
para o centro do retrato.
E a morte se urda do próprio modo como
a carne alimenta o silêncio compacto
no/meio do retrato.
Talvez este ser se abisme em seu núcleo
central. E toda a figura se levante, na arquitectura
da cadeira, por virtude desse nó
ou núcleo trágico. Assim como uma pura
concepção em/torno de um delírio
vingativo e transacto.
Qualquer coisa no retrato ressalta
do espírito de um homem que foi assassinado.
Há um punhal implícito.
Sangue desdobrado.
A cadeira é alta e existe dentro do fogo.
O sexo suposto está masculino. O livro
entreposto à vida e à visão
é um livro feroz e ao mesmo tempo destruído
pela beleza.
Este homem não fala, porque se fez pedra extrema
fechada.
Sua idade ouve-se a si/mesma, infiltrada
até ao terror.
Não tem amor senão do amor.
E um homem devastado pelo pensamento da alegria.
Deus vive nele um tempo obscuro
de esquecimento. Este homem mora
nas coisas miúdas transpostas,
comparadas, alvitradas, justapostas.
Vive em/arco.
Pensa em/espírito de fogueira.
Tem toda a mão queimada até ao silêncio
atroz. Rodearam-lhe a voz.
Contudo, seu ser é destinado à alegria verdadeira.
Se adormecesse, deveria ser acordado.
Ou deveria recostar-se na cadeira, ca — ir
em sua/própria fantasia
calma. Não há nele vida celeste,
nem malícia de alma.
Há uma assimetria insondável, um destino ou
desatino casto e demorado.
Por isso é que está de/lado.
Existe, ao/centro, uma força assombrosa.
Nele tudo ousa.
Vai morrer imensamente (ass)assinado.
1961-62.
das colinas frias.
Colina devagar por ela acima, brotando
sobre a raiz da colina. Oh fria raiz deitada
na pedra sinistra fria da raiz
da colina. Na húmida
treva pedra vazia, na alegria
abstracta dos fogos, das águas oh sombrias.
Colina profunda, colina de
colina muda. Mexendo nos fogos,
nas águas extremas vazias, nas massas
nocturnas unas — respirando.
Batendo os leves pêlos nas gotas frias
das águas,
e as pesadas estrelas nas veias sombrias.
Colina acocorada na raiz ríspida
da colina, feroz por ela abaixo, ladeada
pelas paredes direitas da melancolia. É
a colina na colina. Depois para cima, colina
das colinas amargas estremes.
De alegria para cima, na audácia das brutas
assimetrias. Colina de pé
sobre as visões, as culpas,
os crimes — batendo os pés unidos na boca
aberta das mães sinistras e vazias. Colina
na colina nas colinas das ilusões
quentes, duras, puras, sombrias. Colina
em baixo e para cima.
É a colina em cima com árvores redondas,
vivas, rápidas e oh frias.
Arvorezinhas da colina, vazias.
##RETRATÍSSIMO OU NARRAÇÃO DE UM HOMEM DEPOIS DE MAIO
Retratoblíquo sentado.
Retratimensamente de/lado, no/acto
conceptual de/ver quantos vivos quantos
dando folhas sobre os mortos de topázio.
Mãosagora, veloz rosto, visão pura.
Esquerdo ao/lado, fogo
junto à cabeça. E mais fogo à/direita por/detrás
da mão estreita pegando no ar
como num livro. Julgo ser eu.
Eu às/portas do sono, e não
se sabe se venho do sono, oh nem se
me empolgo numa ilusão
sombria. Eu oh nem se
me entro para um sonho extenuante.
Sono empurrado de inspiração
terrena.
Retratobliquamente livre e martelado
em sua leveza.
Com algum espinho meio/visível perto
da cabeça. Como se a cabeça
fosse uma rosa venenosa, ou coisa
inclinada e dolorosa. Para ser defendida
ou ferida no/acto
da exaltação. Retrato frio. Num grau
de ausência, num degrau de alucinação.
Frio nas fronteiras do concreto, e ardente
perto perto.
Por/cima, nuvens de cinza revoltada.
Em/baixo, fruta aberta.
Fundos de paisagem veemente e incompleta.
Imaginativa, a roupa; e as pregas, precipitadas.
Que cheiraria a suor um/pouco,
e a tabaco. Por/cima
do colarinho vago o caloroso
sorriso de ironia é quasexacto. Boquimpura contínua — mente/regenerada
pelo amor e, pelo amor, tornada
soturna e abrupta.
Morte ao/meio como alta
alta desarmonia. Que os poderes oh confundia.
Ou talvez toda a força se movimente
para o centro do retrato.
E a morte se urda do próprio modo como
a carne alimenta o silêncio compacto
no/meio do retrato.
Talvez este ser se abisme em seu núcleo
central. E toda a figura se levante, na arquitectura
da cadeira, por virtude desse nó
ou núcleo trágico. Assim como uma pura
concepção em/torno de um delírio
vingativo e transacto.
Qualquer coisa no retrato ressalta
do espírito de um homem que foi assassinado.
Há um punhal implícito.
Sangue desdobrado.
A cadeira é alta e existe dentro do fogo.
O sexo suposto está masculino. O livro
entreposto à vida e à visão
é um livro feroz e ao mesmo tempo destruído
pela beleza.
Este homem não fala, porque se fez pedra extrema
fechada.
Sua idade ouve-se a si/mesma, infiltrada
até ao terror.
Não tem amor senão do amor.
E um homem devastado pelo pensamento da alegria.
Deus vive nele um tempo obscuro
de esquecimento. Este homem mora
nas coisas miúdas transpostas,
comparadas, alvitradas, justapostas.
Vive em/arco.
Pensa em/espírito de fogueira.
Tem toda a mão queimada até ao silêncio
atroz. Rodearam-lhe a voz.
Contudo, seu ser é destinado à alegria verdadeira.
Se adormecesse, deveria ser acordado.
Ou deveria recostar-se na cadeira, ca — ir
em sua/própria fantasia
calma. Não há nele vida celeste,
nem malícia de alma.
Há uma assimetria insondável, um destino ou
desatino casto e demorado.
Por isso é que está de/lado.
Existe, ao/centro, uma força assombrosa.
Nele tudo ousa.
Vai morrer imensamente (ass)assinado.
1961-62.
1 082
Sophia de Mello Breyner Andresen
Vila Adriana
A ânfora cria à sua roda um espaço de silêncio
Como aquela
Tarde de outono sob os pinheiros da Vila Adriana
Tempo da fina areia agudamente medido
Os séculos derrubaram estátuas e paredes
Eu destruída serei por breves anos
Mas de repente recupero a antiga
Divindade do ar entre as colunas
Como aquela
Tarde de outono sob os pinheiros da Vila Adriana
Tempo da fina areia agudamente medido
Os séculos derrubaram estátuas e paredes
Eu destruída serei por breves anos
Mas de repente recupero a antiga
Divindade do ar entre as colunas
1 360
Charles Bukowski
Vozes
1.
meu bigode está engomado
assim como minha peruca e minhas sobrancelhas
e até mesmo meus olhos...
então alguma coisa me atordoa...
o balanço da pantalha, escuto
borbulhos e mágica e
sons incríveis.
2.
sei que enlouqueci, quase como
um ato de teoria:
o perdido é encontrado
o doente se põe saudável
os não-criadores são os
criadores.
3.
mesmo que eu fosse um ser sofisticado, confortável
e domesticado jamais poderia beber o
sangue das massas e
chamá-lo de vinho.
4.
por que eu tinha que erguer o carro daquela
bela garota pelo para-choque porque o macaco emperrou?
fiquei entrevado
e eles me levaram como se eu fosse um pretzel e me ajeitaram
mas ainda assim não conseguia me mexer...
a culpa era do hospital, dos médicos.
então aqueles dois rapazes me largaram a caminho da
sala de raio X... eu gritei PROCESSO!
mas acho que a culpa era daquela garota –
ela não devia ter me mostrado toda aquela perna
e aquela bunda.
5.
escute, escute, BARROESPACIAL DO AMOR, DESPEDACE PINGUE,
BARROESPACIAL DO AMOR, AMOR, AMOR; MATE APRENDA A USAR UMA
ARMA; ÁREAS ABERTAS, PERCEBA, SEJA DIVINA, BARROESPACIAL
DO AMOR, ESTÁ SE aproximando...
6.
decolei de E.H. no meu primeiro romance,
tenho vivido numa boa desde então. é provável
que seja o melhor jornalista que a América já teve, posso
enrolar sobre qualquer assunto, e isso tem lá
seu valor. você me admira muito mais do que
o primeiro homem que encontra na rua
pela manhã. basicamente, no entanto, é um
fato, vivi durante uma era em que não há
escritores, então ganhei destaque
porque nada mais apareceu. ok,
é uma época ruim. suponho que eu seja o número
um. mas é um pouco diferente do tempo em que tínhamos
os gigantes a nos estimular. esqueça:
estou numa boa.
7.
eu era um mau escritor, matei N.C. porque fiz
dele mais do que ele era, e então os descolados
fizeram dos meus livros mais do que eles eram. havia
até então apenas 3 maus escritores na literatura americana
aceitável. Drieser, claro, foi o pior.
então tivemos Thomas Wolfe, e depois tivemos a mim. mas
quando tento escolher entre mim e Wolfe, tenho
que escolher Wolfe. digo, como o pior. gosto
de pensar no que Capote, outro mau escritor, disse
sobre mim: ele apenas datilografa. às vezes mesmo
maus escritores dizem a verdade.
8.
meu problema, como o da maioria, é o preciosismo artístico. eu
existo, cheio de batatas fritas e glória
e então eu olho em volta, vejo a forma da Arte, mergulho
nela e digo o quão excelente eu sou e o que penso.
este é o mesmo aborrecimento que quase des-
truiu a arte ao longo dos séculos. fiz uma vez uma gravação
de minha leitura dos meus poemas para um leão no zoológico. ele realmente
rugiu, como se estivesse sentindo dor. todos os poetas tocam
essa gravação e riem quando ficam bêbados.
9.
lembra-se do meu romance sobre a cadeia em que
fotos de heróis e de amantes flutuavam contra as
paredes de pedra?
eu me tornei famoso. cheguei até aqui.
me aborreço com os motociclistas negros do Valley
West e Bakersfield
que me tomaram a fama e a esmagaram
e me fizeram sorver sua demência e sua solidão
e seus sonhos de Cadillac alma branca e
Cadillac alma negra
e eles encheram meu rabo de creme
e minhas narinas e meus ouvidos
enquanto eu dizia, Comunismo, Comunismo
e eles escarneciam e sabiam que eu não falava a sério.
meu bigode está engomado
assim como minha peruca e minhas sobrancelhas
e até mesmo meus olhos...
então alguma coisa me atordoa...
o balanço da pantalha, escuto
borbulhos e mágica e
sons incríveis.
2.
sei que enlouqueci, quase como
um ato de teoria:
o perdido é encontrado
o doente se põe saudável
os não-criadores são os
criadores.
3.
mesmo que eu fosse um ser sofisticado, confortável
e domesticado jamais poderia beber o
sangue das massas e
chamá-lo de vinho.
4.
por que eu tinha que erguer o carro daquela
bela garota pelo para-choque porque o macaco emperrou?
fiquei entrevado
e eles me levaram como se eu fosse um pretzel e me ajeitaram
mas ainda assim não conseguia me mexer...
a culpa era do hospital, dos médicos.
então aqueles dois rapazes me largaram a caminho da
sala de raio X... eu gritei PROCESSO!
mas acho que a culpa era daquela garota –
ela não devia ter me mostrado toda aquela perna
e aquela bunda.
5.
escute, escute, BARROESPACIAL DO AMOR, DESPEDACE PINGUE,
BARROESPACIAL DO AMOR, AMOR, AMOR; MATE APRENDA A USAR UMA
ARMA; ÁREAS ABERTAS, PERCEBA, SEJA DIVINA, BARROESPACIAL
DO AMOR, ESTÁ SE aproximando...
6.
decolei de E.H. no meu primeiro romance,
tenho vivido numa boa desde então. é provável
que seja o melhor jornalista que a América já teve, posso
enrolar sobre qualquer assunto, e isso tem lá
seu valor. você me admira muito mais do que
o primeiro homem que encontra na rua
pela manhã. basicamente, no entanto, é um
fato, vivi durante uma era em que não há
escritores, então ganhei destaque
porque nada mais apareceu. ok,
é uma época ruim. suponho que eu seja o número
um. mas é um pouco diferente do tempo em que tínhamos
os gigantes a nos estimular. esqueça:
estou numa boa.
7.
eu era um mau escritor, matei N.C. porque fiz
dele mais do que ele era, e então os descolados
fizeram dos meus livros mais do que eles eram. havia
até então apenas 3 maus escritores na literatura americana
aceitável. Drieser, claro, foi o pior.
então tivemos Thomas Wolfe, e depois tivemos a mim. mas
quando tento escolher entre mim e Wolfe, tenho
que escolher Wolfe. digo, como o pior. gosto
de pensar no que Capote, outro mau escritor, disse
sobre mim: ele apenas datilografa. às vezes mesmo
maus escritores dizem a verdade.
8.
meu problema, como o da maioria, é o preciosismo artístico. eu
existo, cheio de batatas fritas e glória
e então eu olho em volta, vejo a forma da Arte, mergulho
nela e digo o quão excelente eu sou e o que penso.
este é o mesmo aborrecimento que quase des-
truiu a arte ao longo dos séculos. fiz uma vez uma gravação
de minha leitura dos meus poemas para um leão no zoológico. ele realmente
rugiu, como se estivesse sentindo dor. todos os poetas tocam
essa gravação e riem quando ficam bêbados.
9.
lembra-se do meu romance sobre a cadeia em que
fotos de heróis e de amantes flutuavam contra as
paredes de pedra?
eu me tornei famoso. cheguei até aqui.
me aborreço com os motociclistas negros do Valley
West e Bakersfield
que me tomaram a fama e a esmagaram
e me fizeram sorver sua demência e sua solidão
e seus sonhos de Cadillac alma branca e
Cadillac alma negra
e eles encheram meu rabo de creme
e minhas narinas e meus ouvidos
enquanto eu dizia, Comunismo, Comunismo
e eles escarneciam e sabiam que eu não falava a sério.
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